Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

domingo, 24 de fevereiro de 2013

O Pensamento de Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes é uma figura das mais marcantes de nossa cultura, e nesse ano faria cem anos. Poeta, letrista e compositor, Vinicius deixou marcas profundas na história cultural do Brasil. Dono de uma biografia das mais interessantes, tendo sido diplomata, e ao mesmo tempo vivendo uma vida boêmia intensa - algo considerado pelos conservadores, incompatível para o respeitado cargo. Vinicius amava antes de tudo a vida, as mulheres, os amigos e a vida boêmia.
Ontem, arrumando velhos discos de vinil, encontrei uma coletânea em sua homenagem, onde diferentes intérpretes dão voz à sua ampla obra musical. Na contracapa do disco, há várias frases e trechos de entrevistas e depoimentos de Vinicius. Alguns deles reproduzo abaixo:
"Quando eu era Vice-Consul em Los Angeles, foi preso um marinheiro brasileiro, que tinha viajado clandestinamente num navio. A polícia americana pegou o cara em San Francisco e o remeteu para Los Angeles. Ele era um paraibano simpático e nós tratamos de repatriá-lo. Dois dias depois, para surpresa minha, chegou a polícia de San Diego, uma cidade vizinha de Los Angeles, com a notícia que ele tinha morrido, debaixo de um trem. Não sei se ele se suicidou, se estava bêbado, ninguém sabe direito como foi. Essas coisas, aqui no Chile, nos Estados Unidos e em outros países, a gente nunca sabe como acontece, aí eu pedi autorização ao Itamarati para embalsamar o corpo. A autorização veio e eu então comprei um pequeno lote naquele cemitério famoso de Los Angeles, chamado 'Forest Law' e quem levou o caixão para enterrar o paraibano fui eu, o Maurício Fernandes que era meu auxiliar no Consulado, dois policiais e dois caras que eram da agência funerária. Acontece que eu não sabia que americano tem mania de tapar as covas vazias com um tapete de relva, aquela mania que americano tem de disfarçar a morte, de pintar o defunto, enfim, fazer aquelas patacadas que eles fazem. Então, eu vinha com o Mauricio Fernandes, os dois policiais, os dois coveiros, segurando as alças do caixão e pisei num daquels tapetes verdes e caí dentro de uma cova vazia. Quase que o caixão caiu em cima de mim, e eu estava na cova errada. E o resultado é que ao invés do Mauricio Fernandes me ajudar a sair de lá o mais rápido possível, ele começou a rir e eu não aguentei e comecei a rir também, e quando estava conseguindo sair da cova e olhei a cara dos policiais e coveiros, aquela cara solene que eles usam, caí de novo, e foi uma coisa trágica, e eu fiquei no buraco um bom tempo. É o que se chama de tragicômico."
"Na minha parceria musical com Toquinho não há essa coisa de quem está lucrando mais. Tanto é bom pra mim como pra ele também. Agora, eu não sou saudosista não. Ultimamente, quando me apresento em shows, obviamente procuro mostrar o que tenho feito de novo, e é aí que eu mostro mais a minha parceria com o Toquinho. Não tenho vergonha de afirmar que sinto ciúmes dele quando ele compõe com outro."
"Os pesquisadores, historiadores de nossa música, programadores de rádio, se esquecem de baluartes importantes da Bossa Nova. Todos falam em Tom, Vinicius e João Gilberto, mas se esquecem do meu parceiro Carlos Lyra, da nossa Elizete Cardoso, do maravilhoso e injustiçado Jonnhy Alf. Eles não tocam Lúcio Alves, Dick Farney, todos eles foram imprescindíveis e não se pode falar em música brasileira sem esbarrar num Caymmi, Garoto e Custódio Mesquita. Em 1953, no Clube da Chave, eu vi dissonâncias incríveis do Jonnhy Alf, ouvi harmonias sensacionais de Tom Jobim."
"É claro que eu sinto saudades de compor com Tom Jobim, Edu Lobo, Francis Hime, Baden Powell, Carlinhos Lyra e Chico Buarque. Vocês sabem que parceria é como casamento, não é? Casamento sem sexo, claro. A parceria tem todos os problemas do casamento e a distância é um perigo. Só me afastei deles, porque cada um de nós começou a viajar, cada um para o seu lado, e aí, a coisa fica muito fragmentada e a gente perde o pique. Mas não vai faltar oportunidade, basta a gente se encontrar."
"Serenata do Adeus foi uma tremenda dor de cotovelo que eu tive. Fiz essa canção em Paris, em 1955, depois de uma grande experiência amorosa. Não deu certo, não pôde ser, teve que haver a separação, eu curti uma tremenda fossa e a canção saiu assim, naquela base..."
"O mal dos críticos musicais, é que alguns são excelentes empilhadores de discos. Outros não ouvem  nada, e o pior de todos é o radical. A gente tem que ficar atento e ouvir a tudo e a todos. Eu sou um compositor que procurei não parar no tempo. Tenho a impressão que sou o único que passei por quase todas as gerações: fiz músicas com Pixinguinha,, Paulo Tapajós, Ary Barroso, Laurindo Almeida, Tom Jobim, Carlos Lyra, Baden, João Bosco, Chico Buarque, Toquinho e Vicente Barreto. E se aparecer um jovem qualquer, seja lá de onde for, com sensibilidade e talento, não hesitarei em formar uma nova parceria."
"Me fascina imaginar que nesse momento, um porteiro de um edifício de João Passoa esteja assoviando um 'Regra Três', e me extasia imaginar que um estudante de Caxias do Sul esteja lendo nesse momento um poema meu."
"Não há um lugar específico para se compor. Eu componho no banheiro, na mesa do bar, numa reunião chata, andando na rua, e até viajando. 'Eu Sei Que Vou Te Amar', eu fiz a letra quando ia pra São Paulo de trem. Mas se você quiser uma resposta mais contundente, eu prefiro trabalhar de noite."
"Eu insisto que só tenho ciúme físico. Se alguém olhar insistentemente para minha mulher, eu fico até orgulhoso. Se ela retribuir o olhar, aí é que eu fico chateado. Eu sou tranquilo... porque quando uma mulher ama, não trai. A mulher só 'manda ver' quando já não ama seu homem, e sinceramente, por esse experiência eu nunca passei."
"Já aconteceu uma vez, sim. E me arrependo até hoje. Minha filha não me perdoa. Eu havia feito uma valsa para ela, 'Susana', mas tive que lançar mão da música para usar como tema da peça 'Orfeu da Conceição', e foi assim que a valsa de 'Susana' se transformou na valsa de 'Eurídice."

