Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

sábado, 31 de dezembro de 2011

Revistas Legais - História do Rock (4 Volumes)




Nos anos 80 a antiga Editora Três era responsável por algumas publicações musicais, como a revista Somtrês, especializada em equipamentos e matérias musicais, uma série de revistas-poster, falando de várias bandas e artistas, e de vez em quando publicava alguma edição especial, sempre na área musical. Uma dessas edições foi uma série com quatro revistas contando a história do rock, de seu início nos anos 50, até a época em que as revistas foram publicadas.
O responsável pelo texto foi o jornalista e pesquisador musical Roberto Muggiati, de quem aliás, já falei aqui neste espaço, quando comentei sobre dois livros de sua autoria. Os quatro volumes foram assim divididos: 1º Volume - Os Anos Heroicos (1954-1959); 2º Volume - Os Anos de Ouro (1962-1966); 3º Volume - Os Anos da Utopia (1967-1970) e 4º Volume - Os Anos da Incerteza (1970-1980). Fartamente ilustrado, e com um ótimo texto, onde o rock é contextualizado dentro dos períodos em que foram divididos na obra, onde as transformações sociais, políticas e culturais são destacadas, os quatro volumes da História do Rock oferecem um amplo panorama do que o rock representou no período destacado.
No primeiro volume, dedicado aos primórdios do rock'n roll (anos 50), Muggiati inicia seu texto dizendo: "No começo da década de 50, uma estranha e imprevista combinação iria desencadear a grande revolução. Um caipira do Mississipi, um americano típico de Detroit, um branco meio maluco da Luisiana, o filho de um lavrador do Tennessee, um ex-trombadinha de St. Louis, um crioulo de Nova Orleans filho de violonista, um mulato da Georgia gênero bicha louca, dois irmãos do Kentucky, filhos de cantores de rádio, um colegial do Texas. Nenhum deles parecia destinado a pouco mais do que uma existência anônima, sem a maior importância. Um time de perdedores. Mas, com a força da sua música, eles abriram caminho para o explosivo fenômeno do rock'n roll e se tornaram os heróis culturais de toda uma geração. Seus nomes: Elvis Presley, Bill Haley, Jerry Lee Lewis, Carl Perkins, Chuck Berry, Fats Domino, Little Richard, os Everly Brothers e Buddy Holly".
Cada um deses personagens tem suas vidas contadas, juntamente com a história do gênero, além de outros personagens não ligados à música, e sim ao cinema, mas que se interligam com a história do rock, como James Dean e Marlon Brando, e a figura emblemática do "rebelde sem causa", muito ligada aos anos 50.

O Volume 2 destaca os anos 60, de 62 a 66, e traz na capa, como não poderia deixar de ser, os Beatles. Na introdução do segundo volume, Muggiati destaca:
"Com o final da década de 50, o rock já tinha se transformado numa assinatura reconhecida em todo o mundo. E quando a maioria imaginava que o gênero poderia ser vítima de uma decadência precoce - como dezenas de outras modas que vieram e passaram, o rock sacudiu a década de 60 com uma força que ninguém poderia prever."
Nesse segundo volume é destacada primeiramente a música de protesto e engajada em movimentos políticos, destacando-se Joan Baez e Bob Dylan. A folk music é apresentada como uma música que fala dos direitos civis, na luta ao lado das classes desfavorecidas. Mostra ilustrações com fotos de Joan Baez em concertos de fundo político e uma foto em que ela aparece numa marcha ao lado de Martin Luther King.
Bob Dylan (que por sua importância também poderia ser destacado na capa da edição) é amplamente citado numa matéria de várias páginas, onde é destacado não só seu lado de músico, que revolucionou e influenciou toda uma geração (inclusive os próprios Beatles, e mais tarde Hendrix, dentre outros) como também seu engajamento político, destacado em suas músicas de protesto.

Uma longa matéria com os Beatles vem em seguida, destacando seu início em Liverpool, até sua afirmação e ascenção - os anos da beatlemania e toda a influência que a banda representou. Como o segundo volume fala até o ano de 1966, a história dos Beatles continua a ser contada na terceira edição. Esse volume também destaca o fenômeno conhecido como Britsh Invasion, a invasão das bandas inglesas no mercado do rock: Rolling Stones, The Animals, The Yardbyrds, The Who, Cream e The Kinks.
Também é destacado o surgimento de novas bandas americanas. Num tópico intitulado "Reação Americana", o texto diz: "O boom britânico acabaria por despertar o rock americano, que entrara em hibernação em fins de 50/início de 60." É destacado principalmente o novo som vindo do estado da Califórnia, que iria dar no rock psicodélico dos anos 60: The Byrds, Country Joe The Fish, Jefferson Airplaine, The Mammas and The Papas, The Mothers of Invention, Canned Heat, The Grateful Dead, etc.
O volume 3 destaca o período 1967-1970. Fala dos grandes festivais, como Monterey e Woodstock, e o surgimento de figuras marcantes como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison dentre outros. É destacado também o movimento hippie, o "Verão do Amor", e vários pensadores que influenciaram aquela geração, como os autores beats e Herbert Marcuse. Como curiosidade a revista traz uma matéria de várias páginas contando detalhes sobre a gravação do álbum Sgt Peppers, dos Beatles.
O quarto e último volume, intitulado Os Anos da Incerteza, destaca o período de dez anos, entre 1970 e 1980. A introdução do volume diz: "A década de 70 parecia bem distante da petulância dos anos heroicos do rock. Muitos dos grandes nomes do passado já não revelavam sequer uma parte da força original, se acomodando e produzindo música sem interesse. Ao mesmo tempo, grupos novos não conseguiam ocupar um vácuo tão grande."
o último volume da série destaca o rock progressivo (Yes, Emerson, Lake and Palmer, King Crimson, Pink Floyd), fala dos supergrupos, como Led Zeppelin, o surgimento do movimento punk (em várias páginas), a ascenção do reggae, a disco music, o estilo fusion, soul, etc. Esses quatro volumes da História do Rock é um excelente material de pesquisa sobre as três primeiras décadas do rock, escritas por quem entende do do assunto.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Cartola - Filosofias de um Herói Proletário


Em Cartola convivem harmoniosamente, o elegante músico e o poeta acurado. De um lado, o cultor de sambas de preferência lentos, de harmonia trabalhada e ritmo sutil. E com ele, o escritor de imagens filosóficas, banhadas em acentuado misticismo, boa dose de resignação e outro tanto de alegria de viver, indispensáveis a uma sobrevivência árdua como deste herói proletário. Afinal, com essas armas, na prática, ele conseguiu furar todos os bloqueios e dissimuladas hostilidades, projetando sua arte num meio intelectual acentuadadamente elitista.
É certo que não se trata de um iconoclasta, demolidor de mitos, formas ou conteúdos. Ao contrário, Cartola é um clássico que raramente deixa escapar uma imagem mais crua como as rudes cenas de "O Que É Feito De Você", onde deplora a perda da mocidade. "E hoje quando passo/ A gurizada pasma/ Horrorizada/Como quem vê um fantasma/ E um esqueleto/Humano assim vai cambaleando/ Quase cai não cai". Outra excessão é "Desfigurado", onde ele compara a infelicidade de seu coração "pobre e magoado" com a do "menor abandonado". Com maior frequência, no entanto, as músicas de Cartola (que tanto pedem flautas e cavaquinhos, quanto violinos e oboés) desenrolam seus atos num cenário quase matafísico, onde se discute Deus, a vida, a morte, amores e ódios. Ou, em resumo, as desventuras e os prazeres da arte de viver, para a qual Cartola ostenta o diploma duplo de filósofo e aprendiz.
"Semente de Amor" - Este experimentado pensador descobre uma imponderável relação entre as coisas que previsivelmente "acontecem" ou não: "Vai chorar, vai sofrer e você não merece/ Mas isso acontece (...)". E fatalmente conclui que "o mundo é um moinho e vai reduzir as ilusões a pó". Nada como um dia após o outro afirma "O Sol Nascerá" (Finda a tempestade o sol nascerá). E qua as aparências enganam: "Quem me vê sorrindo pensa que estou alegre/ O meu sorriso é por consolação/ Porque sei conter pra ninguém ver/ O pranto do meu coração".
Candidamente, o sincero poeta admite a fragilidade da tese do amor único e eterno: "Tive sim, outro amor antes do teu/ Tive sim". Mas prefere calar, porque não pretende magoar sua nova paixão. "Semente de amor desde nascença", como confessa num verso de concisão extrema, Cartola termina por entregar sua solidão às rosas: "Que bobagem, as rosas não falam/ Simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti". Tantas decepções e frequentes voltas à realidade poderiam alistar o cético Cartola entre os trovadores da amargura e do pessimismo. No entanto ele tem fé (Grande Deus) e professa a modesta alegria do sambista de morro: "Habitada por gente simples e tão pobre/ Que só tem o sol que a todos cobre, como podes Mangueira cantar?/ Mas então saibas que não desejamos mais nada/ À noite a lua prateada".
Parecem estreitos estes limites poéticos que desfilam pelos três elepês do compositor. No entanto, eles bastariam ao Mestre Cartola para que passasse de pedreiro, gráfico, quitandeiro e vendedor ambulante ao artista reconhecido e convidado aos melhores salões. Uma trajetória de todo modo semelhante à que ocorreu ao próprio samba e que não escaparia às escuras - mas visionárias - lentes de Cartola, em parceria com Carlos Cachaça em "Tempos Idos": "Já não pertence mais à praça/ Já não é samba de terreiro (...) conseguiu penetrar no Municipal/ Depois de percorrer todo o universo". Enfim, missão cumprida.

Tárik de Souza (Veja - 18/10/78)

sábado, 17 de dezembro de 2011

Ringo Starr - O Arlequim das Baquetas


Muita gente considera Ringo Starr um cara mais sortudo do que talentoso. Por ter feito parte da mais brilhante banda de todos os tempos, os Beatles, e ter tido três companheiros de inegável talento, sendo um baterista de estilo discreto, e não um virtuose de seu instrumento, Ringo talvez nunca tenha sido considerado por nenhum fã da banda como seu Beatle favorito. Mas a verdade é que Ringo na banda era um baterista seguro, que definiu o ritmo e a batida de várias das canções clássicas da banda. Assim com Charles Watts dos Stones, por exemplo, Ringo tinha seu estilo discreto, sem usar mão de solos mirabolantes, mas de estilo fundamental para a música que a banda executava. Abaixo, transcrevo um texto sobre ele, escrito por Pedro Amaral na revista de arte e cultura O Carioca, em 1997, intitulado O Arlequim das Baquetas.
"Nascido Richard Starkey, nome que abria-lhe um amplo campo profissional, ou pelo menos não o limitava, jovem ainda, fez-se Ringo Starr. Além de lavrar (por sugestão, quem sabe, de algum diretor de propaganda) seu ingresso na constelação das celebridades, este nome, aparentemente uma opção, deliberada pela brincadeira, pela pantomima, traz, no eco da palavra 'anel' (ring), a ideia - por desenvolver - de que ele não pretendia senão tornar-se uma espécie de adorno, um enfeite, jamais o centro das atenções. As más línguas - que no chamado show business parecem ser as únicas existentes - consagraram a lenda de que Ringo, provavelmente o baterista mais famoso do mundo, jamais aprendeu a rufar os tambores. Com efeito, percebe-se que, não bastasse a posição que ocupava, junto ao pano de fundo, escondido atrás de seu instrumento como um atirador em uma trincheira, seu estilo caracterizava-se por uma economia de meios, uma atenção ao 'essencial', limitando-se a ele, às vezes, à função de metrônomo - talvez por isso mesmo as fugas a essa regra se tenha gravado na memória de milhões de ouvintes, inclusive ouvintes desatentos.

