Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Clara Nunes - Revista Música Brasileira (1998)

Clara Nunes é uma das mais marcantes intérpretes de samba do país. Apresentada inicialmente como cantora de músicas românticas e boleros, Clara seria apenas mais uma cantora dentre tantas que seguiram essa vertente, e com certeza não teria uma carreira brilhante se não fosse produzida como cantora de samba anos mais tarde. Como intérprete de sambas, Clara ganhou projeção e se tornou uma grande estrela, tendo gravado vários álbuns que se tornaram clássicos e campeões de vendagem.
Em 1998, quando se completaram 15 anos de seu precoce desaparecimento, a revista Música Brasileira, em sua edição nº 11 trazia uma matéria com a grande intérprete mineira, em matéria assinada por Renata Alzuguir e Rodrigo Alzuguir, intitulada "Clara: Retrato do Brasil":
"Falar em Clara Nunes é falar em festa, beleza, força, garra, brasilidade, autenticidade, personalidade e vitória. É falar em qualidade aliada à popularidade, coisa rara hoje em dia. Clara sintetiza e traduz com dignidade e elegância o caldeirão cultural brasileiro, mestiço, agregador, sincrético. Celebrou como ninguém nossas raízes e nossa teimosa alegria de viver.
Clara é um marco na MPB. Uma unanimidade no meio intelectual e artístico. Primeira mulher brasileira a vender 'como homem', se equiparando ao 'rei' Roberto Carlos e pioneira no registro em disco de canções ligadas à religiosidade afro-brasileira. Quebrou tabus de que MPB genuína não vende e muito menos mulher. Bateu recorde que permanece até hoje no Canecão, quando fez, ao lado de Paulo Gracindo, a maior e mais bem sucedida temporada que a casa já teve, com o espetáculo Brasileiro: Profissão Esperança.
Clara abriu caminho para muita gente. Apostava sempre em novos talentos, sem nunca deixar de prestigiar compositores da antiga, revisitando-os. Partiu cedo, mas deixou um imenso legado. A coerência de seu trabalho, sua bandeira de resistência, sua voz cristalina e emocionante ('voz de mãe', segundo Marisa Monte) e seu repertório irretocável.
Clara Francisca nasceu no dia 12 de agosto de 1942, numa casa humilde na beira de um córrego em Paraopeba, a uma hora de BH. Caçula de sete irmãos, seu pai, Mané Serrador, era violeiro requisitado para festas, bailes e casamentos da região, e figura imprescindível nas Folias de Reis, quando se vestia de rei mago e liderava a festa.
Clara tinha em torno de 10 anos quando ganhou seu primeiro prêmio, num concurso de calouros, organizado pela comunidade de Paraopeba. Cantou Recuerdos de Ypacaraí e faturou o cobiçado vestido azul - prêmio para a primeira colocada. A partir daí começou a colecionar todo tipo de bugigangas ganhas naqueles concursos que eram sua alegria - latas de talco, sabonetes, lavandas e peças de tecido, entre outros artigos. Por essa época, Clara também mambembeou muito pela região com o grupo de teatro de uma das irmãs. Pegavam caronas em caçambas de caminhões e iam se apresentar nas fazendas próximas a vilarejos.
Tendo perdido os pais muito cedo, Clara empregou-se aos 14 anos como tecelã na fábrica da cidade, mudando-se dois anos após para BH. Ainda tecelã. Eis que entra em cena um certo Jadir Ambrósio. Como que num prenúncio de sua bandeira de brasilidade, a fada madrinha de Clara foi um senhor negro, elegante, esguio, com ares de entidade.
Jadir, compositor, violonista, a ouviu cantar A Noite do Meu Bem em uma barraquinha na Igreja Sto Afonso. Empolgado com a moça, passou a levá-la, com permissão da família, aos programas de calouros e concursos nas rádios, onde ela se apresentava como Clara Francisca.
Em 1960, Clara (já Nunes) venceu a fase mineira do concurso/programa de rádio 'A Voz de Ouro ABC', cantando Serenata do Adeus. Aos poucos a menina de 18 anos se tornava nome conhecido em Minas, com direito a programa ao vivo com seu nome na TV Itacolomy, onde cantava e recebia convidados. Entre eles, Ângela Maria e Altemar  Dutra, que a incentivavam a tentar a sorte no Rio.
Chegava a hora de se mostrar para o Brasil. Com  a cara e a coragem Clara veio para o Rio, conseguiu um teste na gravadora Odeon, foi aprovada, mas seu primeiro disco A Voz Adorável de Clara Nunes sairia somente um ano depois, em 66. Repertório romântico, arranjos de Lyrio Panicali. A gravadora estava decidida a fazer dela um 'Altemar Dutra de saias'. Logo quem...
Entre vagas em apartamentos na Barata Ribeiro e brechas em programas de auditório, acontece em 68 seu 1º sucesso, Você Passa Eu Acho Graça (Ataulfo Alves/Carlos Imperial), que ela defendeu num dos festivais da Record. Veio então uma fase de intensa participação nos festivais. Clara defendeu várias vezes a dupla César Costa Filho e Aldir Blanc, sendo a primeira a gravar Aldir, com De Esquina em Esquina (dele e de César).
Em 71, o radialista Adelzon Alves passou a produzir os discos de Clara, direcionando seu trabalho para o samba e ritmos brasileiros. A parceria gerou discos memoráveis e sucessos como Ê Baiana, Tristeza Pé no Chão, Ilu-Ayê e Quando Eu Vim de Minas. O quarto (e último) disco de Clara produzido por Adelzon, Alvorecer, fechou com chave de Ouro o trabalho da dupla, batendo o recorde feminino de vendagem no Brasil: em torno de 300 mil cópias. O carro-chefe do disco tornou-se inesperadamente uma canção escondida no lado B, talvez a música até hoje mais associada à Clara, Conto de Areia (Romildo/Toninho).
Clara e Paulo César Pinheiro
Clara só tomou consciência de que era uma paixão nacional quando visitou uma fábrica da Odeon que tinha parado para prensar exclusivamente o seu disco de 1975. Claridade vendia feito água e feito disco do 'rei' Roberto (se equiparou à vendagem de 400 mil cópias). Nenhuma mulher tinha conseguido isso no Brasil. Clara chorava uma lágrima de lavar a alma: 'Eu que trabalhei de tecelã em fábrica nunca imaginei que um dia ia ver uma fábrica produzindo só disco meu...'
Seguiu até o fim como grande vendedora, entrando para a história da MPB como uma das artistas de maior vendagem de todos os tempos.
A partir de O Canto das Três Raças (76), todos os discos de Clara seriam produzidos pelo poeta/compositor/então-marido Paulo César Pinheiro, até o último e genial Nação (82). O trabalho do poeta se deu no sentido de solidificar a imagem de Clara como cantora, aberta a todas as vertentes da música brasileira. Estrela da Odeon, os discos de Clara contavam com a nata dos músicos (Dino, Rafael, Jackson do Pandeiro, Marçal, Luizão, Sivuca, Hélio Delmiro...) e arranjadores (Radamés, Gaya, Vespar...). Era o popular feito com  a maior qualidade. Os discos passam a ser imperdíveis como um todo, entre eles: As Forças da Natureza (77), Guerreira (78), Esperança (79), Brasil Mestiço (80).
Casos engraçados e interessantes ilustram a personalidade espontânea de Clara. Como quando ela e Vinícius de Moraes, na turnê do disco Poeta, Moça e Violão, carregaram mendigos para dentro do hotel e lhes pagaram a diária, com pena do frio que passavam na rua. Ou quando Clara ia tomar satisfação de quem perseguia algum amigo seu. Casos não faltam...
Segundo Bibi Ferreira, que conheceu as duas muito bem, Clara e Carmem Miranda eram muito parecidas, elétricas, comilonas, carismáticas, sorrisos fáceis. Adelzon Alves também sacou esse paralelo entre as duas. Vide releituras que Clara fez de O que é que a Baiana Tem? e Arlequim de Bronze, antigos sucessos de Carmem.
Dez metros de altura. Esse era o tamanho de Clara no palco, segundo João Nogueira e Cristina Buarque. 'Entravam ela e mais vinte', diz Alcione a respeito. De Marisa Gata Mansa à Selma Reis, são todos unânimes quanto ao carisma impressionante de Clara.
Clara e Beth Carvalho
Ainda hoje, 15 anos depois de sua morte, Clara é homenageada em países como Japão, Suécia, França, Portugal, Cuba, Angola, onde foi, cantou e se tornou ídolo. Na França, foi matéria na Vogue, com seus vestidos de renda. Na Suécia dos anos 70, várias meninas foram batizadas de Clara, com C (lá é Klara), por sua causa, segundo a própria imprensa local.
Em agosto os assinantes do Multishow (GloboSat) assistirão em 1ª mão um Especial 'biográfico-musical' sobre Clara (produzido por Renata e Rodrigo Azulguir), da infância humilde da cantora em Paraopeba até a consagração no Brasil e no exterior. Entre depoimentos de amigos e familiares colhidos para a pesquisa estão os de: Bibi Ferreira, Paulo César Pinheiro, João Nogueira, Alcione, Artur da Távola, Marisa Gata Mansa, Sérgio Cabral, Hermínio Bello de Carvalho, Adelzon Alves e Monarco.
As homenagens da Alzuguir Produtora não param por aí. No segundo semestre deste ano estará no mercado um 'Álbum de Música' com 100 canções do repertório de Clara, uma publicação inédita no gênero por enfocar a obra de um intérprete, e que conta com incentivo de Paulo César Pinheiro. O álbum virá acompanhado de um CD do tipo play-a-long para a prática de instrumentistas e cantores. Quem lidera a equipe de músicos responsáveis pela transcrição das canções e arranjos do CD é o violonista Maurício Carrilho. "


quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

David Bowie Festeja Seus 50 Anos - Jornal do Brasil (1997)

