Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Revista Bizz Especial - A História do Rock no Brasil

A revista Bizz dominou o mercado de publicações musicais sobre rock, especificamente, durante 15 anos. De vez em quando a revista lançava edições especiais, destacando uma vertente do rock, ou edições históricas, como a que destaco aqui, abrangendo o rock brasileiro. Publicada nos anos 80 (não há referência ao ano exato de publicação), a revista fala do rock nacional, desde sua pré-história - a fase anterior à Jovem Guarda (Tony e Cely Campelo, Demátrius, Sérgio Murilo, Wilson Miranda, Ronnie Cord), até o rock dos anos 80, que vivia seu auge, citando ainda artistas de vanguarda, como Arrigo Barnabé e Itamar Assunção, que também produziam uma forma de rock, mais elaborado e de influências e públicos diferentes. A Jovem Guarda, o Tropicalismo e o rock dos anos 70 também são historiados.
Cely Campelo
Em um trecho do texto de introdução, que é apresentado como "Carta ao Leitor", os editores dizem: "Esse tal de rock'n roll, do lado debaixo do Equador, tem uma história cheia de lacunas, de buracos negros e explosões efêmeras, de esquecimentos imperdoáveis e consagrações injustificadas... Afinal, é só o roteiro inacabado de um filme. Ainda há muita história por fazer..."
A narrativa sobre os primórdios de nosso rock, considerado como "pré-história" é assim narrado:
"O ano é 1959. O país respira a euforia da construção de Brasília e a TV, com nove anos de vida, começa a ocupar definitivamente o lugar do rádio. Em São Paulo, Sérgio 'Tony' Campello, cantor em início de carreira, acompanha a irmã em sua segunda gravação pela EMI-Odeon. É apenas o lado B de um disco, mais uma versão de Fred Jorge. 'Oô cupido, vê se deixa em paz...', suplicava a voz tímida da menina Célia, aliás, Cely, na versão de 'Stupid Cupid', hit de Neil Sedaka e H. Greenfield. Em poucos dias, a música alcançava o primeiro lugar nas paradas, e Cely Campelo, aos 16 anos, conquistava o posto de 'namoradinha do Brasil'. Voz doce, rebeldia controlada, romantismo ingênuo: essa era a receita de Cely, que reinaria suprema em todo o período pré-Jovem Guarda."
O sucesso de Cely e outros astros daquela fase são relatados na publicação, até desembocar na Jovem Guarda. Ainda com relação a Cely, curiosamente, sua carreira experimentou um renascimento cerca de 15 anos após ela tê-la abandonado para casar e viver uma vida longe dos palcos. A novela das 7 da Globo "Estúpido Cupido", de 76, de autoria de Mário Prata, ressuscitou sua carreira. Mesmo com o passar do tempo ela ainda trazia uma jovialidade, que a trouxe de volta aos palcos.
Trio Esperança
Ao falar da Jovem Guarda, obviamente foi dado um destaque ao trio Roberto, Erasmo e Wanderléa e o programa de TV que dimensionou a carreira dos três e de tantos outros artistas e grupos, como Os Vips, Ronnie Von, Eduardo Araújo, Trio Esperança, Os Incríveis, Renato e Seus Blue Caps e tantos outros. Um box especial sobre os três filmes estrelados por Roberto Carlos, assinado por  Nico Pereira de Queiroz, diz:
"Quem conhece o Roberto Carlos atual, dificilmente poderá imaginar 'o outro', o rei da Jovem Guarda. Verdadeiro rock'n roll. Com a ajuda do diretor Roberto Farias, produziu e interpretou três filmes que conseguiram levar para a tela toda a loucura que a Jovem Guarda representou, com a grande força do Tremendão e da Ternurinha. O trio perfeito: o heroi, o escudeiro e a namoradinha eterna e pura. O primeiro filme foi Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, lançado em 1968, algo do tipo James Bond misturado com Help, dos Beatles. O segundo filme, mais do tipo Spielberg, rodado no Japão e Israel, foi O Diamante  Cor-de-Rosa. O terceiro, certamente o melhor, foi o mais 'brasileiro': A 300 Quilômetros por Hora, onde Roberto Carlos interpretava um mecânico pobre, que, na última hora, substitui o piloto, ganha a corrida e a mulher do piloto. É mole?"
A Tropicália é destacada em seguida, relatando toda a revolução estética que o movimento liderado por Caetano e Gil representou. Os Mutantes - o braço mais roqueiro do movimento - logicamente ganharam um destaque, não só por seu envolvimento com a Tropicália, como por tudo que representam na história  e no amadurecimento do rock brasileiro.
Tim Maia, nos anos 70
Os anos 70, uma das fases mais ricas e criativas de nosso rock são relatados através de personagens fundamentais para o rock brasileiro, como Rita Lee, Secos & Molhados, O Terço, Made in Brazil, Novos Baianos, o rock rural de Sá, Rodrix & Guarabyra e Raul Seixas, que na época de publicação da revista ainda era vivo, e foi descrito como "A mosca que ainda pousa na sopa do rock bem-comportado. A receita? Chuck Berry + esoterismo + Little Richard + ousadia = duas décadas de rock puro e abusado".
Também é importante destacar artistas que estão intimamente ligados à história de nosso rock, sem que obrigatoriamente seguissem a estética rock'n roll, caso de Tim Maia, que é o responsável por uma vertente mais swingada e ligada à soul music. Ou ainda uma tribo que é assim apresentada na revista: "Espremidos entre a a tribo roqueira e a MPB bem estabelecida, havia os 'malditos': Jorge Mautner, Walter Franco, Macalé e Luiz Melodia."
O Barão Vermelho, no seu início
Finalmente, chegando nos anos 80, a revista fala do que era atual. O rock brasileiro vivia um de seus períodos de maior popularidade, e muitas bandas, já consolidadas e emergentes eram destacadas: RPM (a banda de maior sucesso na época), o punk-rock dos Inocentes, Gang 90, Blitz, Sempre Livre, Kid Abelha, Ritchie, Paralamas, Barão Vermelho, Lobão, Titãs, Legião, Capital Inicial, Plebe Rude, etc.
Outros grupos também são lembrados, como nesse trecho da revista: "No início da década, o underground paulista está em plena ebulição. Grupos como Ira!, As Mercenárias, Ultraje e Voluntários da Pátria dividem a mesmo palco. No Rio, quem dita as regras do rock nacional é a 'maldita' Fluminense FM."
Assim é contada a história do rock brazuca com boas fotos e referências que servem como um bom material de pesquisa. Um tipo de revista que pode ser chamada de "edição de colecionador".

domingo, 29 de setembro de 2013

Jorge Mautner Fala de Orquídea Negra e Zé Ramalho

A música "Orquídea Negra" é uma composição de Jorge Mautner, que fez sucesso na voz de Zé Ramalho, e inclusive deu título ao disco onde ela está incluída. A música é tão identificada com a linguagem e o perfil artístico de Zé Ramalho, que muitos acham que a composição é do músico paraibano. Essa confusão chegou a ocorrer até em uma coletânea de Zé Ramalho, onde Orquídea Negra está incluída, e a autoria da música é erradamente atribuída a Zé Ramalho. Lembro que um dia estava na casa de um amigo ouvindo essa coletânea, e quando tocou Orquídea Negra alguém destacou os versos como uma grande letra de Zé Ramalho. Então eu corrigi que a música não era de sua autoria, e sim de Mautner. Mas ao pegar o CD para comprovar a real autoria, pra minha surpresa, vi que naquela coletânea ela era atribuída a Zé Ramalho. Anos depois, ao conhecer Jorge Mautner lembrei desse fato, e o próprio Mautner ficou de corrigir esse engano, até por questão de direitos autorais.
No livro "Zé Ramalho - Um Visionário no Século XX", de Luciane Alves (editora Nova Era - 1997) há um depoimento de Mautner falando de Orquídea Negra e Zé Ramalho:
"Compus Orquídea Negra pensando em Zé Ramalho. Essa música é uma saudação à bandeira negra da loucura e da pirataria. Loucura que a razão oficial negava. É a rebeldia, a imaginação da quarta dimensão, sempre presente nos trabalhos de Zé Ramalho. Ele é o anjo do impossível. Sua obra tem um surrealismo onde o absurdo e a realidade se entrecruzam muito fortemente. Onde a própria experiência pessoal nunca está separada da peça de arte que produziu. Zé Ramalho é muito profundo, um poeta que desvela as profundezas do ser humano.  É como um médium que recebe mensagens. Ele fala muito dos mistérios de Atlântida, pois esse é um assunto com o qual está muito envolvido. Ele mesmo vibra muito com as sete pedras, com  as inscrições antiquíssimas, e fica muito revoltado com a descrença das pessoas. Sobre esse assunto tudo é muito obscuro, mas, a exemplo de outros acadêmicos, Lévi-Straus, em seu último livro, fala do Amazonas e cita um explorador chamado Cabeza de Vaca, que teria explorado o sul da América e encontrado no Amazonas uma civilização com seis milhões de almas que não eram índios e tinham casas com tetos de ouro. Isso foi motivo de muita gozação na época. Daí nasceu a lenda do 'Eldorado'.
Mas tudo isso foi provado graças ao teste radioativo do carbono-14 e de algumas explorações arqueológicas. Ficou provado ter existido ali uma civilização diferente de nossos índios. Suas vestimentas eram diferentes, muito parecidas com as dos astecas. Chegou-se então à conclusão de que a civilização inca começara no Amazonas e dali fora para a Cordilheira dos Andes.
Ideias como esta, Zé Ramalho captou do inconsciente coletivo de poeta. ele tem um farto material sobre as sete pedras e sobre lugares misteriosos. É um profundo desvelador desses mistérios. Sua cultura é muito embasada no Avôhai. Ele tem todo o inconsciente altamente literário da Paraíba. Nesta região existem pessoas que, embora analfabetas, são capazes de produzir poesia de alta qualidade literária. Exemplo disso é Zé Limeira. Zé Ramalho comunga este inconsciente coletivo, e essas coisas, nem a lógica nem a psicologia nem a filosofia alcançam. Esse mistério é Zé Ramalho."