Contudo, o feito notável (embora ainda não notado) desse arlequim narigudo, de riso infantil e costeletas improváveis foi certamente o de estabelecer em torno de si uma tríade de personalidades distintas, que se misturavam e se equilibravam formando uma espécie de escudo, um campo magnético que lhe garantia a impermeabilidade de seu mundo: de um lado, um homem inquieto, impulsivo, de um violento poder criador (que reivindicava para si um fim trágico), e que exercia sobre as pessoas um fascínio tal que fazia muitas terem nele um guia, uma liderança irresistível; de outro, um tipo vaidoso, bem-comportado, dotado de um grande talento e que, mesmo sem compreender (por não tentar ou por não compreender) a natureza da força que tinha ao lado, esmerava-se em acompanhá-la, ampará-la (o que às vezes significava apará-la), saciando, com aparente abnegação, sua sede de glória; ao centro de ambos, como o fiel da balança, o mais lúcido, maduro, que, sem contar com aqueles maiúsculos atributos de seus pares (mas munido de uma espécie de fé), contemplava-os e seguia-os, como um irmão mais velho, um tutor benevolente, amigo de seus protegidos - suas intervenções, sempre simples e pungentes, agiam como uma linha a cerzir aquele variegado tecido. Por detrás de todos, no lado escuro da Lua, Ringo seguia intocado, gozando de uma alegre irresponsabilidade, e podemos imaginar a que deleites se entregava quando não estava sob a guarda dos três: 'entornava' garrafas de scoth, fumava brincando com a fumaça, tinha lá seus amores, delírios, escrevia composições e aforismos (em lampejos de clarividência), tascava epítetos nos circundantes e, principalmente, varava madrugadas sozinho, no estúdio de seu castelo, rindo e... fazendo rufar os tambores."

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Arnaldo Antunes - 1990


Em fevereiro de 1990 o jornal cultural Nicolau, editado pela Secretaria de Cultura do Paraná, publicava um texto de Arnaldo Antunes. Na época Arnaldo só tinha um livro publicado, e ainda não seguia carreira-solo. Ao final do texto, na apresentação do autor, Arnaldo era apresentado como "poeta, autor de Psia (Ed. Expressão, 1987) e integrante do grupo de rock Titãs". É um texto muito louco e interessante, datilografado, e com algumas correções feitas a caneta, como crases, vírgulas acentos e riscos, corrigindo imperfeições. Na época eu era um fã dos Titãs, e já via em Arnaldo o artista talentoso que ele já demonstrava ser. Segue abaixo o texto:

Eu pedi um café e perguntei à moça que servia no balcão se ela acreditava em discos voadores. A moça disse que não. Eu desdobrei o jornal que dizia que um objeto não-identificado tinha seguido um avião durante duas horas, sendo visto por todos os passageiros, menos por um cardeal e pelo padre que acompanhava o cardeal pois eles se recusaram a olhar. Eu perguntei à moça o que ela pensava daquilo. O jornal mostrava um desenho do objeto feito pelo comandante do avião. A moça disse que devia ser um cometa. Eu perguntei se ela nunca havia visto um marciano na vida dela. Disse que não, e eu disse que ela estava olhando pra um naquele momento. Eu saí do bar como o meu jornal e um policial me perguntou aonde eu ia. Que eu ia pra casa, ele viu nos meus olhos e na minha roupa que eu mentia, mas me deixou ir. Enquanto eu falava com o policial um tipo alto e magro ria, junto com seu companheiro um pouco mais baixo de cabellos encaracolados. Eles riam de mim, me olhando sentados no balcão e cochichando um com o outro porque eu tremia ao falar com o policial. Quando eu estava liberado eu voltei ao bar e pedi outro café, encarando os dois caras que continuavam a rir. Eu disse para o mais alto: vocês estão sempre juntos, hem? E ele respondeu que sim, tipo umas trinta vezes por noite.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Preciosidades em Vinil: Orós - Fagner


Um grande disco que possuo, não só em vinil, como também em cd é Orós, de Fagner. Lançado em 77, esse disco representou uma ruptura no trabalho de Fagner, e até hoje é um trabalho diferenciado em sua carreira, pelo experimentalismo e ousadia. Tendo Hermeto Pascoal como arranjador e diretor musical (ao lado do próprio Fagner), Orós traz músicos de expressão, como Robertinho de Recife (guitarra), Paulinho Braga (bateria), Chico Batera (percussão), Nivaldo Ornelas (sax), Márcio Montarroyos (trumpete e flugelhorn), Dominguinhos (acordeon), Mauro Senise (flauta), além de Hermeto Pascoal e seu grupo. Na época de seu lançamento, a jornalista Ana Maria Bahiana fez a seguinte resenha do álbum para o Jornal de Música:

"O difícil do progresso é a transição. Insatisfeito em ser apenas mais um compositor cearense ligado ao formato 'canção popular', Fagner foi buscar em Hermeto as luzes e forças necessárias para progredir. Passo interessante na atitude, na inquietação , mas perigoso nos resultados. Hermeto, como se sabe, é um superfuracão albino, estraçalhador de moldes convencionais, catapulta tão possante quanto destruidora, depende da resistência do que é projetado. E a música de Fagner, ainda ligada ao feitio canção, quase se espatifa toda e, como o açude que dá nome ao disco, transborda. No mau sentido. O que Orós poderia ter sido, integralmente - e o que a música inteira de Fagner, inteira poderá ser se ele souber segurar firmemente o barco - está em algumas faixas brilhantes: Romanza, uma das derradeiras parcerias Fagner/Belchior (com Fausto Nilo também) parte de uma base nordestina de galope e, por artes de Hermeto, explode em todas as direções, com a voz cortante de Fagner duelando com o sitar diabólico de Robertinho de Recife; e Cebola Cortada, de Petrúcio Maia e Clodo, onde Hermeto consegue conciliar seus impulsos amazônicos com os limites da canção de amor, coisa que Fagner certamente sabe cantar. Há também esboços interessantes, como a faixa título, bem mais hermética que fagneriana, e Fofoca, composta pela dupla no estúdio, com um uso inteligente de timbres de voz e dublagens sucessivas - coisa que está colocada, com perfeição em Romanza."
Como se vê em sua crítica, a jornalista faz restrições ao álbum, justamente pelo aspecto ousadia, que citei no início do texto. Creio que algumas obras só são compreendidas integralmente, com o distanciamente que o tempo sabiamente traz.

Algumas faixas não são citadas na crítica, e que ouvidas hoje, se constituem em algumas das melhores gravações da carreira de Fagner, como Cinza, Flor da Paisagem e Epigrama nº 9 (poema de Cecília Meireles musicado por Fagner). Não há uma música sequer que pode ser considerada fraca, e o transbordamento a que se refere a jornalista, da música de Fagner, que ela ressalta ser no mau sentido do termo, eu colocaria justamente na condição contrária: é um transbordamento de criatividade, de ousadia e musicalidade, coisas que andam tão em falta hoje em dia.
Posso dizer que Orós é um grande disco, e que hoje, 34 anos depois de seu lançamento, pode ser mais compreendido do que na época.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Eu Comi a Merenda de Zé Carlos e Neguei - João Ubaldo Ribeiro


A revista Careta, que circulou nos anos 80, trazia uma sessão chamada "Minha Escrotidão Inesquecível", onde uma personalidade confessava um deslize, uma babaquice ou um ato pouco louvável de sua vida. Em sua edição de julho de 1981 a revista trazia um depoimento do escritor João Ubaldo Ribeiro, relembrando um episódio de sua infância. Segue abaixo sua narrativa:
"No jardim de infância dirigido por Dona Bebé, em Aracaju, por volta de 1946, o costume era a gente levar de casa nossas lancheiras, com um sanduíche ou dois, um refrigerante ou então um chocolate quente na garrafa térmica (que lá se chama 'quente-frio'). Algumas classes eram organizadas, na hora da merenda. A professora mandava buscar as lancheiras e distribuía as merendas nominalmente, uma por uma. Outras clases, contudo, eram mais esculhambadas: empilhavam as lancheiras na mesa da professora e o pessoal avançava.
Não foi assim que, por engano - porque sempre fui meio abestalhado - entrei na classe de meu amigo Zé Carlos, que era do tipo 'avançar'. Não reparei nada. Pensei que o sistema tinha mudado e avancei também. Peguei o primeiro pacotinho e bagunhei. Era pão com goiabada. Mendei ver. Futuquei mais na lancheira, achei um quente-frio meio diferente do meu, mas tomei de qualquer jeito. Era laranjada.
Eu já tinha quase acabado a laranjada e o pão com goiabada, quando, no meio da confusão, vejo o Zé Carlos diante de mim, e apontando a merenda dele, que eu praticamente já devorara. Zé Carlos - terrível agravante - era um menino ótimo, que morava perto de mim e me fazia favores, emprestava coisas e quebrava galhos.
- Você comeu minha merenda! - berrou ele.
- Mentira sua! - disse eu, com todo o cinismo.
E, engolindo calmamente o último pedaço de pão com goiabada, marchei em compasso lento para a porta como um desses pistoleiros que se evadem sem precipitação, andei para a minha sala, ainda peguei minha própria merenda (sanduíche misto e chocolate) e não tive remorsos. Quando Zé Carlos se queixou, neguei tudo com veemência, fiquei ofendido. A história era inverossímil, a professora dele não queria admitir que não estava fiscalizando a classe. Todo mundo me deu razão, até hoje eu passo de bonzinho lá. A verdade é esta.
Não tenho a mínima justificativa para minha atitude. Foi uma coisa que deu em mim."