2016 ficará marcado certamente pelo grande número de perdas no mundo artístico. E o primeiro grande nome de impacto na música a falecer no ano, foi sem dúvida David Bowie. Um dos artistas mais marcantes na história do rock, figura fundamental quando se fala no rock produzido nos anos 70, Bowie, que ganhou o apelido de 'camaleão do rock', por ter mudado de vertente várias vezes, assumindo diferentes personas e revolucionado o rock, não só com sua música vibrante, mas com seu visual contestador, sempre será lembrado.
Na edição de 12/01/97, quatro dias depois de ter completado 50 anos, o Jornal do Brasil trazia uma matéria, assinada por André Barcinski, sobre um grande show em Nova Iorque, onde Bowie festejou seu aniversário, e recebeu no palco vários convidados. Segue abaixo a matéria:
"David Bowie celebrou seu meio século de vida com um inesquecível show no Madison Square Garden, na noite de quinta-feira, em Nova Iorque, com direito a bolo, coro de Parabéns pra você e participação de amigos como Lou Reed, Foo Fighters, Smashing Pumpkins, Sonic Youth, Robert Smith (The Cure) e Frank Black. As quase 20 mil pessoas que lotaram o ginásio puderam ouvir músicas que  o Camaleão não tocava há muito tempo, e ainda colaboraram para uma boa causa: todo o dinheiro arrecadado nas bilheterias foi doado para uma associação que cuida de crianças carentes.
Ficou claro, desde o início, que Bowie não pretendia fazer um show exclusivamente nostálgico. Ele tocou na íntegra seu novo álbum, Earthling, acompanhado da mesma banda que gravou o CD: Reeves Gabrels (guitarra), Zachary Alford (bateria), Mike Garson (teclados) e Gail Ann Dorsey (baixo). Depois de abrir com a dançante Little Wonder, ele chamou ao palco seu primeiro convidado, Frank Black (mais conhecido como vocalista do extinto grupo Pixies, banda predileta de Bowie no fim dos anos 80) e com ele cantou os clássicos Scary Monsters e Fashion.
Apesar de o público ainda não conhecer bem as músicas do novo CD, lançado há apenas algumas semanas, a reação às novas canções foi excelente. Todo mundo dançou com as sacolejantes Dead Man Walking e Teeling Lies, faixa que Bowie, em uma estratégia de divulgação inédita, lançou na internet antes de o CD chegar às lojas. O Foo Fighters, banda de David Grohl (ex-Nirvana) subiu ao palco para tocar a nova Seven Years in Tibet. Foi uma homenagem de Bowie ao Nirvana, banda que fez uma respeitosa versão para sua música The Man Who Sold The World.
Logo depois do Foo Fighters foi a vez de Robert Smith, líder do The Cure - 'Uma das melhores bandas de todos os tempos', acariciou Bowie. O cantor, de cabelos desgrenhados, fez um dueto com seu mestre na dançante Battle for Britain (The Letter) e depois cedeu o palco para o Sonic Youth, outra das bandas prediletas de Bowie. Em seu típico estilo barulhento, detonou uma versão ensurdecedora para a nova I'm Afraid of Americans, uma irônica crítica à massificação cultural americana. Bowie encerrou a primeira parte do show com  a recente Looking for Satelliites e com dois sucessos antigos: Under Pressure - música ruim que Vanilla Ice conseguiu piorar - e Heroes
Depois de um rápido intervalo, Bowie voltou ao palco e apresentou o artista que, depois dele, todos estavam esperando. 'E agora, com vocês, o verdadeiro rei de Nova Iorque...Lou Reed!', anunciou. A plateia foi ao delírio com a aparição do mais nova-iorquino dos roqueiros, vestido, como sempre, de preto da cabeça aos pés. Foi a melhor parte do show. Bowie e Reed, velhos companheiros de balada - e de cama, diga-se de passagem nos anos 60 e 70, fizeram uma seleção preciosa de clássicos da época, começando com a pesada Queen Bitch.
Bowie fez, depois, uma homenagem a Reed, cantando três de seus clássicos: Waiting For The Man, Dirty Boulevard e White Light, With Heat. Quem conhece a carreira dos dois sabe da importância histórica deste encontro: dois dos artistas mais radicais do rock, juntos no palco pela primeira vez em mais de 20 anos. Só ficou faltando Iggy Pop que, apesar dos pedidos da plateia, ficou observando tudo da primeira fila.
Assim que Reed saiu do palco, Bowie e a banda emendaram Moonage Daydream. No telão surgiram imagens do Camaleão vestido de Ziggy Stardust, seu alter-ego andrógino do início dos anos 70. Nessa altura tudo era festa. Bowie recebeu um bolo com 50 velinhas e ouviu Parabéns pra Você, enquanto fãs jogavam presentes e buquês de flores no palco.
A estrela da noite ainda estava agradecendo os presentes e aplaudindo quando subiu no palco Billy Corgan, o cantor careca do Smashing Pumpkins. Juntos eles cantaram All The Young Dudes e Jean Genie, já com o público todo de pé e as luzes acesas. O final foi apoteótico: Bowie, sozinho ao violão, cantou Space Odity, sua divagação sobre viagens espaciais. Todo mundo saiu do Madison Square Garden torcendo para estar ali, novamente, na festa de 60 anos do ídolo. "
 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Arrigo Barnabé - Entrevista Revista Bizz (1988)

Arrigo Barnabé é um dos principais nomes de um movimento surgido nos anos 80, denominado "Vanguarda Paulista". Seu disco de estreia, Clara Crocodilo, é um marco na música de vanguarda brasileira, tendo uma continuidade em seu segundo trabalho, Tubarões Voadores. Nos anos 80, Arrigo faria um trabalho menos radical em termos de experimentações, como o seu disco da época, Suspeito, e até chegaria a tocar em rádios, e fazer aparições na TV.
Em sua edição nº 30, de janeiro de 1988, a revista Bizz trazia uma entrevista com Arrigo, feita pelo jornalista Marcel Plasse:
" Bizz- Você tem se apresentado em muitos programas?
Arrigo - Comecei esta semana. Fiz Osmar Santos, Bolinha, Caçulinha, Amaury Jr., e tenho um monte de outros programados...
Bizz - É a primeira vez que você está com uma agenda assim tão cheia, não é?
Arrigo - É.
Bizz - Então você não sente mais o peso do rótulo de maldito?
Arrigo - Não, eu nunca senti isso. Isso é um coisa que a imprensa inventa, como aquela coisa de chamar de 'vanguarda paulista' o que aconteceu no início comigo, Itamar... Eu não me sinto maldito.
Bizz - Mas, de qualquer forma, sua música anteriormente não era veiculada...
Arrigo - Não veiculava. Se bem que, olha, no meu primeiro disco tinha uma música, 'Orgasmo Total', que daria pra tocar no rádio. No segundo disco tinha 'Kid Supérfluo'... E, no terceiro, 'Pô, Amar É importante'. Agora eu tenho muito mais músicas dentro do espírito das rádios. Está muito fácil. E tem ainda, é claro, a gravadora empurrando...
Bizz - O que te levou a fazer um disco mais acessível?
Arrigo - Além de uma preocupação em atingir uma faixa maior de público, tem uma mudança de inspiração mesmo. De repente, eu comecei a querer fazer coisas simples, canções que eu conseguisse cantar. Eu sempre falei que gosto do passado da canção brasileira, da tradição dos cantores: adoro Orlando Silva! Fico em casa escutando bossa nova, também. E era uma coisa que eu não tinha o metier para fazer. Eu passei oito anos me preparando para fazer um trabalho revolucionário na MPB. E fiz! Fiz Clara Crocodilo e Tubarões Voadores. Depois desses dois discos, tudo o que eu tentava fazer soava parecido, igual ao que eu já tinha feito. Comecei a entrar em crise no meu processo de criação. Ao mesmo tempo, eu estava tentando fazer as coisas mais simples. Comecei a fazer bossa nova e a entender a forma da  canção, utilizando, é claro, coisas que eu já tinha desenvolvido - a maior parte das músicas do novo disco, Suspeito, apesar de serem bem acessíveis, têm uma ou duas coisas que são a minha marca melódica ou harmonicamente. E há, ainda, o fato de eu ter entrado em contato com o trabalho de  outras pessoas, especialmente com  a banda Patife, do meu irmão, Paulinho Barnabé. Comecei a ver como é que ele trabalhava com a informação atonal, dodecafônica, dentro da linguagem rock, pop, universal. Cheguei até a compor uma música para a Patife - 'Poema em Linha Reta' - , que eles gravaram no meu LP Cidade Oculta. Aí, conheci a Virginie (ex-vocalista do Metrô), que me apresentou Tears For Fears e Sting. Ao mesmo tempo, em 85, quando eu estava voltando da Europa, comprei aquele disco do Miles Davis, You Are Under Arrest, que tem uma puta sonoridade pop. Comecei a trabalhar com Dino Vicente (produtor do LP), que também é muito enfronhado neste meio e me mostrou uma série de coisas. Quer dizer, eu passei a entrar em outro mundo. Passei a ser  menos autista. E agora estou morando com o Hemelino Neder, que também tem um trabalho pop. Fizemos algumas parcerias... E acabou saindo este trabalho que eu adoro! Tenho lido um monte de críticas pejorativas, mas tudo bem, podem falar o que quiser. Nada me tira o prazer que eu sinto ao ouvir esse disco. E vem mais, viu (em tom de irônica ameaça)!
Bizz - O que você está gostando mais na música pop?
Arrigo - Eu gosto muito do aspecto tecnológico e de sua qualidade universalizante, seu jeito moderno de tratar coisas regionais. É genial você poder 'samplar' um berimbau e usar como base.
Bizz - E quem você gosta no pop nacional?
Arrigo - Eu conheço pouco, escuto pouco rádio... (pequena pausa). Eu gosto de Marina, Lobão, Patife... que mais? (longa pausa) Se você puder me lembrar alguém...
Bizz - Os mais populares, RPM.
Arrigo - Já não me atraem tanto assim.
Bizz - Como foi que você se aproximou do funk?
Arrigo - Não fui eu, não. São os músicos que me acompanham! Eu conheço pouco funk. Tem um rap - 'O Dedo de Deus' - no meu disco, criado num concurso de rap que eu vi em Londres no começo do ano. Eu anotei as batidas do bumbo e da caixa - que mais me deixaram babando -, e fiz um baixo dodecafônico em cima. Porque no rap você pode colocar o que quiser que o ritmo segura.
Bizz - Você tem viajado muito?
Arrigo - Mais do que eu esperava (risos). No começo do ano estive em Paris com a Virginie, levando um trabalho que eu tinha feito em francês. Agora fui à Bélgica por causa de um festival de cinema onde Cidade Oculta foi apresentado.
Bizz - Você está planejando ainda outro trabalho em cinema?
Arrigo - Eu e o Chico Botelho estamos planejando ainda outro roteiro (o primeiro foi o de Cidade Oculta). O argumento original é meu. Devemos filmar neste ano mesmo. Ainda não tem nome.
Bizz - E você vai fazer a trilha também?
Arrigo - Eu vou fazer a direção musical porque escrevi o argumento em cima de um disco já existente, de música erudita.
Bizz - Que disco?
Arrigo - Ah, não vou falar! Alguém pode se adiantar.
Bizz - Como você se vê como ator?
Arrigo - Eu acho que sou passável! Não comprometo, não (risos). Quando fui ver Cidade Oculta, achei que eu estava mal, apavorado... Mas estava enxuto, na medida.
Bizz - Você tem alguma mágoa em relação à recepção do seu trabalho?
Arrigo - Bem, a minha geração teve muita dificuldade para se impor. Porque a gente não tinha como fazer a nossa música chegar ao público...
Bizz - O teu novo disco reúne a maioria das pessoas daquela época, da chamada 'vanguarda paulista'. Algumas carreiras dessa geração realmente não estouraram. Ou, pelo menos, ainda não receberam atenção suficiente da mídia...
Arrigo - Não sei. O Itamar, por exemplo, tem público e vai gravar agora por uma grande gravadora (a Continental).
Bizz - Mas pessoas como o próprio Hermelino e a Vânia Bastos ainda estão à margem do showbiz.
Arrigo - Acredito que a Vânia possa estourar, bem como a Eliete Negreiros. E o Hermelino, então, está compondo umas coisas surpreendentes. Ele tinha o mesmo problema que eu, por ter uma banda (a Football Music) e não cantar. Ele teve sucesso através de mim, com a música 'Amar É Importante'. O problema é que ele ainda não está numa gravadora. Mas eu acho que, de qualquer jeito, eu tenho que entrar no mercado, o Itamar tem que entrar no mercado, e abrir espaço mesmo! Uma coisa que a Tetê poderia ter feito. Porque ninguém vai nos ajudar pela nossa capacidade, talento - muito pelo contrário!
Bizz - Isso também influenciou na mudança de estilo do novo LP?
Arrigo - É. Não dá pra definir essa mudança como uma coisa única. Eu também comecei a fazer música para mulher, coisa que nunca tinha feito. De repente, me apaixono, faço uma música... sou fã do filme A Mulher do Lado, do François Truffaut, em que a Fanny Ardant tem um caso extraconjugal com Gerard Depardieu e, no final, como não dá certo, ela entra em crise e vai parar no hospital. Aí, ele vai visitá-la e leva um rádio de presente. Quando volta e pergunta o que ela tem feito, ela diz: 'Tenho ouvido rádio'. Ele: 'Que bom, pelo menos você fica ligada com o mundo'. Ela: 'Não, eu escuto canções banais. Essas canções que todo mundo escuta, que dizem coisas como 'sem você não sei viver', 'quando te vejo a vida é cor-de-rosa'...' Então, são várias coisas..., Quer dizer, eu criei um estilo novo de composição no mundo, que ninguém tinha feito antes! Podem falar de Frank Zappa, mas ele não fez o mesmo. Pega qualquer maestro para escrever o que fiz e o que ele fez. O que eu fiz é completamente diferente de tudo! Depois, eu também consegui fazer valsa muito bem. Não é convencimento, não: fiz bem! Foda-se que não gostar! Tô fazendo bossa nova legal, balada, rap, dixieland, tecnopop, rock... Porra, bicho, eu acho o máximo fazer isso! Sou um compositor - sei compor, e componho bem! Dentro do que eu me propus a fazer está tudo muito bem-feito. Isso é uma necessidade de afirmação minha, mesmo. Eu sentia muito preconceito do tipo; 'Ah, o Arrigo só faz esse tipo de música complicada...'
Bizz - E você, por falar nisso, ainda pretende trabalhar com informação de música erudita, como em Clara Crocodilo?
Arrigo - Eu tenho muitas composições guardadas, sim. Se  não acontecer uma crise com as gravadoras no ano que vem, eu tenho vontade de fazer um disco instrumental. Mas eu também acho o maior barato fazer o que eu estou fazendo, que é cantar. "