sábado, 28 de setembro de 2013

George Harrison Sai em Turnê Após 17 Anos (1992)

George Harrison foi sem dúvida um dos grandes ícones do rock. Um compositor fantástico e uma figura carismática, apesar de ser um tanto tímido e recluso para um astro do rock. George não era muito chegado a grandes turnês, e seus shows eram muitos esparsos. Por isso quando era anunciada uma turnê de George, o fato virava notícia no meio musical, como em 1992, quando saiu em excursão pelo Japão com o amigo de sempre, Eric Clapton. Na ocasião o correspondente do jornal O Globo nos Estados Unidos, José Emílio Rondeau, noticiou o fato na seção "Rio Fanzine", em 26/07/92:
"Desde 1974 George Harrison não fazia turnês. Apenas eventualmente o ex-Beatle subia ao palco, geralmente em ocasiões muito especiais, raras em espetáculos beneficentes, como o Prince's Trust Fund, ou dando uma canja em shows de seu velho amigo Eric Clapton. Triturado pela crítica durante a turnê 'Dark Horse', de 74 - uma excursão marcada por muito nervosismo e problemas em suas cordas vocais - George preferiu restringir suas atividades musicais ao estúdio.
Dezessete anos mais tarde, convencido (pressionado?) por Clapton, Harrison topou retornar aos palcos para uma mini-turnê de 12 shows em Osaka e Tóquio, no Japão. Este 'Live in Japan' é o registro dessa turnê: dois CDs (ou dois cassetes), com 19 faixas selecionadas de um repertório generoso, que cobre algumas das melhores suas suas com e sem os Beatles.
Livre, em teoria, da posição de bandleader - no íntimo, Harrison se comportava como mais um integrante da banda de Clapton, embora fosse ele a atração principal do show, todos os vocais principais fossem seus e quase todas as músicas, exceto uma ('Roll Over Beethoven', de Chuck Berry) fossem de sua autoria - George está à vontade e confiante. E com isso conseguiu realizar o melhor disco ao vivo já gravado por um ex-Beatle.
Apoiado por uma das melhores bandas em atividade - a de Clapton, que conta com músicos como o baixista e vocalista Nathan East, e os tecladistas Greg Philinganes e Chuck Leavell - George percorre com segurança e entusiasmo uma lista de clássicos, quase sempre acrescentando um peso e uma dramaticidade superiores ao ouvido nas gravações originais.
Ele pinçou músicas que cantava com os Beatles - como 'I Want To Tell You', que os japoneses ouviram pela primeira vez em 1966, quando os Beatles se apresentaram pela primeira vez no Budokan - as revisitou com um novo approach, enxertando novidades - em 'Taxman' ele pode ter mantido e utilizado em sampling a contagem e a tossida que abrem a versão do disco, mas agora ele ataca George Bush, ao invés dos governantes ingleses dos anos 60 alfinetados em 'Revolver'. Por fim, ele misturou sem a menor cerimônia assinaturas musicais de sua carreira Beatle e de sua discografia solo - no refrão de 'Isn't It A Pity', ele acrecenta um pedaço de 'Hey Jude".
Além disso, George reestruturou muitas canções, algumas delas do começo ao fim. 'Something' pega de surpresa o ouvinte, numa cover em muitos aspectos superior à versão original do disco 'Abbey Road'.
Estão aqui os pilares obrigatórios - 'My Sweet Lord' é provavelmente o que menos falta faria - mas há no disco um bom número de raridades nunca antes ouvidas ao vivo, como 'Piggies' (do 'Álbum Branco', com direito à coda de 'One More Time'). E mesmo o material mais fraco - 'Devil's Radio', 'All Those Years Ago', 'Darkhorse' - soa forte, por causa do ataque e do balanço da banda."

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Hermeto Pascoal - 1975 (2ª Parte)

"A impossibilidade de gravar como quer, mesmo no exterior, ele constatou na Alemanha, de onde chegou mês passado. Lá ele se apresentou como convidado especial no 'Festival Internacional de Jazz de Berlim'. Era o quinto integrante de um quarteto formado pelos brasileiros Egberto Gismonti e o percussionista Naná. Voltou um pouco decepcionado por ver que até os músicos estangeiros estão se submetendo aos esquemas comerciais propostos por gravadoras e empresários. Mas também ficou comovido com sua popularidade entre os alemães.
- Depois de cada concerto, dezenas de pessoas traziam o disco que gravei em Los Angeles ou então o álbum-duplo (Live/Evil) que gravei com Miles Davis para eu autografar. Um público maravilhoso, eu me sentia como como se não tivesse saído de São Paulo. Aliás, quer saber de uma coisa? Não troco o Brasil por lugar nenhum do mundo. Aguento ficar fora no máximo uns 6 ou 8 meses. Mais não dá.
Também pudera. Quem como ele, nasceu no sertão de Alagoas não se adapta mesmo no estrangeiro. Ainda mais sem falar uma palavra de inglês. Ele nasceu em 1936, em Vila de Lagoa *, município de Arapiraca. Mesmo na sua música livre e elétrica de hoje, estão presentes todos os sons da infância: as cantigas do pai (cantador e sanfoneiro), as rezas, o coro das beatas, das filhas de Maria, a cantilena dos velórios, as ladainhas, o grito dos vaqueiros e as festas. Em seu espetáculo no Bandeirantes, havia um momento emocionante: no meio de todo speed dos metais, os blocos de som e ritmo, surgia de repente a figura de seu pai (Pascoal José da Costa, autor de 'Galho da Roseira'), de sanfona na mão, como um pacificado Antonio Conselheiro. Quando isso aconteceu, me peguei chorando, emocionado.
Quando saiu do Brasil, em 70, logo depois que o Quarteto Novo (ele, Airto, Theo de Barros) dissolveu, Hermeto foi trabalhar com Miles Davis. Chegando em Nova York foi procurar Miles mas ele já havia se mandado pro Japão. O jeito foi se virar até o 'Negro de Ouro' voltar da excursão. Quando voltou, trabalharam juntos em Live/Evil e quando o disco foi lançado choveram elogios. Foi chamado de gênio por gente como Miles, Lukas Foss, Gil Evans, Ron Carter, Leonard Bernstein e pelo produtor Creed Taylor. Só Airto não disse nada e até hoje, em suas várias entrevistas nunca falou sobre os toques que Hermeto lhe deu. Flora Purim, não. Ela sempre cita Hermeto como responsável por seu sucesso. Ele não esconde sua alegria por ver Flora estourando na América. Flora queria cantar e não cantava coisa nenhuma. Ele deu as dicas: 'Use sua voz apenas como instrumento. Grite, mie, faça os sons mais malucos. Então ela compreendeu tudo e explodiu. Mas Airto achava aquilo feio. No primeiro disco que Airto gravou nos EUA, a faixa 'Uri' é minha. Aliás fiz tudo naquele disco. Depois ele e Flora entraram pro grupo de Chick Corea e deram todas as minhas dicas para Corea. E os americanos ficaram malucos com  o som que 'ele' inventou'.
Hermeto acha uma bobagem os músicos brasileiros se mandarem pro exterior. Lógico que acha difícil haver mercado aqui para a música instrumental, mas prefere ficar.
- O Brasil atualmente é o centro musical do mundo. Aqui estão sendo feitas as coisas mais novas e mais importantes, enquanto lá fora todos estão esgotados. Os músicos criam rótulos como jazz-rock, latin-jazz-rock, ou o funky. Isso é apenas um consolo pra disfarçar a falta de saídas. Mas isso não quer dizer que eu vou sair brandindo as raízes ou fazendo afirmações de nacionalismo musical. Folclore? O que é isso? Pra mim só existe música. Ela é universal e está acima de rótulos ou marcas. Eu nunca digo que sou 'um músico brasileiro que faz música. Porque como músico, eu sou universal.
Hermeto se queixa do desânimo dos músicos mais antigos e muito comprometidos com o sucesso. Elogia os novos músicos 'que acabaram com aquele preconceito de cada um tocar determinado gênero'.  Quando fala dos mais jovens se entusiasma e lembra alguns nomes que considera importantes e mal divulgados: 'Tem o Toninho Horta, tem o Novelli, Raul Mascarenhas, o Nivaldo Ornellas o Lelo (pianista de 17 anos), Aleula (sua vocalista), Zé Eduardo ('ótimo baterista e percussionista') e o Heraldo do Monte, que toca viola e guitarra. Essa gente tem ficar aqui. Podem ir pro estrangeiro gravar disco, mas depois vão ter que dar duro, tocar em boates, e o negócio não é mole. Você acaba ganhando 30 dólares por noite e isso é muito pouco. Eles podem dizer que está tudo bem, mas estão mentindo. Prefiro muito mais tocar em boate aqui do que lá'.
No princípio de 76, Hermeto viaja para Copenhague (2 shows) e Berlim (um). Ele está na expectativa quanto ao seu trabalho no disco de Taiguara que produziu antes de ir pra Alemanha. Fez também sua primeira experiência para cinema: música e arranjo para o filme 'O Predileto', de Roberto Palmari, com história de Roberto Santos. Como ele não grava mais, nem trabalha na TV, está a disposição dos jornalistas para papos, entrevistas e divulgação de seu trabalho. Está também procurando um teatro para fazer concertos às segundas-feiras.
- Estou muito feliz. Não dependo das gravadoras, nem da TV. Mas se me derem condições de trabalhar com liberdade, aí eu meto a cara. A gente tem de tocar o que sabe, sem se preocupar em agradar a ninguém. Quanto mais sinceridade, mais fácil será o diálogo.
Quando ia saindo, Hermeto me pegou pelo braço: 'Não me leve a mal, Gosto muito da revista Rock, mas acho uma besteira aquele concurso de vocês. Eu e Rita Lee concorrendo na mesma sessão. Adoro aquela menina, gosto muito da voz dela e de suas músicas. Mas tudo é tão sem sentido. Todos esses concursos de melhores são sem sentido. É coisa de Silvio Santos'. "

* Na verdade, o nome do local de nascimento de Hermeto é Lagoa da Canoa

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Hermeto Pascoal - 1975 (1ª Parte)

