Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Revistas Legais- Violão e Guitarra Especial - Baianos


A revista Violão e Guitarra era especializada em trazer letras de músicas e cifras para violão. Mas também trazia edições especiais com textos, abordando temas, mas sempre trazendo letras cifradas. Uma dessas edições especiais foi sobre os baianos, mais especificamente Caetano, Gil, Gal e Bethânia. A revista traz uma boa pesquisa de textos, extraídos de antigas revistas, jornais e livros, dando uma ênfase especial ao Tropicalismo. A publicação é de 1978.
Logo na apresentação, a revista fala do início de carreira dos personagens em destaque:
"No início era o Teatro Vila Velha, Salvador, depois veio o show "Opinião", no Rio, "Arena Canta Bahia" e "Tempo de Guerra", em São Paulo. Época da suavidade de "Coração Vagabundo" e "Um Dia" e da agressividade de "Carcará". Vieram os festivais e o sucesso. E os baianos agradaram, agrediram, polemizaram(...)"
A revista traz muitas fotos, algumas delas bem antigas, que ilustram bem os temas tratados, como a vinda dos baianos para o Rio, seus primeiros shows, a criação do Tropicalismo, etc. Foi nessa revista que pela primeira vez li , na íntegra, o famoso discurso de Caetano, ao enfrentar as vaias, enquanto cantava "É Proibido Proibir" no festival em 1968, além de trazer uma série de depoimentos, e trechos extraídos de importantes livros sobre o Tropicalismo e MPB em geral, como "Música Popular - De Olho na Fresta", de Gilberto de Vasconcelos, além de várias citações de revistas da época. A discografia dos quatro baianos é comentada, além de citações aos Doces Bárbaros, que em 1976 os reuniu num show de sucesso, que percorreu o Brasil, chegando a ser filmado em um documentário, que mostra não só os shows, como também a prisão de Gil em Florianópolis, por porte de maconha.


Como o Tropicalismo é um dos assuntos tratados em maior destaque na revista, há uma sessão trazendo uma curta biografia de outros personagens que participaram do movimento (nem todos baianos), como os letristas Torquato Neto e Capinan, o maestro e arranjador Rogério Duprat e o guitarrista Lanny. Como pontos falhos da revista, posso citar a ausência de referências a Tom Zé (uma falha imperdoável em se tratando de matéria sobre o Tropicalismo), e um erro de informação, ao atribuir a Gilberto Gil a parceria com Jorge Mautner em Maracatu Atômico, cujo verdadeiro parceiro de Mautner na música é Nelson Jacobina. No mais é um bom documento.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Ministra Cantora


Assim como Gilberto Gil no governo Lula, um de seus antecessores na pasta da Cultura, nossa atual ministra Ana de Hollanda também tem experiência na arte do canto, já tendo inclusive gravado. Mas ao contrário de Gil, sua carreira musical foi efêmera. Seguindo os passos do irmão famoso, Chico Buarque, e suas irmãs, Cristina e Miúcha, Ana de Hollanda também teve sua passagem na carreira artística, conforme atesta a matéria abaixo, publicada na revista Música nº45, de 1980:
"O público paulista que conhece o sobrenome da família, seguramente pouco ou nada ouviu falar dessa mulher que se chama Ana Buarque de Hollanda, que acabou de lançar oficialmente seu primeiro LP pelo selo Eldorado.
Exigente consigo mesma, Ana de Hollanda não queria ser apenas mais uma a cantar, pois queria mostrar um trabalho sério num disco extremamente bem elaborado. Além disso, talvez por carregar um sobrenome conhecido ou por ter muito contato com o mundo musical - pontos que sempre favorecem a carreira de qualquer artista - Ana de Hollanda se exigiu muito.
"Por ser irmã de Chico Buarque, num certo ponto me auxiliou na elaboração deste disco, pois a convivência com grandes nomes musicais me facilitou na escolha dos compositores. Por outro lado, ser da família Hollanda me leva a uma responsabilidade muito grande e isso fez com que eu pensasse muito antes de gravar um LP."
Para confirmar, Ana de Hollanda começou a estudar canto há dois anos, a fim de explorar melhor a sua voz, aprimorar técnicas de empostação ou dicção. Senão, continuaria a encarar a música como atividade importante em sua vida, mas não profissional. Como na fase anterior ao disco, em que cantava fazendo coro nos shows do Chico com suas irmãs - Cristina e Miúcha - ou em que as três se apresentavam sozinhas, esporadicamente.
Ana de Hollanda para selecionar o repertório desse LP de estreia, foi ao Rio diversas vezes, entrou em contato com vários compositores que conhecia, esmiuçou dezenas de músicas até se decidir por aquelas que tinham a ver consigo.
Foi assim que Ana escolheu o repertório desse seu disco, intitulado Ana de Hollanda, onde a maior parte das composições é inédita, ou então pouco conhecidas.
No lado A, as três primeiras são inéditas : "Waikiri", de João Donato e Carlos Pita, "Três Marias", de Irene Portela, e "Resto de Lembrança", de Novelli e Cacaso, "Um Grito Parado no Ar", de Toquinho e Guarnieri, é conhecida - se bem que, por ter dido gravada numa época em que a letra era proibida pela censura, só incluía um refrão cantado - e "Angélica", do Milton Nascimento e Chico, também.
Do outro lado, fora "Tipo Zero", de Noel Rosa, gravado há muito tempo e nunca mais relançado, as demais também são inéditas: "Santa Vida", de Nelson Angelo, "Alvorada", de Novelli e Carlinhos Vergueiro, "Boca de Cereja", de Nelson Angelo e Cacaso, "Quando os Pedaços da Gemte", de Marcus Vinícius, e "Ciranda", de Irene Portela.

sábado, 29 de janeiro de 2011

O Inimigo Público nº 1 Foi Pro Espaço


Em sua edição com data de 26 de setembro de 1979, a revista Veja trazia uma matéria sobre um famoso bandido francês, chamado Jacques Mesrine:
"Alguma notícia de Jacques Mesrine? Todas as quartas-feiras, durante a reunião do Conselho dos Ministros, no Palácio do Eliseu, em Paris, o presidente Valéry Giscard d'Estaing repete a mesma pergunta. Todas as quartas-feiras Christian Bonnet, Ministro do Interior, replica com a mesmíssima resposta: "Agora encontramos uma pista decisiva". Este diálogo é uma das coisas que mais têm divertido os franceses nos últimos quinze meses. Jacques Mesrine, 41 anos de idade, o inimigo público número1 do momento, autor de 39 crimes sangrentos, de sequestros e assaltos espetaculares, aperfeiçoou um talento especial em ridicularizar as autoridades encarregadas de sua captura. Autor de dois best-sellers escritos na tranquilidade do cárcere, ele continua, após sua última fuga no ano passado, a inundar periodicamente os jornais com suas novas aventuras, enriquecido por inúmeras considerações político-filosóficas. Sua carreira começou efetivamente aos 23 anos, em 1961, de volta da guerra da Argélia, onde fizera o serviço militar. Após alguns assaltos de segunda ordem, Mesrine desentendeu-se com um proxeneta e cometeu seu primeiro homicídio. Embarca então para o Canadá, onde se seguiram o sequestro de um industrial liberado em troca de 200.000 dólares, a fuga da penitenciária de Montreal, o assassínio de um proprietário de hotel em Québec, a morte de dois policiais e nova fuga da prisão. De volta à França, Mesrine cometeu dez assaltos em dez meses. Preso em 1973 e levado a julgamento, consegue escapar outra vez, levando como refém o presidente do Tribunal. Em 1977, enfim foi de novo preso e condenado a vinte anos de prisão pelo juiz Charles Petit, e encarcerado na prisão de La Santé, em Paris, no pavilhão especial de alta periculosidade, de onde ninguém jamais fugira. Assistido por dezesseis advogados, Mesrine esperou um ano e onze dias - então, com três pistolas misteriosamente recebidas de um cúmplice, conseguiu fugir novamente.
A essa altura ele já havia publicado o primeiro de seus dois best-sellers - "O Instinto da Morte" - em que narra todos os seus crimes detalhe por detalhe e uma espécie de panfleto contra o tratamento dos prisioneiros nos pavilhões de alta periculosidade.
Num assalto ao cassino de Deauville, Mesrine chegou até a boca do cofre apresentando-se como inspetor de Delegacia de Jogos. E numa fracassada tentativa de sequestro do juiz Charles Petit, que o condenara em 1977, conseguiu, graças a um de seus inúmeros disfarces, enganar todos os guardas gritando que o criminoso fugira pela direita. Enquanto isso ele escapava pela esquerda. Mas ele próprio tem certeza que um dia ou outro sua sorte vai acabar. Em sua "Carta Aberta à Minha Vítima", ele termina com fatalismo: "Ninguém me dará uma chance no dia em que eu for massacrado pelas balas da polícia".
Pouco mais de um mês após ler essa matéria, leio num jornal a notícia abaixo, atestando o tom profético das últimas palavras da matéria da Veja.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

