Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Erasmo Carlos - Revista Pop (1975)

Erasmo Carlos foi um dos primeiros ídolos que tive na música. Quando ainda era criança, a Jovem Guarda me arrebatou, e Erasmo era um dos meus cantores preferidos, ao lado do seu parceiro Roberto Carlos. Mais tarde, já adolescente, continuei acompanhado a carreira de Erasmo, que nos meados dos anos 70 fazia o que havia de melhor no rock brasileiro daquele período.  Por isso, ao fazer a  milésima postagem desse blog, eu escolhi uma matéria com Erasmo Carlos. A postagem de número mil teria de ser com alguém muito especial pra mim, por isso escolhi essa ótima matéria, publicada em maio de 1975 na revista Pop, e assinada por Eduardo Athayde: 
"Um escravo do rock'n roll. É assim que Erasmo Carlos costuma definir sua posição musical. Não nega que tenha recebido diversas outras influências - o jeito de cantar de João Gilberto, para falar de uma. Mas a música que mexe com seu sangue, que o faz ficar todo arrepiado e que ele gosta mesmo de cantar - esta música é sem dúvida o rock'n roll.
Por isso, no ano passado, depois de superar uma crise de timidez, medo, desorientação e algumas doses de uísque a mais, Erasmo lançou um LP sustentado basicamente por rock: 1990 Projeto Salva Terra. O disco, além de de colocar uma faixa nas paradas de sucesso (Sou uma Criança Não Entendo Nada), revelou um Erasmo cheio de garra e energia, buscando forças inovadoras no rock brabo dos anos 50. Em questão de de algumas semanas, o amigo 'Tremendão' dos tempos da Jovem Guarda, que há dez anos atrás não podia sair na rua por causa do assédio das fãs, estava brilhando outra vez - agora como um dos maiores troncos da nascente 'floresta brasileira de rock', como ele mesmo gosta de falar.
Ele já tem 33 anos, muitos fios de cabelo branco, três filhos e uma mulher, Narinha, que é uma verdadeira fonte de energia para o seu trabalho. E, mesmo dizendo que é 'uma criança que não entende nada', revela grande lucidez, quando fala do rock e seu envolvimento com a juventude: 'Anos atrás, a maior dificuldade do rock era o descrédito: as pessoas não sacavam sua extraordinária importância como meio de expressão dos jovens e de afirmação de um comportamento social que busca cada vez mais a quebra de preconceitos. Ninguém admitia a possibilidade de existência do rock brasileiro, e a gente era chamado de alienado... Havia festinhas em apartamentos em Ipanema onde eu nem podia pensar em tocar violão - fatalmente seria linchado'.
Mas não era por isso que Erasmo iria deixar de ser um rockeiro. Quando a Jovem Guarda acabou e a  televisão já tinha desgastado completamente sua imagem, ele ficou um tempo parado. Então, em 68, apareceram os baianos e o tropicalismo, virando a mesa da música popular brasileira.
Ao mesmo tempo em que sua cuca ficou meio fundida com tudo o que estava acontecendo, Erasmo sentiu que só havia uma maneira de conseguir sobreviver como músico: seguir o caminho indicado pelo coração, isto é, o caminho do rock. Com a mulher Narinha conseguiu a estabilidade emocional, e com ela foi aos Estados Unidos sacar o que estava acontecendo por lá.
Quando voltou, estava mais seguro de seu trabalho: 'Ocorre que no meu trabalho sempre houve muita honestidade e sinceridade, e aos poucos fui firmando minha maneira de fazer música. O que pouca gente saca é que o rock não é só um som, e sim um todo refletindo os apelos existenciais da juventude, que encontrou eco para suas mais legítimas aspirações, tais como vestir-se descontraidamente, usar os cabelos como quiser, ser dona de si mesma.
Diferente do seu (ainda) parceiro Roberto Carlos, Erasmo permanece fiel às gerações mais novas. Hoje, seu público tem muitos daqueles caras que o aplaudiam no tempo da Jovem Guarda. Mas também tem muita gente da nova geração, com menos de 20 anos. Isso seria, segundo ele, resultado de uma identificação que vai além de simples padrões de comportamento: 'A vida de cada pessoa é um livro. Eu sempre fui bandido, jamais aceitei as coisas que tentaram estabelecer pra mim. Minha geração é do tempo do cuba-libre, festinha de formatura, namorinho e uma ou outra aventura na Barra da Tijuca. Não sou homem de dar conselhos, mas acho que fazer uso de tóxicos é malandragem de otário, embora cada um seja dono de si mesmo. E uma coisa é certa: o mundo é dos jovens, e eles já se aperceberam disso. A cada dia que passa há maior abertura e surgem novas chances para os jovens consertarem o que os mais velhos estragaram.'
E houve ainda outra mudança fundamental no rockeiro Erasmo Carlos: ele renunciou à imagem inatacável e sempre adorada de ídolo, que tinha no início da carreira. Preferiu descobrir o que sobrava dele mesmo depois da Jovem Guarda, assumir os grilos e aceitar, antes de tudo, que é um cara como qualquer outro: 'Antigamente as pessoas achavam que eu era um homem de acrílico, sem diarreia, vômitos, ressacas e muitos medos. Eu era pra eles um ser casto, puro, limpo e perfeito. Claro que eu não era nada disso, mas me acostumara à ideia de nadar a favor da corrente que me empurrava. À medida que os anos foram chegando, fui me convencendo de que não era nada daquilo que eu queria. E comecei a ficar enjoado. O sucesso não é uma boa, tira toda a tranquilidade da gente. O que realmente interessa é o prestígio do seu trabalho. Cara bonita e carrão são bobagens. Atualmente nem gosto de ser artista, quando estou fora do palco - sou um sujeito comum que ama sua família acima de tudo e que luta pelo reconhecimento de seu trabalho. Não posso dizer que repudio totalmente o comportamento das fãs daquele tempo, mas agora, quando saio na rua, as pessoas me reconhecem e me respeitam. Isso sim, é uma muito boa'.
E reconhecimento ao seu trabalho é o que não falta. Seu disco foi bem recebido por toda a crítica especializada e provocou uma enxurrada de convites para shows. Então, no começo deste ano, incentivado por Narinha, Erasmo deu um rolê na timidez e decidiu voltar a se apresentar aos palcos. Nada de televisão, como nos tempos da Jovem Guarda, 'porque não dá pé apresentar rock na televisão brasileira. Os técnicos não sabem gravar, você fica limitado a um espaço muito pequeno para se movimentar e o sonzinho nem dá para empolgar. É muito chato cantar pra uma máquina. Me amarro mesmo é em curtir um sonzão com a garotada vibrando, e isso só é possível em concertos, de preferência ao ar livre'.
Companhia Paulista de Rock
Assim, arrebanhou o baterista Dinho (ex-Mutantes), o baixista Sérgio Kaffa (ex-Scaladácida), o pianista Tuca (ex-Apokalypsis), o guitarrista Liminha (ex-Mutantes) e Ion Muniz, um cara que toca sax e flauta. Com esses cinco músicos fundou a Companhia Paulista de Rock, uma banda que prefere se divertir nas águas do rockão brabo a ficar se enrolando em fios e watts na procura do 'rock progressivo'. Com a banda, Erasmo fez ótimas temporadas no Rio e em São Paulo, participou de alguns festivais ao ar livre e quer correr o Brasil inteiro, este ano, levando para toda a moçada os recados e toques de um escravo do rock'n roll."
 



domingo, 11 de junho de 2017

Hermeto Pascoal - Revista Manchete (1982)