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

João Bosco - O Globo (1995)

Em 1995 João Bosco lançou o disco "Dá Licença Meu Senhor", um trabalho basicamente de intérprete, onde ele gravou vários clássicos da MPB, de diferentes autores. Em sua edição de 18 de junho daquele ano, o jornal O Globo publicou uma matéria sobre o disco, que ainda nem havia sido gravado nem tinha um título, mas já havia sido elaborado. O texto é assinado por Antônio Carlos Miguel, e é intitulado "O caminho dos outros":
"João Bosco tem se mirado nos  outros para encontrar seu caminho. Pode soar como conversa de analisado, mas esta é uma das chaves para a formação do cantor, compositor e violonista. E, também, o conceito do disco que gravará no mês que vem. Com exceção da quase inédita 'Pagodespel', que apenas tinha sido mostrada no programa de TV 'Chico & Caetano', o repertório trará clássicos da MPB, assinado pelos 'outros'.
- É um projeto de pais e filhos - conta Bosco que estuda como encaixar todas as peças no CD. - De Villa-Lobos, que é pai de Tom Jobim, que por sua vez é pai de todos nós, passando por Zequinha de Abreu, Jackson do Pandeiro, Milton Nascimento, Ary Barroso, Dorival Caymmi, Ismael Silva, Gilberto Gil, Severino Araújo.
Este trabalho, ainda sem título, atenderá uma necessidade íntima do cantor e também a pedidos do público:
- Algumas destas músicas costumo cantar em casa, também tenho mostrado ao vivo ou, mais recentemente, gravado nos songbooks - explica Bosco. - Muitas pessoas me procuravam depois dos shows perguntando quando iria lançá-las.
Segundo Bosco, o trabalho terá um papel similar ao disco 'Cabeça de Nego', quando mergulhou de corpo e alma nas raízes africanas da MPB:
Naquela época, subi a Serrinha (morro em Madureira onde nasceu a escola de samba Império Serrano) para ficar mais perto do jongo, do samba de roda - lembra. - Agora, quero recordar os compositores que fizeram a minha cabeça.A ideia é me esparramar e atuar antropofagicamente nisso tudo.
O instrumental se adequará a cada canção. Nas regravações de 'Vatapá' (Dorival Caymmi) e de 'Expresso 2222' (Gilberto Gil), ele vai chamar os músicos com quem vem tocando, Jamil Joanes (baixo) e Victor Biglione (guitarra). Em 'Floresta Amazônica' (Villa-Lobos), quatro ou cinco violões serão usados para dar a atmosfera das cordas. No choro 'Espinha de Bacalhau' (Severino Araújo), Bosco pretende dialogar com o clarinete de Paulo Moura.
- Botei letra nos trechos em que respondo ao clarinete. É um recurso muito pessoal, que só serve para esta versão - conta.
Vão sobrar músicas, mas Bosco já definiu a que abre - 'Pai Grande', de Milton Nascimento - e a que fecha, 'Pagodespel':
- É um neologismo de pagode e gospel - explica. - Quando fui convidado a participar do programa 'Chico & Caetano', em 1988, como bom mineiro, fui levando este presente. Juntei 'Escapulário', poema de Oswald de Andrade musicado por Caetano, a outro texto de Oswald, 'Relicário', e criei com Chico e Caetano mais alguns versos. "

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Egberto Gismonti - Jornal Opinião (1976)