CBGB - A Casa do Rock


Em 07/08/88 a coluna dominical Rio Fanzine, que era publicada em O Globo, trazia uma matéria sobre uma importante casa de shows de Nova York: a CBGB. Escrita pelo seu editor, Tom Leão, a coluna que ganhou o título de “A melhor casa suspeita de Nova York” dizia:
“Num dos melhores discos do Talking Heads, “Fear of Music”, de 1979, o vocal demente de David Byrne dizia/cantava na faixa “Life During Wartime/Vida em Tempo de Guerra”: “This aint't no foolin' around. This ain't no party, this ain't no disco, this ain't no foolin' around. This ain't got time for thatnow'. Ou trocando em miúdos, “em tempo de guerra não há festa nem discoteca, nada de Mudd Club ou C.B.G.B. (dois famosos clubes da noturna novaiorquina), em suma, não rola diversão.
Aproveitando a deixa e transformando-a em trocadilho, o jornalista Ruman Kozak escreveu um livro contando a história do CBGB e batizou-o “This ain't no disco”, para deixar bem claro que lá a discoteca nunca teve vez (o clube floresceu com o punk em plena era disco) e também homenagear a banda que foi uma das primeiras a fazer a fama do lugar. E This ain't no disco”, lançado no mês passado pela Faber & Faber (importado) é um livro imprescindível na estante de de todo aquele que curte a cena musicalda Big Apple, que militou no movimento punk ou simplesmente é estudioso da cultura rock.
“Eu abri a CBGB porque achei que a country music ia ser o grande lance. E foi, mas não lá.” Esta frase dita por Hilly Cristal, o proprietário do lendário point, abre o primeiro capítulo do livro, que logo no último parágrafo explica o significado da sigla CBGB/OMFUG, impresso em grandes letras negras no castigado toldo à entrada do clube. Como a intenção de Cristal era abrir uma casa de country music (logo onde, na Bowery, umas das ruas mais barra-pesadas da ilha de Manhattan nos anos 70) ela foi batizada “Country, Bluegrass, Blues, and Other Music For Uplifting Gourmandizers”. Só que a intenção ficou apenas no nome. Desde que abriu o lugar em 1973 (embora tenha comprado o imóvel em 1969 pela mixaria de 20 mil dólares), o clube jamais apresentou uma só atração de country music ou similar. Primeiro porque os apreciadores do estilo não frequentavam a região do East Village, na época, já um reduto dos alternativos e duros (os alternativos ricos foram para o SoHo). Segundo, porque existiam várias casas do gênero em outros pontos da ilha com freguesia certa. O mesmo que vender gelo no pólo norte. E quinze anos depois, embora sem a mesma efervescência que tomou conta do lugar por toda a metade da década passada, ele mantem-se como um templo por onde passaram todos os nomes importantes do rock americano nos últimos tempos. Foi lá que uma bandinha no estilo das girl-groups da Mottown, The Stillettoes, com uma loirinha chamada Deborah Harry e um guitarrista chamado Chris Stein se transformou no Blondie. Foi lá que um bando de universitários vestidos que nem bancários e com o nome esquisito de Talking Heads propagaram pela primeira vez suas avançadas ideias. Lá, outra brilhante cabeça, Tom Verlaine, provocou fricção com o Television. Foi lá que um bando de alucinados e revoltados com o marketing “new wave”, criado para abafar o punk rock, entre eles James White e Arto Lindsey criaram o No Wave. E foi lá também que uma turma de cabeludos de jeans rasgados e sem nenhum parentesco entre si, uns tais Ramones, gritavam “Gabba-gabba-hey!”e ativaram o tal do punk rock. Só
isso.”

Hoje, mais de 22 anos após escrita a matéria, creio que o CBGB não mais existe – acho que li algo a respeito, mas sei da importância do lugar, pois durante anos li matérias falando de shows acontecidos por lá. Pelo texto acima, dá pra ver que o CBGB fez história.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Livros e Revistas de Humor - A Vida Sexual do Jaguar


Em 1979 o cartunista Jaguar lançou um livro nas bancas de revistas, chamado As Aventuras Sexuais do Jaguar, com várias tiras sobre o tema sexo, divididas por assuntos, como vem indicado na capa. A publicação era da editora Codecri, que era ligada ao jornal O Pasquim do qual Jaguar era um dos editores. A editora não publicava somente livros e revistas de humor, mas também livros de literatura. As tiras que compõem o livro não eram inéditas, mas sim um apanhado de coisas já publicadas anteriormente em diversos órgãos de comunicação, como vem explicado no texto de apresentação:
"Os desenhos e textos desta revistinha de sacanagem (sacanagem com os leitores incautos atraídos pela capa sensacionalista) foram publicados ao longo desses 15 anos de Pasquim, nas revistas de massagens para executivos paulistas (Homem, Satus, Lui) e tem até um que saiu na revista do revendedor Shell (...)"

Já comentei aqui nesse espaço sobre um outro lançamento de humor de Jaguar, chamado Lugares In-Comuns. O trabalho de Jaguar eu conheço desde criança, quando ele publicava tiras diárias no jornal Última Hora, e eu já gostava de seu estilo de humor e seu traço simples, às vezes até meio tosco e aparentemente mal acabado. Mas na verdade seu estilo de desenho sempre foi muito elogiado até por grandes artistas gráficos, pois na verdade em humor a precisão e acabamento dos desenhos não é o mais importante. Um desenho mais simples muitas vezes traz uma dose de humor maior do que muitos daqueles mais bem definidos graficamente.

O caso de Jaguar é típico desse estilo de humor mais despojado e simples, e que funciona bem, tanto é que ao longo de todos esses anos, seu trabalho já passou por diversos órgãos renomados de comunicação, e acredito que ele sempre esteve em atividade.

A Vida Sexual do Jaguar, apesar do tema, traz um humor não apelativo, mostrando temas como homossexualismo, impotência, libidinagem, estupro, prostituição, etc de uma forma muito bem humorada, como os exemplos aqui mostrados.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A Londres Swingada


Londres, na década de 60 foi o grande centro musical do rock e do blues. Lá todas as novas tendências se convergiam, e as coisas realmente aconteciam. O som marcante de Londres foi o rhythm'n'blues, que revelou músicos e grupos, que deram uma revitalizada e modernizaram o blues. A cena londrina na época apresentava dois nomes de peso, que influenciaram e formaram músicos que fizeram história. Falo de Alexis Corner e Cyrill Davies. Dentre os músicos que iniciaram suas carreiras com Korner e Davies posso citar Jack Bruce, Charlie Watts, Mick Jagger, Eric Burdon, Paul Jones (vocalista do Manfred Mann), Paul Rodgers, Long John Baldry, Ginger Baker, Robert Plant, Brian Jones, John McLaughlin entre outros. Quando Alexis Korner convidou John Mayall para ir a Londres em 1962, uma revolução no estilo começava e se definir, pois Mayall, ainda um jovem músico desconhecido seria com o tempo uma influência marcante para gerações futuras e um descobridor de talentos com um faro apurado para encontrar músicos de alta qualidade. O John Mayall's Bluesbrackers seria uma verdadeira escola, que trazia os melhores músicos, que se aperfeiçoavam com as lições do mestre Mayall. O seu trabalho foi aproveitar e redefinir os rumos de todos os artistas que optaram pelo blues. O Jonh Mayall's Bluesbrakers foi a espinha dorsal para outras bandas célebres da cena londrina ainda nos anos 60, como Cream, Keet Hartley Band, Colesseum e Fletwood Mac, através de músicos como Jack Bruce, Eric Clapton e Peter Green. Da escola de Mayall também surgiria Mick Taylor, que substituiu Brian Jones nos Rolling Stones.


Em 1968 aconteceu em Londres um fenômeno chamado de “blues boom”. Eric Clapton, já no power trio Cream era eleito o músico do ano. Um importante festival de blues aconteceu naquele ano; Windsor Woburn, em que participaram músicos do calibre do próprio John Mayall, Peter Green, Ten Years After, Jeff Beck Group, Savoy Brown, Climax Blues Band e Traffic entre outros. Vivia-se o auge da chamada “Swinging London" (Londres Swingada). O sucesso desses novos grupos que se formavam acabou trazendo novamente para os palcos alguns velhos nomes do blues tradicional, que se encontravam esquecidos, como Otis Span, Leadbelly e Lightnin' Hopkins. A cena musical londrina na década de 60 foi sem dúvida das mais brilhantes de todos os tempos.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Ken Kesey e os Acid-Tests


Ken Kesey é uma das figuras mais representativas da contracultura dos anos 60. Para se falar sobre a era do psicodelismo, e tudo que envolveu aquele período, é preciso que a figura de Kesey seja citada, como nesse texto sobre o movimento hippie publicado em 1977, numa edição especial da revista Violão e Guitarra, sobre a história do rock:
“O movimento hippie como começou? Quem começou? Digamos que se Ken Kesey não inventou essa nova maneira de viver, chegou perto e por isso merece uma glória que quase ninguém lhe atribui. No início da década de 70, Kesey tinha cerca de trinta anos e era um jovem romancista para quem os dois primeiros livros haviam conquistado um razoável prestígio nos círculos literários (ele é o autor de Um Estranho no Ninho, que depois virou um filme de grande sucesso). De repente, ele abandonou tudo. Pega a mulher, Faye, e a filha mais velha e bota o pé na estrada. Reúne um bando de gente e forma um dos primeiros grupos hippies, batizado como The Marry Pranksters.
A situação era definida assim por um dos apóstolos: “As pessoas imaginam que nós somos o fim do mundo. É justamente o contrário. Queremos uma sociedade feliz, na qual cada pessoa trabalhará melhor, porque ela própria terá mudado a mentalidade. A liberdade, a tolerância, o amor. Queremos que se erga o Tibete da era atômica.”
Mas a posição pioneira de Kesey não era isolada. Durante o nascimento dos Pranksters, outras tribos, outros aglomerados comunitários, também começavam a se formar no país. Mas o grupo de Kesey se destacou por sua extraordinária atividade, em especial. Uma manifestação chamada Eletric Kool-Aid Acid Tests, isto é, uma experiência com LSD – a droga que, no momento vivia seu ápice – pública e aberta.