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Roberto Carlos na Televisão


Quando era criança e começava a gostar de música, o que me interessava e me agradava era a Jovem Guarda, principalmente Roberto Carlos. Ouvia suas músicas no rádio, e elas me diziam algo. Mas uma coisa me incomodava: eu nunca via Roberto na tv. Na época, ele era contratado exclusivo da TV Record de São Paulo, que no Rio era transmitido pela Tv Excelsior, e em minha cidade só entrava o sinal da Tv Tupi. Dessa forma, eu nunca o via pela televisão. Mesmo assim, ainda me lembro de duas raras vezes em que pude vê-lo pelas câmeras da Tv Tupi: Quando ele se casou, na Bolívia, pois no Brasil ainda não havia divórcio - que só foi aprovado em 1977 - e Roberto se casou com uma mulher desquitada. Como o desquite não permitia que uma pessoa se casasse legalmente mais de uma vez, Roberto se casou com sua primeira esposa, Nice, na Bolívia, onde era possível casar mais de uma vez. Na ocasião, o casamento do grande ídolo da música, que virou o assunto do momento teve grande cobertura da imprensa, e assim pude ver Roberto na tv, quando ele se mostrou com uma aparência diferente: com cabelos mais curtos, um par de óculos de aros redondos e barba crescida, por fazer. Mas durante a cerimônia ele dispensou os óculos e se barbeou. Mas nessa transmissão ele não cantou, e pra mim não teve muita graça. De qualquer forma era Roberto na tv. A segunda vez em que o vi na tv foi num evento especial, que não me lembro qual, mas talvez um show beneficente ou algo assim. Lembro que eu tinha consciência que aquele era um momento raro, e quase não piscava, para não perder nem um segundo de um momento que talvez não se repetisse tão cedo. Nesse dia Erasmo e Wanderléia também se apresentavam, e a festa ficou completa.
 Depois, a coisa mudou. O programa Jovem Guarda foi tirado do ar, e a Tupi contratou Roberto para um programa semanal, que ia ao ar às terças-feiras, após o telejornal (Reporter Esso). Esse programa durou dois anos, entre 1967 e 1968. No primeiro ano o programa se chamava RC 67, e no ano seguinte RC 68. Muito se fala até hoje do programa Jovem Guarda, mas o programa que ele fez na Tupi durante dois anos pouco ou nada se fala. O programa não teve o mesmo impacto do seu programa na Record, mas tinha um formato interessante, com ele cantando seus sucessos de então, e apresentando convidados, entre eles Erasmo e Wanderléia, seus mais destacados parceiros da Jovem Guarda. Lembro dele lançando músicas novas, como "O Tempo Vai Apagar" e "Ciúme de Você", entre outras. Em 1969 o programa saiu do ar, mas me lembro vagamente da emissora chegar a anunciar uma possível volta do programa na primavera daquele ano, o que não aconteceu.
Após o fim de seu contrato com a Tupi Roberto passou a não ter vínculo com nenhuma emissora de tv,  e sua presença não era muito comum na televisão. Uma vez apareceu numa edição especial do programa Som Livre Exportação, da Globo, que inclusive foi filmado em película, por isso as imagens são coloridas, apesar de na época (1971) não haver ainda tv a cores no Brasil.
Logo em seguida Roberto assinaria novamente com a Tv Tupi, só que dessa vez o contrato não era exatamente com a emissora, mas com o apresentador Flávio Cavalcanti, que apresentava um programa dominical de grande audiência na emissora, das 7 às 10 da noite. Roberto só se apresentava nesse programa, uma vez por mês, como uma grande atração, e o ibope do programa crescia. Esses dias eram para mim, e muita gente, uma noite de gala, e muito aguardada. Naquelas noites Roberto se apresentava com seu grupo, durante cerca de meia-hora e chegou a lançar algumas músicas. Na época, antes de lançar seu disco anual, que saía sempre em dezembro, sua gravadora lançava duas músicas, como aperitivo. As músicas eram lançadas em compacto e num lp chamado As 14 Mais, uma coletânea com vários artistas da gravadora. Numa dessas vezes, as duas músicas lançadas com antecedência foram "Sonho Lindo" e "O Show Já Terminou". Estava tudo programado para Roberto cantar primeiramente "Sonho Lindo" e depois "O Show Já Terminou", que era o lado A do compacto, e a música de trabalho. Mas Roberto não sabia a letra de Sonho Lindo de cor, por isso ficou combinado com a produção do programa que se colocaria uma "cola", uma cartolina com a letra da música para ele ler, numa época anterior ao teleprompter. Mas na hora h, quando iria cantar, a letra da música não estava no lugar combinado. Assim, ele teve que cantar primeiramente a música que iria cantar ao final, e que ele sabia de cor. Roberto deve ter ficado meio puto, mas soltou aquela sua risada característica, mas o apresentador, muito severo com sua produção não escondeu sua contrariedade, e deve ter dado uma bronca em sua produção.
 A partir de 1973, e até os dias de hoje Roberto tem contrato exclusivo com a Globo, e apresenta o famoso especial de fim de ano, que só deixou de ir ao ar em 1998, por ocasião da morte de sua esposa Maria Rita, e em 2011, quando seu show em Israel, que já havia sido transmitido foi repetido na condição de especial de fim de ano. O programa, que em outras ocasiões já recebeu  convidados de peso, como Tom Jobim, Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan, Marina Lima, Gal Costa, Maria Bethânia, e seu parceiro Erasmo, hoje traz atrações como Xitãozinho e Xororó, MC Leozinho, Bruno e Marrone, Michel Teló e outros do mesmo nível.
Roberto já viveu melhores momentos na tv.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Os 50 Anos de Lançamento do Disco Getz/ Gilberto

Há 50 anos era lançado um álbum histórico, e que obteve uma grande repercussão. Em 1962, quando a Bossa Nova se consolidava como um fenômeno mundial, conquistando a nata do jazz, o saxofonista americano Stan Getz se juntou a Tom Jobim e João Gilberto para gravar um álbum pelo prestigioso selo Verve, que ajudou a divulgar ainda mais o ritmo brasileiro no mercado internacional. O disco Getz/ Gilberto ainda seria o responsável pelo lançamento da cantora Astrud Gilberto, na época casada com João, e que até participar das gravações do álbum, não pensava em seguir carreira como cantora. O álbum seria lançado em 1963, e logo chamaria a atenção da crítica internacional, que se encantara com a grande novidade qiue era a Bossa Nova, e ganharia quatro Grammys.
Em matéria sobre o disco, publicada no último domingo no jornal O Globo, o perquisador João Máximo diz:
"A importância do disco não ficou, porém, nos prêmios. Para Getz, foi um renascimento. Vivia má fase, quase não gravava e não escondia seu desencanto com o jazz nativo, inclusive pela literatura recente sobre o assunto, '... cada vez mais pomposa, complexa e chauvinista'. Conhecer João Gilberto foi  o estímulo para um espetacular recomeço. João tornou-se ainda mais João, agora gravando em condições técnicas mais adequadas à voz e ao violão, matrizes da Bossa Nova. Jobim partia para fazer, naquele ano, o disco com Claus Ogerman que chamou a atenção de Frank Sinatra para 'the composer of Desafinado', e lhe abriu definitivamente as portas do mercado americano."
Tom, Getz e João Gilberto
O sucesso internacional de The Girl From Ipanema começaria com esse disco, e depois a música ganharia várias interpretações, a ponto de ser umas das músicas mais regravadas em todo o mundo. A respeito dessa primeira gravção internacional o músico Charlie Byrd falou "O Stan toca como se estivesse tentando conquistar todas as mulheres da  praia de Ipanema".O crítico inglês John Lewis escreveu a seguinte resenha sobre o álbum Getz/ Gilberto:
"A paixão dos Estados Unidos pela música latina não era nova - ao longo do século 20, o tango, o chá-chá-chá, a rumba e o mambo tinham sido a trilha sonora de muitos bailes e jazz clubs do país. Nascido na Filadélfia e criado na Costa Oeste, o saxofonista Stan Getz gravou Jazz Samba, em 1962, como uma variação exótica de seu hard bop lírico, depurando os ritmos agitados do samba brasileiro até chegar a uma batida simples e sinuosa que se tornou conhecida como Bossa Nova.
Getz e Byrd se encontraram, involuntariamente, no topo de uma enorme onda internacional, quando a versão deles de 'Desafinado', de Tom Jobim, vendeu milhões de cópias. Ao contrário, porém, do que aconteceu com os que correram atrás desse bonde mais tarde, Getz não foi descartado como ilegítimo pelos brasileiros, mas reconhecido por pioneiros da Bossa Nova, como Baden Powell e o próprio Jobim.
Stan Getz era o único gringo em Getz/ Gilberto, acompanhado ao piano por Jobim (que tinha também tocado violão com Getz) e na bateria pelo brasileiro Milton Banana. Mas a verdadeira estrela era o violonista e cantor João Gilberto, o irritadiço purista da Bossa Nova que, com seu vocal monótono e hesitante e suaves batidas de violão, havia criado o gênero.
Astrud Gilberto
Reza a lenda que o produtor queria que parte de 'The Girl From Ipanema' fosse cantada em inglês. João não falava a língua e sua jovem  mulher Astrud se ofereceu para cantar um take. Seu vocal infantil e ofegante se tornou uma das performances definitivas do século 20 e as duas faixas em que ela canta - incluindo uma leitura da letra de  Gene Lees para 'Corcovado' - estão entre os vários destaques deste álbum. Um relançamento, em 1990, exclui a versão em 45 rpm das duas músicas."


