Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

domingo, 31 de março de 2013

A Conversão de Bob Dylan à Guitarra Elétrica

Em 1979 foi publicada uma edição especial  da revista Violão & Guitarra, sobre a country music e suas variações. O destaque de capa e do texto da revista é Bob Dylan e suas múltiplas facetas, desde seu início de carreira, como astro da folk-music, até sua adesão à guitarra elétrica, que não foi nada pacífica. Assim como aqui no Brasil, quando a ala mais tradicionalista da MPB via a guitarra como uma alienação e símbolo de colonialismo (vide a passeata contra a guitarra, em 67), também nos Estados Unidos os defensores das tradições de música folk despejaram sua ira sobre Bob Dylan, quando o mesmo subiu ao palco do tradicional festival folk de Newport empunhando uma guitarra. A eles parecia uma traição, um rendimento do novo artista mais festejado da vertente musical ao comercialismo do rock. Essa transição foi traumática, porém necessária.
A afirmação ao lado, retirada da revista, fala de um encontro de Dylan com os Beatles, em 65, o ano em que ele assume seu lado rocker. Não sei até que ponto a afirmativa pode ser levada ao pé da letra, mas com certeza aquele encontro pode ter influenciado em sua mudança. Acredito que Muddy Waters, responsável pela eletrificação do blues (outra fonte de inspiração do jovem Dylan), possa ter tido uma influência direta em sua opção pela eletrificação de seu som. Mas que a aproximação com os Beatles pode ter dado o impulso necessário, isso é verdade. Nesse trecho a revista diz:
"Em uma turnê em 65 pela Inglaterra, Dylan encontra-se com os Beatles - que tinham prestado um tributo à sua música com 'You've Got To Hide Your Love Away', no disco 'Help'. Seria uma abertura, começa a experimentar instrumentos elétricos, e no Festival de Newport, no mesmo ano, surge, para total desagrado de seu público, um Dylan eletrificado, de roupas de veludo, cabelo arrepiado e óculos escuros, diferente do anterior, cantor pobre, poeta revolucionário."
O episódio do Festival de Newport de 65, tão marcante em sua biografia, é assim descrito na revista:
"Newport, Rod Island, 25 de julho de 1965. Está acontecendo o Festival Folk. Milhares de jovens esperam um cantor, clamam seu nome, ainda que sabendo que tivesse acabado de lançar um disco. Talvez vários jovens, entre estes, tivessem esperança de que a tão esperada estrela da música folk tivesse mudado de opinião e decidisse voltar à época de seus primeiros êxitos, à época de 'Blowin' In The Wind'. Ou será que todos aqueles jovens gritam para desafogar seus desenganos?
Dylan e Joan Baez, parceira no folk
Porque, quando Bob  Dylan sobe sao palco, com a guitarra elétrica no pescoço, um suspiro de frustração percorre a multidão. Barbara e Sy Ribakove, biógrafos de Dylan, descreveram assim a cena: 'Quando o público fixou seu olhar no instrumento, despertou-se a ira. A guitarra elétrica era o odiado símbolo do rock'n roll. E precisamente nas mãos do homem que para eles tinha sido um Deus, convertendo-se no símbolo da traição'.
O público escutou duas canções em completo silêncio. Mas ao iniciar a terceira, alguns exigem que Dylan troque a guitarra pelo violão ou ainda que vá se apresentar no show popular de Ed Sullivan. Dylan obedece no mesmo instante, deixa de tocar e abandona, tristemente, o palco. Pouco depois, o cantor Peter Yarrow, o leva mais uma vez ao cenário, Dylan adianta-se ao microfone e com os olhos umedecidos, mais seu velho violão, canta sua despedida: 'It's All Over Now, Baby Blue'.
A despedida triste de Dylan assinala uma importante transfiguração na história da folk-music. Porque não se trata somente da troca dos instrumentos musicais, e basicamente tampouco se é folk-rock ou não.  O que Bob Dylan fez,  foi por a folk-music frente a uma nova perspectiva, uma nova função. A partir daquele momento, a folk-music significa tradição e no lugar do antigo conceito surgiu um novo: música."

sexta-feira, 29 de março de 2013

Rita Lee - Entrevista Revista Música - 1977 (Parte 2)

Música - Como é a situação musicalmente?
Rita - Eu sinto uma grande má informação nos próprios grupos. A respeito de Brasil mesmo. Eles estão preocupados em copiar. É lógico que recebo influência, mexo com guitarras, com sintetizador, ouço e me influencio pelas coisas de fora. Mas isso não impede de desenvolver um trabalho aqui, principalmente em termos de letra. E os rockeiros daqui não estão preocupados com letra, uma coisa muito importante no Brasil. Em todos os movimentos de música, o forte era a letra. No Tropicalismo, na Bossa Nova. No rock é o céu, o arco-iris. Eles fazem uma cópia mal feita. Isso pode ser atribuído à falta de informação cultural e ao comodismo. Pegar o que já foi feito lá fora e achar que vai dar certo aqui. Mas o brasileiro já sabe o que quer. Essa meninada canta todas as minhas letras. Muita gente me diz 'eu me sinto a ovelha negra'.
Música - Como reagem gravadoras e empresários?
Rita - Os empresários são uns aproveitadores. Eles sabem que rock dá dinheiro. Eles veem o Peter Frampton estourando e imaginam lançar um cantor semelhante. Querem fabricar uma coisa, o que também não dá certo. Nas gravadoras, a principal fabricação é financeira. Elas querem sugar, vender rápido, querem paradas de sucesso. Não querem investir, dirigir um grupo. Querem tudo pronto. A gravadora não tem muita visão. Na minha época da Phonogram, por exemplo, eu tinha acabado de sair dos Mutantes e era o meu primeiro trabalho com o Tutti-Frutti. Eu pretendia um trabalho de não levar as pessoas a sério, mas propositadamente. Mostrar para as pessoas o porquê de não levar a sério. Mas a Phonogram me deu uma brecada. Elas não tiveram paciência de esperar e optaram pelo João Ricardo. Eu resolvi sair. Resultado: o maior desastre da Phonogram não fui eu, foi o João Ricardo.Ele é o grande exemplo da coisa fabricada.
Música - E hoje?
Rita - A Som Livre não interfere em nada. E eu já tenho muita estrada, sei realmenbte o que quero fazer. A Som Livre tem a estrutura da Globo mas, se você não tem um bom trabalho, não adianta. O público tem ouvido, sabe se o artista é aquilo mesmo. O meu público, quando vai me ver, não quer saber da mensagem filosófica. Eles sentem a minha letra, se identificam, mas querem brincar, se divertir, dançar, ouvir um solo de guitarra e ver a minha roupa.
Música - A imagem é, então, um dado fundamental?
Rita - Eu sempre me preocupei. Desde a época dos Mutantes, da minha roupa de noiva grávida. No palco tudo é exagerado, mas no sentido do público notar, de ser 'appeal'. Pela minha roupa, eu posso dizer o que quiser para as pessoas e elas me entendem. Eu gosto de divertir as pessoas, mas não é só. Depois dos Mutantes, eu comecei a desenvolver mais as letras das músicas. Aquela letra boba, aquelas brincadeiras. Resolvi continuar brincando, mas consequentemente. Através da brincadeira eu vou falando uma porção de coisas. Às vezes a crítica fala que sou meio inconsequente, que não levo nada a sério. É exatamente isso que eu quero.
Música -  Como você vê a evolução do rock no Brasil?
Rita - Quando o pessoal começou a falar em rock, já era um negócio meio nostálgico: Elvis Presley, moto, etc. A proposta, na verdade, é a abertura de tudo. É poder usar todos os estilos de música, não ter limitação de nada. Se quiser fazer um tango, eu posso fazer. Como se quiser um baião ou xaxado, também posso. Rock é tudo. O que vai ocorrer é o desenvolvimento de uma música vinda de um equipamento de som, de um equipamento eletrônico. Mas a grande preocupação é o toque brasileiro dentro do que está sendo feito lá fora. Tanto que o pessoal já está vindo, já está de olho. A gente tem que pegar isso antes deles. A percussão, principalmente. Agora, não sei até que ponto o pessoal de escola de samba deixa o bloco do rock desfilar na rua.
Rita com o recém-nascido Beto Lee
Música - E os grupos brasileiros?
Rita - Os grupos não podem copiar. Tem muita cópia, muita cópia mesmo. Mas certas pessoas fazem um negócio bom. Eu gosto muito do Guilherme Arantes. Gosto muito das Frenéticas. O Joelho de Porco pode parecer engraçado, mas é um negócio que já foi feito lá fora. Gosto também da simplicidade do Made In Brazil. O Terço é um conjunto muito bom. Mas eu escuto e confundo com o Focus, com o Genesis. Se não fosse a letra em português, eu não saberia.
Música -  Você exerce uma considerável influência na faixa de público dos 11 aos 15 anos. Qual sua posição frente a isso?
Rita -  Chegar no palco e ver sete mil pessoas para escutat você não deixa de ser uma responsabilidade. Eu procuro fazer o máximo de qualidade possível. Desde o primeiro trabalho com o Tutti-Frutti, existe um público que me acompanha. E que cresce cada vez mais. Eu quero oferecer a ele o que sou. As coisas que eu vivo, como a prisão e o nenê. A responsabildade que eu tenho é me mostrar, é a verdade que está em mim. Eu só quero que as pessoas me vejam como eu sou. Realmente, o público está de olho em mim com o negócio do nenê. Na música 'Essa Tal de Roque Enrow' eu me colocava como filha. Essa meninada quer me ver agora como mãe. E eu gosto desse clima. Gosto de mostrar isto pra ela.
Música - Se a gravadora espera um grupo já pronto e os próprios grupos não se adaptam à realidade, como romper o círculo?
Rita - Com muito estudo, paciência, ensaio e principalmente saber exatamente o que fazer. Os grupos têm que saber que as gravadoras são todas tapadas. É preciso também muita disciplina. Poucos grupos ensaiam a sério. Não existem empresários, e quando eficientes são desonestos. Os honestos são deficientes. Eu sou uma pessoa que passa o dia todo escrevendo, tocando um instrumento, me aperfeiçoando. Certas pessoas fazem uma música e acham que é um trabalho pronto. É uma ilusão as pessoas pensarem que, de repente, num passe de mágica, vão acontecer. "