Sim, havia uma razão para a atitude de Kesey. Seu dropping-out deixara perplexos os velhos amigos e familiares. Kesey fizera experiências com o ácido, assim que a droga começou a ser lançada no país, e foi o LSD que transformou radicalmente sua vida. A exemplo de Timothy Leary – até então o mais famoso mestre na arte de lidar com o LSD, sendo expulso da faculdade onde lecionava, por manter abertas experiências com seus alunos, Kesey resolveu lançar-se ao seu próprio apostolado psicodélico. Leary, porém era um schoolar, um professor universitário, e seu trabalho com o LSD procurava revestir-se de um caráter de pesquisa científica; Kesey era um escritor, um artista, e sua investigação era de natureza estritamente experimental.
O acid-test era anunciado como uma tentativa de reproduzir, por meios mecânicos, exteriores, as sensações provocadas pelo LSD; constava basicamente de um show de luzes coloridas, muito vivas e brilhantes (que passaram a ser chamadas de “psicodélicas”), música, projeção de filmes, etc., que procuravam reproduzir a intensidade e a riqueza de experiências sensoriais provocadas pela droga. Na verdade, porém, o grande lance dos Pranksters era distribuir LSD aos participantes dos acid-tests.”

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Jack Kerouac - Viajante Solitário


Acabei de ler Viajante Solitário, de Jack Kerouac. Um livro brilhante, mais um exemplo da prosa espontânea e da linguagem frenética do autor mais aclamado da Beat Generation. Ler Kerouac é sempre uma experiência compensadora por seu estilo de escrever, descrevendo imagens que parecem passar a sua frente como num filme, e as palavras fluem numa velocidade e precisão que somente um escritor como Kerouac consegue transformar em textos. O livro é composto de oito textos autobiográficos, onde Kerouac narra suas andanças mundo afora, por trem, navio e pelas autoestradas, que ele conhecia tão bem, a ponto de parecerem seu próprio lar, como ficou também descrito em sua obra mais representativa: On The Road/Pé Na Estrada. Viajante Solitário conta suas passagens por lugares como Marrocos (onde Kerouac encontra-se com outro escritor beat: William Burroughs), França, México, além de suas várias andanças pelos Estados Unidos. Abaixo, uma de suas narrativas autobiográficas:
“Poupei cada centavo e então torrei tudo subitamente em uma grande e gloriosa viagem à Europa ou a outro lugar qualquer e me senti leve e feliz também. Levou alguns meses, mas finalmente comprei uma passagem em um cargueiro iuguslavo que partiu do Bush Terminal, do Brooklin, para Tânger, Marrocos. Zarpamos em uma manhã de fevereiro de 1957. Eu tinha uma cabine dupla só para mim, todos os meus livros, paz, sossego e estudo. Finalmente seria um escritor que não teria que trabalhar para os outros.”
A temática preferida dos livros de Kerouac sempre foi a estrada, suas experiências, seus encontros e desencontros, e tudo mais que faz parte da vida de um estradeiro, sempre à procura de novas aventuras, experiências, um lugar pra dormir, comida e bebida barata, amores furtivos e muito chão para percorrer. Ao contrário de parecer um escritor repetitivo, explorando seguidamente o mesmo tema, cada livro de Kerouac é uma experiência diferente para o leitor, como são as próprias viagens do autor – imagens que nunca se repetem, narrativas que sempre trazem toda a inventividade de seu estilo, de sua prosa poética de um vagabundo das estradas, de um andarilho que como nenhum outro soube transformar em relatos geniais suas experiências pelas estradas do mundo. “Pensando nas estrelas noite após noite começo a perceber que 'As estrelas são palavras' e todos os incontáveis mundos da Via Láctea são palavras, e esse mundo também o é. E percebo que não importa onde eu esteja, seja em um quartinho repleto de ideias ou nesse universo infinito de estrelas e montanhas, tudo está na minha mente. Não há necessidade de solidão. Por isso, ame a vida pelo que ela é e não forme ideias preconcebidas de espécie alguma em sua mente.”
Esse é Kerouac, o anti-herói das estradas, o viajante solitário.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Legião Urbana - "Barraco" em Belém/Pa (1987)


Em 1987 a Legião Urbana era uma das bandas de maior sucesso no país, seus discos (ainda de vinil) vendiam como água, e sua agenda de shows estava sempre lotada. Sendo assim, uma rádio de Belém do Pará (Liberal FM), ligado ao Sistema Globo, contratou a banda para um grande evento. Renato Russo, que sempre foi uma figura polêmica, de humor instável e de temperamento difícil, antes do show já se mostrava com pouca disposição para cantar, fazendo o seguinte comentário: “Muita gente, ginásio pequeno. Acho que não vou entrar. Falta segurança.” Mesmo assim, subiu ao palco, e como em todos os shows da Legião, sob grande delírio dos fãs. Renato brincou com o público, fez todo mundo cantar, e o show caminhava para ser um grande evento. Antes de cantar Eduardo e Mônica ele pediu uma luz fraca. O iluminador, ao contrário, jogou um canhão de luz. Renato, irritado, grita ao microfone: “Tira essa luz ou eu não toco!” O iluminador conseguiu acertar a luz, e Renato, sozinho – só voz e violão, cantou a música. O show continuou normal, com os vários sucessos da Legião, para um público de10 mil pessoas, quando Renato anuncia a última música do show: Tempo Perdido. Foi quando da plateia voou um chinelo, o acertando em cheio. Foi o bastante para Renato deixar o palco, seguido pelos demais integrantes da banda. Se fosse hoje, certamente as imagens estariam no Youtube. O público não arredou pé, aguardando o retorno da banda, e ao sentir que não haveria volta, logo iniciou um coro: “Filho da puta! Filho da puta!”. Depois começou a gritar o nome da rádio concorrente, já se revoltando contra também os promotores do show. Houve uma ameaça de quebra-quebra, e acho que a coisa só não se concretizou porque o problema se deu já no fim do show. Dias antes, em Salvador, Renato Russo também havia abandonado o palco, por um outro motivo. A rádio promotora do evento publicou a nota abaixo em um jornal da cidade, do mesmo grupo de comunicação:

Esse caso foi bastante comentado na época, assim como um outro show, se não me engano em Brasília, quando um cara que parecia ter problemas mentais conseguiu subir ao palco e ir em direção a Renato, o agarrando, e acabou gerando a maior confusão. Cheguei a ver um show da Legião no mesmo ano – talvez o maior público já reunido em um show em minha cidade. Tudo correu bem, apesar de alguns pequenos atritos com o público, como por exemplo, quando foi chamado de veado. Mas nada que afetasse mais gravemente o temperamental Renato Russo.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Jorge Mautner - 1975


“Ele é um feiticeiro eletrônico. Sua cabeça é como o caldeirão de uma bruxa, onde fervem fantásticas misturas aquecidas pelo sol e por uma intrincada instalação elétrica. Desse caldeirão saem rocks, baiões, maracatus, mambos e até blues, tudo muito cheio de humor, malícia e sutilezas. E para completar essa grande mistura, Mautner toca violino e bandolim elétrico, com a manha e o charme de um autêntico cigano.”
Assim começa uma matéria sobre Jorge Mautner, publicada na revista Pop de janeiro de 1975, com o título “Jorge Mautner – Um Salto no Escuro Para Iluminar o Rock”. O texto é de Valdir Zwestech, e o título faz referência a dois trabalhos de Mautner. “Um Salto no Escuro – título de uma música e um show que ele apresentou em 1974, e “Para Iluminar a Cidade”, seu primeiro disco. Abaixo, trechos da matéria:
“Ele tinha 14 anos quando escreveu seu primeiro livro. E com 15, em plena década de 50, já cantava seus rocks para os fregueses de uma pizzaria do Brás, bairro italiano de São Paulo. Mas só agora, já com 34 anos de vida e estrada, é que Jorge Mautner pintou para ocupar seu lugar no mercado musical brasileiro. Com o sucesso de Maracatu Atômico, na voz de Gilberto Gil, surgiu a chance de Mautner gravar seu LP e sair pelo Brasil mostrando sua música cheia de saudáveis misturas. Filho carioca de pais alemães fugidos do nazismo, Mautner nasceu a 17 de janeiro de 1941. Capricorniano, curioso e inquieto, logo abriu os ouvidos para a música: de um lado, a formação erudita dos pais; de outro, a contagiante efervescência popular do samba, do carnaval, da macumba, dos blues e, mais tarde, do rock.
Em 1965, Mautner botou uma mochila nas costas e foi para os Estados Unidos. Lavou pratos, foi funcionário das Nações Unidas, massagista, datilógrafo de banco, garçom e se envolveu com os caras mais ligados da efervescente cultura pop. Em 1971 foi para Londres e lá encontrou os baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil curtindo o exílio. O encontro foi fundamental. Com Gil e Cae, Mautner compôs várias músicas, escreveu artigos para jornais e fez até um filme, O Demiurgo. No Fim do ano voltou para o Brasil e imediatamente montou um show (Para Iluminar a Cidade) no Teatro Opinião (Rio). Nesse show já aparecia a vigorosa fertilidade de Mautner e, principalmente, o verdadeiro poder de feiticeiro eletrônico que ele tem ao misturar ritmos, raízes, influências, assuntos e sons, conseguindo sempre um resultado aparentemente divertido mas cheio de sutilezas. O show foi gravado ao vivo, mas o disco teve problemas de distribuição. Agora Mautner está com novo LP, produzido por Gilberto Gil para a Phonogram. E com novo show, Um Salto no Escuro, iluminando o Brasil inteiro.”

