Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Alceu Valença: Um Forró na Feira (1976)

Alceu Valença é um pioneiro. Foi o primeiro artista a fazer a fusão do ritmo nordestino com o rock. É certo que Raul Seixas, antes dele já havia misturado Elvis com Luiz Gonzaga (Let Me Sing, Let Me Sing - 1972) e também gravado com o grupo que acompanhava Jackson do Pandeiro (As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor - 1974), mas aquela não era a base de seu som, apenas experimentos. Alceu radicalizou essa fusão. Sua postura de palco era típica de rock, e o seu som trazia as raízes musicais nordestinas em fusão com o som eletrificado do rock. Na ocasião muitos críticos tinham dificuldade em definir seu estilo. Não sabiam se era MPB ou rock. Em 1976 Alceu lançaria o disco Vivo! gravado ao vivo, e trazendo toda a energia e a eletricidade de sua presença no palco. Na ocasião ele fez um show de lançamento desse disco na Feira de São Cristóvão, tradicional ponto de encontro de nordestinos que vivem no Rio, onde se vende produtos típicos daquela região. O jornal Hit Pop fez uma matéria sobre o show:
" 'Minha música é o quê? As pessoas dizem que é rock, mas não é rock, não. Minha música é um tapa que bate no sujeito, e ele sai do tempo...' Foi exatamente o que aconteceu. Todo o pessoal nordestino, gente que transa de forró e sanfona, saiu do tempo ao ouvir Alceu Valença dando um recado na medida. E não é fácil contentar um público de sanfoneiros, cantadores, repentistas e similares, para os quais música boa é exclusivamente aquela que tem raízes.
Tudo isso pintou na feira de São Cristóvão, subúrbio carioca, na noite em que Alceu lançou seu disco Alceu Valença Vivo . É a reprodução de seu vitorioso espetáculo Vou Danado pra Catende , onde ele canta versos bonitos, como por exemplo: 'mas eu só acredito em lama, se for escorregadeira, como casca de banana, tobogã de fim de feira.' No começo, o pessoal olhava desconfiado. Afinal, era um cara de barba e cabelo comprido, a fim de se chegar num papo musical. Devagarinho, a feira de São Cristóvão foi se surpreendendo. Uns diziam: 'Esse moço tem cabelo grande, né? Mas fala umas coisas bonitas... Coincidiu!' Um velho, que apresenta um número de dança com sua cobra de nome Fedência, botou a bichinha de lado e exclamou: 'Eu não sou de ficar parado, num sabe? Aí fiquei parado, só ouvindo o moço aí.' Uma doceira, muito animada, de lenço escarlate na cabeça, pedia: 'Ah, eu só queria que tivesse todo domingo...' Com o sucesso do lançamento, Alceu se ouriçou todo. Ele até que não estava botando muita fé, pois todas as suas apresentações foram feitas em cima do pessoal de zona sul, sofisticadão: 'Quando comecei o som, fiquei com medo. Receoso do contraste. Tudo me soava meio falso. Mas, quando as pessoas foram parando, senti que ia dar certo. Tanto que as pessoas davam suas músicas pra que eu cantasse. Tudo diferente da zona sul. O lance da zona sul é as pessoas dizendo: você é lindo! Pô, e eu não sou lindo de jeito nenhum. Eu me identifico muito com o subúrbio, e comecei a achar que lá vou virar símbolo sexual.' Disso tudo, Alceu confirmou sua ideia: música boa é aquela que traz em si mesma muita energia."

domingo, 29 de abril de 2012

James Joyce - Um Escritor Genial

Se eu fosse escolher o melhor livro que já li na vida, teria muita dificuldade para indicar um em especial, mas se essa tarefa fosse obrigatória, creio que Ulysses, obra-prima de James Joyce seria o escolhido. O livro é simplesmente genial, inexplicável, tamanha é a originalidade na forma em que ele conduz a narrativa, que se passa num único dia, ao longo de mais de 900 páginas (na versão que li, traduzida por Antônio Houaiss). Ulysses teve à princípio muita dificuldade em ser publicado - várias editores recusaram a obra - mas a obra genial de Joyce, teve sua primeira edição em 1922, e daí pra frente virou história, um marco na literatura mundial, sendo inclusive eleito o melhor livro de língua inglesa do século XX. Nascido em Dublin, em 2 de fevereiro de 1882, Joyce abandonou seu país natal aos 22 anos, para nunca mais voltar. Estabeleceu residência em Zurique, na Suíça, onde escreveu sua rica obra literária. Lá viveu uma vida calma e serena, em contraste com sua obra, que sempre narra fatos espetaculares e inusitados. Segundo seu maior biógrafo, o inglês Richard Ellman, Joyce era caseiro, mais parecendo um jogador de baralho do que um gênio literário. Gostava de cantar com sua voz de barítono, apreciava piadas, e depois de alguns goles de vinho branco, que ele muito apreciava, costumava arriscar passos desajeitados de uma dança, que seus amigos mais próximos, denominavam de "dança da arara".
Em 1939 Joyce publicaria outro clássico literário, e seu livro de leitura mais difícil: Finnegans Wake. Alguns até consideram sua leitura e compreensão impossíveis. Sua linguagem é hermética e radical a ponto de ter personagens transformados em símbolos geométricos e o sentido estilhaçado em cacos de línguas diversas. Com seu humor sempre corrosivo, Joyce afirmou na época da publicação de Finnegans Wake, que havia escrito a obra para que os críticos tivessem trabalho "pelos próximos 300 anos". Joyce morreu em 13 de janeiro de 1941, em consequência de uma úlcera duodenal perfurada e peritonite aguda, em Zurique. Sua obra continua viva, reconhecida e aclamada, e sempre estudada, analisada e discutida. Coisas que só os grandes gênios conseguem.

sábado, 28 de abril de 2012

Astor Piazzolla - Reinventor do Tango Argentino

Todo inovador, aquele que propõe novos formatos, novas leituras e novos conceitos acaba pagando um tributo por sua ousadia. Mas por outro lado, as mentes mais abertas para novas propostas acabam assimilando essas evoluções. Astor Piazzola, músico argentino, é um desses exemplos, ao estabelecer um novo formato para o tango, modernizando-o, desconstruindo sua base, mas sem desrespeitar sua essência. Mesmo assim, sua música nem sempre foi bem recebida em seu país, pois o tango foi e ainda continua sendo uma enlouquecida paixão nacional, e modificar sua estrutura tradicional é para os mais conservadores quase um crime lesa-pátria. Na verdade, justamente por esse caráter de adoração e respeito, o tango não se renovava, e vivia, portanto, uma época de profunda calmaria quando Piazzolla chegou com sua proposta de inovação, dando um novo impulso ao ritmo, provocando uma divisão de opiniões. Por um lado, a ala fundamentalista do tango não aceitava aquilo que ela considerava uma heresia, as mudanças harmônicas e a nova forma de se interpretar o ritmo, e por outro lado, os músicos mais jovens se sentiam fascinados e seduzidos com as mudanças propostas.
Essa incompreensão não se limitou à sua terra natal. Lembro que em um dos antigos Festivais Internacionais da Canção (FIC), uma vez Piazzolla se apresentou como convidado, e foi vaiado por um bando de imbecis, que não sabiam nem o que estavam ouvindo. Ao contrário dos argentinos tradicionalistas, que não aceitavam mudanças, aquela parte da plateia brasileira vaiava por desconhecimento e burrice. Mas o que importa é que sua música foi reconhecida, admirada e festejada por muita gente, e Piazzolla foi um músico extremamente respeitado ao longo de toda sua carreira. Tendo passado a infância em Nova York, Piazzolla rodou o mundo recebendo as influências mais variadas. Já nos anos 50 ele misturava o bandoneón com orquestra, utilizando o violão eletrônico, reciclando assim toda a estrutura do tango e seduzindo os vanguardistas. Um disco em parceria com o saxofonista Gerry Mulligan é um exemplo dessa fusão musical proposta por Piazzolla, unindo o tango ao jazz, com muito improviso e inventividade. Libertango, Adiós Nonino e Balada para um Loco estão entre suas composições mais aclamadas e conhecidas. No Brasil, Piazzolla tinha grandes admiradores e amigos, como Vinícius de Moraes e Chico Buarque, para quem o músico argentino chegou até a enviar um tango para ele colocar letra, que nunca foi terminada. Piazzolla morreu em julho de 1992, deixando uma obra das mais ricas e respeitadas.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Raul Seixas Fala da Sociedade Alternativa