Nos anos 70 Egberto Gismonti firmava seu nome entre os grandes criadores musicais brasileiros. Já bastante conhecido internacionalmente, mesmo sem perder suas raízes brasileiras, Gismonti já era um músico dos mais respeitados como compositor e intérprete. Seus discos, já alcançavam uma boa vendagem - caso de Academia de Danças - e seus shows atraiam um grande público.
Em sua edição de 18/06/76 o jornal Opinião trazia uma matéria com Egberto Gismonti, assinada pelo crítico Tárik de Souza, transcrita abaixo:
"Como qualquer espécie musical ampla, diversificada, de larga atuação social, o rock corta dos dois lados, como se dizia antigamente é uma faca de dois gumes. Tanto pode emburrecer como vem doutrinando há semanas Ivan Lessa no Pasquim, quanto levar um tipo de público jovem condicionado - e careta, no sentido inverso - a interessar-se por música instrumental, valorizar os músicos, procurar ouvir com maior atenção o que dizem os sons independentes da mensagem direta das letras.
Não digo que Egberto Gismonti esteja fazendo, ou tenha aderido, por qualquer motivo, ao rock. Mas é evidente que a abertura timbrística do uso da eletricidade (através de sintetizador, guitarra, distorcedores, mixers) aproximou-o da nova corrente de música popular que domina a vanguarda internacional.
Essa ala, que talvez pudesse ser mais bem definida como um ciclo de músicos e gerações próximas, de certa forma promove o choque da extrema tecnologia, representada pela aguda sofisticação da aparelhagem eletrônica, com o baticum selvagem, porém, já estilizado ao nível de linguagem do Terceiro Mundo. Seria essa vertente do rotulado jazz/latin/rock, que estende-se das planícies místicas de John McLaughlin ao sincopado por vezes bossa nova de Chick Corea: ao sotaque nordestino de Airto Moreira e Hermeto Pascoal, ou ao blues metálico e cortante de Wayne Shorter e Milton Nascimento. Para esse estuário é levado o ouvinte de rock que vai queimando as etapas do soul (pelo lado negro) ou do heavy metal (pelo branco) as manifestações, digamos, menos sutis do gênero, até chegar à degustação ampla de todas as tendências (com muitos repentes da música erudita contemporânea, como no caso de Egberto) no dito jazz/latin/rock.
Tentei e não consegui assistir ao show de Egberto Gismonti no Teatro Tereza Raquel: superlotação digna dos superastros da canção. Seu último elepê, Academia de Danças, ultrapassou o marco das 20 mil cópias vendidas, o que vem a ser cinco vezes mais que os anteriores. Em suma, o artista da prateleira dos candidatos-à-carreira-no-exterior passa a ter um público próprio e sólido no Brasil, sem alterar (com esse propósito) as linhas mestras de seu trabalho, agora na casa dos oito anos de idade - sete de incompreensão e marginalidade elitista, e agora um de atuação efetiva junto às plateias.
Nesse preciso momento de mudança, Egberto falou de suas dúvidas e certezas, ainda sob a vertigem da transição, não poupando com sua visão autocrítica nem mesmo atitudes e trabalhos recentes, (seu próximo disco, Corações Futuristas, sai esta semana) sob o crivo do novo clima que ele atravessa. O balanço final me parece uma lição e - melhor - um estímulo aos que, marginalizados no momento, podem confundir os propositais rigores do sistema com uma definitiva rejeição por parte do público, quase sempre mantido à distância das informações mais novas e provocantes. Com a palavra, Egberto Gismonti, no palco um músico de cada vez menos texto:
'Minha música está bem mais livre, uma coisa que eu acho que começou no Academia de Danças.
Tocar, a maneira de tocar, passou a ter a função de linguagem. O Luís Alves, no baixo, o Robertinho na bateria e  o Nivaldo Ornelas no sax, já estão tocando comigo há mais de um ano e na medida em que você tem pessoas acrescentando e te permitindo parar para ouvir sua música inclusive, ela fica muito mais livre. Nós já conhecemos os arranjos todos, que foram estimulados por mim mas criados através do que a gente está fazendo. Isso nos permite tocar o arranjo simplesmente, ou a música através do arranjo. Pode durar cinco minutos, 10, 30, sem perder a densidade, sem perder a direção. É lógico que eu fiz as  músicas, mas o Robertinho, o Luís influenciaram muito, na medidas em que eles transam mil no nível da intuição, não param para ficar tchá tchá analisando.
Sei que nesse ponto a cabeça das pessoas ainda não está solta assim. Pinta, por exemplo, uma cabreiragem na cabeça do Airto Moreira quando ele vai gravar os discos dele. Nesse de agora (Identity) o Robertinho só entrou no grupo depois de muita discussão. Por que ele é baterista e o Airto também é. Mas eu acho que não tem nada a ver, não diminuiu ninguém por causa disso, pelo contrário. Mas é muito uma medida de insegurança das pessoas que fica mais transparente no ambiente de lá. Herbie Hancock, que fez a produção, é uma pessoa fora do estúdio, mas lá dentro começa a se preocupar com a direção dos acordes. Tudo certo para eles, mas não tem nda a ver com a gente. Quando eu voltei pra ouvir o disco do Airto estranhei porque eles mudaram contrabaixista, trocaram certos solos. Isso eu não transo. Se combino: vamos gravar nós cinco, não justifica daqui a um mês você achar que poderia mudar determinado solo, porque entrando nesse processo não se sai mais, o disco nunca fica pronto.
Bonito mesmo foi o disco que eu fiz com o (saxofonista) Paul Horn. Tinha a mesma proposta do elepê do Airto: quer dizer, o Paul me chamou porque queria gravar as minhas coisas com arranjos dele. Só que Paul esteve com essa proposta até o fim. É um cara que está tão certo do seu trabalho que mesmo eu compondo, tocando e orquestrando no disco dele, vai ser minha música através dele. Ele é suficientemente forte - não é no tocar não, é de cabeça - um traço que deu medo no Moreira. Inclusive ele esquece o músico que ele é e o que fez, porque fez mesmo. Já Paul Horn é um cara que experimenta  todo o dia. Fez disco com o Ravi Shankar, com o Lalo Schifrin, o Gil Evans, Oliver Nelson. Está acostumado a ponto de entrar no estúdio sem conhecer as  músicas, e uma hora depois já está tocando. O disco do Paul Horn tem o pique do primeiro amor pela música, que é o que estou procurando no meu trabalho.
Nos shows a coisa tem funcionado assim: todos nós (os três que eu citei e mais o Nélson Ângelo na guitarra) acreditamos no mesmo nível na música que estamos fazendo. Queremos que ela seja mostrada e chegamos à conclusão de que de nós cinco, quem mais sabe desta música sou eu. Por isso, entro uns 20 minutos sozinho no palco com violão para ter o mesmo volume que guitarra, :microfone embutido, phases, space echoes, pedais...
Não é uma música que eu chegue e toque o solo apenas. Sempre tem uma coisa de arriscar, seguir por caminhos que a gente não conhece, aparecem na hora, no ato. Eu felizmente me entedio fácil com músicas, pelo menos as que faço. Procuro até forçar uma barra e quanto melhor o músico mais eu me testo. Os músicos que trabalham comigo têm total liberdade. Felizmente saiu da minha cabeça aquela coisa de que no meu disco os solos têm que ser meus. O som tá girando, de repente o Nivaldo sugere alguma coisa. Se ela for suficientemente forte (porque não se pode medir racionalmente) para puxar nós quatro, os quatro vão, senão, ele mesmo cai fora. É um negócio puramente sensitivo, cada um de nós já tem uma intuição calcada no gosto comum.
Outra ideia que me dá esse novo trabalho (disco e show, ambos intitulados Corações Futuristas) é a de injeção de energia. Diante de toda a dificuldade que cerca o músico no Brasil, a gente acaba, mesmo sem querer, traduzindo o som em morte, pra baixo, porque é isso que se vive todo dia, loucura, dificuldades. Acho que esse novo trabalho é uma proposta de vida, para tentar levantar e não derrubar mais ainda. O disco também foi gravado mantendo esse energia do princípio ao fim. No Academia, por exemplo, esse pique é sugerido e quando parece vir à tona sugere uma orquestra. No Corações Futuristas quando o grupo dá uma relaxada é que a orquestra entra, porque o pique é mantido. Isso influi mesmo no show: As cordas faziam falta no anterior, agora não. A orquestra tinha uma função de sublinhar o emocional, agora está sendo usada apenas como timbre.
Mudei muito nesses seis discos que eu já gravei aqui. Livrar de 15 anos de conservatório, do choque de sair de uma cidade pequena (Carmo, RJ), para os festivais da canção, depois o mundo - excursões com Marie Laforêt, estudos com Jean Barraquet - foi terrível. Primeiro um choque grande de ver que nem mesmo o Edu Lobo na época do festival, lia e escrevia música. Depois perceber que a minha formação acadêmica era apenas uma das informações que eu deveria usar, não a única. Logo que eu comecei a trabalhar com o Robertinho, ele me ensinou uma coisa incrível nesse sentido. Escrevi a partitura do que a gente ia tocar, e ele levou para casa, dizendo que 'ia resumir'. Achei um absurdo, e ele me traz uma folha de caderno de bolso, com quatro anotações e toca o disco todo, de cabo a rabo.
Fiz só umas três ou quatro letras.Quando eu voltei da Europa com o pescoço duro de tanto aprender, gravei um disco literário, o Água e Vinho, muito envolvido com poesia, pouca música. Meu principal parceiro, que sempre escreveu a maioria das minhas letras foi o Geraldinho Carneiro. Começamos a compor quando eu deixei uns dois exercícios de piano para a irmã dele. Por conta  própria ele colocou letra e eu caí duro pra trás - era exatamente o que eu queria dizer. Ele acabou parando de fazer música, e eu letra, porque os nossos trabalhos se completavam. Agora, eu estou me encaminhando para usar cada vez mais letra. Acho, por exemplo, que o Trem Noturno de Geraldinho, nesse disco, tem uma letra que fecha um pouco a coisa ('a não ser que alguém apareça e revire as estrelas/ como Galileu ao luar') e botei o som de uma festa no meio da música, uma tourada, uma das frases de crianças, 'tira a vassoura da bruxa'.
Por outro lado, eu sinto que estou podendo usar tanto a informação herdada do meu tio no coreto da banda do interior quanto a de conservatório, somar. Teoricamente eu sempre colocava a coisa pensando que não existia essa barreira de erudito e popular. Hoje existe na minha cabeça um processo de elaboração teórica e outra prática. O Léo Brower, o Turíbio Santos me escrevem pedindo partituras e eu utilizando a técnica de escrever também já estou me soltando. Escrevi uma peça para flauta-solo chamada Flauteando, que descreve a morte de Pinxinguinha na praça. Escrevi outra chamada Ritmos e Danças, um violão e um quarteto de cordas descrevendo a passagem de uma escola de samba. Em suma, é a descoberta também que, em relação à Europa, o quarteto de cordas representa uma forma,  em relação ao Brasil, que seriam aqui os regionais. Eu não sei o que pretendia - se ser erudito ou popular quando comecei a estudar. Nem agora eu sei onde vai dar essa minha experiência, de usar mais as minhas alegrias, tristezas, formações e informações dentro da música que estou fazendo.' "


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Neil Young - Entrevista Revista Qualis (1992)

