Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Caetano Fala Sobre o Início de Carreira de Bethânia

A revista MPB Especial, que circulou no fim dos anos 70 e início dos 80 publicou um número especial com Maria Bethânia, contando sua vida e carreira. A revista, que foi às bancas em 1980, trazia um depoimento de Caetano, falando do início da carreira da irmã, e sua vinda para o Rio de Janeiro para substituir Nara Leão no espetáculo Opinião. Caetano fala de uma época em que Bethânia era ainda muito menina, e já estava envolvida com música, assim como o próprio Caetano e um grupo de amigos, que mais tarde iriam criar o Tropicalismo, e ganhar o Brasil. Eis o depoimento de Caetano:
"Aconteceu uma coisa impressionante comigo em 1964. É uma história que talvez revele muito do que são as verdadeiras relações entre minha grande irmã Maria Bethânia e eu. Nesse ano de 64 nós ainda éramos estudantes e tínhamos feito alguns espetáculos semi-profissionais no Teatro Vila Velha, em Salvador. No final daquela ano, um amigo meu, Pedrinho Nóvis, me convidou pra passar as férias de verão numa fazenda que os pais dele têm no recôncavo da Bahia, e eu fui com ele. A fazenda era linda, era um lugar lindo, a gente andava a cavalo... Pedrinho era lindo, eu não tinha nenhuma razão para querer sair de lá. Mas dez dias depois de quando eu tinha chegado, senti como que uma necessidade muito forte dentro de mim de voltar pra Salvador. Primeiro por causa de Maria Bethânia. Contei pra Pedrinho e ele falou que eu estava ficando louco, mas eu sentia como se Bethânia estivesse me chamando.
Mas pra eu sair daquele lugar eu ia precisar de uma condução e não havia. Quer dizer, a condução que havia ali, que era dos pais de Pedrinho, apenas tinha chegado. Ninguém estava com planos de voltar pra Salvador. A estrada ficava longe da fazenda e a fazenda também ficava longe de Salvador. Eu não tinha um meio de sair dali. De repente apareceu um pessoal, uns parentes do pai de Pedrinho, vindos não sei de onde, para pernoitar ali e ir para Salvador no dia seguinte pela manhã. Eles estavam numa caminhonete. Aí eu falei pra Pedrinho; 'Eu vou nessa caminhonete', e Pedrinho disse: 'Eu fico de mal com você se você for'. Ele achava que eu estava inventando um pretexto, mas não era. Eu sentia aquilo muito forte. O fato é que ele era muito cético, me convenceu, e eu não fui.
No dia seguinte, de manhã bem cedo, a caminhonete partiu, ficou aquela poeira, e eu fiquei angustiado e com a certeza absoluta de que Bethânia precisava de mim. Mas a única condução que tinha pintado, eu tinha deixado dançar, não via perspectiva de ir a Salvador. Quando de noite na hora do jantar o pai de Pedrinho chegou e disse assim: 'Estou me sentindo febril, não sei a razão, e vou precisar ir pra Salvador amanhã cedo para consultar um médico', eu nem passei pelo filtro de Pedrinho, já fui direto ao pai: 'Dr. Renato, eu vou com o senhor'. Ele estranhou porque a princípio eu havia dito que ficaria um mês. Pedrinho me olhou assim meio com raiva do outro lado da mesa, mas eu fui com o pai dele.
capa de revista
A gente saiu de carro pela manhã. E pra ir dessa fazenda pra Salvador, passa-se por Santo Amaro da Purificação, nossa cidade, e quando o carro passou por lá, minha cabeça virou. Eu disse pra mim mesmo: 'Pô, Pedrinho tem razão. Como é que eu estou saindo de um lugar que eu estou adorando e indo pra Salvador, quando não tem nada de concreto me chamando lá? É tudo dentro da minha cabeça... isso é loucura mesmo. Sabe o que eu vou fazer? Vou saltar aqui mesmo em Santo Amaro, vou pra casa de Mabel (Mabel é nossa irmã mais velha, que ainda morava em Santo Amaro a essa altura) fico lá uns dias, depois eu vou pra Salvador.
Aí falei com o pai de Pedrinho, ele ficou um pouco surpreso, mas parou, eu saltei e fui andando pra casa de Mabel. Quando eu cheguei na porta de sua casa, minha cabeça virou de novo. Eu pensei, 'não pode ser loucura, só uma razão me faria saltar em Santo Amaro, na casa de Mabel'. Bati na porta, Mabel me atendeu alegre, surpresa, e eu fui logo perguntando por Bethânia. Ela disse que não, que Bethânia não havia combinado nada de ir pra Santo Amaro. Estava em Salvador mesmo. Foi quando achei que era loucura; que tinha de tirar aquilo da cabeça, mas não conseguia.
Perto da hora do almoço, alguém bateu na porta, Mabel abriu, era Bethânia! Aí eu olhei pra ela assim com os olhos cheios de interrogação e ela 'Oi? que é que há?', normal, me deu um beijo. Achei impossível que tudo coincidisse e não fosse nada. Mas durante o almoço, o telefone tocou. Era uma chamada de Salvador, de Nilda Spencer, trazendo um recado dos produtores do espetáculo Opinião, do Rio de Janeiro, convidando Bethânia para substituir Nara Leão naquele show. É engraçado a força que as coisas parecem ter, quando elas precisam acontecer. "

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Moraes Moreira - Revista Música (1980)

Em 1980 Moraes Moreira seguia sua carreira com grande sucesso. O ex-componente dos Novos Baianos havia lançado no ano anterior um álbum de grande sucesso, "Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira", e vinha fazendo muitos shows pelo Brasil. Na ocasião a revista Música, em matéria  assinada por Cleide Nascimento, falava de Moraes e sua mistura de chorinhos, frevos e rocks:
"Antonio Carlos Moraes Pires, o Moraes Moreira, já não é mais o músico de Ituaçu, do interior da Bahia. Também não pertence ao grupo Novos Baianos, com quem conviveu durante 7 anos e que se tornou figura nacional. Pós-tropicalistas, como eles mesmos se definiam, chegaram a São Paulo numa época pouco fácil aos cabeludos e às irreverências.
Hoje, Moraes Moreira é o músico universal, o poeta que em versos intuitivos fala de seu novo tempo. Pombo Correio, uma espécie de hino carnavalesco deste ano, que o diga.
O pique de Trio Elétrico, aliás, está em tudo o que Moraes faz: 'o Trio pintou quando eu era menino. Totalmente original, desde o caminhão até a música'. Mas, só em 74 que Moraes partiu para a carreira solo, onde participou com duas músicas do LP Trio Elétrico de Dodô e Osmar, e de lá para cá gravou quatro discos só dele: 'Moraes Moreira', 'Cara e Coração' (com o sucesso de Pombo Correio), 'Alto Falante' (lembrando das audições musicais de fim de tarde na sua cidadezinha).
Moraes, no limite entre o popular e o popularesco, não perde o equilíbrio. Suas melodias, simples e diretas, saem sem querer, quando a gente começa a assobiar. E, ao mesmo tempo, são complicadas e trabalhadas, mistura de Jimi Hendrix - dizem - com um pouco do carnaval da Bahia.
Rock, xote, baião, xaxado, frevo, samba... Tudo é válido. Essa sonoridade Moraes Moreira colocou também em 'Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira', nome de seu último LP e do show que apresentou no Teatro Procópio Ferreira.
Neste show, sempre cabeludo e ainda misturando chorinhos com rock, Moraes se apresentou maravilhosamente bem, acompanhado de Oswaldinho (acordeon), Aroldo (guitarra baiana), Tony Costa (guitarra), Guilherme (baixo), Inácio (bateria), Baixinho (percussão), André (bumbo) e Zeca Barreto (vocal e cavaco elétrico).
'Sou da geração dos cabeludos, a geração da cabeça desfeita, que escuta tanto João Gilberto como Jimi Hendrix'. É assim que o baiano Moraes Moreira, 32 anos, costuma se definir.
'Eu e o João Gilberto vimos uma mulata descendo umas ladeiras do Rio de madrugada, mas na maior energia, no  maior swing. Aí, o João disse: 'lá vem o Brasil descendo a ladeira'. Eu guardei essa visão poética e, só no verão do ano passado, é que virou música. O João acabou batizando o meu disco e eu acabei dando o nome deste show, que venho apresentando por todos os estados e cidades brasileiras'.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

A MPB Que O Brasil Não Ouve - O Globo (2000)