Em abril de 1975 a revista Pop trazia uma matéria sobre Raul Seixas, falando da Sociedade Altertnativa. Na época Raul vivia uma de suas melhores fases em sua carreira. Seu disco Gita teve uma vendagem fantástica, e a Sociedade Alternativa, uma utopia que sua mente criativa e inquieta, que junto a seu parceiro de então, Paulo Coelho, tentava tornar uma realidade, era uma de suas metas. Eis a matéria:
"Música , está provado, é um dos melhores veículos para a transmissão de suas ideias. Por isso, Raul Seixas transforma seus shows e discos numa espécie de pregação, onde suas bases filosóficas da Sociedade Alternativa são gritadas com veemências para o público. Nessa zoeira, frases isoladas como 'faça o que quiser, pois é tudo da lei, 'quem não tem colírio usa óculos escuros ou 'eu sou o princípio o fim e o meio' juntam-se e ganham um significado poderoso. Mas,afinal, o que é essa tal de Sociedade Alternativa de que Raul sempre fala? 'Antes de mais nada, uma atitude. É cada um ter a coragem suficiente para questionar tudo o que foi ensinado e partir para uma reavaliação de valores. É a descoberta de si mesmo - fraco, tolo, impensado por uma sociedade em decomposição. A Sociedade Alternativa vive e absorve as coisas por um espelho retrovisor.
No palco, vestindo uma camisa com passadores nos ombros e usando a guitarra como uma arma, Raul parece mais um guru do que um cantor, quando faz suas proclamações, amplificadas por dois mil watts de som. A plateia responde com asplausos, gritos, descontração e gestos de solidariedade, e assim passa a fazer parte da Sociedade Alternativa. Mas, Raul garante, o movimento não fica aí. Ele recebe centenas de cartas de jovens de todo o país pedindo orientação. Responde todas contando coisas de sua própria experiência; 'Aos 18 anos, comecei a questionar a família como instituição. Afinal, de todas as coisas que serviam para meu pai e ele me ensina, nem todas serviam para mim. quando descobri a mim mesmo, livre para pensar e agir, encontrei o verdadeiro sentido da vida.' E quando alguém lhe pergunta se o mundo não viraria um caos total quando todas aderissem à Sociedade alternativa, Raul responde com outra pergunta: 'O homem está à beira da falência moral. O mundo é uma grande fome onde a maioria não dorme e uma minoria fica acordada com medo dos que não dormem. A ganância, a maldade, a poluição, tudo, enfim, obedece às leis criadas durante séculos. O computador substitui o homem e gera o monstro do desemprego. Pergunto: pode continuar assim?'."

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Thelonius Monk - O Alto Sacerdote do Bebop

Em fevereiro deste ano se completaram 20 anos de morte de um dos grandes músicos que o jazz produziu, o pianista Thelonius Monk. Em 1992, ao se completar 10 anos de seu desaparecimento, o jornalista e crítico José Domingos Raffaelli escreveu para O Globo uma matéria sobre o grande pianista: "Há dez anos, em 17 de fevereiro de 1982, desaparecia um dos gigantes do jazz: o pianista e compositor Thelonius Monk. Apelidado de 'o alto sacerdote do bebop', foi o maior compositor e organizador do jazz após Jelly Roll Morton e Duke Elligton. Inicialmente identificado com o movimento bebop que revolucionou o jazz nos anos 40, na verdade seu estilo não se enquadra em nenhuma escola em particular. Inovador e experimentalista, virtuoso do tempo, espaço, acentuações e dos componentes básicos do jazz, sua música é uma sucessão de surpresas ritmico-melódicas totalmente imprevisíveis. Sua música demorou a ser reconhecida. Ele dizia:'não importa se o público demora 15 ou 20 anos para aceitar o que você toca, o importante é continuar tocando'. Sua persistência triunfou. Aconteceu a partir de 1955, quando foi contratado pela Riverside, e seus discos tiveram boa aceitação. Em 1957 formou um quarteto com o saxofonista John Coltrane, extasiando músicos, críticos e público. Coltrane disse: 'Para tocar com Monk, você deve estar sempre alerta. Nunca se sabe o que vai acontecer'.
Monk nasceu em Rocky Mountain, Carolina do Norte, em 10 de outubro de 1917. Sua carreira começou em Nova York, aos 20 anos. Suas raízes cobriam a tradição do jazz e do piano blues, mas as grandes influências foram Duke Ellington, Tedddy Wilson e Fats Weller. Em 1941 participou das sessões que se realizavam no Minton's Playhouse, ao lado de Dizzy Gillespie, Charlie Christian, Kenny Clarke e outros pioneiros, época em que germinava o bebop, embora o estilo não estivesse cristalizado. Gravou pela primeira vez com Coleman Hawkins, em 1944. Três anos depois grava como líder para a Blue Note, revelando sua estatura de compositor em 'In Walked Bud', 'Well You Needn't', 'Ruby My Dear' e 'Round Midnight', uma das maravilhas melódico-harmônicas deste século. Na época poucos compreendiam sua música, que soava avançada e estranha. Depois gravou para a Prestige e Riverside. No final dos anos 50 formou um quarteto com o saxofonista Charlie Rouse, que conheceria grande sucesso, tocando em festivais e concertos no exterior. Com a falência da Riverside, a Columbia não perdeu tempo e contratou Monk. A essa altura, ele era uma personalidade, e sua foto aparece na capa da revista Time.
Em 1971 fez parte do grupo Giants of Jazz, ao lado de Dizzy Gillespie, Art Blakey e Sonny Stitt. Nesse ano, em Londres, grava sua última sessão para a Black Lion, com Blakey e o baixistas Al McKibbon. Logo depois parou de tocar, recolhendo-se a um retiro voluntário. Taciturno, enigmático, solitário e alheio ao mundo exterior, passou os dois últimos anos de sua vida quase sem falar, desligado de tudo. 'Ele precisa de poucas coisas: a esposa, os filhos e a música', disse seu amigo e colaborador, o pianista Hal Overton. Thelonius Monk foi um gênio cuja música garantiu-lhe um lugar de amplo destaque o panteão do jazz.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Neil Young - Dinossauro de Pé

Neil Young é uma lenda viva do rock. Atravessa gerações fazendo o que mais gosta: compondo, criando, subindo ao palco e interagindo com novos músicos, que o veem como um ídolo. Num velho recorte de 1987 que ainda guardo, o crítico John Rockwell, do New York Times, numa matéria traduzida, fala de Young, exaltando sua capacidade de estar sempre renovado e mostrando sua arte e seu carisma no palco: "De todos os dinosauros que fazem barulho tentando aparecer na paisagem do rock, Neil Young destaca-se como o mais vivo de todos e como o menos propenso a perder sua criatividade. É possível para qualquer músico que tenha feito sucesso no passado ficar tocando velhos hits opós décadas, e até despejar novas músicas que lembram esses antigos sucessos. Os Beach Boys vêm batendo nesta tecla por mais de 20 anos, e os Rolling Stones - ainda que com suas auto-imitações brincalhonas - estão fazendo isso. Mas Neil Young é diferente, como foi conferido em seu recente show no Palladium. Ele parece rejuvenescido criativamente, e essa impressão é reforçada por uma espiada no seu próximo álbum, 'Freedom', a ser lançado ainda neste mês de outubro nos EUA, e pelo cd 'Eldorado', de cinco músicas editado no Japão, com parte desse material em cáusticas versões elétricas.
Young está também ganhando admiração de bandas novas em um grau tal, que a maioria dos músicos veteranos poderia apenas sonhar. 'The Bridge - A Tribute To Neil Young' é um disco e uma homenagem a ele, com versões de seus números musicais feitos por bandas como The Pixies, Sonic Youth e Henry Kaiser, é uma prova disso. Em 1976, Neil Young lançou um conjunto de três LPs, que podem ser encontrados em dois cds nos EUA, chamado 'Decade'. Era uma retrospectiva de sua carreira até aquela data, e serviu para confirmar a sua fama como o mais importante cantor de rock depois de Dylan. O disco trazia anotações detalhadas sobre cada música e a seleção do repertório traçava a trajetória de sua carreira do primeiro sucesso, até o seu afastamento deliberado da engrenagem pop. Em uma das mais conhecidas declarações do universo do rock, Young descreve suas opiniões sobre o sucesso do disco 'Harvest' e do compacto 'Heart Of Gold': 'Essa música me pôs na trilha do sucesso, mas logo isso se tornou entediante. As pessoas são mais interesantes'. Depois de 'Decade', Young continuou seu magnífico trabalho no final dos anos 70 com o disco de 1979, 'Rust Never Sleeps'. Embora não quisesse retomar o veio comercial de 'Harvest', o LP era cheio de instigantes composições, inspiradas na nova energia punk. Seus álbuns, nos anos 80, quiseram escapar à linguagem standard do pop. Eram mais explorações de um gênero em curiosas experimentações. O seu selo, Geffen Records, chegou a acusá-lo de não estar trabalhando para fazer álbuns viáveis comercialmente.
O fato é que Neil Young continuou vivendo sua vida enfurnado em seu rancho e estúdio no norte da Califórnia, saindo de lá apenas para turnês ocasionais e concertos informais. Esses valores incluiam uma preocupação com a família e os amigos, com problemas ecológicos e políticos. Young tem uma voz aparentemente frágil para o hard rock , mas é capaz de interpretar o rock com tom ideal para as músicas folk introspectivas, o que é familiar a uma cultura musical que preza os vocais de Fred Astaire e de Nat King Cole."