Rita Lee - Entrevista Revista Música - 1977 (Parte 1)

Em 1977 a revista Música nº 16 trazia uma matéria de capa com Rita Lee - uma entrevista em que ela fala de sua carreira, o mercado de música, o panorama do rock brasileiro na época, etc. Segue abaixo, a primeira parte da matéria:
"Com a taxativa afirmação 'passarinho na gaiola não esquece de cantar', Rita Lee Jones prepara a sua volta.
No ano passado, dois acontecimentos alteram substancialmente a sua carreira.. Primeiro, a sua prisão após a gravação do elepê 'Entradas e Bandeiras' e, segundo, o desentendimento e consequente separação de Mônica Lisboa, sua empresária há cinco anos. Neste ano, os fatos parecem promissores. O nascimento de Roberto Lee, em março, a gravação de um novo disco com o Tutti-Frutti, acrescido de Roberto Carvalho, dividem com a 'Trampo Produções Artísticas', firma fundada há seis meses, as atenções da cantora.. Mas isso não é tudo, pois ainda este ano haverá a sonhada excursão com Gilberto Gil. No palco estarão as duas bandas, músicas de Rita e do compositor, além de composições novas. Na verdade, um caminho novo, 'uma terceira coisa'. No ano que vem, um circuito incluirá a América Latina, terminando nos Estados Unidos.
No próximo disco, as letras obedecerão à temática habitual da cantora: humor/ realidade/ eu quero matar a vontade/ Enquanto tenho saúde e idade/ Fazer um pouco de tudo/Vender minha alma pra comprar tudo/ Vender a minha alma pra comprar o meu mundo. ('Ambição')
Música - O que é rock no Brasil?
Rita - Até há pouco tempo, eu não queria mais falar em rock. De tanto que se está tentando definir uma coisa que justamente se propõe à não-definição, já que é a abertura total. Mas sempre tem um pessoal tentando definir esse tal de rock'n roll. Essa tentativa fica meio pobre. Os próprios roqueiros tentando se definir já é uma bobagem. Além, ainda, das pessoas que acham rock uma cultura estrangeira invadindo o Brasil. Eu acho que rock é aquele negócio que sai de dentro da gente. É a verdade de cada um.
Música - Quais a dificuldades a se enfrentar?
Rita - Tudo é muito difícil porque o rock, basicamente, depende de instrumentos, de equipamento de som, da tecnologia mais avançada que existe. Algumas pessoas pensam que é moda, outras ainda pensam que está cortando, que é o mercado estrangeiro invadindo o Brasil.
Música - Seria então uma experiência não assimilada pela nossa cultura?
Rita - Realmente, não foi. É uma coisa que eu vejo pela criançada, o público que eu atinjo, dos três aos 15 anos de idade. A meninada canta, entende a minha música. E não tem aquela mensagem filosófica chata. Mas muitas pessoas querem manipular o rock. Qual é a filosofia do rock?
Música - Essa necessidade de rotulação parte de quem?
Rita -  A necessidade parte do próprio brasileiro. Ele é muito preocupado, talvez por complexo, em definir a sua música. A música brasileira sempre passou por movimentos devidamente rotulados. Passou pela Bossa Nova a rotularam., Jovem Guarda, rotularam. Tropicalismo, rotularam. Queriam também rotular o rock, para ser moda e passar. Acontece que não é isso. Gilberto Gil é uma pessoa que sempre mostrou e jogou o que pensava.
Música -  Qual a saída pra isso?
Rita - A criançada não está preocupada. Por isso é que estou dirigindo o meu trabalho para eles. Porque são pessoas que não têm esse tipo de informação. Na época do Gil, quando eu comecei com os Mutantes, nos festivais era proibido tocar guitarra elétrica. Quantas vezes a gente recebeu abaixo-assinado para sair dos festivais de música brasileira. Mas chegaram os baianos e deram novas informações para a gente como 'vamos juntar tudo e partir para outra'. Foi esse o grande toque que eu recebi do Gil. Hoje, você já ouve o Martinho da Vila com uma guitarra, e é Gibson, não é Gianini não.
Música - Além da dificuldade para o equipamento, o que mais um roqueiro enfrenta?
Rita -  Realmente, o equipamento é muito caro. E a carteirinha da Ordem dos Músicos não ajuda nada. Com  a carteirinha, você poderia poder importar, porque é seu instrumento de trabalho. O pessoal que pretende fazer um grupo de rock, por exemplo, em primeiro lugar tem que ter uma equipe. Pessoas com determinadas funções, para que a coisa funcione.
Eu não posso cuidar da grana e pensar em música ao mesmo tempo. Na minha equipe, tenho engenheiros de som, gente que cuida do cenário, dos efeitos especiais, luz, montagem, etc. Quem tenta fazer um grupo de rock, tem que ter um trabalho musical, tem que funcionar em equipe mesmo, para não falhar. E o melhor exemplo talvez seja o festival de rock. Todos os festivais que se tentou fazer no Brasil foram  qualquer coisa. Nunca houve um festival organizado onde cada grupo tivesse seu equipamento de som, seu técnico para cuidar de tudo.
Música - E por que?
Rita - Para começar, o grande erro é da parte de quem organiza o festival. Geralmente, não se tem a menor noção do que é. Os organizadores acham que rock é qualquer coisa. Tem que ser de graça, porque é tirar um som. Eu fiz Saquarema pensando que fosse melhor. E não era. Cheguei e já me pediram o piano emprestado. Eu não gosto de emprestar equipamento de som. Às vezes fico antipatizada por isso. Mas as pessoas não sabem da dificuldade da manutenção de tudo. Quem não tem equipamento de som, não sabe cuidar. E o pessoal que organiza não sabe disso. Não sabe mesmo que cada grupo tem que ter seu equipamento de som. Não adianta convidar um grupo que não tenha engenheiro de som. O negócio de emprestar pode ser bonito, mas não funciona. O grande erro dos festivais foi iludir tanto os grupos quanto o público. Hoje em dia, festival é uma coisa queimada., vista como um centro de drogas. E o público do Brasil também não está acostumado, disciplinado para isso. Em Saquarema, depois que a gente saía do palco, era uma sujeira, todo mundo comia sanduíche e jogava. Isso é rock no Brasil. Sujeira, qualquer coisa, pobreza e drogas."
(Continua)