Em sua edição de 20/02/2000, o jornal O Globo trazia uma interessante matéria sobre discos raros e até esquecidos de nossa música, que só poderiam ser encontrados no exterior. Hoje, passados mais de 17 anos da publicação da matéria, muita coisa mudou, alguns dos álbuns citados na matéria foram relançados por aqui, em CD ou vinil, mas a situação destacada ainda ocorre muito. Ainda hoje, muitos discos de música brasileira somente são encontrados no exterior. Em 2000, por exemplo, o vinil era considerado um item fora de cogitação no mercado da música em termos de relançamentos, numa época em que o CD imperava absoluto.
A matéria, assinada por Hugo Sukman, destacava vários álbuns básicos de um período distante, muitos deles esquecidos e até desconhecidos por uma grande parte de consumidores de música. A internet ainda não era popular e a ferramenta de pesquisa tão ampla como é hoje, por isso muitos álbuns de enorme valor artístico e considerados raros eram ainda desconhecidos. As capas de discos que ilustram essa postagem foram todos extraídos da matéria. É interessante ler o texto hoje:
"A história começou de forma charmosa, no célebre concerto de bossa nova no Carneggie Hall, em 1962. Prosseguiu enchendo o Brasil de orgulho quando ninguém menos do que 'the voice' Frank Sinatra gravou um disco inteiro ao lado de Tom Jobim. E continuou com notícias esparsas do reconhecimento deste ou daquele artista brasileiro mundo afora. A saga da música popular brasileira no exterior chega no ano 2000 a um paroxismo: de exportadores de música passamos a importadores. Da nossa música.
Dependendo do tipo de música brasileira que o consumidor queira ouvir, é mais fácil encontrar discos na Tower Records de Nova York, Londres ou Tóquio do que numa lojinha da rua Uruguaiana. 
- Entro em lojas no Japão, nos Estados Unidos ou na Europa e acho oito ou nove discos meus em catálogo. Aqui, entrei outro dia e não achei nenhum - exemplifica a cantora e compositora Joyce, um exemplo dos mais radicais de presença no exterior em contraponto à quase ausência por aqui.
Joyce, que lançou no final do ano o CD 'Hard Bossa' pelo selo inglês Far Out, sabe o que está falando. Gravou o disco num estúdio da Barra, todo com canções suas ou em parceria com Paulo César Pinheiro e Maurício Maestro, cantadas em português e tocadas  por músicos brasileiros. É um disco de MPB radical, tem até samba de roda. Vendeu cerca de 40 mil cópias no exterior, mas aqui não achou gravadora interessada.
Os discos que ilustram esta página, novos ou velhos LPs relançados em CD, todos comprados no exterior, são uma pequena amostra da situação: do sambista Wilson Moreira, que teve seu 'Okolofé' lançado só no Japão, à bossa nova de João Donato ('Quem É Quem'), Marcos Valle ('Samba 68'), Wanda Sá ('Vagamente') e Carlos Lyra ('Preciso Cantar' e 'Eu e Elas'), passando pelo melhor instrumental brasileiro de Eumir Deodato (os cinco discos gravados por sua orquestra Os Catedráticos) e Hermeto Pascoal ('Brazilian Adventure'), todos só estão disponíveis no Brasil nos escaninhos de importados das lojas especializadas.
- Da maneira como a indústria do disco está funcionando no Brasil, com o investimento pesado num tipo de música de sucesso imediato, realmente faz sentido que essas coisas não encontrem espaço - diz Marcos Valle, que também lançou seu último disco, 'Nova Bossa Nova,' pelo  inglês Far Out, quase um ano antes de conseguir distribuição brasileira pela independente  Natasha. - Hoje em dia, pelo menos 50% do volume do meu trabalho acontecem no exterior. Foi por causa da repercussão deste trabalho na Europa e no Japão, inclusive, que a minha carreira no Brasil tomou impulso de novo nos últimos dois anos.
Hoje, Marcos, assim como Joyce, prepara novo disco exclusivamente para o mercado externo. E, de novo, cantando em português, gravado no Rio, com músicos daqui. Brasileiríssimo, enfim.
Mas há casos ainda mais eloquentes da pobreza da nossa situação fonográfica em comparação às de Japão, Estados Unidos e Europa (que também têm o Só Pra Contrariar e o Padre Marcelo Rossi, mas não ficam só nisso). Cantora e compositora japonesa criada no Brasil, Lisa Ono não tem apenas um, mas 11 CDs dedicados à música brasileira, gravados nos anos 90. O penúltimo, 'Bossa Carioca', produzido por Paulo Jobim, já vendeu mais de 200 mil cópias no Japão.  Aqui, como toda a sua obra, que abrange bossa, samba e ritmos nordestinos, permanece inédito: a EMI brasileira não se interessou em lançar o original da EMI japonesa.
- Ela fica triste com isso - diz Mônica Ramos, produtora de Lisa no Brasil. - Seu sonho era ser lançada no país que a inspira e para o qual faz sua música.
Lisa está em Nova York gravando seu 13º disco, com arranjos de Eumir Deodato. O 12º, produzido por Oscar Castro Neves, traz standards americanos com levada de bossa.
- É raro, mesmo no Brasil, um trabalho de música brasileira tão denso como o de Lisa. Ela tinha que ser mais conhecida aqui - diz Joyce.
Não são somente os nomes consagrados que vivem mais fora do que dentro do país. Cantoras iniciantes tiveram que optar pelo mesmo caminho. O primeiro disco da celebrada cantora carioca Arícia Mess, 'Cabeça Coração', sai em março no Japão.  No Brasil, só no mês seguinte, e mesmo assim em tiragem independente, já que não houve interesse de gravadoras, mesmo em se tratando de um trabalho elogiado pela crítica, pop, eletrônico, contemporâneo.
- O Brasil tem um problema de auto-estima com as coisas dele, com os filhos dele - avalia Arícia. - Mas os filhos dele têm auto-estima. É um problema também econômico, de mercado. Com uma economia instável, o mercado fica doido. O artista tem, então, que criar o seu mercado.
As filhas de Joyce que também são cantoras, Clara Moreno e Ana Martins, também só conseguem gravar no Japão, mesmo em estilos distintos. A primeira faz música brasileira eletrônica e já está no terceiro CD. Ana vai estrear este ano com 'Futuros Amantes', numa linha pós-bossanovista.
Mercado parece ser mesmo a palavra-chave para entender o problema. O presidente da gravadora Universal, e também da Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), Marcelo Castelo Branco, atribui a situação à crise dos canais de distribuição e ao crescente interesse dos mercados externos pela música brasileira.
- Desde 1992 a Universal, quando ainda era Polygram, iniciou um processo de exportação da música brasileira. Desde então, nossos royalties aumentaram cinco vezes. Estamos falando de um mercado muito interessado em música brasileira, como o Japão, o segundo do mundo, onde um nicho desse mercado é equivalente ao total de países inteiros - diz.
 Para ele, contudo, é hora de a indústria brasileira de disco recuperar o tempo perdido e corrigir os erros do passado.
- Reconheço que não foi uma boa estratégia o relançamento que a Polygram fez, por exemplo, de alguns discos da Elenco (selo de Aloysio de Oliveira, o principal da bossa  nova nos anos 60). Tentamos modernizar as capas, colorizando-as. Mas percebemos que a sedução está no original.
Isso é fácil de perceber, bastando ver as reedições japonesas dos discos da Elenco: em 'Billy Blanco na Voz do Próprio', recém-lançado, a capa é rigorosamente a mesma, o elegante desenho em preto e branco com detalhes vermelhos que caracterizava a gravadora, e até os textos em português são mantidos - as informações em japonês vêm em encarte à parte. Esse padrão é repetido em qualquer disco brasileiro lançado no exterior.
- A Universal tem esse patrimônio todo e tem o dever de botá-lo à disposição do mercado - reconhece o executivo, que já anuncia pra julho a reedição (respeitando os originais) de preciosidades como a trilha sonora do filme 'Garota de Ipanema', de Eumir Deodato sobre canções de Tom, Vinícius e do Chico Buarque iniciante, da vanguardista série de 'Afro-sambas, de Baden Powell e Vinícius, e mais originais de Maysa e Tamba Trio e o 'Samba 68' de Marcos Valle - coisas que o Japão e o mundo já vem ouvindo há muito tempo.
Se a maior gravadora parece querer acordar dentro do subdesenvolvimento do mercado, os artistas contemporâneos ainda estão descrentes.
- O pop, a partir de minha geração, virou a situação. Faço música de oposição - brinca Joyce, que vem ganhando fãs variados pelo mundo, dos tradicionais cultores das riquezas harmônicas da música brasileira a radicais roqueiros americanos e os eletrônicos ingleses, que vivem elogiando a cantora pela Internet por sua postura musical livre. "

domingo, 7 de maio de 2017

Caetano Num Show Integral e Natural (1978)

Em janeiro de 1978, o Jornal de Música trazia uma resenha de um show de Caetano Veloso no Teatro Clara Nunes, no fim de 1977. O show tinha a participação especial de Sérgio Dias na guitarra, e foi o show que sucedeu a temporada do Bicho Baile Show, em que Caetano se apresentava ao lado da Banda Black Rio. A matéria é assinada por Antônio Carlos Miguel:
"Eu tinha gostado do Bicho Baile Show, de Caetano com a Banda Black Rio, mas este show atual é bem superior. Tem mais a ver com toda transação caetânica. Se em Bicho a atmosfera parecia um pouco forçada, apesar do repertório e dos últimos músicos da Banda - o melhor grupo instrumental de 1977 - neste novo show Caetano está bem natural, com todo pique e toda suavidade peculiar.
Bicho foi em parte um trabalho conceitual que demonstrava a vontade de Caetano em fazer uma música mais próxima à dança e origens afro-brasileiras. Talvez por isso mesmo o destaque maior foi para a Banda. Havia por parte de Caetano interesse em dar força à música instrumental. Para todas essas ideias se completarem integralmente faltou um melhor entrosamento entre os dois trabalhos. A música de Caetano soava um pouco estranha, não se adaptando aos arranjos 'Black Rios'.
Este é um problema que não existe neste novo show, a impressão é de que estamos em casa. Tecnologia integral e natural. Mesmo voltando ao esquema 'banquinho-violão' temos um espetáculo solto e descontraído. Caetano está tranquilo, conversando bastante com o público, transmitindo toda sua segurança frágil. O show utiliza poucos recursos, nenhum cenário e uma iluminação discreta. Os músicos que o acompanham se integram neste clima todo. Alguns deles têm um contato bastante intenso com Caetano, Arnaldo Brandão (baixo e violão de 7 cordas) e Vinícius Cantuária (bateria e guitarra acústica) participaram do disco Bicho e tocam em 'jam sessions' caseiras; este também é o caso de Tomás Improta (piano acústico e elétrico). Na percussão está Marcos Amma. Nesta apresentação no Teatro Clara Nunes - este show já tinha sido apresentado no Teatro do Instituto de Educação e na Concha Verde - há ainda a participação superespecial de Sérgio Dias Baptista (guitarrista dos Mutantes).
O show começa com uma série de músicas acústicas, 'Leãozinho' é a primeira, na segunda música são apresentados os músicos e entra em cena dando 'uma supercanja', Sérgio. Enquanto Caetano canta Sérgio preenche todos os espaços e voa alto com seus solos mutantes. São apresentadas algumas composições novas, inclusive 'Sampa', o samba que Caetano fez para São Paulo... 'o samba é hoje em dia uma música típica de São Paulo'. Em seguida vem 'Rio'. Estas duas músicas já bastam para mostrar que ele continua sendo o mais instigante poeta/letrista na música brasileira. Algo como a loucura da lucidez. Antes do intervalo uma homenagem a Dylan, todos cantando 'Don't think twice, it's all right'.
Na segunda parte, só ao violão, Caetano interpreta alguns 'standards' da MPB: 'Quem Vem da Beira do Mar' (Dorival Caymmi), 'Eu Sei Que Vou Te Amar' (Tom Jobim- Vinícius de Moraes) e 'De Você Eu Gosto' (Tom Jobim- Aloysio de Oliveira).
No final, com o grupo novamente, são apresentados, entre outras, 'Tigresa', 'Um Índio' e a incrível 'Muito Romântico' - gravada por Roberto Carlos em seu último disco. A interpretação de Caetano tem muita garra, superando a gravação de Roberto. Sérgio contribui com um lindo solo, que desta vez o obriga a se levantar da cadeira - até então ele tinha tocado sentado, com um painel de pedais.
O trabalho do grupo está perfeito. Arnaldo segura no baixo, Vinícius, além da bateria, dando uma boa ajuda nos 'backing vocals' e na guitarra acústica. Outro destaque  para o trabalho de Tomás Improta no piano, com solos saborosos em contraponto ao canto de Caetano - por exemplo a música 'Love, Love, Love' - e a guitarra de Sérgio.
Fechando o show, não podia faltar, 'Odara'. "

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Sérgio Dias - Jornal Rock Press (1984) - 2ª Parte