terça-feira, 24 de abril de 2012

A Explosão da Tropicália

O Brasil em vários momentos demonstrou uma tendência em produzir arte revolucionária, produzir rupturas e estabelecer novas diretrizes. Podemos citar, por exemplo, o Modernismo, na década de 20, o movimento concretista de poesia, na década de 50, e também o Tropicalismo, nos anos 60. O Tropicalismo, ou Tropicália foi oficialmente lançado em 1967, no 3º Festival de Música Popular da TV Record, quando Gilberto Gil e Caetano Veloso lançaram Domingo no Parque e Alegria, Alegria. Os dois baianos cantaram acompanhados por bandas de rock: Caetano com os Beat Boys, e Gil com os Mutantes. A presença de guitarras elétricas era uma novidade naquele tipo de evento, já que havia um forte preconceito contra qualquer tipo de música que sofresse influências do rock, o que não impediu que as duas músicas fossem classificadas, e se destacassem no festival. Em meio a guitarras distorcidas, atitudes extravagantes para a época, e letras de características inovadoras, parte da crítica conservadora da época hostilizou e minimizou o surgimento daquela nova estética. Essa reação também aconteceu por parte de muitos músicos, que se opuseram abertamente àquela novidade. Porém, o Tropicalismo ganhava força e apoio de representantes dos setores mais vanguardistas da cultura brasileira, como os poetas concretistas Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, o cineasta Glauber Rocha, o diretor de teatro José Celso Martinez Correa, o artista plástico Hélio Oiticica, além de uma parte da imprensa. Uma das versões para a denominação do movimento diz que foi ela tirada de um projeto ambiental do arquiteto e artista plástico Hélio Oiticica, na exposição "Nova Objetividade", que aconteceu no Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio de Janeiro. Mas a verdade é que a expressão foi usada mais amplamente, segundo dizem, na coluna do jornalista Nelson Motta. A estética da Tropicália abrangia várias influências, desde o movimento antropofágico derivado da Semana de Arte Moderna de 1922, a poesia concreta, além do rock e da pop art, tudo misturado e regurgitado pelo grupo tropicalista, que além de Gil e Caetano, trazia Tom Zé, Gal Costa, os Mutantes, os letristas Torquato Neto e Capinam e os maestros e arranjadores Rogério Duprat e Júlio Medaglia.
A Tropicália também cultivava o mau gosto e o kitsh, normalmente rejeitados pela cultura oficial. Caetano na época declarou que "o bom gosto aprisiona muito, tolhe a criatividade de se botar para fora o avesso disso tudo". O disco Tropicália ou Panis et Circenses, de 68, representou uma espécie de manifesto do movimento, e trazia todos os representantes do grupo tropicalista, e é um disco histórico, que sacudiu a pasmaceira nacional através da música. Outros setores das artes também se engajaram na estética tropicalista, podendo-se citar o teatro de José Celso Martinez Correa, cuja montagem da peça O Rei da Vela, de Oswald de Andrade no Tetro Oficina, é o exemplo mais marcante do teatro tropicalista. Na ocasião o poeta concretista Décio Pignatari criaria a expressão Geleia Geral, muito usada pelos tropicalistas. Porém, em um país onde reinava uma severa ditadura militar, onde qualquer manifestação revolucionária e vanguardista representava uma ameaça às instituições, os tropicalistas não eram vistos com bons olhos. Em 68, Caetano e Gil voltavam a escandalizar e desafiar a estética e o conservadorismo da MPB, ao defenderem no Festival da Record as músicas É Proibido Proibir e Questão de Ordem. Caetano criaria um grande tumulto ao responder às vaias recebidas com um discurso inflamado, tendo os Mutantes ao fundo, com um acompanhamento de guitarras distorcidas, bem ao estilo de bandas psicodélicas. Em dezembro de 68, com a criação do AI-5, que representou um atentado às liberdades criativas e qualquer manifestação de ordem política que viesse a contrariar o regime militar, Caetano e Gil foram presos e acabaram sendo forçados a se exilarem. Partiram para Londres, e o movimento se esvaziou, mas deixou profundas marcas na música e nas artes brasileiras.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Chico Fala de Tom

"Tom poderia ter ido para Hollywood fazer música para cinema. Ele se prejudicou profissionalmente porque na verdade era brasileiríssimo de almeida. Ele não queria sair do Leblon. Fazia ponto naquele lugar, onde ia para encontrar os garçons, o cara que vende bilhete da loteria, os amigos e até os chatos, que de certa forma ele cultivava também. Tom era autodesmistificador o tempo todo. Ele não ficava se levando a sério e algumas pesoas se confundiam, pensavam que podiam desrespeitar o Tom. Essas pessoas não têm consciência do limite. Se ele fosse um cabotino, talvez o respeitassem mais. Ele dava um pouco de margem para isso, não queria parecer um figurão, não queria ser colocado num pedestal. Então, ele saía com aquele chapéu de palha, com aquele chinelo, e ia para a Plataforma. ele se fantasiava de uma pessoa igual às outras." "O Tom gostava mesmo era de cerveja, mas de vez em quando tomava um licor. Tomava umas bebidas esquisitas, daquelas doces. Quando tomava uísque, acho que era para cortar um pouquinho e voltar à cerveja. Tom era cervejeiro, tinha uma capacidade de beber cerveja invejável. Uma hora ele parava, mas depois ia em frente. A bebida dele era cerveja. Ele parou de beber durante um certo tempo. Depois, bebia escondido. Ele bebia, mas não mais como naquele tempo, não é? Nós passávamos horas no Antônio's. Tom, Vinícius e eu. Uma vez a gente bateu o recorde. Chegamos ao meio-dia para aquele aperitivo antes do almoço e saímos de lá às quatro da manhã. Sem sair da mesa. Só para fazer pipi. Bebia-se muito. Tom adorava o telefone. Quando morei em Roma, ele foi fazer a trilha de um filme em Londres. Morou lá uns três meses. Era telefonema de uma em uma hora. Pelo menos. Pensa que era coisa séria? Não. Eram trocadilhos, piadas. Às vezes ele desligava e ligava de novo, só para terminar o trocadilho que tinha ficado pela metade. Ou para desenvolver a piada que eu tinha passado pra ele."
"Ele ficava satisfeito, por exemplo, ao escrever as suas partituras´para um songbook. Ia enrolando a vida inteira. Mexe daqui, mexe dali, era a mesma coisa com o processo da letra. Se não tivesse que gravar, porque uma hora tinha o deadline, ele levava a vida toda. E ia repetindo e não repetia nunca igual. As músicas ficavam prontas porque tinham que ser registradas, gravadas. Mas se deixasse passar mais uma semana, a música seria outra." "Conheci o Tom pessoalmente em 65 ou 66. Eu já tinha gravado um compacto com a música Pedro Pedreiro. Me lembro de ter ido lá e ter tocado pra ele Pedro Pedreiro, claro, emocionadíssimo. O Tom tinha essa coisa de deixar você logo à vontade e de quebrar qualquer mitologia, porque ele era autodesmistificador o tempo todo. Eu tinha 22 anos. Voltei a encontrar o Tom, conhecê-lo melhor e nós frequentávamos assiduamente a partir dessa volta dele, em 67, 68, quando nós, acho que foi em 67, fizemos a primeira parceria, Retrato em Branco e Preto. Foi um pouco o Vinícius que promoveu essa aproximação. Eu já estava um pouquinho menos tímido." "Ele gostava da parceria para depois ter um motivo para comemorar e tomar um chope junto. Aquela coisa que ele falava do piano do Radamés Gnattali: 'Vamos acabar logo com essa meleca para tomar o nosso chope'. Todas as músicas que compus, eu levava a letra e ele começava a brincar, fazia trocadilhos e às vezes atrapalhava. Não sei se foi por isso que eu deixei de fazer Wave. Ele tomava conta da música e eu não tinha mais espaço. Mas deixei algumas parcerias pelo caminho. Não foram todas as músicas do Tom que eu fiz letra. Até por achar que ele poderia fazer melhor. Tinha uma outra que foi o Bate Boca. Essa ficou até hoje na fita que está comigo. Ele cantava e já dizia praticamente a letra toda." "Quando conheci o Tom, ele já era para mim uma figura mitológica. Eu já conhecia as músicas dele, desde antes da Bossa Nova. Me lembro de ter dado de presente um disco no aniversário de Miúcha. Era Teresa da Praia. Eu não sabia que era do Tom Jobim. Conhecia músicas do Dick Farney, Lúcio Alves. A primeira música da Bossa Nova, é claro, foi Chega de Saudade, ainda em 78 rotações. Pedi dinheiro ao meu pai para comprar esse disco, porque a letra era do Vinícius, que era amigo lá de casa. E o Tom Jobim era, para mim, o parceiro do Vinícius nessa música. A parir da Bossa Nova, vem aquela história comum à minha geração toda. A paixão pelo João Gilberto e pelo Tom."