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Falando de Paulinho da Viola

O crítico de música e literatura J. Jota de Moraes escreveu um belo texto sobre Paulinho da Viola, um dos nomes mais importantes do samba:
"O Paulinho da letra é o homem da palavra escolhida e clara, da imagerm certeira, do verso conciso e muitas vezes inesperado, da linguagem que revela extrema simplicidade no que tange à expressão. Por vezes, o tom de suas letras é tão coloquial e aparentemente corriqueiro que chega a dar a impressão de um simples improviso surgido no instante mesmo da composição - e isso costuma acontecer na verdade... Esses textos chamam a atenção para o fato de estarem geralmente estruturados em torno de um núcleo de ideias - às vezes declarado expressamente, às vezes insinuado, outras vezes apenas em estado latente - ideologicamente carregado, já que comprometido com uma visão da realidade bastante precisa, dirigida. E eles conseguem o milagre de não serem nem pedagógicos nem demagógicos: são sinceras anotações sobre a vida, falam de seus mistérios, de suas evidências que muitos querem esconder, sempre sem quererem convencer ninguém. Desejam, isto sim, fazer sentir e pensar. E, se conseguem fazer isso com tanta gente, é porque são fortes, foram concebidos dentro da própria cultura popular, criticamente, e não de fora, eventualmente a partir de um ponto de vista paternalista. E, também, porque mostram 'Que a vida não é só isso que se vê/ É um pouco mais' (Sei Lá, Mangueira)
Dos coloridos textos de Paulinho da Viola afloram objetos humanizados, paisagens por vezes devastadas e personagens reais e fictícios - nunca tratados com compaixão, mas com enorme carinho - que servem de referências concretas às ideias e emoções mais gerais colocadas em jogo e que são vistos sob um ângulo que valoriza, a um só tempo, o familiar e o incomum. Os alegres almoços de confraternização, as rodas de samba e os encontros cotidianos, frutos do acaso, igualmente encontram espaço nesses textos que recuperam a realidade por meio de imagens marcadas por um lirismo às vezes descarnado, às vezes apaixonado.
As letras de Paulinho da Viola tematizam sobretudo a solidão do homem de hoje e sua contrapartida, o amor, percebido como um ciclo semelhante ao da própria existência individual. A necessária aventura amorosa traz prazer e desengano, mas igualmente a renovação da esperança de amar e o novo prazer do novo amor, acionando os mecanismos da memória. Talvez por isso, 'Devemos abandonar/ Qualquer desejo de vingança/ Para não prejudicar no futuro/ Uma nova esperança' e também 'Reconhecer o direito de alguém/ De um caminho escolher' (Mensagem de Adeus). E, ainda porque 'A gente lamenta a depois reconhece/ Que o amor não se acaba nas dores do mundo' (Pra Jogar no Oceano).
Esse universo individual, no entanto, não é fechado em si mesmo, mas aberto em direção ao coletivo. Apesar de lembrar que 'Quem quiser que pense um pouco/ Eu não posso explicar meus encontros/ Ninguém pode explicar a vida num samba curto', nós 'vivemos, estamos vivendo/Lutando pra justificar nossas vidas' (Cantando); e que isso deve ser feito 'Sem preconceito ou mania de passado/ Sem querer ficar do lado de quem não quer navegar' (Argumento). E é a partir dessa base que Paulinho da Viola se expande, mostrando-se solidário com o povo, fazendo o elogio das suas produções, denunciando as injustiças e, sobretudo, apontando para a força do próprio ato de cantar, de criar: Cantando 'um novo sentido, uma nova alegria/ (...)/ Lutando, que não há sentido de outra maneira/Uma vida não é brincadeira/ E só desse jeito é a felicidade'. Por esse ângulo, talvez fique ainda mais clara a razão do seu grito de alegria em Foi um Rio Que Passou em Minha Vida: 'Portela, Portela!/ O samba trazendo alvorada/ Meu coração conquistou'. Aí estão os homens e sua música, finalmente reunidos."

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Entrevista de Baby Consuelo ao Pasquim - 1985