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Do Poeta Augusto de Campos, Sobre João Gilberto


Não é fácil falar sobre João. Porque este “João de Nada” é tudo na moderna música popular brasileira. O começo e o fim. O sim e o não. O tom e o som. João é João. Todos sabem o que ele significa para a Bossa Nova. O que talvez nem todos saibam é o que ele significa ainda hoje para as correntes mais novas de nossa música. Caetano já prevenira quando, em 1966, no final de uma nova explosão musical, proclamava a “retomada da linha evolutiva” a partir de João. Por trás da revolução exuberante da Tropicália, lá estava ele, tão esfíngico e mudo como Marcel Duchamp. Seu último LP (Getz & Gilberto) havia sido gravado em 1964. E ele só voltaria em 1970 com “João Gilberto em Mexico”. Seis anos de silêncio. Aparentemente desligado. Mas sabendo de tudo. Mesmo do lado de fora. “Diga que eu vou ficar olhando pra ele”, me disse João em New Jersey, maio de 1968, quando era difícil olhar para Caetano. Os baianos da Tropicália receberam esse recado como sinal e como benção. Fizeram o que fizeram. Mas sabendo que por trás de tudo estava João, o rigor e a abertura - a nota só, bim bom, precisa, funcional, e a formação inesperada – oba-lá-lá, misturando beguine com samba: aí está, capsulada, a revolução da Tropicália. O João do lp branco de Águas de Março, Undiu, Avarandado, Valsa, Izaura e outras criações e recriações. Nesses últimos passos João sobe ainda mais alto, caminho da sabedoria. Nenhum excesso. Nenhuma perda. Canta e toca sem preocupação de variar. Como alguém que estivesse visando o centro do alvo e acertasse sempre na mosca. Mesmo de olhos vendados. Iluminação. Satori. Som voz. João zen. Ao falar de João, mais uma vez o comparei à figura exemplar de Anton Werbern. Os que conhecem as duras veredas da música contemporânea sabem o que quero dizer. Webern, o justo, a esfinge. Trinta e sete anos de composição em 4 lps. O radical. Aparentemente limitado. Mas aberto a ponto de poder ser o limiar das mais novas experiências. De Stockhausen a Cage, não há compositor que não lhe deva algo. Assim é João. O silêncio e o som. O som e o ruído. O ruído e o silêncio. De 58 em diante, por mais diversos que hajam sido os caminhos da música popular brasileira, de Chico Buarque e Walter Franco, a base é uma só: João Gilberto. Tudo o que ele canta é novo: o que é de outro é dele e é outro. Presente de um passado que não passa, sem tempo e sem espaço, é assim que que vejo a João, Orlando de Caetanos futuros.
Augusto de Campos – informativo Jazzmania, de onde também extraí a foto

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Explode Gonzaguinha


Em sua edição de 26 de setembro de 1979, a revista Veja trazia uma matéria de capa com Gonzaguinha, de 5 páginas, escrita pela jornalista Regina Echeverria, que mais tarde escreveria “Gonzaguinha e Gonzagão”, uma biografia de ambos. Regina também é autora de uma biografia de Elis Regina, Furacão Elis. O destaque que a revista dava a Gonzaguinha, é em virtude do artista estar vivendo na época uma grande ascenção artística, de compositor elitista e pouco popular, a compositor e cantor de sucessos consagradores, a ponto de na época estar entre os dez compositores que mais faturavam em direitos autorais. A matéria começava dizendo:
“Não dava mais pra segurar. Muito menos para dissimular ou disfarçar. O que o magro, desengonçado, quase sempre taciturno e patético Luiz Gonzaga Júnior tentou esconder e não conseguiu desabafar saiu com força de seu peito como para dizer: “Chega de temer e sofrer”. Insistiu em que seu sorriso estava preso, guardado atrás daquele jeito seco, daquela cara amarrada. Que seu corpo estava duro, defendido atrás de um violão. Como se num toque de mágica, quase sobrenatural, o caminho lento e sofrido de dez anos convergisse para uma certa noite, há duas semanas, quando estreou em São Paulo seu show “Gonzaguinha da Vida”, no qual vive um pouco da letra de sua música e explode o coração, para uma plateia que parecia estar plantada ali para exigir justamente isso.”

Um box da matéria, escrito por Joaquim Ferreira dos Santos (hoje colunista d'O Globo), intitulado “Gonzagão e seu filho maravilhoso” traz um depoimento de pai pra filho:
“Na manhã de sábado passado, enquanto se certificava de que o cheiro de borracha queimada que invadia seu apartamento na Ilha do Governador provinha efetivamente do térreo , onde funciona uma arquiinimiga oficina de automóveis, Luiz Gonzaga, 66 anos, avivava suas primeiras impressões do tempo em que o filho, com 17 anos, resolveu morar com ele: “Ficava o dia inteiro tocando violão em cima da cama, olhando para as letras das músicas, e eu reclamava da posição em que ele ficava – as costas curvadas para a frente, sobre o violão. Eu dizia que ele ia ficar corcunda e podem reparar que, hoje, é meio curvado (...)" De recente experiência conjunta na gravação de “Vida de Viajante”, porém, guarda uma lição: “Nessa música eu cometi três erros, troquei palavras, entrei na hora errada, mas ele fez questão de deixar assim mesmo, dizendo: “Você errou muitas vezes, meu pai”. Para Gonzagão, o herdeiro é uma benção divina: “Tantos homens casam por amor e nascem filhos defeituosos, que não dão em nada. Eu sempre tive essa vida desregrada, vivi na zona de prostituição no mangue – e me nasceu esse artista maravilhoso.”

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Ilusão de Ótica Acidental


Bristol fica no sudoeste da Inglaterra. E um de seus pontos turísticos mais curiosos está na esquina das ruas Michael's Hill e Perry Road. É a calçada em frente a uma cafeteria. Todo mundo para ali para ver uma ilusão de ótica acidental famosa, que ganhou o nome de"ilusão da parede do café" (em inglês, Wall Cafe Ilusion). A tal parede é feita de azulejos retangulares escuros e brancos dispostos horizontalmente. O interessante é que eles não estão alinhados, mas desencontrados, deslocados alguns centímetros para o lado direito ou esquerdo, linha a linha. Esse detalhe é suficiente para enganar o olhar. Fica nítido que as linhas separando as fileiras são tortas.
Quem veio primeiro: a ilusão ótica ou a parede? Diz a lenda que a cafeteria foi vista pelo neuropsicólogo Richard Gregory, da Universidade de Bristol, e ele resolveu estudar a imagem. Isso foi em 1973.
E como se explica a percepção entortada? A ilusão só tem efeito quando o alinhamento entre as formas brancas e pretas é deslocado, e quando é contornada por uma borda de outra cor:o cinza da argamassa. Ao contrário do que possa parecer as linhas de cor cinza, da argamassa, são retas. Use uma régua se duvidar. Clique na imagem para ela aumentar e ficar mais nítida.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Mandaram Mal


A revista Música, era um bom informativo sobre o assunto que lhe dava título. Trazia boas matérias e entrevistas, não só de música brasileira, como internacional (rock, jazz, etc), e também sobre equipamentos. Em seu nº 43, de 1980, a revista trazia na capa artistas nordestinos que na ocasião faziam sucesso, e eram destaque por seus trabalhos, que tinham grande aceitação: o então casal Zé Ramalho e Amelinha, e Ednardo. Mas o motivo dessa postagem, e do título da mesma, é uma outra matéria, falando do recém-falecido na época, Vinícius de Moraes.
A jornalista responsável pela matéria fazia uma análise da obra poética e musical de Vinícius, falando de Bossa Nova, seus vários parceiros, etc. Várias músicas do extenso trabalho de Vinícius como letrista são citadas. E um verso foi colocado em destaque, dentre tantos que se notabilizaram em sua carreira. Pelo menos essa era a intenção da jornalista. Imagino que escolher um único verso para se colocar em destaque, quando há tantos belos e consagrados não deve ter sido uma tarefa fácil. Porém, ironicamente, ela destacou exatamente um que não é de sua autoria: "ADEUS, VOU PRA NÃO VOLTAR/E ONDE QUER QUE EU VÁ/SEI QUE VOU SOZINHO" é parte de Pra Dizer Adeus, cuja letra é de Torquato Neto. Os versos até que poderiam ter sido escritos por Vinícius de Moraes (tanto é que causaram confusão na jornalista). Edu Lobo, parceiro de Torquato nessa composição também foi parceiro de Vinícius (Arrastão, Canto Triste e outras), mas Pra Dizer Adeus identifica muito Torquato, pois é talvez sua letra mais consagrada.