domingo, 22 de abril de 2012

The Jam - Uma Banda Mod em Plena Era Punk

O The Jam é uma banda que surgiu na Inglaterra, no auge do movimento punk, quando a maioria das bandas que apareciam seguiam o estilo dominante na época. Porém Paul Weller (voz e guitarra), Bruce Foxton (baixo) e Richard Rick Buckler (bateria) adotaram uma postura "mod", que tinha no The Who no início de carreira seu maior representante. A banda conseguiu chamar a atenção ao se apresentar constantemente em pubs ingleses, como o Marquee e o 100 Club. Logo eles lançariam pela gravadora Polydor seu primeiro disco, In The City, onde a excelente guitarra de Paul Weller se destacava. O álbum teria um bom desempenho nas vendas para uma banda estreante, alavancado pela música All Around The World, que chegou aos primeiros lugares nas paradas inglesas. Foi um excelente começo. As composições de Weller traziam mensagens sociais e anti-racistas, como Down In The Tube Station. Os álbuns All Mod Cons (1978) e Setting Sons (1979) revelavam um   amadurecimento político cada vez maior por parte  de Weller, além de trazer um som potente.
O ativismo e comprometimento político de Paul Weller fez com que ele usasse o dinheiro recebido pelos direitos autorais de suas composições, para criar uma editora especializada em publicar livros de temas políticos, em 1980. Mas mesmo com o sucesso que a banda vinha alcançando, Weller se mostrava insatisfeito com a linha musical que o The Jam estava seguindo, e tinha o desejo de trabalhar outros estilos musicais, por isso anunciou a separação definitiva da banda em 1982. O The Jam fez seu último show no dia 6 de dezembro de 82, num Wembley Arena, em Londres, completamente lotado, deixando 100.000 pessoas do lado de fora. Na ocasião Weller declarou:"Eu acho que nós já fizemos tudo o que podíamos fazer juntos. Eu quero que a gente termine com dignidade". Com o fim do The Jam, Paul Weller formaria sua nova banda, Style Council, que também alcançaria sucesso. Porém, música e ativismo político nem sempre é uma união que dá certo, e as constantes tentativas de inserir temas sociais nas letras do Style Coucil, acabaram afastando seu público, já que se vivia uma época onde a juventude não se ligava tanto nessas questões, um sinal dos tempos. O Style Council anunciaria seu fim em 1989. Mas, sem dúvida, o The Jam, a primeira banda de Paul Weller, deixou uma marca importante no panorama do rock.

sábado, 21 de abril de 2012

Jorge Amado Fala de Caymmi

"Não sei, não recordo quando e onde conheci Dorival Caymmi, quando nos apertamos as mãos pela primeira vez, rimos juntos nossa alegria. Foi, com certeza, na Bahia, antes da partida do clássico Ita, levando-nos - ao aprendiz de compositor e ao aprendiz de escritor - para tentar exercer nossos ofícios no Rio. Naquele tempo, quem quisesse um lugar ao sol tinha de começar pelo sacrifício de sair de sua terra, a terra da Bahia, onde éramos livres adolescentes nos mercados e nas praias. Só no Rio havia ambiente e oportunidade. Na praia de Itapoã, nas malícias do Rio Vermelho, nas ladeiras da cidade antiga cresceu o menino Dorival, filho de Seu Durval, modesto funcionário estadual, bom no violão e no trago. Cresceu assim o moço Caymmi, na pesca, na serenata, na festa de bairro, no samba de roda, nos terreiros de santo, vivendo cada instante de sua cidade e de sua gente, alimentando-se de sua realidade e de seu mistério, preparando-se para ser seu poeta e seu cantor. Livre coração e o desejo de criar. A música popular brasileira não era ainda assunto de gazetas, revistas e festivais. O moço baiano, no entanto, não desejava nem o título de doutor, nem o emprego público prometido, queria tão somente compor e cantar. Teve de partir para ganhar a vida difícil.
Naqueles idos de 1936 o mundo era nosso nas ruas do Rio de Janeiro, lá se vão mais de trinta anos. Uma canção que fizemos juntos naquela época, É Doce Morrer no Mar, tirada de uma cena de Mar Morto, continua popular até hoje e pode-se mesmo dizer: cada vez mais. Aliás, eis uma das características fundamentais da música de Caymmi: sua permanência, sua constante atualidade. Sendo seu tema a Bahia, sua vida, seu povo, seu drama, sua luta, seu mistério, sua poesia, seus amores, a morena de Itapoã e as rosas de abril, Iemanjá e o vento do oceano, a jangada e o saveiro, o mundo da Bahia, não há uma frase sua, uma única, de música ou poesia, que seja circunstancial, que derive da moda, de uma influência momentânea. Para Caymmi a moda não existe. Eu posso dizer, posso testemunhar como ninguém. Juntos andamos um bom bocado de caminho, juntos criamos alguma coisa, juntos começamos a envelhecer. Juntos fizemos teatro, cinema, tratamos o livro e a partitura, tocamos a vida e o amor. Amizade de toda a vida, 'meu irmão, meu irmãozinho'."

sexta-feira, 20 de abril de 2012

David Bowie - Um Camaleão Que Mudou a Cara do Rock

Em fevereiro de 1972 David Bowie apresentava ao mundo do rock um personagem que ele passou a encarnar, e causaria grande estardalhaço no show-bizz. Ziggy Stardust, um androide andrógino futurista, vestido com roupas extravagantes, com direito a botas de salto plataforma, cabelos cor de laranja, rosto maquiado e atitudes espalhafatosas no palco. Nascia ali o gliter-rock que tinha em Bowie sua principal figura. Seu álbum "The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars" trazia um rock visceral, com composições de forte impacto e uma banda com muita energia, onde se destacava a guitarra certeira de Mick Ronson. Ziggy Stardust logo seria considerado o que de mais criativo e impactante surgiu no mundo do rock naquele início de década.
Esse não seria o único personagem encarnado pelo inquieto Bowie. Após mais de um ano vivendo Ziggy pelos palcos do mundo, ele próprio anunciou em um show realizado em 3 de julho de 1973, que aquela seria a última encarnação de seu alter ego, para em seguida cantar "Rock'n Roll Suicide", uma balada que fala de desespero e solidão, como um epitáfio para Ziggy. Os personagens que Bowie criava para si (daí sua denominação de "camaleão") atraíam para si a mídia, sempre na expectativa de algo novo. Um novo personagem, Thin White Duck de "Station To Station" também causaria muita polêmica, ao fazer uma saudação nazista para o público em Londres.
Ao abandonar anos depois seus personagens, e assumir sua própria imagem, Bowie se diria aliviado, embora seu lado de ator acabasse sendo desenvolvido em personagens que encarnou no cinema, em filmes como "O Homem Que Caiu na Terra", "Furyo - Em Nome da Honra", "Fome de Viver" e "Labirinto", além de ter interpretado nos palcos teatrais o personagem Homem-Elefante. Pode-se dizer que Bowie encarnou a própria revolução no rock. Além do estilo gliter, inventou a "plastic soul" para adaptar a música negra aos ouvidos brancos, também fazendo incursões pela música eletrônica, definida numa trilogia formada pelos álbuns "Low", "Heroes" e "Lodger", que teve como parceiro Brian Eno. Já nos anos 80, Bowie alcançaria seu maior sucesso comercial, o álbum "Let's Dance", que embora não muito bem recebido pela crítica, talvez por não trazer nenhum diferencial sonoro tão habitual em sua carreira, projetou a carreira de Bowie em termos de popularidade e sucessos radiofônicos, na faixa título e "China Girl". A verdade é que David Bowie como astro do rock soube como poucos usar sua imagem, inovar e criar caminhos e vertentes, sempre com ousadia e talento.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Easy Rider - Um Retrato da Contracultura


Um dos filmes que melhor retratam o sonho e a utopia do movimento hippie e da contracultura americana é, sem dúvida, Easy Rider (Sem Destino, no Brasil,). Lançado em 1969, quando o mundo ainda acreditava no sonho hippie de paz e amor, no clima do festival de Woodstock, o filme trazia para as telas uma ideia de desilusão de toda aquela ideologia que dominava os sonhos da juventude dos anos 60.
Dirigido por Dennis Hopper, que também atuava como ator, Easy Rider conta a história de dois hippies que cruzam o país de moto, de Los Angeles ao Texas, rumo ao carnaval de Nova Orleans (Mardi Grass). Para financiar a viagem eles vendem drogas pelas cidades por onde passam.
O roteiro foi escrito por Dennis Hopper, Peter Fonda e Terry Southern, e narra as aventuras e desventuras vividas por dois motoqueiros aventureiros, interpretados por Hopper e Fonda, e revela um jovem ator, que vivia um advogado bebum com quem os dois motoqueiros acabam cruzando - Jack Nicholson.