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Caetano e o Pasquim (1969)


Em 1969 Caetano e Gil viviam exilados em Londres. Nesse ano surgiu um novo veículo de comunicação que seria o principal órgão de imprensa a expresar críticas à ditadura militar que se instalara no Brasil há cinco anos - o jornal O Pasquim. Naquele período, Caetano passou a escrever regularmente para o jornal, enviando notícias de seu exílio. Muitas crônicas foram escritas naquele período. Ao homenageá-lo com a música Quero Voltar Pra Bahia, o compositor Paulo Diniz dizia : "Via Intelsat eu mando notícias minhas para O Pasquim...". O Intelsat citado na música era um satélite que permitia que notícias e imagens de países distantes chegassem até nós em tempó real, uma novidade na época. A ilustração dessa postagem mostra uma interessante foto de Caetano tirada em Londres, que rendeu ao jornal uma bela capa. Abaixo reproduzo uma crônica de Caetano publicada em novembro de 1969:
"Hoje quando eu acordei eu dei de cara com a coisa mais feia que já vi na minha vida. Essa coisa era a minha própria cara. Eu sou um sujeito famoso no Brasil, muita gente me conhece. Eu acredito que a maneira pela qual esse conhecimento se dá pode dizer muito a mim mesmo sobre mim. Acho que uma capa de revista pode ser como um espelho para um homem famoso.
Quando um homem vê sua cara no espelho ele vê objetivamente em que estado a vida o deixou.
O vídeo-tape, a fotografia colorida e as manchetes que incluem o nome de um homem famoso são também assim como o espelho. Durante todo o tempo em que estive trabalhando em música popular no Brasil eu sempre levei em conta esse fato. E eu pensava que estivese fazendo alguma coisa, pois a imagem que me era devolvida era a de alguém vivo, em movimento, passando realmente por essas coisas.
Hoje eu fui à aula de inglês e Mr. Lee me ensinou como usar direct speech em lugar de reported speech. Depois da aula King's Road estava sem beleza, sob uma chuva fria e crônica. Eu atravesso as ruas sem medo, pois eu sei que eles são educados e deixam o caminho livre para eu passar. Mas eu não estou aqui e não tenho nada com isso.
Estou andando como homens, com meus dois pés. Não penso em fazer nada. Alguém entende o que seja isso?

O cara que me vende cigarro no Picasso fala espanhol. Na janela da casa onde estou morando tem uns gerânios que já estão secando por causa do outono. Meu coração está cheio de um ódio opaco. As crianças inglesas são belas e agressivas. A Rainha Elizabeth está pedindo aumento de salário. Eu não dependo disso tudo. Nada disso depende de mim. O aspirador não serve para limpar as cortinas porque é muito pesado. Aqui em casa. O Rei esteve ontem aqui em casa e eu chorei muito. Se você quiser saber quem eu sou posso lhe dizer: entre no meu carro, na estrada de Santos você vai me conhecer.
Talvez alguns caras no Brasil tenham querido me aniquilar; talvez tudo tenha acontecido por acaso. Mas eu agora quero dizer aquele abraço a quem quer que tenha querido me aniquilar porque o conseguiu. Gilberto Gil e eu enviamos de Londres aquele abraço para esses caras. Não muito merecido porque agora sabemos que não era tão difícil assim nos aniquilar. Mas virão outros. Nós estamos mortos.
Ele está mais vivo do que nós."

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Black Oak Arkansas - 1976


O rock sulista americano produziu várias bandas que ajudaram a marcar um estilo, baseado em influências do country rock, com pitadas de blues. Bandas como os Allman Brothers, Lynyrd Skynyrd, Poco, e outras, fariam a fama do rock produzido no sul dos EUA. Dentre essas bandas, uma das mais interessantes é a Black Oak Arkansas. Em novembro de 1976, a revista Pop trazia uma matéria sobre eles, que começavam a se destacar no cenário musical americano. Segue abaixo a matéria:
"Na pequena vila de Black Oak, em Arkansas, uma das regiões menos desenvolvidas dos Estados Unidos, a vida de seus 500 habitantes nunca sofre grandes transformações: plantar, colher, esperar algum benefício das cidades vizinhas. Nos últimos anos, porém, a fulminante trajetória de um grupo de rock mudou quase radicalmente as feições do lugar. Entre outras proezas, depois que deixaram Black Oak para alcançar sucesso internacional, os rapazes do Black Oak Arkansas ajudaram a construir a agência de correios da cidade, doaram 35 mil dólares para a construção de uma escola (transformando a velha em um museu), importaram um um pulmão de aço para o posto de saúde, foram acusados pelo padre local de 'grupo de origens satânicas' e convidados especialmente para a posse do novo governador do Estado. Certamente, uma ficha heroica e contraditória, como o próprio rock.
Amigos íntimos desde muito jovens, os seis rapazes do Black Oak Arkansas sempre tiveram certeza de que suas vidas não seriam iguais às das pessoas do lugar. E para conseguir esse objetivo, a música era o melhor caminho, segundo relembra o vocalista Jim Dandy:


- Há dez anos, nós vivíamos em Black Oak e éramos rebeldes, como todos os adolescentes. Não sabíamos o que queríamos fazer, e tudo o que ouvíamos, dos vizinhos e professores era: 'Comportem-se, sejam como nós'. No entanto, sentíamos que a vida era bem maior que a compreensão das pessoas de Black Oak. Queríamos ter nossa própria consciência, algo que a maioria das pessoas não tem e não gosta que outros tenham. Nós fomos os primeiros a usar cabelo comprido em Arkansas. Quando íamos tocar nas cidades vizinhas, tínhamos que voltar correndo pra casa depois do show, para evitar brigas e agressões do público, por causa de nosso cabelo e comportamento. Quando as pessoas nos diziam para sermos bonzinhos e não incitar o público, nós achávamos engraçado. Afinal, incitar o público significa fazer mudanças, e as mudanças precisam acontecer.
Hoje em dia, os músicos do Black Oak Arkansas continuam morando na mesma região, numa imensa fazenda que chamam de 'Paraíso Terrestre'. Com nove LPs editados, vários deles tendo recebido o 'disco de platina' (um milhão de cópias vendidas), eles são um dos grupos americanos que mais se apresentam, com uma média de 200 shows por ano. Ao contrário dos Allman Brothers, com quem são constantemente comparados por causa das origens sulistas, a música do Black Oak é barulhenta, suja e improvisada. Mas, segundo Jim Dandy, não podria ser de outro modo, 'já que nossa música é reflexo do mundo atual...'"

sábado, 26 de novembro de 2011

Os Carloz - Sesi Campos


O SESI Campos durante esse ano de 2011 se constituiu em um novo espaço para a música produzida na cidade. O bom teatro, com espaço para duzentas pessoas, tem atendido bem aos projetos musicais desenvolvidos por bandas e artistas locais de diferentes segmentos, do samba ao rock. Várias bandas da cidade têm passado pelo palco do teatro do SESI, e tudo indica que em 2012 o espaço continuará aberto para a produção local, não só de música, como também o teatro. Não se pode esquecer de mencinar o empenho do diretor Fernando Rossi, que administra o espaço e tem dado esse apoio tão necessário.
Mas falando especificamente do show de ontem, a banda Os Carloz se dedica preferencialmente ao repertório da fase Jovem Guarda de Roberto Carlos. Formada por Ranieri Martins (vocal), Ricardo Kadico Azevedo (guitarra), Guilherme Rabelo (baixo) e Daniel Azevedo (bateria), a banda se propõe a dar uma nova roupagem ao repertório Jovem Guarda de Roberto, porém sem procurar inventar muito - os arranjos originais foram na maioria respeitados.
A descontração foi a tônica do show, com os membros tocando como se estivessem numa festa entre amigos, e na verdade era um pouco isso mesmo, e esse clima ajudou a tornar o show bem animado, com o público bem participativo. Na verdade foi uma grande festa de arromba, como foi a fase da Jovem Guarda.
Alertando ao público que não se considera um cantor, o vocalista Ranieri, apesar de não ter uma grande voz soube segurar a onda, interpretando vários clássicos do Rei. Iniciando a apresentação com Se Você Pensa, trazendo em seguida É Proibido Fumar e Não Vou Ficar, ele chamou o público a se levantar das poltronas e se aproximar do palco, pra festa ficar completa. Empolgado pela música dançante, e ainda estimulado por uma cachacinha oferecida pelos promotores do evento, a diversão estava garantida. Não faltaram outros clássicos da Jovem Guarda, como Ciúme de Você, O Gênio, Noite de Terror, Eu Te Amo,Te Amo,Te Amo, Não Há Dinheiro e Nasci Para Chorar, entre outras. A bela balada, de autoria de Antonio Marcos, E Não Vou Mais Deixar Você Tão Só, representou bem o romantismo do Rei. Agumas músicas pós-Jovem Guarda também entraram no repertório, como o Portão.

Muito boa também a inclusão de uma de Erasmo, como não poderia deixar de ser, e melhor ainda de tê-la dedicada a mim, um fã confesso do Tremendão. Filho Único, do disco A Banda dos Contentes, de 1977, caiu bem em meio aos sucessos de Roberto. Outra da fase posterior à Jovem Guarda incluída no set-list foi Além do Horizonte. Essa música eu preferiria que fosse cantada conforme Roberto gravou, sem a inversão dos versos "Se você não vem comigo tudo isso vai ficar no horizonte esperando por nós dois/Se você não vem comigo nada disso tem valor valor, de que vale o paraíso sem amor". A letra foi cantada conforme a gravação do Jota Quest. Eu gosto mais da forma original. Mas esse detalhe não invalida a interpretação.
O ponto alto da apresentação em minha opinião foi com Todos Estão Surdos, numa levada bem funkeada. A fase soul de Roberto, um dos pontos altos de sua longa carreira, não poderia ficar de fora, e nessa música novamente a banda mostrou competência, com o baixo de Guilherme fazendo a marcação funk, com a guitarra de Kadico conduzindo a levada funk/soul, e a batera segura de Daniel ditando o ritmo, enquanto Ranieri nos vocais passava a mensagem pacifista da bela letra. Encerrando o show, Amigo, outro clássico pós-Jovem Guarda, para dar um clima de fim de festa, e fazendo todo mundo cantar e dançar. Foi um belo show para homenagear aquele que sempre será o nosso Rei.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Raul Seixas - 1976