Ao ver o tremendo furo que foi dado, coloquei na ocasião um asterisco ao lado dos versos, e escrevi a caneta ao pé da página: “Os versos de Pra Dizer Adeus, atribuídos equivocadamente a Vinícius, são na verdade de Torquato Neto”. Para uma revista especializada em música, não ficou nada bem. Mandaram mal.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

De Jorge Mautner, sobre Paulo Leminski


No livro O Coronel eo Lobisomem, de José Candido de Carvalho, há uma frase que diz: "Uma desgraça nunca vem solteira". Isso eu senti em junho de 1989, quando soube da morte da cantora Nara Leão. Fui ver o telejornal do fim da noite, aguardando uma matéria sobre a cantora. Em dado momento o locutor diz: "Morreu hoje..." Quando eu esperava ouvir o nome de Nara, ele completa ".. o poeta e escritor Paulo Leminski". Foram duas porradas num dia só. Leminski já era na época um dos meus poetas preferidos, e eu o havia descoberto apenas alguns anos antes, quando seus livros começaram a ser publicados com maior frequência. Entre tantas merecidas homenagens que lhe foram feitas, umas delas foi uma edição especial do tabloide cultural de Curitiba (sua terra natal) Nicolau, do qual era assinante. Foi uma bonita edição, com depoimentos e textos de vários de seus admiradores, como o exemplo abaixo, de Jorge Mautner.
Eterna Moderna Poesia
Paulo Leminski foi e sempre será o além-poeta da tempestade. Ele é a síntese de todo aquele romantismo da Polônia e do romantismo do Brasil. Um samurai-poeta. Falávamos muito de artes marciais e da sua importância na poesia como um ato de vida. Sempre socialista – um socialismo não-científico – onde pulsava o coração das paixões humanas. Discutíamos muitos as religiões, as diferentes religiões da humanidade – e Paulo Leminski jamais ocultou seu imenso cristianismo. Era como se ele fosse um dos primeiros cristãos, antes do cristianismo conquistar Roma. Pediram-me que eu escrevesse algo relativo ao aspecto de “geração”. Leminski é da minha geração. Lembrar-me-ei para sempre e carregarei comigo a lembrança de nossas conversas infinitas – onde despontavam temas que iam da miséria humana e brasileira até a bomba atômica e as incomensuráveis riquezas do ser humano, demasiadamente humano. Conheci Leminski na sua amada Curitiba por ocasião de um dos meus shows nesta cidade. Carrego a responsabilidade de tê-lo influenciado a transportar sua incrível eterna-moderna poesia para a direção da música popular e transformá-la em poesia-letra. Leminski era alguém situado bem no torvelinho das emoções desse estranho animal chamado de ser humano que mais parece um ser desumano do que humano. Sua experiência, oriunda da experiência da memória dos humilhados e ofendidos, se encontrava sempre com a minha ironia, oriunda de memórias de minorias pogrons e vivência dos guetos de Varsóvia. O que sempre nos uniu é a luta sem tréguas contra o nazismo universal.
Jorge Mautner – músico e poeta

domingo, 16 de janeiro de 2011

Like a Rolling Stone - A Música Nº 1


Já se encontra nas bancas uma edição especial da revista Rolling Stone, trazendo as 500 Melhores Músicas Internacionais de Todos os Tempos. Essa listagem foi escolhida após duas extensas pesquisas. A primeira em 2004, que reuniu 162 especialistas, entre artistas, produtores, executivos da indústria fonográfica e jornalistas para escolher as melhores canções de todos os tempos. A segunda pesquisa, complementar, foi feita cinco anos depois, com outros cem especialistas, para se escolher as melhores canções da década de 2000, para a lista ficar mais atual.
O resultado não foi surpresa pra mim: a primeira colocada foi Like A Rolling Stone, de Bob Dylan. Sobre essa música, sem que eu me sinta exagerado, posso afirmar que ela deu uma chacoalhada no mundo da música, numa fase em que Dylan buscava mudanças. Em 1965, quando a música foi lançada, no álbum Highway 61 Revisited, Dylan que já era um consagrado cantor folk, resolve eletrificar sua música, e cair de cabeça no rock. Foi nesse ano que em pleno festival folk de Newport, ao subir com uma formação rock no palco, foi vaiado pelo público tradicionalista, que se chocou ao ver o maior astro do evento fugindo de suas tradições acústicas.
A consagração que viria com o lançamento do citado disco, provaria que Dylan estava certo ao assumir seu lado rock, embora não tenha abandonado a folk music, o que ficou provado ao longo de sua carreira. Dylan viria a se tornar o mais influente compositor de sua geração, não só como compositor, letrista, mas até como cantor, embora muitos odeiem sua tonalidade de voz anasalada. Uma artista que se declarou influenciado por seu jeito de cantar, por exemplo, foi Jimi Hendrix. Jimi não gostava de sua própria voz. Achava inadequada e feia. Ao ouvir Dylan, com seu tom diferente, viu que não era preciso ter aquela grande voz para passar seu recado. Por sinal, eu gosto da voz de Hendrix. Quanto à voz de Dylan, posso dizer que foi através dela que comecei a ficar fã dele. Acho a voz de Dylan bastante interessante e agradável de se ouvir.
Voltando à Like a Rolling Stone, recentemente foi lançado no Brasil um livro sobre essa música, e tudo que ela representa. O livro se chama Like a Rolling Stone - Bob Dylan na Encruzilhada e foi organizado pelo crítico americano Greil Marcus, do qual já falei aqui nesse espaço. Reúne depoimentos de várias pessoas, principalmente músicos e jornalistas, que fazem relatos sobre como essa música foi importante em suas vidas. O texto de apresentação do livro diz:

"Em todo e qualquer período histórico, há sempre um momento-chave a partir do qual os eventos subsequentes mudam seu curso e todos os elementos envolvidos são alterados para sempre. Neste livro, o jornalista Greil Marcus consegue nos levar ao dia 15 de junho de 1965, quando Bob Dylan entrou no Studio A, da gravadora Columbia Records, para registrar "Like a Rolling Stone", música que melhor iria lhe representar enquanto ícone da contracultura. Fazendo mais do que uma "biografia" da canção sessentista, o autor se aprofunda em uma análise meticulosa do gênio criador de Dylan, tendo como pano de fundo a situação política e cultural dos Estados Unidos."
O livro saiu aqui pela Cia das Letras, e ainda não possuo, mas já está na minha lista.

Com relação à edição especial com as 500 melhores canções internacionais, as outras melhores colocadas na ordem foram: Satisfaction (Rolling Stones),Imagine (John Lennon), What's Going On (Marvin Gaye), Respect (Aretha Franklin), Good Vibrations ( Beach Boys), Johnny B. Goode (Chuck Berry), Hey Jude (Beatles), Smell Like Teen Spirit (Nirvana), What'd I Say (Ray Chrles) e mais outras 490.

sábado, 15 de janeiro de 2011

John McLaughlin - Um Pioneiro do Jazz-Rock


A revista Pop nº 78 (abril/79) trazia uma matéria sobre um dos grandes guitarristas do estilo fusion,que une o peso e o vigor do rock à técnica e improvisação do jazz: John McLaughlin. Escrita por José Emílio Rondeau, a matéria traz em destaque a frase: "O último herói da guitarra faz sua volta triunfal ao rock elétrico". Abaixo, a matéria:
"O ano passado marcou a volta de John McLaughlin ao rock elétrico com um disco que rememora velhos tempos e bons amigos. O título do disco é seco e direto, como o cartão de visitas que enfeita sua capa: John McLaughlin - Eletric Guitarrist. Lá estão todos que, numa época ou outra, tocaram com ele: Tony Wiliams, Chick Corea, Jack Bruce e Billy Cobham. 'Você pode chamar o disco de reunião de famíia', diz McLaughlin, 'porque é exatamente isso que ele é.'
John McLaughlin nasceu em Yorkshire, Inglaterra, e passou a interessar-se por jazz e blues aos 14 anos, quando conheceu o louquíssimo Graham Bond, uma espécie de Muddy Waters branco, padrinho musical de Ginger Baker e Jack Bruce, entre outros. Anos mais tarde, seu lado jazzístico falou mais alto e ele partiu para uma volta às raízes com o álbum Extrapolation, de pouca projeção comercial e crítica, mas que levou seu nome ao outro lado do Atlântico, chegando aos ouvidos do baterista Tony Williams, que, convidou McLaughlin, em 1970, para tocar em sua banda, a Lifetime, e sem querer promoveu o encontro de John com seu maior ídolo, Miles Davis. Com a Lifetime, John gravou dois discos, Emergency e Turn it Over. Com Miles, fez os álbuns que marcariam o início o jazz-rock, Bitches Brew e In Silent Way. Ele conta como foi: 'Cheguei no estúdio com minha guitarra e comecei a procurar os acordes para acompanhar a música. Miles virou para mim e disse: 'Toque guitarra como se você nunca tivesse tocado guitarra na vida!' Eu não entendi nada mas fiz o que ele mandou. O som acabou saindo muito bonito'.
Em 1971, na França, McLaughlin gravou seu segundo disco, Devotion, que iniciaria a longa associação mística com o guru bengali Sri Chimnoy, que modificaria radicalmente sua música. Ainda em 71, John lançava o acústico My Goal's Beyound, um mosaico de improvisações de jazz sobre escalas indianas. Os músicos que o acompanhavam nesse disco eram o baterista Billy Cobham e o violinista Jerry Goodman.