quinta-feira, 28 de março de 2013

João Nogueira Lança "Espelho" - 1977

Em 1977 João Nogueira lançava o disco Espelho, cuja faixa-título, em parceria com Paulo César Pinheiro, se tornaria um de seus maiores sucessos, e uma das músicas mais emblemáticas de sua carreira. No dia 19 de maio daquele ano, o jornal O Globo trazia uma matéria com João, escrita pelo jornalista Jesus Rocha, em que ele, dentre outras coisas, reclama da desunião que, segundo ele, imperava entre o pessoal do samba. Vem daí o título da matéria: "Só na hora do samba há união de sambistas". Segue abaixo a matéria:
"Quando João Nogueira começou a cantar, o pessoal do meio (do samba) dizia: João atravessa.Atravessar é desrespeitar as leis do andamento, ritmo, etc, provocando - em certos músicos acompanhantes - a ira e o desprezo. Hoje, João canta do mesmo jeito. E o pessoal do meio (do samba) suspira: é uma característica do João.
- A vida é assim, meu irmão (João lembra rindo) - é feito esse negócio de ser doido. Rico é temperamental, excêntrico, sabe como?
João Nogueira, o atravessador, faz questão de continuar atrasando em certos compassos, adiantando em outros, sincopando em certos 'tempos' do ritmo (coisa, que aliás, em outra esfera e tempo, já fez o Bing Crosby e, aqui, o Orlando Silva), e não liga nem para a lembrança das críticas nem para os suspiros dos que reconhecem hoje sua 'característica'. O mais imporante é fazer o que faz e não permitir cansaço nem 'ora, ora' no samba que ele cultiva como compositor e intérprete e também via-verbal: alguns momentos depois dessa entrevista estava viajando para Belo Horizonte a convite de estudantes para um papo de universidade.
- Além do mais, cantar é expressar o que se quer dizer. Pelo menos cantar para o compositor. Para o cantor, é outro papo. No Brasil a maioria dos compositores está gravando assim, dizendo, mostrando, suas músicas. E acabam ganhando a preferência do público até em termos de venda. Com algumas excessões muito boas de cantor-cantor, o caso de Clara Nunes. Quanto a mim, o que faço quando canto é uma espécie de narrativa musical do que tenho a dizer em música e letra - seja a letra que faço ou a que assumo, do parceiro.
Em sua preocupação de fazer e defender o samba, João lamenta um fenômeno desagradável:
- No samba, a união só existe quando se canta, na roda de samba. Depois, é cada um por si, nada de coleguismo: o que existe é concorrência, cada um 'puxando' para si como pode. O que faz lembrar, com saudade, o Tropicalismo por exemplo: que o pessoal se unia não só na hora de aprontar as suas. Havia uma união, e portanto, uma força. Já pensou se isso acontecesse no samba? Vou falar claro: eu me considero fora, 'salvo' disso. Sempre que vejo um valor novo, desconhecido, faço o que posso pra botar ele com a gente.. Levo, apresento. Tem horas que penso: por que essa desunião no samba, uma coisa que está tão dentro? Talvez o seguinte: na Bossa Nova, na Tropicália e outros movimentos, o pessoal lidava com coisas especiais. O samba não. É uma coisa geral. Todo mundo saca no Brasil. É infinito o número de gente que faz samba bem e é desconhecido e nem pensa em se fazer conhecer. O samba é realmente uma coisa de raiz e de pele. Dai talvez - eu penso - esse corre-corre de gente que nem percebe que está às vezes ferindo ou passando em cima dos outros.
'Espelho', quarto Lp de João Nogueira (Odeon). Produção: Paulo Cesar Pinheiro. Arranjos de Geraldo Vespar. Os músicos de primeiro time, inclusive Sivuca numa faixa. Doze faixas. Três que não são músicas de João, mas homenagem a outros compositores a ao mesmo tempo achados inteligentes e oportunos: 'Passado da Portela', de Monarco, um samba de 22 anos de idade; 'Apoteose do Samba', de Zinco (já falecido) e Caxambu, feito a uns 25 anos. E finalmente 'Malandro JB', faixa forte que periga ser o carro-chefe do disco. Tem um breque assim: 'Tinhorão, vem devagar'. 'É uma sátira ao que acontece nas escols de samba', justifica João com rapidez.
As outras nove músicas são de João Nogueira, música e letra, ou em parceria:
'Pimenta no Vatapá' (com Cláudio Jorge), 'Espelho' (com Paulo Cesar Pinheiro) 'Dora das Sete Portas (com Paulo Cesar Pinheiro), 'Desenganos' (com Mauro Duarte), 'Samba do Amor' (com Mauro Duarte e Gisa Nogueira), 'Batucajé' (com Wilson Moreira). Sem parceria: 'Wilson, Geraldo e Noel' (homenagem a Wilson Batista, Geraldo Pereira e Noel Rosa), 'Espere, Ó Nega' (partido alto) e 'Quem Sabe É Deus' "