Hermeto Pascoal sempre foi reconhecido como um músico dos mais criativos do mundo. Sua forma de compor e executar suas músicas chamam a atenção pelo inusitado, e principalmente pelo belo resultado final. Falar de  Hermeto é falar de um  Brasil universal, que ganha fronteiras e conquista os ouvidos que buscam algo de novo, e encontram em sua música todo um universo musical que se abre e despeja sobre as pessoas uma música que não se prende somente a amplitude das sete notas musicais. Em 1982, a revista Manchete trazia uma matéria com esse grande músico, assinada pelo editor da revista, e crítico e pesquisador musical dos mais respeitados - Roberto Muggiati. A matéria se intitula "O homem que inventou a música". Em uma introdução à entrevista, a revista traz o seguinte texto:
"Chorinhos, zabumbas, guarânias, frevos, valsas, dobrados, xotes, xaxados, modinhas, improvisos jazzísticos e peças de ar erudito. - a caixa de surpresas de Hermeto Pascoal tem de tudo. Aos 46 anos, o mago da música instrumental voltou à cena com uma recente temporada carioca e um novo disco. Neste, o primeiro que lança depois de quase três anos, Hermeto novamente se multiplica, tocando bombardino, cavaquinho, flautas, sax alto, ocarina, bateria, surdo, percussão, piano (usa o piano acústico com folhas de jornal), hormônio, clavinet, apitos, assobio e voz, ou efeitos vocais que incluem uma 'voz satírica com apito'. Ao lado dos nomes dos músicos, figuram créditos tão estranhos como o dos 'cães vocalistas' Velho, Princesa, Bolão, Mike e Penélope, e os cantos a cargo do Galinho Garnizé e da Cigarra do Flamboyant. Enquanto não está viajando, pelo Brasil ou pelo exterior (em 83 vai repetir com seu grupo a turnê europeia do ano passado), Hermeto 'se esconde' no Bairro Jabour, em Bangu, a 40 km do centro do Rio. A gente do bairro já se acostumou com os gringos extraviados em busca do ashram de Hermeto; muitos, mesmo, desembarcam no Galeão e vão direto para Bangu à procura do mestre. Roberto Muggiati, de Manchete, achou o caminho e conversou com Hermeto sobre o seu trabalho atual e seus planos. Eis um resumo da entrevista:
Animais musicais -  'Tudo começou no Rio, há muitos anos, no FIC. Levei um porco e quatro galinhas, mas o pessoal ficou assustado, pensou que eu fosse soltar o porco no auditório. Eu tive paciência e esperei. Em Missa dos Escravos usei o porco como queria, como introdução da música com os dois violões, e a partir daí todo mundo passou a entender a minha ideia. Mas foi neste último disco que consegui um lance ainda mais bonito, com os cachorros, a cigarra e o galo. Gravei em casa, com a intenção de usar no disco, mas sem saber em que música. Queria que fosse surpresa, até para mim. Coincidiu que a passagem do galo é uma coisa maravilhosa: a música é em si bemol e, quando toquei, o galo estava em si bemol também. Tecnicamente, passamos cada som para um canal e usei os bichos em cada faixa como um instrumento. A cigarra eu vou continuar: num próximo disco quero transcrever os sons da cigarra, que são uma infinidade.'
O som da surpresa - Sintetizador? Se eu tenho minha capacidade de criação, não sinto necessidade do sintetizador. Não acrescenta nada, apenas encobre muitas coisas. Posso até tocar um, dar uma canja, mas não vou levar para um estúdio. Um estúdio de gravação é para mim como uma catedral. E já tem tanta coisa lá mesmo - um cinzeiro, uma tampa de piano - que o sintetizador é um negocinho pequenininho. E, depois, o timbre dele é horroroso, irritante. Eu gosto do som diferente. O som do sintetizador é programado, não é um som de surpresa. Quando toquei com o McLaughlin no Festival de Jazz de São Paulo, me deram um sintetizador. Eu escolhi tocar sem nenhum programa, usando-o como se fosse um simples piano. Ele e seus músicos deliraram, o baterista até rasgou a bateria e me deu um abraço que quase me sufocou. Foi uma jogada diferente: é isso que eu chamo o som da surpresa.'
Um desafio - 'Num recente programa de TV, eu falei que gostaria de fazer uma espécie de duelo - um desafio sadio - em que viesse um músico com todos os sintetizadores do mundo e eu usando o que quisesse, coisas que as pessoas me trazem, ou que eu trago de casa: um pedaço de enxada, égua com pedras dentro, uma mesa, um espelho, dois ou três cachorros pequenos. Acho que o sintetizador não dava nem pra começar...'
O instrumento Hermeto - 'Quer saber como surgiu esta coisa de usar a voz, os lábios, o corpo? Eu acho que o músico é um mágico e tudo é possível para ele. Só é preciso que confie em si mesmo. Eu imagino um cara com um lenço, fazendo uma mágica, eu me sinto assim.'
Sua obra composta - 'Fico invocado quando tento juntar minhas músicas, de tanta coisa que tenho guardada.  Pretendo lançar um dicionário-método, com meus temas escritos, cifrados e tudo, as pessoas me pedem muito. Faço música como escrevo uma carta. Nos últimos shows, eu compunha enquanto os músicos ensaiavam no palco. Por isso não ouço muita coisa dos outros, muitos discos, me dá vontade imediatamente de pegar um instrumento e sair tocando, compondo. Devo ter umas mil ou 1.500 composições, só das novas; das antigas, põe outros tantos.'
O som de tudo - 'As pessoas me trazem muitas ideias, as conversas, eu aproveito tudo, até um cara xingando, outro cara rindo. Eu vejo cada pessoa como um instrumento, um som, uma voz. Tudo isso, a fisionomia das pessoas, me atrai, me dá uma motivação, e eu saio correndo pra compor.'
O próximo disco - Agora vou dar um furo: vou fazer um disco sozinho. Sozinho mesmo... Sem instrumento, sem nada, sabe como é? Não vou levar instrumento nenhum e quero fazer tudo com a voz - ritmo, pandeiro, bateria. Vou alterar a velocidade para que a voz fique fininha e imite um trompete. Tudo que eu imaginar de instrumento que existe eu quero fazer com a voz, e com sons do meu corpo, abrindo os vocais, tipo grupo, sem escrever nada, no estúdio, usando vários canais... Vou fazer blocos, vou fazer ritmos. Vou me desafiar mesmo. E vai ser um lance fascinante...' "

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Ednardo - Um Voo e um Berro de Iracema a Ipanema (1976)

Em 1976 Ednardo lançava o disco Berro, seu segundo disco solo, que sucedeu O Romance do Pavão Misteriozo, de 1974 e o disco coletivo do Pessoal do Ceará, lançado três anos antes. Ednardo na época estava estourado em todo o Brasil com Pavão Misterioso, tema de abertura da novela Saramandaia, de Dias Gomes. Na ocasião o jornal O Globo fez uma matéria sobre o lançamento em sua edição de 14/06/76, assinada por Tania Pacheco:
"De repente, na novela 'Saramandaia', uma música explodiu e invadiu a cidade, de Ipanema à Feira de São Cristóvão; o 'Pavão Misteriozo'. E Ednardo, um cearense de fala macia, 31 anos, que largou o diploma de engenheiro químico para ser compositor no sul, apareceu. De boné travesso, tranquilo, se despedindo das pessoas ainda bem nordestino - 'um cheiro pra você -, mas defendendo a sua música.
A canção da novela é a faixa de um elepê - 'O Romance do Pavão Misteriozo' - que não explodiu por injustiça (e a RCA nos deve uma regravação); 'Berro', seu novo disco, acaba de ser lançado. E Ednardo está aí, na sua 'Chegança', falando suas coisas, suas lutas, sua música.
FAIXA 1: PARTIDA
'Amanhã se der o carneiro/ o carneiro/ vou m'imbora daqui pro Rio de Janeiro/ As coisas vem de lá/ e eu mesmo vou buscar/ e vou voltar em vídeo-tapes/ e revistas super coloridas'
No Nordeste, as coisas tão muito na cara da gente. A todo instante. É um cara que bate na sua casa, pede um esmola e agradece cantando... Uma vez, me arrepiei todinho: o cara chegou, pediu, dei a esmola, e ele cantou uma música tão forte, mas tão forte... Não me lembro como era, mas durante muito tempo ela me marcou. E tem o cordel, que funciona pra gente como uma espécie de jornal sertanejo, onde as pessoas chegam com atraso de muitos e muitos anos. São coisas que apaixonam, que você começa a 'fazer parte', a curtir esse transação.
(Só vejo sentido na arte se ela for colhida do povo e devolvida a ele. A arte elitista é uma tentativa furada de federalizar a arte. De criar o 'artista federal').
Então, esse cordel, quando eu li, me deu um 'clique', porque eu descobri um sentimento de liberdade muito grande dentro dele. Como no cordel do Romance do Pavão Misterioso. Pintou uma espécie de paralelismo entre essa liberdade e tudo que eu estava defendendo em termos de música, de ideias, e, depois, do 'circunstancialismo' das pessoas aqui no sul.
Isso tudo tá muito presente no meu primeiro elepê - 'O Romance do Pavão Misteriozo'. Embora as músicas aparentemente não tenham nada com o cordel, têm tudo, ao mesmo tempo. Porque elas foram feitas durante certo tempo de vivência. A gente em Fortaleza, nos bares, falando em vir pro Rio, que parecia ser a capital onde a gente poderia fazer o nosso trabalho. E elas foram pintando. Por isso, o disco conta tudo, desde esse tempo em que a gente queria fazer música, vir pra cá, até o momento exato de gravar, em 1974.
'Vai, meu filho, vai/ que eu lhe dou essa medalha assim/ como o seu avô me deu/ mas a força maior, você sabe/ está em você que nasceu'.
FAIXA 2: CHEGADA
'Sorrias/ e a tua voz, estranha estrada, amiga/  perdeu-se ao longe na partida/ e não ficou ninguém em teu lugar.'
Logo que a gente chegou, depois do entusiasmo da chegança, pintou a calmaria. Tudo parado. Não dava para vislumbrar como eu ia poder mostrar as músicas, chegar ao produtor, conseguir a gravadora.  E pintou também a nostalgia.
('Na parede, o calendário/ no calendário, outro dia/ e no dia a mesma espera/ de nada esperar um dia/ no umbral da porta, já torta/ a sombra, o sombrio olhar/ e no olhar coisas mortas/ que ninguém virá velar.')
Era impossível viver no presente e as pessoas se voltavam para o passado, para a nostalgia, pra poder sair do tempo tão escuro. Eu tinha vindo direto pro Rio. Fiquei aqui um ano, procurando sobreviver de música. Quer dizer: mais morrendo que sobrevivendo. Era 1971, e a barra foi pesada mesmo. Quando já estava faltando tudo, pintou um programa na TV Cultura, de São Paulo. A gente escolhia uma pessoa, e compunha sobre o sujeito. Pintava um cachê minguadíssimo, mas que ajudava a gente a sobreviver.
Do programa passamos à gravação do primeiro elepê: eu, Belchior, Rodger e Teti. Foi o 'Meu Corpo, Minha Embalagem, Todo Gasto na Viagem', que apelidaram, simplesmente, de 'Pessoal do Ceará'.
Depois é que veio o 'Pavão', meu primeiro disco sozinho, em que pude finalmente, dizer minhas coisas. E romper com a nostalgia.
'De qualquer jeito é cedo/ de qualquer jeito há medo/ de qualquer jeito/ a força vem do braço/ ou da palavra sai/ corre/ toca o alazão, meu pai/ na poeira cinzenta o sol/ e o cavalo vai/ Estrela branca na testa/ alazão/ me veste de perneira e gibão/ arranca  o meu sorriso do chão/ abre os meus braços na imensidão'.
FAIXA 3: CLARÕES
'Há um direito e um torto, a cavalo ê/ eu não estou bem morto, cavalo ê/ corre na areia, no vento, cavalo ê/ no mato seco do tempo, cavalo ê/ pula da torre da igreja/ pula por cima da mesa.'
'Pavão' foi recebido pelo público com um silêncio involuntário. As gravadoras - não só a RCA, não! - querem faturar em cima do sucesso. Elas não dão crédito à gente. Então o disco não teve divulgação. Eu pedia poster, e não davam. Tive que usar os velhos, que a Continental tinha me dado, do disco do 'Pessoal do Ceará'. Agora, depois que a música foi para a novela, que todo mundo começou a cantar, me deram 500 posters. Mas, antes, eles não acreditavam. Ninguém acreditava.
Então, em 1975 eu virei uma caldeira. Uma caldeira que você enche de lenha, começa a botar fogo, e não tem válvula de escape. Fui acumulando as coisas, sem poder botar fora. E isso é o tipo de coisa que pode funcionar muito legal, mas também pode contribuir pra o aniquilamento do criador. Porque você pensa mil coisas e não consegue extravasar. Conheço muita gente por aí que tem coisas belíssimas, pra dizer, pra mostrar, e não consegue. E isso leva às vezes a um envelhecimento das pessoas.
('Uma a uma/ as  coisas vão sumindo/ uma a uma se desmilinguindo/ e o mar engolindo lindo/ e o mal engolindo e rindo').
Então, 75 foi um ano de tentativas em várias áreas - o Festival da Globo, a RCA, tudo. Houve até uma tentativa heroica de fazer shows no pau e pedra, transando microfones, emendando, indo nas universidades, me oferecendo, acertando tudo, arranjando os instrumentos, e fazendo os shows. Foi um murro violentíssimo, isso tudo. Um murro que transparece muito no 'Berro'. Por isso, inclusive, esse título. Porque ou você faz arte, ou é o gigolô da própria arte. E o que muita gente não entende, principalmente as gravadoras, é que quando você institucionaliza uma coisa, cristaliza; e aí se acomoda, tem medo da mutação, de se despedaçar. Quando nesse despedaçar é que está justamente a chave do segredo.
FAIXA 4: BERRO
'Consuma tudo em suma/ definitiva e completamente/ na destruição somente/ nesse absurdo aniquilamento/ é que talvez surja/ um outro novo momento.'
'Berro' é o resultado disso tudo; é meu grito, minha raiva. Como é que você quer que a gente seja terno, passando um ano fazendo show emendando fiozinho? Minha música é meu momento. Não há fabricação para alcançar parada ou fugir dela. Só tem eu mesmo. Se o sucesso chega fico satisfeito. Se saio de casa e vejo passar uma lavadeira cantando o 'Pavão', me emociono até as lágrimas. Mas não vou compor pensando nisso não.
Tem uma coisa que um cara de Brasília sacou, que é muito verdade: é necessário que a gente redescubra a simplicidade.. No falar, no fazer. Porque com  a situação brasileira, os compositores começaram a sacar toda uma linguagem simbólica, cheia de metáforas para escapar da tesoura. Acho que até certo ponto isso foi bom, mas é necessário redescobrir a simplicidade.
E a transa emocional do 'Berro' foi muito raivosa. Foi todo o ano de 75 para ser colocado num elepê! o Toninho foi lá pra casa e eu cantei umas 50 músicas para ele. E fomos cantando, cortando. Teve música - a 'Cauim', que foi cortada na hora de editar o disco. A gente tinha até gravado, e vimos que os sulcos iam ficar muito apertados, prejudicando a qualidade do elepê, e desistimos.
'Faz muito tempo que eu não vejo o verde/ daquele mar quebrar/ nas longarinas da ponte velha/ que ainda não caiu'
FAIXA 5: LONGARINAS
'Cada braça de caminho/ um soluço de saudade/ toda vereda da roça/ vai descambar na cidade'
Agora, tem gente que me acusa de 'nostalgia' aguda, sempre que falo do Ceará. Não é. Quando a gente mora no Nordeste é bombardeado o tempo todo com o Rio e São Paulo, com as coisas do 'sul-maravilha'. Aprende a cantar a garota de Ipanema, Copacabana, a princesinha do mar, antes de cantar a Praia de Iracema. E agora, se eu gravo falando  na praia de Iracema, dizem que é saudosismo agudo. Mas eu acho que para se universalizar a gente não tem que romper com as próprias raízes. Tem é que e aprofundar. Tanto faz falar na fome do Nordeste, como na de Bangladesh. Então, por que não falar das coisas de lá, pelo amor de Deus? Eu acho que se eu sou de lá, e agora estou aqui, tenho é que aproveitar as duas coisas e fazer a síntese.
Por isso, no 'Berro', eu procuro, inclusive, cantar coisas importantes de lá, que nem chegaram muito aqui, como o movimento 'Padaria espiritual', um negócio danadíssimo, muito sério, que atingia principalmente a área cultural, na transição entre Brasil Império e Brasil República..
Canto isso e canto tudo, porque nunca calco minha música num objetivo definido . Vou fazendo o que está pintando na minha vida. Vou trabalhando sem pensar a longo prazo. O que eu quero mesmo é ter condições de fazer música. Cantar e dizer as coisas que me importunam de perto. Ou as coisas que eu gosto de perto.
'Somos umas vacas/ retalhados nesse açougue/ Do boi só se perde o berro/ e é justamente o que eu vim apresentar' "