Neil Young é um dos nomes mais importantes do rock. Com um trabalho extenso, e de grande qualidade, passando por várias fases, em grupos ou solo, Young angariou um respeito e uma admiração que poucos artistas de sua geração alcançaram. Em 1992 Neil Young lançava mais um disco, Harvest Moon, o 27º de sua carreira, uma continuação de um de seus álbuns mais clássicos, Harvest, de 1972. Na ocasião, a revista Qualis conseguiu uma entrevista exclusiva com o grande astro, quando ele falou do lançamento, e de seu desejo de tocar no Brasil, o que só viria acontecer em 2001, na terceira edição do Rock in Rio. A entrevista foi concedida a Jean-Yves de Neufville, e é reproduzida abaixo:
"Dono de uma voz única e de um estilo de tocar guitarra inconfundível, Neil Young participou de capítulos decisivos da história recente da música popular norte-americana - um deles ao lado dos parceiros Crosby, Stills e Nash -, numa trajetória que cobre quatro décadas. Mesmo com o passar do tempo, a estrela de Young nunca deixou de brilhar, sempre energizada pelo seu talento ímpar de compositor - na esteira de Bob Dylan, Young assina algumas das mais belas canções do repertório pop, transitando com desenvoltura entre o country, o rock, o folk, o blues e o jazz.
Ao contrário da maioria dos rock stars de sua geração, Neil Young envelheceu como um bom vinho e nunca esteve tão criativo como hoje, como atesta Harvest Moon, que marca uma nova guinada para o country e tem participação de Linda Ronstad e James Taylor. Infelizmente, discos como Freedom (89) e Ragged Glory (90), entre os melhores que gravou, foram editados no Brasil com meses e atraso. Outros foram simplesmente ignorados como o CD duplo Weld (91), ao vivo com a banda Crazy Horse, um registro fantástico do show que o Brasil não pôde ver no começo deste ano.
Qualis - Um ano atrás, o seu nome apareceu no topo de uma lista dos artistas participantes de um  importante festival brasileiro, o Hollywood Rock. Algum tempo depois os organizadores publicaram um comunicado dizendo que sua vinda estava cancelada, sem maiores explicações. O que aconteceu de fato?
Neil Young - Inicialmente estava muito feliz de tocar no Brasil. É algo que pretendia fazer há muito tempo. Achava que Holywood era  o nome do local do show ou coisa do gênero. Infelizmente foi um mal entendido. Não sabia que era uma marca de cigarro. Se eu soubesse disso nem teria iniciado as negociações com eles. Não quero que o meu público associe o meu nome ao ato de fumar cigarro. De resto, não há nada pessoal contra aquela companhia.
Qualis - Ainda existe alguma possibilidade de ver Neil Young num palco brasileiro com sua banda, o Crazy Horse?
Young - Com certeza. Espero poder ir logo ao Brasil, não com o Crazy Horse e sim com a banda que toca em meu novo disco. É um projeto que pode se concretizar em breve, com certeza no ano que vem, mas nada foi confirmado ainda.
Qualis - Este álbum que você está lançando agora, Harvest Moon, é mesmo uma continuação da álbum Harvest, de 72?
Young - Sim. É uma espécie de continuação. Não era  o projeto que eu tinha quando entrei no estúdio, mas a ideia de dar uma sequência ao álbum Harvest foi se tornando clara no decorrer da gravação.
Qualis - É verdade que foi gravado exatamente nas mesmas condições - com os mesmos músicos e cantores, nos mesmos estúdios?
Young - São praticamente os mesmos músicos mas não os mesmos estúdios. Quando compus as canções pensei imediatamente neles porque são os melhores para tocar o tipo de música que eu queria. Com isso a ideia de fazer uma continuação para Harvest tornou-se óbvia.
Qualis - Harvest Moon tem uma dominante country. Esse estilo voltou a imperar no gosto popular nos EUA enquanto o rock'nroll parece estar enfrentando uma crise de criatividade. Você confirma essa tendência?
Young - É a crise de meia-idade do rock'nroll (risos). De qualquer forma é tudo música. Pouco importa qual seja o estilo contanto que eu goste do que estou tocando e do resultado. Nem penso muito nisso. O importante é acreditar e gostar. Mesmo assim tenho visto boas bandas de rock surgindo por aí (não me pergunte os nomes, sou péssimo pra essas coisas). Também acho a música country em geral muito alinhada a um tipo fácil, que chamamos middle of the road. Por outro lado, a verdadeira música country, a antiga, original, nem é tão popular. Alguns ótimos artistas de country têm surgido nos últimos tempos mas não acho que o country irá substituir algum dia o rock'n roll. Atualmente o rock se retraiu. Refugiou-se no underground. Isso é muito bom para ele. É uma volta às origens para se regenerar.
Qualis - Qual é a sua atitude em relação ao passado? O fato de criar uma continuação pra o álbum Harvest é reflexo de uma nostalgia?
Young - Ao contrário do que você pode achar, não penso muito no passado. Prefiro me deter no amanhã. O que é interessante fazer é resgatar elementos do passado para retrabalhá-los. Na medida em que vou envelhecendo faço cada vez mais isso. Mas não me volto para o passado com um sentimento de nostalgia, querendo que as coisas voltem a ser como estavam, achando que estavam melhores. Qual seria o interesse disso? Prefiro estar atento ao que vai acontecer.
Qualis - O seu público mudou nesses últimos 20 anos?
Young - 20 anos atrás, tudo era novidade para mim. Me lembro de que achava extraordinário poder gravar discos e fazer shows, coisas que sempre adorei, e ainda poder viver disso! Agora isso se transformou numa certa rotina mas o que faço ainda me dá muito prazer. Nada melhor do que compor canções e fazer com que elas existam através dos instrumentos. O que mudou 20 anos depois é que vejo minha carreira, minha trajetória em perspectiva e também me tornei mais precavido. O resto, tirando o fato de estar mais velho, não mudou. Continuo tão envolvido no que faço quanto antes.
Qualis - Tecnicamente, você não acha que aprimorou seu estilo de tocar guitarra, por exemplo?
Young - Não gosto muito de falar sobre isso.  Digamos que toco um pouco melhor do que no começo. Tendo maior conhecimento do instrumento, os sons fluem mais naturalmente. Mas nunca fui um guitarrista muito bom tecnicamente.
Qualis - Qual foi a sua reação, ano passado, quando a imprensa inglesa o elegeu entre os cinco melhores guitarristas de todos os tempos?
Young - Não imaginava que fosse possível uma coisa dessa acontecer. Bem, gosto muito de tocar, não sou muito técnico, mas acho que consigo passar boas doses de feeling através do meu instrumento. De qualquer forma é uma honra. Tenho certeza de que os primeiros grandes mestres da guitarra, os verdadeiros, devem estar se perguntando: 'o que esse cara está fazendo no meio da gente?' (risos)
Qualis - Em 90, você também foi homenageado por um grupo de artistas, entre os quais Nick Cave, num álbum-tributo chamado The Bridge.
Young - Foi fantástico. O maior mérito desse disco foi que tornou possível a existência de uma escola para crianças deficientes, a Bridge School, em San Francisco, Califórnia, fundada pela minha mulher
Qualis - Qual é a sua reação ao ouvir versões de suas canções interpretadas por outros artistas?
Young - Gosto muito. É fascinante para mim ver o quanto essas abordagens de minhas canções podem ser diferentes e interessantes.
Qualis - Ao longo de sua carreira você alternou fases alegres, otimistas, como quando gravou o álbum Harvest, com períodos de profunda depressão refletida em discos sombrios, que chegaram a desorientar seus fãs. Com você, as coisas parecem funcionar por ciclos. Concorda?
Young - Sim, a vida é assim e minha música apenas reflete isso.
Qualis - Parece haver de um lado 'Neil  o rebelde', que aparece em discos de rara violência como Weld (91), e de outro 'Neil o tranquilo', que atua em discos bastante românticos, como este Harvest Moon. Os dois estão sempre brigando. Qual deles é o verdadeiro?
Young - Acertou na mosca. Sou realmente assim. Felizmente há duas bandas diferentes para tocar com os dois Neils. Até hoje não encontrei músicos capazes de tocar os dois lados de minha música. Então  é preciso mudar de banda toda hora. Mas em todos os casos é Neil Young que está tocando, com a sorte de poder contar com maior quantidade de músicos. Nisso acho que tenho muita sorte.
Qualis - Em maio de 88, o clip da música 'This Note's For You' - uma sátira hilariante à interferência no rock de multinacionais como Pepsi Cola, em que um clone de Michael Jackson aparecia com o cabelo em fogo - foi inicialmente proibido na MTV. Em setembro de 89, o mesmo clip recebeu o prêmio de 'clip do ano' da mesma MTV. O que você achou desse episódio?
Young - Foi... inacreditável (risos). Os fatos falam por si. As atitudes que a MTV tomou acabaram se voltando contra ela mesma. Fiz uma canção que tinha uma mensagem bastante divertida, Julian Temple teve a ideia de fazer um vídeo também divertido, e a reação da MTV foi séria demais  Foram eles mesmos que criaram o problema, se deram conta do erro e voltaram atrás.
Qualis - Parece que hoje o simples ato de ouvir música saiu de moda. O interesse musical dos jovens está condicionado à pergunta: 'existe um clip disso?' O grande lance agora é ficar assistindo música para dançar retalhada em imagens. Como você se sente diante dessa tendência?
 Young - Bem, as coisas estão mesmo indo nessa direção. Ainda dou preferência à simples audição da música. É  a coisa mais importante para mim. As pessoas não estão mais ouvindo música como antes, não apenas por causa da existência dos videoclips , mas também porque os discos não são tão bons quanto eram no passado. Não dá mais para ficar ouvindo e ouvindo um mesmo disco e ter tanto prazer. Não soam tão bem. Nenhum disco. É por causa do som digital. Os CDs não soam tão bem quanto os velhos LPs analógicos. Então, para compensar, o pessoal recorre ao vídeo. Isso é uma opinião pessoal. Gosto do vídeo. É mais um elemento do processo, uma nova ferramenta de criação. só que é preciso tirar o melhor proveito possível dessa ferramenta, o que está longe de acontecer.
Qualis - Numa recente entrevista, Frank Zappa disse que detectou uma 'conspiração contra o pensamento', explicando que, nas últimas décadas, todas as atuações do governo (dos EUA), em todos os níveis, contribuíram para minimizar a importância da educação e reprimir os indivíduos e grupos que quisessem exercer sua liberdade. Segundo ele, o objetivo é perpetuar um tipo de estupidez que assola uma nação inteira sentada na frente da TV engolindo comerciais, vítima do lema 'seja um parasita e cale a boca.'
Como Zappa, você é um dos raros pop stars capazes de pôr sua arte a serviço da conscientização das pessoas. Você concorda com o que ele diz?
Young - Frank é sempre muito espirituoso nos comentários que faz. Concordo com as linhas gerais dessa declaração embora não conheça o contexto em que foi feita. Cada vez mais a indústria controla os meios de comunicação e as programações de TVs e rádios. Estas por sua vez estão se tornando uniformizadas, inócuas. Na música essa tendência está sendo incentivada pelo número crescente de contratos de grandes companhias com artistas, o que está levando a uma diluição geral. A música que era feita nos anos 60, no espírito daquela época, foi desviada  de seu sentido pelas leis do mercado.
No entanto, para mim, a música continua sendo uma viagem fascinante; é um enorme prazer poder me comunicar através dela e sempre farei uso desse poder quando for preciso.
Qualis - O que espera do novo presidente dos EUA?
Young - Ele poderia começar a mudar alguma coisa, quem sabe? Não sei o que esperar. Torço para que ele faça o melhor e para que dê certo tudo o que pretende fazer. Vamos esperar para ver mas ele tem meu apoio por enquanto.
Qualis - Você está no momento supervisionando a edição de uma caixa de quatro CDs que deve reunir boa parte de sua obra. Mais uma vez um projeto que o envolve com o seu passado...
Young - É justamente por isso que está demorando tanto para ficar pronto (risos). Quero tirar o melhor resultado possível desse passado, só que não gosto muito de remexer nele, nem tenho tempo pra isso. Ainda bem que há um monte de pessoas trabalhando nesse projeto para mim. De vez em quando vou conferir o que estão fazendo e dou algumas diretrizes gerais. Mas é difícil. Quero montar essa caixa da melhor maneira possível e por isso não tenho a menor pressa para terminar o trabalho."


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Hermeto Pascoal - Entrevista O Pasquim (1972)