A volta de Baby do Brasil (ex-Consuelo) aos palcos, interpretando músicas de sua fase pré-evangélica foi uma das mais aclamadas apresentações do ano passado. Baby, sem dúvida, é uma grande intérprete, e uma personalidade sempre marcante. Baby sempre teve um lado místico, e uma de suas primeiras manifestações nessa área foi nos anos 80, quando era uma seguidora fiel do "paranormal' Thomas Green Morthon. O grito "Rá" era uma espécie de mantra para se conseguir energia e boas vibrações. Em julho de 1985, Baby concedeu uma entrevista ao jornal O Pasquim, onde dentre outras coisas, fala daquela sua fase mística de então. Da entrevista participaram Renato Martins, Walter Queiroz, Rick, Cesar Tartaglia, Mara Teresa Jaguaribe e Jaguar. Por ser uma entrevista longa, vou reproduzir apenas  alguns trechos. Segue abaixo:
"Walter Queiroz - Da Baby do 'Desembarque dos Bichos', seu primeiro show em Salvador, à Baby de hoje, muita água rolou, né, além de muitos filhos. Como é que você vê as duas Babys, a que desembarcou com os bichos e a que viaja com os filhos?
- Baby Consuelo - Houve uma espécie de adaptação.Aquela Baby é a cara da Baby de hoje. Mas tinha algumas coisas dentro dela que com o tempo fui descobrindo e aos quais tive que me adaptar. Ou melhor, tive que conquistar. Passei por processos de marginalização, por milhares de processos, pra conseguir ter a docilidade, a criatividade, a ingenuidade, a loucura e a esperteza daquela Baby. A  caminhada não foi só minha, foi das pessoas também. A Baby que as pessoas veem hoje é a mesma daquela, mas naquela época as pessoas não aceitavam ela. Quando eu entrava num programa com espelho na testa, tomavam susto. Tive que impor minha maneira de ser. Se não persistisse, seria limada.
Jaguar - Você sempre passou uma imagem juvenil, mas é evidente que o tempo passa. Você tá preparada para deixar de ser Baby e vir a ser Lady?
Baby - Como é que vai ser quando eu tiver 60 anos? Tá arriscado de tá com uma minissaia incrível. Se a perna tiver xué, boto uma meia divina. De uma coisa tenho certeza: muita gente vai dizer 'aquela velha é ridícula'. Não vou nunca conseguir fazer o modelito da idade.
Baby e seus entrevistadores
Renato Martins - O processo e transformação da Baby de então pra Baby de hoje, passa por onde? Pela análise? Pela droga?
Baby - Nunca fiz análise. Com nove anos, pedi a meu pai pra me levar num analista. Era um tal de Heros Vital Brazil. E depois fui a outro em Niterói, que não gostei porque contava tudo pro meu pai. Eu ia pela vontade que sempre tive de querer saber mais. Queria saber sobre o tal de sexo, que falavam tanto. Queria ler Freud. Aí me trouxeram 'Vamos, criancinhas, a Jesus'. Embora eu fosse apaixonada por Jesus, não era bem o caso! Então eu queria alguém pra falar de certas coisas. O papo era muito careta. Aí, na idade em que normalmente se faz análise, nunca me interessei. Tenho um lado muito introspectivo, vasculho muito meu pensamento, faço uma análise direto. Tenho um lado místico-cósmico que me serve de base.
Renato - Você contou seu contato com a análise, mas com a droga?
Baby - A droga, de um modo geral, não é uma coisa que me agrade. O pior vício é o da bebida. É comprovado que bebida mata o cara. Agora, é difícil ter uma geração que não prove da bebida ou da maconha ou o que for. O mais legal é a pessoa ter a grande arma de possuir tudo e não ser possuída por nada. A grande filosofia que levei - e por isso não caí do cavalo - foi possuir todas as minhas reações. Isso tem a ver com Epicuro e Diógenes.
Jaguar - Voltando ao lado místico: você experimentou o espiritismo?
Baby - Nasci na religião católica, confessava, aquelas coisas da garota. Com nove anos, queria ser freira. Depois fui descobrindo que não era nada daquilo, mas já era esse meu lado. Ouvi falar de candomblé, mas nunca me atraiu. Tive uma bisavó que era logosófica. Acredito que todos os caminhos que sejam super do bem vão levar numa única direção, que é o Criador. Meu caminho foi mais meu mesmo, rezar no banheiro, uma coisa dentro de mim. Um estilo natural de reza.. Isso é o quente. Pra mandar uma energia positiva, não preciso estar necessariamente numa igreja. O homem e Deus estão um dentro do outro. O que gerou tudo meu foi Deus, então eu sou Deus, apenas tenho que me descobrir. Ou redescobrir. Deus me fez o menos possível para que eu me faça o mais possível pra que eu saiba que eu, quando estou em sintonia total, sou Deus.
No tempo dos Novos Baianos
Walter - Você tem sido uma grande prosélita do Movimento Rá no Brasil. Explique o que é isso.
Baby - O Rá é uma liberação de energia positiva. Tudo que há de positivo: saúde, paz, amor, harmonia, tranquilidade. Quando você desejar muita felicidade pra uma pessoa, você grita RÁ! O Rá não está inserido em religião, mas na particularidade do homem com Deus, com a Criação. O cara pode ser da religião que for, Deus está acima.
Mara Teresa - Por que a palavra?
Baby - Soube que no Seicho-No-Iê existe esse mantra: Rá - Rá - Rá - Rá
Ricky - Como você conheceu o Thomas?
Baby - Sempre tive essa fixação cósmica. Mesmo nas horas mais difíceis da minha vida, não abri mão de Deus. Creio que qualquer cacetada, qualquer coisa ruim, vai construir uma coisa boa. Tudo tá valendo. Conheci o Thomas, por exemplo, através de uma desinteria bacilar. Procurei o Zanata., o da macrobiótica, e nessa mesma noite ele me mostrou várias transmutações, papel transmutado em dinheiro, cerveja em perfume. Fui a primeira pessoa do meu meio a conhecer o Thomas. Era uma época que eu tava muito preocupada, rezando pela Clara Nunes dia e noite. Pedia a Deus uma resposta. Considero que Thomas chegou pra mim pra eu compreender o fenômeno na hora certa. Porque isso evoluiu para uma amizade minha com o Thomas. Ele me deu uma dica: 'Baby, você não é nada, mas tem uma imaginação fantástica'. Realmente, não sou nada religiosa, na hora da barra posso nem ter fé, mas vou imaginar que Deus tá lá em cima me dando uma mão, e vou imaginar tanto que vou ficar forte à pampa!
Ricky - Mas como é que foi o contato, a primeira vez que você o viu?
Baby - Quando eu estava com ele, materializou na minha correntinha, que tinha a cara do Yogananda, uma medalha de nossa Senhora do Escapulário. Tomei o maior susto quando aquilo entrou do nada! Senti a presença do Yogananda, que era meu mestre, aliada à presença do Thomas. Sempre pedi a Deus pra conhecer alguém encarnado na Terra que fizesse as mesmas coisas que fazem os grandes gurus nos livros que eu leio. Embora o Thomas diga: 'Não sou guru'. Realmente nossa cultura ocidental não tem essa de guru. Thomas não ensina ninguém a ser igual a ele. Ele demonstra a presença de Deus. Então, quando o conheci, ele falou; 'Vem cá que eu vou te mostrar como Deus é incrível'. E fez as coisas mais fabulosas e fantásticas que já vi na minha vida. Com isso, minha fé ficou forte. Todos meus delírios se tornaram realidade. Quando falo no Thomas, meu coração fica em flor, igual a um jardim."

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Gal Costa - Revista AZ (1990)

Em março de 1990 a revista AZ trazia uma matéria de capa com Gal Costa. Na matéria, escrita por Eduardo Logullo, Gal fala de seu início de carreira, sua veneração por João Gilberto, fatos de sua vida e autocríticas A matéria traz em destaque uma frase de Waly Salomão: "A voz de Gal dá calma ao Caos". Abaixo, alguns trechos do depoimento de Gal à revista:
"Eu sou totalmente autodidata. A coisa da emissão da voz, da respiração. É claro que já tenho uma emisão espontânea, isso veio comigo do além. Quando eu era criança, minha mãe tinha uma panela enorme, dessas de feijoada, e eu enfiava a cabeça na panela para ouvir meu timbre. Era uma forma de estudar canto. Minha mãe, quando estava grávida de mim, só ouvia violão clássico, Segóvia. Ficava concentrada para influenciar o filho a ser musical. Ela queria que o filho fose violonista clássico. Todo dia ouvia religiosamente, para aquilo entrar... Sempre fui muito exigente. Na Bahia, havia um programa chamado 'Escada para o Sucesso', na TV Itapoan, onde muitos iam se apresentar. Os amigos, todos, e parentes, pediam para eu ir. Mas eu já sentia que iria chegar aonde eu queria. Não daquela maneira, num programa de calouros. Era uma coisa muito maluca que eu tenho até hoje, uma espécie de premonição, meu lado de artista, a coisa sensitiva. Eu tinha intuições, entendeu? Uma vez, Gilberto Gil deu uma entrevista dizendo que eu era uma estrela teleguiada. Acho que ele tem toda razão. Sou exigente, seletiva, rigorosa, só fazia aquilo que queria. Sempre fui corajosa de buscar coisas novas para mim."
"Eu era louca por João Gilberto. Quando João pintou, eu fiquei louca por ele. Lembro-me que ouvia tudo dele com atenção especial. Antes dele surgir, eu ouvia Luiz Gonzaga, Anysio Silva, essas coisas. A primeira vez que ouvi João Gilberto no rádio eu nem sabia o que era aquilo, mas me apaixonei de cara. Como nesta época eu não tinha vitrola, ficava procurando João nos rádios, o dia inteiro atrás dele. A partir daí comecei a mudar minha forma de cantar e emitir. A divisão da poesia na música eu aprendi com João Gilberto. Comecei a me preocupar em dividir certas frases em determinados momentos. Mas a forma de dizer a palavra com música é natural em mim. Um dia (naquela época), eu estava na casa de Dedé e Sandra Gadelha, quando Silvio Lamenha aparceu lá e dise que ia se encontrar com João Gilberto. Aí eu gritei: 'ah, me leve, pelo amoerde Deus!'. E fui com ele. João estava no prédio em que a mãe dele morava, na Barra. Quando cheguei, Silvio me apresentou: 'esta é Gracinha'. João disse que que já tinha ouvido falar de mim, pois naquele tempo eu cantava em casas de amigos, em reuniões, etc. Ele perguntou se eu tinha violão, e eu fui correndo buscar. João ainda estava casado com Miúcha naquela época. Depois pegou meu violão e ficou dedilhando. Aí virou pra mim e disse: 'cante Mangueira'. E, fora 'Mangueira', cantei o repertório dele inteiro. Ele não dizia nada, enquanto eu pensava: 'meu Deus, que situação...' No final, ele me disse: 'você é a maior cantora do Brasil'. No dia seguinte encontei Caetano e contei que tinha ficado com João. Caetano ficou com o olho assim, pois também era apaixonado por ele. Eu fiquei catatônica uma semana. Depois deste encontro, me tornei uma pessoa radical. Não existia mais nada, eu não gostava de mais NADA!! Era Deus no céu e João Gilberto na terra. Radicalizei tanto nesta época que quanto depois, quando me joguei na coisa do grito, da guitarra, da maneira mais louca e corajosa. Mas com João Gilberto eu entrei em estado de graça. Ainda naquela época, eu encontrei Sérgio Mendes na Bahia, e ele me convidou para ir cantar nos Estados Unidos fazendo parte do grupo dele."
"Na fase da repressão eu fiquei no Brasil, tantando manter mais ou menos viva a imagem de Caetano e Gil, através do meu canto. De repente, eu nem tenho muita consciência de como fiz aquelas coisas, aquele discos (...) O ritmo, o vigor da coisa rítmica negra sempre me faascinou muito. Embora não tanto como Gil, Djavan ou Jackson do Pandeiro, sempre assimilei bastante os elementos percussivos em meu trabalho. Creio mesmo que isso mantém em algumas antigas gravações minhas, até hoje. Claro que diferente. Agora tenho uma técnica vocal muito maior, outra compreensão musical, outro feeling; tudo flui junto, harmonia e música. Atualmente questiono alguns trabalhos meus. Mas essa coisa de altos e baixos está sempre ligada ao artista. Todo mundo erra, né? A capa de Minha Voz, por exemplo, eu não gosto, acho fake. Não tenho o costume de ouvir sempre o que gravei. Quando estou fazendo um disco, eu ouço muito, até ficar pronto. Quando é entregue para a gravadora, eu paro de ouvir. Outro dia,  por acaso, fiquei ouvindo Caras e Bocas e achei um disco forte, com músicas bonitas. Não ouvia há anos, e adorei. Já Lua de Mel não gosto mesmo."