quarta-feira, 7 de junho de 2017

Airto Moreira em Visita ao Brasil (1977)

O percussionista Airto Moreira deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos, no final dos anos 60, e lá construiu uma brilhante carreira. Airto tocou com nomes mais do que consagrados do rock e do jazz, como Miles Davis, Santana, Chick Corea, John McLaughlin, só para citar alguns. Ao lado de sua esposa, Flora Purim, Airto ganhou respeito, prestígio e fama no circuito do jazz, e passou a ser um músico muito requisitado em gravações. Numa de suas vindas ao Brasil, em 1977, o músico conversou com Antônio Carlos Miguel e Nena Mujica, do Jornal de Música, que publicou uma matéria intitulada "Airto de volta (por pouco tempo) ao país da burocracia":
Airto Moreira esteve no Brasil durante 15 dias (final de junho e início de julho) para resolver alguns problemas pessoais, rever os familiares e acertar detalhes com a sua nova gravadora, a Warner (WEA). Aproveitamos sua estada para esta entrevista, onde ele mostra que a fama e o sucesso nos Estados Unidos não o alienaram da situação brasileira, pelo contrário, ele continua ligado no que acontece aqui. No dia da entrevista Airto tinha passado toda a tarde tentando conseguir que sua filha, Diana, de 4 anos, viajasse sem pagar os 16 mil(*): ela tinha passado 3 meses na casa dos avós enquanto Airto e Flora viajavam numa grande excursão. Mesmo tendo passaporte americano (ela nasceu lá), por ser filha de brasileiros teria que tirar um passaporte brasileiro e deixar o tal depósito. Apesar de toda esta tarde com os burocratas Airto ainda teve tempo (e saco) para esta entrevista. Entre os inúmeros problemas que o trouxeram havia o de algumas músicas suas que estavam sendo usadas sem a sua permissão:
'A Globo estava usando uma música minha como fundo prum personagem da novela 'O Bem Amado', esta música foi gravada no disco Free, o problema é que eles nunca pagaram os direitos autorais; o mesmo está acontecendo com uma música do Hermeto que gravei, ela está sendo usada num desses comerciais do governo que passam antes dos filmes. Também não pediram a nossa autorização. Então eu vim resolver isto e procurar uma pessoa que me represente e passe a defender meus interesses'.
Para Airto, que já está fora do Brasil há 10 anos, a situação do músico brasileiro ainda é muito precária, ele que emigrou pra os Estados Unidos em busca de melhor campo de trabalho observa que não houve melhora:
'... e em certos setores as coisas pioraram mais, é o caso da falta de liberdade de expressão, quase ninguém tem direito a falar o que pensa. Os poucos que ainda conseguem dizer alguma coisa são Chico, Milton,, e até mesmo Hermeto, que apesar de não cantar faz um tipo de música que expressa esta vontade de livre criação.'
Uma opção, ainda hoje, seria buscar trabalho no exterior: para Airto, depois da época da bossa-nova estaria ocorrendo agora uma nova era fértil para a música brasileira, o público americano pede um novo som e somos nós que temos as melhores condições. A sua nova gravadora, Warner, também tem estimulado bastante a nossa música. Airto não sente necessidade de se radicar aqui, apesar de ter interesse em que sua música seja mais conhecida pelo público brasileiro:
'Todo artista tem desejo de ser reconhecido no seu país de origem, mas por enquanto não houve interesse nem dos produtores nem meu: eles preferem trazer artistas como Rick Wakeman, um menino que enche o Maracanazinho, mas vai assistir a nossos concertos de gravador na mão, porque ele está ligado no nosso som, do mesmo modo que John McLaughlin, o Wayne Shorter ... Então o dia em que alguém se interessar realmente eu venho na hora, mas não é pra tocar no Municipal, eu quero é tocar pra muita gente, com preços bem populares.
Airto, que tocou em discos de Miles Davis, Gato Barbieri, Chick Corea, Weather Report, John McLaughlin, Tom Jobim, entre outros, parou de trabalhar como músico de estúdio. Agora ele só participa quando tem uma ligação mais pessoal com o artista, este é o caso do disco com o grupo uruguaio OPA.
'Eu mantive contato com eles na época que fazia parte do grupo Return To Forever. Chick (Corea) estava partindo pruma música mais técnica, uma coisa muito ensaiada, rápida e eletrônica, eu prefiro um som mais espontâneo; como Chick partiu pra essa, eu saí para formar o meu próprio grupo. Foi quando um amigo diretor de cinema me falou de um trio uruguaio que tocava muito bem música brasileira num clube em New Jersey. Na hora eu não me interessei muito, afinal uruguaio tocando música brasileira, né? Só duas semanas depois fui assistir e gostei do lance, eles estavam tocando uma música minha, conheciam todo meu trabalho, o de Edu Lobo, Hermeto, então eu os chamei para fazer parte do grupo que gravou 'Fingers'. Desde então a gente tem se apresentado junto, só que não é uma coisa rígida, às vezes eu vou prum lado, e eles pra outro.'
No bate-papo abordou-se a situação do cenário musical americano, tentamos ver o o que é que sobra de toda a confusão: rock, jazz, funk, punk, música latina. A crítica americana tem 3 definições mais em uso pra classificar o som de Airto: 'latin-rock', 'jazz' e 'música progressiva'; este, ele acha mais apropriado, 'pois é mais abrangente, não fecha, propõe um futuro, uma progressão como o próprio nome diz'. Milton Nascimento ainda estaria num estágio inicial, 'ainda não é uma coisa muito popular', seu trabalho é mais curtido entre os músicos e pessoas que conheceram seu trabalho com Wayne Shorter (no disco 'Native Dancer'). O aumento desta popularidade depende de uma maior batalha, fazer shows, divulgar mais, entrar em contato com o público americano. Neste ponto me lembrei de uma entrevista que juntamente com o jornalista Brother fiz com o saxofonista Gato Barbieri. Nesse papo ele se declarou cansado desta batalha toda, a maratona de shows para a divulgação de dois discos por ano, tudo um processo muito desgastante. Airto não concorda com Gato:
'Eu gosto de tocar a música que estou fazendo, gosto dos músicos que tocam comigo e não faço isso por obrigação. O som do Gato foi produzido (N.R. O disco citado é 'Caliente', com produção de Herb Alpert) e ele não curtia totalmente o que estava fazendo, não foi um trabalho que ele tivesse autonomia. Eu produzo meus próprios discos ou então escolho o produtor, esta é uma cláusula de que faço questão nos meus contratos. O mesmo acontece com Flora, é ela também quem escolhe o produtor, as músicas, o estúdio, os músicos.'
Airto e Flora Purim
Não haveria nada de novo acontecendo no cenário musical americano, o que há é uma mistura de tudo que é música'. Airto se disse fã de Jeff Beck, um músico de rock que se aproximou do jazz, 'as duas coisas que continuam sendo as mais fortes, o funk já é uma coisa mais produzida: Os músicos de jazz viram a força do rock e tentam se aproximar dele, pegam mais vitalidade. Já o músico do rock, que é mais novo, tenta se aprimorar incorporando o jazz; os latinos se aproximam dos dois, eu acho que é isto o que estou fazendo.'
Até Herbie Hancock que passou um tempo fazendo (ou faturando com funk, está de volta ao jazz. Para Airto o funk é muito limitado, uma música feita em série, quase maquinal...
E o punk-rock?
Eu acho que o punk-rock é o final do lance, o final de um processo todo, o restinho o que sobrou do acid-rock...'
No final, depois de todo o papo, Airto se lembrou:
'As pessoas percebem que a arte brasileira tem muita força, mas ninguém procura saber os motivos, este é um lance que ninguém me perguntou. A arte aqui no Brasil é muito mais forte que nos Estados Unidos (em criatividade, em amor, em alma...) porque aqui é uma necessidade, enquanto lá é um produto, aqui as pessoas têm necessidade de se comunicar umas com as  outras, é uma transa bem mais chão que lá, é disto que eles sentem falta' "