quarta-feira, 27 de março de 2013

Gimme Shelter - Rolling Stones

A história do rock e os megafestivais e concertos trazem bons e maus momentos. E quando se fala nos momentos negativos, logo vem à mente o famoso concerto dos Rolling Stones em Altamont em 1969, quando um jovem foi morto na plateia, por um grupo de Hell's Angels, que a banda havia contratado como seguranças. Em 1993 foi lançado em vídeo (vhs) o concerto. Na ocasião, o Jornal do Brasil  publicou uma crítica do vídeo, escrita por Pedro Só:
"Imagine-se no mitológico ano de 1969. Junte 300 mil seres humanos jovens e amontoe num terreno sem condições de higiene e segurança em Altamont, Califórnia, Estados Unidos, planeta Terra. Para shows de rock. Olhe para aquela manada de hippies repulsivos, parte chapada e imitando anêmona, parte alucicrazy e detonada, e responda rápido: há alguma chance desse negócio não feder?
Antes que você consiga cantar o segundo refrão de Under My Thumb, um sujeito chamado Alan Passaro, integrante da gang de motoqueiros Hell's Angels, vai piar a resposta. Como? Matando a facadas Meredith Hunter, estudante de 18 anos que, num rompante de idiotia, puxou uma arma na plateia. Pois bem, essa hipotética situação nada tem de hipotética. Ela aconteceu assim mesmo, no dia 6 de dezembro de 1969, conforme documenta o filme Gimme Shelter, relançado agora em vídeo no Brasil. E não foi porque os promotores do festival - gratuito - acreditavam em paz e amor. Afinal, o sonho de Woodstock tinha deixado um saldo de três mortos.
'Gostam de dizer que Altamont foi o fim de uma era. Talvez tenha sido o fim da inocência dos caras que escreveram isso. Na minha opinião, ela já tinha acabado muito antes', interpretou Mick Jagger, dois anos e meio depois. Keith Richard, o homem que, na hora do crime, teve a lucidez de apontar o assassino e gritar para que o detivessem, também minimizou: 'Foi só um show. Um show do qual tivemos que sair batido'. De qualquer maneira, os Rolling Stones ficaram seis anos sem interpretar Sympathy for the Devil, a música que estavam tocando quando começaram as brigas. Como o próprio Jagger salientou em Altamont, sempre acontecia alguma coisa estranha quando eles atacavam aquela composição...
Dirijido por David Mayles, Albert Maysles e Charlotte Zwerin, Gimme Shelter, em seu melhor momento, mostra o freak show da plateia e os Stones no palco (com o então recém-introduzido Mick Taylor na guitarra), tocando coisas como Jumping Jack Flash, Street Fightin Man e Brown Sugar.
Tina Turner aparece arrebentando num show em Nova York com I've Been Loving You Too Long, de Otis Reding. Já Santana e Crosby, Stills, Nash & Young, que estiveram em Altamont, não aparecem. Os ótimos Fliying Burrito Brothers, por sua vez, sequer foram enquadrados decentemente enquanto mandavam Six Days On The Road. E o Jefferson Airplane só entra tocando The Other Side of Life - e tendo o vocalista Marty Balin espancado pelos Hell's Angels porque tentava apartar uma briga. A gang de motoqueiros tinha sido contratada para fazer a segurança por sugestão do Grateful Dead. Típica coisa de doidão. Vá confiar em Jerry Garcia..."
A cotação do vídeo foi três estrelas ( Bom)

terça-feira, 26 de março de 2013

Haroldo de Campos - Isto Não É um Livro de Viagem

Haroldo de Campos (1929-2003) foi um dos pilares da poesia concreta, ao lado de seu irmão Augusto e Décio Pignatari. Em 1992 Haroldo lançou o livro Galáxias, onde veio encartado um cd chamado "Isto Não É Um Livro de Viagem", com fragmentos do livro, lidos pelo próprio autor.
Galáxias é uma obra-prima concretista, sobre o qual falou Haroldo:
"Iniciei as Galáxias em 1963 e as concluí em 1976. Sem contar as publicações episódicas na revista Invenção, nº 4 (1964) e 5 (1966-67); as traduções de alguns dos fragmentos para o alemão (1966), francês (1970), espanhol (1978) e inglês (1976, 1981) e a primeira recolha de uma sequência ampla de textos galáticos em Xadrez de Estrelas (Perspectiva, São Paulo, 1976), só em 1984 pude ver concretizado meu projeto em condições funcionalmente adequadas, graças à editora Ex-Libris, de Frederico Nasser: formato grande, visibilidade de leitura, verso das páginas em branco, fazendo as vezes de silêncio ou pausa intercorrente e perfazendo o total programático de 100 páginas. Audiovídeo texto, videotextogame, as GALÁXIAS se situam na fronteira entre prosa e poesia (...)"
A edição de Galáxias de 1992, pela Editora 34, também é caprichada e digna da obra do autor, e o cd, que tem produção de Arnaldo Antunes, valoriza ainda mais o volume. Sobre o lançamento, na época saiu no jornal O Globo uma matéria, dando destaque ao cd, e trazendo um perfil de Haroldo. Assinada por Miguel de Almeida, a matéria tem por título "A poesia de Haroldo chega ao cd". Segue abaixo, um trecho da resenha:
Haroldo no estúdio, lendo trechos de Galáxias
 "Admirado por Cabrera Infante, Umberto Eco e John Cage; elogiado e tietado por Caetano Veloso, Arrigo Barnabé e Arnaldo Antunes; cúmplice visual de Sacilloto, Volpi e Aguillar. O retrato não é uma distante figura do passado, mas de alguém muito vivo e em atividade permanente nos últimos 40 anos: Haroldo de Campos. Na próxima sexta-feira, dia 3, Haroldo desembarca no Rio, na livraria Marcabru, para o lançamento do cd 'Isto não é um livro de viagem', no qual ele próprio lê 16 fragmentos de seu livro 'Galáxias' (Editora 34). Após os autógrafos haverá um mesa redonda com Gerd Bornheim, Luiz Costa Lima, Nelson Ascher, José Lino Grunewald e, possivelmente, Arnaldo Antunes, dos Titãs.
Quem vê Haroldo de Campos se apaixona pela figura: óculos de grau forte, barba e cabelos grisalhos, meio roliço e encantador na sua conversa recheada de imagens poéticas e observações desconcertantes. Ele mora num sobrado na rua Monte Alegre, vizinho da PUC, no paulistano bairro de Perdizes. Advogado e professor, aposentado no inicio dos 80, ele se dedica com afinco ao seu ofício: ser poeta.
'Tanto museu como música vêm da palavra musa. Eu sou da derivação que deu em música', declarou Haroldo ao receber o título de professor emérito da PUC-SP. Deu em música, teatro, cinema e poesia, além de ensaios literários iluminados e traduções elogiadas - eis um possível 3x4 das suas múltiplas atividades. Ele aceitou também convites para trabalhar com diretores teatrais e escrever roteiros cinematográficos.
Neste exato momento, um dos pais da poesia concreta está criando, junto com Gerald Thomas, um tríptico sobre Fausto. 'Não sei quando ficará pronto, mas já está elaborado e dando muito trabalho.', afirma Haroldo, que troca faxes com o diretor, na Europa.
- Serão três momentos de Fausto. O primeiro é um texto básico meu, escrito há muitos anos; o segundo são as duas cenas finais do 'Fausto' de Goethe, com minha tradução; e o terceiro é um texto novo que estou escrevendo com colaboração do Gerald. A bola está rolando.
E trabalhar com ele está sendo ótimo, porque Gerald tem uma cultura literária muito boa.
Carinhosamente chamado de 'Fax Fausto' (nome provisório), o projeto não tem data para ser encerrado - 'O nome vem porque viajamos muito, e o fax é nosso meio de comunicação'. 
Há ainda o barulho silencioso que 'Gláxias' vem provocando, não apenas no meio literário, mas também na música brasileira. Alguns fragmentos do texto foram musicados por Caetano Veloso, Edvaldo Santana, Péricles Cavalcanti e Livio Tragtemberg. E o próprio Haroldo apareceu no filme 'Os Semões', de julio Bressane, lendo algumas das passagens da epopeia.
De todos esses nomes é Caetano quem  conhece o texto há mais tempo - desde 1969, quando o autor foi a Londres, durante a realização de uma pesquisa, e aproveitou para visitar Caetano e Gil, na época exilados do Brasil pelo regime militar.
- Uma noite, em Londres, o carro de Caetano foi abalroado por outro automóvel. Eu senti uma fissura no osso ilíaco. No dia seguinte percebi que mal podia me mexer na cama. Aí o Caetano e o Gil me levaram para a casa deles. O que era uma situação desagradável passou a ser prazeroso.
A cena da época: meio imobilizado, Haroldo ouve as últimas composições de Caetano e Gil; apresenta a eles o amigo cubano Cabrera Infante, um tarado por música, que reconstroi em um de seus livros, 'Três tristes tigres', uma cena no Cassino da Urca. E também quando Caetano e Gil pedem a Haroldo que leia alguns fragmentos de 'Galáxias', que ele vinha escrevendo desde 1963."