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O Centenário de Walter Smetak

Na data de hoje Walter Smetak, um pesquisador de sonoridades e inventor de instrumentos musicais inusitados, faria 100 anos. Suíço de nascimento, veio parar no Brasil aos 24 anos, e daqui não mais saiu. Aqui no Brasil desenvolveu suas pesquisas, e aqui viveu até sua morte, em 30 de maio de 1984. Chegou a lançar dois discos, o primeiro, em 1974, com produção de Caetano Veloso, e o segundo em 1980 e chamado Interregno, cuja versão em vinil eu possuo.
Smetak deixou uma série de instrumentos por ele desenvolvidos, que já ganhou até exposição. Pouca coisa foi publicada sobre Smetak e seu trabalho experimental de pesquisa. Um bom texto sobre ele saiu em 1979 na série Nova História da Música Popular Brasileira, da editora Abril, que saia em bancas de revistas. O exemplar dedicado a Smetak trazia ainda Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos. A matéria apropriadamente intitulada "Gepeto da Nova Música Brasileira" dizia: "A criatividade de Walter Smetak se insere também numa dimensão diferente da arte de ordenar notas. Suas pesquisas sobre música convergiram para a necessidade de criar - somando material simples e equipamento eletrônico - instrumentos não convencionais que pudessem transmitir uma gama infinita de novos sons antigos, abrindo caminhos de razão e sobretudo de coração para a musicalidade. E para a vida." Abaixo a transcrição da matéria:
"A sensibilidade crítica de Caetano Veloso colocou lado a lado em sua composição Épico, Smetak e Musak. Entre os dois, estaria a razão da música brasileira. 'Musak' é a marca registrada internacional de um sistema de música ambiente. Por extensão, a palavra passou a ser usada para definir o que é veiculado por esse sistema: uma música padronizada, comercial, que serve de fundo para conversas em bares, para a monotonia do elevador, para o chofer de táxi não cochilar. 'Musak', na canção de Caetano, serve como uma metáfora da música sem criatividade nenhuma. 'Smetak' seria o oposto: a música inovadora, radicalmente experimental e que, por isso, está à margem do circuito comercial. Mas não é uma palavra nova, criada só para rimar e contrastar com 'Musak'.
Não. 'Smetak' vem de Walter Smetak, o alquimista, o inventor, o bruxo. Um artista tão inovador que os instrumentos convencionais não conseguem expressar suas sensações sonoras. Por isso, ele inventou mais de cem instrumentos musicais, na tentativa de reproduzir na íntegra os sons que ele ouve interiormente.
Smetak não se contenta mais nem com a própria música: ele agora persegue o 'mistério do som':
- Tenho procurado diferenciar claramente o fazer som, um meio de despertar novas faculdades da percepção mental, e o fazer música, apenas um acalanto para velhas faculdades da consciência.
Por isso, ele se abre para novos caminhos, para outra notação musical, para outra utilização dos recursos sonoros, inclusive os eletrônicos.
- Este é o grande problema da música contemporânea: os músicos geralmente não conhecem eletrônica. E as pessoas que conhecem eletrônica não sabem nada de música.
Em sua verdadeira 'oficina de música', o suíço naturalizado brasileiro Walter Smetak vai construindo um repertório de instrumentos. Inicialmente ele trabalhou muito com cabaça (que já era utilizada como caixa acústica do berimbau) como no 'Mundo', um de seus primeiros intrumentos, que levava ainda um cabo de vassoura, um prego e a corda de um violão; ou no 'Vina', construído com três cabaças que 'permitem a passagem do som ocidental - mais imprensado - para o oriental, muito prateado e curto', como ele explica.
Nascido em Zurique, a 12 de fevereiro de 1913, ele logo aprendeu a tocar o zither, instrumento da família da cítara. Veio para o Brasil em 1937, para integrar a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, mas seu primeiro escândalo, para o público brasileiro, aconteceu em 1971, durante um concerto na  Igeja de São Francisco, em Ouro Preto. À medida que ia extraindo sons estranhos e ensurdecedores de um órgão elétrico, o lustre de cristal começou a girar, as paredes tremeram, as pipocas pularam fora dos saquinhos.
- Quase todas as pessoas saíram correndo. Me chamaram de bruxo, quando se tratava apenas de uma mera reação física.
Smetak é aquele estranho professor do seminário de música da Universidade Federal da Bahia, que percorre as ruas de Salvador, montado na Prostituta da Babilônia (uma velha motocicleta BMW preta). Em 1974, ele gravou um disco na Philips, apresentando algumas de suas composições e alguns de seus instrumentos.
Vive sonhando com a construção de um imenso instrumento-laboratório, que se chamará 'Ovo'; ou em ir para o Planalto Central instalar uma universidade de som, onde físicos e músicos trabalharão juntos. Ou qualquer outra coisa: palavras jamais seriam suficientes para exprimir a imaginação solta, a infinita inventividade de Smetak. Mesmo porque, como ele gosta de dizer, 'falar sobre música é uma besteira, executar é uma loucura.' "

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Yes - Revista Pop - Junho 74