(*) Na época, para se fazer viagens ao exterior, tinha que se fazer um depósito compulsório nesse valor.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

A Longa Lista de Parceiros de Tom Jobim

Um dia após a morte de Tom Jobim, o Jornal do Brasil trazia um caderno especial falando de nosso grande compositor. Dentre os muitos textos sobre sua música, sua personalidade e seu pensamento, a edição de 09/12/94 falava sobre os muitos parceiros que o maestro teve ao longo da carreira, para valorizar ainda mais sua música. Segue abaixo o texto:
"Perfeito letrista das próprias músicas, Tom Jobim nunca se furtou a dividir com parceiros variados a sua produção musical. O primeiro deles foi Alcides Fernandes, com quem fez Solidão, cantada por Nora Ney e regravada por Caetano Veloso. Alcides era marido de uma empregada de sua família e, como contou o próprio Tom, ele o levou ao morro para conhecer de perto os sambistas. Nesse tempo - início dos anos 50 - Tom compôs com o baterista Juca Stockler, o Juquinha, em geral sambas-canções bem ao sabor da época, como Faz Uma Semana e Pensando em Você.
Em seguida, Tom começou a compor com parceiros mais conhecidos, como Dolores Duran (Por Causa de Você, Estrada do Sol e Se É Por Falta de Adeus) e Marino Pinto (Aula de Matemática, Ai Quem Me Dera). Em 1955 conquista um novo parceiro, Billy Blanco, com quem faz a ambiciosa Sinfonia do Rio de Janeiro e uma canção que seria seu primeiro sucesso de fato: Teresa da Praia. Era o início de uma penca de músicas de Tom que louvariam o Rio e seu estilo de vida.
Nesse mesmo ano, ele tem o mitológico e fundador encontro com Vinícius de Moraes. Um sem-número de pessoas afirma ter feito a tal apresentação. Mas o próprio Tom se encarrega de desfazer mal-entendidos: 'Várias pessoas me apresentaram ao Vinícius. Mas a apresentação oficial foi a do Lúcio Rangel. Essa é que ficou na história. Foi lá no Vilarino, no Centro da cidade, onde o pessoal bebia uísque e eu bebia minha cervejinha. Foi ali que o Lúcio Rangel me disse: 'O Vinícius está aqui precisando de um músico para sua peça de teatro'. Essa peça era o Orfeu da Conceição'. Começava ali a mais célebre parceria (ou grife) Tom & Vinícius: de Orfeu saíram pérolas como Se Todos Fossem Iguais a Você e Um Nome de Mulher. Dois anos depois, em 1958, a dupla seria finalmente lançada em disco através de Elizeth Cardoso em Canção do Amor Demais. Tom e Vinícius fariam cerca de 60 músicas regularmente até 1963, ano em que lançaram a mais famosa de todas, Garota de Ipanema, uma das cinco músicas mais executadas no mundo em todos os tempos.
Outro parceiro fundamental de Tom nos primórdios da bossa nova foi Newton Mendonça, que morreu cedo, em 1960, mas a tempo de deixar várias composições em parceria com Tom: Desafinado, Discussão, Foi a Noite, Caminhos Cruzados. Aloysio de Oliveira também compôs com Tom músicas como Dindi, Só Tinha de Ser com Você, Samba Torto e Inútil Paisagem.
Já na segunda metade dos anos 60, certa vez perguntaram a Tom o que havia e novo. 'Chico Buarque de Hollanda', foi a resposta. Pois o novato Chico seria seu novo parceiro. Foram ao todo doze canções: das primeiras Retrato em Branco e Preto e Pois É, até a linda e vaiada Sabiá (a vaia no Maracananzinho fez Tom Jobim chorar no Rebouças, voltando pra casa, testemunhou Chico), as canções da trilha do filme Para Viver Um Grane Amor e a última, Piano na Mangueira. Recentemente, Tom ficou meio sem parceiro fixo, compondo com letristas esparsos e musicando poemas que admirava. Com Cacaso fez Dinheiro em Penca, com Ronaldo Bastos, algumas músicas como Senhora Dona Bibiana e Rodrigo Meu Capitão. Tom também musicou poemas de Fernando Pessoa (Cavaleiro Monge e O Rio da Minha Aldeia) e Manuel Bandeira (Trem de Ferro)."

sábado, 3 de junho de 2017

Samba Esquema Novo, de Jorge Ben - Discoteca Básica

Existem discos que já nascem clássicos. É o caso de Samba Esquema Novo, lançado por Jorge Ben em 1963. O disco trazia uma renovação na forma de se fazer música, de tocar violão e de cantar. Naquele período em que a Bossa Nova, com sua batida característica, começava a dominar o mundo, Jorge Ben trazia uma coisa nova, uma renovação na forma de se fazer música, e mostrava pela primeira vez sua forma renovadora de compor, com letras inspiradas e despojadas, e melodias com uma marca pessoal que o acompanharia ao longo dos anos. Esse disco, muito merecidamente, é sempre lembrado quando se fala nos grandes álbuns lançados no Brasil ao longo dos anos, por isso não poderia ficar de fora de uma seção da revista Bizz chamada Discoteca Básica, onde um crítico destacava um álbum, nacional ou estrangeiro, e fazia uma resenha, mostrando porque o disco merecia entrar naquela seção. Em sua edição nº 62, de setembro de 1990, José Augusto Lemos fala desse grande clássico:
"O Brasil do início dos anos 60 era um país de grande efervescência cultural, onde o folclore e as artes populares não haviam ainda sido condicionados em frascos de formol e serviam de matéria-prima para as novas gerações. Nesse caldeirão quente cabiam tanto a reinvenção do samba, com a bossa nova, quanto os primórdios da sensibilidade pop- e rock'n roll da jovem guarda. E durante décadas estes extremos - na época, ideologicamente inconciliáveis - só se tocaram na música de Jorge Ben.
De nobre linhagem etíope, e musicalidade maturada na noite carioca, Jorge Ben trouxe para o samba pós-bossa  um novo violão - tão original quanto o de João Gilberto. Foram os dois, aliás, mais Tom Jobim, os grandes artesãos do 'samba híbrido', sincrético, desfolclorizado. Em comparação com a minunciosa dissecação harmônica de João Gilberto, o violão de Jorge Ben também fazia a festa nas síncopes e contratempos. A diferença estava justamente nessa costura: o bordão injetou tanto veneno rítmico que acabou dispensando qualquer tipo de contrabaixo pra as gravações. A voz de Jorge recebe apenas um sedoso colchão formado por uma bateria mezzo jazzy, encorpada com chocalhos e tamborins e do violão alquímico de Ben.
Contracapa do disco
Quando Samba Esquema Novo foi para as lojas, a fissura já estava devidamente instalada pelo sucesso do compacto que o antecedera: 'Mas, Que Nada', e 'Chove Chuva'. Tamanho impacto que dois anos depois Jorge estava nos Estados Unidos, desfrutando o status de hitmaker, ainda que através das pasteurizadíssimas versões de Sérgio Mendes para estas duas canções.
'Mas, Que Nada' abre o disco embalando um êxtase de longos melismas para, no final, entrar em órbita com o scat singing. Nesse tipo de alucinação vocal - e em suas particularíssimas letras - Jorge Ben deu um salto poético enorme. Espécie de novo Noel Rosa, mandou para o espaço preciosismos, parnasianismos, concretismos e entronizou uma fusão da gíria e da prosa malandra de esquina com um vocabulário próprio. Palavras como 'saiubá' e 'sacundin' talvez não signifiquem nada, mas moduladas melódica e ritmicamente podem explicar para nossos Olavos Bilac niu-uêivi-pós-pânqui a fundamental diferença entre versos para ler e versos para cantar. 'Por Causa de Você, Menina', que seria seu terceiro hit, radicaliza essa prosa intergalática ao pronunciar: 'Voxê passa  e não me olha/ mas eu olho pra voxê'.
Se apresentando no programa de Chacrinha
Ao longo da década, enquanto João Gilberto isolava-se cada vez mais no resgate e copydesc dos anos dourados da MPB, Jorge Ben soltava todas as amarras para experimentar. Retornando dos EUA, encostou o violão e passou a tocar uma guitarra elétrica - só por essa razão foi expulso do pseudo-refinado O Fino da Bossa.  Jorge foi jogar no time adversário, num outro programa chamado Jovem Guarda. O resultado dessa associação - o LP Bidú - Silêncio no Brooklin, de 67 - merece ser ouvido: tem baião psicodélico, muita eletricidade e efeitos de gravação de fazer  inveja aos californianos da época. Daí para a confraria tropicalista foi um pequeno pulo, sinalizando uma safra sensacional que amarra o final dos anos 60 ao final dos anos 70. Basta citar 'Que Pena', 'Que Maravilha', 'Charles Anjo 45' (talvez seu magnum opus), 'País Tropical', 'Fio Maravilha' e 'Taj Mahal'. Mesmo na década de 80, o alquimista entrou de sola com discos pioneiros na utilização de samplers - Dádiva (83) e Sonsual (84). O que veio depois não está à altura, infelizmente. Mas quem se arrisca a prever o que ainda vem por aí?"