"Não acredito em fronteiras, não acredito em países, não acredito em nada disso e acho que este é o grande câncer da raça humana. A situação atual do mundo, tantas guerras em nome da raça humana. A situação, tantas guerras em nome de fronteiras... Eu acho que a Terra é de todos, se as coisas fossem feitas de uma maneira mais racional seria bem melhor. Haver fome no mundo é um absurdo, o desemprego é outro absurdo. Acho que a consciência que faz um país deveria existir no nível terrestre. Mas eu vivo muito longe disso tudo; minha cabeça não funciona nesse sentido. É a minha visão musical: acredito na união dos sons, sem, é claro, perder seus próprios tesouros. O Brasil é o Brasil porque sofreu influência de todas as pessoas e culturas que vieram para cá. O samba ou o rock feitos aqui são diferentes dos de outras partes do mundo. Um judeu é um judeu em qualquer parte do mundo; um brasileiro é um brasileiro seja na Europa, na Ásia ou nos Estados Unidos.
Meu lado místico, atualmente, está bem realista. Ando voltado para mim mesmo, voltado para o meu auto crescimento. Não estou preocupado em divulgar as maravilhas do conhecimento, estou guardando comigo mesmo. Eu sei que a evolução é de cada um; não adianta ficar dizendo que Coca-Cola é gostoso até você experimentar, gostar ou não. Acho que era um pouco infantil de minha parte ficar falando a respeito dessa coisa mística. Era um desbunde, mas acho que na época foi válido. Hoje provavelmente eu falaria de política em minhas músicas. Não uma coisa de partido, dirigida, porque eu não sou politizado. Caetano é político, eu entendo de guitarras. Tenho vontade de falar da fome, da tristeza que isso me dá e de como vocês aguentam isso, como eu, sendo brasileiro, sou capaz de ficar assim... Talvez minhas letras não sejam letras para as massas, mas eu gosto de escrever, de falar das coisas. Na música Incredible Selfish Machine eu digo: 'Time to be by yourself, time to do all by yourself, while the incredible selfish machine goes on the road'. Quer dizer: tempo de você ficar sozinho, de fazer as coisas por si mesmo, enquanto essa incrível máquina egoísta continua pelo mundo. Isto no final é uma incongruência porque pra conseguir sobreviver dentro do egoísmo você tem que ser egoísta também, senão desmancha. Se o Brasil não for mais egoísta ele vai dançar brabo de verde e amarelo.
Sou careta. No momento eu sou caretíssimo. Mas já viajei muito, já ganhei meu brevê. Isso faz parte daquele papo místico: você descobre caminhos e você vai subindo devagar. Não adianta subir de elevador se não corre o risco de chegar lá em cima e descobrir que não tem estrutura para segurar a barra. Realmente a droga é uma coisa perigosa, te engana muito, pode fazer chegar a conclusões que depois, quando você volta não se enquadram na realidade. O próprio Castañeda fala dos antigos videntes que dançaram porque classificavam as coisas em dois níveis: o conhecido e o desconhecido. Isso provocava um aumento no ego porque eles se sentiam capazes de  chegar ao domínio total do desconhecido. Agora, os novos videntes dizem que existe um conhecido, o desconhecido e o que você nunca vai conhecer. Isso é mais real. Muita gente que se aventurou além do próprio desconhecido dançou brabo. As pessoas chegam a um nível de consciência o desconhecido que distorce totalmente a realidade do nível conhecido. Portanto é uma coisa muito perigosa se não for transada com muito know how.
Basicamente toda a raça humana é iluminada pelo mesmo espírito: Deus. Com ácido você pode chegar ao nível consciente disso e é fantástico. É o caminho para a telepatia, porque se todos nós somos um, você é a outra pessoa. Aquilo que Cristo dizia: Ama o próximo como a ti mesmo. Como Lennon dizia: I am you as you are me and we are all together. É basicamente o que o Zen Budismo ensina, enfim o que todas as religiões ensinam. Com ácido vc vive tudo isso numa situação real mas é difícil porque se de repente você, por exemplo, vira uma pessoa só com o mundo; você sofre todas as influências negativas que estiveram acontecendo e para isso é preciso ter um ego suficientemente forte para segurar a peteca. É muito de cada um, eu vejo uma coisa muito kármica nisso tudo. O Arnaldo, por exemplo, teve as mesmas experiências que eu mas foi pior para ele do que para mim.
No início tudo era uma festa. Na época eu tinha uns 14 anos. Comecei tocando no Six Sides Rockers, que era uma fusão dos conjuntos da Rita Lee e do Arnaldo. Eles me convidaram para ser o solista da banda e eu aceitei. Com a saída do batera, o Arnaldo veio com a ideia de fazermos um trio... o que eu achei péssimo. Imagina um guitarrista tocando sozinho com um baixista, sem bateria... Eu não acreditava, mas aí a gente fez os Mutantes. Mais tarde entrariam o Dinho na bateria e o Liminha no baixo. O primeiro disco dos Mutantes foi gravado em 67. A gente sentava e compunha juntos, mas muitas coisas eram influenciadas por outras que a gente ouvia. Daí fazíamos uma coisa purista, não tinha essa de dizer: ah, vamos copiar. Tem citações de músicas dos Mutantes que são basicamente isso. Se for para pensar em termos de plágio são totalmente roubadas até, mas era o que a gente sentia em relação àquilo. Passou a ser uma linguagem.
Atualmente não gosto do que a Rita anda fazendo. Acho muito chato. A Rita é bem melhor que isso. Sei que ela está ganhando dinheiro mas eu não me sacrificaria a esse ponto, de tocar bolero, para sobreviver. Prefiro comer pão mais barato e tocar o que gosto. Talvez ela nunca tenha sido rock and roll, mas ela fala coisas boas; é uma excelente letrista, é muito forte... de qualquer maneira estou muito envolvido para falar sobre isso. Basicamente o que importa é se ela está feliz. O Arnaldo é gênio, é fantástico. Foi ele quem fez tudo isso que vocês sabem. É uma pena ver o que aconteceu.
Eu não acho que o rock progressivo esteja morto como muitos dizem. O que aconteceu foi uma volta às origens com o punk e o new wave. Uma aproximação ao grito interior, uma coisa de raça. Mas tudo está tendo novamente a mesma evolução de dez anos atrás. Ninguém aguenta a mesma coisa durante muito tempo e logicamente ela terá de evoluir. Vejam, por exemplo, os primeiros discos do Police e comparem com os últimos, que são bem mais progressive. Vejam que o Yes  está voltando e que é progressive total. O Rush também é bem progressivo... Eu acho que agora o progressivo vai voltar mais forte, sem aquele caráter clássico de antes. A roupagem vai ser uma coisa dos anos 80: muita máquina, muita tecnologia, mais ainda com a espacialidade que o progressivo dá... e que é bom. Acho que sou essencialmente progressivo, as cores dessa música me fascinam muito. O espaço que você tem dentro do progressivo é uma coisa bem interior e eu sou uma pessoa muito interiorizada; minha música é algo bem a esse nível. Gosto de traduzir esse mundo musicalmente e o progressivo, com certeza é a melhor maneira para isso. No tempo dos Mutantes eu era responsável pelo progressivo, os sons, os solos, essas coisas era basicamente eu que transava. Sempre  foi minha função maior dentro dos Mutantes a inovação sonora.

Primavera de 1984 - Rio e Janeiro "

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Sérgio Dias - Jornal Rock Press (1984) - 1ª Parte

Em 1984, o guitarrista Sérgio Dias, o eterno Mutante, havia chegado de pouco ao Brasil, depois de viver durante alguns anos nos Estados Unidos. O jornal musical Rock Press  nº 1, de outubro daquele ano, trazia uma matéria com Sérgio, apenas com depoimentos do músico sobre sua experiência nos EUA, e como ele encontrou o Brasil em sua volta:
"O Brasil está um caos. É terrível, ridículo tudo isto que está acontecendo aqui. Você vê; esta mentira toda da política é uma coisa ridícula. Quando eu estava em Nova York saiu nos jornais sobre as manifestações pelas diretas; um milhão e meio de pessoas no Rio, um milhão em São Paulo. De repente não acontece nada. O governo fala: 'não, não pode ter' e todo mundo cala a boca e vai pra praia. Me entristece muito ver a fraqueza do povo, a falta de patriotismo do brasileiro, porque eles honram muito pouco a terra em que nasceram. É uma pena ver o medo do brasileiro até em assumir o próprio Brasil. É muito fácil dizer: 'Ah, nós somos dominados'. São dominados pelos próprios brasileiros. Há os que lucram com isso. Só 2 por cento da população é rica, enquanto o resto morre de fome. Será que esse pessoal não sabe que está morrendo de fome? Não acredito que alguém possa ser tão burro assim. Penso que é quase uma coisa genética. Tem aquela piada popular que diz que quando Deus estava fazendo o Brasil seu auxiliar perguntou: Mestre, você vai colocar furacão na Flórida, terremoto no Japão, maremoto não sei onde, e no Brasil este paraíso? Ao que Deus respondeu: 'Espera até ver o povo que Eu vou botar lá.' E é verdade; você vê no trânsito, o brasileiro é muito egoísta. Cada um por si e foda-se o resto. É aquela transa do malandro, te esfaqueia pelas costas. O americano não, ele te esfaqueia pela frente; diz que vai te fuder e te fode mesmo. Já o brasileiro é por trás de muitos sorrisos e isto já não cabe mais na atualidade porque transando com o mundo dessa forma ele é visto com clareza tão grande pelos povos mais desenvolvidos que termina sendo tomado por índio mesmo.
Foram vários os motivos que me levaram para os Estados Unidos. Tinha terminado aquele disco solo aqui, mas a CBS estava muito devagar e eu não estava com paciência. Ao mesmo tempo L. Shankar estava fazendo coisas por lá e tinha me chamado para participar de uma tour com ele. Também havia a possibilidade de gravarmos um LP juntos. Depois pintou a Susan, minha ex-mulher norte-americana e o convite do Eddy Offord para gravar um LP. O disco foi feito há 3 anos e atualmente o manager está tratando de seu lançamento no mercado norte-americano. Lá nos Estados Unidos essa demora no lançamento é normal quando se trata da venda de um produto independente. Mas a experiência com o Eddy Offord foi muito importante inclusive tudo o que sabia sobre a gravação eu tive que jogar fora. Lá você tira o som com o ouvido e não com a eletrônica e funciona dez vezes melhor. Você chega no estúdio, põe um microfone no bumbo, vai pra sala sem equalizar e o som que está lá é o som do bumbo. Você não tem que ficar mexendo em todos os botões para tirar um som parecido com o do bumbo como acontece aqui.
Musicalmente falando o nível é estupendo. Toquei com pessoas de um nível que jamais encontraria aqui; aprendi demais
Pessoalmente não sou muito chegado ao rock norte-americano, sempre fui mais influenciado pelo rock inglês, mas o jazz, por exemplo, está lá nos Estados Unidos. Tocar com Airto Moreira, L. Shankar, esse nível de gente te enriquece muito. O engraçado é que para eles sou uma pessoa sui generis porque em geral os guitarristas de lá são especializados; este toca rock, aquele toca jazz, aquele outro toca sei lá o que, mas eu toco tudo. Isso era bom porque sempre me dava bem em todas as situações. Outra coisa boa é que meu som, por incrível que pareça, é melhor que o som deles inclusive tecnologicamente.
Minha guitarra é tecnologia brasileira, foi meu irmão Cláudio quem fez e aí toda vez que eu ia gravar era um choque porque nunca tinham visto um som tão limpo.
O que me dá muita saudade é a MTV (Canal de televisão por cabo que só transmite vídeo-clips). Mas televisão lá não é muito boa não. Em termos de programação normal tem o Thirteen, que é um canal feito pelo povo. Você diz o que quer ver e eles programam. Totalmente democrático. Tem também os cables (Tvs por cabo) mas enchem o saco porque apesar de programarem excelentes filmes repetem o mesmo filme dezenas de vezes por mês. Agora rádio, pelo menos em Nova York é muito chato. É uma coisa muito igual, sem muita inventividade e totalmente dominada pelas companhias de discos. As rádios perdem muito sua função: um disk jockey não tem a menor flexibilidade ou liberdade; tem que tocar o que está programado pelas companhias e pronto. A rádio lá não tem mais função social como a Fluminense FM tem aqui no Rio, com os grupos mandando fitas para serem tocadas, indo à rádio, transando concertos, etc. É fantástico porque assim a rádio passa a fazer parte do povo e este é o grande barato da rádio. O que deve acontecer nos Estados Unidos provavelmente é uma nova revolução em termos de rádio. Atualmente a música lá está muito estéril; eles são muito elitistas: uma rádio é de funk, outra de rap music, outra de country. Mas eu espero que aconteça alguma coisa nova, nem que seja influenciado por alguém de fora, porque eles não têm muitas ideias não."