Nos anos 70 o rock progressivo vivia o auge de sua popularidade, e dentre as bandas do gênero, uma das mais populares era o Yes. Em junho de 74, a revista Pop trazia uma matéria sobre a banda, que estava lançando o álbum Tales From Topographic Oceans. Com o título de "Os Feiticeiros do Rock" a matéria dizia "Eles vivem à procura da perfeição, misturando jazz, clássico e pop. O resultado é um som incrível e místico". Assim era definida a música do Yes, e suas variações sonoras, bem típicas do som progressivo que faziam. Abaixo a reprodução da matéria:
"Foi como uma revelação mágica: o líder do Yes, Jon Anderson, num quarto de hotel em Toquio, folheava a autobiografia de um iogue e achou quatro escrituras que abrangiam todos os aspectos da vida. Excitado, visualizou ali as bases de uma composição longa que queria escrever há muito tempo. Cada escritura era como um movimento de um concerto. Chamou o guitarrista Steve Howe e os dois começaram a a passar as noites em claro enquanto a excursão os levava do Japão para a Austrália e dali aos Estados Unidos. Durante todo o ano passado, o Yes viveu esse clima de criação e trabalho. E o resultado foi o álbum Tales From Topographic Oceans, que teve o mesmo sucesso dos LPs anteriores: os primeiros lugares nas paradas de sucesso dos grandes centros de música pop.
Em Tales From Topographic Oceans (lançado aqui no mês passado), as encucadas letras de Jon Anderson - um feiticeiro das palavras - mostram que 'a vida é uma luta entre os mananciais do diabo e o amor puro', que se desenvolve nos quatro movimentos desse tremendo concerto pop, interpretado com a força e a dignidade que caracterizam o Yes desde a sua explosão em 1971, com The Yes Album e Fragile. Nesses dois LPs estava claro que o grupo andava à procura da perfeição. E essa busca chega a ser obsessiva. Tanto que Rick Wakeman, quando se juntou ao grupo para substituir Tony Kaye nos teclados, chegou a ficar assustado. Faltava apenas uma semana para a gravação de Fragile e a turma vivia discutindo furiosamente os arranjos. Nas sessões de gravação, as brigas esquentavam. E Wakeman, com mulher e filho pra sustentar, foi perguntar a Anderson o que estava acontecendo, se o grupo ia se dissolver e ele ficar na mão. O líder do Yes respondeu que isso era comum, fazia parte do trabalho deles.
Aí, Rick Wakeman ficou tranquilo, tão à vontade que em pouco tempo estourou como o melhor solista de teclados da música pop. E emplacou o maior sucesso com seu primeiro álbum-solo, As Seis Esposas de Henrique VIII. No mês passado ele lançou em Londres seu segundo disco, Viagem ao Centro da Terra. A patota do Yes não se grila com o sucesso individual de Rick. Pelo contrário, isso é mais uma prova que o conjunto reúne o que há de melhor na música pop. São caras que podem muito bem estourar sozinhos., mas também sabem criar juntos um som puro, uniforme, bem elaborado, sem estrelismos. Rick Wakeman conta: 'Antes de entrar para o grupo, tudo o que eu fazia era na base do solo. No Yes, a música tinha arranjos elaborados e eu tive que aprender a me integrar no conjunto. E descobri que, às vezes, tocar vinte por cento da melodia é mais importante do que tocar cem por cento'.
Essa parece ser a chave do som do Yes: uma mistura incrível de tendências passadas pelo coador do bom gosto e da elaboração. E os próprios caras do grupo revelam isso. Steve Howe, guitarrista líder e autor de quase todas as músicas, diz que é uma espécie de filho musical de Bob Dylan. Chris Squire, do contrabaixo, é ligadão em Paul Simon. Rick Wakeman, mágico dos teclados, não esconde sua formação clássica. Alan White, baterista, mistura influências do jazz com Beatles. E Jon Anderson, vocalista, autor das letras e a grande cuca do Yes, atribui tudo o que sabe a 'dez anos de estrada'."

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Show dos Mulheres Negras em SP - 1988

Nos anos 80, em meio à avalanche de bandas que surgiam no Brasil, impulsionadas pelos bons ventos que o mercado proporcionava a esse gênero musical, surgiu uma dupla que trazia um trabalho bastante criativo, fugindo do padrão normal das bandas da moda. Os Mulheres Negras, formado por André Abujanra e Maurício Pereira representavam algo novo. Segundo afirmaram em entrevista na época "nosso som é uma mistura de tudo o que a gente ouviu em rádio desde a infância. A nossa formação cultural é pop. Nós não ficamos ouvindo nossos avôs tocando toada, nós escutamos Beatles, Jovem Guarda, Caetano, Gil, música americana, jazz..Quando se fala em pop, se fala em mistura e 'falta de raiz'. E é isso, é uma cultura urbana, o pop típico de uma cidade como São Paulo".
Autodenominada "A terceirra menor big-band do mundo", os Mulheres Negras gravariam dois excelentes discos. Após a separação, André formaria o Karnak e Maurício seguiria em carreira-solo. Abaixo uma resenha de um show dos Mulheres Negras em 1988, no Centro Cultural (SP), escrita pelo jornalista Antonio Carlos Monteiro, para a revista Roll:
"O que pode acontecer com um músico peso-pesado que se atreve a entrar em cena de patins? Isso mesmo que você pensou: o tombo do ano. E foi o que aconteceu com André Abujanra, guitarrista e vocalista d'Os Mulheres Negras, no início da temporada que o grupo fez no Centro Cultural, em São Paulo.
Assim, no dia 1º de maio, estava no palco do Centro o grupo 'Mulheres de Emergência', com os músicos Théo Werneck (guitarra e vocal), André Gordon (teclados) e Nadio Feliciano (baixo), convocados às pressas pelos Mulheres André e Maurício Pereira (sax e vocal), já que o trabalho desenvolvido pela dupla exige que ambos sejam multiinstrumentistas. Maurício não perdeu a chance de dizer que os três músicos adicionais haviam sido convocados dentro da campanha 'S.O.S Braço'.
Aliás, o bom humor é a tônica do grupo. Não o humor infantil e pastelão que alguns grupos fazem, mas a coisa refinada, cínica, até mórbida levada adiante pelo duo, que ri de todos e de si mesmo, principalmente quando se chamam de 'tecno-pobre' e de 'a terceira menor big-band do mundo'.
Os três convidados, principalmente Werneck, vestiram com facilidade a camisa d'Os Mulheres, e entraraqm na dança e na música com todo o bom humor a que tinham direito. E tome o repertório debochado e inteligente do grupo. Maurício e André satirizam tudo: teve hip-hop em italiano, reggae em francês e muitas brincadeiras com a plateia - especialmente com as crianças, em grande número por se tratar de um domingo à tarde. E, ao contrário do que normalmente acontece nesses casos, tudo isso foi permeado por um instrumental da melhor qualidade, provando que a preocupação do duo se estende também ao conteúdo do que apresentam.
Louve-se também as bem executadas vocalizações de Maurício e do engessado André - que, por sua vez, não perdeu a chance de satirizar, por diversas vezes, com seu próprio braço na tipoia.
Não é por menos que Sampa vem aclamando, de alguns meses pra cá, os Mulheres como a mais nova cult band da praça. Afinal, em termos de criatividade musical, é sempre agradável ver que ainda existe vida inteligente além das FMs - onde, aliás, a coisa anda mais preta que goela de urubu. No Brasil inteiro - e São Paulo em particular - já não é mais possível se girar o dial sem esbarar em alguma brega-chic da vida."