terça-feira, 30 de maio de 2017

Gilberto Gil Fala do Disco Expresso 2222 (2012)

No ano em que completou 70 anos, Gilberto Gil foi homenageado com uma coleção de fascículos, onde sua obra era comentada, sempre destacando um de seus discos, que vinha encartado em CD. A publicação se chamava "Coleção Gil 70 Anos", e o volume 2 destacava um de seus melhores discos, Expresso 2222, que marcou sua volta ao Brasil, após o exílio londrino. Gil fala sobre o disco e sua concepção, em um depoimento exclusivo. Segue abaixo o texto do fascículo, assinado por Marcelo Fróes:
"Após alguns anos iniciais em Salvador, Gilberto Gil trilhou rápida carreira ao chegar no Sudeste - gravando um compacto ao chegar a São Paulo em 1965 e finalmente alcançando o primeiro LP já em 1967, antes mesmo de abafar no Festival da MPB daquele ano com 'Domingo no Parque'. Um dos mentores  - ao lado de Caetano Veloso - do movimento tropicalista, que tomou conta do país em 1968, Gil acabou sendo preso em São Paulo em 27 de dezembro daquele ano, em decorrência da caça às bruxas promovida pela ditadura militar após o AI-5.
Presos até a quarta-feira de cinzas de 1969, Gil e Caetano ainda enfrentaram prisão domiciliar em Salvador até serem finalmente exilados em Londres. Na capital inglesa, Gil familiarizou-se mais rapidamente e gravou dois álbuns durante aquela fase - até surgir oportunidade de retorno ao Brasil em janeiro de 1972. Gil realizou então uma excursão nacional e em seguida tratou de entrar no moderno estúdio de 16 canais da Eldorado, no prédio do grupo Estadão em São Paulo, para, sob a produção de Roberto Menescal, então diretor artístico da Philips (atual Universal Music), gravar um novo álbum - o primeiro trabalho no Brasil em três anos.
O disco contou com a adição do tecladista Antônio Perna e ainda teve Gal Costa fazendo dueto em 'Sai do Sereno'.
'Primeiramente eu fiz um compacto de voz e violão, durante uma entrevista para a revista O Bondinho, gravado num quarto de hotel enquanto eu mostrava para o repórter as novas canções', lembra Gil. 'Aí, em abril começou a gravação em estúdio, já com a banda. Em algumas faixas, como 'Chiclete com Banana', o Bruce teve uma certa dificuldade... porque ele é inglês, teve dificuldade de pegar o sentido do samba, mas o Lanny pegou o baixo e criou - porque ele tinha muito treino, tocava muito na boate do pai dele - a Stardust, em São Paulo. Ele tocava com todo mundo, então tinha uma grande prática e na hora pegou o baixo e saiu tocando. Tutty já era da banda, ele voltou na mesma época que a gente e aqui eu reuni os demais. Perna era pianista da Bahia, tinha feito shows com a gente nos anos 60; e o Lanny já tinha gravado num disco meu, fazendo a finalização do disco que eu havia deixado gravado antes de ir embora pra Londres'.
'Ele e Eu' foi feita em Londres, sobre as diferenças de personalidade entre Caetano e eu. Caetano racionalista, eu místico. 'Expresso 2222' também foi feita lá, refere-se à locomotiva que passava na rua na minha infância mas também à cultura psicodélica da época - cuja forma de representação mais comum desse campo de experiências humanas era 'a viagem', metáfora dos estados alterados de consciência'.
Depois do barato do 'Expresso', 'O Sonho Acabou'. 'Essa eu fiz já no final de minha temporada em Londres - no festival de Glastonbury. Na época tinha saído aquele LP de John Lennon que tinha uma canção chamada 'God', com  a expressão 'the dream is over (o sonho acabou)'. 'Oriente' também foi feita inteiramente lá, mas durante um passeio na Espanha - quando alugamos uma casa em Formentera, ao lado de Ibiza. Eu ficava com o violão o dia todo e me lembro que num final de tarde uma estrela cadente passou no céu, depois de um longo dia claro de verão. Uma colagem de impressões e lembranças, referências a vários momentos da vida, família e de amigos. 'Back in Bahia' eu compus entre Salvador e Santo Amaro, tão logo cheguei de volta. Foi a única composta aqui', lembra.
Capa interna do disco, após aberta - tinha formato redondo
'Expresso 2222' saiu em julho de 1972, com o filho Pedro Gil na capa por ideia do próprio artista, e aberto por uma gravação de 'Pipoca Moderna' com a Banda de Pífanos de Caruaru - canção que  Gil conhecia desde os anos 60, em gravação feita por Carlos Fernando anos antes. 'É o prólogo', traduz Gil.
O disco tinha também 'O Canto da Ema', que o artista já conhecia de uma gravação de Jackson do Pandeiro. O álbum foi puxado pelo sucesso do compacto 'Chiclete com Banana' (versão de Gil para o clássico de Gordurinha que Jackson do Pandeiro também sempre cantara). No lado B, uma faixa não incluída no LP: 'Cada Macaco no Seu Galho', de Riachão, com a participação de Caetano Veloso.
Gilberto Gil animou-se com a banda que montara com Tutty Moreno (bateria), Bruce Henry (baixo) e Lanny Gordin (guitarra), e iniciou, já a partir do segundo semestre de 1972, uma série de excursões - inclusive shows com amigos, ora Caetano, ora Gal - que sucederam-se até 1974. Nesse meio tempo, entre uma apresentação em Cannes com Gal e Jorge Ben e uma participação no evento Phono 73, ocasião em que cantou com Chico Buarque e com Elis Regina, Gil acabou entrando em estúdio para gravar um novo álbum. Mas isso já é outra história!"

domingo, 28 de maio de 2017

Pelas Ruas Musicais de Alceu Valença (1996)

Em sua edição de 21/07/96, o jornal O Globo trazia uma matéria com Alceu Valença. Um dos grandes representantes da geração de compositores e músicos nordestinos que nos anos 70 invadiram o cenário da MPB com um trabalho renovador e de alta qualidade, Alceu já era um nome respeitado em nosso cenário musical, e vinha de uma recente união com Zé Ramalho, Elba Ramalho e Geraldo Azevedo no show "O Grande Encontro", que teve uma ótima repercussão, e posteriormente virou um disco também de sucesso. A matéria, assinada por Milton Calmon Filho, é reproduzida abaixo:
"Quem encontrar Alceu Valença pelo Leblon, andando nas ruas ou tomando café e comendo sanduíche com queijo-de-minas, feito na chapa, na Padaria Lisboa, corre o risco de estar presenciando o surgimento de mais uma música do cantor e compositor pernambucano. Ele diz que gosta de compor enquanto caminha e dá exemplos de canções geradas na área do Baixo Leblon, onde mora numa cobertura: 'Andar, Andar', 'A Moça e o Povo' e 'Tesoura do Destino'. O processo se repete em Olinda, em Recife, onde também mora.
E a lista de músicas que ele chama de cinematográficas é bem maior. Basta constatar nos quatro discos de Alceu que a BMG está lançando em CD: 'Estação da Luz' (1985), 'Rubi' (1986), 'Leque Moleque' (1987) e 'Oropa, França, Bahia' (1989). Outro álbum seu recém-lançado em CD, este pela PolyGram, é 'Cavalo de Pau' (1982), considerado um clássico por público e crítica. Alceu curte ainda o sucesso do show 'O Grande Encontro', ao lado de Elba Ramalho, Zé Ramalho e Geraldo Azevedo, apresentado nas últimas terças e quartas-feiras num Canecão lotado por adolescentes enlouquecidos. O concerto, inclusive, vai virar disco, previsto para ser lançado em novembro.
- É um show despojado, como se fosse na varanda de nossa  casa - diz. - Serve para mostrar que viemos de rios de uma mesma região, mas com águas de diversas temperaturas. Cada qual tem seu estilo.
Alceu informa que tem quatro álbuns solo planejados ('Um acústico, um pesado, um só ao violão e um de carnaval.'), mas não sabe qual vai sair primeiro. Aos 50 anos, feitos no último dia 1º, depois de quatro casamentos, dois filhos, namora Milena, porém evita falar sobre ela. 
- Mas não sou ciumento - assegura.
Claro que nem tudo que passa pela cabeça de Alceu na padaria ou nas ruas é música. Ele diz que é do tipo que vive pensando em projetos que nem sempre consegue executar: fotos, arte, arquitetura, literatura. Um dos planos que está entrando no papel é 'Olinda, Patrimônio da Alegria', livro de arte que sairá em setembro, com fotos (a maioria do carnaval da cidade), poemas de Alceu e de outros autores e depoimentos de personalidades.
- Não é um livro para falar de mim. É  sobre o imaginário olindense - explica.
Outra ideia do Alceu editor: um livro com ele, Zé, Geraldo e Elba, reunindo fotos da excursão, letras e textos dos quatro.
- Os baús de Alceu pouco param em suas casas no Rio e em Olinda. Ele vive fazendo shows pelo Brasil e exterior. Ontem estava na Bahia, segunda-feira estará no Pará. Foram 20 apresentações nos últimos 15 dias, mostrando uma energia que afirma ser herança de família. A mala nem saiu da sala durante a sua passagem pelo Rio. Por causa do corre-corre, diz que nem tem tempo de ouvir música: só assiste a shows e concertos. Comprou uma bicicleta ergométrica, mas quase não a usa. Prefere andar.
- Não gosto de casa, gosto é de tomar café no bar da esquina.
Ou na padaria."