Raul Seixas é um dos mais marcantes, influentes e carismáticos artistas surgidos no Brasil. "Você tem que deixar sua marca no planeta" disse ele uma vez, e hoje o culto à sua obra prova que sua marca ficou.
Em agosto de 1976 a revista Música trazia uma matéria de capa com Raul, que vivia na época o seu auge criativo, vivendo ainda sua antológica parceria com Paulo Coelho. O texto se iniciava com uma pequena apresentação de Raul e sua obra:
"Raul Seixas é uma figura nebulosa. Para falar dele, e entendê-lo, necessita-se uma visão aberta aos conhecimentos racionais, à Metafísica. Na sua mente misturam-se plantas, velas, frenesis, espíritos, bomba atômica. Uma coisa meio complicada. Mas tudo isso é ele mesmo. É sua vivência, sua cabeça. Suas letras apresentam figuras bíblicas aliadas a mulheres de taberna, Condes Dráculas e Zumbis e soldados de campanha. Em outras, se auto-define como sendo as coisas da vida, o início, o fim e o meio. Aqui ele se expõe. Sem início, meio e fim."
Na época em que a revista saiu, Raul vivia um período de grande sucesso. A faixa-título de seu disco Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás, tocava direto nas rádios, impulsionando as vendagens de seu álbum. O disco, por sinal, era muito bom. Sua parceria com Paulo Coelho representava a melhor fase de seu trabalho. Apesar de hoje, seu antigo parceiro ser considerado um escritor que produz uma literatura de qualidade duvidosa, não se pode negar que como letrista, Paulo Coelho conseguia traduzir em palavras todas as ideias revolucionárias e contestadoras que emergiam da cabeça inquieta de Raul. Abaixo alguns trechos da matéria:
"'Eu sou de 45, o ano em que soltaram a bomba atômica'... é assim que ele se define, fruto de uma época. Seu trabalho, como diz é 'o espírito social de uma época.' Criado em uma família comum, teve uma infância fechada em casa. 'Minha mãe não me deixava sair na rua para não aprender palavrão.' A vasta biblioteca de seu pai foi seu brinquedo preferido , daí veio seu gosto pela palavra e uma miopia precoce. Como muitos garotos dessa geração, logo se interessou por James Dean e sua rebeldia. Elvis Presley veio logo em seguida tomar seu lugar. 'Eu ouvia Elvis o tempo todo'. Um violão comprado pela mãe foi o resultado rápido dessa devoção. Os acordes foram vindo sozinhos, ouvindo os discos e tentando tirar as músicas. 'Pegava fogo dentro de mim'. A música e a literatura misturavam-se, preparando o caminho para sua carreira."

A matéria segue narrando a carreira e a vida de Raul. Em determinado trecho é citada a ida de Raul para os Estados Unidos - um exílio imposto pelo governo da ditadura, pelo seu caráter anarquista que incomodava os militares. O enorme sucesso de Gita, que estourou nas paradas quando ele estava fora, obrigou os militares a trazê-lo de volta, pois não tinham como justificar a ausência do mais popular cantor da ocasião. De volta ao Brasil, Raul alimentou um mito, um suposto encontro com John Lennon e Yoko Ono, que na verdade nunca ocorreu. A matéria assim descreve esse episódio:
"Nos Estados Unidos em Nova York por um ano, conhece John Lennon e Yoko Ono e lança as bases da Sociedade Alternativa, uma proposta de vida, da qual muita gente tentou ser sócio, 'mas não é nada disso, ela está apenas na cabeça de todos nós.' Seus estatutos diziam: 'Faze o que tu queres, tudo é da Lei'."
Na parte final da matéria, Raul declara:
"Faço um embrulho bonito do que eu quero dizer. A música é uma embalagem do que eu sei fazer. Poderia ter sido escritor, mas canalizei no rock.
Eu sei ser simpático quando aperto a mão das pessoas. Isso vem de coração. Elas entendem. É assim que eu faço música, na intenção e na intuição. A ideia básica sai do coração, espontânea. O invólucro, a embalagem é um tempero proposital para as pessoas gostarem."

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Só Garotos - Patti Smith


No momento estou lendo, e já quase chegando ao fim, o livro Só Garotos, que são memórias da cantora Patti Smith. Trata-se de um livro onde ela narra sua relação com o fotógrafo Robert Mapplethorpe, com quem ela conviveu bem antes de se tornar uma das cantoras e compositoras revelação dos anos 70. Numa apresentação na contracapa, o livro é assim apresentado:
"Antes de se tornar famosa, a poeta e performer Patti Smith dividiu a cama, a comida e o sonho de ser artista com o fotógrafo Robert Mapplethorpe, a quem prometeu escrever este livro, pouco antes que ele morresse".
O título do livro é explicado logo em seu início, nesse trecho:
"Em um dia de veranico vestimos nossas roupas favoritas, eu com minha sandália beatinik e uma velha echarpe, e Robert com suas amadas miçangas e o colete de ovelha. Pegamos o metrô até a West Fourth Street e passamos a tarde na Washington Square (...)
Estávamos andando em direção à fonte, o epicentro da ação, quando um casal mais velho parou e ficou abertamente nos observando. Robert gostava de ser notado, e apertou minha mão com carinho.
'Oh, tire uma foto deles', disse a mulher para o marido distraído, 'acho que são artistas.'
Ora, vamos logo, ele deu de ombros. 'São só garotos.'"
Um trecho do livro me fez lembrar de um fato que também aconteceu comigo uma vez, nos anos 80. O trecho é o seguinte:
"Uma frente fria passara por Nova York em outubro. Fiquei com muita tosse. O aquecimento nem sempre fucionava em nosso espaço. Não era um lugar feito para morar e sentíamos frio à noite. Robert muitas vezes ficava no Davis, e eu pegava todos os nossos cobertores e ficava acordada até bem tarde lendo Luluzinha e ouvindo Bob Dylan. Tive problemas com meus dentes do siso e estava acabada. Meu médico disse que eu estava com anemia e me mandou comer carne vermelha e beber cerveja escura, conselho dado a Baudelaire quando passou um inverno terrível em Bruxelas, doente e solitário.
Eu dispunha de um pouco mais de recursos do que o pobre Baudelaire na época. Vesti um velho casaco xadrez com bolsos grandes e surrupiei dois filés pequenos no Gristede's, pensando em fazê-los na frigideira de ferro fundido da minha avó, fritos no meu fogareiro elétrico. Fiquei surpresa ao encontrar Slim na rua e fizemos nosso primeiro passeio não noturno.Preocupada que a carne pudesse estragar, finalmente admiti que estava com dois pedaços de carne crua no bolso. Ele olhou para mim, tentando apurar se eu dizia a verdade, então enfiou a mão no meu bolso e puxou o bife no meio da Seventh Avenue. Balançou a cabeça fingindo me dar uma bronca e disse: 'Ok, docinho, vamos comer'".

O fato semelhante que aconteceu comigo, e que esse trecho me fez recordar é o seguinte. Uma vez, nos anos 80, numa noite de sábado, encontrei com um amigo, que estava de carro. Havia outras pessoas conosco, e uma dessas pessoas era um cara, que eu não conhecia, e que teve acesso à cozinha de um hotel da cidade. Num momento em que ficou sozinho no recinto, surrupiou um pedaço de carne crua, então saímos pela cidade, na madrugada, procurando um trailer que aceitasse assar aquele pedaço de bife na chapa. Após peregrinarmos por vários trailers da cidade, finalmente encontramos um que aceitasse grelhar nosso bife, que dividimos irmamente.
Também éramos só garotos.

sábado, 5 de novembro de 2011

Rumble Fish/ O Selvagem da Motocicleta


Em minha recente postagem sobre o poeta Chacal, eu falei sobre uma coleção chamada Cantadas Literárias, que a Editora Brasiliense mantinha nos idos dos anos 80. Várias obras de peso, nacionais e internacionais foram lançadas nessa coleção. Dentre elas um livro marcante, e que gerou uma excelente adaptação para o cinema. Trata-se de Rumble Fish, de Susan E. Hinton, que foi adaptado para o cinema em 1983. No Brasil, o filme ganhou o título de O Selvagem da Motocicleta. Esse título, por sinal, de vez em quando confunde algumas pessoas, que ao citarem o clássico O Selvagem, com Marlon Brando, erroneamente lhe dão o título de O Selvagem da Motocicleta, até porque Brando nesse filme, faz parte de uma gang de motociclistas.
O livro de Susan E. Hinton foi lançado em 1969, quando a autora tinha 19 anos. A adaptação para o cinema, com direção de Francis Ford Copolla aconteceu bem depois, já nos anos 80, e ajudou a impulsionar e trazer o livro de volta às livrarias.
No Brasil, na esteira do filme, Rumble Fish foi lançado em 1988, e na época saiu uma resenha num informativo da Editora Brasiliense chamado Primeiro Toque, que era um catálogo dos lançamentos de editora. Abaixo, alguns trechos dessa resenha, escrita por Pedro de Luna:
“Ainda me lembro muito bem do dia em que assisti a Rumble Fish pela primeira vez. Como sou um autêntico ‘cinemaníaco’, sempre procuro assistir aos novos filmes logo que eles estreiam. No caso de Rumble Fish isso não foi diferente. Era uma quinta-feira superquente, março de 87. Eu tinha passado o dia todo trabalhando aqui na editora e quando bateu as 5:30 eu queria, tinha, precisava mesmo dar uma saída. Eu já sabia que o filme estreava naquele dia e sabia que era do Copolla, um diretor que para mim, desde que assisti a Apocalypse Now é simplesmente demais!
Saí daqui com uma amiga que trabalhava na Arte, a Ângela, pegamos um ônibus na Paulista e fomos pro cinema, o Paulistano, ali na Brigadeiro Luis Antônio.
A gente tinha marcado de se encontrar com Celso, um cara muito legal que já editou o Primeiro Toque e que hoje está em Londres, mas ele deu o cano. Compramos os ingressos, entramos na sala e fomos sentar lá na frente. Estava passando o jornal do Primo Carbonari e a gente se divertiu contando quantas vezes o próprio Primo Carbonari (um velho imensamente gordo e careca que parece sempre usar o mesmo terno) aparecia nas reportagens daquele lixo que ele chama de cinejornal. E aí, de repente, Rumble Fish – proibido para menores de 16 anos, porque, segundo a censura, abordava ‘temáticas complexas’...(???)
Imagens em preto e branco, cenas de uma pequena cidade do meio-oeste americano, anos 60, o Bar do Benny (um cara de óculos que eu logo reconheci como sendo o músico Tom Waits), e Matt Dylon, ou melhor, Rusty James, um garoto de 16 anos, metido a valentão, e que sonha em ser como o irmão mais velho (explicação: o irmão mais velho é nada mais, nada menos do que Mickey Rourke, o motorcycle Boy)
Foram duas horas de paralisia. Eu estava grudado na poltrona e não conseguia me mexer. Através da simples história de uma guerra entre gangs juvenis e das perspectivas de um adolescente diante do seu futuro, Rumble Fish foi para mim uma das mais contundentes e ferinas críticas ao american way of life, um sistema que, como todo o sistema, só serve para quem nele se insere, ou se submete.”