Na revista "Rock, a História e a Glória" nº 13 (1975) - suplemento "Jornal de Música", há uma excelente matéria com Hermeto Pascoal, escrita pelo jornalista Ezequiel Neves, que aqui reproduzo em duas partes:
" 'Queria ver todo mundo de gravador na mão registrando o que estou tocando. Não vou mais gravar discos porque não quero mais me repetir'.
Quem fala isso é Hermeto Pascoal. Ele está sentado à minha frente, na sala de sua casa, no bairro de Aclimação, em São Paulo. Seu cabelão está amarrado na nuca, ele veste uma camisa alaranjada e um calção estampado. Sua simplicidade me comove. Sempre que ouço o som  de Hermeto minha cuca explode e depois fica pacificada. Nunca tive coragem de chegar perto dele. Sua mulher dá uma gargalhada quando digo isso a ele. As crianças, seus filhos (ele tem seis), entram na sala, brincam com  os cachorrinhos. Hermeto pede a eles que brinquem no jardim. Ficamos então os três na sala. Ele explica, apontando sua mulher:
- Ilza é uma espécie de secretária vigilante. Cuida de tudo. Também não se importa com minhas namoradinhas.
Ilza interrompe rindo:
- Também não há razão de me importar. Sempre insisto pra que elas venham aqui. Elas chegam, dão de cara com os seis garotos e depois não voltam nunca mais.
Pergunto novamente sobre a história do gravador.
- Estou dizendo a verdade. Gravem meus concertos, divulguem as fitas. Não vejo outro meio de fazer meu trabalho ser ouvido. Vou tocar dia 28 de dezembro, no Morumbi. Vai ser um concerto patrocinado pelo Movimento Artístico de Mário de Andrade. E para a festa ser completa, quero ver todo mundo de gravador em punho. É importante isso. Você vê: levo pelo menos uma hora pra deixar meus músicos esquentarem. Depois tudo começa a explodir. Meus concertos duram, mais ou menos, umas duas horas e meia - sem interrupção. Ninguém vai se arriscar a lançar isso em gravação.
Falo entusiasmado sobre seus três concertos no Teatro Bandeirantes, na série da 'Banana Progressiva'. Digo que senti a mesma emoção quando ouvi Miles Davis. Pergunto se a transação não é a mesma. Tanto Hermeto quanto Miles funcionam como regentes, instigando músicos, organizando o caos e reinventando tudo. O que (Luiz Carlos) Maciel escreveu sobre Duke Ellington e Miles Davis, vale também para Hermeto. Para os três, 'a música é uma criação tão individual quanto coletiva, tão elaborada quanto improvisada, tão pessoal quanto comunitária'.
Já vi Hermeto com vários grupos, com vários agrupamentos de músicos. E o resultado, mais que o som universal, ou de nível internacional, é totalmente intergalático. Pergunto sobre o seu método de trabalho.
- Tudo bem simples. Na véspera do concerto a gente ensaia. O tema é escrito, todo mundo lendo a partitura. Mas 90 por cento é improvisação e acontece na hora. Já ouvi muita gente falando mal de certos músicos, mas quando eles tocam comigo rendem muito bem. Músico é como jogador de futebol. Num time ele pode render mal, mas vai pra outro e faz uma porção de gols.
A última vez que Hermeto entrou num estúdio para uma gravação com seu conjunto foi no começo do ano, na RCA. Ele fez um compacto com 'O Porco na Festa', prêmio de melhor arranjo no Fetival Abertura (que ele chama de 'Fechadura'). Em seguida, ia gravar um LP.
- Não deu certo. Eles também não queriam gastar dinheiro. E agora só aceito gravar para fazer o que sei, da maneira que eu quiser, sem aceitar qualquer imposição ou restrição. Só aceito limitações quando aceito gravar jingles e tenho feito isso com muita frequência. Pego minha flautinha e vou.. Faço isso sabendo como é e sempre com a maior dignidade. Não me escondo e até gostaria se meu nome aparecesse em alguns. Pois mesmo nesse gênero eu consegui dar minha contribuição pessoal."
(continua)

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Walt Whitman: Modernidade Sem Métrica ou Rima

Walt Whitman é considerado um dos melhores poetas da língua inglesa. Sua forma moderna e revolucionária de escrever seus versos levou-o, inclusive, a ser considerado como um dos precursores e influenciadores da Beat Generation, que surgiria nos anos 50. Em março de 1992, por ocasião do centenário de sua morte, o professor e tradutor Paulo Henrique Britto escreveu um texto sobre Whitman em O Globo:
"Se quiséssemos escolher um ano para assinalar o nascimento da poesia moderna, 1855 seria uma boa escolha. Em junho deste ano, em Paris, Charles Baudelaire publicou 18 poemas na prestigiosa 'Revue des Deux Mondes'. No mês seguinte, em Nova York, foi colocado à venda um livro de cerca de cem páginas intitulado 'Leaves of Grass' (Folhas de Relva). A capa não trazia o nome do autor nem do editor, e sim  a foto de um homem na faixa dos 30, vestido como um operário, com ar displicente. O homem do retrato, que era o autor do livro, chamava-se Walt Whitman, cujo centenário de morte está sendo comemorado este mês.
As diferenças entre os poemas de Whitman e os de Baudelaire provavelmente seriam, para um leitor médio da época, mais evidentes que as semelhanças: Baudelaire trabalhava com  as formas tradicionais da poesia francesa, enquanto Whitman escrevia versos longos, caudalosos, sem métrica e sem rima. Tal leitor talvez atribuísse aos dois, o gosto pelo escândalo: Baudalaire escrevia sobre prostitutas e sarjetas imundas, e oferecia preces ao demônio; Whitman dizia que o cheiro de suas axilas era melhor que o das preces, e numa passagem dava a entender que havia passado uma noite inesquecível com Deus. Porém, um leitor menos ingênuo e mais perceptivo assinalaria uma afinidade bem mais importante: em Baudalaire e Whitman, surgia pela primeira vez na poesia ocidental a grande cidade moderna.
Mas é justamente neste traço comum que vamos encontrar a diferença fundamental entre os dois poetas. Enquanto a Paris de Baudalaire é essencialmente uma paisagem noturna, pela qual o poeta vaga, solitário e passivo, a Nova York de Whitman é, acima de tudo, um lugar de trabalho, cheio de operários, máquinas, barulhos de toda espécie, onde o poeta não se limita a observar e registrar o que vê, porém participa de tudo. Mais ainda, o poeta é tudo e todos:
'Não sou só o poeta do bem... não me recuso também a ser o poeta da maldade.' E, ao identificar-se com a experiência humana em toda sua diversidade, ele confere a tudo a divindade que seu magnífico narcisismo se auto-atribui: 'Divino sou por dentro e fora e santifico a tudo que toco ou que me toca.'
No plano formal, a grande contribuição de Whitman foi o verso livre, que veio a se afirmar como a forma mais característica da poesia moderna. A liberdade de forma que Whitman se permite não se apresenta como uma escolha arbitrária. Para uma poesia que ambiciona a totalidade, que sonha conter num verso a pluralidade da condição humana, com todas as suas contradições, a única forma adequada é aquela que contém todos os sons e ritmos, sem privilegiar nenhum.
Se como introdutor do verso livre e do tema da moderna metrópole capitalista a influência de Whitman foi imensa, sua obra destoa da maior parte da poesia moderna,  pelo que tem de afirmativa e otimista. Whitman aceita tudo, regozija-se com tudo; nada nele é alienação ou estranhamento. Sob esse aspecto, só Joyce pode ser posto a seu lado: o 'Ulisses' é talvez a única grande obra moderna em que encontramos o mesmo sentimento orgiástico de imersão da vida., com total aceitação de tudo que há nela, que vemos em Whitman. A visão da civilização moderna que encontramos na melhor literatura de nosso século deve mais ao spleen noturno de Baudelaire que à embriaguez solar de Whitman. Quando Whitman morreu, há cem anos, Mallarmé refugiava-se do mundo em meio a seus livros e destilava a essência do nada em seus versos perfeitos; e 25 anos depois, o cristão Eliot condenava em seus 'Preludes', o mundo urbano que o pagão Whitman santificava. Modernos (ou pós-modernos) desiludidos, somos filhos de Baudelaire e suas sombras; Whitman é o bardo das promessas que a modernidade jamais cumpriu."

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Elvis Presley - 68 Comeback Special