Os personagens de Fonda (Wyatt "Capitão América") e Hopper (Billy), dois hippies que buscam a liberdade pelas estradas, e com suas motos vivem a utopia de uma vida liberta dos padrões sociais de comportamento, acabam presos no Texas por perturbarem a ordem. Conseguem a liberdade graças aos serviços do advogado beberrão interpretado magistralmente por Jack Nicholson, que foi indicado ao Oscar de ator coadjuvante.
Outro ponto alto de Sem Destino é a excelente trilha sonora, que traz o melhor do rock da época: The Byrds, The Jimi Hendrix Experience, Steppenwolf e The Eletric Prunes. O filme retrata o fim do sonho da contracultura, por mostrar uma sociedade americana conservadora, onde os hippies eram tratados como marginais e corruptores, e todos aqueles ideais por eles propagados passam a ser questionados, ao não conseguirem ser postos em prática. O fim trágico dos dois personagens principais, vítimas dessa intolerância, é como um atestado antecipado do fim do sonho, propagado por John Lennon um ano depois.
A ideia do filme, segundo Peter Fonda, veio através de uma fotografia que o chamou a atenção: "Eu me lembro do dia em que apareci com a ideia para Easy Rider, 27 de setembro de 1967. Estava olhando uma fotografia minha e Bruce Dern em frente a uma motocicleta. Nós parecíamos grandes, numa imagem 18x24, em contra-luz, de forma que ninguém poderia dizer que éramos nós. E isso me deu um estalo, para fazer esse filme." Fonda procurou então seu amigo Dennis Hopper e lhe detalhou seu projeto para um filme, onde dois jovens num clima totalmente 'on the road' saíssem em busca de uma liberdade total sobre duas rodas, e sugeriu que o próprio Hopper dirigisse o filme, que seria sua estreia como diretor. Inscrito no Festival de Cannes, o filme daria a Hopper o prêmio de melhor filme de um diretor estreante.
Por tudo que representou, Easy Rider, se tornou um marco do cinema, um filme que retrata o sonho, a liberdade e a desilusão de uma década que terminava naquele ano de 69.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Milton Nascimento Lança e Comenta Clube da Esquina 2 - 1978


Há quarenta anos era lançado no Brasil um disco histórico, que virou referência para muitos músicos e apreciadores: O Clube da Esquina, de Milton Nascimento, com participação de Lô Borges. Seis anos depois, Milton cometeu uma pequena ousadia, que era lançar outro disco com o mesmo nome, como uma continuação de uma obra intocável e definitiva. Clube da Esquina 2, também duplo, também representa muito bem a magia de uma música que brotava da alma, trazendo verdadeiras pérolas do repertório de Milton, que igualmente ao primeiro volume, deixaria verdadeiros clássicos para nossa música. Maria, Maria é um exemplo.
Na ocasião, a jornalista Ana Maria Bahiana fazia uma matéria falando do lançamento, e o próprio Milton comentava algumas das músicas do álbum:
"Há seis anos, Milton Nascimento lançava um projeto ambicioso: Seu primeiro álbum duplo, 'Clube da Esquina'. A época não era das melhores, em todos os sentidos. Na música popular, uma grande retração de público prolongava o hiato de começo de década. Por três anos, um time considerável de estrelas, Caetano, Gil, Chico - estivera fora de ação, e seu contato com as plateias - novas? mais jovens? marcadas por quais experiências? com quais expectativas? - era retomado com cautelas, pequenos passos. Tudo se movia numa espécie de quase silêncio, um acordar demorado depois de um sono doloroso. E Milton Nascimento era pouco mais que uma figura cultuada por pequenos grupos, um nome sussurrado à boca pequena. Vinha de um show forte, mas ainda obscuro, no Teatro Opinião do Rio, onde cantava pela primeirta vez em pé, de peito nu, e acompanhado por um grupo desconhecido: o Som Imaginário (Wagner Tiso, Luis Alves, Robertinho, Tavito, Zé Rodrix, Naná). Sua vida e sua carreira não eram das mais fáceis: poucas vendas, pouco reconhecimento, pouco dinheiro, problemas pessoais. Mas ele cantava: 'Eu já estou com o pé nessa estrada/ e caminho em qualquer direção/sei que nada será como antes/amanhã'. Na capa, dois meninos - um branco, um preto - atestavam sua fé no futuro, a esperança."
Num boxe na matéria, Milton comentava sobre algumas das músicas que faziam parte do Clube 2:

Credo (Milton Nascimento/Fernando Brant): "Quis começar o disco com ela porque é de um otimismo incrível, essa letra do Brant. Aí, como tem esse negócio de 'tenha fé no nosso povo', eu quis pôr um coro de gente cantando, mas não um coral, gente mesmo cantando, o povo. E foi 'San Vicente' que a gente escolheu pro povo cantar, porque essa foi a primeira música minha que eu ouvi uma plateia inteira cantar. E até hoje é a que mais cantam - fora Travessia, é claro - em todos os shows, como um hino".
Nascente (Flávio Venturini/Murilo Antunes): "Desde que ouvi essa música no Lp do Beto Guedes, fiquei indócil para gravar. É linda. Importante, nesta faixa, é a presença da voz do autor, do Flavinho, cantando pela primeira vez, junto comigo."
Olho D'Água (Paulo Jobim/Ronaldo Bastos): "Essa é a 'Valsa', que o Tom gravou naquele disco, 'Urubu', com letra do Ronaldo. É uma coisa muito séria, essa música. Esses nomes todos que estão na letra têm os personagens da 'Suíte dos Pescadores', do Caymmi (Pedro, Chico), tem a mulher e o filho do Paulinho (Lena, Pipo), tem meu pai, minha mãe, meu filho (Zino, Lília, Pablo)."
O Que Foi Feito de Vera (Milton/Fernando Brant/Márcio Borges): "Essa música foi incrível. Eu fiz a música primeiro e mandei pro Fernando e pro Márcio, sem dizer pra cada um que tinha mandado pro outro. Primeiro chegou a letra do Fernando, que foi a que o Gonzaguinha gravou - por isso fiz questão da voz dele. Eu li, fiquei doido - uma era exatamente a continuação da outra, quase como se fosse uma letra só. Mostrei pra ele, ele ficou maluco também. Aí, eu gravei as duas. A participação da Elis é muito importante nessa faixa. Foi ela quem primeiro gravou 'Vera Cruz', que é a base dessa música - e Vera Cruz foi o primeiro nome que o Brasil teve, uma coisa muito forte. Além disso, tem toda a lembrança da Elis gravando pela primeira vez uma música minha, a Canção do Sal."

Canção Amiga (Milton Nascimento/Carlos Drummond de Andrade): "Essa é o começo de minha parceria com o Drummond. Foi um amigo comum de nós dois que fez a ligação, parece que ele estava querendo há tempos fazer letra de música comigo...Ih, não diga isso desse jeito que vai ficar esquisito, mas foi assim mesmo que aconteceu. Ele me mandou um livro, com as indicações de quais poemas ele gostaria que eu musicasse e eu escolhi esse, que tem um verso, que pra mim, é a definição de toda a minha proposta de trabalho.: 'Eu preparo uma canção/que faça acordar os homens/e adormecer as crianças'. Aí eu combinei com ele de mandar uma música, numa fita, pra ele botar a letra. Ele ficou maluco, disse que não fazia de jeito nenhum, que não sabia fazer. Mas eu vou mandar, mesmo. Ele pode ficar esperando."
Testamento(Milton/Nelson Angelo): "O Nelson me apareceu com essa música pra eu pôr letra, e queria que se chamasse A Tribo. Por uma dessas coincidências loucas, eu estava escrevendo umas coisas sobre a morte de um amigo meu, uma pessoa incrível que convivia com os índios - inclusive foi através da família dele que eu pude conhecer o pessoal de lá, os índios. O funeral dele foi como está na letra: numa reserva de índios; jogaram parte das cinzas no mato, parte na água do rio - aí os índios ficaram remando em volta, até formar um círculo e as cinzas desaparecerem na corrente, aí eles choraram - e parte foi enterrada no centro da aldeia, junto com documentos pessoais dele e esta letra também. Daqui há vinte anos, segundo os rituais deles, vai ser desenterrado."
Leo (Milton/Chico Buarque); "O Chico e eu temos um longo trabalho pra fazer. Isso está combinado há tempos, e primeiro ia ser uma peça de teatro, junto com o Guarnieri, depois parece que essa peça foi esquecida ou não deu, não sei. De qualquer maneira, vamos trabalhar muito, juntos. Essa música é parte desse trabalho. Eu acho que a gente só compõe quando está impressionado por alguma coisa, e, nesse caso, era a história de uma afilhado meu, o Léo, que é uma história muito comprida, que eu conto depois. Uma história incrível. Quis fazer essa música de presente pra ele: coloquei no arranjo coisas que lembram a época em que ele foi batizado, e quis fazer a música com o Chico porque ele é um fã do Chico."