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Manacéa - Um Bamba da Portela (1995)

Manacéa foi um grande compositor de belos sambas. Portelense, e componente da Velha Guarda de sua escola, Manacéa fazia parte de um trio de irmãos, ao lado de Mijinha e Aniceto, cujo talento para compor sambas antológicos mostra que muitas vezes a veia musical vem de família. No dia 10 de novembro de 1995 Manacéa, o último remanescente da família talentosa, nos deixou e o Jornal do Brasil publicou uma pequena homenagem ao grande compositor em uma matéria assinada pelo jornalista e crítico Tárik de Souza, intitulada "Corte na Raiz do Samba", em que ele fala um pouco da vida e trajetória desse grande compositor, que segundo o jornalista, "trabalhava com minúcia de ourives". Abaixo a matéria:
"Lá se foi Manacéa, o terceiro dos irmãos bambas da Portela. Mijinha e Aniceto cantaram pra subir antes e agora o trio está completo lá em cima. Sob a batuta de Paulo Benjamim de Oliveira, o Paulo da Portela, o embaixador das escolas de samba junto às autoridades do asfalto, deve estar rolando um pagode daqueles muitos a que assistiu no quintal da casa apinhada e generosa de Manacéa, em Madureira. D. Doca, D. Surica, o lendário Chico Sant'Ana (autor do emblemático Saco de Feijão), Casquinha ( o que levou o Recado, com Paulinho da viola), Argemiro, seu Alberto Lonato, o estilista Monarco com sua voz de barítono, quase baixo (parceiro póstumo de Paulo da Portela), o pessoal da Velha Guarda da escola, meia dúzia de instrumentos e vozes crestadas pela labuta.
Nascido em Pedra de Guaratiba, filho de um ferroviário que trabalhava na soca (bater os dormentes do trem), Manacé José de Andrade não compunha em série. Autor de sambas enredo campeões na Portela, em 1949 (A Descoberta do Brasil) e 1953 (Brasil de Ontem), ele não se empenhou em fazer carreira. Trabalhava com a minúcia de ourives sambas, duplamente, sem pressa para serem degustados no canto coletivo. Só ficou mais conhecido (e foi mais gravado) no revival do samba de raiz nos anos 70, depois que Paulinho da Viola, o Paulo da Portela dos tempos modernos, produziu um histórico disco com a Velha Guarda. Por fatalidade, Manacéa morreu na véspera da concessão, pela Assembleia Legislativa, da  Medalha Tiradentes ao sócio número um da Portela, Claudio Bernardo da Costa, de 90 anos, na sexta-feira passada.
A Velha Guarda da Portela se transformou numa reserva sonora do samba de raiz. Sua participação de destaque mais recente foi na faixa Esta Melodia, que encerra como um épico Cor de Rosa e Carvão, de Marisa Monte. Beth Carvalho embarcou em seu Carro de Boi, Zezé Motta celebrou a Manhã Brasileira, Luis Carlos da Vila exaltou Natureza, três sambas belíssimos. Mas o estouro se deu na gravação de Cristina Buarque de Quantas Lágrimas (1975). Obra-prima que deve ser derramada à passagem deste nobre cultor do samba sob a forma de arte."



quinta-feira, 25 de maio de 2017

Caetano Fala Sobre o Início de Carreira de Bethânia

A revista MPB Especial, que circulou no fim dos anos 70 e início dos 80 publicou um número especial com Maria Bethânia, contando sua vida e carreira. A revista, que foi às bancas em 1980, trazia um depoimento de Caetano, falando do início da carreira da irmã, e sua vinda para o Rio de Janeiro para substituir Nara Leão no espetáculo Opinião. Caetano fala de uma época em que Bethânia era ainda muito menina, e já estava envolvida com música, assim como o próprio Caetano e um grupo de amigos, que mais tarde iriam criar o Tropicalismo, e ganhar o Brasil. Eis o depoimento de Caetano:
"Aconteceu uma coisa impressionante comigo em 1964. É uma história que talvez revele muito do que são as verdadeiras relações entre minha grande irmã Maria Bethânia e eu. Nesse ano de 64 nós ainda éramos estudantes e tínhamos feito alguns espetáculos semi-profissionais no Teatro Vila Velha, em Salvador. No final daquela ano, um amigo meu, Pedrinho Nóvis, me convidou pra passar as férias de verão numa fazenda que os pais dele têm no recôncavo da Bahia, e eu fui com ele. A fazenda era linda, era um lugar lindo, a gente andava a cavalo... Pedrinho era lindo, eu não tinha nenhuma razão para querer sair de lá. Mas dez dias depois de quando eu tinha chegado, senti como que uma necessidade muito forte dentro de mim de voltar pra Salvador. Primeiro por causa de Maria Bethânia. Contei pra Pedrinho e ele falou que eu estava ficando louco, mas eu sentia como se Bethânia estivesse me chamando.
Mas pra eu sair daquele lugar eu ia precisar de uma condução e não havia. Quer dizer, a condução que havia ali, que era dos pais de Pedrinho, apenas tinha chegado. Ninguém estava com planos de voltar pra Salvador. A estrada ficava longe da fazenda e a fazenda também ficava longe de Salvador. Eu não tinha um meio de sair dali. De repente apareceu um pessoal, uns parentes do pai de Pedrinho, vindos não sei de onde, para pernoitar ali e ir para Salvador no dia seguinte pela manhã. Eles estavam numa caminhonete. Aí eu falei pra Pedrinho; 'Eu vou nessa caminhonete', e Pedrinho disse: 'Eu fico de mal com você se você for'. Ele achava que eu estava inventando um pretexto, mas não era. Eu sentia aquilo muito forte. O fato é que ele era muito cético, me convenceu, e eu não fui.
No dia seguinte, de manhã bem cedo, a caminhonete partiu, ficou aquela poeira, e eu fiquei angustiado e com a certeza absoluta de que Bethânia precisava de mim. Mas a única condução que tinha pintado, eu tinha deixado dançar, não via perspectiva de ir a Salvador. Quando de noite na hora do jantar o pai de Pedrinho chegou e disse assim: 'Estou me sentindo febril, não sei a razão, e vou precisar ir pra Salvador amanhã cedo para consultar um médico', eu nem passei pelo filtro de Pedrinho, já fui direto ao pai: 'Dr. Renato, eu vou com o senhor'. Ele estranhou porque a princípio eu havia dito que ficaria um mês. Pedrinho me olhou assim meio com raiva do outro lado da mesa, mas eu fui com o pai dele.
capa de revista
A gente saiu de carro pela manhã. E pra ir dessa fazenda pra Salvador, passa-se por Santo Amaro da Purificação, nossa cidade, e quando o carro passou por lá, minha cabeça virou. Eu disse pra mim mesmo: 'Pô, Pedrinho tem razão. Como é que eu estou saindo de um lugar que eu estou adorando e indo pra Salvador, quando não tem nada de concreto me chamando lá? É tudo dentro da minha cabeça... isso é loucura mesmo. Sabe o que eu vou fazer? Vou saltar aqui mesmo em Santo Amaro, vou pra casa de Mabel (Mabel é nossa irmã mais velha, que ainda morava em Santo Amaro a essa altura) fico lá uns dias, depois eu vou pra Salvador.
Aí falei com o pai de Pedrinho, ele ficou um pouco surpreso, mas parou, eu saltei e fui andando pra casa de Mabel. Quando eu cheguei na porta de sua casa, minha cabeça virou de novo. Eu pensei, 'não pode ser loucura, só uma razão me faria saltar em Santo Amaro, na casa de Mabel'. Bati na porta, Mabel me atendeu alegre, surpresa, e eu fui logo perguntando por Bethânia. Ela disse que não, que Bethânia não havia combinado nada de ir pra Santo Amaro. Estava em Salvador mesmo. Foi quando achei que era loucura; que tinha de tirar aquilo da cabeça, mas não conseguia.
Perto da hora do almoço, alguém bateu na porta, Mabel abriu, era Bethânia! Aí eu olhei pra ela assim com os olhos cheios de interrogação e ela 'Oi? que é que há?', normal, me deu um beijo. Achei impossível que tudo coincidisse e não fosse nada. Mas durante o almoço, o telefone tocou. Era uma chamada de Salvador, de Nilda Spencer, trazendo um recado dos produtores do espetáculo Opinião, do Rio de Janeiro, convidando Bethânia para substituir Nara Leão naquele show. É engraçado a força que as coisas parecem ter, quando elas precisam acontecer. "

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Moraes Moreira - Revista Música (1980)

Em 1980 Moraes Moreira seguia sua carreira com grande sucesso. O ex-componente dos Novos Baianos havia lançado no ano anterior um álbum de grande sucesso, "Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira", e vinha fazendo muitos shows pelo Brasil. Na ocasião a revista Música, em matéria  assinada por Cleide Nascimento, falava de Moraes e sua mistura de chorinhos, frevos e rocks:
"Antonio Carlos Moraes Pires, o Moraes Moreira, já não é mais o músico de Ituaçu, do interior da Bahia. Também não pertence ao grupo Novos Baianos, com quem conviveu durante 7 anos e que se tornou figura nacional. Pós-tropicalistas, como eles mesmos se definiam, chegaram a São Paulo numa época pouco fácil aos cabeludos e às irreverências.
Hoje, Moraes Moreira é o músico universal, o poeta que em versos intuitivos fala de seu novo tempo. Pombo Correio, uma espécie de hino carnavalesco deste ano, que o diga.
O pique de Trio Elétrico, aliás, está em tudo o que Moraes faz: 'o Trio pintou quando eu era menino. Totalmente original, desde o caminhão até a música'. Mas, só em 74 que Moraes partiu para a carreira solo, onde participou com duas músicas do LP Trio Elétrico de Dodô e Osmar, e de lá para cá gravou quatro discos só dele: 'Moraes Moreira', 'Cara e Coração' (com o sucesso de Pombo Correio), 'Alto Falante' (lembrando das audições musicais de fim de tarde na sua cidadezinha).
Moraes, no limite entre o popular e o popularesco, não perde o equilíbrio. Suas melodias, simples e diretas, saem sem querer, quando a gente começa a assobiar. E, ao mesmo tempo, são complicadas e trabalhadas, mistura de Jimi Hendrix - dizem - com um pouco do carnaval da Bahia.
Rock, xote, baião, xaxado, frevo, samba... Tudo é válido. Essa sonoridade Moraes Moreira colocou também em 'Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira', nome de seu último LP e do show que apresentou no Teatro Procópio Ferreira.
Neste show, sempre cabeludo e ainda misturando chorinhos com rock, Moraes se apresentou maravilhosamente bem, acompanhado de Oswaldinho (acordeon), Aroldo (guitarra baiana), Tony Costa (guitarra), Guilherme (baixo), Inácio (bateria), Baixinho (percussão), André (bumbo) e Zeca Barreto (vocal e cavaco elétrico).
'Sou da geração dos cabeludos, a geração da cabeça desfeita, que escuta tanto João Gilberto como Jimi Hendrix'. É assim que o baiano Moraes Moreira, 32 anos, costuma se definir.
'Eu e o João Gilberto vimos uma mulata descendo umas ladeiras do Rio de madrugada, mas na maior energia, no  maior swing. Aí, o João disse: 'lá vem o Brasil descendo a ladeira'. Eu guardei essa visão poética e, só no verão do ano passado, é que virou música. O João acabou batizando o meu disco e eu acabei dando o nome deste show, que venho apresentando por todos os estados e cidades brasileiras'.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