(continua)

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Belchior - O Que Me Interessa É Amar e Mudar (1976)

O Brasil perdeu ontem um de seus grandes cantores e compositores. Belchior foi porta-voz de uma geração, com suas letras reflexivas, repletas de poesia e questionamentos. Sua música atravessou gerações, e nem com seu sumiço e reclusão ficou esquecido. Fica aqui minha homenagem a essa grande personalidade, que marcou profundamente a mim e a todos de minha geração, com a reprodução dessa entrevista que Belchior concedeu a Eduardo Athayde, publicada no jornal Hit Pop, em 1976, ocasião em que lançou um de seus discos mais marcantes, Alucinação:
"A cara larga de vaqueiro. A fome insaciável pelo novo. A rebeldia. A provocação. O indiscutível talento. Tudo isso somado, resulta em Belchior, nascido Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelli Fernandes, cearense de 29 anos.
Ele afirma, apenas, que é um 'rapaz latino-americano'. E eu digo que isso quer significar três coisas: não cede, não concede, se impõe.
O seu novo LP, intitulado 'Alucinação', vai fazer a cabeça de todos os que estiverem atentos, à música e principalmente à letra. É o LP do ano, não tenho a menor dúvida. Quem não se tocar, dançou. Reparem no repertório selecionado, todo de lavra sua: Apenas um Rapaz Latino-Americano, Velha Roupa Colorida, Como Nossos Pais, Sujeito de Sorte, Como o Diabo Gosta, Alucinação, Não Leve Flores, A Palo Seco, Fotografia 3x4, Antes do Fim
Vou pecar pela repetição, mas acho que o trabalho de Belchior se resume no verso: quero que meu canto torto feito faca, corte a carne de vocês. O torto, no caso, talvez se reflita na simplicidade do fraseado musical. Mas o afiado da faca pinta em cada um dos versos que faz, ele que é um letrista da pesada.
É esse Belchior que vem com tudo - seu torto canto e sua lâmina afiada - nesta entrevista concedida com exclusividade para Hit-Pop. É um papo comprido, do geral ao particular, sempre denso de ideias e ideias. Eu dou fé. 
Hit-Pop - É possível rotular sua música?
Belchior - Olha. Fundamentalmente, eu faço música nordestina, contemporânea. Transo de xaxado, xote, baião. Mas não dispenso o elemento eletrônico, e tampouco as influências que recebi. E foram várias, variadas: Luiz Gonzaga, Beatles, cantadores de feira, ciganos nas estradas do Ceará, música de igreja. Some esses elementos todos, e você terá, digamos, uma arte mestiça...
Hit-Pop - E a latinidade? Qual é, de fato, a dimensão desse (novo) elemento musical chamado som latino-americano, ou influenciado por ele?
Belchior - O que me impressiona é a possibilidade de nós, latino-americanos, podermos nos comunicar com uma linguagem nova, comovente, revolucionária. Aliás, o tango argentino é a autêntica linguagem das minorias latino-americanas. É claro que não sou contra o blues, forma de expressão dos negros americanos. Nem sou contra o samba, ou contra o rock - um grito da juventude. O que eu não gosto - de música e letras apenas contemplativas, passivas. Eu falo - e devo falar - dos enganos que nós, os jovens, sofremos por ver as nossas esperanças caírem por terra. Assim, não abro mão da agressão. Acho que é preciso fazer um trabalho irreverente e insolente. Caso contrário, vira aquele negócio de música de fundo de restaurante, sabe como é? As pessoas estão comendo e, e a arte serve apenas de relaxante, entretenimento. Facilitador a digestão.
Se o meu canto vai chegar a todas as pessoas, eu não sei. O que sei é que mantenho meu trabalho sob absoluto controle. Eu digo: 'sou apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco. Por favor, não saque a arma no saloon, eu sou apenas o cantor...'
Hit-Pop - Você imagina ter sua obra imortalizada, assim como os clássicos da música popular brasileira?
Belchior - Não me interessa, como artista, produzir e criar pensando na eternidade da obra. Eu quero dar toques, e isso é fundamental pra mim, pois o homem é o fim e  o objetivo de si mesmo. Eternidade não é um dado humano, comum. Aliás, em qualquer nível é uma farsa, uma mentira. Sou contra. Eternidade é o tédio dos deuses, que gostariam de ser simples mortais. Minha ligação é com a terra, ouça: "Eu não estou interessado em nenhuma teoria, em nenhuma fantasia, nem no algo mais. Longe o profeta do terror que a Laranja Mecânica anuncia. Amar e mudar as coisas me interessa mais!' Essa é a minha proposta. Isto é, suportar o dia-a-dia e a experiência com coisas reais.
Hit-Pop - Seu novo LP está na praça, seu talento é reconhecido, a crítica o elogia. Como você encara o sucesso?
Belchior - O sucesso me interessa, porque me dá possibilidade de dizer e cantar até chegar às pessoas. O disco é a chance que o artista tem, em se oferecer integralmente, com suas ideias, mensagens, reflexões. Neste  momento, estou montando uma banda, para correr todo o Brasil. Já estou com o Liminha, o Áureo de Souza, o Rick, e só busco um tecladista.
O meu disco tem um título que eu gosto, 'Alucinação'. Sabe, viver é mais importante que pensar sobre a vida. É uma forma de delírio absoluto, entende? A alegria, a ironia, a provocação, são tão importantes quanto sorrir, brincar, amar. Acho importante provocar. Um trabalho novo só aparece através da agressividade. Eu estou tranquilo quanto às consequências do meu trabalho. Acho importante que ele cause polêmica. É para desafinar mesmo! Desafinar sempre, que esse é o desafio. Hoje em dia, já não se pode criar mais sem correr riscos. E eu quero enfrentá-los. Minha expectativa é para os jovens compositores. Sobre eles recaem todas as dificuldades pra fazer qualquer coisa. E, também, costumo tomar o trabalho de compositores mais velhos como marco para começar tudo de novo. Artista reconhecido é importante, claro, mas no momento, eu quero dar as mãos a Fagner, Alceu Valença, Luiz Melodia, Ednardo, Marcos Vinícius... A todo o pessoal desta geração violentada. Temos que encontrar uma forma de mostrar que estamos vivos. E isso só se consegue fugindo do convencional, optando definitivamente pela juventude. A cultura precisa rejuvenescer sempre voltada para a nossa realidade. O que é velho tem, realmente que morrer. Até agora, com raras exceções, a música tem sido uma forma artística com tendências à fuga, à evasão. Meu trabalho é uma colocação no real, pois nada muda por si mesmo.
Hit-Pop - E essas transas de misticismo, ioga, oriente... Elas têm significado pra você?
Belchior - Fui criado comendo boi com abóbora, no interior do Ceará. Por isso, tenho a mente aberta para ver se existe algo, nisso tudo de que você fala. Mas sou completamente desinteressado. Não acredito, não quero nenhuma nova teoria que me decepcione depois. Sou um cara mais preocupado com toques imediatos, do presente. A arte não pode viver de ilusões. Sinto necessidade de falar das aspirações imediatas: dormir, comer, sentir alegria, dor, prazer, tristeza, coisas claras, entende? Não sou, de fato, místico. Sou mal comportado por opção: 'Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve: correta, branca, suave, muito limpa, muito leve. Sons, palavras são navalhas, e eu não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém.'
Hit-Pop -  Como é que foi sua vinda para o sul, a barra que você encarou?
Belchior - Minha família é nordestina , patriarcal. Somos 23 irmãos, vendo com grandeza e honradez o trabalho que fazíamos com as mãos. Aos 16 anos, eu não aguentei a barra, saí de casa, tentando buscar uma alternativa... Não vejo mal nenhum em sair por aí, botar o pé na estrada. O nordestino tem a alma de emigrante, é uma ave de arribação, como diz o Luiz Gonzaga em 'Asa Branca'. O jovem nordestino quer, um dia, voltar pra lá, mas sempre tem necessidade de sair. Agora, quem põe o pé na estrada precisa estar preparado para aguentar a barra. De 71 até hoje, o negócio não foi fácil. Dormi em muita calçada. segurei de perto a barra da Lapa (RJ). Senti fome e frio. Fiquei de pires na mão, nas salas de espera das gravadoras. Hoje, comparando, digo que fazer beicinho porque o papai não deu grana pro cinema é a mais completa infantilidade. Não passa disso. As soluções estão dentro da gente, é lá que a gente deve ir buscá-la. É como digo em 'Fotografia 3x4': 'Em cada esquina que eu passava, um guarda me parava, pedia meus documentos e depois sorria, examinando os 3x4 da fotografia, e estranhando o nome do lugar de onde eu vinha'.
Hot-Pop - Qual a alternativa que você sugere?
Belchior - Cada um tem a sua. Pelo amor, sexo, conhecimento, experiência de vida, o jovem, isolado, terá tempo de refletir e encontrar o seu próprio caminho. É o toque que eu dou, por exemplo, na música 'Como o Diabo Gosta'... "

sábado, 29 de abril de 2017

Roberto Carlos e Eliana Pitman - Revista Intervalo (1966)