Cobham e Goodman, mais o tecladista Jan Hammer e o baixista Rick Laird, além do lider McLaughlin formariam o primeiro supergrupo de jazz-rok dos anos 70, a elétrica e fantástica Mahavishinu Orchestra, que gravaria Inner Mouting Flames, Bird of Fire, Love,Devotion, Surrender (com Carlos Santana) e Betwen Nothingness and Eternity, o último disco da Mahavisshinu. Sua nova banda, a Mahavishinu Mark II, registraria os os LPs Apocalypse, Visions of the Emerald Beyond e Inner Words,que marcaria o fim do grupo.
Apesar de abandonar a devoção espititual, McLaughlin manteve o interesse pela música indiana, traduzido por três discos acústicos serenos e precisos: Shakti, A Handful of Beauty e The Four Elements. Sua volta à música elétrica, com segurança e tranquilidade, prova que que John McLaughlin continua sendo, aos 36 anos, um músico adiante de seu tempo, revolucionário, sem precisar se cobrir de lamê e purpurina. Afinal, ele é apenas um herói da guitarra.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Hermeto Pascoal - Festival de Jazz de Montreux (1980)


Em 1980, Hermeto Pascoal participou do Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, realizando um show empolgante. A revista Manchete na ocasião fez uma matéria sobre a apresentação de Hermeto, intitulada “O Forró Suíço de Hermeto Pascoal”, assinada por Roberto Muggiati. A reportagem comenta uma matéria publicada sobre o músico brasileiro no importante jornal International Harold Tribune, assinada por Michael Zwerin. Alguns trechos são destacados:
“Depois de João Gilberto, Antônio Carlos Jobim, Airto Moreira e Egberto Gismonti, conheçam agora Hermeto Pascoal, talvez o mais brilhante de todos esses brasileiros.”
“Este homem me influenciou mais do que qualquer outro nos últimos vinte anos.”
“Um soprano conduz um grupo de saxes extremamente entrosados. As figuras polirrítmicas e politonais são uma espécie de Berg incrementado com jazz. Surge a selva. Passagens melódicas implicam Stevie Wonder. Campainhas, buzinas, apitos, uivos e estalidos saem direto da filosofia de John Cage. Algumas texturas devem fazer Frank Zappa se olhar no espelho. Podemos reconhecer Sun Ra e Kurt Weil e uma curta sequência e tirada de Giant Steps de Coltrane, como que para dizer: “Vejam – nós também podemos fazer isso.”
"Quem é esse misterioso gênio de um canto remoto do Brasil? Uma coisa é certa, vamos ouvir falar mais dele.”
Sobre o show, a matéria da revista Manchete diz:
“De sua janela do Palace, Hermeto contemplou o lago azul pontilhado de barquinhos, as margens verdejantes com seus chorões tocando as águas, as montanhas do outro lado e os Alpes coroados de neve à distância. E compôs no quarto do hotel, numa partitura artesanal, uma bela modinha chamada Montreux. Durante sua apresentação no festival, ao revelar as circunstância em que a música foi composta e exibir a partitura, disse à plateia em português: 'Não é cascata não, pessoal. Olha, é uma música lenta. Se fizerem algum barulho eu paro, hein?' Hermeto falando português o tempo todo se entendeu maravilhosamente com o público jovem (4.000 pessoas) que lotava o auditório do cassino onde o festival acontece. Cantou coisas num sotaque incrivelmente nordestino com um refrão em cima de A-E-I-O-U-psilone-zê e deu o seu mote sonoro com este 'remelexo cá/remelexo lá/ re-me-le-xo em qualqué lugá'.

Na Noite Brasileira de Montreux, o diabo louro de Arapiraca emitiu gritos, grasnados e grunhidos para exorcista nenhum botar defeito. Com um lado da boca tocava a escaleta, com o outro acompanhava a si mesmo em vocais. Trocou várias vezes de teclados, saltando dos eletrônicos ao acústico, desdobrou-se entre os saxofones soprano e tenor e as flautas, No final da última apresentação, já tendo voltado ao palco algumas vezes por exigência do público, voltou pela última vez com Elis Regina e os dois numa harmonia muito suave que tocou particularmente a sensibilidade dos brasileiros, se uniram em Asa Branca, Corcovado e Garota de Ipanema. Na manhã seguinte, o jornal local L'Est Vaudois deu com destaque na primeira página uma foto em cores de Hermeto e uma reportagem que afirmava a certa altura: 'Hermeto fez a demonstração, de saída sempre útil, de que a música é universal e é preciso, para ser um digno embaixador dela, se alimentar do folclore, das tradições, de suas próprias raízes culturais. Sua arte é de uma autenticidade que ninguém poderia contestar, não segue nenhuma moda, zomba dos gêneros e das etiquetas.' Um dia depois, indiferente ao sabor do sucesso e muito na sua, Hermeto pegava mais um avião, desta vez para o Festival de Jazz de Tóquio. Não posso deixar de concordar com Micharl Zwerin quando diz que uma coisa é certa: “Vamos ouvir falar mais de Hermeto.”

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Beatles - O Show no Telhado - 1969


Em uma postagem anterior, comentei sobre um livro que havia acabado de comprar: Maggical Mystery Tours - Minha Vida com 0s Beatles - escrito por Tony Bramwell, que trabalhava diretamente com a banda, além de ser amigo particlular deles. O texto de contracapa diz:"Imagine-se um amigo de infância de George Harrison, Paul McCartney e John Lennon e, além de crescer com eles, ser convidado para trabalhar junto com a banda mais famosa do mundo, Os Beatles. Isso aconteceu com Tony Bramwell."
Já estou quase terminando a leitura do livro, e posso dizer que é um dos melhores trabalhos já publicados sobre os Beatles, dos tantos que já li. Acabei de ler a descrição do famoso show realizado pela banda nos telhados da gravadora Apple, e faz parte do documentário Let It Be. Eis o trecho:
"Em 30 de janeiro de 1969, bem agasalhados contra o frio e o ar rarefeito, envoltos por pessoas nos telhados até onde os olhos alcançavam, e mais algumas outras peduradas no topo de chaminés, meia Londres parou enquanto milhares de pessoas ouviam e assistiam. Gente dentro de escritórios ficou pendurada nas janelas e transeuntes aglomeravam-se nas calçadas. Enquanto via os trabalhadores empolgados nas janelas sorrindo com prazer, percebi que aquele era um acontecimento maravilhoso e único.
De todas as músicas que tocaram - algumas mais de uma vez e sem contar um improvisado "God Save The Quenn" - a que mais me tocou foi 'Don't Let Me Down'. Eu sabia que aquela apresentação era exatamente o fim. Triste, senti, que embora John tivesse escrito aquela música para Yoko, ela parecia diretamente relacionada aos próprios Beatles e as relações entre eles, e era também um grito para que o mundo entendesse o grupo e tudo o que tentaram alcançar. A música que provocou maior reação entre o público por ser um pouco mais forte e agitada foi 'Get Back'. Esta dizia muito sobre como as coisas estavam andando. Foi uma mensagem do fundo do coração de Paul e John, principalmente dirigida de um para o outro que dizia: 'Vamos voltar para onde começamos'.

Logo os senhores alfaiates da Gieves and Hawkes reclamaram do barulho e chamaram a polícia, que aliás, sempre estava por perto. A polícia chegou e fizemos com que o porteiro os parasse, perguntando se tinham ingressos. Eles foram retidos por mais algum tempo pelo office boy que repetiu a mesma pergunta. Os caras de azul enfiaram-se por entre as secretárias e funcionários da Apple e quem mais estivesse no caminho até chegarem ao telhado. Foi tudo muito bem humorado. Negociamos com eles para ganhar mais uns 20 minutos enquanto os rapazes continuavam tocando. Por fim disseram: 'Olhem, rapazes, está muito alto. Vocês vão ter que parar'. O concerto ao ar livre tinha começado por volta do meio dia, e terminado umas quinze pra uma quando a polícia puxou o fio da tomada."

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

San Francisco - Berço da Contracultura


A cidade de San Francisco, na Califórnia, sempre esteve ligada a movimentos contraculturais. Desde a década de 50, com o nascimento do movimento beat, a cidade já vivia uma efervescência cultural. Em 1953 com a criação da livraria "City Lights", que abrigava e promovia o trabalho dos escritores beat, a cidade passou a ser uma referência para movimentos de contestação ao sistema, conhecido como "american way of life". Por volta de 1961, a beat generation, como movimento chegava ao fim, devido a pressões de ordem conservadora. Allen Ginsberg, um dos cabeças do movimento sofreu um processo por seu longo poema "Howl"(Uivo), em nome da moral e bons costumes, sobrando fagulhas para os demais participantes do movimento, como Jack Kerouac, Gregory Corso, William Burroughs e Lawrence Ferlinghetti (proprietário da City Lights). Clubes e locais de encontro dos beats foram fechados, perseguição que enfraqueceu o movimento.
Porém no decorrer da década de 60, a vocação de San Francisco para abrigar movimentos contraculturais era confirmada com o surgimento do movimento hippie, e do chamado San Francisco Sound.
O movimento foi ganhando corpo, e em janeiro de 1967 foi organizado o primeiro Human-be-in, no Golden Gate Park. Esse evento era uma espécie de congresso-festival, que acabou dando origem ao "flower power". Líderes como Timothy Leary (um dos mártires da contracultura - foi demitido da Harvard por fazer experiências com LSD com seus alunos), Allen Ginsberg, Jerry Rubin (líder, do YIP - Partido Internacional da Juventude), estavam lá, junto a cerca de 30 mil pessoas para discutir assuntos ligados ao movimento e curtir o som do Jefferson Airplaine e Grateful Dead.