A MPB Que O Brasil Não Ouve - O Globo (2000)

Em sua edição de 20/02/2000, o jornal O Globo trazia uma interessante matéria sobre discos raros e até esquecidos de nossa música, que só poderiam ser encontrados no exterior. Hoje, passados mais de 17 anos da publicação da matéria, muita coisa mudou, alguns dos álbuns citados na matéria foram relançados por aqui, em CD ou vinil, mas a situação destacada ainda ocorre muito. Ainda hoje, muitos discos de música brasileira somente são encontrados no exterior. Em 2000, por exemplo, o vinil era considerado um item fora de cogitação no mercado da música em termos de relançamentos, numa época em que o CD imperava absoluto.
A matéria, assinada por Hugo Sukman, destacava vários álbuns básicos de um período distante, muitos deles esquecidos e até desconhecidos por uma grande parte de consumidores de música. A internet ainda não era popular e a ferramenta de pesquisa tão ampla como é hoje, por isso muitos álbuns de enorme valor artístico e considerados raros eram ainda desconhecidos. As capas de discos que ilustram essa postagem foram todos extraídos da matéria. É interessante ler o texto hoje:
"A história começou de forma charmosa, no célebre concerto de bossa nova no Carneggie Hall, em 1962. Prosseguiu enchendo o Brasil de orgulho quando ninguém menos do que 'the voice' Frank Sinatra gravou um disco inteiro ao lado de Tom Jobim. E continuou com notícias esparsas do reconhecimento deste ou daquele artista brasileiro mundo afora. A saga da música popular brasileira no exterior chega no ano 2000 a um paroxismo: de exportadores de música passamos a importadores. Da nossa música.
Dependendo do tipo de música brasileira que o consumidor queira ouvir, é mais fácil encontrar discos na Tower Records de Nova York, Londres ou Tóquio do que numa lojinha da rua Uruguaiana. 
- Entro em lojas no Japão, nos Estados Unidos ou na Europa e acho oito ou nove discos meus em catálogo. Aqui, entrei outro dia e não achei nenhum - exemplifica a cantora e compositora Joyce, um exemplo dos mais radicais de presença no exterior em contraponto à quase ausência por aqui.
Joyce, que lançou no final do ano o CD 'Hard Bossa' pelo selo inglês Far Out, sabe o que está falando. Gravou o disco num estúdio da Barra, todo com canções suas ou em parceria com Paulo César Pinheiro e Maurício Maestro, cantadas em português e tocadas  por músicos brasileiros. É um disco de MPB radical, tem até samba de roda. Vendeu cerca de 40 mil cópias no exterior, mas aqui não achou gravadora interessada.
Os discos que ilustram esta página, novos ou velhos LPs relançados em CD, todos comprados no exterior, são uma pequena amostra da situação: do sambista Wilson Moreira, que teve seu 'Okolofé' lançado só no Japão, à bossa nova de João Donato ('Quem É Quem'), Marcos Valle ('Samba 68'), Wanda Sá ('Vagamente') e Carlos Lyra ('Preciso Cantar' e 'Eu e Elas'), passando pelo melhor instrumental brasileiro de Eumir Deodato (os cinco discos gravados por sua orquestra Os Catedráticos) e Hermeto Pascoal ('Brazilian Adventure'), todos só estão disponíveis no Brasil nos escaninhos de importados das lojas especializadas.
- Da maneira como a indústria do disco está funcionando no Brasil, com o investimento pesado num tipo de música de sucesso imediato, realmente faz sentido que essas coisas não encontrem espaço - diz Marcos Valle, que também lançou seu último disco, 'Nova Bossa Nova,' pelo  inglês Far Out, quase um ano antes de conseguir distribuição brasileira pela independente  Natasha. - Hoje em dia, pelo menos 50% do volume do meu trabalho acontecem no exterior. Foi por causa da repercussão deste trabalho na Europa e no Japão, inclusive, que a minha carreira no Brasil tomou impulso de novo nos últimos dois anos.
Hoje, Marcos, assim como Joyce, prepara novo disco exclusivamente para o mercado externo. E, de novo, cantando em português, gravado no Rio, com músicos daqui. Brasileiríssimo, enfim.
Mas há casos ainda mais eloquentes da pobreza da nossa situação fonográfica em comparação às de Japão, Estados Unidos e Europa (que também têm o Só Pra Contrariar e o Padre Marcelo Rossi, mas não ficam só nisso). Cantora e compositora japonesa criada no Brasil, Lisa Ono não tem apenas um, mas 11 CDs dedicados à música brasileira, gravados nos anos 90. O penúltimo, 'Bossa Carioca', produzido por Paulo Jobim, já vendeu mais de 200 mil cópias no Japão.  Aqui, como toda a sua obra, que abrange bossa, samba e ritmos nordestinos, permanece inédito: a EMI brasileira não se interessou em lançar o original da EMI japonesa.
- Ela fica triste com isso - diz Mônica Ramos, produtora de Lisa no Brasil. - Seu sonho era ser lançada no país que a inspira e para o qual faz sua música.
Lisa está em Nova York gravando seu 13º disco, com arranjos de Eumir Deodato. O 12º, produzido por Oscar Castro Neves, traz standards americanos com levada de bossa.
- É raro, mesmo no Brasil, um trabalho de música brasileira tão denso como o de Lisa. Ela tinha que ser mais conhecida aqui - diz Joyce.
Não são somente os nomes consagrados que vivem mais fora do que dentro do país. Cantoras iniciantes tiveram que optar pelo mesmo caminho. O primeiro disco da celebrada cantora carioca Arícia Mess, 'Cabeça Coração', sai em março no Japão.  No Brasil, só no mês seguinte, e mesmo assim em tiragem independente, já que não houve interesse de gravadoras, mesmo em se tratando de um trabalho elogiado pela crítica, pop, eletrônico, contemporâneo.
- O Brasil tem um problema de auto-estima com as coisas dele, com os filhos dele - avalia Arícia. - Mas os filhos dele têm auto-estima. É um problema também econômico, de mercado. Com uma economia instável, o mercado fica doido. O artista tem, então, que criar o seu mercado.
As filhas de Joyce que também são cantoras, Clara Moreno e Ana Martins, também só conseguem gravar no Japão, mesmo em estilos distintos. A primeira faz música brasileira eletrônica e já está no terceiro CD. Ana vai estrear este ano com 'Futuros Amantes', numa linha pós-bossanovista.
Mercado parece ser mesmo a palavra-chave para entender o problema. O presidente da gravadora Universal, e também da Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), Marcelo Castelo Branco, atribui a situação à crise dos canais de distribuição e ao crescente interesse dos mercados externos pela música brasileira.
- Desde 1992 a Universal, quando ainda era Polygram, iniciou um processo de exportação da música brasileira. Desde então, nossos royalties aumentaram cinco vezes. Estamos falando de um mercado muito interessado em música brasileira, como o Japão, o segundo do mundo, onde um nicho desse mercado é equivalente ao total de países inteiros - diz.
 Para ele, contudo, é hora de a indústria brasileira de disco recuperar o tempo perdido e corrigir os erros do passado.
- Reconheço que não foi uma boa estratégia o relançamento que a Polygram fez, por exemplo, de alguns discos da Elenco (selo de Aloysio de Oliveira, o principal da bossa  nova nos anos 60). Tentamos modernizar as capas, colorizando-as. Mas percebemos que a sedução está no original.
Isso é fácil de perceber, bastando ver as reedições japonesas dos discos da Elenco: em 'Billy Blanco na Voz do Próprio', recém-lançado, a capa é rigorosamente a mesma, o elegante desenho em preto e branco com detalhes vermelhos que caracterizava a gravadora, e até os textos em português são mantidos - as informações em japonês vêm em encarte à parte. Esse padrão é repetido em qualquer disco brasileiro lançado no exterior.
- A Universal tem esse patrimônio todo e tem o dever de botá-lo à disposição do mercado - reconhece o executivo, que já anuncia pra julho a reedição (respeitando os originais) de preciosidades como a trilha sonora do filme 'Garota de Ipanema', de Eumir Deodato sobre canções de Tom, Vinícius e do Chico Buarque iniciante, da vanguardista série de 'Afro-sambas, de Baden Powell e Vinícius, e mais originais de Maysa e Tamba Trio e o 'Samba 68' de Marcos Valle - coisas que o Japão e o mundo já vem ouvindo há muito tempo.
Se a maior gravadora parece querer acordar dentro do subdesenvolvimento do mercado, os artistas contemporâneos ainda estão descrentes.
- O pop, a partir de minha geração, virou a situação. Faço música de oposição - brinca Joyce, que vem ganhando fãs variados pelo mundo, dos tradicionais cultores das riquezas harmônicas da música brasileira a radicais roqueiros americanos e os eletrônicos ingleses, que vivem elogiando a cantora pela Internet por sua postura musical livre. "

domingo, 7 de maio de 2017

Caetano Num Show Integral e Natural (1978)