Em 1968 a careira de Elvis Presley andava meio estagnada. Os tempos do jovem rebelde que desencadeou toda uma mudança na música e no comportamento da juventude já ficara pra trás, e seus filmes de roteiros açucarados já não despertavam tanta atenção. Na verdade, o grande responsável pela fase decadente de Elvis foi seu empresário, o "Coronel" Tom Parker, que só visava o lucro financeiro, em detrimento  do prestígio artístico de seu cliente.
Nos anos 50, até início dos 60, a fórmula de sucesso engendrada por seu empresário surtiu efeito, e fez  grande sucesso, rendendo altos dividendos ao rei do rock. Todos seus filmes, por piores que fossem, eram sucesso garantido, embora artisticamente sua carreira estivesse indo por água abaixo. Porém, a partir de meados dos anos 60, o rock mudara o panorama, com o surgimento de bandas de peso , como Beatles e Stones, principalmente, e o grande apelo que exerciam perante a juventude. Elvis, aos 33 anos, precisava justificar seu título de Rei do Rock, antes que caísse no esquecimento. Porém Tom Parker insistia em uma fórmula que nada traria para contribuir para o resgate da imagem de Elvis junto ao público de rock.
No final de 68 o empresário propôs a Elvis um especial de Natal onde Elvis apareceria sentado em uma poltrona interpretando músicas natalinas, uma coisa completamente careta e de pouco apelo para o público jovem. Elvis, sentindo a roubada que ia entrar, disse não ao Coronel - uma das raras vezes em que não se deixou manipular. Conta-se que o Coronel Tom Parker ficou enfurecido, mas Elvis bateu pé, talvez sentindo que se fosse na onda de seu empresário, poderia enterrar de vez sua carreira. E assim Elvis voltaria a encarnar depois de anos, o rocker que ela havia representado no avassalador início de sua carreira.
Para o especial, Elvis se vestiu de couro, como nos velhos tempos, e convidou para acompanhá-lo, dentre outros, Scotty Moore e DJ Fontana, dois músicos que tocavam com ele nos tempos que era um autêntico cantor de rock. O especial começou com "Trouble", da trilha de seu filme Balada Sangrenta. Elvis ainda pegou na guitarra, e desfilou uma série de canções de seu início de carreira, como "That's All Right", "Heartbreack Hotel", "One Night", entre outras. Também interpretou o blues "Baby What Me to Do", de Jimmy Reed. Elvis parecia bem à vontade no palco, cantando para uma pequena plateia.
Outro bom momento do especial foi a interpretação de "Guitar Man", outro excelente rock, bem no estilo que o consagrou no início de careira. Elvis também dedicou uma parte de seu especial à música gospel, que ele sempre gostou de cantar, com um corpo de baile fazendo um número de dança. O ponto destoante do especial foi a interpretação dublada de uma balada açucarada, chamada "Memories" - uma pequena derrapada que não chegou a comprometer a proposta do show.
Para encerrar o especial, Elvis interpretou uma canção feita em homenagem a Martin Luther King, que havia sido assassinado naquele ano, e o mundo ainda vivia sob o impacto da morte do líder do movimento pelos direitos civis. Longe de ser algo oportunista, a homenagem foi interpretada de uma forma segura e emocionada.
Sem dúvida, esse especial para a tv, que foi ao ar em 3 de dezembro, batendo recordes de audiência, representou uma volta triunfal de Elvis a um mundo onde ele sempre reinou, apesar de alguns tropeços;: o mundo do rock'n roll. Assisti a esse especial pela primeira vez pela tv (SBT), nos anos 90. Anos depois, o DVD do especial foi vendido em bancas de jornais. Para quem quiser conhecer o melhor de Elvis esse DVD é melhor recomendado do que a fase "Las Vegas", por exemplo. Ali Elvis mostra porque é até hoje conhecido como "O Rei do Rock".


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Arrigo Barnabé - Revista Pipoca Moderna - 1983 (2ª Parte)

" 'Diversões Eletrônicas' ganhou o festival, uma armada de músicos paulistas saiu de armários empoeirados em pacatos bairros de classe média e Arrigo arrumou um emprego: professor de música. Muito melhor do que as pesquisas de alguns anos atrás, quando saía de casa às 8 da manhã com 24 tubos de pasta de dente para convencer seletas incautas. Era a época onde 'os quadrinhos seguravam a a barra - O Balão, O Grito, Agora, em 79, dando aula quatro vezes por semana e ganhando sete mil cruzeiros, 'fiquei feliz pra cacete'.
Acontecimento crucial no círculo de Arrigo: Robson Borba vem para São Paulo, monta uma casa e o grupo consegue um local para ensaiar, pensando no Festival de Jazz. Mas não queriam sua presença no dito: 'achavam que a gente era porra louca'. Roberto Muylaert, organizador do festival, não pensava bem assim, mas sugeriu um 'veja lá o que vão fazer'. Arrigo viu, foi e ficou 'emocionado', mostrando todas as suas músicas, menos 'Orgasmo Total' e 'Instante', com Biafra, do Premê, na guitarra, e Tetê Espíndola cantando. Na sequência, 'mal gravado, mal mixado, mal tudo', em novembro de 80 sai o LP. Arrigo está na arena, os leões da mídia estão ansiosos. 'Dá uma certa depressão o fato de se tornar público. Ficar exposto. Todo mundo vem falar com você. Pelo menos eu ainda consigo passar despercebido'.
A partir de 81, Arrigo começa a pensar que o preço pago pelo artista - como figura pública - para mostrar seu trabalho é alto demais. As reflexões, no entanto, não são suficientes para mergulhá-lo em um pessimismo dionisíaco, mesmo porque constata que nunca teria 'um nível de popularidade altíssimo. Ninguém mandaria o Caetano embora porque já é tarde e o bar está fechando, o que ainda acontece comigo'.
Recluso, eremita, excêntrico, pernóstico? Arrigo se desconcerta com as variações sobre sua pessoa. 'Eu tinha que dar uma parada mesmo. Não entendo bem. Posso nunca mais fazer nada depois de Clara Crocodilo. Mas tudo bem. Já dei uma contribuição real, concreta em termos culturais, é uma coisa que ninguém fez, musicalmente'. Arrigo acredita nesta originalidade, plasmada há pelo menos uma década. E não é só ele. No Festival de Berlim, nenhum crítico alemão o comparou a Zappa. Seria apenas uma cegueira na capital das vanguardas?
 Arrigo, na verdade, não está muito preocupado com juízos de valor, tanto europeus quanto tropicais. Acredita mesmo que quem reduz o seu trabalho a um novo degradado, já testado nos centros culturais dominantes, 'não entende nada de cultura brasileira, não tem percepção de que somos antropófagos'. Em Berlim, em contato com músicos eruditos, viu seu desprezo pela música popular. Amantes e praticantes dessa  última, por outro lado, sabendo que Arrigo escreve tudo o que toca - não há improviso - ficaram desconcertados. 'Aqui a gente está fazendo o contrário, misturando as coisas. Quem fez também, foram os americanos. O novo está sendo criado na América'.
O que Arrigo ouve e gosta? Pouco. 'Estão fazendo uma coisa que eu não gosto, esse negócio de new wave, punk. Abomina tecnologias eletrônicas e a progressiva sintetização. Só pegou fogo com Laurie Anderson. Mas do que ouviu na sua viagem à Europa as melhores lembranças são de fado. Cantores e cantoras excepcionais. Quem conhece seu lado descobridor de cantoras, e o viu ao piano no último show no Sesc-Pompeia em corpo-a-corpo com mágicas canções não se surpreende.
Definitivamente, Arrigo não é um vodu urbano. Toma café no bar da esquina, vai visitar a mãe, ali mesmo em Pinheiros, lê jornal e se irrita com marasmos e mediocridades. O verão não condenou à modorra. Pelo contrário.  Associou-se ao Lira Paulistana, por onde gravará e distribuirá seus discos. Está trabalhando em uma trilha sonora - 'vou viver desse dinheiro nos próximos tempos'. E está com um novo show pronto na cabeça - 'todo o conceito, é só começar a ensaiar, vai ser um choque'.
Até que ponto Arrigo premedita seus lances de dados? Até a justa medida para um inocente sofisticado, inquieto, porém acessível. Seu papel não é o de salvar a música brasileira de um buraco negro. Frente a uma paisagem aniquilada pela luz, ele permanece sereno. O sol é seu provedor de ideias negras, e o verão, a estação em que considera suas relações com o mundo e consigo próprio. Com eventual condenação de um e de outro, o que é altamente salutar."

domingo, 22 de setembro de 2013

Arrigo Barnabé - Revista Pipoca Moderna - 1983 (1ª Parte)

Arrigo Barnabé foi um dos expoentes máximos de uma corrente musical que teve uma grande repercussão no país, no início dos anos 80: a Vanguarda Paulistana. Seu disco Clara Clocodilo, lançado em 80, causou um grande impacto pela forma com ele fazia sua música, que sofria influência de música erudita de vanguarda, trazendo sons dedocafônicos e uma narrativa com elementos de histórias em quadrinhos. Em março de 1983 a revista Pipoca  Moderna trazia uma matéria com Arrigo, intitulada "Arre, Arrigo", assinada por Pepe Escobar:
"A música é a única arte que ignora a ironia. Não procede das malícias do intelecto, mas dos matizes ternos ou veementes da ingenuidade, estupidez do sublime, irreflexão do infinito. Como o 'rasgo de gênio' não tem equivalente sonoro, é denegrir um músico chamá-lo de 'inteligente'. Este atributo o diminui e não tem lugar nessas cosmogonias lânguidas onde, como um deus cego, improvisa universos. Se fosse consciente de seu dom, sucumbiria ao orgulho; mas é irresponsável; nascido no oráculo, não pode compreender a si mesmo.
Arrigo Barnabé tem sido qualificado, inúmeras vezes, de um músico inteligente. Ou o seu oposto. Ou o enigma. O fechamento em gavetas de fácil alcance é uma atividade altamente popular na província. Para esse paranaense de 34 anos, é indiferente. Está preocupado com este caso limite de irrealidade e absoluto, esta ficção infinitamente real: a música. Seu silêncio, no entanto, inquieta. Acalmem-se os sensacionalistas: não há nada de faustiano em se trancar em um pequeno apartamento de subsolo em Pinheiros, ao lado de um piano americano, partituras e livros, para produzir um pouco de música que introduza turbulências nas águas paradas da época.
A verdadeira história, sem mitos, começa em Londrina, em 68, quando Arrigo entrou em contato com os compositores contemporâneos de música erudita. Ele e seu amigo Mario Lúcio Cortes se perguntavam porque a Tropicália não incluía informações de música erudita na sua guerrilha contra o bunker bem-pensante da cultura brasileira.
'Superbacana', de Caetano Veloso, e 'Alegro Barbaro', de Bartók, provocavam a mesma iluminação estética. Arrigo, Mario Lúcio, Robson Borba e Paulo Barnabé começaram a pensar em desconstruir a linguagem. Só que é difícil ser bárbaro quando se é um simples garoto do interior, estudando no científico, provável futuro engenheiro químico, com eventuais incursões ao conservatório. Blood, Sweat & Tears, Dave Brubeck - interessante pela maneira como trabalhava os compassos - Jimi Hendrix, Iron Butterfly, também cruzavam seu espaço sonoro. Arrigo, no entanto, tinha preconceito contra a música americana. Rock não lhe chamava muito a atenção. 'Rock é outra coisa'.
69. Serenatas . Nelson Gonçalves e Orlando Silva. De repente Arrigo vê o Brasil pela primeira vez: O Dragão da Maldade..., em Curitiba. E começa a pensar em romper com os determinismos agindo em sua vida, por influência direta de O Lobo da Estepe.  O bom católico, bom menino e bom aluno está cara a cara com seu lado negro.
Três diálogos de Platão, Voltaire e Poe: está aberto o caminho para escrever poemas e sonhar utopias. Robson Borba lhe explica que o concretismo é o máximo. Arrigo resolve viver só mesmo na dura poesia concreta de certas esquinas.
70. Na sua cabeça, 'um momento fértil'. Arrigo chega e todo mundo está exilado. Não pensa em termos de atmosfera ' fim de sonho'. Precisa fazer cursinho, o que para ele é informação preciosa: como utilizar o espaço em branco, como compor, preencher vazios. Amigos o iniciam em determinados segredos, como os do fliperama da Ipiranga com a São João.
Arrigo vai para a  FAU, Robson para o ITA, Mario Lúcio para engenharia em Curitiba. Férias em Londrina, à Fellini, tese e prazer. Stockhausen começa a se misturar com Della Piccola, Ravi Shankar e Miles at the Filmore, quando surge, via livro, Augusto de Campos, 'fundamental, quem te direciona, dá visão crítica'. O marasmo musical não existe na cabeça de Arrigo, a não ser a partir de 76. Mesmo porque desde de 71 já estava compondo: nascia Clara Crocodilo, apresentada pela primeira vez há dez anos, em Londrina, no show A Boca do Bode - Itamar Assunção também estava. Pânico e estupor no Paraná, enquanto no palco se perpetravam coisas como 'Babynette rainha da night/faz susex com pouca light', girl, girl, yeah, yeah, bla, bla, bla e entra no palco Beta Pickles, travesti. José Richa, governador eleito do estado no último mês estava lá e gostou.
Da FAU para a ECA, vestibular de novo, mas sempre ganhando mesada - ainda por cima dividida -, dez em uma casa, sonhando com o pulsar das árvores em um enorme quintal de Londrina, ideia para show perpetuamente inédito. 'Eu nunca pensei que fosse ser músico'. No correr de uma década, Arrigo decodifica as pulsações da cidade. Em 79, no festival de Música da TV Cultura, tem uma surpresinha para ela, na primeira grande exposição pública.
Vanguardas adormecidas sacodem seus traseiros: é o novo Messias. Nem tanto. Tudo se espalhou, no início, de músico pra músico. 'O que a gente estava fazendo ninguém estava fazendo. Era uma coisa nova. Eu sentia a necessidade disso. E tudo começou com este festival, que não foi ainda devidamente dimensionado'."
(continua)