Apesar da publicação ter como objetivo promover e divulgar o livro, o texto fala do filme e não da obra literária, embora, logicamente por se tratar de uma adaptação, o livro indiretamente é lembrado e também divulgado. O livro é mesmo ótimo, e mereceu a excelente adaptação cinematográfica, algo que nem sempre ocorre.
Uma citação de uma resenha publicada no jornal americano Newsweek descreve Rumble Fish como “um livro que fala de juventude, de liberdade e de espaços abertos. Mais do que isso, revela uma outra visão do american way of life: a dos inconformados, dos ‘selvagens’ que tentam a todo custo levar suas vidas fora dos padrões pré-estabelecidos, mesmo que – para isso – corram o risco de perdê-las. Rumble Fish é um brilhante poema sobre o exílio interior.”

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Kafka em Quadrinhos


A união da literatura e quadrinhos sempre rendeu bons frutos. É lógico que depende muito da visão do desenhista, aliado à de quem adapta o texto para que ele execute seu trabalho. Isso quando não é o próprio artista que faz sua própria adaptação ao texto literário.
Já há um bom tempo, os quadrinhos, que já foram considerados uma arte menor, passaram a ganhar status de grande arte, com o reconhecimento do valor de vários mestres do traço, como Will Eisner, Moebius, Guido Crepax, Frank Miller, Robert Crumb e tantos outros, cada qual em sua escola e seu tempo.
Adaptar obras literárias para os quadrinhos é uma prática que seduz muitos quadrinhistas, pelo desafio e prazer que é colocar no papel através de ilustrações e adaptações, textos já conhecidos e celebrados. Aqui mesmo nesse espaço já falei de uma antiga revista que lançou uma edição especial só com adaptações em quadrinhos para textos de Edgar Allan Poe. O resultado ficou muito bom. Por se tratar de uma publicação voltada ao gênero terror, os textos de Poe oferecem uma excelente fonte de adaptação para o gênero HQ.
No caso da revista a ser comentada, o resultado também foi dos mais interessantes. Em 1987, a Press Editorial, uma editora voltada aos quadrinhos, que lançava revistas voltadas para o humor, lançou uma edição mais luxuosa, com capa plastificada e papel de melhor qualidade, tipo cartão, com adaptações de textos de Franz Kafka. O responsável pela arte é um quadrinhista e ilustrador argentino chamado Léo Durañona.
Os textos adaptados são alguns contos escritos pelo escritor tcheco: E Execução, A Mensagem Imperial, Diante da Lei, Médico do Campo, O Pesadelo da Senhora Aghata e A Célula. Todas as histórias são adaptações livres, com exceção de O Pesadelo da Senhora Agatha, escrita por Guilhermo Saccomano.

Um pequeno e resumido texto de contracapa define bem a obra: “Kafka Em Quadrinhos Por Léo Durañona une dois grandes mestres. O primeiro, da literatura, o segundo, das artes gráficas. E o resultado é dos mais belos e profundos jamais antes obtidos nos quadrinhos. Temos aqui uma obra do gênero, que merece destaque em qualquer quadrinhoteca.”
Em uma pequena biografia ao final da revista, o ilustrador argentino, cujo trabalho eu não conhecia até então, é assim apresentado: “(...) Estudou desenho e pintura na Academia Superior de Belas Artes, e estética e desenho na Universidade Nacional de Buenos Aires. Já viajou pelo México, Estados Unidos e Europa. Ele começou a fazer quadrinhos nas revistas Hora Cero e Frontera, de 1958 a 1961. No ano seguinte e durante cinco anos, trabalhou como free-lancer para várias editoras argentinas como ilustrador para as revistas Para Ti, Billiken, Maribel e Semana Ilustrada. Depois trabalhou em televisão e publicidade até 1974, quando foi para os Estados Unidos. E até 1980 trabalhou para a Warren, fazendo histórias em quadrinhos para as revistas Vampirella, Creepy e Eerie; e também para a revista Heavy Metal e para a Marvel Comic Group. Ilustrações para o New York Times e Village Voice.”

Os textos de Kafka são bastante densos e carregados de metáforas. Sendo assim exigem um traço preciso, que passe ao leitor toda a carga emocional que o texto carrega, e isso Durañona soube fazer com maestria. Carregados em detalhes, em preto e branco, usando bastante a técnica do sombreamento com precisão, os desenhos envolvem o leitor naquele clima noir das obras de Kafka, bem exemplificadas em seus títulos mais conhecidos: Metamorfose e O Processo. Aliás, no texto biográfico do artista argentino, a revista revela que na ocasião (1987) ele estava desenvolvendo um trabalho baseado em Metamorfose. Não sei como ficou essa adaptação, se ela realmente aconteceu, se foi publicada ou lançada por aqui. Acredito que não. De qualquer forma, Kafka em Quadrinhos dá uma boa mostra do trabalho de Durañona baseado nesse grande mestre da literatura mundial, provando que quadrinhos é cultura, e das boas.

domingo, 23 de outubro de 2011

Hermeto Pascoal em Campos - 1995


Tem dias que ficam na história. Uma data marcante para quem gosta da boa música em Campos foi o dia 4 de maio de 1995, quando aconteceu um show em praça pública, do grande músico Hermeto Pascoal. Numa iniciativa da Casa de Cultura Vila Maria, ligada à UENF, uma superestrutura foi montada para receber o grande músico. Aliás, é triste ver hoje a Casa de Cultura Vila Maria não promover mais nada, não sei se por falta de verba ou interesse. Além do show de Hermeto, a instituição chegou a trazer shows de gente como Luiz Melodia, Jards Macalé, João Nogueira, Milton Banana, Miltinho (MPB4), Diana Pequeno dentre outros.
Na época eu produzia um fanzine chamado Ligações On’ Pidididíri, e fiz uma resenha do show. Abaixo a reprodução da matéria:
“No dia 4 de maio último, Campos finalmente foi abençoada pela música de Hermeto Pascoal. Trazido pela Casa de Cultura Vila Maria, ligada à UENF (Universidade Federal do Norte-Fluminense), Hermeto Pascoal e banda ofereceram ao povo da cidade o mais vibrante e inesquecível espetáculo musical dos últimos anos.
A programação começou à tarde, quando Hermeto concedeu uma entrevista coletiva para órgãos de imprensa e o público em geral, além do contato direto com seus fãs, autografando discos e posando para fotos, demonstrando sempre uma grande simplicidade. A expectativa para o show da noite era bem grande, e seu grupo já passava o som no palco armado.
Tendo como pano de fundo o majestoso prédio do Fórum de Campos, e sua arquitetura greco-romana, o show de Hermeto em praça pública serviu de uma vez por todas para desmentir a velha mística de que sua música não é assimilável pelo público, que não entende e absorve suas “complicadas” harmonizações. Se avaliarmos sob a ótica dos diretores e programadores de nossas desgastadas e padronizadas FMs, sem dúvida músicos como Hermeto já teriam morrido de fome ou trocado de profissão. Mas o que se viu naquela memorável noite foi uma verdadeira festa popular, com muitas pessoas movidas pela curiosidade de assistir a um show de graça, de um cara que muitos nunca tinham ouvido falar (culpa da mídia em sua burrice) e se contagiaram com sua música. A excelente banda de apoio formada por Itiberê Zwarg (baixo), André Marques (teclados), Vinícius Dorim (sopros), Márcio Bahia (bateria) e Pernambuco e Fábio Pascoal (percussão) mostrou total integração, sendo até difícil destacar alguns nomes em especial. Os temas de Hermeto eram desenvolvidos num clima de total improvisação e liberdade criativa.
Foi realmente um espetáculo para entrar para a história de Campos.”

sábado, 22 de outubro de 2011

Drops de Abril - Chacal


Semprei prestei muita atenção a uma geração de poetas que se formou no Brasil na década de 70, e que deu origem a um movimento chamado "poesia marginal". Esses poetas produziam seu material de forma artesanal à revelia de publicação pelas editoras. O mimeógrafo era a forma que utilizavam para reproduzir, vender e distribuir seus textos, que muitas vezes eram apresentados em performances por bares e espaços públicos. Na época foi criado no Rio de Janeiro um grupo chamado Nuvem Cigana, que reunia não só poetas, mas fotógrafos, artistas plásticos e atores, que realizavam mostras, exposições e performances, que muitas vezes percorriam outros estados.
Dentre os poetas que faziam parte da "geração mimeógrafo", como também ficou conhecido o grupo, o de maior destaque foi Chacal. Anos depois, já nos anos 80, seus livros passaram a ser editados e melhor distribuídos. Na época, a editora Brasiliense lançou uma coleção denominada "Cantadas Literárias", que lançou alguns de seus livros, um deles Drops de Abril, lançado em 83, e trazendo vários daqueles textos lançados naquele esquema independente.
Em seu texto de apresentação Chacal diz:
"Esse drops é um voo de reconhecimento na minha gíria de poeta. Anos 70. Nacos de 80. São relatos de minha trip pelo planeta. Onda. Ele podia se chamar 'Sexo, drogas e rock and roll', santíssima trindade da rapaziada nesses redemoinhos urbanos. Ou então, 'Xadrez Chinês', artifícios da palavra no tabuleiro de papel. Mas ficou mesmo 'Drops de Abril', pelo que tem de ácido e mel."
Chacal nasceu em 24 de maio de 1951. "Nasci com o nome de Ricardo de Carvalho Duarte. Chacal só 15 anos depois, por causa de um dente torto. Campeão carioca de vôlei em 65 e bi de futebol de salão 65/66 pelo Fluminense. Tempo de atleta. Em 71, tempo de poeta, escrevi e editei: Muito Prazer, Ricardo. Em 72, Preço da Passagem. De novembro de 72 a dezembro de 73, uma subterrânea estadia em Londres e Lisboa. Em 75, América. Em 77, Quanpérius, edição Nuvem Cigana. Em 79, Olhos Vermelhos, Nariz Aniz, Boca Roxa. Em 77, me formei em Comunicação pela UFRJ."
Drops de Abril traz uma coleção de poemas, às vezes curtos, sintéticos e diretos, sem meias palavras. Como define o poeta ainda em seu texto de apresentação: "A Poesia está no ato, no papo, no rato, no mato. A Poesia está do lado da Vida, olhando para o Norte. A Poesia me deu a sorte de ser Poeta. E para comemorar, dou uma volta no tempo e faço a mesma dedicatória do meu primeiro livro, Muito Prazer, Ricardo. 'Essas são as coisas que eu faço com prazer. Achei que você podia saber e brincar com elas. Taí'".

Abaixo alguns poemas de Drops de Abril:

Rápido e Rasteiro
vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar
aí eu tiro o sapato
e danço o resto da vida.

