Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Psicodelia Para Principiantes - Revista Bizz (1990)

O psicodelismo é um assunto que nunca saiu de voga. Volta e meia, fala-se nas experiências de expansão da mente, das drogas alucinógenas, do rock viajante, dos vários festivais de rock  que se realizaram nos anos 60, e em personagens ligados a essa vertente cultural e comportamental. Em sua edição nº 58, de 1990, a revista Bizz trazia uma ótima matéria sobre a psicodelia, onde vários textos e informações traziam à luz as principais características das viagens da mente que se praticavam na época. Um dos textos era assinado por André Forastieri e José Augusto Lemos, e  se intitulava "Psicodelia para principiantes", e trazia em destaque um dos lemas do movimento hippie: Ligue-se... Sintonize...Caia fora (do Sistema):
"Turn on, tune on, drop out, o slogan máximo do psicodelismo, criado por Timothy Leary, pode sugerir hoje ranço e hippismo.
Afinal, pós-perestroyka, as drogas foram eleitas inimigo número um da civilização ocidental. E entre seus consumidores - um mercado global que movimenta cerca de cem bilhões de dólares ao ano, quase a dívida externa brasileira - as químicas mais procuradas não são mais as alucinógenas, mas as estimulantes: cocaína, crack, anfetaminas diversas. A maconha continua popular, mas seu consumo cai regularmente no mundo inteiro há anos.
Substâncias alteradoras do funcionamento da mente são cada vez mais malvistas. Para a geração que cresceu sob a ofensiva antidrogas de Reagan, é inimaginável o fato de que há pouco menos de trinta anos a utilização de alucinógenos como expansores da consciência era defendida com unhas e dentes por uma fração razoável da elite científica do planeta.
A psicodelia - 'manifestação do espírito', em grego - tem raízes milenares. Praticamente todas as civilizações de que se tem notícia usaram um ou outro tipo de alucinógeno, quase sempre com fins religiosos. Mas a maneira como o movimento psicodélico floresceu no início dos anos 60, principalmente na costa oeste dos EUA, tem uma base distinta no New Deal, política de realinhamento econômico promovida nos anos 30 e 40 pelo presidente Franklin Roosevelt.
A América pós-New Deal foi pautada por quatro explosivos elementos: o maior desenvolvimento econômico da história, a maior distribuição de renda, a maior expansão da rede de comunicações, a maior explosão demográfica. O termo baby boom é perfeito: entre 1946 e 1964, 86 milhões de crianças foram colocadas numa sociedade superafluente, em meio à uma explosão informacional inédita. A televisão colocou o mundo ao alcance de todos e forneceu a essa geração uma fortíssima ilusão de livre arbítrio.
O material humano para a aventura psicodélica já estava, portanto, em ponto de bala. O material químico também: já em 1938, o bioquímico suíço Albert Hoffman havia sintetizado o vigésimo-quinto derivado do ácido lisérgico, mais conhecido com LSD.25. Em 1958, sintetizou a psilocibina, princípio ativo dos 'cogumelos mágicos' mexicanos. E a maconha, claro, já era consumida nos circuitos jazzísticos.
A Califórnia dos anos 50 foi um foco privilegiado para o nascimento da chamada 'contracultura', reunindo artistas expatriados como Aldous Huxley e a produção local dos hipsters e beatniks, amantes do jazz e da poesia libertária de Walt Whitman e Thoreau. Na linha de frente, o grupo de escritores beat, comandado por Jack Kerouac, Allen Ginsberg e a farmácia ambulante, cobaia de si mesmo na experimentação de toda e qualquer droga, Willian S. Burroughs. Entre eles, o interesse pelo hinduísmo e pelo zen-budismo (disseminados pelos escritores Alan Watts e D.T. Suzuki) lançava as sementes para o movimento hippy da década seguinte.
A primeira bíblia do psicodelismo veio assinada por Adous Huxley, descrevendo sua experiência com a mescalina, princípio ativo do peiote (cacto mexicano). Editado em 54, As Portas da Percepção adquiria uma credibilidade com que os beatniks não podiam sonhar; seu autor era um romancista, ensaísta inglês consagrado. Em seu leito de morte, em 63, Huxley pediu uma dose de LSD.25, não recusada. (O ácido lisérgico, comercializado em cubinhos de açúcar e depois papel mata-borrão, só foi proibido em outubro de 66.)
A coisa toda poderia ter continuado como uma brincadeira de elite, como o ópio entre os poetas românticos e simbolistas franceses (Théophile Gautier, Baudelaire e Nerval chegaram a fundar um 'Clube do Haxixe' na Paris do século dezenove). As comunicações de massa não deixaram, ajudadas pelo doutor em psicologia clínica Timothy Leary, professor da prestigiosa universidade de Harvard, que desde de 60 pesquisava a psilocibina e o LSD, até ser expulso em 63. Perseguido pelo establishment e sem dinheiro para continuar suas pesquisas, Leary viu a saída apontada numa conversa com o mais influente teórico das comunicações dos 60, Marshall McLuhan. O conselho: 'Se você realmente acredita no LSD, faça proselitismo, palestras, happenings, shows, coisas criativas. Não perca uma chance de divulgar suas ideias na mídia. Se você ficar sozinho, está ferrado'. Leary seguiu-o à risca - com enorme sucesso. O livro reunindo suas palestras e entrevistas - The Politics Of Ecstasy - tornou-se a segunda bíblia psicodélica.
Quando veio a década de 60, São Francisco já cultivava a boêmia beatinik como uma tradição e, aos poucos, seu cenário musical começou a refletir isso. O culto ao jazz foi trocado por uma onda de folk de protesto, que por sua vez fez a transição para o rock psicodélico da primeira geração: Jefferson Airplane, Quicksilver Messenger Service, Moby Grape e o maior de todos, o Grateful Dead - com sua legião de seguidores, batizados 'deadheads'. Comandado por Jerry Garcia, o grupo participou integralmente dos acid tests (festas de som e imagem, a primeira versão das atuais raves inglesas) organizados pelo escritor Ken Kesey e sua turma, os Merry Pranksters. Quem lê inglês, não deve perder The Eletric Kool-Acid Test, de Tom Wolfe(*), que acompanhou todo o trajeto dos Merry Pranksters e, por tabela, escreveu a história definitiva do movimento hippy.
O florescimento do psicodelismo - que teve seu auge entre 65 e 66, e iniciou sua massificação mundial em 67, o chamado 'Verão do Amor' - logo fez uma ponte com a  Europa, através de Londres, Carnaby Street, com suas butiques hippy, passou a ser equivalente à esquina da rua Haight com a rua Ashbury, o centro do turbilhão em São Francisco. O intercâmbio era feito basicamente através de rock stars em turnê. Segundo a lenda, os Beatles fumaram maconha pela primeira vez com Bob Dylan; e Tom Wolfe, descreve, no livro citado, o primeiro contato do quarteto de Liverpool com o underground californiano.
Em pouco tempo, Londres tinha no Pink Floyd o seu Grateful Dead. Com um light show lisérgico e encabeçado pelo freak Syd Barret, o grupo era a principal atração do underground e não perdeu o séquito de fãs quando, contratado pela Columbia, passou a frequentar as paradas de sucesso.
A descoberta de que o flower power já contava com uma multidão de adeptos se deu com a organização de um festival de grupos psicodélicos organizado pelos Merry Pranksters e o Grateful Dead: grátis, ao ar livre, o First Human-Be-In reuniu milhares  no Golden Gate Park, em janeiro de 67 em São Francisco. A indústria fonográfica - sediada ao lado, em Los Angeles - percebeu o potencial e, em junho do mesmo ano, promoveu o Monterey Pop Festival. A movimentação era divulgada via satélite para o mundo todo, mas a contracultura criava seus próprios sistemas de divulgação: rádios piratas, fanzines, gibis underground, jornais como o Detroit Free Press, revistas como Rolling Stone, International Times e - na Inglaterra, It e Oz. A reação vaio a cavalo, com a maioria conservadora dos EUA elegendo Nixon em 68 e as grandes empresas aproveitando a onda - como a Warner Bros, ao transformar o festival de Woodstock num megaevento de marketing. Morreram Hendrix, Janis Joplin, Brian Jones, Jim Morrison, e John Lennon arriscou um epitáfio: 'O sonho acabou'.
Acabou nada. A contracultura e a psicodelia - mesmo banalizadas em musicais como Hair - foram um salto evolutivo no comportamento da raça humana, com um saldo político inegável. Na música pop nem se fala. Muito antes que o De La Soul sampleasse os ultrapsicodélicos Turtles, e o cenário acid house detonasse o verão londrino de 88 (com  a adoção de um novo químico, o ectasy), sua influência já podia ser sentida, de toda uma safra pós-punk inglesa ao funk de Prince. Boa parte da cultura pop vive hoje da criação de novas embalagens pra os mitos dos 60 - para enorme alegria dos executivos das gravadoras e do establishment em geral, que preferem  lidar com nostalgia inofensiva do que com novas formas de subversão.
Quem quiser saber mais sobre a movimentação dos 60 tem pelo menos dois bons livros à disposição no mercado brasileiro. Flashbacks, autobiografia de Leary, traça o mapa do sonho psicodélico. Las Vegas Na Cabeça, do jornalista gonzo e integrante da equipe original da Rolling Stone, Hunter S. Thompson, mostra com humor negríssimo o outro lado da moeda, a derrocada dos mais altos ideais da contracultura. "

  (*) Anos depois dessa matéria ser publicada, o livro foi traduzido para o português, com o título de Teste do Ácido do Refresco Elétrico.




segunda-feira, 27 de junho de 2016

CD dos Mutantes Lançado no Exterior - Jornal do Brasil (1998)