Em janeiro de 1978, o Jornal de Música trazia uma resenha de um show de Caetano Veloso no Teatro Clara Nunes, no fim de 1977. O show tinha a participação especial de Sérgio Dias na guitarra, e foi o show que sucedeu a temporada do Bicho Baile Show, em que Caetano se apresentava ao lado da Banda Black Rio. A matéria é assinada por Antônio Carlos Miguel:
"Eu tinha gostado do Bicho Baile Show, de Caetano com a Banda Black Rio, mas este show atual é bem superior. Tem mais a ver com toda transação caetânica. Se em Bicho a atmosfera parecia um pouco forçada, apesar do repertório e dos últimos músicos da Banda - o melhor grupo instrumental de 1977 - neste novo show Caetano está bem natural, com todo pique e toda suavidade peculiar.
Bicho foi em parte um trabalho conceitual que demonstrava a vontade de Caetano em fazer uma música mais próxima à dança e origens afro-brasileiras. Talvez por isso mesmo o destaque maior foi para a Banda. Havia por parte de Caetano interesse em dar força à música instrumental. Para todas essas ideias se completarem integralmente faltou um melhor entrosamento entre os dois trabalhos. A música de Caetano soava um pouco estranha, não se adaptando aos arranjos 'Black Rios'.
Este é um problema que não existe neste novo show, a impressão é de que estamos em casa. Tecnologia integral e natural. Mesmo voltando ao esquema 'banquinho-violão' temos um espetáculo solto e descontraído. Caetano está tranquilo, conversando bastante com o público, transmitindo toda sua segurança frágil. O show utiliza poucos recursos, nenhum cenário e uma iluminação discreta. Os músicos que o acompanham se integram neste clima todo. Alguns deles têm um contato bastante intenso com Caetano, Arnaldo Brandão (baixo e violão de 7 cordas) e Vinícius Cantuária (bateria e guitarra acústica) participaram do disco Bicho e tocam em 'jam sessions' caseiras; este também é o caso de Tomás Improta (piano acústico e elétrico). Na percussão está Marcos Amma. Nesta apresentação no Teatro Clara Nunes - este show já tinha sido apresentado no Teatro do Instituto de Educação e na Concha Verde - há ainda a participação superespecial de Sérgio Dias Baptista (guitarrista dos Mutantes).
O show começa com uma série de músicas acústicas, 'Leãozinho' é a primeira, na segunda música são apresentados os músicos e entra em cena dando 'uma supercanja', Sérgio. Enquanto Caetano canta Sérgio preenche todos os espaços e voa alto com seus solos mutantes. São apresentadas algumas composições novas, inclusive 'Sampa', o samba que Caetano fez para São Paulo... 'o samba é hoje em dia uma música típica de São Paulo'. Em seguida vem 'Rio'. Estas duas músicas já bastam para mostrar que ele continua sendo o mais instigante poeta/letrista na música brasileira. Algo como a loucura da lucidez. Antes do intervalo uma homenagem a Dylan, todos cantando 'Don't think twice, it's all right'.
Na segunda parte, só ao violão, Caetano interpreta alguns 'standards' da MPB: 'Quem Vem da Beira do Mar' (Dorival Caymmi), 'Eu Sei Que Vou Te Amar' (Tom Jobim- Vinícius de Moraes) e 'De Você Eu Gosto' (Tom Jobim- Aloysio de Oliveira).
No final, com o grupo novamente, são apresentados, entre outras, 'Tigresa', 'Um Índio' e a incrível 'Muito Romântico' - gravada por Roberto Carlos em seu último disco. A interpretação de Caetano tem muita garra, superando a gravação de Roberto. Sérgio contribui com um lindo solo, que desta vez o obriga a se levantar da cadeira - até então ele tinha tocado sentado, com um painel de pedais.
O trabalho do grupo está perfeito. Arnaldo segura no baixo, Vinícius, além da bateria, dando uma boa ajuda nos 'backing vocals' e na guitarra acústica. Outro destaque  para o trabalho de Tomás Improta no piano, com solos saborosos em contraponto ao canto de Caetano - por exemplo a música 'Love, Love, Love' - e a guitarra de Sérgio.
Fechando o show, não podia faltar, 'Odara'. "

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Sérgio Dias - Jornal Rock Press (1984) - 2ª Parte

"Não acredito em fronteiras, não acredito em países, não acredito em nada disso e acho que este é o grande câncer da raça humana. A situação atual do mundo, tantas guerras em nome da raça humana. A situação, tantas guerras em nome de fronteiras... Eu acho que a Terra é de todos, se as coisas fossem feitas de uma maneira mais racional seria bem melhor. Haver fome no mundo é um absurdo, o desemprego é outro absurdo. Acho que a consciência que faz um país deveria existir no nível terrestre. Mas eu vivo muito longe disso tudo; minha cabeça não funciona nesse sentido. É a minha visão musical: acredito na união dos sons, sem, é claro, perder seus próprios tesouros. O Brasil é o Brasil porque sofreu influência de todas as pessoas e culturas que vieram para cá. O samba ou o rock feitos aqui são diferentes dos de outras partes do mundo. Um judeu é um judeu em qualquer parte do mundo; um brasileiro é um brasileiro seja na Europa, na Ásia ou nos Estados Unidos.
Meu lado místico, atualmente, está bem realista. Ando voltado para mim mesmo, voltado para o meu auto crescimento. Não estou preocupado em divulgar as maravilhas do conhecimento, estou guardando comigo mesmo. Eu sei que a evolução é de cada um; não adianta ficar dizendo que Coca-Cola é gostoso até você experimentar, gostar ou não. Acho que era um pouco infantil de minha parte ficar falando a respeito dessa coisa mística. Era um desbunde, mas acho que na época foi válido. Hoje provavelmente eu falaria de política em minhas músicas. Não uma coisa de partido, dirigida, porque eu não sou politizado. Caetano é político, eu entendo de guitarras. Tenho vontade de falar da fome, da tristeza que isso me dá e de como vocês aguentam isso, como eu, sendo brasileiro, sou capaz de ficar assim... Talvez minhas letras não sejam letras para as massas, mas eu gosto de escrever, de falar das coisas. Na música Incredible Selfish Machine eu digo: 'Time to be by yourself, time to do all by yourself, while the incredible selfish machine goes on the road'. Quer dizer: tempo de você ficar sozinho, de fazer as coisas por si mesmo, enquanto essa incrível máquina egoísta continua pelo mundo. Isto no final é uma incongruência porque pra conseguir sobreviver dentro do egoísmo você tem que ser egoísta também, senão desmancha. Se o Brasil não for mais egoísta ele vai dançar brabo de verde e amarelo.
Sou careta. No momento eu sou caretíssimo. Mas já viajei muito, já ganhei meu brevê. Isso faz parte daquele papo místico: você descobre caminhos e você vai subindo devagar. Não adianta subir de elevador se não corre o risco de chegar lá em cima e descobrir que não tem estrutura para segurar a barra. Realmente a droga é uma coisa perigosa, te engana muito, pode fazer chegar a conclusões que depois, quando você volta não se enquadram na realidade. O próprio Castañeda fala dos antigos videntes que dançaram porque classificavam as coisas em dois níveis: o conhecido e o desconhecido. Isso provocava um aumento no ego porque eles se sentiam capazes de  chegar ao domínio total do desconhecido. Agora, os novos videntes dizem que existe um conhecido, o desconhecido e o que você nunca vai conhecer. Isso é mais real. Muita gente que se aventurou além do próprio desconhecido dançou brabo. As pessoas chegam a um nível de consciência o desconhecido que distorce totalmente a realidade do nível conhecido. Portanto é uma coisa muito perigosa se não for transada com muito know how.
Basicamente toda a raça humana é iluminada pelo mesmo espírito: Deus. Com ácido você pode chegar ao nível consciente disso e é fantástico. É o caminho para a telepatia, porque se todos nós somos um, você é a outra pessoa. Aquilo que Cristo dizia: Ama o próximo como a ti mesmo. Como Lennon dizia: I am you as you are me and we are all together. É basicamente o que o Zen Budismo ensina, enfim o que todas as religiões ensinam. Com ácido vc vive tudo isso numa situação real mas é difícil porque se de repente você, por exemplo, vira uma pessoa só com o mundo; você sofre todas as influências negativas que estiveram acontecendo e para isso é preciso ter um ego suficientemente forte para segurar a peteca. É muito de cada um, eu vejo uma coisa muito kármica nisso tudo. O Arnaldo, por exemplo, teve as mesmas experiências que eu mas foi pior para ele do que para mim.
No início tudo era uma festa. Na época eu tinha uns 14 anos. Comecei tocando no Six Sides Rockers, que era uma fusão dos conjuntos da Rita Lee e do Arnaldo. Eles me convidaram para ser o solista da banda e eu aceitei. Com a saída do batera, o Arnaldo veio com a ideia de fazermos um trio... o que eu achei péssimo. Imagina um guitarrista tocando sozinho com um baixista, sem bateria... Eu não acreditava, mas aí a gente fez os Mutantes. Mais tarde entrariam o Dinho na bateria e o Liminha no baixo. O primeiro disco dos Mutantes foi gravado em 67. A gente sentava e compunha juntos, mas muitas coisas eram influenciadas por outras que a gente ouvia. Daí fazíamos uma coisa purista, não tinha essa de dizer: ah, vamos copiar. Tem citações de músicas dos Mutantes que são basicamente isso. Se for para pensar em termos de plágio são totalmente roubadas até, mas era o que a gente sentia em relação àquilo. Passou a ser uma linguagem.
Atualmente não gosto do que a Rita anda fazendo. Acho muito chato. A Rita é bem melhor que isso. Sei que ela está ganhando dinheiro mas eu não me sacrificaria a esse ponto, de tocar bolero, para sobreviver. Prefiro comer pão mais barato e tocar o que gosto. Talvez ela nunca tenha sido rock and roll, mas ela fala coisas boas; é uma excelente letrista, é muito forte... de qualquer maneira estou muito envolvido para falar sobre isso. Basicamente o que importa é se ela está feliz. O Arnaldo é gênio, é fantástico. Foi ele quem fez tudo isso que vocês sabem. É uma pena ver o que aconteceu.
Eu não acho que o rock progressivo esteja morto como muitos dizem. O que aconteceu foi uma volta às origens com o punk e o new wave. Uma aproximação ao grito interior, uma coisa de raça. Mas tudo está tendo novamente a mesma evolução de dez anos atrás. Ninguém aguenta a mesma coisa durante muito tempo e logicamente ela terá de evoluir. Vejam, por exemplo, os primeiros discos do Police e comparem com os últimos, que são bem mais progressive. Vejam que o Yes  está voltando e que é progressive total. O Rush também é bem progressivo... Eu acho que agora o progressivo vai voltar mais forte, sem aquele caráter clássico de antes. A roupagem vai ser uma coisa dos anos 80: muita máquina, muita tecnologia, mais ainda com a espacialidade que o progressivo dá... e que é bom. Acho que sou essencialmente progressivo, as cores dessa música me fascinam muito. O espaço que você tem dentro do progressivo é uma coisa bem interior e eu sou uma pessoa muito interiorizada; minha música é algo bem a esse nível. Gosto de traduzir esse mundo musicalmente e o progressivo, com certeza é a melhor maneira para isso. No tempo dos Mutantes eu era responsável pelo progressivo, os sons, os solos, essas coisas era basicamente eu que transava. Sempre  foi minha função maior dentro dos Mutantes a inovação sonora.

Primavera de 1984 - Rio e Janeiro "