sábado, 21 de setembro de 2013

Gilberto Gil Fala de Jorge Mautner (1974)

Quando Jorge Mautner lançou seu segundo disco, em 1974, Gilberto Gil, que era contratado da mesma gravadora (Phonogram) escreveu um release sobre o disco, num material de divulgação. O texto é intitulado "Como Gil Vê Jorge", que transcrevo abaixo:
" 1- Jorge Mautner é um homem, forte como um rochedo, claro como a água, leve como o vento, os fios elétricos, a bola de borracha, os buracos da flauta, a sola do sapato, as patas do mosquito, e o palito no meio do pirulito. Jorge Mautner pode ser qualquer coisa, porque ele quer ser qualquer coisa. Tudo. Claro que tudo é tudo e todo mundo é, diria você; mas Jorge realiza, em si, a caminhada para a consciência deste TUDO; e como ele brinca com as pedras do caminho!
2 - Jorge Mautner é uma criança distraída e tola, sua tolice é como a lente potente do telescópio do Monte Palomar; traz as estrelas para perto, para dentro, para o centro do pensar. Pensar tolices do menino numa máquina de ampliar. Assim é como eu já vi Jorge Mautner tantas vezes, a pensar, ele é, não tenho dúvidas; ele é um menino distraído que nos pede para lhe ensinar. Um mestre. Ele é um mestre.
3 - 'Desafinado' foi um manifesto da alma do homem da história daquele tempo-Brasil, anos 50. 'Tropicália' foi um manifesto da alma do homem da história daquele tempo-Brasil anos 60. 'Maracatu Atômico' é um manifesto da alma dos anos 50, 60 e 70, é deste tempo-Brasil, caminho do corpo universal, o espírito de Deus.
4 - O LP de Jorge Mautner tem treze músicas, dele ou de parceria com Nelson Jacobina, um garoto dos sonhos cariocas, de aventura de Ipanema. Tuti Moreno e Chico Azevedo, tocam bateria e percussão, e Jorge, Jacobina, Roberto Carvalho e eu, aparecemos aqui e ali, tocando piano, guitarra, violino, bandolim e violão. Jorge canta tudo com aquele jeito de século XIX e XXI. Eu gosto muito do disco. Ataulfo Alves se deliciaria com 'Matemática do Desejo'. Os sambas são todos lindos, e, 'Ginga na Mandinga', de parceria com o baixista Rodolfo Grani Jr. é uma serpenteira que se desenrola enrolando todo mundo, de João Gilberto a Herbie Hancock. Os rocktosos 'Guzzy Muzzy', 'Rock da TV', 'Cinco Bombas Atômicas' e 'Salto no Escuro' me fazem pensar que afinal pinta uma banda, aqui, tocando e soando como os Rolling Stones e assim mil anos-luz de distância dos Rolling Stones, pra frente ou pra trás. Aliás, o LP, eu tenho um pensamento/síntese: o disco está atrás ou à frente, acima ou abaixo de qualquer crítica. Para uma terra que tem Jorge Ben tinha que pintar Jorge Mautner.
Beijos,
Gilberto Gil
PS: Rodolfo, o baixista, é uma espécie, assim, de Gérson do time, observou Caetano.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Resenha do Rock In Rio 85 - Revista Roll

Em tempo de Rock In Rio, um festival que se consolidou e até tem sua versão internacional (Espanha e Portugal), muito se tem falado sobre os critérios de escolha das bandas, e com toda razão. Outros festivais que se realizam por aqui se focam mais no rock, como o SWU e Loolapalooza. Na verdade, o Rock In Rio em nenhuma de suas edições se constituiu num festival autenticamente de rock. Nas últimas edições o pop e até o axé da onipresente e chata Ivete Sangalo faz o RIR se parecer com o Festival de Verão de Salvador. Mas se formos comparar com a primeira edição (1985) veremos que muitos artistas que não eram de rock também estavam escalados, porém o nível não chegou a cair. Ivan Lins, Elba Ramalho, Alceu Valença, Moraes Moreira, Al Jarreau e George Benson, por exemplo, fizeram ótimos shows. Ironicamente, nossa rainha do rock, Rita Lee, uma autêntica representante de nosso rock, fez um dos piores shows de sua carreira. Estava irreconhecível no palco.
Para relembrar aquela primeira edição, que durou dez dias seguidos: de 09 a 18 de janeiro, vou transcrever alguns trechos de uma edição da revista Roll, comentando sobre o evento.
A revista começa com um texto de apresentação, escrito pelo editor de texto, Aldo Meolla:
"Noventa horasde muito som rolando, o Brasil descobriu o óbvio. De Monterey ao Rio, passaram-se dezoito anos. Custou, mas finalmente uma metrópole latina passou a figurar no mapa dos festivais. Durante dez dias brilharam no Rio as luzes de uma outra cidade - a cidade do rock. Nenhum país fica impune depois de viver um festival como este.
'Por que você não olha pra mim?' Pronto, Herbert Viana. Tanto que você pediu que todo mundo acabou olhando. E descobrindo - repito, o óbvio - que o rock é por demais importante para que a gente continuasse em contato com ele apenas à distância.
Ainda que muita gente teime em chamar o evento, não sem razão, de uma grande odisseia pop, o certo é que dez dias de rock no Rio valeram por vários anos. Simplesmente porque a despeito da qualidade das atrações, se A ou B deveria ou não ter participado, o festival balançou as estruturas da produção caseira. E, não resta dúvida, daqui pra frente, tudo vai ser diferente.
James Taylor
O pessoal das gravadoras arregalou os olhos, os produtores reavaliaram todos os seus conceitos, uma injeção de profissionalismo e competência mexeu com  acabeça dos músicos. É um processo irreversível.
A partir de agora, as coisas mudaram. Os roqueiros ganharam o aval e já podem entrar pela porta da frente. É importante frisar que, sem a batalha travada pelos novos grupos nacionais e pela mídia - com o pioneirismo de Roll e da Rádio Fluminense FM - que abriu espaço para estas manifestações, jamais teria havido um festival como este. De repente, pessoas atavicamente realistas passaram a falar de sonho, surgiram roqueiros de última hora nos quatro cantos do país. Não custa nada lembrar, há até pouco tempo, as coisas eram bem diferentes.
Mas é aí, e agora que deu certo? E daí que possibilitou essa abertura foi a existência de uma cultura urbana própria, organicamente construída. É ela a força motriz de uma arte que se pretende amadurecida, e que encontrou no Rock In Rio um horizonte para sua expansão. Foi um primeiro e importante passo no sentido de deixarmos de sermos meros consumidores de história, para começarmos, nós mesmos, a fazê-la. Daí, a importância de bancar a coisa, com dignidade, a nível de super-indústria cultural. Como no primeiro festival - e é fundamental que haja um segundo - o desenrolar das coisas daqui pra frente dependerá da força e do talento dos artistas nacionais e de todos aqueles que estão nesta batalha - onde, humildemente, Roll se inclui. Só isso poderá guinar o leme na direção de manifestações mais autênticas. Com o Rock In Rio foi iniciada a contagem regressiva para o aqui e o agora. Os dados estão lançados e agora deve-se cuidar para que a soma dos números não seja um mero produto do acaso. Por favor, não subestimem a consciência da juventude. Ela saberá julgar o seu tempo."
Angus Young: AC/DC
 Segue-se uma resenha dos dez dias de shows, quando algumas bandas e artistas chegaram a se apresentar duas vezes, para dar mais opções para que os fãs pudessem assistir os shows mais aguardados por eles. Também foram colhidas algumas impressões de personalidades da música, do jornalismo e das gravadoras, como o inglês Jim Capaldi, ex-baterista do Traffic, que morou um bom tempo por aqui:
"O que me impressionou no Rock In Rio foi a energia dos shows. O equipamento era fantástico e deve ter custado uma fábula, mas o que mais me deixou surpreso foi a energia das bandas. Nos grupos ditos 'metaleiros' o que mais me chamou a atenção foram os bateristas, o peso que eles davam às músicas. Os grupos estrangeiros podiam ter vindo a apresentado qualquer show, mas não, eles se preocuparam com o que fizeram ao vivo. Não foi uma apresentação qualquer, foi algo muito ensaiado. O público brasileiro é muito passivo, os shows se atrasam e ninguém reclama. Com a pontualidade vista no Rock In Rio, o público certamente vai começar a ficar mais exigente. Na Inglaterra se um show se atrasa o público imediatamente começa 'Oh, Capaldi! Como é que é?' Além disso, os grupos brasileiros vão ter agora que se preocupar mais com  a parte de produção dos espetáculos."
Só pra lembrar, naquele festival tocaram os seguintes artistas e bandas; Ney Matogrosso, Erasmo Carlos, Baby Consuelo/Pepeu Gomes, Whitesnake, Iron Maiden, Queen, Ivan Lins, Elba Ramalho, Gilberto Gil, Al Jarreau, George Benson, James Taylor, Paralamas, Lulu Santos, Blitz, Nina Hagen, Go Go's, Rod Stewart, Moraes Moreira, Alceu Valença, Kid Abelha, Eduardo Dusek, Barão Vermelho, Scorpions, AC/DC, Rita Lee, Ozzy Osbourne, Yes e B52's,

sábado, 14 de setembro de 2013

Uma Mini-História do Jazz (Jack Kerouac)