Sem dúvida alguma, os Mutantes são grandes representantes da música brasileira no exterior. A banda é cultuada por vários músicos nos Estados Unidos e Europa, e lá formou um grande público, que ao descobrir o rock irreverente e criativo dos Mutantes, se criou uma comunidade de fãs da banda brasileira. Músicos como Kurt Kolbain, Beck, Sean Lennon e outros, sempre exaltaram a música, a postura e a técnica musical do trio encabeçado pelos irmãos Arnaldo Batista e Sérgio Dias, além de Rita Lee.
Em sua edição de 20/12/98 o Jornal do Brasil trazia uma matéria sobre o lançamento nos Estados Unidos, do disco Technicolor, na época ainda inédito por lá. A matéria é assinada por Jomari França:
"Finalmente os gringos descobriram que na área off-samba, o Brasil não tem apenas a Bossa Nova e felizmente não embarcaram no sambanejo e nem nas baianices, mas no Tropicalismo e, principalmente nos Mutantes. Rita, Sérgio e Arnaldo sempre relutaram em admitir a genialidade de sua ex-banda. Até o ano passado Rita nem gostava de falar do assunto, mas finalmente ela se rendeu ao próprio passado e passou a colaborar com o staff da Luaka Bop para o lançamento da coletânea em CD duplo que sai em março trazendo a bordo o único LP ainda inédito dos Muta/Mutantes, como ela diz, o Technicollor, gravado em Paris em 1970.
Dois grupos de rock fizeram contato com o nascente Tropicalismo. Os argentinos dos Beat Boys, que Caetano Veloso escolheu para acompanhá-lo em Alegria Alegria e  os Mutantes, apresentados pelo maestro Rogério Duprat a Gilberto Gil, que os convidou para apresentar com ele Domingo no Parque num festival da Record. Os próceres tropicalistas pagariam caro pela ousadia, sendo bombardeados por terem a ousadia de colocar guitarras na música brasileira.
Os Mutantes, até então restritos a fazer covers, tiveram suas mentes abertas pelo contato com os tropicalistas, como contou Rita ao JB em 1997, num depoimento a respeito do livro Verdade Tropical, de Caetano. 'Pela primeira vez na vida me percebi brasileira e adorando estar perto de gente inteligente, generosa e estimuladora. Os Baptista Bros, realmente eram bastante neoinglesados, e eu, já com um pé na ascendência gringa, buscava exatamente o oposto. Caetano e Gil me ensinaram direitinho o mapa da mina, tanto que ele conta no livro que quando os Mutantes partiram para o deslumbre progressivo a la Yes e Emerson, Lake and Palmer eu tirei meu time de campo e continuei no rock brasilês radical debochado e me dei bem.'
O voo inicial dos Mutas foi Panis et Circensis, que entrou no disco-manifesto Tropicália e depois foi a faixa de abertura de Os Mutantes (68), disco inaugural da banda, que esboçava a fórmula original que eles passariam a usar: arranjos ousados, psicodélicos, letras bem humoradas, interpretações teatrais e uma musicalidade muito avançada para a época, com timbres inusitados e experimentações eletrônicas e vanguardistas por conta do maestro Rogério Duprat e de Cláudio César, o irmão mais velho de Arnaldo e Sérgio que criava instrumentos e efeitos. Tão vanguarda que até hoje, 30 anos depois, ninguém conseguiu colocar o carimbo de datado em nenhum dos seis discos que eles gravaram com a formação original: dois com o nome da banda em 68 e 69, A Divina  Comédia ou Ando Meio Desligado (70), Jardim Elétrico (71), Mutantes e seus Cometas no País do Bauretz (72) e Hoje É o Primeiro Dia do Resto de Sua Vida (72), este último um LP solo de Rita Lee, mas gravado por todo o grupo dentro dos parâmetros sonoros originais.
Nenhum destes discos está  à disposição no mercado brasileiro, o que impede que as novas gerações também descubram os Mutantes. O repertório deles é um notável mix de vanguarda com músicas comerciais, rock e MPB. Eles criavam um jantar psicodélico em Panis et Circensis com direito a conversas de salão, barulho de louças e talheres, diversas mudanças de andamento e um fim brusco, como se o disco perdesse rotação. E começavam uma música como Minha Menina, com um grito: 'Tosse, todo mundo tossindo'.
A saga de D. Quixote é recriada como se tivesse imagens, com cavalos marchando ao som de fanfarra e uma interpretação cômica de Rita, num ágil jogo de palavras. O lirismo tem lugar na doce interpretação de Rita ao som de harpas em Fuga nº 2 e Dia 36 tem um experimentalismo digno do que a vanguarda do rock fazia na Inglaterra e nos EUA. Assim eram, ou melhor, são os Mutantes. Disponíveis a partir de março em CD importado. "

domingo, 26 de junho de 2016

Cineasta Rogério Sganzerla Fala de Jimi Hendrix - Folha de São Paulo (1981)

O cineasta Rogério Sganzerla (1946/2004), um dos nomes mais importantes do cinema marginal brasileiro, diretor de filmes marcantes, como O Bandido da Luz Vermelha, Sem Essa Aranha e Copacabana Mon Amour, escreveu na Folha de São Paulo, em 1981, um texto sobre Jimi Hendrix. Rogério chegou a filmar uma apresentação de Hendrix na Inglaterra, e sua vocação para a arte contestatória e transgressora o levou a ser um fã do incendiário guitarrista americano. Segue abaixo o texto, intitulado"Música das estrelas":
"Músicas das estrelas. Sim, se é que assim posso me exprimir diante desses acordes suaves mas ao mesmo tempo brutais - brutais mas suaves - de uma construção absolutamente original na sua fase mais evoluída no estágio mais avançado de arte, diferente de tudo que se ouviu nessa  ou noutra geração; sim, porque Jimi sabia de tudo e, por dentro de altas esferas astrais, dá um show de notas que me fazem lembrar certos instrumentos de corda da alta antiguidade, de sons e cores (interligados), valorizado pelos antigos astecas, egípcios, incas, (isto é, os primitivos povos da mente livre e primitiva, sem medo, esforço, razão; da imaginação e de culto aos mortos; do princípio único e da reencarnação).
Jimi é gênio e ele sabia-o.
Sabendo de altas esferas astrais, ele predisse exatamente tudo que um imbecil de classe não tem coragem de constatar ou tolerar: ele diz só uma coisa, uma coisa somente, ou melhor, ele não diz nada, prediz tudo:
'I dont live today
Maybe tomorrow'
- Wait until tomorrow
(... So cool and a tonely is terrible...)
Como Noel de Medeiros Rosa, ele não se cansa de dizer 'até amanhã se Deus quiser', admitindo-se claramente que 'amanhã' significa - em toda literatura oriental e(s)xotérica - próxima encarnação da roda gira tal caminho da luz e verdade nos vasos comunicantes do inconsciente coletivo e astral.
Música das estrelas, se é que assim posso me referir ao que alguns tão estupidamente não tiveram coragem para ver, entender ou reconhecer: Jimi é um gênio e ele o sabia. Sabia-o sabendo de (tudo) altas estruturas astrais que o amanhã aí está e prova (rá) aos desinteressados porque é que um gênio como Hendrix nasce de cem em cem anos, e não é pra menos.
Muyrakitan - Mudra: mudança, murmúrio, música. MU. Aum Ôm...Um.
Música de papel. Nessa e em todas outras. O som da palavra na página branca. Insonora presença do não-ser. Com Hendrix temos todas as rimas possíveis, impossíveis, o som e o infrasom também como no samba pré-atlante.
O guitarrista explode em sua suave rebeldia. O rebelde conceito que dentro de determinadas esferas astrais consiste na essência mesma da divindade e prova - indireta e vulgar - de um alto valor de delicadeza, firmeza e sensibilidade. (no fundo, respeito).
Entrando soberbamente nesse 'rainy day stil dreaming' a elegância do criador se revela como o próprio tema dessa música flutuante, vazia, sem conteúdo - mas em velocidade incomum - das frases musicais que instantaneamente se transformam (em opostos, que dão voltas, como o samba - grito, uivo, esganiçado blues); faz de si mesmo seu próprio tema. Em seus opostos descadenciados tendendo ao outro som - conceito fundamental dessa obra de arte que procura - e acha - o outro lado da história e do homem/humanidade. Som do silêncio. Atonal/tomista/atômico... Exemplar é a desburocratização da mente na guitarra do guitarrista. Som que mata a morte.
E se transforma em novo tema, totalmente imprevisível, dele oriundo e, no entanto, diferente; e as notas obedecem ao conflito interno do gênio antes de saltarem, novas e afinadas na guitarra do guitarrista. Segundos antes de surgirem, como por milagre elas lutaram entre si - onde? - na mente de Hendrix.
Como um ideograma, elementos justapõem-se, anulam-se, multiplicam-se, somam-se e participam da construção ideogramática que é a base necessária ao ideograma: é preciso que nesse nível a obra de arte seja o resultado de usa própria experiência no mundo do esquecimento e do não ser - antes de mergulhar na mente de Hendrix - e que seja a expressão de revolta - da mente à caminho da revolução total - e não somente de alguns aspectos secundários, estatísticos, demográficos.
Na 'virada da melodia' é que se vê  o valor do sambista.
Fundamental: ideograma como a samba é o que se faz por si próprio. Por si mesmo tem raízes em si. E não fica por aí; alimenta-se a si mesmo - desenvolve-se, transforma-se.
É comum nos discos de Hendrix, no primeiro-terço (1/3) de uma faixa ela já estar completamente desenvolvida e, como o samba, se transformar, geralmente em seu oposto tema musical, numa 'virada' melódica, que a faz voar mais alto, e transformar-se e madura fica 'Laughing Stars that play Sam's Dice').
Ou melhor - já nas notas iniciais Hendrix disse tudo sobre aquela música - partindo de avançado ponto de partida; dando o show habitual, porque pode; avançado ponto de partida onde as duas ou três primeiras notas já abrem a espiral que nos minutos seguintes desenvolverá magistralmente, até destruí-la numa virada; e partindo do exato oposto, voltar ao ponto de partida, confirmando a consciência e a lucidez de sua arte que esse artista de primeira grandeza não cansa de demonstrar. Por vaidade, orgulho?
É importante esclarecer a verdadeira natureza de um gênio. Partindo de então inteira lucidez, podendo desequilibrar à vontade, exatamente por deter o equilíbrio mágico - o estar por perto de altas medidas astrais, ou o 'côvado  sagrado' como os egípcios chamavam; ele, Hendrix, não precisava 'voltar' à vaidade, à ostentação e orgulho depois de já ter passado por isso e exatamente por assim parecer (aos que não sabem ver e julgam de acordo com preconceito de sua mente deformada: os americanos porque poderia se dar ao luxo de parecer vaidoso exatamente porque não o era. Ele - como todo gênio - não poderia disfarçar sua genialidade. Estava na cara - demais - e por isto nada mais cômodo do que mascarar essa verdade como uma cômoda (aparentemente, consequentemente incômodo) falsa imagem de presunçoso, egoísta para se defender. A máscara acabaria se confundindo com quem a usava?
Acredito que Hendrix era um ser paranormal, extremamente evoluído nos planos mental, pessoal e cósmico, de destino privilegiado. No plano de determinismo e do fatalismo, seu 'duplo' deveria conter um ser grande demais para esse (i) mundo - como Noel e outros que não poderia lembrar.
Hendrix sabia de tudo. Essa é a característica fundamental do homem, que se sabe por dentro - e da mente que, não tendo medo, dirige-se ao extremo limite sem faltar-lhe três coisas fundamentais: coragem, firmeza, inteligência. Aí está a fórmula mágica do artista da Casa Vermelha, ou da Causa: daqueles que modificam a face da Terra.
Realmente, não erra quem diz que um artista desses só nasce de cem em cem anos. E não é para menos..."

sábado, 25 de junho de 2016

Zé Rodrix Fala do Trio Sá, Rodrix & Guarabyra - Jornal O Bondinho (1972)