Em sua edição nº 250, de outubro de 1966, a revista semanal Intervalo trazia uma matéria com um bate-papo entre Roberto Carlos e a cantora Eliana Pitman. A matéria começa com uma introdução que diz:
"Eles falam de beijo, de amor, das fãs e de um quilo de coisas mais. Eliana pergunta e Roberto Carlos responde. Mas como pergunta essa menina! Vocês precisam ler para acreditar, porque ninguém - ninguém mesmo - arrancou tantas confissões do Brasa. O que ela perguntou, o que ele respondeu, vai tudo nas páginas seguintes. Um bate-papo que é uma brasa, mora!"
Abaixo, a reprodução da matéria:
"EP - Você se lembra quando ia lá em casa? Você era um menino...
RC - Você também era garotinha.
EP - Você se lembra de quando trabalhava no Plaza, com papai Booker? Ele dizia que você tinha muito talento.
RC - Muito obrigado. De vez em quando ele me dava uma colher de chá e eu cantava um rock. Mas comecei mesmo foi cantando bossa-nova.
EP - Papai contava que as meninas davam em cima de você. Você ficava apavorado. 
RC - Bidu... Mas eu não ficava apavorado, não. Às vezes eu estava cantando e, de repente, aparecia um bilhetinho na minha mão.
EP - Papai disse que você era muito tímido naquele tempo, seu cara de anjo...
RC - Eu era tímido aparentemente. Negócio de cara de anjo é outro problema.
EP - Acho que você não é anjo nada. Você tem cara de santinho disfarçado...
RC - Mas isto não é muito bom, não: eu não vivo a fim de enganar ninguém. Você não quer dizer que eu sou enganador, né?
EP - Não, você sabe que não é, mas tua cara assim, vou te contar, Roberto... Escute: outro dia, no programa da Maysa, ela lhe perguntou qual foi sua primeira namorada. Você não se lembrava, parece...
RC - Tive duas primeiras namoradas: uma da infância, outra da juventude. A primeira, aos 11 anos, mora! A segunda, aos 14.
EP - Você só teve duas namoradas durante esse tempo?
RC - Eu disse as duas primeiras.
EP - A maioria dos homens não se lembra das primeiras namoradas.
RC - Eu sou muito correto, eu me lembro...
EP - E as garotas sabem que você é romântico?
RC - Bom, não sei se elas sabem. Eu sei que sou... Olha, não conta isso, não.
EP - O que? Que você é romântico?
RC - É. Não é um negócio que eu mesmo possa julgar.
EP - Deixa pra lá. Que é que você sente quando beija uma garota que você gosta?
RC - Que é que sinto? Acho que é o que todo mundo sente. Dependo do beijo...
EP - E essas garotas que pegam você e agarram?
RC - Bom, eu fico tão surpreso, entende? Depois, eu eu vejo que é uma demonstração de carinho, um impulso muito bonito também, muito... Ah, não sei, não! Dizer o que a gente sente com um beijo é difícil às pampas. Quando a gente dá o beijo, aí já é mais fácil.: você dá um beijo com amor, dá um beijo com carinho, dá um beijo com calor. Já o beijo que a gente recebe é difícil dizer o que ele traz. Agora, quando a gente tem vontade e, de repente, se vê beijado por aquele alguém, aí fica de boca aberta, sem saber o que pensar, porque talvez esperava, naquele exato momento, não é?
EP - Pois é, eu vi, outro dia... você ficou feliz? Que sorte bárbara, rapaz!...
RC - Fiquei. Você não tem sido beijada por quem você quer que a beije?...
EP - Teeenho! Pelo amor de Deus, olhe esse negócio...
RC - Como é o nome dele mesmo?
EP - Ah, não vou dizer. Todo mundo sabe.
RC - Eu não vou apanhar por estar batendo papo com você? Ele é ciumento, não?
EP - Humm! Ele acha você formidável, ele gosta de você.
RC - Bom, também não seria fácil apanhar...
EP - Por que? Você é forte?
RC - Não, forte é ele... Eu corro bem (gargalhada). Olhe, esse negócio que eu corro bem é papo, entende? Para fazer piada. Eu corro bem mas é de carro...
EP - Como é que você se sentiu na festa da Glamour, no Copacabana Palace?
RC - O caso de eu ter sido convidado para participar do júri é um negócio inédito na minha vida. Fiquei contentíssimo, de certo modo, até emocionado. Eu me senti homenageado. O convite me fez sentir assim importante, entende?
EP - Você é importante, Roberto. Há muitos e muitos anos não tínhamos um cara assim como você no Brasil. Sabe que eu fico boba, vejo até senhoras casadas usando o anel calhambeque! Meus primos me enchem, eles querem que eu compre o anel calhambeque de Roberto Carlos. Outro dia gastei quatro mil cruzeiros comprando anéis para a meninada da vizinhança. Esses, você está me devendo.
RC - Depois te pago, tá? Não tem problema, sou bom pagador.
EP - Agora, eu acho que de todo esse pessoal, quem vai ficar pra sempre, pra sempre mesmo, é você.
RC - Obrigado, querida. Por esta você merece um beijo...
EP - Não, não! Não me beija não senão as meninas vão me agarrar na rua. Nossa, pelo amor de Deus!
RC - (Beijando mesmo Eliana e sorrindo) Pois eu é que vou te agarrar, mora!
EP - Imagine! Agora não vou poder mais sair à rua!...
RC - Bobagem, todo mundo sabe que entre nós há uma amizade de irmãos, Eliana. Inclusive seu pai foi um grande incentivador meu e eu tenho obrigação de sentir você como uma irmã.
EP - Ele gosta muito de você e do que você faz, Roberto. Mas me diga, é verdade que você vai viajar?
 RC - Vou. Aos Estados Unidos, eu vou. Mas creio que vou primeiro à Europa, participar do Festival de San Remo. Agora em dezembro, vou, gravo a música e volto.
EP - Você vai gravar em português?
RC - Não. É uma imposição, entende?
EP - Mas é bom. Assim você tem mais penetração. Ainda mais que a língua é tão linda! E você tem um som bárbaro na sua guitarra. Em Nova York...
RC - Escute, como é que é lá? Como é que um artista faz para agradar?
EP - Bom, a concorrência é tremenda, mas ninguém se preocupa, se você está por cima. É diferente daqui: há lugar para todos e, para fazer um subir não se pensa em derrubar ninguém. Se você tem talento, sabe o que está fazendo, você chega a qualquer lugar. Papai acha O Calhambeque, um pouco mais trabalhado ao gosto americano, é sucesso na certa.
RC - E você acha que lá a gente tem que cantar em inglês, português...
EP - O americano não aplaude o que não entende. Você pode intercalar, digamos, três músicas em português, no seu repertório. Mas tem de cantar muita coisa em inglês. Eu fazia assim. Sabe de um grande programa que você poderia fazer lá? O Hullabaloo, que é fabuloso: tem um balé que é uma coisa e cada semana apresenta um artista famoso, com Dean Martin, Sammy Davis Jr...
RC - O que é Hullaballo?
EP - É... uma bagunça simpática, entende? É o iê-iê-iê.
RC - É coast to coast?
EP - É. E você, com essa cara, tenho certeza de que vai fazer sucesso.
RC - (Tira o cachimbo do bolso)
EP - Desde quando vc pegou cachimbo?
RC - Eu fumava cachimbo há muito tempo, mas não era fiel a ele.
EP - Os médicos aconselham o cachimbo a quem quer deixar de fumar. Mas sabe que engorda?
RC - Ah, é? Então preciso parar de fumar cachimbo. Mas vá ver o que o cara engorda justamente porque deixa de fumar o cigarro. É o cigarro que emagrece.
EP - É chato conversar com você, Roberto. Você sempre ganha. Ah, quem acendeu meu cigarro na América? Eu não fumo, mas peguei cigarro só pra esnobar. Estava numa boate e veio de lá - imagine quem? - Harry Belafonte e - troc! acendeu o isqueiro para mim.
RC - Nooossa! Aí, você - pimba! - desmaiou...
EP - Eu estava com um vestido bárbaro, assim como estava no Copacabana Palace.
RC - Muito chique, eu vi. Bárbara, sinceramente. Não é badalada. EP - (Esnobando) Aliás, eu estava com medo deles me darem um título de glamour hors concours.
RC - O que é hors concours?
EP - É... um negócio que não faz parte do concurso, mas merece ganhar. Oh, Roberto, você não pode casar, não.
RC - Por que não posso casar?
EP - Ora, porque as garotas são gamadas. Sabe, na América casam escondidos: se as garotas sabem, dá o maior bolo. Eles casam, têm 10 mil filhos e ninguém sabe. Aqui, as garotas estão sempre sonhando em casar com Roberto Carlos. Se você casa, as garotas não vão poder mais sonhar, né?
RC - Eu ainda nem penso em casar.
EP - Oh, que bom para as garotas. Elas ainda podem ter esperanças, hein?
Escute, você não se sente sozinho em seu apartamento?
RC - Não, minha casa me abraça muito, entende?
EP - Estou com fome. Vamos comer um sanduíche? Outro dia comi três dúzias de ostras, menino!
RC - Boa ideia. Vamos lá. Que tal um sanduíche de ostras para você..."


domingo, 23 de abril de 2017

César Costa Filho - Um Compositor em Busca da Coerência que o Público Exige (1977)