terça-feira, 17 de abril de 2012

O Apanhador no Campo de Centeio - J.D. Salinger: Obra-Prima Literária

É interessante como ler determinados livros nos leva a uma sensação de estarmos vivendo momentos especiais diante de uma obra-prima literária. A força do texto nos envolve, nos leva a raciocinar, ficarmos analisando cada linha que lemos ao interrompermos a leitura, para depois retomá-la. Já senti várias vezes essa sensação, com diferentes obras e autores. Uma dessas leituras que me arrebataram foi um livro que já ouvia falar há muito tempo, mas nunca havia tido a oportunidade de ler: O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger. O livro foi relançado no Brasil há alguns anos, por uma nova editora, chamada Best-Seller, cujo primeiro lançamento foi justamente o livro de Salinger, e segundo ouvi dizer, a editora foi criada para lançar a obra, que estava fora de catálogo no Brasil.
O personagem principal é um adolescente, Holden Caulfield, que é o narrador da história. Lançado em 1951, o livro rapidamente se torna um clássico, e muitos adolescentes se identificam ou se inspiram no personagem, que acaba se tornando um ícone entre os jovens de então. Levando-se em conta que o livro foi lançado na era pré-rock'n roll (quando surgiram os primeiros ídolos da juventude pós-guerra) pode-se dizer que o personagem principal do livro é um dos precursores do que anos mais tarde seria denominado de "rebelde sem causa". Segundo contam alguns biógrafos, um certo adolescente chamado Robert Zimmerman, que mais tarde seria conhecido mundialmente como Bob Dylan, fugiu de casa várias vezes inspirado no personagem Holden Caulfield.
Caulfield não chega exatamente a ser um delinquente juvenil, que o cinema americano retrataria tão bem em filmes como Sementes de Violência ou O Selvagem, e revelaria ídolos de adolescentes, como James Dean e Marlon Brando, mas na verdade o personagem do livro carregava uma rebeldia e uma personalidade forte e marcante.
Expulso da escola por mau comportamento, e vivendo o dilema entre voltar pra casa ou experimentar o desejo da liberdade e viver aventuras, Caulfield resolve passar dois dias em Nova York. Introspectivo, imaturo para o sexo, mas com um desejo incontrolável de conhecer o mundo, seus perigos e tentações, o personagem narra ao longo do livro suas experiências na grande metrópole que é Nova York. As reflexões através dos monólogos ao longo da narrativa reflete seu desequilíbrio emocional, a perda da inocência e o desejo de desafiar o mundo dos adultos, "todos um bando de enganadores desgraçados".
J.D Salinger
Salinger no texto do livro traça um perfil da adolescência de modo vivo, cruel, enternecedor, poético, etc. Em certo momento, Cautfield diz que queria ser surdo-mudo, pois "desse modo não precisava ter nenhuma conversa imbecil e inútil com ninguém". Na verdade essa frase reflete o pensamento do próprio autor do livro. Dois anos após a publicação de O Apanhador no Campo de Centeio, Salinger, que se tornara um escritor famoso pelo sucesso de seu livro, renuncia à fama, a glória e à vida agitada de Nova York para se recolher numa casa isolada no topo de uma montanha no estado americano de New Hampshire. Nesse isolamento voluntário continuou escrevendo, chegando a publicar mais três livros: uma coletânea de contos chamada "Nove Histórias" e duas novelas: "Franny e Zoey" e "Para Cima com a Viga, Moçada & Seymour, Uma Introdução". Sua curta produção literária se encerra no ano de 1963, e Salinger continuou completamente isolado do mundo, evitando qualquer aproximação com admiradores, estranhos ou curiosos. Morreu aos 91 anos, em janeiro de 2010, deixando pelo menos uma verdadeira obra-prima, um livro clássico na história da literatura mundial: O Apanhador no Campo de Centeio.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

A Invenção do Disco de Vinil - 1948


No ano de 1948 aconteceu um grande avanço na história das gravações musicais. Surgiam os primeiros discos de longa duração - long plays. A primeira gravadora a lançar discos nesse formato foi a Columbia Records.
Até então as gravações fonográficas eram registradas em discos de cera, que giravam a 78 rotações por minuto, e somente registravam uma música de cada lado, com quatro minutos em média. Os Lps podiam trazer 25 minutos de música em cada lado, ou seja, seis músicas em média, além de um som mais limpo.
O inventor do disco de vinil foi o americano Peter Goldmark (que aparece na foto que ilustra essa postagem), que segundo dizem, serviu na Segunda Guerra Mundial, e ao dar baixa, ainda ecoavam em seus ouvidos os chiados dos discos de 78 rpm, que seus companheiros de trincheira ouviam sem parar nos momentos de descanso. Para quem, na era do som digital, reclama dos chiados dos velhos Lps, não sabe o que eram os ruídos dos antigos discos de cera. Goldmark levou cerca de três anos pesquisando, até apresentar à Columbia a grande novidade que desenvolvera, e iria revolucionar o mercado fonográfico.
Não existe, infelizmente, nenhum registro histórico de um primeiro Lp. O que se conta é que rapidamente o mercado americano foi invadido pela novidade, que permitia se ouvir quase uma hora de música.
As pesquisas para o aprimoramento da qualidade das gravações continuariam, e logo o som estereofônico surgiria, eliminando de vez as interferências características dos antigos 78 rpm. "Isto É Som Estereofônico" era o título da gravação que em 1957 apresentava essa novidade ao público consumidor de música no Brasil, que desde 1951 já conhecia o formato em vinil. Esse disco, talvez o pioneiro do som stéreo no Brasil era uma miscelânea de gravações variadas, que incluía o comediante Oscarito cantando marchinhas de carnaval e o conjunto vocal de Bossa Nova Os Cariocas.

A rotação de 33rpm ganharia em 1949, através da gravadora RCA, uma segunda alternativa, de duração menor - os 45 rpm. Nascia ali, o que hoje se chama de singles, muito usados para promover e alavancar a venda dos Lps. Eram os chamados compactos.
As gravações estereofônicas em vinil permitiram um grande avanço na área da engenharia de som, fazendo com que a qualidade de som das gravações em vinil experimentassem um grande avanço. Um bom disco de vinil bem conservado, reproduzido numa boa aparelhagem não fica nada a dever a uma gravação em cd, e muitas vezes supera em qualidade aquele formato. A verdade é que por quase 40 anos os Lps de vinil reinaram absolutos, até o surgimento das primeiras gravações em cd, que demoraram um pouco a emplacar no mercado, devido aos altos custos dos discos e aparelhos para reprodução. Só a partir dos anos 90 as gravações em cd passaram a dominar o mercado e ir ganhando espaço nas lojas especializadas, até os discos de vinil deixarem de ser fabricados e distribuídos.
Porém, o Lp nunca deixou de ser objeto de culto e adoração por muitos antigos e também novos audiófilos, e hoje os discos de vinil voltam a ser fabricados, e muitos artistas fazem questão de lançar seus discos também em vinil. Muitos relançamentos em vinil também são colocados no mercado, o que prova que aquela invenção de Peter Goldmark não perdeu seu encantamento.

domingo, 15 de abril de 2012

Boatos Que Deveriam Ser Fatos


Como surgem os boatos? Como eles se propagam? É difícil ter uma resposta. A verdade é que certos boatos são tão bem elaborados que acabam virando histórias oficiais, e até difíceis de serem desmentidos. A verdade é que algumas vezes até dá pena de se desmentir, de tão interessantes que são.
Um desses boatos, dentre milhares que se espalharam em torno do mundo do rock, diz respeito aos Beatles, quando em 1965 receberam do Império Britânico uma medalha de honra, uma condecoração normalmente oferecida aos grandes heróis militares. Desde que li essa notícia pela primeira vez, foi contado que os quatro músicos fumaram um baseado em um banheiro do palácio. Durante anos essa história foi contada e recontada, com riqueza de detalhes, mas depois desmentida, se não me engano, por George Harrison. Mas que dá pena saber que foi apenas um boato, isso dá. Seria mais uma das muitas histórias irreverentes e inusitadas envolvendo os quatro Beatles.
Para se ter uma ideia de como esse boato se alastrou, e era dado como fato, transcrevo uma descrição da notícia dessa condecoração, publicada em O Globo, ao lembrar alguns fatos ocorridos no mundo em 1965:
"O sonho estava começando quando o primeiro-ministro inglês, o trabalhista Harold Wilson, sugeriu a inclusão dos nomes dos Beatles na Lista de Honra do Aniversário de Sua Majestade, a rainha Elizabeth II, anunciada no dia 15 de junho de 1965. Não eram heróis militares, mas tinham conseguido conquistar para a Grã-Bretanha o coração de quase todos os jovens do mundo ocidental, que naquele momento olhavam para Londres com o fervor com que os muçulmanos se voltam para Meca, fazendo dela a capital da milionária indústria dos ícones pop.
É verdade que pelo menos nove Membros do Império Britânico não viam bravura alguma naqueles quatro jovens cabeludos e, indignados com a outorga dessa honraria aos Beatles, devolveram para o Palácio de Buckingham a flor-de-lis cinza e rosa que a rainha lhes havia pregado no peito. No entanto, calcula-se que, no dia 26 de outubro do mesmo ano, pelo menos três quartos dos jovens de Londres se espremeram em volta do palácio e cantaram entusiasmados 'Deus salve os Beatles', no lugar do tradicional 'Deus salve a rainha'.
Além de famosos, eles eram jovens e informais, capazes de ignorar as tradições da monarquia inglesa. E começaram a quebrar o protocolo no momento mesmo em que desceram do Rolls Royce que os conduziu ao palácio, sem casaca nem chapéu - 'Como poderíamos pôr todo o cabelo dentro de um chapéu?', brincaram. Do lado de fora, a Banda da Guarda Escocesa também foi obrigada a fugir do cerimonial, tocando as músicas dos Beatles para acalmar a multidão que se aglomerava junto às grades do palácio. Toda essa espontaneidade, no entanto, começou a se tornar extravagância quando os Beatles se trancaram em um dos banheiros do palácio para fumar maconha, tentando expelir a fumaça por uma janela. O problema teria sido ainda maior se o príncipe herdeiro Charles, que na época tinha 16 anos e era fã do grupo, tivesse comparecido à cerimônia. John trazia na meia um baseado com o objetivo de fumá-lo com o garoto.
Cinco anos depois, Lennon, que odiara a ideia de se tornar Membro do Império Britânico e só aceitara a honraria devido às pressões do empresário do grupo, Brian Epstein, devolveu a insígnia juntamente com uma carta na qual protestava contra o envolvimento da Inglaterra no conflito entre Nigéria e Biafra e o apoio aos EUA na guerra do Vietnã."