Após sair do grupo Som Imaginário, Zé Rodrix se juntou a Luis Carlos Sá e Gutemberg Guarabyra, para formar um trio, que se tornaria referência no rock brasileiro dos anos 70: Sá, Rodrix & Guarabyra. Em 1972, Rodrix escreveria um texto para o jornal O Bondinho, um importante órgão da imprensa underground. Na entrevista o músico fala de seu novo projeto ao lado dos novos parceiros, talvez sem imaginar a grande importância que o trio ainda em formação teria na música brasileira, criando, inclusive, um novo estilo, batizado de rock rural. Nele Rodrix fala do primeiro disco a ser lançado pelo trio. Segue abaixo a matéria:
"Os sons mágicos, misteriosos e tropicais do Som Imaginário acompanharam Gal e Milton Nascimento, em discos e shows, no ano passado. Agora, Zé Rodrix, um dos líderes do Som, está trabalhando música caipira, com Guarabyra e Sá. O que ele explica para  O Bondinho.
Pegamos, nós três, uma mania terrível. Resolvemos não esconder mais nossa verdadeira concepção enquanto seres humanos, enquanto gente. Eu e Gut nascemos lá no interior da Verdadeira Bahia, o Sá viaja pelo interior do Verdadeiro Brasil desde tenra idade. Foi aí que nós nascemos, no meio da mataria, entre cobra coral e galinhola do brejo, entre boi ladrão e caboclo sonso. A picada do mato é o caminho em que a gente anda melhor. Um dia, mais taludinhos, vínhamos vindo nesta picada quando o mato se abriu; lá na frente apareceu uma cidade, apareceu uma cidade à beira-mar, e a gente ficou meio besta, olhando naquele negócio enorme de cimento, no meio do qual as pessoas andam e vivem e ganham dinheiro. Até hoje a gente se boquiabre por dentro quando sai no meio da rua, e se assusta um pouco. O que não quer dizer nada. Na nossa veia corre muito pouco samba. Por mais desesperado e eletrotécnico que a gente pudesse querer ser, ou mais popular, ou folclórico, as fases primordiais no nosso conhecimento do mundo através da música se dividia em duas partes: o baião e o rock, que no fim vinham dar na mesma. E agente bateu cabeça na cidade grande, querendo sucesso e a combinação de dinheiro, boêmia e mulheres, que no fundo é o sonho de todo tabaréu. Já tivemos tudo isso, já fizemos parte das igrejinhas mais fechadas: e descobrimos a tempo que, se a voz do povo é a voz de Deus, não é a voz das  freirinhas. 
Sá, Rodrix & Guarabyra
Hoje, depois de 7 anos de luta inglória,descobrimos que sempre nos faltou um requisito especial: a honestidade. O que continua não querendo dizer nada. Se a gente se descobriu caipira um dia, não quer dizer que a gente vai ser o caipira, que as pessoas se acostumaram em ver em festa de São João; que aquilo é caipira de televisão paulista. Se a gente se descobriu rock, não quer dizer que a gente use lambreta, casaco de couro e cante Long Tall Sally o dia inteiro.  Se eu e Gut somos baianos, não quer dizer que sejamos de Salvador; Salvador não está com nada e não faz parte da Verdadeira Bahia. Se o Sá disser que é carioca, não quer dizer que ande de camisa listrada e chapéu de banda: o Rio só é útil porque nossa gravadora fica na Avenida Rio Branco, quase mar. O Brasil não conhece o seu habitante do interior. E, por isso mesmo, quando vê um conjunto baiano fazendo um som incrível, de flautas e bumbos e oficlidis, chama de folclore, e se distancia, observando com certa repugnância, porque assim  se convencionou, segundo as leis do maldito progresso. O que ainda não quer dizer nada. Resolvemos fazer uma parede, já que três cabeças pensam melhor que nenhuma. E fizemos o disco praticamente sozinhos, trabalhando apenas com as pessoas que poderiam nos compreender de imediato e sem prejuízo da saúde de ninguém.
A Odeon nos deu a maior cobertura. É que nenhum músico tradicional, por mais aberto e melhor que fosse, iria saber tão bem como nós mesmos o que fazer. O disco é artesanal como um Vitalino, e, por isso mesmo, terrivelmente profissional como um Picasso. O que quer dizer alguma coisa é o nosso trabalho. O disco tem uma estrutura muito coesa e coerente, no entanto impossível de sentir em cada faixa individual. As faixas são: Zepelin (desbunde interiorano com uma banda querendo, em vão); A Luz do Céu (hino batista de enorme valor); Ama Teu Vizinho (congada bíblica); Me Faça um Favor (caipirada pelo menos alegre);e várias outras. Isso quer dizer alguma coisa. Gostaríamos de ser ouvidos."



sexta-feira, 24 de junho de 2016

Elis Regina - Última Entrevista (1992)

A morte prematura de Elis Regina, em janeiro de 1992 causou uma comoção nacional. Considerada por muitos, e com razão, como a melhor cantora do Brasil, Elis era uma mulher de grande fibra e forte personalidade. Dona de uma inteligência brilhante, suas entrevistas encantavam tanto quanto seu canto.
Por ocasião de sua morte, a revista Amiga editou uma revista especial sobre Elis, uma edição histórica trazendo matéria jornalística sobre sua morte, além de muitas fotos, depoimentos, entrevistas, etc. A revista ainda trazia trechos de sua última entrevista, realizada poucos dias antes de sua morte, para o programa  Jogo da Verdade, da TV Cultura. A matéria trazia uma chamada, com uma frase dita por Elis na entrevista: "Eu não entendo e talvez vá morrer sem entender as pessoas". 
Um texto introdutório dizia: "Toda vivacidade que demonstrava como cantora, Elis Regina não tinha em seu interior. Ultimamente, seus olhos revelavam muita depressão. Isto ficou patente em sua última entrevista, gravada no dia 4 deste mês, para o programa Jogo da Verdade, levado ao ar três dias depois. Entre suas mágoas, muitas queixas sobre a profissão. Da vida, uma certeza: 'Eu queria morrer.' "
Abaixo, os trechos selecionados pela revista de sua última entrevista:
"Qual a faceta que estou mostrando para você? A de uma profissional de música e ponto final. Porque bem poucas pessoas vão conhecer minha casa. Sou Elis Regina de Carvalho Costa, que poucas pessoas vão morrer conhecendo!"
"A minha missão é cantar, é dar alô. Dizer para as pessoas umas coisas que elas não sabem e aprender outras que não sei."
"Eu cantei nas Olimpíadas do Exército, das quais o pessoal da Globo também participou. Foram todos obrigados. E você vai dizer que não? Eu tinha exemplos muito recentes de pessoas que disseram não e se lascaram. Então eu disse sim."
"Aos poucos arregalei os meus olhos e vi que não sou apenas um passarinho que sabe cantar muito bem porque lhe deram alpiste na hora certa."
"Acho que, de certa forma, as pessoas tinham até razão em não se aproximar de mim, porque eu exalava intranquilidade."
"Jamais procurei refúgio em divãs de analistas. Para me fazer a cabeça, prefiro um cabeleireiro ou uma roupa nova."
"Não posso perder tempo em ser uma gaúcha, quando preciso ser uma brasileira, quando sou parte de um mundo, quem sabe com a possibilidade de ajudar a fazer com que as pessoas melhorem."
"De excelentes cantoras o Brasil e o mundo andam cheios. A mim não interessa ser uma boa cantora a mais. Quero usar o dom que a mãe natureza me deu para diminuir, com ele, a angústia de alguém. Essa ideia é que pode dar sentido ao meu trabalho. E é por isso que cultivo essa ideia com carinho todo dia."
"Hoje em dia ninguém tem amigos sem medo."
"O livre-arbítrio existe. E foi através dele que eu acabei com toda aquela minha vida e recomecei, sem raiva, sem ódio de ninguém."
"Sou espírita. Há espíritas e espíritas. O importante é que você entenda que vem para cá se lascar mesmo, que é para ficar mais legal, porque você precisa se acrescentar, você tem coisas a dizer, porque tem compromissos assumidos antes com as organizações que tomam conta disso tudo. E depois você vai ter que prestar contas."
"Casar não é difícil. difícil é descasar, porque além de tudo, a Justiça é machista. Minha cabeça virou esbórnia. Decidi não levar mais nada a sério a não ser a febre do menino."
"Aprendi que a vida é feita de dois lados Você precisa conhecer o lado torto para conhecer o lado bonito."
"Agora só me faltam carneiros e cabras pastando solenes no meu jardim. Viver é ótimo!"
"Eu não entendo e talvez vá morrer sem entender as pessoas."
"Todos nós somos profundamente inibidos. O lado suicida é cultivado talvez porque a gente seja um pouco masoquista. A gente é tão masoquista que escolhe uma carreira de marginal, uma profissão que não existe."
"Em termos de absoluta verdade, não posso negligenciar o que me foi rico na vida. Cantar não é trabalho; é devoção e sacerdócio. E ser artista foi o que me deixou de pé. Foi para isso que eu vim. Filho é tão forte quanto. O resto é resto..'
"No final o que me vai sobrar no palco e cantar. Como Edith Piaf."

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Astrud Gilberto - Jornal O Globo (2000) - Parte II