César Costa Filho foi um dos muitos compositores revelados nos antigos festivais universitários da TV Tupi. Participante desde o primeiro festival universitário, em 1968, quando ficou em terceiro lugar com "Meu Tamborim", Cezinha, como era chamado, logo seria um dos componentes do MAU (Movimento Artístico Universitário), do qual faziam parte também Gonzaguinha, Aldir Blanc e Ivan Lins. César foi um dos primeiros parceiros de Aldir Blanc, com o qual formou uma dupla que deixou grandes composições, até os dois romperem no início dos anos 70.
Em sua edição de 19/05/77 o jornal O Globo trazia uma matéria com César Costa Filho, assinada por Antonio Lima:
"Durante três anos o compositor César Costa Filho percorreu o itinerário dos festivais universitários, a porta de entrada aberta pela música brasileira a inúmeros artistas jovens. Ao lançar 'Bazar', seu terceiro LP, Cesinha fala sobre seu trabalho, que pretende manter dentro de uma linha de coerência exigida pelo público mais fiel que a MPB conquistou: os universitários.
Para esse público ele prepara uma série de shows que começam dia 26 em Curitiba e que farão o artista e seu violão percorrerem o circuito universitário de São Paulo e depois o Rio. Carioca de Vila Isabel, formado em Direito, Cesinha confessa-se influenciado pelos sambistas da Velha Guarda, mas sem compromissos com modismos ou estilos, uma atitude que já motivou polêmicas com estudantes.
Numa das últimas vezes em que se apresentou em Curitiba, Cesinha deveria fazer quatro shows, seguindo um roteiro musical previamente elaborado, em função de suas músicas. Logo no primeiro dia, um grupo de estudantes, sentado na primeira fila do teatro, permanecia impassível. Não aplaudia, nem se manifestava. Diante disso, Cesinha disse que ia tocar uma composição sua que não queria dizer absolutamente nada: 'Comigo Ninguém Pode', que considera um swing no estilo Gilberto Gil. Terminada a música, os rapazes da primeira fila levantaram-se e o compositor perguntou o que estavam achando do show.
- Lamentável - disseram.. Logo você que tem tanta influência da Velha Guarda, tocando essa música que não diz nada.
- Então - diz Cesinha - toquei o 'Samba do Estácio', meu e do Jair Amorim e desfilei todas as minhas composições influenciadas pela Velha Guarda. O público vibrou e fui obrigado a fazer o show em função dele e não do que eu pretendia apresentar.
Carioca, de Vila Isabel, 33 anos, Cesinha conta essa história para ilustrar uma teoria sobre seu trabalho, que é baseado, segundo diz, 'no que vejo por aí, mas sem compromissos com modismos ou estilos'.
Dono de uma voz parecida coma do violonista Toquinho, Cesinha não nega influências de Vinícius, Chico, Caetano e Gil, exatamente porque surgiu numa fase importante da MPB, em 1968, na época dos festivais universitários, quando apareceram também Gonzaguinha, Ivan Lins e Aldir Blanc, com quem já fez algumas músicas. No primeiro desses festivais, Cesinha teve a música 'Meu Tamborim' classificada em terceiro lugar. Era um trabalho dele e do Ronaldo Monteiro de Souza, defendido por Beth Carvalho. 
Musicalmente eu me considerava um amador, mas vi nos festivais uma porta de entrada em termos do que queria, isto é, atingir um público interessado no trabalho do artista. Fiquei um ano tentando colocar músicas no mercado, mas tive de esperar pelo segundo festival, quando fiquei novamente em terceiro lugar, com 'Mirante', minha e do Aldir, defendida por Maria Creuza. Aliás, nesse mesmo festival, eu e o Aldir também ficamos com o quinto lugar: 'De Esquina em Esquina', defendida por Clara Nunes.
Na época, Cesinha continuava inédito em disco, mas considerava importante a fase dos festivais, tanto assim que concorreu no FIC de 1969 e no seguinte. Em 69, 'Visão Geral', dele, Rui Maurity e Ronaldo, ficou em terceiro lugar. Em 70, entretanto, algo mudou: 'Diva' e 'Medo', ambas em parceria com Aldir ficaram entre as finalistas.
- Já tinha entrado no meio musical e perdi o acanhamento: mostrava músicas para Elis, Claudete Soares, Dóris Monteiro e a coisa começou a mudar.
Cesinha tem umas 70 músicas gravadas, algumas delas por cantores  como Elis Regina ('Ela'), Eliana Pittman ('A Ilha'), Claudete Soares ('Fraqueza'), Maria Creuza ('Um de Nós'), Dóris ('Um Chorinho'), Elizete ('Velho Amor'), em parceiras com Aldir, Paulo César Pinheiro e Ronaldo.
- Ao mesmo tempo eu desenvolvia um trabalho paralelo, fazendo trilhas sonoras para novelas como 'Minha Doce Namorada', 'O Homem que Deve Morrer' e 'O Preço de Um Homem'. Fiz também a trilha sonora sonora do documentário 'Eila', do Rui Santos, sobre uma tapeceira finlandesa que mora no Rio.
Como currículo, só falta citar os cinco ou seis compactos que gravou na RCA, além de outro, pela Som Livre, com as músicas de 'Minha Doce Namorada'. 'Bazar' é o terceiro LP que ele faz, desta vez com um só parceiro, o catarinense Heitor Valente, trabalho que motiva uma explicação:
- Eu pretendia incluir músicas de outros parceiros, como o Ronaldo, o Jesus Rocha ou o Walter Queirós, mas infelizmente não deu certo. O Heitor é um amigo meu. Mora no Rio e acho que por estar na mesma rua, nosso trabalho engrenou. A gente se encontra todo o dia, troca ideias e isso ajuda muito em termos de criação.
Apesar da falta de preocupação, demonstrada logo a seguir, Cesinha age como todo artista interessado na repercussão do seu trabalho. Informa que 'Consumatum Est' está sendo bastante tocada pelos disque jóqueis e fala sobre 'Amor Antigo', outro samba do seu LP. 'Amor Antigo' é a segunda música que faço para o Salgueiro, minha escola de coração. A primeira foi 'Vermelho e Branco'.
Capa de Bazar
Em 'Amor Antigo" está presente a duplicidade samba-mulher, bastante assídua na MPB, e que a letra de Heitor Valente apenas confirma: 'Parceiro, vamos ver o que acontece/ desse mal só não padece/ quem se isolou/ mas diga pra ela depois/ Salgueiro/ que esse nosso amor é antigo/ e não tem nenhum perigo,/ dividir por dois'.
Considero 'Bazar' meu LP mais agressivo, mesmo sendo ele a continuação de um trabalho que iniciei na época dos festivais. Isso porque me dá a oportunidade de me mostrar como um compositor descompromissado com modismo e estilos.
- Mas essa falta de compromisso não prejudica comercialmente ou, para usar um eufemismo, em termos de comunicação com o público?
- Contei a história acontecida em Curitiba, não? Pois é isso aí. 'Dose pra Leão' era um samba sofisticado, que foi sucesso nacional, mas sua estrutura melódica era tradicional. Tenho a impressão de que o grande público esperou que, a seguir, eu fizesse algo semelhante, mas no meu caso não é possível. Cresci ouvindo músicas da Velha Guarda, mas as coisas hoje são diferentes, pois para se ser reconhecido, a gente deve percorrer um caminho muito mais longo. E o importante é a gente estar alicerçado para o dia em que esse reconhecimento chegar. Por isso, acha merecido o sucesso do Chico, Caetano, João Bosco e Gonzaguinha. Hoje eles vendem discos e isso é importante, porque demonstra uma modificação na mentalidade do público.
Como exemplo dessa modificação, Cesinha cita o exemplo do público universitário que, segundo ele, questiona o artista, acompanha seu trabalho e exige dele.
- Isso é importante, pois é muito fácil fazer música para entrar nas paradas de sucesso. O sucesso fácil é passageiro e essa comunicação instantânea não me interessa. Sei que estou percorrendo um caminho muito mais longo, mas não tem problema. O importante é fazer um trabalho coerente, falando de coisas que sinto e sobre as quais o artista tem a obrigação de informar o público. "


sábado, 15 de abril de 2017

João Gilberto Faz Guerra à Pirataria (1998)

João Gilberto sempre teve muito cuidado em relação às novas edições de seus discos. Se não houver uma autorização dele para que os produtos cheguem ao mercado, normalmente coisas ligadas à um apuro técnico das edições, o artista logo entra na Justiça, buscando recolher do mercado o material lançado sem o seu aval. Recentemente ele entrou na Justiça para recolher um disco seu, que segundo ele, teria visto por acaso em uma visita a uma livraria no Rio, embora muita gente não consiga imaginar João, como um cidadão qualquer, frequentando uma livraria na cidade. 
A matéria que segue abaixo, publicada Jornal do Brasil em sua edição de 12/07/98, assinada por Cláudio Cordovil, fala de um processo que João estaria movendo contra uma gravadora mexicana por lançar álbuns seus sem o seu consentimento. Nesse caso, trata-se do uso indevido de seu nome, sem que recebesse pelos direitos autorais. Segue a matéria:
"Muito se tem falado da pirataria praticada por delinquentes, mas pouco se menciona a pirataria institucional, cometida pelas próprias gravadoras, ao melhor estilo casa com telhado de vidro. O cantor João Gilberto, o papa da bossa nova está tendo dores de cabeça com a gravadora mexicana Orfeon Videovox que, sem autorização expressa dele, tem lançado CDs com faixas de João Gilberto, indiscriminadamente distribuídos nos Estados Unidos e Japão, pelo que se sabe no momento.
Tudo começou quando João Gilberto, então residente no México, assinou contrato com a gravadora mexicana, em abril de 1970, para a realização de um LP com 12 faixas, intitulado Ela é carioca. Sem consentimento do artista, a gravadora lançou posteriormente dois CDs, cada um com uma faixa do artista, aproveitada do material gravado para Ela é carioca, em uma espécie de coletânea da bossa nova e da MPB. Na capa, o nome de João Gilberto aparece em destaque, juntamente com a expressão 'Brazil Samba Jazz', como possível chamariz pra as vendas. O disco continua em catálogo e, até hoje, João Gilberto não viu a cor do dinheiro.
Os discos citados na matéria
Solicitado pela advogada Gisele de Carvalho a apresentar o relatório de prestação de contas, a gravadora forneceu dados imprecisos, que dariam ao artista o direito de receber apenas US$ 1.632. Além disso, não foram apresentados dados de prestação de contas referentes a outros países para os quais o México exporta, como Estados Unidos, Japão e países da Europa e América do Sul. No Brasil, por exemplo, a gravadora PolyGram havia sido licenciada pela Orfeon Videovox para distribuição de Ela é carioca. As prestações de contas apresentadas, referentes a vários anos, também não foram corrigidas monetariamente. No Japão, Ela é carioca foi licenciada para a gravadora Bomba Records, um nome sugestivo, pela Orfeon Videovox.
Gisele Carvalho contratou, no México, os serviços do advogado Gabriel Larrea. Os advogados de João Gilberto querem que a Orfeon Vedeovox pare de licenciar e autorizar a reprodução de Ela é carioca e de Brazil Samba Jazz por outras gravadoras e que sejam pagos os direitos autorais devidos.
João Donato, Jorge Benjor, Ivan Lins, Chico Buarque, Roberto e Erasmo e Zé Kéti são alguns dos compositores que têm suas músicas gravadas em Brazil Samba Jazz. Resta saber se recebem direitos autorais.
Recentemente, João Gilberto moveu uma ação ordinária contra a EMI Music que culminou em um mandado de busca e apreensão de todos os CDs do artista fabricados pela gravadora desde 1988. Na ação, João Gilberto e seus advogados reivindicaram a suspensão da fabricação e distribuição de todos os CDs lançados pela EMI, no país e no exterior, sob a pena de multa diária. Além disso, a título de indenização por perdas e danos, a gravadora seria condenada, pela ação proposta, a reverter, em favor do artista, com juros e correção monetária, toda a receita gerada ilegalmente com a comercialização em CD de sua obra e lucros cessantes.
No final do ano passado, houve uma audiência de conciliação entre as partes e a gravadora EMI-Odeon ficou de apresentar uma proposta, fato que, até o momento, não ocorreu. Os advogados de João Gilberto entraram, então, com uma petição ao juiz. 'Pelo rito processual, ele deve determinar o saneamento do processo, convocar uma perícia e definir a sentença', explicou Gisele de Carvalho. Com a gravadora EMI Music proibida de usar as matrizes das gravações do artista, João Gilberto vai regravar até o fim do ano pela PolyGram sua trilogia inicial lançada originalmente entre 1959 e 1961. Ele receberá em torno de US$ 200 mil por disco, o mesmo valor do cachê de seus shows. João pretende gravar também um disco de duetos com convidados especiais. "

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Bezerra da Silva: "Eu Vou Onde a Coruja Dorme" (1994) - Parte 2