Deixa pra lá
sabe essas unhas do pé
que a gente tira com a mão
pra ficar brincando? pois é
naquela loucura toda
perdi a que mais gostava

Jogo duro
acho que me falta tato
pra mamar na tua teta
pra te chamar de minha preta
acho que sou o maior pato

Pronto pra outra
gravei seu olhar seu andar
sua voz, seu sorriso
você foi embora
e eu vou na papelaria
comprar uma borracha

Pra você
morro de amores
e mordo diamantes
e dos cacos dos meus dentes sangrando,
faço um cordão pra
enfeitar sua fantasia

Troca troca
minsina a andar de bicicleta
que eu perdi o equilíbrio.
eu tinsino a levantar tapetes
e a construir o caos.

Desabutino
quem quer saber de um poeta na idade do rock
um cara que se cobre de penas e letras lentas
que passa sábado à noite embriagado
chorando que nem criança, a solidão
quem quer saber de namoro na idade do pó
um romance romântico de Cuba
cheio de dúvidas e desvarios
tal a balada de Neil Sedaka
quem quer saber de mim na cidade do arrepio
um poeta sem eira
na beira de um calipso neurótico
um orfeu fudido
sem ficha nem ninguém para ligar
num dos 527 orelhões dessa cidade vazia

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Pedras Rolando no Sesc com a Vibratto


O SESC Campos vem apresentando neste mês de outubro o projeto 70 - Os Anos Que Não Se Foram. E para falar nos anos 70 nada melhor que a música que se produziu naquele período para se ter uma visão do que foram aqueles anos agitados, conturbados, mas acima de tudo criativos. Dentre os shows programados, ontem aconteceu o da banda Vibratto, já bem conhecida no segmento classic rock/blues de Campos. O show, denominado "Only Rolling Stones", fez um apanhado da carreira da banda inglesa, com músicas que já fazem parte do repertório da banda, além de algumas novidades, já que é a primeira performance da Vibratto dedicada a uma única banda.
Acompanho a carreira da Vibratto desde sua primeira apresentação, no final de 2007, em uma pequena participação após um show do extinto trio Black Dog Blues no Bar do Gordo. A partir de 2008 a banda realmente começou a tocar seu repertório baseado em classic rocks dos anos 60 e 70, e começou a cativar seu público. Daqueles primeiros shows pra cá, a formação da banda é praticamente a mesma. A única alteração foi a saída do baixista original, Felipe Capachão, que foi substituído por Sérgio Máximo. Outra alteração, apenas provisória, foi a entrada do guitarrista Rafael Caetano substituindo Israel Squef, que morou fora em 2010. Os demais membros - Thiago Azevedo (vocais), Felipe Machia (guitarra) e Dario Buján (bateria) sempre fizeram parte da banda.
Foi a primeira vez que vi a Vibratto tocando em um teatro, e também a primeira vez que assisti a um show deles completamente sóbrio, o que não alterou em nada meu entusiasmo, embora tenha sentido falta da cerveja, essencial principalmente por se tratar de um show em homenagem aos Stones, umas de minhas bandas preferidas.
A acústica de um teatro ajuda na qualidade do som, embora tenha achado que a guitarra de Felipe em certos momentos poderia ganhar um pouco mais de volume. O show, pela temática do evento, foi calcado no repertório do Stones dos anos 70, mas curiosamente se iniciou com um hit da banda de 1981, Start Me Up, do disco Tatto You.
Thiago tem uma excelente voz, e é um ótimo intérprete dos Stones, assim como das demais músicas do repertório da Vibratto. Os backig vocals de Israel, Sérgio e Dario ajudam a moldar as interpretações, com um ótimo resultado.

Ao longo do show não poderiam faltar várias das pérolas dos Stones que a banda já interpreta em seus shows, como Brown Sugar, Bitch, Under My Thumb, Honky Tonky Women, Gimmie Shelter, entre outras. Dentre as novidades, I'm Free, Happy (umas das poucas músicas dos Stones com vocal de Keith Richards) e Wild Horses. Nessa última música, por sinal, por se tratar de uma balada, de caráter mais intimista, Israel tocou violão em substituição à guitarra. Um outro senão em relação ao som, é que o som do violão ficou abafado pelo baixo, que poderia ficar num volume menor. Mas esse detalhe não comprometeu a bela interpretação. Para o final da apresentação eles guardaram uma das mais emblemáticas e contagiantes músicas dos Stones: Jupin' Jack Flash - uma excelente maneira de se encerrar qualquer show de rock, independente de ser em homenagem aos Stones ou não.
Foi bom ver o teatro de SESC lotado, e o pessoal curtindo mais um ótimo show de rock. Agora é aguardar a nova empreitada da Vibratto, que é mostrar seu trabalho próprio de composição. Algumas dessas músicas já são tocadas em seus shows, mas uma apresentação somente com repertório próprio é sem dúvida um desafio, já que é sempre mais fácil cativar um público com músicas já conhecidas. Enquanto isso, as pedras continuam rolando.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Preciosidades em Vinil : Transa - Caetano Veloso


Um disco histórico. É o que se pode falar do álbum Transa, de Caetano Veloso. Gravado em 1971, durante seu exílio londrino, o disco seria lançado no ano seguinte, quando Caetano já havia voltado em definitivo ao Brasil. Com participação e arranjos de músicos brasileiros: Jards Macalé, Tutti Moreno, Moacyr Albuquerque e Áureo de Sousa, Transa representou uma retomada na carreira de Caetano.
Ainda trazendo em sua grande maioria composições em inglês: You Don't Know Me, Nine Out Of Ten, It's A Long Way, Neolithic Man e Nostalgia ( That's What Rock'n Roll Is All About), o álbum, ao contrário do que pode sugerir, tem uma sonoridade bem brasileira. Os arranjos e a produção musical de Jards Macalé ajudaram a definir a linha musical pretendida por Caetano na época, que segundo o próprio, experimentava um crescimento em virtude do que assimilara em Londres, ao lado de Gilberto Gil.
Sobre Transa, Caetano comentou em seu livro de memórias Verdade Tropical:
"Minha ideia era fazer um grupo que tocasse a partir do meu próprio modo de tocar violão. Tutti Moreno já estava morando em Londres e Áureo de Sousa tinha chegado para passar algum tempo. Juntamente com Tutti, ele se encarregaria da bateria e da percussão. Escrevi para a Bahia chamando Moacir Albuquerque, o belo e talentoso irmão de Perinho, para fazer um 'contrabaixo baiano' para a minha banda. Ele também aceitou. Daí nasceu o Transa, um dos meus discos preferidos(...) Entreguei a direção musical a Macalé, que era um violonista de verdade."

Apesar do excelente resultado no trabalho final do álbum, Transa, segundo se conta, desencadeou uma longa cisão pessoal e artística entre Caetano e Macalé, que teria ficado descontente pelo fato do álbum não ter trazido uma ficha técnica que creditasse sua participação e dos demais músicos na concepção do disco.
Caetano, mais tarde, em uma entrevista ao Jornal do Brasil diria:
"Como é que bota essa bobagem de dobra e desdobra, parece que vai fazer um abajur com a capa, e não bota a ficha técnica? Era importantíssimo. Era um trabalho orgânico, espontâneo."
As duas faixas cantadas em português: Triste Bahia (Gregório de Matos Guerra e Caetano) e Mora na Filosofia (Monsueteo Menezes e Arnaldo Passos) completam o álbum com duas gravações primorosas.
Transa, com todo merecimento, sempre entra em qualquer listagem de melhores discos brasileiros de todos os tempos. Na edição especial da Rolling Stone brasileira dos 100 melhores discos brasileiros de todos os tempos, aparece em oitavo.

sábado, 15 de outubro de 2011

Postagem nº 300 - Falando de Erasmo


Cheguei à postagem nº 300. Como se trata de um número expressivo, resolvi que nessa postagem falaria de algo ou alguém que seja bem especial pra mim, por isso resolvi falar de Erasmo Carlos.
Comecei a gostar de música na minha infância, e o primeiro gênero de música que me despertou foi a Jovem Guarda. Gostava daquelas músicas, daqueles caras cabeludos cantando aquelas músicas que me traziam uma vibração diferente. Ouvia muito rádio na época, e junto aos onipresentes Beatles e outras bandas de rock da época, ouvia muita coisa da Jovem Guarda. Roberto, Erasmo e Wanderléia, o grande trio, que melhor representava o movimento viraram meus primeiros ídolos nacionais, ao lado de Renato e Seus Blue Caps, minha banda preferida na ocasião. Na tv havia alguns programas dedicados ao gênero, porém o mais célebre deles, o Jovem Guarda, eu não tinha como assitir, pois aqui na terra só entrava o sinal da TV Tupi, e o programa era transmitido para o Rio pela TV Excelsior, se não me engano. Por isso, a imagem de Roberto Carlos era coisa muito rara pra mim, já que ele era contratado exclusivo da emissora. Erasmo e Wanderléia ainda apareciam em outros canais de TV, mas eu sentia falta da presença de Roberto na tela de minha tv.
De uma certa forma, Erasmo passou a suprir a falta de Roberto pra mim, e eu passei a admiriá-lo, e também suas músicas. Até um chiclete chamado Tremendão eu curtia. Vinha com uma figurinha ilustrando trechos de músicas do homenageado, como por exemplo, um coração onde havia uma cela de prisão em que aparecia a figura de uma gata, e abaixo escrito "Um dia , gatinha manhosa, eu prendo você em meu coração"
Já adolescente, eu descobria o rock dos anos 70, e verifiquei que alguns daqueles astros da Jovem Guarda continuaram nos caminhos do rock, com um som mais potente e ousado, como deveria ser nos novos tempos, já sem aquele ar de ingenuidade das letras de antes. Nesse período, minha admiração pelo som que Erasmo fazia confirmava a atenção especial que seu trabalho já havia me despertado ainda criança. A foto que ilustra essa postagem é de um poster de Erasmo que eu havia colocado atrás da porta de meu quarto, e que guardo até hoje. As bordas rasgadas são decorrentes da fita durex que o prendia. O poster, que veio de brinde na revista Pop, a publicação que falava de rock na época, trazia no verso uma foto de Mick Jagger, ou seja, tive que optar entre Jagger e Erasmo. Logicamente fiquei meio dividido, mas minha opção por Erasmo foi consciente. Uma das razões de minha devoção adolescente por Erasmo, foi um disco marcante pra mim, que ele havia lançado em 1974, chamado 1990 - Projeto Salva-Terra. Alguém desavisado, ao deparar com o título, pode achar que o disco foi lançado em 1990, mas na verdade trata-se de uma música que fala de um futuro ainda distante, imaginando o mundo 16 anos depois: "Em 1990 a crise era demais/as pessoas enlatadas não lembravam mais de paz/às vezes Deus era lembrado pela falta que fazia...". Considero esse disco, cuja capa é essa abaixo, um dos melhores discos de rock lançados no Brasil.