"Em 1984, 'The girl from Ipanema' voltou às paradas americanas numa onda nostálgica, e a carreira de Astrud foi revivida. Na Inglaterra, grupos como Sade, Everything But The Girl e Matt Bianco faziam um pop de embalagem acústica, no que foi batizado no Brasil de new bossa e os discos da cantora brasileira estiveram entre as referências para esse período. Entre 1986 e 1990, o violonista Romero Lubambo, outro brasileiro radicado em Nova York, a acompanhou em excursões por Japão, Europa e EUA. Lubambo conta que a cantora fascinava os públicos mais diferentes.
- Havia os fãs do tempo da bossa nova que continuavam fiéis, mas era impressionante ver a quantidade de jovens na plateia. Nessa época ela estava querendo mudar um pouco o estilo, cantar ritmos diferentes, acrescentar suas próprias composições. O público gostava mesmo assim, mas no fim ela não podia sair do palco se não cantasse 'Garota de Ipanema' - diz Lubambo.
O lado compositora de Astrud é ainda mais desconhecido no Brasil. O baterista Duduka Fonseca, que excursionou com ela por toda a década de 80 e participou das sessões de gravação do álbum com a orquestra de James Last, acredita que algumas de suas composições não deveriam passar despercebidas.
- 'Champagne an caviar', 'Forgive me' e 'Flora', uma homenagem a Flora Purim, são muito bonitas - assegura. - E percebi que o pessoal de 20 anos que ia aos shows na Europa já cantava as músicas do disco mais recente.
Entre esses admiradores de gerações posteriores estão o popstar francês Etienne Daho, que a chamou para um dueto em 'Les bords de seine', no disco 'Eden', de 1997, e George Michael, com quem gravou 'Desafinado' (Tom Jobim e Newton Mendonça) para o tributo beneficente 'Red Hot + Rio', em 1996, que reuniu ainda entre seus encontros a dupla Marisa Monte e David Byrne e um trio formado pela cantora de Cabo Verde Cesaria Evora, Caetano Veloso e o pianista japonês Ryuchi Sakamoto. a versão de Astrud e do cantor inglês para 'Desafinado' também foi incluída na coletânea de sucessos de Michael lançada ano passado. Béco Dranoff, produtor-executivo da Red Hot Organization, conta que a participação de Astrud foi uma sugestão do inglês.
Astrud e João Gilberto, nos anos 60
- Evidentemente Astrud sempre esteve no topo da lista das pessoas que convidaríamos para o disco, pois as suas gravações com Stan Getz foram a grande virada da música brasileira no exterior - conta Dranoff. - Mas quando contactamos Michael, que estava terminando o álbum 'Older', dedicado a Tom Jobim, ele imediatamente nos respondeu com um fax dizendo que queria convidar Astrud. Eles gravaram juntos em Londres, e ela o ajudou com o português. Pelo que sei, ainda se mantém em contato.
Só é pena que a timidez de Astrud dificulte que hoje, ela colha os muitos louros que lhe são devidos.
- Todo músico quer essa entrada que Astrud tem - diz Lubambo. - Mas acho que para ela isso já é normal, ela faz sucesso desde muito nova. Não liga mais. "
A matéria também trazia um texto sobre Astrud, assinado por Antonio Carlos Miguel, com o título "Ecos de uma pequena voz":
"A voz, pequena, mas certa, no momento e lugar certos, garantiram a Astrud Gilberto a fama e uma carreira internacional. Ela podia até então não ter pretensões como cantora mas ninguém se casa com João Gilberto impunemente. Os anos ao  lado do obsessivo cantor e violonista deixaram marcas profundas e devem ter funcionado mais do que décadas gastas numa escola de canto. Ainda mais num contexto como o da bossa nova. O que explica o fato de Astrud não ter tido dificuldades ao ser intimada a participar de 'Getz/Gilberto'.
Desse lance do acaso nasceu uma cantora, e um estilo imitado mundo a fora - Gracinha Leporace no grupo de Sérgio Mendes, Ana Maria Valle com Marcos Valle. Mesmo que Astrud volta e meia desse suas desafinadas nos discos que gravou a seguir. E também que, no Brasil, existissem dezenas de outras cantoras bem mais talentosas, em diversos e até antagônicos estilos. De Sylvia Telles a Maysa, de Elis a Gal, passando por Nana, Bethânia e Clara Nunes.
Para entender a arte desse enigma, o disco 'Getz/Gilberto' é fundamental. Outra pedida, também gravado, em 1966, pelo selo Verve, é 'A certain smile, a certain sadness', embalado pelo suíngue do organista Walter Wanderley. Mais recente, o dueto com George Michael, de 1996, mostra que Astrud não perdeu a forma, nem seu charme, discretamente desafinado. "

domingo, 19 de junho de 2016

Astrud Gilberto - Jornal O Globo (2000) - Parte I

Astrud Gilberto é uma cantora que se destacou no cenário da Bossa Nova. A ex-esposa de João Gilberto fez carreira nos Estados Unidos e lá permaneceu, fazendo shows e gravando seus discos. Dona de uma voz suave e afinada, que se encaixava bem ao estilo intimista da Bossa Nova, Astrid participou de importantes gravações e fez uma bela carreira nos EUA. Na verdade, ela é mais conhecida lá do que aqui. Apesar do sucesso e do reconhecimento, a cantora sempre preferiu levar uma vida discreta e um tanto reclusa, longe dos palcos e dos holofotes. Em sua edição de 27/02/2000, quando estava prestes a completar 60 anos, o jornal O Globo fez uma matéria com Astrud, assinada por João Ximenes Braga, correspondente do jornal em Nova York. A matéria é intitulada "Mistérios da original senhora de Ipanema":
"Helô Pinheiro que nos perdoe, mas nos EUA 'a garota de Ipanema' é um aposto para o nome da baiana Astrud Gilberto. Ou melhor; como em 29 de março a cantora estará completando 60 anos de idade e a canção já ganhou uma infinidade de versões desde que a sua, ao lado do saxofonista Stan Getz, chegou ao quinto lugar da parada americana em 1964, Astrud agora é apresentada como 'the original girl from Ipanema'. Sim, o verbo está no presente porque, apesar dos boatos que circularam recentemente no Brasil, o filho e empresário da cantora, Gregory La Sorsa, afirma que ela não abandonou a carreira, lembrando que nos últimos anos ela lançou dois discos e gravou duetos com astros internacionais como George Michael e Etienne Daho.
De fato, os anos 90 viram Astrid em maior atividade que nas duas décadas anteriores. A cantora lançara 12 álbuns entre 1963 e 1971, e depois deu um longo sumiço do mercado fonográfico, durante o qual apenas 'Astrud Gilberto plus the James Last Orchestra', de 1987, teve distribuição internacional, pela Verve. Mas em 1999 o mercado americano ganhou um álbum ao vivo inédito, 'Astrud Gilberto live in New York', pelo selo MVP Japan, e três coletâneas lançadas por diferentes selos. Exclusivamente na Ásia, saiu 'So and so, Mukai meets Gilberto', em que ela canta músicas brasileiras com produção do japonês Shigeham Mukai. Para este ano antigas gravações de Astrud estarão presentes em pelo menos sete discos nos Estados Unidos, de homenagens a Stan Getz e Antonio Carlos Jobim a coletâneas de sucessos do jazz.
O que Astrud não faz é dar entrevistas. Em conversas com alguns de seus amigos - muitos dos quais se recusaram a colaborar com esta reportagem mesmo sob a promessa de anonimato por medo de aborrecê-la - ouve-se descrições como 'uma mulher muito difícil'. Aparentemente, nada que se equipare às folclóricas excentricidades de seu primeiro marido, João Gilberto, com quem tem um filho, João Marcelo Oliveira, que é músico e técnico de som e também vive nos EUA.
Com Stan Getz
Astrud também é descrita como sociável e generosa. Mas muito tímida. O editor do jornal 'The Brasilians' (com 's' mesmo), Edilberto Mendes, lembra que foi necessário um certo esforço para que ela aparecesse para ser homenageada na festa anual da Little Brazil em 1998:
- Nunca vi uma pessoa tão tímida. Ela ficou o tempo todo no camarim, só saiu quando foi chamada ao palco para receber a homenagem, e logo foi embora - lembra, - Mas é muito gentil, depois escreveu uma carta dizendo que havíamos tocado seu coração.
O pedido da entrevista deixado na secretária eletrônica de seu apartamento na Filadélfia - no final do ano passado, ela vendeu o de Nova York e  voltou à cidade onde morou como o segundo marido, o americano Nick La Sorsa, também seu empresário nos anos 70 e 80 - é respondido via e-mail por Gregory. A negativa é gentil, mas firme. Mesmo quando se aponta a necessidade de se escrever sobre Astrud: afinal, ela é uma das maiores embaixadoras da música brasileira no exterior, mas que continua praticamente desconhecida em seu país natal.
A história do surgimento de Astrud segue a tradição de lendas hollywoodianas da garota da porta ao lado que vira estrela por acaso. Ela acompanhava João Gilberto nas gravações do lendário álbum com Tom Jobim e o saxofonista americano Stan Getz, quando o produtor Creed Taylor descobriu que ninguém ali dominava o inglês. Astrud falava a língua, ainda que com sotaque, e foi convidada a cantar as versões mesmo sem ter experiência profissional. Lançado pelo selo Verve em 1964, o álbum 'Getz/Gilberto, featuring Antonio Carlos Jobim', sem Astrud nos créditos, não causou muito impacto. Mas no ano seguinte, Taylor tirou os versos em português cantados por João em 'The girl from Ipanema' e lançou o single só com a voz feminina e uma incorreção gramatical: Astrud mudou o verso 'She looks straight ahead, not at me' ('ela olha para frente, não para mim') para 'not at he (não pra ele), em vez de 'not a him'. O álbum virou o maior recordista de vendas no jazz até então. E mais, disputou palmo a palmo as paradas de sucesso com os então imbatíveis Beatles.
- Eu fiz arranjos pra uma turnê dela em 1974 pela África - conta o músico Dom Salvador, nascido em São Paulo mas radicado nos Estados Unidos desde o fim dos anos 60. - Ela estava no auge, seus shows eram sempre sold-out em qualquer lugar. E seus seguidores são fiéis até hoje. "

(continua)

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Roberto Carlos - Entrevista Revista Pop (1975) - 2ª Parte