Em 1972 Hermeto Pascoal já era um músico respeitado, porém ainda não era tão conhecido. Sua música já chamava a atenção de quem se ligava em sons vanguardistas, livre das amarras do mercado. A entrevista abaixo, publicada na edição 169 do jornal O Pasquim (setembro de 1972), foi publicada antes de sua polêmica apresentação no FIC (Festival Internacional da Canção) daquele ano, quando ao tentar apresentar sua composição "Serearei", ao lado da cantora Alaíde Costa, foi proibido de executar sua música, por ter levado ao palco dois porcos, que ajudariam na execução da composição. Na entrevista Hermeto fala de seus planos para o festival, dentre outras coisas, sem imaginar que sua proposta musical não seria entendida pela organização do festival. Leia a entrevista:
"Se Hermeto Pascoal tem cara folclórica, cabelos compridos, barba grande, olhos claros e pequenos, isso parece, afinal, ser o menos importante no homem. Na verdade, o que importa, além da sua excepcional técnica de músico 'por vocação', é que talvez mesmo por ser um músico tão completo, ele não terá tido tempo até agora de se preocupar com outras coisas 'além da música, do som'.
Claro, talvez esse detalhe (que fica bem claro na entrevista) nem represente tanta novidade para quem lembra bem dos motivos que levaram a música brasileira, em 1962/1964, da Bossa Nova à volta às raízes: a vergonha o pai (o jazz) fez com que a MPB renegasse, então, a filha daquela relação - e nesta atitude estavam Carlos Lyra/influência do jazz, Edu Lobo/Nordeste, Baden e Vinícius/Berimbau, Vendré/caipira sem novidades, Quarteto Novo e  o nosso Hermeto.
Mas então o que temos aí é o Hermeto de volta - 10 anos depois: ingênuo alienado ou reacionário convicto? Virá a ser um dia, como Eumir Deodato é, neste momento, hóspede de Baby Doc no 'Paraíso' do Haiti?
Se você gosta muito do músico Hermeto, feche os olhos. Não leia a entrevista. Não veja mais nada. Escute apenas o som. O som - isso eu concordo - é maravilhoso. (Julio Hungria)
O Pasquim - Hermeto ou Hermêto?
Hermeto - Hermeto.
O Pasquim - Ô Hermeto, eu estive estudando aí o material que já se publicou a teu respeito, a entrevista no Bondinho etc., e eu li uma coisa que disseram de você: Hermeto voltou pra dar uma última oportunidade ao Brasil. Muito bem: você está voltando, você voltou, e agora você participa do FIC. Você aha que isso é uma última oportunidade pra dar ao Brasil?
Hermeto - Olha, eu não sei o que vai acontecer no FIC. Porque a turma que vai se apresentar lá... justamente, não são meus conhecidos mesmo, não é? Eu conheço poucos, entende? Mas a minha preocupação mesmo no festival é fazer uma boa apresentação, com meu conjunto, e eu espero muito o público aceitar bem o meu trabalho. Eu fiz o arranjo pra toda a orquestra da Globo... São 44 músicos mais o coral do Severino, que é um excelente coral, muito bom. É só isso.
O Pasquim - Você acha que o artista deve participar efetivamente do ambiente social dele no sentido de modificar ou melhorar esse ambiente?
Hermeto - Não... Eu acho que o cara que é músico tem que se preocupar só com a música... A música, mais nada. Som. É isso. Se ele perder um segundo que seja com outras coisas - com dinheiro, com namorada, com tudo - ele não consegue chegar onde quer.
O Pasquim - ?
Hermeto - Olha, você vê, no Brasil. Os caras falam que a música, coisa e tal... Agora, o que acontece é que 95% dos músicos brasileiros, dos compositores brasileiros, todos eles são muito influenciados, não é? E são muito complexados. Eles se inferiorizam. Qualquer coisa que vem lá de fora, eles já dizem assim: oh... Às vezes, aqui no Brasil, tem um cara que faz muito mais bem feito, muito melhor. Você vê, no Brasil tem músico fazendo rock, dizendo que toca rock...
O Pasquim - Tem gente, no entanto, que acha o contrário. Acha que complexados - complexo de inferioridade - são aqueles medrosos das influências, avessos às influências, o medo do subdesenvolvido relativamente ao desenvolvido etc.
 Hermeto - Olha, desculpe, só eles pensarem que aqui é subdesenvolvido ou não é, só o tempo que eles perdem para pensar isso aí, eles já se esqueceram da  outra parte do negócio. Esqueceram de se preocupar com a música.
O Pasquim - Escuta, vamos mudar de rumo - quem é que trouxe você pro Rio? Foi o Sivuca?
Hermeto - Não, foi o José Neto. Meu irmão. O pianista. Eu vim pra cá pra tocar no regional da Rádio Mauá. Eu vim tocando acordeom.
O Pasquim - Escuta, como é que foi essa troca de instrumentos? Primeiro o pandeiro, depois o acordeom, adiante a flauta.
Hermeto - É, e teve cavaquinho também...
O Pasquim - Mas explica: como é que você chegou à flauta? Do acordeom para a flauta como é que foi?
Hermeto - Olha, eu comecei a tocar flauta porque eu comecei a tocar clavineta, sabe? Aquele acordeonzinho de boca...
O Pasquim - Sei, entendi tudo.
Hermeto - Pois é, aí eu comecei a tocar e aí eu descobri um som...
O Pasquim - Você deve a sua forma toda de música a muito estudo ou...
Hermeto - Olha, eu acho que devo tudo à vocação de músico. A vocação em primeiro lugar; em segundo lugar o estudo. Estudo sozinho mesmo, aliás, Eu nunca tive professor...
O Pasquim - É? Escuta, então como é que você estuda? Você tem algum método? Estuda um certo número de horas por dia? Como é que é?
Hermeto - Não, eu estudo quando dá vontade. Na hora em que eu tenho vontade. Eu nunca digo assim antes: 'Eu vou agora estudar!' Se eu disser isso antes, aí eu não faço nada.
O Pasquim - Bom, ô Hermeto, vamos lá encerrando. Uma última perguntinha: censura. Como é que você olha para o problema da censura em arte? Você acha a censura um mal necessário?
Hermeto - Olha, a censura é bem capacitada, bem preparada, gente com preparo, entende? Aí eu acho legal. "

Obs: Essa última resposta chega a ser surpreendente, partindo de um artista, de um criador. Ironicamente, pouco tempo depois dessa entrevista, o próprio Hermeto (como citei acima) foi vítima de uma censura, quando não pôde realizar sua apresentação no FIC, tendo, inclusive, o microfone da cantora Alaíde Costa, que interpretaria sua música, sido desligado.



quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Jards Macalé - O Globo (1988)

Jards Macalé é um nome dos mais cultuados e respeitados dentro da música brasileira. Seu trabalho original e criativo faz com que ele atravesse gerações, e tenha um público heterogêneo, que abrange diferentes faixas etárias, bastando que se busque algo de qualidade e fora dos padrões comerciais. Macalé é uma prova viva que a qualidade musical sobrevive a esquemas comerciais, e que um trabalho sem concessões, às vezes às margens da mídia, na contramão do mercado que as gravadoras perseguem, pode tornar-se longevo e reconhecido ao longo dos anos. Assim é Macalé, cujo público não lota grandes arenas, nunca liderou paradas de sucesso, nunca foi atração constante em programas populares de TV, e é considerado por isso tudo um dos 'malditos' da MPB, mas nunca caiu no ostracismo e no esquecimento como tantos artistas que caíram na armadilha do comercialismo e do sucesso fácil, e hoje vivem o anonimato de quem se rendeu a modismos.
Em sua edição de 13 de março de 1988, o jornal O Globo, em sua seção dominical "Rio Fanzine", trazia uma breve entrevista com Macalé, falando da redescoberta do artista pelas novas gerações, um fenômeno que vem se repetindo até hoje. A matéria é intitulada "A volta do coringa Jards":
"Desde os tempos da Tropicália ele é tachado de maldito. Agora, descoberto pela nova geração, Jards Macalé está dando a volta nesse rótulo, embora sua obra continue pouco divulgada e seus discos levem muito tempo para serem lançados. Num encontro casual, Tom Leão conheceu o tranquilo e calmo Macalé, que falando pausadamente nos contou sobre seus novos projetos e planos.
Tom -  Após dez anos sem lançar um disco, como aconteceu de gravar dois de uma vez só?
Macalé - Neste intervalo eu não gravei nenhum disco meu, mas gravei um independente com Naná Vasconcelos e o falecido Roberto Guima, chamado 'Encontro', que só existe em fita(*), e algumas faixas no disco de Geraldo Pereira em homenagem a Ismael Silva, editado pela Funarte. Esses dois projetos surgiram quando Wilson Souto Jr, um dos fundadores do Lira Paulistana (teatro e selo musical dedicado à MPB), assumiu a direção artística da Continental e me convidou para o novo cast que estava criando, que inclui o Melodia, Tim Maia, os novos grupos da Bahia, etc. Eu gravei primeiro o mix 'Rio sem tom', uma coisa imediata, falando do caos em que se encontra a cidade, da sujeira das praias... Como eu estava muito tempo fora dos estúdios, gravei na casa do Lincoln Olivetti pra ir me ambientando. Depois eu propus o '4 Batutas e 1 Coringa', onde eu, como Coringa, homenageio Paulinho da Viola, Lupicínio Rodrigues, Geraldo Pereira e Nelson Cavaquinho, já em estúdio.
Macalé e Naná Vasconcelos no estúdio
Tom - O que te levou a esse projeto/disco homenageando esses nomes?
Macalé - A reaproximação com essas pessoas que sempre estiveram em meu repertório. Queria um disco radical de MPB, oposto de tudo o que está pintando. Convidei o Júlio Medaglia, o maestro da Tropicália para orquestrar os arranjos de Nelson Cavaquinho e Lupicínio, e eu fiz as orquestrações das músicas de Paulinho da Viola e Geraldo Pereira. Os arranjos sairam bem minimalistas.
Tom - Você ainda se considera um maldito, as pessoas ainda te vêm assim?
Macalé - Fomos amaldiçoados! Essa coisa de maldito foi inventada. Mais um rótulo para vender, para colocar no mercado. Eu, Raul Seixas, Luiz Melodia, Sérgio Sampaio, somos o quarteto da maldição. Só falta o Cristhopher Lee. Zé do Caixão também era maldito. O Glauber, Zé Celso, Hélio Oiticica. Isso não me incomoda. Afinal, formamos um time de primeira linha.
Tom - Tem algum esquema de shows planejado para esses discos?
Macalé - Continuo fazendo shows regularmente. Estarei na última semana de março no People, e estou preparando um grande show de lançamento de meu próximo disco, 'Macaos' - como os amigos me chamam - que acontecerá no João Caetano. O disco terá convidados especiais como Lobão, Leny Andrade,, Titãs, Tim Maia, Melodia, Jorge Ben, Itamar Assumpção, mais o Paulo Moura e o maestro Severino Araújo nos arranjos. Depois, vou me retirar num sítio só com violão e descansar em companhia dos pássaros, borboletas, cachorros..."