"C&P - Você vai votar em quem?
Bezerra - Eu não voto. Não me leve a mal, mas não assino atestado de burro. Só tenho bronca desses caras. Vocês vão dizer: 'ah, o Bezerra tá revoltado'... não é. Passei fome, fui discriminado, o favelado não é considerado gente, é um elemento nocivo. Favela não é considerada residência, sabia? A polícia chega, dá tiro, faz o que bem entende, e fica por isso mesmo. Ali não tem mandado de juiz pra te prender na tua casa. Eles botam os homi na rua, fodem a mulher da gente, roubam as coisas do barraco e vão embora. E não tem um repórter com disposição pra dizer isso. Vem me perguntar sobre  tóxico na favela. Por que não perguntam se tem maconha em Brasília, se alguém estupra, se tem boca de fumo?
C&P - Pô, no Congresso tem uma tremenda boca de fumo. O sobrinho do Presidente morreu em cima do pó!
Bezerra -  - E por que ninguém mete esses putos na cadeia? 'Bezerra, você tá revoltado.' Nada disso: eu sou favelado. Falar de pobre é mole, mas como é o que o tóxico chega no Brasil? Quem traz? Todo mundo tem avião particular? Favelado vai lá na Bolívia buscar cocaína pra vender no morro? Não tem condição nem de usar tóxico! Favelado cheira é caco de vidro!
C&P - Não pode ser viciado nem em comida, quanto mais em cocaína.
Bezerra - Vamos falar na língua de Congo: o tóxico é negócio de bacana. Falar a verdade dói? Então Deus dói, porque Deus é verdade.
C&P  - Mas o exército diz que vem aí pra subir  o morro.
Bezerra - É ruim. Se quer acabar mesmo com o malandro, prende os otários. Malandro é malandro, mané é mané.
C&P - E esses Mauricinhos do Samba que tão aparecendo agora, só matando?
Bezerra - Olha, é que não vou botar vocês de castigo, mas o que aparece aqui de bagulho... Ali tem uma pilha de fita que eu chamo de 'vala'. Esses meninos são até meus colegas, mas são uns garotos sem experiência e são dirigidos pelo produtor artístico. Ficam tocando marcha e botando nome de samba. (Batuca na mesa uma marcha e depois samba, muito mais rico e rítmico) É aquele negócio, Deus fez o mundo muito bem feito, chegou o malandro e armou pra cima, aí veio o padre e mandou aquele agá, veio o Bispo Macedo 171, maluco pra caramba e cheio de grana... Deus ficou só olhando... (risos) Quer mais 171 do que esses caras do Evangelho? Eles vêm aqui contar história, Jesus morreu, e eu: (balançando a cabeça) 'Legal... só que aqui vocês vão se fuder, não vai dar pra vocês'. 'Mas Jesus mandou...' 'Mandou mas não mandou muito. Quer dizer que Jesus mandou tu me dar uma volta?' (mais risos)
C&P - 'Ide pelo mundo e dê uma volta nos otários'.
Bezerra - Aí disseram: 'Você não é filho de Deus. Você não aceitou o batismo'. 'Então o que sou?' 'Você por enquanto é criatura de Deus.'
Tudo bem. A única coisa que posso te arrumar aqui é um baseado e mandar tu passar ali para dar dois pra ver se tu entra em cana e leva umas sacudidas pra deixar de ser FDP.' (Gargalhadas)
C&P - Teve um grupo de rap - O Rappa - que gravou um samba teu. Como foi isso, O Rappa chegou e você saiu correndo?
Bezerra - Tem vários roqueiros que são meus fãs, saio até na revista Bizz, me dou bem com a rapaziada. Primeiro gravei com Paulo Ricardo, e agora regravei com O Rappa aquela música de 82, 'Candidato Caô Caô': 'Ele subiu o morro sem gravata/ dizendo que gostava da raça/ foi lá na tendinha, bebeu cachaça/ e até bagulho fumou/ jantou no meu barracão'.
C&P - É a Melô do FHC!
Bezerra - 'Fez questão de beber água da chuva/ foi lá no terreiro pedir ajuda/ e bateu cabeça no congá/ Mas ele não se deu bem/ porque o guia estava incorporado/ e se esse político é safado/ vai ver na hora de votar/ ê ê irmão/ Se liga no que eu vou lhe dizer/ depois que ele for eleito/ dá aquela banana pra você.' Isso é de Walter e Pedro Butina.
C&P  - 'Bicho Feroz' foi seu maior sucesso?
Bezerra - O que vendeu mais, disco de platina duplo, foi 'Vou apertar mas não vou acender agora'.
C&P  - Só pelos direitos dessa música era pra você tá rico pacas, né?
Bezerra - O ECAD chama-se O Castelo dos Homens Sem Alma. É uma quadrilha de ladrões impune que não há lei que meta eles na cadeia! É aquele negócio do tempo da escravidão: crioulo não pode ter muito dinheiro que foge da casa. Eles têm medo do crioulo ganhar dinheiro e comprar um helicóptero e cair na casa deles.
C&P - O Brasil é um país racista mesmo? Crioulo aqui vê a coisa preta?
Bezerra - O crioulo no Brasil é tolerado. Onde ele chegar tá ruim. Ninguém gosta do crioulo, nem outro crioulo, é foda. Crioulo correndo é ladrão, se andar devagar é preguiçoso, se falar alto é mal educado, se falar baixo é viado, se vestir um terno tá metido, se andar sujo é relaxado... (risos) O crioulo inteligente vai logo pro terreiro, que padre não gosta de crioulo rezando, vai atrapalhar a porra da missa dele. Mas se andar todo de branco logo dizem: 'Vai fazer macumba?' Se desaparecer: 'Tava em cana, cumpadre?' Aonde for tá roubado.
C&P - Você teve agora em Berkelee, fez 12 shows nos EUA, o caralho. O que você achou dos crioulos lá?
Bezerra - Sofrem menos. Lá o crioulo manda.
C&P  - Manda bala.
Bezerra - O crioulo lá tomou a dianteira, foi pra escola, estudou pra caralho. O brasileiro não sabe o dia que Jesus Cristo morreu porque não saiu no jornal. O americano sabe. Negócio mudou. Você vê artista preto fazendo papel principal no cinema.
C&P  - Michael Jackson É preto?
Bezerra - Não conheço, mas dizem que tomou um banho de ácido muriático. (risos)
C&P  - Por falar em idade, quantas você ainda tá dando por semana?
Bezerra - Você tá falando em meter? Isso é a coisa mais mole.
C&P - Mole??! Tem que ficar duro (risos) Qual o segredo da potência eterna?
Bezerra - Não tem segredo. Você fode quando quiser.
C&P - Tô falando de meter, não de empurrar pra dentro.
Bezerra - É você se preparar fisicamente. Não usar tóxico, principalmente a cocaína. Não sei se vocês sabem, mas meu filho do meio, mataram ele. Se meteu em drogas: 19 anos e não fudia mais ninguém. O cara que cheira pó é um infeliz, um cara doente, bicho. Porra, você tá ali com uma mulher e a pica não levantar...
C&P  - Você nunca passou  por isso?
Bezerra - Fora de sacanagem: até hoje nenhuma mulher reclamou de mim. Tive uma porrada de mulher. Bicho, se eu quiser eu meto agora, fico com a pica dura na hora! 'Sobe aí, cara!'
UOOOON! (risos) A potência é uma questão de espírito, de mente, de domínio, então a minha pica levanta na hora que eu quiser.
C&P  - É ensinada! A minha também: eu falo 'Deita! Deita!', e ela fica ali deitada...
Bezerra - A cocaína atinge justamente nas duas bases que você precisa pra poder fuder: tira sua fome e tira seu sono. No início é estimulante, mas vai enfraquecendo seu organismo, seu cérebro, e você vai pro caralho.
C&P - Tim Maia falou que na cocaína o tesão migra: sai do pau e vai pro cu. O cara que cheira pó fica doido pra dar o rabo.
Bezerra - Olha, eu acredito que o camarada que dá a bunda é porque ele gosta, não tem nada de botar a culpa em cima do pó. É como falar 'eu fumo maconha porque tomava cachaça'. (risos) Tudo bem, quem tem sua bunda faz lá o que quiser. Na TV Globo...
C&P  - Alguém já te deu uma patolada?
Bezerra - Vindo me cantar? Nunca aconteceu, não sei se tiveram vontade ou se minha cara assustou. Eu vinha no ônibus de Sepetiba e teve um assalto: eles tavam de cabeça baixa, quando levantaram o olho e me viram, o assalto acabou. Pensaram que eu fosse de outra quadrilha. Realmente, minha cara não é agradável, e eu vinha com mais dois crioulos enormes. Um deles, Geraldo do Bongô, perdeu um concurso de beleza pra King Kong. (risos)
C&P - Tem muito neguinho que vai pra roda de samba e a mulher aproveita pra sambar na roda.
Bezerra - Também tem. Até gravei uma música de Ricardão. Eu tô vacinado contra esse negócio de chifre: quando eu tinha uns 20 anos, morava com uma mulher, eu saía pra trabalhar na obra e ela botava um malandro pra dentro de casa. Fui, fui, um dia fiz que ia trabalher e voltei: dei num flagrante nela, e o cara deitado lá vestido com meu pijama...
C&P - O problema era usar o pijama. Já  a mulher...
Bezerra - Trabalhei seguramente uns dopis meses pra comprar esse pijama! Toda semana guardava um dinheiro! E o pijama era pra vestir num dia de domingo e aparecer na porta da birosca, ninguém tinha um pijama daqueles. E agora vê que merda: eu deixava cem merréis pra mulher comprar comida, o vagabundo já levava um galo(*) pra dar uma volta no morro. Bati na porta e entrei: 'Que porra é essa?' O malandro tava lá no colo da mulher, ela espremendo cravo nele. Minha primeira vontade foi de rir, morô, mas aí bagunçava. Meti a mão na gaveta mas a mulher falou: 'Não precisa ficar com medo que na gaveta não tem nada.' Ele veio com aquela: 'Eu entrei aqui porque ela mandou...' 'Malandro, faz o seguinte: tira o pijama e leva a porra da mulher contigo. Mas leva agora!' O morro todo ficou... (aquele zum-zum). Isso foi na quinta. No domingo, na maior cara de pau, vesti o pijama e cheguei na porta (pose toda metida). Bicho, vou matar uma mulher porque comeram a buceta  dela? Juiz vai me dar 30 anos de cadeia.
C&P - Quer dizer então que você é corno? (Opa! Bezerra fica invocado e vem pintando uma saia justa. Mas ele segura a onda e sai pela tangente)
Bezerra - Corno eu nunca fui porque nunca fui casado. Agora mesmo eu moro com minha mulher mas não sou casado. Ela pega no meu pé mas não é pela minha beleza, é por medo de eu levar um bote. Também não tô aí pra dar mole pras mulheres, tenho meus filhos pra criar.
C&P - Tem um samba que você canta que diz: 'quem usa antena é televisão'. E na sua casa, a imagem tá pegando bem?
Bezerra - (distraído) Pega, pega bem. (se dá conta) Lá não tem antena naquela porra!
C&P - Ah, então lá é a cabo! (risos) E tem que enfiar na tomada! (mais risos)
Bezerra - Casseta & Planeta! Esse pessoal é foda."