Na ocasião, Erasmo montou uma excelente banda para acompanhá-lo, chamada Cia Paulista de Rock. Lembro que assisti pela tv em janeiro de 1975 uma apresentação de Erasmo que me alucinou. Foi no intervalo de uma das eliminatórias do Festival Abertura, da Globo. Enquanto eram apuradas as notas dos jurados, Erasmo Carlos e a Cia Paulista de Rock fizeram um showzaço. Lembro dele com uma jaqueta de couro, cantando Bolas Azuis, uma música desse disco, que apesar do título em português, é um rock arrasador, com letra em inglês. Uma imagem de Erasmo e sua banda da época pode ser vista no filme Ritmo Alucinante, um documentário sobre um festival de rock, acontecido em 1975.
Mas antes de gravar esse disco que tanto me marcou, ele já havia lançado outros discos antológicos, como Carlos, Erasmo (1971) e Sonhos e Memórias (1972), que são verdadeiras pérolas.

Recentemente, durante o Rock In Rio, tive que fazer uma outra opção, assim como aquela do poster Erasmo/Jagger. Quem me conhece sabe que não sou de perder nenhum jogo do Fluminense. O Flu jogaria uma partida muito importante contra o Santos, no mesmo horário de um show muito aguardado por mim: Erasmo Carlos e Arnaldo Antunes. Optei pelo show, que assiti pela internet, e deixei de assistir a um dos melhores jogos do Brasileirão, uma vitória espetacular do meu tricolor por 3 a 2, com um gol nos acréscimos, aos 50 minutos. Mas não me arrependo. Curti muito o show.

sábado, 8 de outubro de 2011

Revista Bizz Especial - De Monterey ao Rock In Rio 2011


Durante 15 anos a revista Bizz foi o grande órgão de divulgação e informação a respeito de rock. De 1985 até 2000 a revista dominou o mercado, conseguindo muitas vezes entrevistas exclusivas com astros do rock, e excelentes resenhas de shows que aconteceram no Brasil e no exterior, além de lançamento de discos. Chegou até a mudar de formato e nome (por um tempo virou Show Bizz), mas durante o tempo em que circulou dominou o mercado de publicações musicais.
Ao sair de circulação em 2000, deixou um vácuo, já que não havia uma outra revista do segmento que a substituísse. Alguns anos depois, a revista voltou a circular mensalmente, mas com uma distribuição menos eficiente, e já sem a mesma força anterior, e novamente, após uma sequência de edições, acabou sucumbindo no mercado editorial, apesar da força da marca Bizz.
Hoje a Bizz ainda é lançada, mas em edições especiais esporádicas, aproveitando algum evento, como um show ou algum evento importante que acontece no país, ou uma data comemorativa, etc. A mais recente edição nas bancas, por exemplo, é em virtude do Rock In Rio.
A edição traz por título "De Monterey ao Rock In Rio 2011", mas ao verificar a forma em que o título aparece grafado na capa, vê-se que os editores buscaram aproveitar o grande apelo que o festival acontecido no Rio ganhou na mídia: Rock In Rio 2011 vem em nítido destaque.
Como o próprio título da revista diz, a primeira matéria destacada é sobre o festival Monterey Pop, acontecido em 1967 nos EUA, e considerado o primeiro grande festival de rock acontecido no mundo. Também são destacados os festivais de Woodstock, como não poderia deixar de ser, e outros eventos de rock que se tornaram notáveis, como os festivais de Leeds, Altamont, Glastombury e Roskilde, e alguns mais recentes, como SOS África, Live Aid, Coachella, Pitchford e Lollapaloza.

Mas, o grande destaque na revista é realmente o Rock In Rio, que ocupa a maior parte da revista. Começa com uma entrevista com Frejat, que participou de todos os quatro festivais. Em seguida, há um bom material fotográfico e de texto sobre todos as três primeiras edições do Rock In Rio (a revista foi lançada antes da edição 2011). Trata-se de um ótimo material sobre o festival, destacando-se ainda o Rock In Rio Lisboa e Madri.
Algumas curiosidades, principalmente sobre o estrelismo de alguns rock stars que participaram de algumas edições do Rock In Rio são relembradas, como: "Fred Mercury, do Queen, deu piti ao ver artistas brasileiros com Erasmo Carlos e Elba Ramalho 'atrapalhando' sua passagem rumo ao camarim. Exigiu que todos sumissem ou ele voltaria ao hotel. Um coro de 'Viado!' ecoou pelo corredor. 'O que eles estão gritando?' perguntou a Amin Khader, responsável pelos camarins. 'Estão te elogiando.' 'É mentira!' Entrou no camarim. Pouco depois, saiu e perguntou:'No Brasil tem furacão?' Amin disse que não. 'Pois acabou de passar um por aqui'.
'Quando entrei, estava tudo virado! A bicha tinha botado tudo de pernas pro ar. Tinha até papaia no teto', contou Khader à Bizz de janeiro de 2000."
Quando sair alguma edição contando detalhes do Rock In Rio 2011, provavelmente a Rolling Stone e a Billboard, que são as duas mais importantes revistas sobre música em circulação no Brasil, se poderá ter uma visão geral de todas edições do Rock In Rio, se somadas à Bizz Especial.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Vinil - A Volta Dos Que Não Foram


De tempos em tempos é comum determinado produto, modismo, hábito, etc, sair de evidência. Muitas vezes, no caso dos produtos, eles acabam se tornando obsoletos, e por isso abandonados pelos consumidores a ponto de deixarem de ser fabricados, ou terem sua produção reduzida drasticamente. Essas mudanças, provocadas normalmente pelos avanços tecnológicos que trazem praticidade e melhor qualidade para o produto final muitas vezes trazem um efeito colateral para a indústria envolvida no processo, e por extensão aos próprios consumidores.
O exemplo mais conhecido e comentado na atualidade é o mercado fonográfico. Com o advento da pirataria e dos downloads de discos, muitas gravadoras deixam de investir em um produto que não tenha um retorno garantido, buscando-se cada vez mais produtos comerciais, ou seja, menos apurados.
Em meio a toda essas mudanças, que começaram a ganhar força há mais ou menos vinte anos, com a popularização dos cds, os discos de vinil tiveram momentos em que foi decretado seu fim eminente. Isso ocorreu exatamente nesse período citado, em que a maioria dos consumidores de música, encantados pela qualidade apurada e limpeza do som dos cds, além da praticidade de seu uso, passaram a considerar o velho bolachão um produto obsoleto. As lojas, que até então, naquele período de transição entre um formato e outro, passaram a colocar os lps em saldo, por preços reduzidíssimos, para desocuparem espaço e se dedicarem somente à grande novidade do mercado. Assim, havia lojas que vendiam até lps a quilo, como um restaurante self service. Aquele período, no início dos anos 90, foi a melhor época para se comprar discos de vinil, pois passou a ser considerado um produto ultrapassado, e fadado a desaparecer do mercado.

Eu, assim como outros aficcionados pelos velhos bolachões, não me deixei contaminar pelas previsões nada otimistas com relação ao fim definitivo dos lps, e consequentemente dos aparelhos, agulhas e peças de reposição.
Apesar de também ter comprado um cd player, e me encantado pela sonoridade limpa e por todas as facilidades que a nova tecnologia trouxe, nunca perdi meu encanto diante de um lp. Iniciei uma coleção de cds que hoje é bem volumosa, mas minhas visitas a sebos de discos nunca deixaram de ocorrer.
Hoje, eu vejo uma valorização ao formato do vinil. O mercado de vendas tem se reaquecido, velhos discos vêm sendo relançados e muitos lançamentos em cd também estão sendo postos no mercado em lp. Isso prova que o formato vem ganhando espaço não só para os velhos apreciadores, como também para uma nova geração de consumidores que começaram a ouvir música através dos cds, e hoje se encantam com um lp girando num toca-discos, como nos velhos tempos.
Na verdade, os discos de vinil nunca deixaram de ter seu apelo e reconhecimento. Continuaram a ser comercializados em um mercado paralelo. Quem continuou, mesmo na era digital, a cultuar e consumir aqueles velhos discos sabe que o que hoje já se chama de uma volta gradativa do vinil não é exatamente uma realidade, pois sempre houve esse comércio. O que ocorre hoje, é a volta da fabricação de produtos nesse formato.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Alceu Valença - 1975


Em 1975 Alceu Valença trazia uma renovação para a MPB. Era um dos representantes da música nordestina, que ganhava força no panorama musical brasileiro. Junto a Ednardo, Quinteto Violado, Belchior, Geraldo Azevedo, Fagner e outros, Alceu mostrava um trabalho diferenciado, de ritmo e poesia. Sua postura, imagem e presença de palco remetiam a um músico de rock, e sua música fazia essa fusão - o rock, o repente nordestino, Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro com a pulsação e a eletricidade do rock. A revista Música do Planeta Terra nº 1, de 1975, trazia uma matéria sobre Alceu. O texto não é assinado, e reproduzo abaixo:
"Força: a primeira palavra. Poder da força. Poder em cima da minha cabeça. Poder fazer o que está em cima.
São restos, são sobras, são pedras preciosas, lamentos, uivos, um grito. É a pedra das eras (o rock) latente no secular cancioneiro popular do nordeste.
O discurso de Alceu Valença vem direto dos poetas de cordel, cantando nas praças do sertão de Pernambuco. Caído em meio a Copacabana.