" Pop- Essas mudanças do pessoal da Jovem Guarda não te deram vontade de partir também pra outra?
Roberto - Bicho, eu sempre procurei ser coerente comigo mesmo. Estou em paz há 34 anos, cara! Não houve nenhuma mudança em Erasmo e Wanderléa. O que eles fizeram foi botar pra fora um porção de coisas que tinha reprimidas. Isto é uma libertação interior. Eu não sinto necessidade disso. Tudo que fiz e faço não tem censura prévia, e não guardei nenhuma carta na manga para mostrar num dado momento. O que quero é tentar inovar tudo que venho fazendo de forma coerente há pelo menos dez anos, o que não implica em mudanças radicais. Gosto de dizer as coisas de uma maneira direta e objetiva. Eu sou assim. E me sinto muito feliz, mas muito feliz mesmo, quando ouço as coisas que fiz e disse, porque é assim que penso e é desta forma que sei me expressar.
Pop - Você, que foi um líder da juventude, ditando, inclusive normas de comportamento, como vê a música jovem atual? E que público você quer atingir agora?
Roberto - Sem dúvida, o rock tem um público ávido e bastante definido, mas eu não faço mais música dirigida para a juventude, basicamente. No tempo da Jovem Guarda, sim, eu fazia. E é bom lembrar que eu também era um jovem. Por outro lado, minha música é romântica e o amor não tem limites de idade. Ou você acha que os jovens não curtem o amor? Mudou a linguagem, mas 'eu te amo, querida', não vai morrer nunca! Veja o fenômeno da nostalgia(*), sem deter-se em análises mais profundas de mercado etc... Ocorre que 90% do que voltou a pintar  por aí foi tudo na base do romântico. Mas no meu trabalho, mesmo dentro do romantismo, procuro abordar tudo sem pieguice, e falo de problemas reais, como em Detalhes, Quando as Cranças Saírem de Férias e tantas outras. Eventualmente, posso cantar rocks nos meus shows, mas só para dar um colorido e não como posição assumida, em absoluto. Também não pretendo gravar rock. Foi uma fase, cara!
Pop - E agora, depois de dez anos de vendagens extraordinárias , parece que o samba de Martinho da Vila, Clara Nunes, Benito di Paula, já está ameaçando seus recordes. Qual é?
Roberto - Acho ótimo, pois toda concorrência tem aspectos superpositivos. Em primeiro lugar, obriga o artista a não descuidar de seu trabalho e procurar sempre melhorar. E isto é o que eu estou fazendo há dez anos. Em segundo lugar, proporciona maiores aberturas para o mercado de disco no Brasil e, é evidente, chances para novos músicos e compositores. O único grilo é o aspecto competitivo, que muitos querem fomentar e que acho bastante provinciano. Realmente não me preocupo em ser recordista e sim em vender muito, pois este é o prêmio a um trabalho coerente e bem feito. Nos Estados Unidos, por exemplo, há mil caras que vendem adoidado, como Elton John, Elvis Presley, Paul McCartney, Lennon e tantos outros, que não estão numa de 'eu sou o recordista', sacou? No Brasil, não. Quando um artista começa a vender bem, pinta um tremendo oba-oba na base do 'vai vender mais que Roberto Carlos'. Isto é uma grande bobagem e típico de subdesenvolvimento. Em vez de se pensar em recordes todo mundo deveria procurar expandir o mercado.
Pop- E como anda a nossa juventude?
Roberto - Muito bonita, sadia, livre, sem preconceitos e corajosa para assumir sua posição dentro da sociedade. Se posso dar um conselho, sem querer ser paternalista, é que o jovem não perca sua autenticidade, em hipótese nenhuma.
Pop- Aproveitando a maré: o conselho ao iniciante na carreira?
Roberto - Equilíbrio, malandro; coerência olhar as coisas com serenidade, cuca fria e muita humildade, principalmente se tiver a sorte de estourar.
Pop - E seus planos para 76?
Roberto - No carnaval faço shows na Itália, e a partir de junho, Espanha, México e Argentina. No fim do ano vou aos Estados Unidos. Aliás, em primeira mão, te informo que vou gravar um LP em inglês com versões de Hal David, parceiro de muitos sucessos de Burt Bacharach, como Alfie, Do You Know The Way To San José, Raindrops Keep Fallin' On My Head, Close To You etc... É um velho sonho, e nós dois estamos entusiasmados. A produção será do próprio Hal que também se encarregará de escolher as músicas. 
Pop - Até agora seu compromisso com a latinidade, caminho básico para Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Sá e Guarabyra, por exemplo, resumiu-se à escolha criteriosa de músicas em espanhol de muita beleza, mas sem mensagens sociais. Por que você escolheu América, América?
Roberto - Quando eu era garotinho, era bom paca em geografia e desenho. Riscar as Américas de cor era um dos meus brinquedos, e ali minha imaginação criava batalhas de chumbo e plástico. Cordilheira, aprendi que era uma porção de montanhas altas e juntas, e que os Andes eram gelados. Em minhas batalhas de soldadinhos de chumbo, na base de bola de gude, eu defendia o Brasil com unhas e dentes. Hoje em dia, com uma visão de homem, as cicatrizes de meus irmãos das Américas me entristecem muito. Antes eu não tinha medo, pois resolvia com um gesto de braço todas as crises. Mas agora, que nada posso, tenho medo. O problema chileno, a zorra equatoriana, a Argentina triste... O Brasil cada vez mais verde e maduro. Está certo. Mas o que foi feito de seus tristes irmãos das Américas? Do Chile que eu coloria de roxo, da Argentina, cor de laranja, do México como um sol esplendoroso, da Colômbia vermelha? Era menino e imaginava tantas coisas! Não haverá mais a festa latina? Que longo silêncio é esse? Você pode me responder? "

* O "fenômeno da nostalgia" a que se refere Roberto, era uma tendência da época. Naquele período, meados dos anos 70, voltou-se a tocar muita coisa dos anos 50, alguns artistas e grupos da época voltaram a fazer shows, músicas antigas voltaram a tocar nas rádios e entrar em trilhas de novela, etc. Não é à toa que no ano dessa entrevista Raul Seixas compôs e gravou a música "Verdade Sobre A Nostalgia", no disco Novo Aeon, que explica mais ou menos esse fenômeno.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Roberto Carlos - Entrevista Revista Pop (1975) - 1ª Parte

"Antigamente, todo final de ano significava que iria sair um novo disco de inéditas de Roberto Carlos. Em dezembro as lojas de discos se preparavam para receber mais um disco que seria um campeão de vendas. Essa rotina já há algum tempo não tem se repetido. Ao contrário de seu parceiro Erasmo Carlos, que tem lançado discos, não só de inéditas, como de releituras de seus 'lado B", como fez recentemente, Roberto tem concentrado sua carreira ultimamente em shows, e os especiais de fim de ano para a Globo, que para manter os níveis de audiência da emissora, costuma receber convidados bem abaixo de seu nível de história na música, além de não trazer muitas novidades em seu repertório. Mas, voltando ao passado, em dezembro de 1975, enquanto era aguardado o seu lançamento de final de ano, Roberto concedeu a entrevista abaixo ao jornalista Eduardo Athayde, para a revista Pop:
"Todo fim de ano é a mesma coisa: Roberto Carlos lança um LP que fatalmente vai para as paradas de sucesso, onde fica até o fim do ano seguinte. É uma posição cômoda, que ele aceita sem grandes preocupações. Aos críticos, responde com a inabalável popularidade. E aos que cobram aquela liderança que já teve, diante de todos os jovens do Brasil na época da Jovem Guarda, Roberto Carlos explica que sempre se manteve fiel ao romantismo, que é a maior característica de seu trabalho. E completa: 'O amor não tem limites de idade.'  A única diferença, diz, é que ele não é mais um jovem ingênuo, e trata os temas de amor de forma mais direta, sem pieguice. Este ano, porém, a expectativa foi maior do que sempre. Diziam que Roberto Carlos estava mudando radicalmente seu trabalho, selecionando com mais rigor suas músicas e dando nova direção aos arranjos. Ao receber Pop para esta entrevista, confessou com humildade: 'Não sei porque toda essa zoeira. Sou sempre o mesmo, só que estou mostrando coisas novas.' E nessas 'coisas novas' teve lugar até um velho sucesso, Quero que Vá Tudo pro Inferno, com roupagem diferente. No papo, deixou claro que não faz questão de ser o 'maior vendedor de discos do Brasil', falou sobre seus amigos Erasmo e Wanderléa, e deixou a pergunta amarga no ar; 'Que longo silêncio é esse?'
Não é nada, não é nada, mas há dez anos Roberto Carlos lidera as paradas de sucesso do Brasil (e de alguns países da América Latina) e é recordista de vendas. Agora, mais uma vez de volta ao Canecão (Rio), num show com produção impecável de Miéli e Boscoli, cenografia arrojada de Mário Monteiro, orquestra sob a regência de Leonardo Bruno e a base coesa do RC-8, Roberto Carlos escolheu um repertório de primeiríssima qualidade para, aos poucos, dar uma mexida nas coisas - embora não pretenda se afastar da linha romântica. Assim lança Mucuripe, de Fagner, Mac Arthur Park, obra-prima de Jimmy Web, Rubby, um dos clássicos de Ray Charles e América, América, de César e Roldão Vieira, onde a letra e a melodia se fundem num clima tenso.
Avesso a entrevistas, Roberto Carlos recebeu Pop com um papo manso. Cachimbando, rindo muito, de longe observa o trabalho de Erasmo e Wanderléa, com os quais formou a Jovem Guarda. Não se assusta com as ameaças de perder o recorde de vendas: 'Isto é muito provinciano.' Idolatrado nos países latino-americanos, Roberto agora se prepara para a conquista do mercado americano. Junto com Hal David, o bem-sucedido parceiro de Burt Bacharach, está fazendo as versões de um LP que gravará em inglês para os EUA. Tranquilo, sem pressa, coerente, humilde, como sempre.
Pop - Todo ano, quando você lança seu LP, um enorme segredo encobre tudo, inclusive o repertório. Neste fim de ano, no entanto, fala-se de mudanças, busca de novos compositores, arranjos mais incrementados. Vai pintar um novo Roberto Carlos?
Roberto - Eu tento melhorar meu trabalho cada vez mais, todo ano faço modificações, e isto está cada vez mais acentuado em meu novo LP. Mas não há mudanças radicais ou um novo Roberto Carlos e sim o mesmo Roberto Carlos com várias coisas novas. Quanto aos arranjos, botei mais molho, peso, swing em algumas músicas como Desenhos na Parede, de Beto Rushel. Realmente ficou um clima bastante diferente do que sempre fiz.
Pop - Além dos novos lançamentos, você regravou quantas músicas?
Roberto - Ao todo quatro: Quero que Vá Tudo pro Inferno, num embalo brabo mesmo; Mucuripe, do Fagner, mas numa bem romântica, como a própria música pede; um bolero, lindo, chamado Inolvidable, com uma harmonia da pesada, melodia de primeira e uma letra sensacional; e por fim um carnavalito argentino, bem folclórico, El Magacueño. Esta última, inclusive, foi gravada na Argentina com instrumentistas de folclore mesmo. Também tentei compor com Tom Jobim e Milton Nascimento, mas os desencontros tornaram impossível realizar este velho sonho. E desta vez só gravei quatro músicas que fiz de parceira com Erasmo Carlos. Para tanto, passamos um tempão escondidos no mato para trabalhar em paz. Gosto muito das novas músicas: Além do Horizonte, Seu CorpoO Quintal do Vizinho e Olha.
Pop - E como reagiu às guinadas de Erasmo Carlos e Wanderléa, que fizeram tanto sucesso com um novo trabalho, principalmente o Erasmo, que entrou numa de rockão mesmo e se deu muito bem?
Roberto - Bicho, pra ser sincero, tomei o maior susto da minha vida quando vi o show do Erasmo! Que coragem, cara! O Erasmo é o rei da timidez e de repente estava no palco de uma maneira sensacional... O mais bacana é que eu sabia que ele estava fazendo um  negócio que já curtia há muito tempo. O rock corre nas veias dele muito mais que nas minhas. O que faltava era o bicho se soltar. Seu trabalho foi muito bem cuidado, a banda de primeiríssima qualidade e até a expressão corporal estava irretocável. Eu e Narinha sempre demos muita força para que ele entrasse nessa, mas eu não acreditava que ele fosse tão corajoso. De Wanderléa, só ouvi falar até agora. Infelizmente ainda não pude ver seu show, mas pelo que dizem, parece que ela também endoidou de vez, né? "

(continua)

terça-feira, 14 de junho de 2016

Gonzaguinha - Jornal Opinião (1973)