segunda-feira, 25 de março de 2013

Alice Cooper e Seu Circo de Horrores

Em 1974 o glam rock era uma vertente em moda no mundo do rock. Nomes como David Bowie, Marc Bolan, Sweet e New York Dolls dominavam a cena. E um dos nomes mais em voga  desse segmento na época  era Alice Cooper, que fazia um rock pesado, com grande teatralidade em suas apresentações. Naquele ano, Alice viria ao Brasil, onde fez um show que arrastou multidões onde se apresentou. O Brasil, na época não era um grande mercado para grandes shows internacionais de rock, e Alice vivia seu auge, daí a importância daquela vinda do astro ao nosso país. Em março daquele ano, a revista Pop trazia uma matéria com Alice. Segue abaixo:
"Para sua mãe, Ella Furnier, ele é e sempre será Vincent. E não há nada no mundo que a faça chamá-lo de Alice. Mas este estranho nome talvez seja a chave do sucesso do rei do rock bissexual americano, que conseguiu chamar a atenção do mundo inteiro com o exotismo e as loucuras de suas apresentações e atitudes, no palco e fora dele. Líder de um dos mais espetaculares grupos de toda a história da música pop, Alice Cooper vive (mesmo!) intensamente tudo aquilo que para muita gente parece apenas encenação e charme para tornar seus shows mais envenenados e assim levar toda a patota à loucura e à histeria total. Na realidade, Alice é mesmo imprevisível. Tudo o que ele diz e faz é inesperado e, muitas vezes, até incompreensível. Como sua incrível mania de beber cerveja, por exemplo. Cindy, garota de Alice há muitos anos conta que o tempo máximo que ela o viu longe de uma lata de cerveja foi 7 minutos, exatamente o tempo que ele levou para ir ao terminal do aeroporto até o avião, quando foi servido pela aeromoça. Ele bebe, simplesmente, um caixote de cerveja por dia... No fim da tarde come alguma coisa, geralmente um sanduíche, e só vai jantar de madrugada. Mas quando está no palco, Alice fica mais louco ainda. Ele diz que tem um segundo 'eu' que só aparece quando entra em cena e vê o público. Aí, acontece uma metamorfose e surge um monstro selvagem e aterrorizador que produz um espetáculo repulsivo e fascinante ao mesmo tempo. A morte é o tema central de seus shows. 'A morte é o último segredo da vida. Ela me dá medo, mas graças ao meu papel de Alice, sempre consigo vencê-la'.
Apesar de toda a agressividade em cena e nas declarações em público, Alice vai faturando cada vez mais. Ele explica as razões do seu sucesso: 'A gente sacou a hora certa e começou a criticar a América. E as pessoas ficam chocadas. Mas o estranho é que quanto mais cruel é o show, mais contentes as pessoas saem do teatro. Acho que a maioria nem percebe que a sua própria imagem está refletida no palco. É uma imagem exagerada, mas verdadeira. Tem gente que diz que eu sou doente, mas doentes são eles, que pagam tanto dinheiro para me ver'. Os olhos estão semicerrados. Alice vai falando devagar, entre um gole e outro de cerveja. 'Estamos milionários, por isso podemos nos dar ao luxo de cometer qualquer tipo de exagero, sem nenhum grilo. O público aceita tudo, por causa de todo o dinheiro que existe atrás de nós. Afinal, nos tornamos subprodutos dessa honrada sociedade de onde viemos' Mas existe um outro lado de Alice Cooper. Ele é um cara descontraído que gosta de rir e tem um fraco especial por joias indianas. Às vezes, consegue até ser simpático. Por isso, está sempre cercado por um monte de garotas, onde quer que apareça. Elas o rodeiam, pedem autógrafos e fazem o possível para beijá-lo. E muitas vezes provocam tumultos incríveis na porta dos hoteis e dos teatros, obrigando a polícia a entrar em ação para acalmar os ânimos. A mensagem musical de Alice é agressiva. Mas ele é cada vez mais amado.
A cuca de Alice está sempre fervilhando de novas ideias. Sua inspiração vem das coisas que ele observa a todo momento. A canção Unfinished Sweet, por exemplo, nasceu no consultório do seu dentista.
Durante um tratamento, ele gravou o barulho da broca elétrica, e no disco, dá até pra ouvir o dentista dizendo:'Não vai doer.' Mas a sua grande preocupação é com os lances que acontecem no palco. Num recente show no teatro Olympia de Paris, Alice entrou em cena com um copo de cerveja na mão. Com gestos delicados, colocou-o em cima de um banquinho. Aí, pegou o microfone e deu início ao festim diabólico com Elected, fazendo misérias no palco, rebolando sensualmente e ameaçando o público com uma enorme espada. Depois cantou Teenage Lament, enquanto acariciava sua serpente Kachina. No grande final, 'morreu' pendurado numa forca. O som estridente das guitarras não conseguia cobrir os gritos que vinham da plateia: 'Nós te amamos, Alice, nós te amamos.'"

domingo, 24 de março de 2013

Jorge Ben Fala de Alquimia - 1974 (Parte 3)