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Revista Os Anos 70 da MPB

A Editora Imprima era especializada em revistas sobre música, dando uma ênfase às cifras de violão. A partir de meados dos anos 70, e até os anos 80, a editora publicou algumas revistas, sendo a principal, a revista Música, publicava também algumas edições especiais, abrangendo um determinado tema. Em 1980 um número especial foi lançado, fazendo uma espécie de inventário sobre a MPB nos anos 70, a década que terminava, trazendo uma série de inovações no cenário de nossa música. O texto introdutório diz:
"Neste início de década, os órgãos de comunicação fazem uma retrospectiva de tudo que aconteceu nos anos 70, pois é conhecendo o passado que esclarecemos o presente. Aliás, tudo que já foi iniciado e o que será intimamente ligado às experiências anteriores. Sendo assim a revista Música não poderia deixar de registrar os maiores acontecimentos musicais da década de 70. Pretendemos não só informar, mas também levá-lo à compreensão dos movimentos que agitaram nossa música nessas últimos 10 anos, e da influência que esses movimentos exercerão no futuro."
A revista traz ainda um texto escrito pela jornalista Sheila Hissa, intitulado "Dez anos depois - um saldo positivo":
"A MPB conseguiu, nos anos 70, reafirmar nomes, revelar talentos e trazer ao público antigos intépretes e compositores. Sem dúvida, foi uma década muito produtiva. Os remanescentes dos Festivais da Record até hoje estão brilhando. Elis, mais amadurecida, continua conquistando sucessos. Bethânia, nem se fala. É uma das mais vendáveis. Jorge Ben, Gal e inúmeros outros estão sólidos no seu canto. Nem Gil, Caetano e Chico, que precisaram se ausentar do país, no início da década, por motivos políticos, deixaram de acontecer. Muito pelo contrário, são uns dos mais representativos intérpretes/compositores do nosso cancioneiro.
Chico, pela coerência de seu trabalho, alcança ano a ano uma posição privilegiada. Suas músicas de conotação social e política e sua linguagem criativa estão presentes nas discotecas das mais diferentes classes sociais. Ele é um dos raros artistas, que consegue atingir da alta burguesia ao proletariado. O alto nível literário de suas canções não o afasta do público menos letrado. Na verdade, o apelo para o cotidiano, seja numa canção denúnica como 'Construção', ou numa música romântica como 'O Meu Amor', vai ao encontro das expecativas de cada um. A identificação com  suas palavras é imediatata.
Chico é um artista de outras artes. sua atuação no teatro, cinema e literatura é extremamente significativa e fecha todo um trabalho em torno das ideias que defende. Chico já ficou pra história e sua obra sempre vencerá o tempo.
Caetano e Gil também possuem um papel de destaque de nossa MPB. Ao contrário de Chico, já foram acusados de incoerentes e alienados. A imprensa e os 'intelectuais' do Brasil afirmam que eles abandonaram o posto das preocupações sociais para integrar o universo do oba-oba geral. De 'Domingo no Parque' a 'Realce', de 'Alegria Alegria' a 'Joia' muita coisa aconteceu. O trabalho de hoje, não é exatamente uma continuidade do trabalho anterior, mas uma consequência. As experiências de cada um, as transformações sociais e políticas e, acima de tudo a capacidade criativa e até revolucionária, fizeram dos baianos os porta-vozes da descontração e da cor. Os 'intelectuais' não aceitam. Preferem o protesto.
Mas quem são eles? Gil e Caetano não são inconsequentes, como se faz pensar.. São, na realidade, artistas conscientes da necessidade de abrir caminhos e descobrir lugares. A postura é apolítica, pois não é reivindicatória. Mas é política, na medida que se propõe a liberdade de pensamento e de comportamento. Os baianos possuem uma linguagem própria, que foge às normas pré-estabelecidas. Uma linguagem que avança para a liberdade individual.
O trabalho artístico, quando sério, é sempre carregado de intenções e propostas e na nossa música popular, não são poucos os que procuram novas formas e defendem novas ideias. Milton Nascimeto, também compositor das coisas do Brasil e América Latina, é acima de tudo um músico de rara competência. A sofisticação das melodias, a voz negra, forte, doída e alegre tornam Milton um dos intérpretes mais conceituados do mundo.
Nossa música, sem dúvida, está bem defendida. Na década de 70 os consagrados João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, claro, continuam em evidência. Os talentos esquecidos de Clementina de Jesus e Cartola, para não citar outros, surgem do anonimato e encantam o público. Sem falar naqueles que morreram e foram ressuscitados. Como Lupiscínio Rodrigues, que Bethânia tem interpretado com êxito, e Pixinguinha, que através do 'renascimento' do choro, passou a ser executado.
Ainda nos anos 70, os novos. O trabalho discursivo de Belchior, com as estórias da juventude 60. O saudosismo das ideias e comportamentos de então, as melodias leves. Já Fagner, mais corrosivo. As canções duras, tão agrestes quanto o sertão cearense.
E daí vai. Quanto nome! João Bosco, Simone, Ivan Lins, Zé Ramalho, Rita Lee, Francis Hime, Gonzaguinha, Zezé Motta e outros. Muitos outros. Cada um contribuindo à sua maneira. Gonzaguinha, por exemplo, mais lado a lado com a realidade brasileira. Com  a fome e a esperança. Rita Lee, que vem da década de 60, com seu rock descontraído e apelos debochados, que agradam os adeptos da libertação do corpo e da cabeça.
Cada um no seu canto, cumpre a parte que lhe cabe. Rock, bolero, bossa-nova, samba-canção, partido alto, são algumas das tendências que fazem nossa música."

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Jorge Mautner - 1976

O documentário "O Filho do Holocausto", sobre Jorge Mautner, e dirigido por Pedro Bial, está trazendo à tona o nome de um de nossos mais inquietos e brilhantes artistas. Trazer o nome de Mautner para a atual geração, que não teve a oportunidade de conhecer a obra desse mestre da palavra e da cultura nacional  torna esse documentário um registro histórico dos mais importantes, e redime Bial de ter seu nome associado a um dos símbolos da pobreza mental que invade a tevê brasileira: o Big Brother Brasil.
Em 1976, o Jornal de Música e Som, que vinha encartado na revista Rock, A História e a Glória, trazia uma matéria com Mautner, escrita pelo hoje colunista de O Globo, Joaquim Ferreira dos Santos. Abaixo, a trancrição dos principais trechos da matéria:
"Embasbacados, os repórteres que procuram Jorge Mautner para entrevistas sobre rock, marchinhas e afins costumam ouvir raras citações de Lamartine Babo e Chuck Berry abafadas por montes de Hegel, Nietzshe e Goethe, encerrando suas anotações com Mc Luhan: 'o supersofisticado é como o tribal aparentemente primitivo, os dois são ideogrâmicos'. Se houvesse um caderno de impressões na saída do cineclube em que Cacá Diegues assistiu a 'O Demiurgo', de Mautner, ele teria escrito: 'Nunca vi um filme tão casto'. O seu braço direito passava sobre os ombos da esposa, a cantora Nara Leão, que deve ter se lembrado dos idos de 67, quando ouviu 'Radioatividade', canção de Mautner, e comentou com Caetano Veloso: 'Que temos nós brasileiros a ver com a bomba atômica?' Alguns anos depois, o Brasil assinava um acordo atômico com a Alemanha e o crítico Ezequiel Neves via um show em que Mautner dançava com a inspiração de uma foca bêbada num trigal: 'É o Buster Keaton dos trópicos', escreveu na finada 'Rolling Stone'. Na mesma banca de jornais, Millôr Fernandes expulsava Mautner Pasquim afora depois que o cantor assinou um artigo relacionando músicas de Noel Rosa a anti-semitismo. Os amigos protegeram-no e Caetano Veloso lhe fez uma homenagem a seu jeito: 'Ele não tem medo do ridículo. Escreve clichês com a originalidade de um marciano.' Não menos baiano e sem jeito para hosanas, Gilberto Gil afirmou: 'É uma criança distraída e tola'. E mesmo Mautner fez questão de que ficassem bem grandes e visíveis as letras que compõem  o título de um de seus livros, para que não restassem dúvidas sobre o que pensava de si próprio: 'O Vigarista Jorge'. Em 1976, visto no palco com um ligeiro colete que descobre farta pelosidade torácica e acionando um violino eletrificado muitos decibéis acima de sua frágil voz, as dúvidas sobre o valor artístico de Mautner permancem. Chamam-no, às vezes de um vago 'maldito'. Mas é justamente o contrário, refuta, 'Nunca vi pensamentos mais positivos que os meus. Como chamar de maldito um cara que diz que a fauna flora grita de amor, faz esportes, toca violino e dança frevo?'
 Talvez uma campanha negativa contra o supremo amante do mal, o diabo, que na lenda sempre foi visto acionando o violino de um de seus mais célebres e clássicos executantes, o italiano Paganini. Ou algo ligado à sobrenatural capacidade de Mautner em imitar portas se abrindo, telefones tilintando, o cricrilar do grilo e liquidificador fazendo creme de abacate, como se de repente essas coisas se humanizassem na forma de um ser com olhos claros e cavilosos, geralmente escondidos por lentes escuras.
Quem sabe se parte desse preconceito contra os eflúvios da cultura negra que o acompanham desde os 6 meses de idade, apesar da mãe iugoslava, o pai judeu vienense e o padrasto alemão? Pois dessa época até os 7 anos, Mautner teve o crescimento acompanhado pela negra babá Lúcia, que aproveitava as viagens dos seus pais para levá-lo ao terreiro de candomblé onde era mãe de santo."