Em 1973 Gonzaguinha era ainda um promissor cantor e compositor, buscando seu espaço na MPB. Sob o nome artístico de Luiz Gonzaga Jr. - o Gonzaguinha era apenas uma forma carinhosa pelo qual era tratado pelo mais íntimos - ele ainda era mais conhecido como filho do Rei do Baião como propriamente por um novo talento da música brasileira. Naquele ano Gonzaguinha lançaria seu primeiro disco, e a crítica especializada passava a prestar uma maior atenção ao seu trabalho. Na época, o jovem compositor carregava a fama de mal-humorado, e alguns temas de suas músicas, de letras às vezes rebuscadas e difíceis, ajudavam a lhe darem o epíteto de "cantor-rancor", que o acompanhou durante os anos iniciais de sua carreira. Em abril daquele ano, o crítico e jornalista Tárik de Souza escreveria uma matéria sobre Gonzaguinha no jornal semanal Opinião:
"Duas semanas atrás, Luiz Gonzaga Jr. gastou sete dias percorrendo as rádios de São Paulo. Foi desfazer o boato de que seu compacto Comportamento Geral havia sido proibido. Por causa dele, algumas rádios, usando uma espécie de autocensura, excluíram-no de suas programações e o compositor, cantor e violonista foi obrigado a cumprir este roteiro estranho.
Para Luiz Gonzaga Jr., o Gonzaguinha, foi uma boa experiência, porque ficou conhecendo 'as pessoas que tocam minhas músicas e sabendo o que pensam de mim'. Na verdade, como compositor de sucesso popular (modesto, ele acredita que seu disco, nas paradas, tenha vendido só uns 15 mil exemplares) foi seu primeiro contato com qualquer tipo de público. Antes ele era o autor 'maldito', 'hermético', 'antipático', 'mascarado', de letras longas e músicas de harmonia trabalhada, respeitado, mas quase ignorado. Participou de três festivais universitários enquanto se formava em Economia. Foi finalista (Pobreza por Pobreza), quarto colocado (Parada Obrigatória para Pensar) e vencedor (O Trem). Sempre distante, afinando sua magreza com um comportamento ríspido, ele chegou mesmo ao suntuoso Festival Internacional da Canção, sem nunca, no entanto, ter-se integrado nele. Igualmente à margem permanecia Gonzaguinha nas aparições da TV ou excursões de teatro, com seu pai. Qualquer semelhança entre Luiz Gonzaga, rei do baião, sorridente, cara de lua e Gonzaga Jr., agressivo, equilibrando o cigarro entre os dedos enquanto tocava, só podia ser coincidência. Tanto que se espalhou outro boato que de certa forma o constrange: o de que seria filho adotivo. 'É uma longa história', diz Gonzaguinha, entre inquieto e encabulado. E conta que não é filho da atual mulher de Luiz (Helena) Gonzaga. Foi criado no morro de São Carlos, no bairro do Estácio, no Rio, por pais adotivos. 'A Dina (Leopoldina de Castro Xavier) e o Baiano (Henrique Xavier), com quem aprendi a tocar violão.'
Isso talvez explique a pouca interferência de Luiz Gonzaga na linha musical principal de influências do filho. E no seu comportamento geral. 'Fui moleque de morro, quebrei vidro, joguei bola, roubei fruta mas principalmente do quintal das pessoas que eu não gostava.' Gonzaguinha, 27 anos, define-se dentro desta atmosfera construída na infância. 'Sou um moleque. Mas um moleque bem alegre, um marginal que sabe que é e será marginal.'
Suas bruscas mudanças de tom - às vezes sorri franco e simpático, outros momentos parece desconfiado das perguntas - correspondem, de certa forma, aos altos e baixos de sua carreira de inescondível indecisão poética ('vai carregado de esperança, amor, verdade e outros ades', O Trem) e outros, de inabalável objetividade ('Mas sonha que passa/ ou toma cachaça/ aguenta firme irmão, na oração/ Deus tudo vê e Deus dará, Um Sorriso nos Lábios). Desde 68, quando começou a tentar a carreira (sua primeira música, Primavera, foi gravada pelo pai em 1959), manteve-se apenas fiel a um tipo de resultado sonoro que lembra (inclusive quanto ao registro de voz) Milton Nascimento. Gonzaguinha diz que não é influência: 'Começamos praticamente na mesma época. O que há é que ele é alegre e moleque como eu'.
Depois de Comportamento Geral ('Você merece/ tudo vai bem/ tudo legal/ cerveja, samba, e amanhã, seu Zé, se acabarem com seu carnaval?'), um samba envolvente, quase arrastado. Gonzaguinha marcou sua presença, até então fluída, na música brasileira. Não sabe exatamente como se situar, porque 'pertenço a esta geração meio espremida que pegou a barra pesada logo', mas admira de Milton Nascimento a Edu Lobo. 'Influência é como gripe' e a única preocupação dele é filtrar os principais vírus, 'compor consciente, como um exercício: venho aqui pra casa e fico horas mexendo com música'. Quando não está compondo, constrói móveis. As cadeiras, de barril e couro - 'parece que custaram uma fortuna' - foram feitas por ele. Orgulha-se de estar em dia com o aluguel do apartamento modesto na Tijuca, onde mora, vista para uma pedreira cinco metros à frente das janelas. Tem pago tudo sem ajuda, 'só com minha carreira de compositor hermético, brinca ele.
Sem  ser uma nova candidatura ao trono desocupado por Geraldo Vandré, Gonzaguinha tem recebido um tipo de aplauso parecido, depois de ter ouvido muitas vaias sem se abalar. No caso, para ele, é apenas uma questão de imagem preconcebida do público, da qual não tem culpa. 'Qualquer pessoa pode ser chata, antipática, antes que você se aproxime dela', justifica-se. Entre Gonzaguinha e Vandré, porém, parece guardar-se uma distância. Comportamento Geral e Sorriso nos Lábios não apresentam necessariamente uma guinada na minha carreira nem são a única coisa que sei fazer'. De seu próximo elepê, que já começou a ser pré-gravado para apresentação à Censura, há músicas completamente diferentes 'daquelas que o público vaiava. É uma carreira de equilíbrio difícil, mas meu pé é da largura do arame'. "

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Hermeto Pascoal - Revista Ele Ela (1979) - 5ª Parte

"Hermeto tem razão. O povo é sensível, sabe o que é bom. Afinal, os estrangeiros também não estão bebendo nossa água?
'Sempre beberam. Mas no começo vinham escondidos. Agora não. O músico brasileiro, que é convidado para gravar com qualquer cara de fora, acredita que está tendo uma oportunidade. Como os gringos sabem disso, se aproveitam: chegam aqui e convidam um cara que toque bem frevo, marcha ou samba. Eles gravam aquilo tudo e levam a fita para fora. Lá, eles colocam uma música em cima e só botam o nome do cara brasileiro como participante. Dizem que a música e os arranjos são deles mesmo e o essencial, que é justamente a criação e a parte rítmica, eles tomam conta. Mas o culpado é o músico que aceita isso, cavando sua própria cova. Depois ficam reclamando da discoteque... Quem grava são as gravadoras,mas quem toca para elas, hein? São os músicos. Eu não faço isto. Prefiro tocar numa boate, onde você vai ganhar um pouco menos do que num estúdio (sabe-se que Hermeto ganha limpo, para dividir com o grupo, um milhão de cruzeiros pra pisar num estúdio, uma vez aceitas suas condições pra gravar) do que aceitar uma situação dessas.'
Hermeto concorda que, agora, já há todas as condições para fazer um bom trabalho de gravação aqui, o Zabumbê-bum-á é uma prova. E espera colocar a familiarada toda participando do próximo disco.
À pergunta: 'Hermeto, você fatura?' Ele é taxativo.
'Faturo. Somos muito modestos. Quando dá para comer carne, tudo bem. Senão saímos pro ovo mesmo. Agora vamos criar umas galinhas, não é Ilza?'
Nessas alturas, Dona Ilza havia trocado o vestido estampado de ir à  feira por um vermelhinho decotado e mais chique. A hora sagrada do almoço estava se aproximando. O cheiro bom de carne assada começava a invadir a sala. Zabelê, a vocalista, também chega da feira e vem encontrar com o marido Nenem, que está lá em cima estudando. Toda satisfeita, numa bermuda vermelha e camiseta idem, conta que comprou um peixe deste tamanho. E toda família Pascoal rejubila-se com o fato. Um barato!
Para não ter que olhar para o relógio e de forma delicada, Hermeto falou:
'Para terminar, queria mandar um recado para os instrumentistas: que vocês não toquem música nenhuma com arranjo malfeito, desses engavetados, principalmente em programas da Globo. Vocês têm que se impor. Se tocarem bem, merecem um arranjo bem feito. Não procurem arranjadores comerciais, quadrados. Há nomes como Dori Caymmi, Wagner Tiso e Radamés Gnatalli, todos bons. E que estes também não façam concessões comerciais. Vamos tomar conta disso aí, vamos pegar no pé do pessoal. Se não tiver arranjo, não faz mal. Vão lá e toquem seus instrumentos sozinhos, que é muito bonito.'
Pausa. Princípio de fim de papo. Hermeto argumenta ainda que pode tocar em qualquer teatro do mundo da mesma categoria que o Municipal do Rio e a Sala Cecília Meireles. 'Se o Glenn Miller toca lá, por que não eu?' Mas diz que precisa ser procurado, que gostaria de dar um concerto na Cecília Meireles.
Em seguida foi lá dentro do seu quarto e trouxe um aparelho altamente sofisticado: um transmissor de fita gravada em 16 canais. Colocou o fone no meu ouvido e brincou: 'Então, suíço é frio?' Era a gravação original de sua apresentação em Montreux. A ovação é impressionante. De repente, silêncio. 'Olhaí a música que eu fiz lá no hotel'. Aos primeiros acordes, tão belos, tão liricamente puros e elaborados ao mesmo tempo, senti-me privilegiada.
Privilegiada por ouvir uma melodia certamente antológica, ao lado de Hermeto e de Dona Ilza, naquela casa encantada. E quando vi, já era tarde. As lágrimas corriam do olho para a ponta do meu nariz. Que fazer? "