O "San Franciso Sound" incorporava, além do Dead e o Airplaine, bandas marcantes como os Charlatans, Quilcksilver Mensenger Service, Big Brother and Holding Company (que trazia Janis Joplin nos vocais), Country Joe and The Fish, além de muitas outras bandas, menos conhecidas.
Toda a agitação cultural, política e comportamental disseminada naquele período em San Francisco, e por extenção, em várias partes do mundo, pode ser resumida numa frase de Daniel Cohn Bendit, um dos líderes estudantis, de 68: "Não queremos uma sociedade onde não se morra de fome, mas em compensação nos mate de tédio".

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Revistas Legais - As Aventuras de R. Crumb


Do mesmo modo que o Brasil (re) descobriu a literatura beat nos anos 80, com a publicação de vários títulos de autores como Jack Kerouac, Allen Ginsberg e Gregory Corso, entre outros, os quadrinhos underground americanos tiveram uma certa projeção(embora mais tímida) na década seguinte. As bancas de revistas passaram a oferecer novos títulos, revistas de produção barata, quase independentes, e que traziam uma amostra dessa escola dos quadrinhos americanos. Alguns títulos passaram a ser publicados, trazendo os principais autores undergrounds, como Nocaute, Porrada! e Abutre, mas a mais significativa publicação desse segmento era As Aventuras de R. Crumb, dedicada exclusicamente a esse mestre dos quadrinhos.
Assim como Jack Kerouac pode ser considerado o principal nome da Beat Generation, o mesmo pode-se dizer de Robert Crumb em relação aos quadrinhos underground. No início da década de 60, havia no meio estudantil americano uma epidemia de fanzines, produções artesanais de revistas, que eram produzidas em pequenas tiragens. É nesse período que Crumb começa a produzir suas revistas, a principal delas, Zap Comix, que foi a principal obra desse período. Naquele clima do movimento hippie, drogas e filosofia de paz e amor propagado pelo flower power, Crumb e sua esposa saíam pelas ruas e praças da Califórnia vendendo alguns dos 300 exemplares da revista Zap nº 1. Outros desenhistas juntaram-se a Crumb nos números posteriores, como Gilbert Shelton (criador dos Freak Brothers), Robert Willians, Clay Wilson, Victor Moscoso, Griffin e Spain. A Zap foi ganhando fama, e chegou a atingir um milhão de exemplares.


Crumb era amigo íntimo de Janis Joplin e ligado numa garota robusta - as mulheres no seu desenho costumam ter bundas e seios fartos, como as musas dos pintores clássicos. Foi o criador da capa de Chip Thrills, clássico álbum de Janis Joplin & Big Brother and The Holding Co. A gravadora Columbia substituiu a caricatura de Joplin, que ele havia feito para a capa, pelo desenho da contra-capa, e lhe preparou um cheque de 300 dólares. "Eu pedi a Janis pra dizer-lhes que podiam enfiar o dinheiro no rabo, etive um prazer enorme nisso: eles não estavam acostumados a que alguém recusasse o dinheiro da Colúmbia". Mais tarde recusaria uma proposta milionária para publicar uma página mensal para a Playboy americana. Isso fazia parte da personalidade de Crumb.

Recentemente ele esteve no Brasil, ao lado do desenhista Gilbert Shelton, a convite da FLIP de Paraty, quando ambos praticamente não respondiam às perguntas, numa atitude irreverente, aliás bem típica dos dois.
As Aventuras de R. Crumb, acredito que saiu em apenas dois números, pela Press Editorial (nunca encontrei um terceiro número), e são dois dos ítens mais preciosos de minha coleção de quadrinhos.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Passeata Contra a Guitarra Elétrica -1967


Nos anos 80, eu recebia da editora Brasiliense um informativo chamado Primeiro Toque, de periodicidade trimestral, e que divulgava os lançamentos da editora. A Brasiliense era na época uma das melhores editoras em minha opinião, pois mantinha um ótimo catálogo de autores, nacionais e estrangeiros. Foi responsável, por exemplo, pela publicação de vários livros da Beat Generation, como o clássico On The Road, de Jack Kerouac, dentre outros. Havia também coleções como Primeiros Passos, Tudo é História, Encanto Radical, Qualé, Cantadas Literárias e Primeiros Voos.

Um dos livros lançados pela coleção Tudo é História, é A Aventura da Jovem Guarda, de Paulo de Tarso C. Medeiros, uma edição de bolso, de preço acessível, que trazia informações, análises, fotos e um resumo do movimento. O texto de divulgação da obra, de título Essas Bárbaras Guitarras Elétricas, escrito por Sofia Carvalhosa, e que veio no Primeiro Toque nº 11 (out/nov/dez 1984) é o seguinte:
“Passeata contra a ditadura, desemprego, pelas diretas todo mundo já ouviu falar, já foi, ou no mínimo já leu no jornal ou viu na TV. E passeata contra o iê-iê-iê, já te passou na cabeça? Pois não é um delírio. Foi no dia 17 de junho de 1967 em São Paulo. O percurso: do Largo São Francisco até o antigo Teatro Paramount, na avenida Brigadeiro Luís Antônio, onde se realizaria o programa Frente Ampla da MPB. Os manifestantes: os representantes da “verdadeira” MPB: Elis Regina, Jair Rodrigues, Zé Keti, Edu Lobo, MPB4, Gilberto Gil (?) e fãs universitários a fim de salvar muitas coisas, uma delas a pureza da música de 'raiz' brasileira, contra os ritmos estrangeiros e essas bárbaras guitarras elétricas. De bandeirinha do Brasil na mão e cantando o hino(Moçada querida/Cantar é a pedida/Cantar a canção/Da pátria querida/Cantando o que é nosso/Com o coração) lá foram eles para o teatro. Nara Leão e Caetano Veloso se recusaram a ir. Assistiram a tudo da janela do Hotel Danúbio e comentaram que aquilo parecia mais uma passeata integralista. 'Tenho medo dessas coisas', disse Nara. Essa passeata foi muito inspiradora de paródias de compositores do Tropicalismo, quando se ironizava uma certa impostação nacionalista da música popular. Na verdade, essa passeata foi uma jogada da TV Record para promover o programa O Fino da Bossa, liderado por Elis Regina, que vinha perdendo audiência para a Jovem Guarda e sua música americanizada. O estranho é que os dois programas eram da mesma emissora. Mas por que Roberto, Erasmo e sua turma ameaçavam tanto a MPB? Em primeiro lugar, a perda de audiência. Depois, o público deles era muito mais amplo: meninas de ginásio, operários, gente de subúrbio que começava a comprar os discos de iê-iê-iê. A música deles não tinha censura cultural. Era pra fazer sucesso. De repente, o descompromisso em salvar a cultura nacional possibilitava falar diretamente de assuntos que estavam reprimidos pelo pessoal 'de cá', com a afirmaçao de coisas atuais da vida: O MEU CARRO É VERMELHO. Nem Vandré nem Edu Lobo diriam isso, embora tivessem um carro que talvez fosse vermelho. Ou arrebatamento de paixão: MEU CORAÇÃO É DO TAMANHO DE UM TREM; havia um individualismo feroz de saúde brutal:SIGO INCENDIANDO BEM CONTENTE E FELIZ, NUNCA RESPEITANDO O AVISO QUE DIZ: É PROIBIDO FUMAR. Roberto Carlos disse isso. A primeira pessoa que superou essa guerra musical foi Jorge Ben. Enquanto as pessoas brigavam, ele já estava na Jovem Guarda, cantando uma música que dizia: EU SOU DA JOVEM SAMBA.”

domingo, 9 de janeiro de 2011

As Primeiras Apresentações de Joe Cocker no Brasil - 1977


Em agosto de 1977, o cantor inglês Joe Cocker se apresentava pela primeira vez no Brasil. Cocker, naquele período não vinha atravessando um momento dos melhores em sua carreira, muito em virtude de seu envolvimento com a bebida e as drogas, e por seu caráter perdulário - tinha perdido muita grana com uma excursão altamente dispendiosa, registrada no documentário The Mad Dogs & The Englishmen. Talvez por isso naquele momento seu cachê não era dos mais caros para um astro de sua grandeza. Porém, segundo o relato de publicações da época, suas apresentações ficaram marcadas pelo despreparo e desorganização por parte dos promotores. A revista Música nº 16, fez um relato do evento. Logo de cara, ao anuciar o cantor, o apresentador cometeu um erro de pronúncia. “It's Cocker, not Cuker”, corrigiu Joe assim que subiu ao palco. A matéria dizia: “Nos camarins, nos hotéis, nos ônibus e nos aviões a desorganização não perdia para aquela dos shows. Para Joe e Michael Lang (promotor de Woodstock, e que fazia parte de sua equipe), no entanto a situação não era nada engraçada. Mike, que conseguiu organizar 30 dos maiores conjuntos e 600 mil pessoas em um só concerto, ficou francamente espantado com a capacidade da Vasglo (empresa que trouxe o show) de não conseguir organizar um mero concerto de um grupo para 3 mil pessoas. Lang teve de passar três noites em claro no Brasil, no telefone, arranjando tudo o que os organizadores responsáveis pelo show aqui se esqueceram de arranjar. Em Santos, inclusive, Mike teve de chegar ao cúmulo de pedir ao técnico de som para que cedesse seu lugar na mesa para ele. E apesar de Mike não entender nada de botões, este foi o melhor concerto brasileiro de Joe.