"Maciel - Agora, quer dizer, você se interessou por esse assunto a vida toda, desde garoto?
Jorge - É, desde garoto eu gostava disso.
M - Mas isso é uma coisa, por exemplo, que ninguém sabia. Quer dizer, você nunca tinha falado, você já tinha utilizado pra música, e você nunca falava muito disso.
J- Desde garoto eu sempre fui muito ligado, sempre gostei, mesmo sem saber antes dos vitrais, eu sempre me amarei em vitrais de igreja, juro. Eu fui quase seminarista, gostava do som da igreja, e gostava daqueles vitrais, achava lindo, entendeu?, olhar aqui no Brasil. Depois nos livros de alquimia eu vim saber que nos vitrais tinha coisas lindas todas, entendeu?...
M - E a decisão de fazer música com o assunto, veio porque você descobriu que a música também era importante na alquimia?
J- A música era importante na alquimia. Porque eu descobri - nos livros conta - que o alquimista tinha o próprio músico dele, que trabalhava junto com ele no laboratório. O músico que era ligado em alquimia, tocava seu alaúde.
M - A música era um elemento daquela transmutação química que estava sendo feita.
J - Isso. E eu achei bacana, e eu tentei fazer a minha música, a minha alquimia musical.
M - Pegou o laboratório do alquimista, onde a música funcionava como, o que um químico chamaria, catalisador; usando os elementos sonoros para movimentar...
J - ... pra movimentar. E ele também, ele também devia ser um alquimista, que ele escreveu as fórmulas, punha no papel sobre música, que tocado - o cara que entendesse de música - sabia da fórmula, então anotava várias fórmulas.
Na alquimia, também, os sopradores, que não eram os alquimistas - também tiveram muito valor, porque tentando fazer a pedra filosofal, eles misturavam tanta coisa, que descobriram ácido, água régia, entendeu?, descobriram mil coisas. Bottger, o que descobriu a porcelana, tentava fazer a pedra, porque ele ganhou um pó de um alquimista que gostou dele, que achou que ele era um boticário. então quando acabou ele não sabia fazer, então ele ficou preso numa torre de um castelo, porque o rei falou - 'Pô, esse cara é alquimista, vai ter que fazer ouro, senão, não sai daqui'. E ele misturou tanta coisa que um dia descobriu a porcelana, entendeu?...
M-  A química se desenvolveu de alquimia mal sucedida
J - A química se desenvolveu muito nesse negócio. Por exemplo, o banho-maria, que todos nós usamos agora, que nossa mãe usa, o banho-maria foi descoberto na alquimia. Veio de uma judia que se chamava Maria, por isso é que é designado o banho de Maria. Ela é que descobriu a maneira de esquentar o recipiente sem usar direto o fogo, ao banho-maria, ao fogo brando, viu... essas transas todas.
Solta o Pavão, de 75, também fala de alquimia em várias músicas
M - E as músicas? Qual foi a primeira que você fez?
J - A primeira que fiz foi 'Os Alquimistas Estão Chegando', depois eu fiz a do Hermes Trimegisto e a música do Paracelso.
M - E a letra do 'Hermes Trimegisto' você pegou a tradução do Fulcanelli.
J - Da tradução do Fulcanelli.
M- E aí você mesmo ajeitou os versos?
J - É, ajeitei os versos. Porque do jeito que tá traduzido é um pouco obscuro. Esse livro que eu tenho é um livro português, já tirado do latim pro português, do jeito que o Fulcanelli traduziu. Então ele é muito... não dá pra entender, ele é muito obscuro. Então eu ajeitei mais ou menos, mas sem perder a continuação do que ele fez, da tradução do Fulcanelli.
M - Na gravação uma das coisas que eu mais gostei é porque a música parece que esclarece mais ainda a tradução, reage com a letra, dá ênfase nas partes importantes, repete certas coisas.
J-  Graças a Deus eu fui muito feliz na música que eu botei, que eu queria fazer uma música... que fosse quase igual a do tempo, entendeu?, da tradução, que pudesse encaixar, e aí consegui...
Quer ver, há um caso interessante do Nicolas Flamel, ele é casado, foi casado. Essa viúva dele, que é uma viúva rica, foi Dame - o nome dela, Terremeli - já era viúva de dois maridos. Então, isso me inspirou aquela música 'O Namorado da Viúva. (canta) 'O namorado da viúva passou por aqui...'
M -  É tanbém música de alquimista.
J-  É, de alquimista, de Nicolas  Flamel. E aquela outra - 'Errare Humanu Est', também tem umas transas com os alquimistas, mas assim mais moderno, aproveitando o negócio dos deuses astronautas, entendeu?, 'Errare Humanun Est'. Eu continuo agora também fazendo música assim.
M - Quer dizer, você continua na linha...
J - É, eu continuo também.
M - Aproveritando temas...
J - ... aproveitando temas também. Eu achei válido e eu fiquei contente aqui, quando eu mostrei o meu trabalho, porque eu gostava, pra mim, eu acho que tava bom. Mas quando eu mostrei o trabalho aqui, mostrei aqui na Phonogram aos produtores, Paulinho Tapajós, mostrei pro Menescal, houve aquela... entendeu?. É um disco assim, meio difícil, entendeu?, tava fugindo do que eu já tinha feito.
Fulcanelli
M- Tava parecendo muito esotérico demais, de repente.
J- De repente, eu fiz um disco assim, porque sempre fiz disco fácil, músicas assim, bem água com açúcar. Aí, eu fiz um disco meio fechado, um disco hermético, e os caras - poxa...
M - É um disco que tem uma unidade todo ele.
J -  Logo a capa também. A capa. Mas aí houve uma reunião e a companhia aceitou, achou que era bacana, que era a hora mesmo de eu fazer um disco assim. Então me senti satisfeito.
M - E deu muito pé, deu muito certo. Vendeu muito bem, inclusive. Criou um interesse.
J - Criou um interesse, quer ver: eu tenho feito shows aí, rapaz, é incrível, todo mundo canta junto. Cantam junto - 'Eles são discretos e silenciosos, moram bem longe dos homens', pô, mas é bacana, rapaz. Cantam juntinho, se ligam. A moçada se liga mesmo. Eu achei muito bacana. Achei uma vitória.
M - E você transou toda essa sozinho?
J - Sozinho. Sozinho mesmo.
M - Você estuda sozinho?
J - Sozinho, mas enfim... se encontrar um cara que goste... Já tive contatos assim, mas só de conversa, nunca tive um cara também que gostasse, pudesse estudar junto, pudesse falar.
M - E tudo então, a ideia do disco...
J - Tudo sozinho. Agora depois do disco ter saído é que eu vi muita gnte que já... Já conhece várias pessoas que gostavam., porque achavam que ninguém ia entender. Agora muita gente já fala comigo sobre isso, já conversam, entendeu?... e acha que deve fazer mais, continuar, que é uma boa. Eu acho que valeu.
M - Eu também acho, tanto é que estou fazendo esta entrevista aqui com você."

sábado, 23 de março de 2013

Jorge Ben Fala de Alquimia - 1974 (Parte 2)


"Maciel- A alquimia tem um sentido mais superficial - exotérico - e um sentido mais profundo, que é esotérico.
Jorge - Isso mesmo.
M - E eesse sentido profundo, no final, é a transmutação do próprio alquimista.
J - ... do próprio alquimista.
Há várias reuniões, uma vez por ano eles se reúnem. Em 1968 na Etiópia, em 69 na Europa, todos anos eles se reúnem, e quando acaba a reunião eles deixam pro pessoal que entende, que conhece, pra sábios ou cinetistas, uma indicação do lugar onde houve uma reunião. Deixam uma transmutação, um metal. É sempre provado que há esta reunião, porque, por exemplo - o metal que eles deixam, é tão puro que só poderia ser feito na base de como pode ser feito um ouro puro.
M - Pelos meios científicos.
J - Pelos meios científicos de agora, atômicos - entendeu/ -  pode ser feito, mas o ouro que eles deixam é um ouro..., além de ser super leve é um ouro bonito, puro, sem nada. Então os próprios cinetistas viam que aquele ouro, ou vinha de outro lugar que aqui na terra não existe...
Eles deixam isso, uma moeda ou um troço cunhado, que aquilo foi feito no da graça tal... foi feita a transmutação de um metal. Os próprios cientistas são ligados na alquimia. É provado que Einstein era um alquimista contemporâneo, famoso na época dele, entendia disso tudo. Os próprios físicos são guiados na alquimia.
Porque a alquimia teve um problema na época da Inquisição. Mandaram queimar o pessoal. Haviam muitos charlatões e os sopradores na época se aproveitavam, então a alquimia teve uma época em que caiu em desgraça. O papa Silvestre III era um alquimista, mas foi provado que ele era um alquimista depois que ele morreu. Encontrou vários ouros, entendeu?, enormes riquezas, ficou comprovado que só um alquimista poderia fazer tanto ouro assim. Ele, para a alquimia não cair em desgraça, citou uma bula, a maldição à alquimia. Mas fez isso pra alquimia não cair em desgraça, porque havia muitos sopredores charlatôes, enganadores que chegavam, faziam uma transmutação, mas era falsa.
M - A alquimia já havia virado bagunça.
J - É... já havia virado. Então ele fez isso...mas só pros caras assim, pros charlatões pararem com isso, sopradores... Que tinha o alquimista e o arquimista. O alquimista é o que sabia de tudo da pedra filosofal mesmo, era o aberto. O arquimista é o que trabalhava no laboratório, ele sabia fazer a transmutação, mas não sabia como fazer a pedra, o pó pra chegar à transmutação. Se desse pra ele o pó, ele sabia fazer, ele sabia fazer o ouro, mas se não desse ele não sabia como fazer.
M - Agora, quando você diz na música 'Os alquimistas estão chegando', isto é uma situação imaginária, você simplesmente imaginou um lugar onde os alquimistas estivessem chegando, ou você, de alguma maneira, sentiu que a arte da alquimia está renascendo hoje?
J - Não, as duas coisas eu senti. Na primeira, por eu ter sentido que os alquimistas estão chegando, mesmo, então, eu no meu sonho senti também, e fiz a música sabendo que os alquimistas estão em algum lugar, estão chegando...
Eu estive agora, embora eu estive pouco tempo, eu procurei saber muito sobre Santo Alberto, o Grande; e São Tomaz de Aquino, que eram alquimistas na época. E também com Nicolas Flamel - eu estive na casa dele, onde ele morou, é na Rua de Mont Morrancy, em Paris, no Boulevard de Mont Morrancy. Eu estive lá na casa, a taverna, tá lá escrito tudo. Tem essas figuras do Abrahão, as figuras lá na casa onde foi feito, onde ele morou. Perguntei lá...
 Porque o Conde de Saint German, ele está vivo até hoje, que ele  aparece nessas reuniões também. Ele está em outro estágio, ele é superior, ele vive, pode se dizer, em outra dimensão.
Porque eu acho que ele existe. Fulcanelli é alquimista contemporâneo, ele vive até hoje. Ele foi procurado na... procurado não, se ele aparecesse ele ia ser preso - na Segunda Guerra Mundial ele foi por várias potências, pela CIA, pela potência russa, alemã. Tinha dito que haveria uma bomba que seria a destruição do mundo, e ele tinha a fórmula desta bomba, ele falou pra não desencadear os átomos, que isso ia ser uma catástrofe. Então eles viram, e quando Von Braun fez aquele foguete, quando os americanos lançaram depois de 54. Aquilo tudo o Fulcanelli já sabia., e aí o Fulcanelli sumiu na época, sumiu, desapareceu. Ele aparece em contato com com o Monsieur Consalier, que é o editor dele em Paris, que vendo os livros dele, mas ninguém sabe direito. Ele aparece, também, nessas reuniões.
M- É isso. Naquele livro, 'O Despertar dos Magos' se refere ao Fulcanelli, e de aparições dele em Paris, sempre misteriosamente, ele aparece, transa, e depois  ninguém sabe mais onde é que está.
J- Isso mesmo."
(Continua)