A trilha-sonora do clássico On The Road, livro de Jack Kerouac, é o jazz. Escrito numa época em que o rock ainda não havia estourado no mundo, o jazz era, na época, a música de contestação e uma alternativa musical para aqueles que se ligavam em algo mais vibrante. Por isso, os beats elegeram o jazz a sua música, e no citado livro de Kerouac, considerado a bíblia da literatura beat, esse estilo musical está sempre presente, como nesse trecho:
"O sax alto estava nas mãos de um luminoso jovem negro, estilo Charlie Parker, um garotão de dezoito anos, bocona escancarada, mais alto que os outros, e grave. Ele ergueu seu sax e gemeu calma e pensativamente, extraindo frases como pássaros, como se fosse o próprio Bird Parker, e deixando-as suspensas com a lógica arquitetônica de Miles Davis. Era herdeiro dos grandes inovadores do bop.
Outrora fora Louis Armstrong mandando ver nos lamaçais de Nova Orleans; antes dele, os músicos loucos que entravam na paradas, aos feriados, e desfaziam as marchas marciais transformando-as em puro ragtime. Então surgiu o swing, e Roy Eldridge, vigoroso e viril, quase explodindo seu trumpete ao arrancar dele sonoras ondas de poder, sutileza, astúcia e requinte lógicos - inclinando, com os olhos radiantes e um sorriso encantador, fazendo todo o universo do jazz gingar junto com ele. Então chega a vez de Charlie Parker arrombar a cena; era apenas um garoto morando num casebre de madeira com a mãe em Kansas City, soprando seu sax-alto todo remendado, entre as toras de madeira, praticando somente nos dias de chuva, fugindo vez ou outra para assistir a banda do velho Basie e de Benny Morten, que tinha Hot Lips Page e todo o resto - e então Charlie Parker se mandou de casa e foi para o Harlem encontrar o louco Thelonius Monk e Gillespie, mais louco ainda - Charlie Parker, que na juventude andava em círculos enquanto tocava. De alguma forma mais moderno, mais inovador do que Lester Youg, também nascido em Kansas City, aquele singelo e sombrio bobalhão no qual toda a história do jazz está envolta - porque ao erguer seu sax, retilíneo e horizontal, sempre colado à boca seca e calejada, ele soprava melhor do que qualquer outro; mas à medida que deixava o cabelo crescer ia ficando mais preguiçoso e desleixado, deixando o sax à meia altura; até que ele ficou definitivamente apontado para o chão e hoje, calçando seus sapatos de sola larga para não se desgastar nas calçadas dessa vida, Young o sustenta debilmente, mantendo-o sempre de encontro ao peito, tocando notas fáceis - e, ainda assim, cool. E eis aqui as crianças da noite bop americana."

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Novos Baianos Fazem Show de Lançamento de Disco (1977)

Em 1977 os Novos Baianos lançavam o disco "Caia na Estrada e Perigas Ver". Na ocasião, o grupo fez vários shows de lançamento do novo trabalho. Em sua edição nº 14 a revista Música comentou um dos shows, realizado em São Paulo. Abaixo a resenha do show:
" Sempre que os Novos Baianos lançam um disco na praça, tornam-se sucesso e são comentados pela perícia com que lidam com palavras, sons e criatividade. Portanto, este show é um reflexo do lançamento de 'Caia na Estrada e Perigas Ver'. Um disco onde o rock de Pepeu - de longe o nosso melhor guitarrista - está em perfeita harmonia com os chorinhos, baiões, etc. Assim, quem foi ao teatro da PUC viu bem quais são os caminhos abertos para a criação de um verdadeiro rock nacional, patropri.
E o teatro estava lotado, prova que o conjunto tem fãs conscientes do bom trabalho que sistematicamente apresentam. Apesar de incômodo - como são quase todos que apresentam shows musicais -, o TUCA mostrou ter se tornado mais um santuário pop. E para provar isso, os Novos Baianos deram um verdadeiro show. Em todos os sentidos, desde mostra de profissionalismo até uso de recursos bem simples, como percussões típicas, sons simples, como percussões típicas, sons simples e muita animação.
Como sempre, é Baby Consuelo quem lidera o forró. E ninguém mais envolvente do que ela. No vocal, sua voz aparece muito bem, devido ao perfeito domínio - haja vista a rapidez de 'Brasileirinho'.
Quanto a Pepeu - outra peça de destaque no grupo - está cada vez mais tranquilo e dominando a guitarra de maneira serena, consciente, inteligente. É muito rápido e produz sons de efeito entusiasmante. Está se atendo muito às raízes 'blues', emitindo sons agudos e longos, bem como fez Hendrix, vários anos atrás. Isto não desmerece Pepeu, apenas dita sua linha - muito bem escolhida, aliás.
O grupo também mostrou excelente performance. Estão todos unidos há muito tempo, tornando o entrosamento praticamente instintivo. Mesmo em sessões de improvisação, todos mantém a mesma uniformidade, partindo ainda para shows solos, sem contudo quebrar a homogeneidade inicial. Destaque especial para a percussão e bateria, responsáveis por todo o balanço dos Novos Baianos.
Enfim, nestes dias em que o chorinho está com tudo, os Novos Baianos estão mostrando um material bom, em grande estilo. E mais: não se prendendo à marcação tradicional e usando os recursos da eletrônica para dar novas cores ao velho gênero musical.
Terminado o show, o público estava cansado e suado, com as pernas moles, resultado de duas horas de som com um conjunto alegre e comunicativo. Como deve ser um conjunto pop latino-americano."

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

De Poeta Pra Poeta - Waly Salomão Fala de Torquato Neto (2ª Parte)

"Todas as crônicas, poemas, rascunhos, confissões do sanatório a que depois dei o título polissêmico D'Engenho de Dentro, tudo tinha de ser cancelado, borrado, apagado, queimado, e Ana Duarte resgatou da lixeira pouco antes de ser incinerado tudo, tudo o que veio depois a constituir o volume que ela e eu organizamos: Os Últimos Dias de Paupéria. O cuidado de queimar no fogo purificador, de passar a limpo, de esvaziar sua vida de toda erva daninha, de toda mácula, de toda sujidade, como nossas operações policiais denominadas 'Operação Limpeza', para que, intacta, quer dizer vazia, a vida pudesse depor no tribunal teocrático. Quando editávamos juntos a Navilouca, edição primeira e única, Torquato me apareceu um dia depois de uma internação em sanatório com o cabelo completamente tosado, um skin head avant la letre, e eu sofri uma premonição terrível e insuportável de uma ovelha negra tosada se oferecendo ao cutelo do matadouro.
O medo de ser doido aos olhos da mãe suserana. Ser feliz é ser capaz de olhar pra si mesmo sem medo. O medo exclui a felicidade e inclui a melancolia. O doce moço pálido. Doce? Escorpião sobre si mesmo. Escorpião envenenado em si mesmo. O doce moço tímido-audaz morre soterrado em suas perplexidades, mas seus recados, seus bilhetes não constituem nota de culpa para ninguém. A vida do moço estava contida num vaso delicado que se partiu, eis tudo: a morte não é vingança. Viver sua vida como se fosse sequência de um filme de Jean-Luc Godard, lances de A bout de soufle, cenas recortadas de Le petit soldat e/ou One, plus, one e o final-remake de Pierrot, le fou. Afogado no bico de gás ou enrodilhado nas bananas de dinamite, tanto faz como tanto fez. O que importa é a imitação da vida da arte.
Assim falava Carlos Drummond de Andrade: nunca amei nada na vida/quanto aquele pássaro/que vinha azul e doido/e se espatifou nas asas do avião./ Assim falava Manoel Bandeira:/e num torpedo suicida/darei de bom grado a vida./ Assim falava Décio Pignatari:/ Alguém tem de ser medula e osso/ Na Geleia Geral brasileira./ Esquecido as aspas/ Torquato fez uma releitura literal/ Brutal brutalista/Agônica/Brasisperada/dessa trinca papa-fina poética./Torquato Neto encenou o Cristo/Que o João Batista de três cabeças da poesia brasileira prenunciava./TN se transformou no esboço mais completo quase do mito do poeta cult do Brasil."