(*) O disco só seria lançado em 1994, pela gravadora nidependente Rock Company, com o título de "Let's Play That"

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Jorge Ben - O Alquimista do Rio Comprido

Jorge Ben é um dos grandes criadores da música brasileira. No início dos anos 60 Jorge revolucionou o samba com uma batida que era diferente de tudo que se produzia no gênero até então. Suas letras traziam  uma originalidade e uma forma diferente de se falar de assuntos variados, trazendo como marca um otimismo e uma alegria raras vezes apresentados com tanta ênfase em nossa música. Além do mais, Jorge seja talvez o letrista que mais exaltou a figura da mulher amada, da mulher sonhada e pretendida, do amor correspondido ou não.
Em 1980, o escritor e crítico musical Nelson Motta lançou um livro chamado, "Música Humana Música", que reúne alguns textos das colunas que publicou durante anos no jornal O Globo. Um dos textos escolhidos foi sobre Jorge Ben, chamado "O Alquimista do Rio Comprido", cuja data de publicação não é mencionada no livro, mas que é dos anos 70. Segue abaixo, o texto:
"Um dos fundamentais dramas que afligem os criadores da música é a fidelidade a seus valores artísticos e, ao mesmo tempo, a evolução dentro deles, renovando o compromisso com o novo e abrindo caminhos em seus universos pessoais. Muitos têm a desagradável surpresa de, num exame de consciência após alguns anos de carreira, constatarem que 'antes eu era muito melhor', 'quanta besteira eu fiz', 'agora é que encontrei meu caminho', 'isto não tinha nada a ver', 'como é que eu pude fazer isso?' e outras observações ainda mais doloridas. Como 'e agora?'
Jorge Ben não tem esses problemas porque não pensa sobre eles, vive-os sem sofrimento ou conflito. Ele não tem tempo nem temperamento para elaborar uma linha dentro da qual vai exercer seu talento. Ele exerce, os outros falam e justificam e explicam por ele, como quase ridiculamente se tenta fazer aqui. Como quem tenta explicar 'cientificamente' o vento e a chuva diante de alguém que faz chover e ventar quando quer.
Jorge deve achar engraçado tudo que se escreve sobre sua música espontânea, vital e alegre como ele. Como fica infantilmente feliz com as constantes e  públicas homenagens que recebe através de músicas feitas sobre ele por artistas da dimensão de Caetano Veloso, Gilberto Gil ou Chico Buarque. Ou quando Gato Barbieri quer gravar um disco com ele de qualquer maneira. Ou quando Cat Stevens tem nele um de seus artistas favoritos e até tenta (ingênua e reverencialmente) em seu disco 'Buddah and the Chocolate Box' reproduzir alguns dos ritmos que  o violão de Jorge cria.
Quando você ouve qualquer música que Jorge fez, identifica imediatamente o seu autor, sem possibilidade de erro, tão pessoal e forte é seu estilo. Isto seria fácil se todo seu trabalho fosse horizontal e sem piques, arrastando-se pelo tempo dentro das mesmas fórmulas poéticas, rítmicas e harmônicas. Mas Jorge consegue o milagre de manter inalteradas suas características básicas e, ao mesmo tempo, desenvolver em cada disco novas e poderosas criações rítmicas, aliadas a um canto cada vez mais perfeito e letras de liberdade crescente.
Em nenhum momento de sua carreira Jorge procurou adaptar-se à 'nova moda' musical, em nenhum momento ele teve a preocupação de ser vanguarda ou defensor da tradição, em nenhuma hora pretendeu ser revolucionário ou preservar o estabelecido. E conseguiu tudo isto e  muito mais, ao mesmo tempo.
Absurdamente subversivo, Jorge Ben subverteu inteiramente todas as regras de poética dentro da música, falando seus versos, ignorando totalmente qualquer relação exata sílabas-notas em favor de uma riqueza expressionista. Subverteu de forma total todas as batidas de violão existentes, transformando o instrumento em percussão & cordas.
Jorge deu um nó difícil de desamarrar nas posições elitistas tão presentes na  poética musical brasileira dos últimos tempos, tão cheias de 'regras absolutas', 'compromissos' e 'intenções' profundamente fechadas e duvidosas. Ele explode tudo isto com sua maneira de ver as coisas e as pessoas, criando valores e situações absurdas, no melhor e mais excitante sentido da palavra.
Senão, ouça 'Estão Chegando os Alquimistas' ou 'A Gravata Florida de Parecelso' ou 'Errare Humanun Est' ou qualquer outra faixa do 'Tábua de Esmeraldas'.
O universo lírico de Jorge Ben é diferente de tudo que já foi feito e pobres dos que atrelados a valores intelectuais ou 'intelectuais' não conseguem vislumbrar a magia intensa que há em suas músicas e letras. A loucura, a saudável loucura, está presente em cada música sua. Louco é alguém que trabalha trancado num banco a vida inteira ou quem fala em 'agricultura celeste' ou 'sua gravata era como um jardim suspenso'? A beleza está, muitas vezes, onde não se espera que ela esteja. Inclusive esperar beleza em algum lugar é esperar, esperar, esperar... Jorge não espera nem pensa sobre a beleza ou onde ela provavelmente estará. Vai de encontro a ela explosivamente africano, negro, brasileiro, universal."

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Rock Brasileiro Pós-Tropicália

Uma edição especial da revista Metal Massacre trazia uma longa matéria sobre o rock brasileiro, desde seus primórdios. A edição traz um bom texto, com muitas ilustrações. Como trata-se de uma matéria extensa, vou destacar o período que abrange o final dos anos 60, após o Tropicalismo, e os anos 70, um período bastante rico para o rock brasileiro. Segue o texto:
"Vamos deixar claro: os Beatles que serviram de inspiração à Jovem Guarda são aqueles quatro garotos de terninho, gravata e cabelo curto que viraram 'os reis do iê-iê-iê', que existiram até 1965. A partir daí, como que refletindo todas as mudanças que ocorriam no mundo, surgiu um outro grupo com o mesmo nome, cujos integrantes eram cabeludos, contestadores e experimentalistas...
Mas a nossa juventude roqueira, embora fosse bastante ativa, estava bem distante de se envolver com coisas mais 'sérias'; tanto que, em 1967, enquanto os Beatles lançavam o álbum Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band, que mudaria a história da música, Roberto Carlos cantava a rebeldia ingênua de 'Eu Sou Terrível'. Por isso, embora não seja propriamente um movimento roqueiro, o Tropicalismo deve ser levado em conta, pois trouxe consigo a contestação aberta ao sistema (herança direta dos hippies), 'batendo de frente' com a então ditadura militar que imperava no país, além de incorporar elementos da psicodelia do Sgt Pepper's... dos Beatles, tendo até mesmo introduzido um símbolo do rock (a guitarra elétrica) na MPB. 
Mas, a maior contribuição do movimento foi, sem dúvida, ter gerado em seu núcleo uma banda que se tornaria um capítulo à parte na história do rock brasileiro: Os Mutantes, formado em 1967 pelo núcleo Rita Lee e os irmãos Arnaldo e Sérgio Dias Baptista, que registrou entre 1968 e 1972 cinco álbuns (houve também o Tecnicolor, gravado na França em 1970, e lançado somente em 2000), misturando MPB, jazz, música caipira, música clássica e, naturalmente, generosas doses de rock, desde o 'básico' aos Beatles em início de carreira, até o psicodelismo e o 'rock pesado', tudo regado a letras totalmente nonsense e cínicas e atitudes polêmicas, apresentando um trabalho irreverente e original. Com a saída de Rita, em 1972, Arnaldo e Sérgio passariam a fazer rock progressivo, fortemente influenciado por Yes e Genesis e registrariam um álbum, que permaneceria inédito até 1992, quando foi lançado em CD 'O A e o Z', gravado em 1973.
Rita, Arnaldo e Sérgio - o núcleo original dos Mutantes
Não tardou para Arnaldo também cair fora, mas a banda duraria até 1978, passando por inúmeras formações, sempre sob o comando de Sérgio, e cada vez indo mais fundo no progressivo, tendo registrado em 1974 um dos LPs mais apreciados pelos fãs do gênero, feito por uma banda brasileira, o Tudo Foi Feito Pelo Sol. Porém, após um álbum ao vivo e um compacto, encerram atividades definitivamente (*).
Enquanto isto, Rita prossegue em sua carreira, primeiro tendo como banda de apoio o Tutti Frutti, com a qual lançaria alguns bons discos de rock (o principal deles, Fruto Proibido, de 1975), tendo inclusive sido batizada como a 'grande dama do rock brasileiro'. No Tutti Frutti se destacariam os músicos Lee Marcucci. Luis Carlini e Lucinha Turnbull, que no futuro se envolveriam em inúmeros projetos de rock e MPB.
Lucinha desenvolveu uma carreira das mais curiosas do rock/pop brasileiros, tocando no espetáculo Rock Horror Show, participando de shows de figurões (e 'figurinhas') da MPB sempre como sidewoman. No começo dos anos 80, Lucinha gravou um álbum solo na Odeon (Aroma), cuja sonoridade, muito avançada para a época, o condenou ao esquecimento. Já Rita Lee, mais tarde, em parceria com o marido Roberto de Carvalho, enveredaria por outros estilos musicais, embora ainda mantivesse uma certa referência ao rock.
Módulo1000
Além dos Mutantes pós-Rita, houve muitos outros grupos que enveredaram pelo progressivo. Na realidade, o primeiro álbum do gênero lançado no Brasil foi o Não Fale Com Paredes, dos cariocas do Módulo 1000, que saiu em 1971 - embora sua essência fosse, de fato, uma mistura de psicodelismo com progressivo.
Em 1973, o Som Imaginário, banda criada para acompanhar Milton Nascimento no início dos anos 70, lança seu terceiro e último trabalho, o mais progressivo de todos, chamado Matança do Porco. No ano seguinte, sai o álbum de estreia de A Barca do Sol e o Snegs do Som Nosso de Cada Dia, um dos trabalhos mais característicos do Rock Progressivo brasileiro. Mas, sem dúvida, o auge do movimento aconteceu no ano de 1975, quando foi realizado em São Paulo o festival Banana Progressiva, que contou com alguns dos principais grupos da época, mesmo ano em que saíram o Criaturas da Noite, do Terço e o Lar de Maravilhas, do Casa das Máquinas, dois dos melhores trabalhos do rock progressivo brasileiro.
De Minas Gerais para o Brasil, surgiria no final dos anos 70 o grupo 14 Bis, inspiradíssimo em Beatles como toda a 'geração Clube da Esquina' (Toninho Horta, Lô Borges, Beto Guedes, o próprio Milton Nascimento, Tavito e outros). Durante uma década o 14 Bis fez discos bem elaborados com vários hits radiofônicos e razoável êxito comercial. Na época, até os fãs mais bem-humorados da banda a chamavam de '14 Bitols'...
Embora prossiga até os dias atuais, o movimento quase acabou ainda na década de 70, tanto que nenhum dos grupos surgidos na década se manteve fiel ao estilo. A grande maioria acabou migrando para a MPB, com exceção dos que registraram apenas um ou dois álbuns: caso do Moto Perpétuo (de Guilherme Arantes), o Terreno Baldio e o Recordando o Vale das Maçãs, que certamente detém o título de 'banda com nome mais pitoresco do rock brasileiro do passado' - pois, hoje em dia, a quantidade de nomes estranhos que surge é muito grande...
Sá, Rodrix & Guarabyra
Foi na década de 70 que se consolidou o rock brasileiro (ao contrário do rock feito no Brasil, com bandas gravando em português e adicionando elementos regionais em sua música). Foi também a época na qual, finalmente, o rock deixa de ser coisa exclusivamente para jovens, e passa a atingir o grande público.
Sem dúvida, um dos grandes responsáveis por isso foi o Secos & Molhados que, com seu álbum de estreia, conseguiu a proeza de vender mais de um milhão de cópias só no ano de 1973, fazendo uma mistura de MPB com elementos roqueiros, tendo sido, além de tudo, um dos pioneiros no visual andrógino que seus integrantes apresentavam - o mais famoso deles, Ney Matogrosso, seguiu, posteriormente, uma carreira solo de grande sucesso, abandonando definitivamente o rock.
Ruy Maurity
Outro movimento surgido no início da década foi o rock rural, que misturava rock com sonoridades regionais, tudo regado por uma certa temática 'hippie', podendo ser destacados neste quesito grupos com Almôndegas (de onde saiu a dupla Kleiton e Kledir), Ruy Maurity Trio e Sá, Rodrix & Guarabyra (que mais tarde se reduziria à dupla Sá & Guarabyra).
Entretanto, o roqueiro que mais marcaria a década seria Raul Seixas (Raul Santos Seixas), nascido em Salvador, que, embora tenha iniciado sua carreira ainda nos anos 60, só estouraria mesmo alguns anos depois, com canções como 'Ouro de Tolo', 'Metamorfose Ambulante', 'Mosca na Sopa', 'Gita', 'Maluco Beleza' e muitas outras. Depois de sua morte, a legião de fãs aumentou ainda mais, tendo ele se tornado definitivamente uma espécie de lenda do rock e da anarquia brasileira, cuja vida e obra é muito importante, merecendo por isso um estudo à parte. "