(*) Galo - Nota de 50,00



terça-feira, 11 de abril de 2017

Bezerra da Silva: "Eu Vou Onde a Coruja Dorme" (1994) - Parte 1

Bezerra da Silva é um nome diferenciado no mundo do samba. Incorporou a figura do malandro e cantou o cotidiano da vida no morro, criando personagens, contando histórias e mostrando o dia a dia de uma parte da população que normalmente é discriminada e olhada com desconfiança. As músicas que interpretava eram fornecidas em sua grande maioria por um grupo de compositores anônimos, e que contavam em suas letras um cotidiano que bem conheciam, por conviverem em morros e favelas. A imagem do malandro, incorporada por Bezerra não era uma jogada de marketing, e sim, algo bem autêntico e verdadeiro, por isso a grande força de suas interpretações.
Em 1994 a revista Casseta & Planeta fez uma bem-humorada entrevista com Bezerra:
"(Quando a equipe do Casseta & Planeta vai entrando, ele está sentado atrás de uma mesa coberta de pautas, tocando um trompete.)
C&P - Ué, Bezerra, você toca trompete também? Na capa dos discos você tá sempre com um pandeiro.
Bezerra - Eu apareci mais com a percussão, trabalhei na Orquestra da Globo como percussionista - de tambor de macumba e berimbau, mas toco bateria, violão, cavaco, piano, estudei harmonia oito anos com Joaquim Neves, Aí agora tive um problema respiratório - bronquite, asma - e o médico sugeriu que eu tocasse um instrumento de sopro. PROONNN! (manda ver no trompete). Aí me lembrei que aos sete anos foi esse o primeiro instrumento que botei na mão. PRONFOOON!
C&P - Já tocou piano em delegacia?
 Bezerra -  21 vezes! A última foi em 1969. Aí é que tá o negócio: PROOON! Entrei em cana porque não fiz nada. Só se prende pobre e quem não fez nada. Minha ficha penal é nada consta e nunca respondi a um processo. É que existia na época o 'ser detido para averiguação'. Sacumequié, o subdesenvolvimento de um país...
C&P - O cara olhava pra você, te achava com cara de bandido?
Bezerra - 'Seus documentos!' Mas os documentos que eles pediam era a carteira profissional assinada. Se você não tivesse te levavam pra delegacia. Averiguação. Se vissem lá o nada consta te mandavam embora, mas você ficava 24 horas no xadrez esperando o boletim.
C&P - Como é que era a polícia naquela época?
Bezerra - Vamos dizer... não eram bem uns animais... mas quase umas antas, uma coisa por aí. (risos) Talvez o King Kong tivesse mais sentimentos... O camarada entrava na polícia pela janela, era cabo eleitoral, ganhava um revólver e virava policial. A mim nunca bateram. Eu entrei em cana como homem. Fui detido 21 vezes mas não dei a bunda na cadeia. E posso provar isso!
C&P- Não precisa! Não precisa!
Bezerra - Tem uma porrada de vagabundo que tomou no cu lá dentro e agora fica de valentia. Quando dei uns tiros num cara lá do morro foi por causa dessas sacanagens. De vez em quando tem essas coisas. Por isso gravei quela música, 'Bicho Feroz'.
C&P - Você com o revólver na mão é um bicho feroz/ Sem ele anda rebolando e até muda de voz.'
Bezerra - Mas a polícia só prendia pobre, cara, é como até hoje, você não vê um bacana na cadeia. Quem é mais honesto: o Pessoal em Bangu Um ou o pessoal de Brasília? 
C&P - Você tem medo mais da bandidagem ou da polícia?
Bezerra - Nunca tive medo de nenhum dos dois. Primeiro porque não conheço bandido. Isso não existe. Não sei se uma pessoa que nasce mamando no peito da mãe dele é bandido. Se você me perguntar se tem marginalizado, vou responder. Agora, bandido é em cinema.
C&P - Você acha que...
Bezerra - Não acho nada, vocês vão me desculpar, tenho até uma tese que a pessoa que usa a frase 'eu acho' é o cara da dúvida, que não quer se responsabilizar com nada, que não sabe o que tá dizendo, o caô caô, que não quer segurar. Eu não acho. Eu provo.
C&P- Noel Rosa já dizia que quem acha vive se perdendo.
Bezerra - Tudo bem, a realidade é que não mudou nada, principalmente num país desse, que foi descoberto por ladrão. Fui pra escola e me enganaram: Cabral o caralho! Ele era  ladrão, foi expulso de Portugal e chegou aqui nessa porra onde já tinha índio. O Brasil teve ladrão desde o início! Agora tão aí com mais Plano Caralho dizendo que vai ser diferente... Isso vem da época de Jesus Cristo: Pôncio Pilatos, Maria Madalena, é a mesma coisa, cara! Maconha? A mesma coisa. O pessoal assumiu, o consumo aumentou porque a população cresceu, mas tudo isso já existia, não tem novidade. Mudou só a escola.
C&P- Essas notícias todas sobre a violência são uma campanha contra o Rio de Janeiro?
Bezerra - O problema, entendeu, é a política. Quem é que manda mais no Rio de Janeiro? Quem manda no Brasil? TV Globo. Pronto. O homem da Globo não se dá com o Brizola. Quando Brizola sair as notícias mudam. É assim. Eu conheço o Brasil do Acre a Porto Alegre, fazendo shows. É tudo a mesma coisa, tá todo mundo na bronca, assalto em todo lugar. Agora, pegaram o Rio de Janeiro pra bola da vez. Vocês são pessoas esclarecidas, não são ignorantes, e vão cair nesse caô caô, assinando atestado de burro? Isso se chama Grupolina de Almeida Xavier. Só sendo muito otário pra acreditar no agá desses caras.
C&P- Você falou em maconha, mas o que faz mais a cabeça do ser humano:  a umbanda, a maconha ou o cabeleireiro?
Bezerra - O que faz mais a cabeça do camarada  é ele mesmo. É a universidade do mundo. Eu aos 15 anos fui expulso de Recife a bem da disciplina, minha mãe me mandou embora, cheguei no Rio descalço, com a roupa do corpo. O Nordeste é ponto final da miséria. Lá não tem o que comer não, cara. Fome no duro, não tinha trabalho, não ia roubar ninguém, peguei um navio e vim embora. Fui trabalhar numa construção civil, comia e dormia na obra. Cheguei em 46 e em 49 fui pro Morro do Cantagalo. Aí começou outra etapa do meu sofrer.
C&P - Por que você foi morar no morro? Queria subir na vida?
Bezerra - Por causa duma mulher, ela disse que conhecia todo mundo lá no morro, papapá, aí chegou lá, já viu, todo mundo era valente no morro, tive que dar um tapa nuns pra sobreviver... Cheguei do Norte, com fome, apavorado, perdi o medo. Circunstâncias da vida: em 1954 fui pra sarjeta. Sete anos na rua morando igual a um mendigo. Sem nada, só a roupa do corpo, dormia no Arpoador, entrava em cana, o caralho. Fora do ar... Só um amigo do Cantagalo ficou comigo, o resto tudo me abandonou. Mulher então nem olhava pra minha cara! A sarjeta é uma universidade onde não tem aproximação na prova. Se você tem que tirar 5, tirou 4,9, já era. Esse é meu diploma. Consegui me levantar.
C&P - Mas quem te botou no samba?
Bezerra - Em 1964 um cidadão chamado Alcides Fernandes, vulgo Dodoca, me viu tocando tamborim e me levou pro rádio. Eu trabalhava como pintor de obra de janeiro a outubro e no resto do ano gravava carnaval. Gravei muito entendeu, 80% das músicas de carnaval  dessa época eu participei. Fiz uma gravação tocando três surdos ao mesmo tempo. Aí aquilo foi me dando emprego, orquestra do Moacir, do Raul de Barros, fui classificado como o Melhor Ritimista do Brasil, aquele caô caô, e em 77 fiz um disco de samba com Genaro: 'Partido Alto Nota Dez'. (Mostra as capas emolduradas na parede) Essa aqui é a Primeira-Dama do Samba! (Apresenta Regina, sua esposa, que acabou de entrar).
Regina - Vocês querem cerveja, refrigerante? Vou mandar subir. (Sai pra providenciar)
Bezerra - Regina do Bezerra! Malandro botou o nome dela nos discos pra me caguetar: aí quando as mulatas boas ligam eu malandramente tenho que dizer: ela é minha prima. (risos)
Quando é aquelas coisas ruins eu apresento a minha mulher: sai fora, coroa, tu é pior do que eu! É por aí, né meu cumprade, malandro é malandro, mané é mané! (Regina volta com um talão de cartão de crédito para ele assinar) E eu sou malandro e vou assinar aqui, sacô bicho? (risos) Já viu, né, couro vai comer, hein. (Cara de resignado) Diz que não tem, malandro pra mulher...
Regina (explicando pra rapaziada) - Sexta-feira, começo do mês, eu tenho que comprar umas coisas pro nosso salão de beleza, só com cartão de crédito mesmo...
Bezerra - Não precisa explicar não, todo mundo aí tem mulher, eles sabem como é que é. Tudo otário igual a mim! É sempre assim: 'Pra mim você é lindo, tem uma beleza interior...' A beleza é o interior do meu bolso! (risos) Uma mulher pra dizer que sou lindo tem que tá com três problemas sérios: deficiência visual, desgostosa da vida ou dura - acerto sempre nesse terceiro item! (mais risos) É foda.
C&P - Quem batizou tua música de sambandido?
Bezerra - Começou daí: (Mostra uma página da Veja, emoldurada na parede, com o título 'Bezerra da Silva, cantor dos bandidos'). Se tavam pensando em me prejudicar, porque tem preconceito contra sambista, até me ajudou porque bandido passou a gostar de mim, ninguém faz nada comigo, e quem manda nessa porra sou eu, tá entendendo? Fiz shows em todos os presídios, da Ilha Grande ao Talavera Bruce. Eu vou onde a coruja dorme. (risos)
C&P - Como é a vida na favela hoje? É tiroteio o tempo todo, como a gente vê na TV? Toque de recolher, bala perdida, matança de inocentes, que nem em Vigário Geral...?
Bezerra - Mas o que mais morre é inocente! Não sei se é novidade pra vocês, mas o prejudicado é sempre o inocente. Lembra quando Herodes mandou matar todas as crianças de Nazaré?
C&P - Não, a gente não era nascido ainda.
Bezerra - Isso se chama 'frutos do regime'. Tem uma classe dominante que é responsável por isso: eles é que exploram a marginalidade. Tenho uma música que diz: 'Bandido é cabide de emprego'. Essas crianças que tão aí são vítimas de uma sociedade famigerada: amanhã vão ser bandidos pra sustentar eles. Por que os jornalistas não dizem isso? Tão com medo de quê?
C&P - Vem cá, não tem como mandar os meninos de rua pra calçada, onde pelo menos não passa carro?
Bezerra - Isso é conversa fiada, isso tem cura, é como se você tivesse com uma dor de dente, num estado profundo de cárie que não tem mais como restaurar: se o dentista não quer lhe roubar, extrai logo. Mas se quiser se dar bem vai alimentando aquilo, bota um negócio aqui e ali, aquela porra tá sempre doendo e ninguém cura. Agora, tudo bem. Algum de vocês conhece favela?
C&P - Eu conheço
Bezerra - Já morou lá? Então não conhece. Graças a Deus. Você tá falando com favela, bicho, morei 20 anos no Cantagalo, então não vem com essas conversas de caô caô, não acredita que uma criança com seis meses seja bandido. Procriação é a lei da natureza. Você é um operário, tá bom, morando no morro. Trabalhador. Vai acreditar que todos os habitantes do lugar onde você mora sejam bandidos, que ali só tem marginal? Mas é o que a sociedade diz. Jornal só chega depois, não vê porra nenhuma, e escreve que viu tudo.
C&P - Mas você não conheceu nenhum bandido mesmo, um cara assim mau pra caralho?
Bezerra - Mau? (ri) Brasileiro não é mau, cara. Não tem índole pra isso. Olha, desculpa, se brasileiro tivesse raça mesmo, não ia ter porra nenhuma disso! Brasileiro é de grupo! Não é de porra nenhuma! Fala muito alto enquanto o Flamengo não faz um gol. O outro vem, toma o dinheiro de todo mundo, e fica todo mundo rindo... Isso é casa de mãe Joana, porra! Lá no Cairo, na casa do caralho, numa parada de 7 de setembro, um cara saltou do carro e fuzilou todo mundo no palanque. O tigre é um animal de porte violento mas se tiver de  barriga cheia não ataca ninguém. Agora, brasileiro tá fudido, tá com fome, mas tá tapando o sol com a peneira. Cadê a Queda da Bastilha pra libertar essa porra?"

(continua)