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

De Poeta Pra Poeta: Waly Salomão Fala de Torquato Neto (1ª Parte)

Em 1992, ao se completarem 20 anos de morte de Torquato Neto, o Jornal do Brasil lembrou a data convidando o também poeta Waly Salomão para escrever um texto sobre o grande letrista, poeta e participante do Tropicalismo. Segue abaixo o texto, intitulado "Um anti-herói vanguardista", que será reproduzido aqui em duas partes:
"Astro doido a sonhar. O nosso moço das ânsias. Pobre? Fauve! Fauve! Fraco herói underground. Fraco? Forte herói uinderground. Leão ainda sem juba.
Tornado.
Brutalidade-jardim. Aliás Brutalidade-jardim era a cintilação oswaldiana preferida por T.N.
Vai, anjo gauche, desmantelar  o coro dos contentes e fazer uma fusão de C.D.A. e Souzândrade e recusar o mesquinho lugar ao sol dos macaquitos orgulhosos, realistas cínicos e vulgares. Sua coluna Geleia Geral se constituía no mais vibrante vento durante a ditadura militar enquanto as forças cegas, indomadas, soltas, enquanto a retórica tradicional da velha esquerda lamentava fazer escuro. Torquato desatinava e desafinava o coro dos contentes.
O mundo moderno foi forjado por dois histéricos Lutero e Dom Quixote. Aqui é o fim do mundo da contra-reforma, da entrada retardada no capitalismo e a figura emblemática para nós é o cavalheiro das amarguras.
Tor, o poeta que se cria vidente, desferrolhado, indecente. Vai, dizia a poesia e ele foi e ele vai, magro e longo grafismo, natural de Tristeresina nosso Cavaleiro da Triste Figura de Pindorama, coberto pelos escudos e armaduras poéticas dos livros que traçava. Pálida traça de livros. Qual Don Quixote de la Mancha, Tor também lia o mundo para demonstrar os  livros e procurava viver uma contínua vertigem passional. Pois é. Pois é: o poeta tinha que desembaraçar qualquer Dulcinea del Toboso das embiras e cipós e lianas da floresta de signos. O poeta sendo sabido através dos livros como aquele que acima das diferenças estabelecidas religa as similitudes malocadas das coisas.
Correspondences, de Baudelaire, radicalizada como analogia entre poesia e loucura. Programa a ser cumprido ao pé da letra, literalmente.
Partir satisfeito dum mundo onde a ação não é irmã do sonho. Destino decretado desde a estação de partida, como se estivesse carimbado desde o começo no bilhete da viagem-vida.
Ele, o santo guerreiro que bem sabia pelejar para abrir campo para Sailormoon, Helio Oiticica, Ivan Cardoso, Jorge Salomão, Júlio Bressane, Rogério Sganzerla, Luciano Figueiredo, Oscar Ramos e que sabia vibrar seu porrete de madeira de lei sobre a frouxa fase terminal do cinema novo... ele morria de medo de ser desaprovado aos olhos da mão medusa, tirana que atendia pela graça do nome bíblico de Salomé e que semelhava em mais de um aspecto à mãe de Charles Enivrez-vous Baudelaire.
O temor fulminante de se constituir no Idiota da Família."
(continua)

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A Participação de Gutemberg Guarabyra na Luta Armada

A classe musical, na época da ditadura foi uma grande combatente contra o regime autoritário, através de músicas que denunciavam as mazelas e os horrores da política dos militares. Disso todos sabem, mas um músico considerado insuspeito, cujas músicas não eram alvo dos censores, e não incomodava a direita, teve uma ação bem mais direta na luta contra a ditadura, fato que só foi revelado somente há dez anos em um livro escrito sobre a era dos festivais, no auge da ditadura militar. 
Numa matéria do jornal O Globo de 15 de junho de 2003 o fato é comentado, num texto de Hugo Sukman:
"Que Chico, Caetano, Vandré, Gil e a turma dos anos 60 foram símbolos na classe artística da luta contra a ditadura até as paredes do Dops sabiam. Mas que Gutemberg  Guarabyra - o cabeludo inventor do rock rural ao lado de Luiz Carlos Sá e Zé Rodrix - foi o secreto protagonista de uma das aventuras mais eletrizantes dessa luta, isso foi revelado pelo recém-lançado 'A era dos festivais - Uma parábola'. O livro, do musicólogo Zuza Homem de Mello, revela que o compositor da doce 'Margarida' - canção romântica inspirada em cantigas de roda, vencedora do Festival Internacional da Canção de 1967 - foi o idealizador do célebre movimento que, em 1971, quase detonou o festival ao promover a inscrição de canções-fantasma de grandes compositores (Tom, Chico, Marcos Valle, Edu Lobo, Sérgio Ricardo e outros) que na hora H retiraram sua participação e divulgaram um manifesto contra a censura.
Pois tal aventura subversiva - reforçada por ele ocupar na época o cargo de diretor artístico do festival - não foi novidade na vida de Guarabyra, filho de uma família de comunistas baianos.
- Desde criança estava acostumado a esconder gente no meu quarto - diz Guarabyra ao Globo.
- Cheguei a guardar armas da ALN (Aliança Libertadora Nacional, movimento liderado por Carlos Marighella) em meu apartamento em Copacabana.
Como simpatizante ativo do grupo, revela Guarabyra, ele cumpria missões como trocar o dinheiro dos roubos a banco. E fazia isso no bar da moda de Ipanema, o mítico Zepelin. Ele entrava no bar, distribuía obas e olás para frequentadores assíduos como Jaguar e o pessoal do 'Pasquim' e dirigia-se ao caixa. Pegava o saco de dinheiro, em notas miúdas, e entregava. Recebia de volta a mesma quantia, só que em notas maiores.
- Uma vez enquanto eu trocava dinheiro no Zepelin, a perícia examinava a agência do lado, de onde o dinheiro saira pouco antes - diz.
Guarabyra, entre Chico Buarque e Milton Nascimento - FIC 67
Livrar-se do dinheiro miúdo dos assaltos (ou como se dizia, expropriações) não era nada para esse frequentador, ao lado de Paulinho da Viola e Sidney Miller, das rodas de samba do Teatro Jovem (também núcleo comunista), em Botafogo. A grande aventura foi quando ele juntou a vida clandestina de militante de esquerda com a civil, do homem ligado à música. Foi em 1971, auge da repressão do governo Médici. Ele era diretor artístico do FIC e arquitetou e executou um bem-sucedido plano para burlar a censura e protestar contra a ditadura no pior momento dela.
- A censura estava cortando tudo e, o que era pior, a polícia passou a exigir da direção do festival a ficha completa, carteira de identidade registrada na Censura e todos os dados dos participantes previamente enviados para Brasília para averiguações. Além disso, as imagens do festival transmitidas pela televisão estavam sendo usadas como propaganda positiva da ditadura no exterior, uma falsa imagem de nós que éramos contra o regime - diz Guarabyra, justificando sua ideia arriscada.
Ao lado de Chico Buarque, a quem ele procurara sigilosamente e que logo aderiu à conspiração mesmo em pleno ensaio do show 'Construção', no Canecão, Guarabyra teve que levar vida dupla: de dia batendo ponto na sede do Festival, na TV Globo, e até em reuniões com a Censura e o Dops, que pressionavam o festival e a emissora sem parar, e à noite convencendo seus colegas, secretamente, a inscrever falsas músicas no Festival - Tom e Chico mandaram 'uma canção meio sombria', 'Que Horas São?', que nunca existiu.
Antes de a Censura perceber, o manifesto foi publicado no jornal 'Última hora' e chegou às agências estrangeiras. Virou caso internacional. A ditadura se desmoralizou onde não esperava,
Guarabyra teve que enfrentar desconfianças mesmo entre os colegas. Alguns, com Torquato Neto e Ruy Guerra, consideravam-no um 'vendido' ao sistema, pois não sabiam do jogo duplo.
- A experiência me preparou para agir quieto, até ouvir ofensas sem me incomodar.
Segundo ele, valeu a pena. Já que foi publicado o manifesto dos artistas contra a ditadura, disfarçado numa carta em que se retiravam do festival: 'As razões são públicas e notórias: a exorbitância, a intransigência e a drasticidade do Serviço de Censura (...), afora exigências burocráticas inconcebíveis, tais como cadastramento e carteirinha dos participantes (...). Sem esquecer sempre a desqualificação dos que exercem uma função onde a sensibilidade e o respeito pela arte popular são prioritários'."

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Revista "O Assunto É... Drogas" (1986)

Em 1986 a Editora Três lançou uma revista bem interessante sobre drogas, de uma série chamada "O assunto é...". Trata-se de um excelente material, onde várias drogas e seus diferentes usos e efeitos são descritos. Colocadas em ordem alfabética, e com bastantes ilustrações - fotos e desenhos - as drogas mais comuns, e algumas desconhecidas, de uso restrito em certas regiões, e às vezes somente utilizadas em rituais religiosos são descritas, servindo como um ótimo material de pesquisa, principalmente na época, quando não havia tantas fontes de pesquisas, como a Web nos oferece hoje em dia.
A revista abre com um texto de apresentação, escrito por Eduardo Araia, editor da publicação:
"Você é contra ou a favor das drogas? Feita à queima-roupa, esta pergunta traz em geral reações apaixonadas - contra e a favor -  e, mais do que isso, uma boa dose de preconceitos e ignorância. À primeira vista, falar em drogas equivale a tratar de produtos tais como maconha, cocaína ou heroína, algumas das 'drogas recreativas' do mundo ocidental. O tema, porém, é bem mais vasto e complexo - e, uma vez examinado com rigor, pode trazer informações surpreendentes para os menos avisados.
Se, por exemplo, considerarmos a droga como uma substância capaz de alterar o estado físico e psíquico de seu usuário, deveremos incluir na relação a cafeína, o açúcar e o álcool - e, automaticamente, reavaliar alguns até então insuspeitos hábitos brasileiros, como o cafezinho e o aperitivo antes, durante e após as refeições. Por outro lado, existe uma diferença substancial entre os jovens que esquecem seu mundo sem perspectivas nas tragadas de seus 'baseados' e os xamãs que ingerem seus cogumelos a fim de fazer curas ou previsões para a tribo; no primeiro caso, trata-se de pessoas de certo modo marginais à sociedade em que vivem, enquanto no segundo são elementos fundamentais à estrutura de seu grupo.
Esta edição de 'O Assunto É...' vem esclarecer um público carente de informações nesta área. Com absoluta isenção e riqueza de dados científicos, ela apresenta as drogas em suas origens, os usos e os efeitos físicos e psíquicos que podem causar. Enfim, um roteiro seguro para todos os interessados neste controvertido assunto."
Um xamã boliviano buscando o transe mastigando folhas de coca
Os responsáveis pela pesquisa e texto, Roberto Navarro e Lu Gomes, também escreveram um texto introdutório:
"Muito antes do alvorecer da civilização, o homem já fazia uso de drogas, tanto para entrar em contato com divindades como para obter prazer e se divertir. Todavia, ao longo da história, as substâncias alteradoras da mente passaram a ser classificadas entre aceitáveis e condenáveis. O primeiro grupo inclui drogas como álcool, tabaco, cafeína, açúcar (só para citar algumas), que têm seu uso permitido pela lei e estimulado pelas convenções sociais, gerando lucros que transformam sua exploração em poderosas indústrias. O segundo também reúne substâncias diversas, como maconha, cocaína, heroína, LSD ou morfina, cujo tráfico enriquece o crime organizado e aumenta a corrupção. Mas tanto as drogas legais quanto as proibidas podem ser igualmente perigosas se usadas indiscriminadamente pelo usuário desinformado.
Este trabalho não é contra nem a favor de nenhuma droga, seja ela proibida ou não. Tudo que tentamos fazer foi reunir as informações mais atualizadas que existem no mundo sobre o assunto, apoiando o texto em uma ampla pesquisa bibliográfica. Acreditamos que a questão das drogas vem assumindo proporções cada vez mais importantes no Brasil e que a forma mais correta de se lidar com ela não é a repressão indiscriminada ou a louvação irresponsável, mas sim a informação e o debate sem preconceitos. 
Esperamos com isso contribuir para uma discussão séria, que leve em conta os conhecimentos disponíveis no momento sobre o tema."
De fato, a revista não levanta bandeiras ou tece opiniões sobre qualquer tipo de substância ali descrita. Ao contrário, apenas descreve suas origens e seus usos, sobre um ponto de visto histórico e esclarecedor. Diversos tipos de drogas, ilícitas ou não, conhecidas ou não, são detalhadas, como anfetaminas, cafeína, barbitúricos, daime, inalantes, LSD, maconha, mescalina, etc. Algumas bem curiosas e desconhecidas também aparecem na publicação: Dona Ana, giesteira-das-vassouras, jurema, lobélia, san pedro e ruibarbo.
Enfim, a publicação é uma excelente matéria para se pesquisar sobre o assunto, cumprindo bem seu objetivo.