domingo, 3 de fevereiro de 2013

The Who - Revista-Poster

Nos anos 80 a revista Somtrês publicava revistas-poster contando a história de bandas clássicas do rock. Eram posters medindo 1,10 X 0,80m, que ao serem desdobrados traziam um texto falando sobre a banda, trazendo discografia e fotos. Várias bandas foram destacadas, como Pink Floyd, Black Sabbath, Deep Purple, Led Zeppelin, The Who, Genesis, Jethro Tull, Rolling Stones, etc. Os Beatles ganharam uma edição especial, com uma revista-poster para cada um de seus discos, representando um excelente material. Bons tempos aqueles. Alguns grupos ou aretistas não tão populares também foram publicados, como Frank Zappa (já comentado aqui) e o violonista progressivo Jean-Luc Ponty. Grupos dos anos 80 também foram destacados, como Dire Straits Siouxie and the Banshees e The Cure. Foi uma boa época para quem se interessa por material sobre rock.
A edição sobre o The Who, publicada em 1985 trazia um bom texto, escrito pelo jornalista Waldir Montanari, que começava assim:
"O rock nasceu na América do Norte, não há como negar isso. Entretanto, durante a primeira metade dos anos sessenta, quem tomou o poder nesse gênero musical foram, sem sombra de dúvida, os artistas ingleses. Os primeiros conjuntos britânicos que se projetaram para o mundo, a nível astronômico, foram os Beatles e os Rolling Stones. Se tivéssemos de citar um terceiro nome, é certo que seria muito difícil. Todavia, um sério candidato ao posto seria The Who."
The Who em ação nos anos 70
 O texto faz uma referência ao fenômeno que aconteceu nos anos 60, e que ficou conhecido como "Invasão Britânica", quando vários grupos ingleses começaram a aparecer e se destacar no mercado do rock. 
A revista continua a falar no The Who:
"Foi essa banda que teve a coragem ímpar de sair gritando aos quatro ventos que era a vez dos jovens. Vejamos um trecho de My Generation:
'As pessoas tentam colocar a gente num lance inferior/Falando sobre a minha geração/Apenas porque nós chegamos bem perto/As coisas que eles fazem são frias e terríveis/Espero morer antes de ficar velho'.
Frases como essas rasgaram os céus até há, aproximadamente, três anos, quando a banda se despediu do público durante uma grandiosa turnê pelos Estados Unidos e Canadá."
Falar na história do The Who, passa obrigatoriamente pela citação de My Generation, uma das músicas mais emblemáticas do rock, e a revista, como todas as citações ao início da carreira da banda, traz em destaque a letra da composição de Pete Townshend. Falando no guitarrista, uma outra característica da banda, e que virou uma marca, era a destruição de guitarras nos shows. O texto da revista, traz a origem desse atrativo a mais que a banda usava para dar mais impacto em seus shows:
Townshend quebrando uma guitarra

"Numa bela noite, num pub de nome Railway Tavern, Townshend bateu o braço da guitarra, acidentalmente, no teto. Irritado, e incentivado pelo delírio da plateia, que pensava fazer aquilo parte do número, acabou por estraçalhar o instrumento. Um assistente de produção cinematográfica, Kit Lambert, ao tomar ciência daquela postura de Pete, achou que podia levar aquilo adiante, e resolveu investir na banda. Para tanto, contou com a contribuição de outro nome que passaria à história do Who: Chris Stamp.Poucos dias depois, ambos faziam com que o grupo estreasse no Marquee Club de Londres, com alguns ingressos distribuídos, gratuitamente, entre os mods, e outros vendidos a preços bem baratos (afinal, precisavam lotar a casa). O resultado foi tão bom, que garantiu a permanência deles em cartaz por mais algumas semanas. É importante citar que Lambert foi o responsável por fazer o conjunto retomar o nome The Who."
A participação do The Who no festival de Woodstock foi sem dúvida, um dos grandes momentos da banda. A revista traz um destaque para essa participação, que ajudou a divulgar o nome do The Who em escala mundial:
"Em agosto de 1969, The Who se apresentou no Woodstock Festival. Ali, muitos tumultos aconteceram, além daqueles usuais. Tudo começou quando Pete solicitou aos organizadores para receber o cachê antes do show, pois precisava tirar logo de lá sua mulher, que estava grávida. Comenta-se que até hoje não recebeu um tostão. Para completar, houve o episódio do tal de Abbie Hofman, que queria discursar antes do The Who entrar, e saiu com uma guitarra na cabeça."
Sobre os anos 70, período em que a banda se firmou no cenário do rock como uma das melhores de todos os tempos, a revista destaca:
"A entrada da década de setenta trouxe alguns desencantos para os roqueiros em geral. O desaparecimento de Jimi Herndrix e Janis Joplin, mais o 'fim do sonho', apregoado por Lennon, muito contribuiram para isso. Quanto ao Who, a frustração maior recaiu sobre o próprio Pete Townshend, que não se conformava com o fato de a indústria da cultura ter transformado sua fúria em produtos. Sentia-se, ainda, desiludido com o público, que ia aos concertos na expectativa de vê-lo, meramente, a arrebentar a guitarra e cantar os velhos trechos de Tommy. Em Who's Next ele dá sua resposta a esse estado coisas como quem perguntasse:
- Who's Next Victim? (Quem é a próxima vítima?)
 
Em Quadrophenia encerrou-se, praticamente, a fase áurea das criações da banda. Os discos posteriores não passaram de medianos. Nos concertos, o sucesso era grande, mas sempre embasado sobre os primeiros hits da carreira. Fora isso, havia por trás dos bastidores, o sintoma de que as coisas não andavam bem entre os músicos. Essa evidência de desacordo se acentuava em função do lançamento de discos-solos, bem como da banda que John Entwistle mantinha, paralelamente. O fato era um só: Townshend roubava a cena para si, e os demais não não se conformavam com isso. Roger, embora o vocalista, ficava ofuscado a cada voo do colega guitarrista. Entwistle chegou a declarar:
- Nem adianta solar no baixo, me soltar mais, pois o público seria capaz de de pensar que tudo era obra de Pete. 
O único que parecia continuar nas boas com Townshend era Keith Moon. Alguns críticos internacionais chegaram a até a apontá-lo como o membro amalgâmico da situação. Entretanto, Moon veio a falecer em 1978 (a causa oficial dizia que foi por ter tomado dose excessiva de um remédio contra o alcoolismo). Depois desse episódio, ficaram a um passo do fim. Contrataram um novo baterista - Kenney Jones - e chegaram a pensar na incorporação definitiva de um tecladista."
O texto da revista foi escrito em julho de 1985, pouco tempo depois da apresentação do The Who no Live Aid, no dia 13 daquele mês. A banda continuaria sem o mesmo pique, após a morte de Moon, mas pelo conjunto da obra, o Who sempre representou uma grande atração, por sua história e tudo que ainda significa. Em 2002 o baixista John Entwistle morreria, deixando outra lacuna numa das maiores bandas da história do rock.