sexta-feira, 22 de março de 2013

Jorge Ben Fala de Alquimia - 1974 (parte 1)

Em 1974 Jorge Ben lançaria um de seus melhores e ousados discos: A Tábua de Esmeraldas. Jorge Ben na época estava envolvido com a leitura sobre a prática da alquimia e seus principais estudiosos. Por se tratar de uma temática um tanto hermética, o músico encontrou resistências por parte de sua gravadora, mas no fim, o diretor da Phonogram, André Midani deu-lhe carta branca, e ele pôde enfim lançar seu álbum.
Naquele mesmo ano, o Jornal de Música trouxe uma longa entrevista com Jorge, feita pelo jornalista Luiz Carlos Maciel. Considero essa a melhor e mais esclarecedora entrevista concedida sobre o histórico álbum. Por se tratar de uma entrevista longa, vou dividir em três partes. Segue abaixo:
"Esta entrevista foi um dos trabalhos mais fáceis que já fiz em toda a minha vida. Encontrei Jorge Ben por acaso nos corredores da Phonogram e falei que queria entrevistá-lo. Muito gentil e até amistoso, ele respondeu que podíamos marcar dia, hora e local. Sugeri então, que fizéssemos ali mesmo, naquele momento mesmo, pois senti que devia aproveitar a oportunidade que o destino concedera., fazendo com que nossos caminhos se cruzassem de repente de modo tão informal e descontraído. Ele hesitou. Mas quando expliquei que eu pensava numa entrevista só sobre Alquimia, ou sobre a sua relação com a Alquimia revelada no LP Tábua de Esmeralda, ele concordou logo. Daí em diante, só tive mesmo o trabalho de ligar o gravador e ficar escutando.Jorge fala com entusiasmo sobre o assunto e tenho a certeza de que flaria ainda horas seguidas sobre ele, se tivéssemos tido mais tempo e mais fitas para gravar. Como ele diz, a Alquimia é o seu hobby - e ele a vê com o mesmo olho simples e o mesmo sentimento espontâneo que estão na fonte pura de sua música.
Maciel - Bom, Jorge, o negócio é o seguinte: é você falar do disco da 'Tábua de Esmeralda'. Como é que foi a transação da alquimia? Como é que você entrou nesse barato, conheceu, e teve a ideia do disco?
Jorge - É sempre um prazer falar do disco 'Tábua de Esmeralda', que eu sempre fui ligado nessa transação de alquimia, porque desde garoto, embora eu não entendesse muito, eu lia alguns livros que tinha la em casa, que eram do meu avô. Meu avô era Rosa-Cruz e eu sempre gostei da maneira dos filósofos herméticos, entendeu, dos Rosa-Cruz, da maneira deles, a perseverança deles no trabalho. Assim como Paracelso, Fulcanelli - que é um alquimista contermporâneo que vive hoje por aí, acho até que ele está vivendo na América do Sul, e eu acho um trabalho bacana que me incentivou a fazer música; onde eu usei um texto um pouco obscuro.
Este texto, 'A Tábua de Esmeralda', foi escrito pelo faraó Hermes Trismegisto, isso dois mil, três mil antes de Cristo, ele foiu achado nas pirâmides de Guizé pelos soldados de Alexandre, o Grande, quando marchavam pela Macedônia, e daí, esse texto foi sendo traduzido. Do árabe passou para o grego, do grego pro latim. Há várias traduções, mas a melhor tradução, menos obscura, é a do Fulcanelli, aonde eu me encontei e consegui fazer a música pro Hermes Trimegisto, que foi o iniciador da alquimia. Alquimia Universal, como ele diz. Ele recebeu estudos de Oros. Oros é o filho de Isis e de Osires, e Oros foi professor de Hermes Trimegisto também, que levou a alquimia do Egito para a Europa. Levou diretamente pra meta, quando ele levou a meta da alquimia pra Espanha e depois espalhou por Paris,e de Paris tomou a Europa toda. Sempre fui ligado nesta arte, e eu vi que nesta arte também existe música. Quis fazer uma alquimia musical também. Há vários textos onde a fórmula era em música. E hoje, você encontra em algumas livrarias no Quartier Latin, se você chegar lá e pedir, naquelas livrarias bem velhinhas que você não dá nada, o cara te mostra. Você chega lá e pergunta - 'olha, eu queria um livro que falasse sobre alquimia, mas que tenha música, texto musical' - então o cara tira lá do baú. Tem quilos Ali as fórmulas eram escritas em música, ou senão de outro tipo: eles comunicavam sobre vitrais de igrejas.
M - Fulcanelli tem um trabalho sobre vitrais de igreja.
J - Maravilhoso! Fulcanelli tem um trabalho sobre isso.
M - 'O Mistério das Catedrais'
J - É 'O Mistério das Catedrais o livro dele, é maravilhoso! Eu não tinha esse livro, eu consegui comprar agora na minha viagem que eu fiz a  Paris. Eu fui na livraria, me equipei de vários livros lá que eu precisava.
M - E esses em que são usadas fórmulas musicais? Esses eu não conhecia não.
J - Eu já gostava de alquimia , pela forma dos vitrais Achava bacana a comunicação deles por vitrais, por exemplo, eu vi agora , não no Louvre, mas na Notre Dame... No livro que eu tenho do Nicolas Flamel existe a torre que ela fala em na Note Dame. São todas as fórmulas ali escritas que só eles entre si entendiam. Por exemplo, ele dizia pra um alquimista amigo e contemporâneo - 'Olha, então igreja tal, vitral número tal, figura tal, está uma fórmula, - Então um alquimista, que fosse alquimista mesmo, sabia, chegava lá, e sabia aonde estava. Então ele passava para o papel e dali sairia uma fórmula para obter uma química; como Paracelso na base do remédio, da homeopatia; ou como um alquimista que estivesse interessado em descobrir...
M - ...a pedra filosofal...
J - É a pedra filosofal, pra fazer ouro, entendeu?
Nicolas Flamel, que foi um dos alquimistas da época, ele era livreiro, e do livro ele passou a ser escrivão, e daí ele descobriu... num livro escrito por Abrahão, um judeu, as figuras, aquelas que tem uns dragões. E Fulcanelli cita, ele conseguiu aquele livro. Não é um misticismo, bem dizer, mas é um troço... é muito profundo Ele conta que teve um sonho que o anjo apareceu pra ele  - 'você vai encontrar um livro que você vai passar vários anos, que você não vai entender nada, mas com sua perseverança um dia você vai descobrir'. Ele um dia encontrou esse livro lá, comprou sem querer esse livro do Abrahão, o Judeu. E tem essas figuras todas, e por essas figuras ele estudou. Depois de vinte tantos anos perdidos, que ele falou. Não perdidos... de lutas, perdidas de dinheiro, tempo, ele conseguiu achar a pedra filosofal. E nisso tudo eu gosto muito de alquimia, eu lei muito e eu fiz a música em homenagem aos alquimistas - 'Os alquimistas estão chegando'. Cito na música o que eles sempre fizeram, que eles sempre foram discretos e silenciosos, os alquimistas mesmo.. Um alquimista alemão, Bottger, sem querer também, tentando fazer uma mistura pra pedra filosofal, descobriu a porcelana.. Então os sopradores que trabalhavam com alquimistas iam embora já sabendo que sabiam fazer aquilo. Então quando se via -ele conta nos livros -  um cara falando muito, mostrando pros outros, ou o cara era charlatão, ou um alquimista mesmo querendo mostrar pro pesoal que alquimia existia, que alquimia era verdadeira. Disso tudo foram nascendo os estudos sobre a alquimia musical. Sobre a alquimia de Paracelso que eu citei, 'O Homem da Gravata Florida'.
Parece para mim que eu conheço Paracelso., entendeu?, do jeito que eu li sobre ele, parece que eu conheço ele. Que era um cara maravilhoso, um doutor excepcional, conhecia a química, a pedra filosofal. Ele curava qualquer um. Ele achava que se o cara tivesse a perigo, perigo mesmo, mas se ainda tivesse uma metade um pulmão, se tomasse aquele aquele remédio dele, recuperava todas as células, o cara ficava bom e continuava a viver vários anos."
(Continua)