Dos vários comentários de Joe, estes são alguns dos mais ilustrativos sobre os problemas por ele enfrentados em sua turnê brasileira: "Anota aí alguns palavrões em português no meu caderninho, porque eu estou vendo que vou ter bastante chance de usá-los...” "Este é o teatro? Então, onde é que estão os camarins? Estes são os camarins, hein? Já que não têm porta, armário, cabide, espelho, pia ou toalhas, será que vocês poderiam me arrumar um banquinho?"
"Todo mundo trouxe sabonete pra tomar banho? Como? Ah, não precisa. Não é que já tenha sabonete. É que não tem chuveiro.”
Porém, nem tudo foram só derrotas nessa excursão. Sobre suas performances no palco, a matéria comenta: “Naquele fim de semana – 20 e 21 de agosto – não se apresentou apenas uma grande estrela do palco pop. Estiveram também em São Paulo, além do incrível vocalista de blues, Joe Cocker, o tecladista Nicky Hopkins e o saxofonista Boby Keys, ambos preferidos pelos Stones, em suas apresentações ao vivo ou mesmo em discos de estúdio. E muita gente que não sabia deste importantíssimo detalhe ficou sem ir, certamente pensando em encontrar um Joe Cocker cansado, marcado pelo tempo e pela estrada, sem aquela força taurina que marcou os tempos de Mad Dogs & Englishmen. No entanto, Cocker esteve maravilhoso, com sua voz forte e poderosa, seu embalo mágico, seus sentimentos em pé, sua coragem ativa. Talvez apanas algumas cicatrizes deixadas pela tristeza que teve de renegar a posição número um do cantor pop, para fazer excursões e shows baratos, com a finalidade de ver-se livre das enormes dívidas contraídas.”

sábado, 8 de janeiro de 2011

Rita Lírica


Em 1994 foi lançado um livro de fotos e letras de Ritas Lee. O título Rita Lírica é um bem bolado trocadilho, já que traz 123 letras de músicas, além de ótimas fotos e montagens. O livro não traz nada além das fotos e letras, não tem nenhum texto de apresentação, orelha nem texto de contracapa.
O livro apresenta um bom acabamento, papel couché, e um excelente trabalho gráfico. São 344 páginas, que trazem letras e fotos de várias de suas fases. As fotos abrangem diferentes épocas, não só da carreira, como de sua vida pessoal, infância, início com os Mutantes, carreira solo, a fase com a banda Tutti-Futti, além de várias montagens, como as que ilustram essa postagem. Todas as fotos são bem trabalhadas, e dão ao livro um acabamento gráfico de ótima qualidade.

As letras também abrangem toda a carreira de Rita, dando uma amostra da evolução de seu trabalho. Rita sempre foi uma boa compositora, mesmo quando seu trabalho mostrou um certo declínio, a partir dos anos 80, quando deu uma guinada para um lado mais pop. Mesmo nessa fase, muitas de suas músicas ainda traziam uma iventividade e uma verve que são típicas de seu trabalho.

Quem procurar no livro informações, textos ou algum tipo de revelação ou novidade não encontrará, mas as ilustrações são de ótima qualidade, remetendo às vezes a coisas ligadas à pop-art, meio anos 60, e também é bom relembrar as velhas canções de Rita. Esses são os objetivos da obra.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Mandou Mal


No dia 2 de novembro de 1997 o professor de Lígua Portuguesa Pasquale Cipro Neto estreava sua coluna dominical Ao Pé da Letra, no jornal O Globo. A coluna tinha por objetivo tratar de assuntos ligados ao uso da línguagem e suas aplicações, e levantava questões interessantes.
Em sua estreia, o professor Pasquale falou sobre verbos indefectivos, aqueles que por questões meramente sonoras, não são conjugados em todas as formas verbais, como por exemplo, carpir, feder, colorir, demolir, extorquir e banir. Em um trecho de seus comentários, ele afirma: "A língua formal se fundamenta no registro culto, naquele que é referendado por bons autores, por escritores clássicos, renomados. Não é da noite para o dia que uma palavra ou expressão podem fazer parte do fechado clube da norma culta."
Na semana seguinte, no fim de sua coluna, Pasquale comenta uma carta ou email que recebeu, comentando sua coluna da semana anterior:
"Uma leitora, do Jardim Botânico, escreve-me a respeito da coluna de estreia. Transcrevo:
'Espero que as próximas seções de Ao Pé da Letra não contenham erros crassos como o exemplo de hoje, na sua estreia no jornal: 'Não é da noite para o dia que uma palavra ou expressão podem fazer parte do fechado clube fechado da norma culta.' Seu estilo é agradável e simpático, mas sugiro que que o senhor tome cuidado com o que escreve porque afinal de contas, seu objetivo é ensinar certo, verdade?... O mesmo erro de concordância foi cometido pelo Miguel Paiva no Gatão de Meia-Idade (pág.34): 'O problema não é discutir sobre o que o Gugu ou o Faustão vão fazer no domingo...', mas ele é cartunista, e não professor de português."
Em seguida o professor Pasquale responde:
"Cara leitora: ensinam todas as boas gramáticas que, quando os núcleos do objeto são ligados por ou, o verbo vai para o plural 'se o fato expresso pode ser atribuído a todos os sujeitos' (as aspas foram colocadas porque se trata de transcrição de Celso Cunha e Lindley Cintra). É o caso de minha frase. O fato de 'poder fazer parte do fechado clube da norma culta' pode ser atribuído aos dois sujeitos ('uma palavra ou expressão'), por isso o verbo no plural, corretíssimo ('podem'). Ensinam ainda os mestres que o verbo vai para o singular 'se o fato expresso pelo verbo só pode ser atribuído a um dos sujeitos'. É o que ocorre em uma frase como 'O Vasco ou o Inter será o campeão brasileiro de 1997'. Agradeço a preocupação de escrever.
P.S. Miguel Paiva também acertou."

O que me chamou a atenção foi a arrogância da leitora, que se achando senhora da verdade, viu-se no direito de escrever um texto de forma tão agressiva. Mesmo se por acaso o professor tivesse cometido o erro que ela lhe atribuiu, ela poderia lhe escrever de uma forma mais educada. Falando em educação, a resposta que ela recebeu foi bem polida, passando-lhe não somente uma lição de gramática, mas também de educação. Espero que ela tenha aprendido as duas lições.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Festival de Orange (França) - 1975


Orange é uma pequena cidade francesa, localizada a 700 km de Paris. Foi construída no ano 105 a.C pelos romanos, por isso sua arquitetura traz toda a influência da arquitetura romana, não podendo faltar um enorme teatro que traz uma arena com grandes arquibancadas de pedras, lembrando o Coliseu de Roma. Nesse espaço fantástico, onde no passado eram realizadas batalhas entre gladiadores, nos anos 70 aconteciam festivais de rock, que reuniam multidões vindas de toda a Europa.
Em 1975 o festival trouxe bandas marcantes da época, algumas hoje desconhecidas, e outras, que se tornaram marcantes. A primeira atração foi Jess Barden, que não conheço, mas que segundo uma matéria da época, era líder de uma banda de soul, que botou o pessoal pra dançar. Em seguida foi a vez do Fairport Convention, uma ótima banda da época. O show seguinte, segundo a revista, foi o mais pirado do evento. John Cale, ex-Velvet Underground, vagava de um lado para outro no palco, tropeçando em microfones, enrolando-se em fios, não tomando conhecimento de sua banda de apoio. Devia estar muito louco, pois além disso, adandonou o palco em seguida, correndo em direção à rua. A competente e pesada Bad Company, banda do vocalista Paul Rodgers, ex-Free, fecharia a primeira noite do festival, e traria ao palco um bom hard rock, que era seu estilo.

A segunda noite se iniciaria com outro desconhecido pra mim - John Martyn. A atração seguinte foi uma banda que fazia um som contagiante: Dr. Felgood, que segundo a matéria "foi a única vez, em todo o festival que o público inteiro levantou para aplaudir e dançar". As atrações seguintes são dois grupos clássicos dos anos 70, que acredito que tenham feito grandes apresentações: Procol Harum e Tengerine Dream.
Como todo grande festival de rock tem que ter a inevitável chuva, ela veio no terceiro dia, que reservou grandes shows, mas não atrapalhou a empolgação do público. Primeiramente a Climax Blues Band, banda pouco conhecida, mas que fazia um ótimo som, um blues eletrificado e pesado. Soft Machine, outra banda clássica, se apresentou com seu som viajante. A Caravan é outro grupo que acredito que tenha feito um grande show. As duas últimas grandes atrações, também creio que tenham feito apresentações memoráveis, pelo som que faziam na época: a Mahavishinu Orchestra, liderada por John McLauglin, um dos melhores guitarristas da história, com seu som fusion eletrificado, e Wishbone Ash, outra banda clássica de alta competência.

Fico imaginando com deve ter sido o clima do evento, onde 25 mil pessoas assistiram a todos aqueles shows fantásticos, numa paisagem como aquela, numa época marcada por tantas grandes bandas, que viviam seu auge criativo. Bons tempos aqueles.