domingo, 12 de junho de 2016

Hermeto Pascoal - Revista Ele Ela (1979) - 4ª Parte

" Quando Hermeto tinha 13 anos, a família foi para Recife; em seguida ele foi para Caruaru (e o irmão, Zé Neto, para Garanhuns). Dois fatos marcaram sua vida durante este tempo em que ele rolou pelo Nordeste: a formação de um trio em Recife composto de Sivuca (na época já um acordeonista conhecido), Zé Neto e Hermeto. Como os três eram (e são) albinos, o nome O Mundo Pegando Fogo foi o que acharam de melhor. De Sivuca, com quem voltou a se apresentar 28 anos depois, em julho de 78, em Salvador, o Bruxo de Arapiraca diz: 'Ele não é meu amigo, é irmão do coração.'
E foi em Recife que ele conheceu Ilza, sobrinha de Luperce Miranda. E é ela quem vai contar sobre o encontro dos dois. Dona Ilza acaba de chegar da feira e vem sentar perto de nós, com um vestido florido, cheia de corpo e de graça, jovem ainda, com duas covinhas no rosto liso. É uma morena cor de jambo daquelas. Os  seis filhos parecem-se com ela, sendo que Flávia, a de 15 anos, chega a ser papel-carbono, inclusive nos dotes culinários.
'Ele chegou com o acordeão lá em casa, olhei assim para ele e pedi: toque alguma coisa. Ele, com vergonha, só fazia olhar para baixo. Então perguntei pra minha mãe: 'será que ele não abre os olhos não?'
E Hermeto completa o relato do romance:
'Naquela época, eu ainda não usava óculos. E a Ilza olhava pra mim e ficava rindo. Eu fiquei até chateado. Comecei a ir lá assim mesmo e ferrei o namoro. Tocava na rádio com o pai dela. Ela me fez abrir o olho. Foi maravilhoso porque foi um negócio muito rápido. Casamos logo. A Ilza tinha 14 para 15 anos e eu era de menor. Tive que mentir a idade para puder casar. Desde que nos conhecemos fui dizendo o Padre Nosso para ela.
Sem essa de que mulher tem que ficar em casa. Ela passeia, vai para onde quer. Só não dá para viajar comigo por causa dos meninos. Ela fica por aqui, toma conta das coisas.'
'Sou eu quem cuida de tudo, né, meu velho? - diz Ilza passando amorosamente a mão pelos cabelos de Hermeto.
Os meninos passavam de cá para lá. Ocorreu-me perguntar como ele organizava a mesada pra a criançada. Ele riu muito.
'Mesada? Aqui, mesada só a mesa da hora do almoço e olhe lá. Todos trabalham. Os três mais velhos estudam à noite. E todos são parados em discoteque, só vendo...'
Quando Hermeto saiu de Recife, já casado, veio direto para o Rio, com o irmão, Zé Neto. Tocou em boates para sobreviver e em 60 foi para São Paulo, onde marcou época no Stardust, Jogral e João Sebastião Bar. Era a época dos grandes festivais. Surgiu então o Quarteto Novo, marco definitivo e trampolim para a fama, na carreira de Hermeto. Data daí a sua enorme amizade com o baterista Airto Moreira.
'O Quarteto Novo era um trio que  acompanhava o Geraldo Vandré, você sabe: o Airto, o Téo e o Heraldo. Virou quarteto quando eu cheguei. Quando foi isso? Nossa, na era de Cristo, nem me lembro mais. Foi um embalo muito grande para essas coisas que faço hoje. Se o quarteto tivesse continuado estaria fazendo coisas do nível das que eu faço agora.'
O quarteto desfez-se com a ida de Airto para os Estados Unidos. Em 71, o percussionista mandou chamar Hermeto pra que fizesse uns arranjos por lá. Começa então a fase de reconhecimento internacional do seu talento. Em 72, Hermeto faz um show antológico no Teatro Fonte da Saudade (Rio), assistido, entre outros, por Astor Piazzolla, Egberto Gismonti, Milton Nascimento e Sérgio Ricardo. Desta fase são os sucessos Gaio da Roseira, composição de seus pais e O Trem e Flecha. Em 76, como estava há muito sem gravar, pediu ao público que foi assisti-lo na Sala Corpo e Som do MAM para que levasse seus próprios gravadores. Em 1977, inaugurava sob um chuvaréu danado a Concha Verde do Morro da Urca, com um concerto assistido por mais de 1.600 pessoas. E a superconsagração junto aos brasileiros chegou no ano passado, no Festival de Jazz de São Paulo, onde abafou o guitarrista John McLaughlin e tocou olho no olho com Chick Correa, a quem chama de Francisco Correa .
Hermeto no Festival de Jazz de SP (1978)
'Tem uma coisa que eu gostaria muito de esclarecer, principalmente às pessoas que veem o Hermeto fazendo num festival de jazz: não me considero músico de nada, considero-me músico. Não quero que me tratem como músico de jazz. Achei legal que o festival do Japão não teve rótulo de festival de jazz. Teve um nome lindo: Festival Sob o Céu (Festival Under Sky). Sem essa de festival de jazz ou de música folclórica. Isso deixa as pessoas que tocam muito inibidas. O Brasil é o chão mais rico do mundo; é o universo que tem tudo quanto existe de ritmo.'
Essa é uma característica de Hermeto: fala dele na terceira pessoa. Uma pergunta sobre como via os musicais em nossa televisão, desencadeou uma série de denúncias e uma especial sobre o que ele chama de racismo musical.
'Vou falar construtivamente; fizeram um negócio comigo na tevê que eu não gostei. Foi no programa Esses Músicos Notáveis e Seus Instrumentos Maravilhosos, na Globo. Eles alegam que este tipo de programa é para ajudar o músico, mas desse jeito acho que atrapalha. Muito músico fora de forma, quadrado, tocando mal, com aqueles arranjos antigos, participou do programa. Arranjos que estavam engavetados, uma vergonha. O nível da música foi uma vergonha, com exceção - e essas pessoas sabem que estou falando deles - do Sivuca, do Maurício da gaita e do Radamés Gnatalli. O resto tem que juntar tudo dentro de um saco e jogar no mato. Músico não tem essa de idade e saudosismo, não'.
E continua contando o lance que o desencantou:
'Para eu participar de um programa de televisão agora eles vão ter que fazer um contrato para mim. Gravei lá na Globo, e como sei do perigo de corte - e eu não gosto disso - pedi, por favor, pra medir o tempo. O cara falou que tava tudo bem. Quando cheguei de viagem, a tempo de assistir ao programa no ar, vi com surpresa que haviam cortado um número inteiro. Isso é um desrespeito muito grande para o músico. É como um sujeito pintar um quadro e vir outro e cortar o quadro pela metade. Uma música tinha ligação com a outra.'
E então Hermeto contido, mas veemente, fez uma observação bastante válida:
'Quando se trata de música clássica eles não cortam, respeitam mais. Eu acho que não existe música clássica nem popular, o que existe é nível, qualidade da música que você faz. Enquanto não souberem respeitar isto aí, vão trabalhar contra a música e contra os músicos. Existe um preconceito, um racismo musical que precisa acabar. Eles levam ao ar uma peça de Stravinsky sem cortes, não é?
'E quem poderia acabar com isso?' - perguntamos. Ele responde na bucha:
'O governo. Tem que haver uma lei para proteger a música. Um exemplo, o Projeto Pixinguinha. É uma boa. O que estraga são as pessoas que eles botam lá dentro para organizar. Quiseram que eu tocasse sem meu grupo alegando que não há verbas. Como é que pode?'
Mas será que os arranjos avançados, o som de Hermeto, seus instrumentos diferentes têm poder de se comunicar com o chamado povão?
'É claro que tem. Já toquei na Feira de Caruaru e parou a feira toda. Toquei na rua, em Santo André. Fiz um teipe para a TV alemã em pleno Viaduto do Chá, em São Paulo. Eu lá só com a flauta e aquele montão de gente lá em cima, tudo parado para escuta. Eu até disse para o repórter; 'Eles pensam que eu sou o Roberto Carlos. A prova é clara. Todas as classes sociais foram ao Festival de Jazz de São Paulo. Vai ver quem encerrou o Festival do Japão levando 10 mil pessoas para assistir! Cinco anos sem gravar um disco e carregando mais público do que as pessoas que gravam de seis em seis meses.' "

(continua)

