Palavras Domesticadas

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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Shows de Santana no Brasil - 1973

"De repente, a escuridão é total. Aos poucos vão aparecendo luzes supercoloridas e brilhantes. Há um doce cheiro de incenso no ar. Santana está no centro do palco, em postura de meditação: 'Nós devemos repartir tudo aquilo que Deus nos dá. Por isso vamos fazer um minuto de silêncio para meditarmos e para que tenhamos luz em nossas mentes. Depois tocaremos quanto vocês quiserem.'"
Assim começa uma matéria que saiu na revista Pop, em sua edição de janeiro de 1974, descrevendo um dos shows que o guitarrista Carlos Santana e sua banda fizeram por várias capitais do Brasil em 1973. Não era a primeira vez que o guitarrista se apresentava no Brasil. Tenho notícias que ele havia se apresentado por aqui dois anos antes. Na ocasião, Santana já era um artista consagrado, com sete discos lançados e uma carreira vitoriosa. Sua vinda ao Brasil deve ter sido um grande acontecimento no meio musical, não só pelo grande artista que ele é, mas também porque na época não era muito comum artistas internacionais de seu porte tocarem por aqui. Abaixo, a matéria, escrita por Oscar Pitta:

"'Deus deu a você o dom da música, e você deve levar alegria a todos os seus irmãos. Esta é a sua missão.' Depois que ouviu e meditou sobre as palavras do seu guru, Sri Chinmoy, Santana mudou sua visão do mundo. E a mudança foi tão grande que acabou influindo na sua própria música. Por isso, o Santana que todo mundo esperava ver nas apresentações que fez em São Paulo, Rio, Brasília e Porto Alegre, não existia mais. Em seu lugar surgia um novo músico, muito mais consciente de sua responsabilidade como artista: 'Quando estou tocando só quero ver Deus. O estado mais alto que eu posso alcançar é quando estou junto com meu mestre, e não sinto meu corpo físico. Sinto-me como uma vela acesa e só tenho um propósito: iluminar meu cérebro e a mente de todos os meus irmãos'.

Inicialmente a turma estranhou o novo som de Santana, bem diferente do rock latino que o consagrou no mundo todo. Apertando a guitarra contra o peito, com os olhos fechados como se estivesse conversando com Deus, ele ia tirando sons incríveis do seu intrumento, criando uma atmosfera toda mística.
No centro do palco, junto a Santana, um porta-retrato mostrava as imagens de Jesus Cristo e do seu guru e líder espiritual, Sri Chinmoy. Na plateia, milhares de pessoas curtiam, como que hipnotizadas, o som sideral do grupo formado por Carlos Santana (guitarra e pandeiro), Mike Shrieve (bateria), José 'Chepito' Areas (tumbadora), Doug Rauch (baixo), Richard Kermode (piano), Tom Coster (piano e órgão) e Leon Thomas (vocal e percussão). De repente, a banda começou a tocar  Aquarela do Brasil, e foi aquela loucura. Todo mundo esquentou e passou a pedir rock. Aí, Santana soltou Soul Sacrifice (um dos pontos altos do Festival de Woodstock), e o delírio total tomou conta do público. O som inicialmente místico e contemplativo havia sido substituído pela batida quente e frenética do rock latino, todo mundo dançava e muitos tiravam as camisas para amenizar o calor. Os solos de guitarra de Santana flutuavam no ar docemente perfumado pelo incenso, 'Chepito' voava entre as tumbadoras como um louco, e Sherieve dava um show na bateria.

A plateia de um dos shows de Santana no Brasil em 1973
O grupo mostrou as músicas do novo compacto, Bienvenido (Light of Live, Yours in the Night, Samba de Sausalito e When I Look into Your Eyes), mas foi com Oyé Como Vah? que o espetáculo atingiu seu clímax. Em meio a toda loucura, Santana deixou o palco, mas a gritaria foi tanta que ele teve que voltar e cumprir a promessa feita no início do show. E a zoeira continuou, deixando a turma cada vez mais ouriçada. Mas o show chegava ao seu final, depois de quase três horas de música e alegria, e Carlos Humberto Santana Bustamante, filho de mexicanos, criado em San Francisco, Estados Unidos, se retirava do palco, desta vez definitivamente, com a consciência de ter cumprido sua missão: 'Quando estou tocando, sei que as células de meus irmãos sentem os sons que saem de minhas mãos. Porque eu não sou eu, sou a própria música. E isto é oque eu quero mais do que tudo'."

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