sábado, 14 de abril de 2012

John & Yoko e o Projeto-Desejo


"Nos últimos dez anos notamos que tudo aquilo que desejamos acabou acontecendo, na sua hora, bom ou ruim, de um jeito ou de outro. Continuamos nos dizendo um ao outro que um dia desses nós iríamos nos organizar para desejar apenas coisas boas. Aí nosso bebê nasceu. Ficamos 'overjoyed' (intraduzível, próximo de overdose-de-alegria) e ao mesmo tempo nos sentimos profundamente responsáveis. Nossos desejos iriam afetar também ele (grifo do original). Pensamos que era tempo de parar de discutir e fazer alguma coisa pelo nosso projeto-desejo, iniciar-se o processo: a spring cleaning de nossas mentes! (exclamação no original) foi uma mão-de-obra. Continuamos procurando coisas embutidas nos armários de nossas mentes sem pensarmos que elas ainda poderiam estar ali, coisas que desejamos que não tivéssemos encontrado.
Quando fizemos esta limpeza (spring cleaning) começamos a notar muitas coisas erradas em nossa casa: uma coisa que nunca poderia estar ali, um quadro que não estávamos gostando mais, e havia dois quartos soturnos, que se tornaram claros e arejados quando quebramos a parede entre eles. (Nota do tradutor: Certamente trata-se de parábola sobre a livre convivência). Começamos a gostar das plantas, a gostar da pulsação barulhenta da cidade, que sempre nos perturbou.
Fizemos vários equívocos e ainda vacilamos. Em outros tempos gastamos muita energia tentando conseguir alguma coisa que pensávamos querer, pensando porque não conseguíamos, apenas para descobrir que um de nós ou os dois realmente não queriam aquilo. Um dia nós recebemos um monte de chocolate de gente do mundo inteiro. 'Ei, o que é que há? Nós não estamos comendo açúcar, estamos? Quem está desejando isso?' Gargalhamos, os dois. Descobrimos que quando nós dois, dois de nós, desejam em uníssono, acontece mais depressa. Como diz 'o Livro': quando se juntam - é verdade. Dois é suficiente. A newclear seed (nota do tradutor: Inteligência intraduzível. Algo ligado a uma semente nova e clara, purificada, oposta - trocadilhescamente - a nuclear, em absoluta oposição. No nukes, novos núcleos. De dois átomos humanos).

Ainda temos um longo caminho à frente. Parece que que quando estamos na de 'Limpeza', mais depressa os desejos e presentes acontecem. A casa está ficando muito confortável agora. Sean é lindo. As plantas estão crescendo. Os gatos ronronando. A cidade brilha em sol, chuva ou neve. Moramos em um belo universo. Somos gratos a cada dia pela abundância de nossa vida. Isso não é um eufemismo. Entendemos que nós, a cidade, o país, a Terra, estamos encarando tempos muito duros, e há um pânico no ar. Mas o sol continua a brilhar, e nós estamos juntos. E há amor entre nós, nossa cidade, o país, a Terra. Se duas pessoas como nós podem fazer o que estamos fazendo com nossas vidas, qualquer milagre é possível.

Muita gente nos está mandando vibrações todos os dias em cartas, telegramas, bilhetes no portão, fitas. Ou apenas flores e bons pensamentos. Agradecemos a todos e mais ainda por respeitarem nosso espaço silencioso, do qual precisamos. Muito obrigado por todo o amor que nos mandam, nós sentimos isso todos os dias. Nós amamos vocês também. Sabemos que se preocupam conosco, e isso é bonito. Esperamos que vocês tenham o mesmo espaço silencioso em suas mentes para fazer seus próprios desejos se realizarem.
Na próxima vez que pensar em nós, lembre, o nosso silêncio é um silêncio de amor, não de indiferença. Lembre-se que estamos escrevendo no céu, em vez de no papel.
Com os olhos abertos, olhem para o céu. É a nossa mensagem. Abra seus olhos de novo. e olhem à sua volta, vocês vão ver que estão andando no céu, muito mais que no chão. Não se esqueçam: nós amamos vocês." John e Yoko, 27 de maio de 1979, New York City. (Tradução de Nelson Motta)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Psicodelismo - Pelos Labirintos da Nova Consciência


Ainda nos anos 50, aconteceram as primeiras experiências com drogas alucinógenas, que ganhariam uma grande difusão na década seguinte. Essa prática, apesar de já bastante difundida nos Estados Unidos, ainda era algo novo e difícil de lidar para as autoridades, e o LSD era vendido livremente nas ruas. Somente por volta de 1965 veio a proibição oficial do consumo do ácido lisérgico, mas mesmo assim a prática não foi coibida no meio da juventude americana. O professor universitário Timothy Leary costumava fazer experiências com o uso do LSD-25 entre seus alunos, e o que não faltavam eram voluntários para seus estudos. O escritor Tom Wolfe na época escreveria o livro "The Eletric Kool-Aid Acid Test", contando suas experiências com testes que fazia com o uso de LSD, numa caravana que percorria os Estados Unidos, de costa a costa, em um ônibus repleto de malucões.
A cidade de São Francisco, na Califórnia, berço e meca do movimento hippie, era onde o psicodelismo e a contracultura se desenvolviam mais livremente. Várias bandas de rock, inspiradas pelo clima, passaram a desenvolver uma música com muita distorção e efeitos sonoros, além de explorar ao máximo um visual de muitas cores em efeitos de imagens ideais para se acompanhar sob o efeito do ácido. Nascia ali o que ficaria conhecido com acid-rock.

A banda americana The Byrds é considerada pioneira nesse estilo, ao compor "Eight Miles High", abrindo caminho para que os Beach Boys também se enveredassem por essa vertente com "Good Vibrations", e Bob Dylan com "Everybody Must Get Stoned". Os Beatles também produziram acid-rock, e embarcaram nos chamados "paraísos artificiais", ao comporem músicas como "Lucy in The Sky With Diamonds", que muitos julgavam ser uma ode ao LSD, pelas iniciais das  palavras do título da música, embora Lennon tenha afirmado diversas vezes que o título foi inspirado em um desenho feito por seu filho Julian. Outras bandas inglesas também compuseram música psicodélica, como os Rolling Stones, The Kinks e o The Who.
Começaram então a surgir novas bandas cujo estilo era totalmente influenciado pelo acid-rock, podendo-se destacar The Velvet Underground, The Doors, The Grateful Dead, Jefferson Airplane, Cream, The Jimi Hendrix Experience e Pink Floyd. Cada qual a seu estilo empreendia sua viagem de sons e efeitos viajantes.

A atmosfera de paz e amor e o uso de drogas alucinógenas desencadeada pelo movimento hippie ajudavam a criar o ambiente mais favorável para um tipo de shows com solos intermináveis, efeitos de som e visuais para mentes "chapadas" e letras quase incompreensíveis. Mas a música que se fazia era criativa, e trazia uma energia que levava a longas viagens pelos labirintos da mente.
Foi um período em que a juventude experimentou uma espécie de euforia sintética imersa em paraísos artificiais, embalada por sons que representavam uma vertente nova e experimental do rock, uma espécie de liberdade que se conheceu, se viveu, e se experimentou, até sem saber que foi algo revolucionário para a humanidade, e acima de tudo se foi feliz, como o mundo deveria ser para sempre.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Vinícius Fala de Baden


Uma das parcerias mais perfeitas da música brasileira foi sem dúvida Vinícius de Moraes e Baden Powell. As melodias inspiradas, conduzidas pelas harmonias que surgiam de um dos melhores vilonistas do mundo, se casavam perfeitamente com os versos inspirados do grande poeta, em noites regadas a muito uísque e histórias intermináveis, numa época de desenfreada boemia. Dessa parceria nasceram sambas antológicos, e um disco histórico, os Afro-Sambas. Abaixo, um depoimento de Vinícius sobre o parceiro:
"De Baden, quando o conheci em começos de 1962, tudo o que sabia é que era autor, com Billy Blanco, de um belo samba que andava correndo à boca pequena entre o pessoal de música: Samba Triste. Lembro-me dessa noite como se fosse hoje: eu tinha ido assistir ao show de meu parceiro Antônio Carlos Jobim na boate Arpege - historicamente seu primeiro - e, quando o conjunto retomou as danças, vi, alguém se aproximar dos músicos e dentro em pouco a sala se enchia de sons de improviso de jazz em guitarra elétrica. Era Baden, e ele estava com a cachorra, fazendo misérias no instrumento. Fiquei ouvindo, maravilhado, lembrando-me dos grandes guitarristas de jazz que conheci nos Estados Unidos e achando que Baden era páreo para qualquer um deles. Depois, fomos apresentados.
- Eu estava tocando pra você - disse-me ele - Tenho aí umas coisinhas em que gostaria que você pusesse letra, caso você tope.

Nessa mesma noite, nos fundos da boate já vazia, mostrou-me dois ou três temas em que eu vidrei de saída. Dei-lhe meu telefone e endereço. E a partir daí o menino de Varre-e-Sai não saiu mais do apartamento onde eu morava, no Parque Guinle. Duvido que haja na MPB uma parceria que tenha feito tanto em tão pouco tempo. Meu repertório com Baden alcança por aí umas cinquenta músicas. Pois bem: seguramente a metade foi feita nessa época, num período não superior a três meses. Compúnhamos com muito uísque na cuca - mesmo porque quem é que ia pensar em comer? 'Bom Dia, Amigo', 'Samba em Prelúdio', 'Só Por Amor', 'Consolação' e os primeiros afro-sambas datam desse período de criação a bem dizer, incoercível: 'Canto do Caboclo Pedra Preta', 'Canto de Iemanjá' e 'Berimbau'. E duas belas valsas que muito amo: 'Além do Amor' e 'Valsa sem Nome'. Esta, para mim, inexcedível em nossa parceria.