sábado, 11 de junho de 2016

Hermeto Pascoal - Revista Ele Ela (1979) - 3ª Parte

"Desde que a família de Hermeto se mudou para o Bairro Jabour, há três anos, que o grupo está junto; e juntos eles gravaram o último LP de Hermeto, Zabumbê-bum-á, lançado em abril último. Por imposição do líder, eles só se apresentam completos. Não tem nada de cada um por si, não.
O telefone toca. É Jovino que quer saber do harmônio. Hermeto fala da nova aquisição com a maior ternura ('passei um óleo de máquina nele, só vendo'). Entra Nenen, bigodudo, de camiseta turquesa, e avisa para o chefe:
'Vou dar uma estudadinha lá em cima, tá?'
O assunto agora gira em torno do novo disco e a transa de Hermeto com as  gravadoras.
'Aliás é importante você caprichar neste pedaço, porque agora vou cobrar da WEA um lançamento para a imprensa, depois de uma tournée pelas capitais divulgando o disco. Quem ouve Zabumbê sente uma consciência profissional grande da equipe toda, mas sente também um clima de certo informalismo. É como se estivesse lá também durante as gravações. O disco foi feito, por incrível que pareça, em 17 dias. Muita gente levaria até seis meses gravando um trabalho desses. Quero um lançamento com a participação de meu pai, minha mãe, falando como fizeram nas faixas São Jorge e Santo Antônio. Só vale assim.
Alguns setores da crítica especializada consideram o Zabumbê-bum-á o melhor disco de Pascoal. Em 77, no entanto, ele gravou nos Estados Unidos o Slave Mass, com produção de Airto Moreira, Flora Purim e Mazolla, onde, na faixa-título, inclui o som de um porco ao vivo. Assim viu este disco o controvertido J.R. Tinhorão: 'Posto o disco para tocar o ouvinte reconhece não estar diante de um músico comum - Hermeto não cai uma única vez em banalidades ou redundância, mas também não chega a uma conclusão.' Na mesma crítica ele se refere a Hermeto como talentosíssimo. Este disco tem ainda Chorinho pra Ele, música feita em homenagem ao irmão morto, Enésio. Waltz e Just Listen, um solo de piano de 11 minutos, belíssimo. Mas como o nosso bruxo encara estes dois trabalhos é o que importa.
'Acho que não é obrigação, é normal evoluir cada vez mais quando se faz um trabalho. Ao todo gravei cinco discos, como compositor e instrumentista e nunca fiz a menor concessão comercial. (Em 72 Hermeto gravou pela A & R um disco que contou com a participação dos cobras Herbie Hancock, Joe Farrel e Hubert Laws, entre outros; e todos sopraram garrafas...), Agora a história do porco no Missa - este o nome inicial do disco - foi o seguinte: eu imaginei uma missa sendo celebrada no mato mesmo, imaginei que no tempo dos escravos eles também rezavam, se comunicavam com Deus pedindo pras coisas melhorarem. Imaginei porcos andando livremente no mato. Hora da missa e os porcos passando. As pessoas lá acharam que eu devia botar o nome de Missa dos Escravos. Fiquei até meio cabreiro. Será que não vão pensar outras coisas? Mas, pensando bem, até que ficou bonito, ficou mais forte.'
Sobre este conjunto de trabalhos, apenas cinco realmente meus, em 30 anos de carreira, ele diz ainda, sem a menor afetação:
'A partir do disco que gravei em 72, os arranjadores lá foram criando coragem para escrever mais livre para as orquestras.
Surgiram coisas com muita percussão. Graças a Deus eu influenciei o mundo como arranjador. Tanto assim que até dois anos atrás eu era mais conhecido nos Estados Unidos e no resto do mundo como arranjador.
A partir da Missa (Slave Mass) é que fiquei conhecido como instrumentista. Nessas viagens aí é que vejo como seu conhecido. Vou às casas de discos e tem meu nome lá. Sou reconhecido como se fosse do lugar e penso: ô xente, será que nasci aqui?'
Nas reflexões acima, que na boca de outro poderiam ser puro cabotinismo, estão contidas muitas verdades, como quando ele afirma que influenciou o mundo como arranjador e é um instrumentista respeitadíssimo nos quatro cantos da Terra. O crioulão Miles Davis incluiu duas composições de Hermeto (Nem um Talvez e Igrejinha) em um dos seus discos, esquecendo-se de mencionar a autoria. Mas quando diz 'ô xente, será que nasci aqui', está brincando.
Ele nasceu em Lagoa da Canoa, Arapiraca, Alagoas, em 22 de junho de 1936. Filho de Pascoal José e de Dona Divina, por  lá ficou 13 anos, sendo que desde os nove dedilhava uma sanfona de oito baixos. Ele e o irmão, Zé Neto, muitas vezes eram convidados para aparecer e tocar em festas e casamentos 'só porque éramos bonitinhos, parecíamos dois pombinhos ou bonecos de louça'. Família de cinco homens ('menina não se criava. Mamãe não quis ter  muito trabalho porque vocês muiés são da daná'), todos albinos (ou aços ou sararás, cf Aurélio): Enésio, já falecido, bandolinista; Zé Neto, com quem Hermeto formava dupla e seu grande amigo de sempre; Hermeto; Manoel e Elísio, 23 anos e estudante de violão em São Paulo. Desta época, Hermeto conta uma história gozada:
'Meu pai tinha um armazém e eu, novinho ainda, de calças curtas, tocava sanfona em cima do balcão, com o Zé Neto. Uma vez passou o dono de uma boiada pela frente do armazém e viu a gente tocando bem lá por aquele mato - era mato mesmo, agora virou cidade -, e falou pro meu pai: 'Seu Pascoal, o senhor não quer me vender esses meninos, não? Eu dou um dinheiro grande para o senhor, mas não vou ficar com eles não. Vou educá-los porque aqui não tem meios. Quando eles tiverem de maior, se quiserem, voltam.'
Eu fui correndo, chorando, encontrar minha mãe. Porque papai vendia tudo mesmo. Até hoje é negociante. Se dava uma máquina de costura pra mamãe e parecia comprador, ele vendia. Fiquei com medo danado que nos vendesse também. Mas mamãe tranquilizou-me e cá estamos nós todos juntos até hoje.'
Hermeto, instrumentista avançado, arranjador dos maiores, compositor fora de série, sensível demais, revolucionário de todo tipo de som ('toco de tudo'), tem uma explicação onírica para o seu aprendizado teórico:
'Tenho escola não. Sou autodidata. Como minha religião é a música - nem teria tempo de fazer outra coisa -, acho que a teoria, essas coisas, me foram dadas de presente. Sabe quando você sonha? Quando acontece alguma coisa com você e você não sabe como? Quando você consegue uma coisa e não sabe como? Eu sei tudo de música, escrevo música até para orquestra sinfônica, conheço tudo de teoria (e baixando o tom da voz, até um pouco contrito), mas como aprendi tudo isto, eu não sei.'
Aos que dizem, nas muitas vezes que ele confirma esta versão, que Hermeto está fazendo gênero, ele corta pela raiz: 'Então você acha que se eu tivesse tido um professor ele já não teria aparecido com aluno assim famoso?' Mas o presenteado, por via das dúvidas, exige que seus meninos do grupo estudem música profundamente, que nem todo mundo nasce com este dom. "

(continua)

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Hermeto Pascoal - Revista Ele Ela (1979) - 2ª Parte

"Hermeto conta que levou um montão de instrumentos para Montreux e para o Japão. Na Suíça tocou poucos ('mas só de olhar pra os outros, de saber que eles eles estavam ali já era bom. Cada instrumento é um amigo'). Ele toca conforme o clima. Panelas comuns, recheadas de fichas de ônibus, e cobertas por tela de náilon verde convivem lado a lado com a caixa das flautas doces e de bambu. Ele abre uma caixa e retira uma flauta bem miudinha que ganhou durante a viagem. Tira um som e conta que a batizou de Cheiroso em homenagem ao famoso bode de Recife. Uma outra, grande e toda diferente, é a Cabra. Ele conversa com seus instrumentos num tom que gente sensível usa para falar com as plantas. E me diz:
'Chegue pra cá que agora vou te dar um furo. Tá vendo isso? (um móvel antigo, empoeirado). É um harmônio. Chegou aqui anteontem, não foi nem estreado. Tem um som assim meio de igreja. Eu estava andando por um dos corredores do hotel lá em Montreux e vi um móvel estranho. Falei para aquele menino da Warner, o Midani: isso é um órgão. Chamamos um empregado do hotel que afirmou que não era. Eu teimei. E era. Igual a esse aí que deve ter uns 80 anos. Comprei através de uma daquelas lojas de instrumentos da Rua Marechal Floriano. Quer ouvir?
E eu lá queria outra coisa no mundo?
Hermeto abriu a tampa e um teclado, com três escalas, idêntico ao do piano, apareceu. Com os pés pressionando dois grandes pedais em madeira ligados ao fole, ele ia passando o ar necessário para fazer o som. Começou ensaiando um xote lento num tom sacro e grandioso. De repente, sapecou um Tico-Tico no Fubá com uma técnica verdadeiramente enlouquecedora. A emoção começou a subir, a esquentar as cabeças e, para disfarçar, demos mais um rápido giro no início das escaletas, teclados elétricos, baixos, baterias, caixotes, latas de tinta, trave de percussão. Conheci ainda a famosa mesa azul de fórmica, ela também um instrumento.
Por fim, o Mago das Alagoas abriu uma porta e entramos num quarto pequeno, anexo ao estúdio, onde brevemente será colocada a mesa de som (corte, mixagem etc) e que vai ganhar também um painel envidraçado. Como nos estúdios completos de gravação. No momento este é o quarto dos entulhos. Mas, perto de um piano desmantelado em fase de restauração ('tirei uns oito ratos aí dentro' - brinca Hermeto), travei conhecimento com a Bacia. Um tanto ou quanto avariada pelas viagens e constantes problemas alfandegários. ('Já pensou os home vendo uma coisa dessas vão acreditar que é um instrumento musical?') Este instrumento, bolado por Hermeto e executado pelo mano e amigo Manoel, é feito de uma bacia de alumínio comum, com cerca de um metro de diâmetro, cortada por dois travessões de madeira tosca. Num deles, estão estiradas oito cordas que transpassam a bacia através de furinhos e acabam nas cravelhas de afinação semelhantes às do violão. Eu arrisco um som; Hermeto morre de rir e explica que  a Bacia fica presa a um suporte, e que dentro da  bichinha vão ainda bolas de gude e água. Para tocar, ele usa um espremedor de limão. Naquele quarto minúsculo o ambiente é mágico. A luz da manhã se firma. Mas há perguntas a fazer sobre este homem iluminado e que acende tantas outras pessoas que vivem ao seu redor.
Voltamos à sala do primeiro andar e eu me instalo no chão. ('Fátima, Fabíola, tragam almofadas.') Hermeto senta-se na poltrona ao meu lado. Enquanto ligo o gravador, dou uma olhada pela sala.
As paredes são forradas de papel com motivos cashmere em dourado (ou será prateado?). As portas são laqueadas de azul-celeste; o grupo de estofados compõem-se de um sofá e duas poltronas, em tons marrom e bege. Há uma mesinha hexagonal no centro, com um jarro cheio de flores artificiais, em tecidos; a televisão em cores fica num canto e posters e fotos de Hermeto enfeitam as paredes entre uns arranjos de flores de plástico. É só.
Para começar, foi assim que Hermeto viu o sucesso fora de qualquer gibi, obtido em julho passado, no Festival de Jazz de Montreux:
'É o seguinte: quando a pessoa está com frio tem que dar um lençol conforme. O lençol fomos nós. Nós esquentamos a rapaziada com o som. Eu acho que não tem diferença de público, sabe. O público é sempre a mesma coisa, depende do trabalho que a gente apresenta. Ele quer ouvir coisas novas. E acho que foi isso que aconteceu. Aconteceu na Suíça, aconteceu no Japão também. Eram 10 mil japoneses vibrando. Os negros até pularam lá. A japonesada pulou. Eles pularam muito foi com a cabeça primeiro, pensando. Isto é que é importante: ouvir música.'
Hermeto costuma repetir em suas entrevistas que a música que faz não é para dançar. Mas argumentei que mesmo entendo o trabalho que ele e o seu grupo apresentam, com a máxima concentração, é impossível, a partir de dado momento, não se sacudir o esqueleto.
'Mas antes, tenho certeza de que as pessoas pensam muito. Não é aquele negócio que a pessoa ouve e já começa a dançar. É um remelexo que vem de dentro pra fora. a música que fazemos não deixa realmente ficar parado. Mas bole mentalmente, em primeiro lugar. Olha, na Suíça eu improvisei umas coisas com a voz, como sempre faço. Conversei com o público em português, fiz uma música para Montreux. No fim da reportagem, vou botar a fita para você. Me inspirou demais o lugar, o lago. Poucos lugares são lindos como Montreux. Me inspirou tanta plantação. Plantação até em cima dos morros! Aí fiz a música para flauta, piano e baixo. Tocamos eu, Jovino e Itiberê.'
Hermeto no palco em Montreux
 Aproveito a deixa pra perguntar pela formação deste grupo atual, que muitos sabem ser sua segunda família. Como vivem e trabalham estes meninos ainda na faixa dos 20 anos? Sei que formam uma espécie de comunidade também. Mas vamos lá;
'Menina, o grupo é uma s-a-l-a-d-a (e saboreia mesmo esta palavra). A Zabelê é mineira, toca violão, percussão e faz o vocal também. Ela é casada com Nenem, gaúcho que transa bateria, piano e percussão. Os dois moram na segunda rua à direita daqui; o Itiberê toca contra-baixo, acústico e elétrico, é paulista e mora defronte de meus pais, Pascoal e Divina, alagoanos, que por sua vez moram a três esquinas daqui; o nome do Pernambuco já entrega  o ouro, ele é pernambucano ligítimo, toca percussão, declama e  mora em Madureira; já o Cacau transa flauta e sax e é  o carioca do grupo, sendo o único que mora na Zona Sul, na Avenida Atlântica; o Jovino transa teclados e mora em Realengo. Tem ainda meu mano Manoel, que mora com nossos pais e é quem faz os instrumentos. Dexovê, será que esqueci alguém? Se esqueci, paciência. E eu, Nossa Senhora! Falta eu. Eu sou  o pastor. (E ri). "

(continua)