Alceu é o grito, o palhaço, o carrasco da cultura burguesa, pulando com as botas de couro, os cabelos mais compridos, correndo atrás da banda de pífaros eletrificada de Zé da Flauta, as cores da guitarra que de repente explode. Esta banda tem um drive que de imediato faz vir à lembrança uma locomotiva, Israel e Juliano, bateria e percussão, são a máquina de ritmo, a bateria providenciando a base densa, sempre em crescendo, a percussão fazendo um firme comentário a essa solidez. O baixo aqui é pedra, ponteio sólido das bandas de soul nascidas em meio ao Recife.
Junto a Alceu, está Zé Ramalho da Paraíba, um outro fino poeta nordestino, seco, agreste, que inventa um blues carioca em cima da hora, repentista, violeiro, a base sólida de onde Alceu alça voo qual um carcará cabeludo, gritando sozinho por um milhão de famintos.
É um momento de puro poder. Poder mágico. Transporte. São as raízes em busca da linguagem universal, cometendo porém o que se passa aqui, em nossa volta.
Nesta banda, o preciosismo técnico não é meta., aqui se investe o poder das raízes eletrificadas. Nada de preciosismo burguês. Apenas raízes elétricas, atômicas, nordestinas."

terça-feira, 13 de setembro de 2011

O Juiz Roubou


Em minha adolescência fui peladeiro. Jogava meu futebolzinho em um campinho de várzea, próximo à minha casa. Quando escrevi meu romance Chicletes & Prazer, um dos aspectos autobiográficos que coloquei na obra foi essa característica: o personagem principal preenchia suas tardes em disputas diárias em um campinho de terra batida.
Ao ouvir o primeiro disco do músico mineiro Tavinho Moura, Como Vai Minha Aldeia, conheci uma música que também fala de antigas peladas, disputas acirradas pelos campinhos, que hoje estão desaparecendo das cidades. O campo onde eu jogava, por exemplo, hoje é uma revenda de automóveis. A música em questão, Dindilin, uma parceria de Tavinho com Fernando Brant, tem como subtítulo Cláudio Manoel x Contorno, que são os nomes das duas ruas que os times descritos na letra defendiam. Um achado na letra é a forma com que é usada a expressão "o juiz roubou", usada duas vezes. Primeiramente da forma literal, e na segunda como uma metáfora, já no final do texto. Ao dizer que gostaria de voltar àqueles tempos, e que a cidade mudou, as pessoas mudaram, o mundo mudou, ele lamentando diz: "o juiz roubou", como se as mudanças naturais fossem obra de um árbitro mal intencionado. Segue a letra:

Dindilin (Cláudio Manoel x Contorno)
Tavinho Moura e Fernando Brant

Na janela uma voz/gritaria no porão/já é dia, já é hora/todo mundo está lá fora/com o tênis na mão/esperando Dindilin/artilheiro e capitão/ da rua Cláudio Manoel/o café da manhã/grita a mãe no corredor/eu já estou muito longe/solidário companheiro/pois eu sou Dindilin/já não posso mais ouvir/só consigo perceber/o som de uma bola oval/nas paredes,/nos portões de metal/tudo agora é gol, é gol, é gol/no açougue e no bar/todos prestam atenção/para os cinco que desciam/no passeio da avenida/e lá vem a subir/Caldirica e Caldeirão/Zero, Caco e Cabeção/a Contorno é um timão/preparar, apostar/e marcar o Calderão/que só tem o pé esquerdo/mas é muito perigoso/e correr e chutar/e suar de escorregar/e berrar de coração/cada gol comemorar/cada erro lamentar e xingar/o juiz roubou,/roubou, roubou/nunca foi fácil não/sempre era pau a pau/para cima e para baixo/corre gente, rola bola/mas na queda de dez/gol pra lá e gol pra cá/eu me lembro de ganhar/muito mais do que perder/alegria geral/foi de um, será que foi/quem ganhou já vai cantando/foi de dois, de três, de quatro/foi de cinco ou não foi/e de seis e sete foi/e de oito e nove foi/ou será que foi de dez?/sobe a rua o vencedor/e lá vai descendo o perdedor/é dor, é dor, é dor/na janela uma voz/gostaria de ouvir/me chamando, está na hora/todo mundo espera agora/o Pescoço, o Cascão/Muquirana e Jiló,/o Boivaca e o Dodô/e Toureiro, o Freio de Mão/eu queria voltar/a jogar com o pessoal/todo mundo foi crescendo/foi virando gente séria/e a cidade cresceu/com os carros se casou/suas ruas asfaltou/as montanhas derrubou/só me resta lamentar e xingar/o juiz roubou,/roubou, roubou

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Suzi Quatro - Um Pôster na Parede


Ídolos teen, também os tive. Aos 15 anos comecei a acompanhar mais atentamente o mundo do rock. Como sempre acontece nessa faixa de idade, a percepção musical ainda em formação, é influenciada pela imagem que os astros passam. A indústria fonográfica já percebia isso, e alguns artistas e bandas procuravam atingir aquela faixa de público. Na época os mais famosos nessa faixa (pelo menos os que agora me lembro) eram principalmente os Jackson Five, The Osmonds e David Cassady (que estrelava na tv a série Família Dó-Ré-Mi). Essa bandas não me interessavam. Mas uma cantora me arrebatou, e como eu, muitos garotos e garotas: Suzi Quatro. Eu a achava deslumbrante e sexy. Ela era realmente uma gatinha. Via sempre seus clipes em programas do gênero, e matérias em revistas da época.
Suzi sempre cantava vestida de couro, sua marca visual mais marcante, e muitas meninas passaram a usar a mesma vestimenta. Era comum em seus shows, a presença de um bando de adolescentes vestindo couro, como uma reverência ao ídolo. Outro detalhe interessante em seu visual, é que ela já usava tatuagens, bem antes de virar moda.

A foto acima é um poster de Suzi que eu tinha pendurado em meu quarto, e que guardo até hoje. Ela era baixista, fazia um hard rock com peso, e liderava uma banda formada por homens. A música de Suzi que eu mais gostava era 48 Crash, um de seus sucessos. Hoje nem curto muito o seu som. Acho as músicas muito iguais, com uma batida meio padronizada, com poucas variações. Um rock meio chatinho. Mas na época, era o máximo pra mim.
Uma matéria publicada na revista Pop em outubro de 1974 falava do fenômeno Suzi. Abaixo alguns trechos:
"Suzi é hoje o maior estouro do rock, seus discos não saem das paradas e os teatros estão sempre cheios de gente disposta a tudo para chegar perto dela. As crianças vivem escrevendo cartas para Suzi, perguntando se também devem se tatuar e usar roupas de couro. Ela tem uma tulipa tatuada no ombro direito e uma estrela no pulso esquerdo. 'Eu sempre quis ser estrela e achava que a tatuagem iria me ajudar muito a chegar lá.' Na Inglaterra, o seu público é de trabalhadores, garotos de cabelos curtos que gostam de de encarar uma briguinha de vez em quando. Mas nos Estados Unidos a transa é bem diferente. Suzi Quatro foi foi 'eleita' a rainha dos andróginos, e seus shows são curtidos por rapazes de cabelos vermelhos, brincos, saltos altos e blusões de lamê, e garotas com botas e roupas de couro.

Muita gente pergunta qual é, afinal, a de Suzi Quatro. Ela bebe cerveja, joga bilhar, pratica esportes masculinos e vive cercada por rapazes que parecem saídos do submundo de Londres e de Nova York. O jeito com que segura o baixo, no meio das pernas, lembra uma metralhadora atirando. Por isso, ela é considerada uma vigorosa resposta ao rock masculino. E, ao mesmo tempo, a ascensão da androginia feminina. É como se as garotas dissessem: 'Os meninos têm Mick Jagger e David Bowie. Nós temos Suzi Quatro'. E Suzi sabe explorar muito bem essa imagem dúbia, que faz furor no incrível e confuso universo do rock. 'Eu não sou andrógina! Sempre fui um pouco de tudo. Mas, no palco não sou garota nem rapaz. Somente o rock é o meu sexo.'"

domingo, 11 de setembro de 2011

Peter Tosh - A Segunda Voz do Reggae


Peter Tosh foi uma figura lendária do reggae. Companheiro de Bob Marley nos Wailers, e propagador do reggae, quando o ritmo estava sendo descoberto fora dos domínios da Jamaica, Tosh, como Marley, teve uma morte prematura. Foi assassinado durante um assalto. Quando se completaram dez anos do ocorrido, foi lançada uma caixa de cds com várias de suas gravações, algumas delas inéditas. A sessão Rio Fanzine do jornal O Globo destacou o lançamento, e ainda lembrou a passagem de Peter Tosh no Brasil, em 1980. Ele esteve aqui para se apresentar no Festival de Jazz de São Paulo, e ainda apareceu em uma cena da novela Água Viva, da Globo. Lembro bem da cena da novela: ele cantando ao violão, e um gupo de jovens ao redor, entre eles, a atriz Lucélia Santos. Eis a matéria, intitulada O Cidadão Honorário do Reggae:
"Dez anos atrás, boom, boom, boom. Vários tiros disparados pelo marginal Denis 'Lepo' Loban acabaram com a vida de Peter Tosh, um dos gigantes do reggae, num assalto em sua casa em Kingston, Jamaica. Uma década depois da tragédia, plin, plin, plin, as máquinas registradoras saúdam a chegada às lojas da caixa 'Honorary Citzen' (Sony legacy), com três cds que passam a limpo a carreira de Tosh. O controverso astro que sempre atacou a 'shitstem' (a forma, intraduzível,como se referia ao sistema de valores do mundo ocidental) é lembrado por esse mesmo 'sistema' com um produto comercial - belíssimamente acabado, diga-se de passagem. Poderia ser diferente?
Talvez. Mas para os fãs, ainda bem que não foi diferente. 'Honorary Citzen' traz espalhados pelos três cds tanto clássicos da carreira solo de Tosh (Don't Look Back, Bush Doctor), como versões ao vivo até então inéditas (o clássico Johnny B. Goode, Mystic Man) e singles de valor histórico, alguns com a presença dos seus companheiros na primeira fase dos Wailers, Bob Marley e Bunny Wailler. Material bom.
Peter Tosh esteve no Brasil em 1980 como uma das atrações do Festival de Jazz de São Paulo, que aconteceu no Anhembi. Tosh chegou ao país um pouco antes do horário do show. Segundo jornais da época, o atraso se deu porque ele demorou a conseguir um visto da imigração americana, embora fosse apenas um passageiro em trânsito. Mesmo com esses problemas, ele acabou fazendo uma apresentação histórica.

Acompanhado por uma banda que tinha como destaques os fantásticos Sly Dunbar (bateria) e Robbie Shakespeare (baixo), ele subiu ao palco vestindo uma roupa árabe (incluindo o turbante), e com óculos escuros. A galera, que nunca tinha visto um show de reggae daquele porte, ficou maluca. Tosh acendia um baseado atrás do outro, dava golpes de karatê no ar, intercalava as músicas com a saudação rasta (Jah, rastafari!) e desfilava um leque de canções militantes (como Get Up Stand Up) num país que começava a se libertar da ditadura e via ser ensaiado o processo de abertura política. Foi um baque.
No dia seguinte ao show, Tosh veio para o Rio. Ficou num hotel em Ipanema e circulou pela cidade. Foi ao Canecão, onde acontecia um concurso de patins (moda na época) e chegou a ser barrado pelos seguranças. Entrou, mas não teve a mesma sorte na sua parada seguinte, um bar no Jardim Botânico, onde sua entrada foi realmente vetada. Toque pitoresco da visita: sua participação na novela 'Água Viva', cantando e tocando violão numa festa na casa da personagem Estela, vivido por Tônia Carreiro."