domingo, 8 de setembro de 2013

Os Shows do Nirvana no Brasil - 1993

Em 1993 o Nirvana se apresentou pela primeira e única vez no Brasil, no RJ e SP, no antigo Holywood Rock. Foram shows polêmicos, pela performance caótica do vocalista da banda, Kurt Cobain, que cometeria suicídio no ano seguinte. Vi ao vivo pela TV Globo o show do Rio, com Cobain visivelmente doidão, numa performance totalmente caótica, com direito a cusparada na câmera de tv, e uma saída do palco engatinhando, quase sem condição de se locomover. Há quem achasse a performance brilhante, outros, porém, viram a apresentação da banda, considerada a melhor da época, como decepcionante, pelas condições em que o vocalista se apresentou no palco. Na edição de 04/04/04, lembrando os 10 anos da morte de Kurt Cobain, o jornal O Globo publicou uma matéria sobre o legado do Nirvana e do som e a estética grunge, que a banda ajudou a propagar. Um texto do jornalista Tom Leão, intitulado "Um ciclone que varreu Rio e São Paulo" lembrava a passagem da banda pelo país:
"Só agora o Brasil sentiu a passagem de um ciclone (ou furacão) de fato. Mas, em 1993, algo parecido passou por aqui, pelo Rio e por São Paulo. Foi o Nirvana, que veio para uma edição do Holywood Rock. E fechou a tampa em grande estilo. Fez dois shows memoráveis, diferentes, em cada cidade (caótico em São Paulo, e catártico no Rio). Era como uma uma força da natureza. Não dava pra controlar. Nem dava pra prever sua intensidade.
No Rio, Kurt Cobain e trupe (trouxeram vários agregados, inclusive Courtney Love, então Sra Cobain) ficaram alguns dias de férias, já que o show daqui foi uma semana depois do de São Paulo. Cobain e Courtney Love fizeram compras (junto com as meninas do L7 foram a lojas de artigos de umbanda; e, os dois compraram lingerie no Rio Sul), armaram barraco (brigaram, depois de jogar coisas pela janela do Hotel Intercontinental, em São Conrado, logo na chegada). E o Nirvana até compôs as bases de algumas músicas que fariam parte de seu último disco, 'In Utero', num estúdio da RCA em Copacabana.
Nos dias que antecederam o apoteótico show, Kurt Cobain (que também assinava Curt e, no Brasil, foi Kurtd) vagava pelos corredores do hotel qual um louco, descalço, com roupas esfarrapadas e olhar vago (típico de quem estava em tratamento para se livrar do vício da heroína, vivia com diarreia e chamando médicos). Junto com uma amiga de trabalho, passamos algumas horas de uma noite falando de política no quarto do baixista Chris (que depois virou Krist) Novoselic, que é de origem croata (na época rolava o conflito servo-croata na Europa), e sua namorada, Shelly. Cobain resmungava algumas coisas (não podia ser sobre música) e ficava entrando e saindo do quarto.
Mas ele mostrou a sua genialidade por trás da loucura no palco da Praça da Apoteose. Por cerca de duas horas o Nirvana (quer nome mais fora de moda?) foi a banda que iluminou a música, sintetizando quatro décadas de rock, do grito primal de Elvis até o gutural dos punks. Foi um show que praticamente pôs fim a uma era. Dali para a frente o rock iria virar um gênero cada vez mais manipulado e cooptado.
Durante o show no Rio, Cobain deu uma cusparada na câmera de TV e simulou fazer amor com a máquina. Parte dessas imagens foi transformada num clipe da música 'Breed', que foi exibido no 'Fantástico'. Em São Paulo, as imagens do show foram da produtora carioca TV Zero. E, numa hora em que Kurt quebrou a sua guitarra, um dos pedaços foi rapidamente guardado pelo videomaker Roberto Berliner. 
Kurt Cobain no show do Rio
- Filmei o Nirvana em SP, de cima do palco, ao lado do Kurt, que, entre outras coisas, quebrou a guitarra de estimação de Courtney Love, que ela tinha emprestado para ele - diz Berliner. - Eu olhei para o braço da guitarra ali no chão, na minha frente e botei dentro da calça enquanto filmava. Hoje o braço da guitarra está na parece da minha sala.
Só que o material filmado jamais foi visto.
- Quando cheguei no Rio, estava tão animado com o material que tinha feito que resolvi fazer uma sessão ,para amigos. Foi aí que descobri quer a fita com  as imagens que eu fiz sumiu misteriosamente. Foi a única fita a sumir. Ficaram apenas algumas imagens da outra câmera que não estava no palco. Nesta mesma fita tinha entrevista com eles a caminho do palco e um depoimento do Chris Novoselic.
Onde estará essa fita?

sábado, 7 de setembro de 2013

Carlos Cachaça, por Aldir Blanc (1997)

Nos anos 90 circulou uma revista chamada "Música Brasileira", em que se falava sobre a mais autêntica MPB de raiz, sempre enfocando grandes nomes de nossa música. O número 7 da revista (setembro/97) trazia na capa o grande sambista mangueirense Carlos Cachaça, na época ainda vivo, do alto dos seus 95 anos. Uma ótima matéria foi escrita sobre Carlos, inclusive com um texto de Aldir Blanc falando sobre o sambista, intitulada "Cachaça não é água, não" uma bela homenagem que reproduzo abaixo:
"A Foz do Morro parece coisa de papagaio fanho, só que é verdade. O homem é um rio, é o Rio. Ele não dá bandeira. Ele é bandeira verde e rosa.
Quem duvidar, que duvide, mas o apelido Cachaça tem a mais óbvia e ululante das explicações: um litro da danada bem mamado todo santo dia, que ninguém é de ferro; precisa, como dizia Nelson Cavaquinho, botar um óleo aí.
Pra não dizer que pegou leve, nosso herói mamou o tal litro diário, pra loucura dos médicos, quase toda a vida. Sem falso moralismo, sem pudores babacas. Carlos Cachaça não deu - e não dá - motivo pra perguntas como 'quem é você que não sabe o que diz?'
Carlos Cachaça aprendeu bebendo todas que cachaça não é água, não. O paradoxal é que a cachaça que o Carlos bebia vinha do alambique e o Cachaça, o Carlos, esse é do ribeirão, do mais puro. Mas Carlos Cachaça também não é água, pra ser procurado só na hora da sede. Carlos Cachaça é fonte de todas as nossas misturas, manancial mulato, nascedouro barrento como a nossa alma, um rio na vida de todos os que amam o samba. Um rio muito especial porque deságua no mar mestiço de nossa cultura popular sem virar cascata... Cascateiros são uns-e-outros por aí perdigotando sobre 'o incrível em meu trabalho... meu próximo projeto...'. Em entrevista à Solange Duart, publicada em 28 de julho deste ano em O Globo, Carlos Cachaça diz que 'nunca foi enredo' e explica:
Carlos Cachaça, com Nelson Cavaquinho e Cartola
- Já tentaram, mas eu nunca quis, me achava despreparado.
Esse é o Carlos Cachaça, que apanhou da polícia, bebeu, amou sua Menina, foi malandro e ferroviário, versado em alvoradas, espinhos dilacerantes, sorrisos que escondem lágrimas...
Aos 95 anos, sorri mais do que se queixa. Parceiro de Cartola e Zé da Zilda, único fundador vivo da Estação Primeira da Mangueira, o homem que nos encantou cantando o desencanto de não querer mais amar a ninguém é um apaixonado pela vida, aos 95 anos de luta, trabalho, samba, bebedeira, confusão, injustiças, mas uma vida coroada pelo carinho da filha, Inês, pelo profundo respeito de seus pares, por um grande e inesquecível amor.
Quem duvidar, que duvide. Mas é preciso ser um bocado burro pra não reconhecer a grandeza de Carlos Moreira de Castro, o Carlos Cachaça, brasileiro, bom de copo, mangueirense, compositor, com muita honra. Dele e nossa."