(*) Isso na verdade não aconteceu. A banda retornou a atividade outras vezes.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Djavan - Revista Pipoca Moderna (1982) - 2ª Parte

"O tão temido sotaque norte-americano de Luz - lançado com uma tiragem inicial de 100 mil cópias, 30 mil a menos do que o somatório das vendas de toda sua discografia anterior - é imperceptível, para alguns; indiscutível, para outros. E a música de Djavan, aquela coisa tão difícil de explicar, tão intrigante a ponto de ser de duro acesso, mudou? Mudou, na medida em que toda a experiência norte-americana influiu sobre sua feitura, na mesma proporção em que viagens anteriores a Angola e a Cuba apontaram nuances em Djavan que estavam nele desde o nascimento, mas que ele ainda não tinha realizado a contento. Mudou, também, em certa parte, na embalagem, na medida em que a ideia inicial era de se lançar Luz também nos Estados Unidos (pensa-se ainda em uma versão americana do disco). E o Djavan, que agora é festejado com queijos e vinhos no Rio Palace e no Maksoud (ele mesmo estranhou  os festejos suntuosos quando soube deles, mas cedeu ao ver que a suntuosidade seria reduzida a um mínimo), esse Djavan mudou?
'Eu sabia do risco de cair no padrão, no invólucro do produto americano', conta Djavan num estúdio situado estrategicamente abaixo da axila direita do Cristo Redentor, no Humaitá, enquanto Sururu de Capote esquenta as turbinas para mais um longo ensaio antes da excursão nacional que já o levou a Belo Horizonte, ao Rio de Janeiro, a Curitiba e que agora aporta em São Paulo. 'Mas o que eu queria era exatamente aproveitar o máximo do que eles têm de bom. Ou seja, a parte técnica, a tecnologia deles, e os músicos, os grandes músicos que eles tem. Eu lutei muito com o Ronnie  Foster, que é uma pessoa que eu amo e que ama muito a música brasileira, pra que a coisa não corresse pra margem de lá, você tá entendendo? Porque eles têm aquela coisa de querer americanizar tudo. Por mais que eles gostem... mas é uma coisa inconsciente. São assim desde o começo. Tudo que é americano é inconsumível. Mas, na minha cabeça, como eles dizem que meu som é internacional, é um som extremamente viável nos Estados Unidos, porque não fazê-lo como ele é realmente? Porque usar o invólucro deles se, na minha opinião, há um marasmo nos Estados Unidos?'
'Eu lutei muito. Eu disse - não, tem que ser como tem que ser. Eu não vim pra cá entregar o ouro, assim. Eu vim pra cá fazer o que eu sempre fiz. Aí não teria sentido sair do Brasil, ficar 45 dias longe dos meus filhos, sofrendo uma saudade terrível, pra depois entregar tudo de bandeja pra vocês. Não'.
'Eu sou uma pessoa que não abre mão das coisas que faz', prossegue Djavan acendendo mais um cigarro de baixos teores e abrindo mais uma lata de coca-cola. 'Você não consegue me convencer de uma coisa que eu não quero fazer. Eu acho que só eu tenho certeza. A música, fui eu que criei, meu som já existe, independente de qualquer americano. Eu e Ronnie Foster íamos brigar, sair na mão até, mas não ia ser diferente, porque não houve jeito de dele segurar a barra  de fazer um som como se faz nos Estados Unidos. Caso contrário, eu voltaria, arranjaria um outro produtor ou mesmo eu produziria meu disco lá. Mas não foi necessário isso'.
Mas será que o resultado obtido em Luz não teria sido obtido aqui, já que o interesse obtido aqui, já que o interesse principal era a tecnologia? Djavan faz uma longa pausa e olha momentaneamente para os pés, calçados em sapatos chineses negros. 'Olha, eu compus esse disco baseado muito numa música mais internacional, mais abrangente. É lógico que minha música nunca foi regional, nunca pretendi que ela fosse. Mas a composição desse disco tem algo de mais além fronteiras. Eu tenho um interesse antigo de expandir meu trabalho, de cantar em vários lugares do mundo, que esse trabalho seja avaliado por todo mundo... mas como foi mesmo a pergunta? Ah! Obteria o mesmo resultado, em termos de qualidade. Porém, diferente deste'.
'Eu acho que meu disco é diferente', encerra Djavan antes de ser chamado irrevogavelmente para o ensaio, 'da mesma forma que todos os meus discos são diferentes em relação aos anteriores, porque isso é uma busca minha. Eu jamais me contentaria em fazer um novo Luz no ano que vem. Aí não tem sentido. E o que eu aprendi durante todo o ano? E o que eu vivi? E as novas experiências? Aí não teria sentido nenhum, porque a vida se transforma a cada minuto, eu me transformo a cada minuto, uma vez que ela é o reflexo da minha passagem por aqui, ela é a minha existência em qualquer lugar do mundo, em qualquer momento'.
A existência de Djavan já o levou a muitos lugares e valeu-lhe uma experiência considerável para seus poucos anos, tornado menores por sua indisfarçável aparência de garoto arredio e carente, sublinhado por um olhar meio tristonho, meio desafiador. Ele é o caçula temporão de três irmãos - ele, Djacy e Djanira - nascido numa família de muitas 'mães', em Maceió, Alagoas. 'Todo mundo me queria', confessa rindo', 'porque era um garotinho gorduchinho, muito bonitinho, então era muito mimado. O que é ruim hoje, porque sou uma pessoa muito dependente, não sei fazer nada sozinho'. E a música entrou fácil em sua vida. Ou, como ele prefere, 'a minha vida entrou na música. Minha mãe sempre foi uma mulher muito cantante, rítmica (estala os dedos); era uma negra bonita, tinha um quê, uma quebrada  africana. Tanto que, enquanto as mães cantavam Boi da Cara Preta, ela fez uma música pra mim; 'passo preto, gavião/segura o Djavan, senão vai o chão/ele é 'seu' Djavan/e nele só se vê falar/convidou seus camaradas/para poder vadiar/olê, passo preto'. Desnecessário dizer que na divisão rítmica e na poética da canção de ninar já estavam todos os germes que impregnariam absolutamente toda criação de Djavan.Contudo, não foi fácil deixar que a música acabasse de ver sua vida entrar nela. Por desejo da família, Djavan seria hoje um sargento do Exército. Pensaram até em mandá-lo à Academia de Agulhas Negras, mas rebelou-se, fugiu de casa e arrumou um emprego como escriturário da Crush, para logo depois formar sua primeira banda, LSD. 'Tocávamos muito Beatles', diz, 'e eu era o Paul McCartney'. Somente anos depois Djavan começaria a compor. E a pensar em ir para o Rio de Janeiro. Casado, com um filho nascido e mais outro na barriga de sua mulher, Aparecida, Djavan desembarcou no Rio em 72, sem conhecer ninguém. Graças às boites, Djavan conseguiu manter-se vivo, até que o radialista carioca Adelson  Alves levou-o a João Araújo, presidente da Som Livre, que se interessou por Djavan e o contratou. O compacto duplo resultante - com 'Flor de Lis' e 'Fato Consumado', 2º lugar do festival Abertura - sairia apenas três anos mais tarde, por força exclusiva do festival.
Djavan e Aldir Blanc, parceiros
Djavan voltou, então, à noite até ser descoberto pelo produtor Mariozinho Rocha no 706, no Leblon, que o levou da Som Livre para a Odeon. Mas  uma coisa ainda incomodava Djavan. Seu primeiro álbum, ainda pela antiga gravadora, fora recebido com frieza pela crítica, que vira nele um 'pseudo-Gil', 'porque não tinha havido paciência de descobrir a mim mesmo em meu trabalho'. Irado e magoado, Djavan iniciou, então, uma série de discos que, cada vez mais, delineavam uma assinatura personalíssima, progressivamente distante do que muitos viam nele. E que ele não era. Daí, talvez, o misto de estranheza e falta de compreensão como Cara de Índio, Alumbramento e, em parte, Seduzir viriam a ser recebidos. A surpresa sempre foi o elemento mais importante da música de Djavan e dela ele sempre soube tirar proveito para tentar eliminar - ou aliviar - qualquer pré-conceito. Como se empunhasse uma espada de retoque criativo para usá-la com exatidão zen, como um samurai negro em turras contra o gosto pelo morno e imutável.
Os adversários que o Djavan de hoje enfrenta são muito mais sofisticados. Tomam a forma de uma multinacional de discos que quer transformá-lo num astro internacional, provavelmente sem levar em consideração o quanto de genuinidade seu artista possa vir a perder, no meio do caminho.
No que depender do Djavan que em setembro ensaiava no Humaitá, essa nova batalha será tão arrefecida quanto longa, já que, aconteça o que acontecer, pareça o que parecer, Djavan é um sujeito basicamente teimoso e seus alvos são muito bem definidos, irrevogáveis. Pelo manos há franqueza quando ele diz isso. E quando diz que, no fundo sua substância será sempre a mesma. Mutante e o quanto possível sem definição.
'Me incomoda muito isso', Djavan conta enquanto escurece na rua, 'essa coisa toda de sempre procurarem um rótulo, uma marca, de dizerem que Djavan é nordestino, é isso ou aquilo. Nem brasileiro eu quero ser! Sem o menor preconceito. Eu quero que me digam que eu faço música, apenas'.
'Não precisa me dizer que eu sou um compositor de música brasileira. Eu detesto essa sigla, MPB, eu odeio esse negócio, porque acho uma coisa preconceituosa. Eu acho muito ruim querer limitar a coisa que você tem mais pura, que é seu pensamento, sua criação, uma coisa que você tem dentro de você. Eu acho ótimo não ser compositor de nada e, sim, apenas de música.' "