Mas, mesmo no período dos afro-sambas, não deixamos de compor outros sambas e canções, ao azar de nossa vida e nossa viagens a São Paulo, onde nos apresentávamos com frequência em programas de tevê de Elis Regina. São Paulo, diga-se de passagem, nos dá um sorte bárbara. Nos Apartamentos Excelsior, onde nos hospedávamos sempre, nasceram 'Canto de Ossanha', 'Deixa', 'História Antiga', 'Apelo', entre os principais.
Nossa vida em Paris durante 1963/64 foi também farta de canções. Além das feitas para a Ópera do Nordeste, uma tragédia minha que um dia pretendo encenar, com música de Baden, o Natal de 1963 nos deu, na mesma noite, 'Formosa', feita especialmente para distrair os convidados à ceia que eu dava, e 'Velho Amigo', cantiga em lembrança do pai de Baden, que morrera no Natal anterior, e que evitamos cantar pelas recordações doídas que nos traz. A choradeira foi geral. E, pouco antes de meu regresso, em 1964, Baden deixou-me um tema lindo, sobre o qual escrevi 'Tempo Feliz', samba que dá um belo recado."

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Pink Floyd - A Viagem Continua


Existem bandas que estão marcadas para a eternidade, e o Pink Floyd é uma delas. A recente excursão de Roger Waters pelo Brasil prova isso. Na verdade, quem foi ver Waters foi de uma certa forma, para ver um pouco que seja da banda que marcou sua vida em algum momento. Mesmo aqueles que não são muito fãs do rock progressivo têm no Floyd alguma lembrança especial.
Em meu primeiro contato com a música do Pink Floyd, houve de mim um certo estranhamento, confesso que até um pequeno desconforto, por aquilo ser diferente de tudo (pouco ainda) que conhecia de rock. Depois meus ouvidos, mais domesticados, passaram a dar uma atenção especial àquela música etérea, carregada de vibrações estranhas, mas belas, uma coisa diferente. Em 30/08/87, o jornalista Tom Leão, em sua coluna Rio Fanzine no jornal O Globo, escrevia sobre o Pink Floyd, numa matéria intitulada "A Viagem Continua":
"Oficialmente o Pink Floyd não está extinto, mas há muito tempo que ele deixou de ser um grupo, passando para a condição de veículo no qual Roger Waters difunde suas loucas e criativas ideias e expõe seus traumas de infância. O Pink Floyd transformou-se num mito, daqueles que se respeita só de ouvir o nome, mas do conceito original pouco restou, e hoje ele é apenas uma boa lembrança. Aproveitando várias deixas, entre as quais o lançamento do novo trabalho solo de Waters, 'Radio K.A.O.S' e o anunciado show que o Floyd fará em outubro no Madison Square Garden, em Nova York, aqui vai um pouco deste mito do rock, que superou os rótulos de psicodélico e progressivo.

Quando o grupo inglês Pink Floyd debutou em 1967 com 'Pipers At The Gates Of Dawn', estavam abertas as portas da percepção no rock. Até então, nenhum disco havia captado com tal sensibilidade os efeitos de uma viagem lisérgica em vinil e até hoje ele continua imbatível. A fase délica do Floyd deveu muito a Syd Barret, que não segurou a onda com os ácidos e transformou-se num vegetal. Nenhum grupo apresentava shows tão visuais e surpreendentes.
Após o afastamento de Barret, que junto com Waters era o núcleo pensante do grupo, novos rumos foram tomados e, em poucos anos, o Pink Floyd passou de banda psicodélica para um dos expoentes do rock progressivo. Nesta fase, também, ele esteve à frente dos outros. Ao invés das sacais viagens que a maioria dos grupos do gênero empreendia pelo estilo sinfônico, o Floyd trilhou a linha dos álbuns conceituais desde o princípio, e explorou com maior inventividade os recursos dos teclados eletrônicos, à época ainda em fase de experimentos, longe dos mil e um recursos atuais.
O resultado máximo dessas pesquisas foi 'The Dark Side Of The Moon', indispensável em qualquer discoteca básica, que na época criou o recurso de som quadrafônico, para ser ouvido com quatro caixas de som. Quatorze anos depois de lançado, 'The Dark Side Of The Moon' continua entre os 200 discos mais vendidos nos Estados Unidos, e no Brasil ele nunca saiu de catálogo, sendo reprensado anualmente.

Na segunda metade dos 70, o Floyd foi cada vez mais se tornando o grupo de Roger Waters, os integrantes foram mudando, as brigas com David Gilmour tornaram-se frequentes, e várias vezes foi anunciado o fim do grupo. A última grande aparição conjunta foi no lançamento do álbum duplo 'The Wall', que rendeu turnês memoráveis, críticas ótimas e virou filme, dirigido por Alan Parker, com supervisão de Waters, que considera este o melhor trabalho do Pink Floyd. Esta, porém, é uma opinião particular, porque 'The Wall' é mais exorcismo dos fantasmas e traumas de infância de Waters do que um trabalho de grupo.
E ele deu continuidade a esses traumas com o último trabalho com o Pink Floyd, 'The Final Cut', de 1984. Foi o final mesmo? Bom, o certo é que Waters não cruza mais com Gilmour, Nick Mason e Rick Wright, que ganharam na justiça o direito de uso do nome Pink Floyd. Portanto, na noite em que o Floyd estiver aquecendo o Madison, Waters estará em Los Angeles, indiferente."

terça-feira, 10 de abril de 2012

Joe Pass - Um Mestre da Guitarra Acústica


Um dos grandes nomes do jazz, quando se fala em guitarra acústica é sem dúvida, Joe Pass. Dono de um fraseado altamente técnico, Pass revestia com harmonias ricas e precisas as músicas que interpretava, o que lhe valeu o apelido de "O Virtuoso". Ouvir Joe Pass passa a impressão que é fácil tocar guitarra, uma coisa simples, sem segredos. Pass morreu em 94, aos 65 anos, deixando uma obra das mais respeitadas no jazz. Nos anos 80, quando aqui esteve, o crítico Mauro Dias escreveu uma matéria sobre um show que o mestre deu na antiga casa de shows Jazzmania:
"O jovem guitarrista Victor Biglione, talvez o mais criativo de sua geração, manifestava pra quem quisesse ouvir: 'Esse cara é o máximo. Tudo o que sei devo a ele, tudo que pretendo fazer é o que ele faz. É um momento de graça divina poder estar aqui assistindo ao show dele'. O ele , o esse cara era o jazzman Joe Pass, papa da guitarra moderna, em temporada de esfuziante criatividade no Jazzmania. Tocando para uma plateia atenta, conhecedora de jazz e de sua obra, Pass fez, na estreia, terça-feira, o que ele mesmo considerou um dos mais belos espetáculos de sua longa carreira.
Foam dois sets de uma hora de duração cada. Pass, virtuose que definiu a guitarra de jazz dos anos 50 em diante (os guitarristas que vieram depois dele, no campo, andaram pouco em relação ao que cristalizou), sozinho com sua guitarra, ar bonachão, descontraído apesar do terno sóbrio e da gravata (tirou o paletó na segunda intervenção), resgatou para o público o sentido básico do blues: a alegria de tocar, o prazer do improviso, o deslumbre pela própria arte, a satisfação de descobrir a cada interpretação uma nota nova, um acorde insuspeitado, uma variação ainda não explorada.

Passeando por clássicos de todos os tempos - de 'It's a Woderfull Word' a 'Wave', de Tom Jobim, de 'Blues In G' a uma preciosa recriação de 'Daquilo Que Eu Sei', de Ivan Lins ('essa música que toquei não sei direito o nome'), de Sattin'Doll', num medley em homenagem a Duke Ellington, a 'Nuage', de Django Reinhart, passando por 'Corcovado', 'Time To Time', 'Sophisticated Lady', 'Sumertime', 'It Aint Necessary So', 'Round Midnight' - mostrou toda a genialidade no domínio do instrumento que torna seu som inconfundível. E, na boa tradição dos músicos de jazz, usou os temas como pretexto para brincadeiras bem-humoradas desenvolvidas no improviso.
Pass conversou com a plateia durante todo o tempo, fez piadas, mexeu com os músicos de rock e com os guitarristas modernos que 'abusam da velocidade', citando a cidade de Boston sem falar na escola de Berklee - exatamente a que gera esses guitarristas adeptos da velocidade em pouca melodia - fez rir, fez chorar.
Nada de hermetismos. Vida musical e só isto. A 'graça divina' citada por Victor Biglione deve servir de orientação para jovens músicos, para o público amante da boa música e para os que desejam iniciar-se na compreensão do jazz: ouvir Joe Pass é essencial - como Joe Pass é fundamental para a história do jazz e de toda a guitarra moderna. Não há como citar melhores momentos, como se faz com os normais. Pass é gênio e cada momento seu é melhor. Não percam."