quinta-feira, 21 de março de 2013

Anos 60 - Lisergia e Psicodelismo

A revista AZ nº 123, de março de 1990 trazia uma edição especial sobre o movimento hippie, a lisergia e o psicodelismo dos anos 60. Em uma das matérias, intitulada "Só Doidão", havia um bom texto sobre o assunto, assinada por Mauro Borges:
"Flower Power. São Francisco, 1966, a bordo do Jefferson Airplaine. Começa a viagem.
Ao contrário do que se possa imaginar, muito antes de invadir os gramados de Altamont e Woodstock e ser símbolo da loucura hippie, o LSD frequentou e animou muitas parties and caves dos 60. As boates do psicodelismo ou psychodelic nightclub eram os pontos de encontro de mocinhos com cabelos tijela, batas indianas com calças jeans e garotas com ar de permissividade enrustida, saias curtíssimas e cílios longuíssimos. Mesmo nos clubs, a música pop queria ser adulta, e não mais teenager, como havia sido até então. Nada mais de Yé, Yé, Yé ou Stop In The Name of Love. Agora é a vez das acid bands. Grateful Dead, Steve Miller Band, Doors, Pink Floyd, Yardbirds, Beatles e Rolling Stones revisitados.
A coisa toda era sacudir os cabelos sem se importar com uma coreografia. Ninguém dançava igual a ninguém; afinal, todos criavam suas próprias viagens e eram adultos o suficiente para decidir como queriam dançar. O que não era de todo verdade. Basta rever um dos famosos capítulos de Maxwell Smart - o Agente 86 - em que as Vacas Sagradas, um lisergíssimo grupo pop, pretende hipnotizar - através de um programa de televisão - todos os jovens da América para concluir que a coreografia era a mesma para todos. Podemos dar um desconto apenas à pretensão.
Com todas estas mudanças na alma dos frequentadores, os night clubs também tiveram de se modificar. E a principal coisa a mudar foi a iluminação. Com uma música mais pesada, agressiva e, ainda por cima, elaborada, os proprietários se viram obrigados a investir na trip de todos e encherem suas cavernas de luzes estreboscópicas, luzes bolhas (aquelas dos desenhos do Homem Aranha), luz negra e sequenciadores. Além de um arsenal de projetores de slides e filmes. Tudo com o objetivo de dar mais vazão à loucura dos dançarinos e criar um perfeito ambiente psicodélico. Dessa maneira, os clubs perderam o ar elitista ou teeneger e assumiram uma terceira vertente. Oficialmente nascia o dance underground. O legado é muito mais forte do que se possa imaginar. Forma base para as discotecas dos anos 70 e as megadisco de agora, onde a iluminação assumiu proporções de ficção científica mas não impulsiona à dança. Talvez seja realmente a falta de um aditivo extra. Quem sabe boa música. Mas apesar de toda a parafernália, a primeira metade dos anos 70 foi dos festivais ao ar livre. Deitar na grama e sonhar. Os clubs foram deixados de lado e lisérgica passou a ser a natureza.
A palavra lisérgico ficou relegada aos anos 60. Até um belo dia em 1988, quando jovens ingleses resolveram deixar a house music um pouco mais histórica e repetitiva. Adotaram o velho smile em suas camisetas, bottons, calças, bonés, enfim, em todos os cantos e criaram a Acid House. Naquele ano, a Inglaterra viveu o segundo verão do amor e os clubs foram  palcos dessa reedição. A droga foi o XTC ou Ecstasy, a droga do amor. Consumida como pipoca no circuito Ibiza, Rimini (Itália) e Londres, o XTC conforme seus usuários, é a herdeira do LSD.
Ela deixa seus consumidores dóceis e felizes, com um espírito fraternalista e a libido a mil. Por isso a música soa inexplicável (ou insuportável) aos ouvidos de quem não consome a droga. As noitadas acids em Milão eram verdadeiros laboratórios Reichnianos. Margareth Tatcher também no final de 88 fez questão de acabar com a farra e reprimir judicialmente, fechando algumas casas clubs.
Mas Londres não desiste. E os endiabrados londrinos sempre querem mais. Para fugir do horário-limite para o fechamento das discotecas, que na capital inglesa ocorre às 3 da manhã, eles criaram as Raves. Estas festas acontecem fora da cidade, em fazendas ou lugares abandonados, movidas a XTC e house new age (a batida house com teclados intermináveis, na linha viagem, mesmo). É o que parecia ser uma nova fase na cultura pop já está sendo desmantelado. A Dama de Ferro ataca outra vez com todo seu aparato policial, bloqueando estradas e acabando com estas raves durante a noite. Um dos promotores destas festas foi condenado a 10 anos de prisão por incentivar o consumo de drogas. O fato é sério e já ocupou as capas dos principais jornais e revistas europeus, incluindo um dos últimos números da The Face. Com certeza a palavra lisérgico  não se adapta à mão pesada da primeira-ministra. Talvez ela sinta falta do não-lisérgico dos punks e, quem sabe, até promova mais este revival..."

quarta-feira, 20 de março de 2013

A Explicação do Mundo Segundo Jorge Mautner

O pensamento existe como uma energia que invade e comanda todas as coisas. Ele invade o átomo e mora dentro dele e em todas as suas partículas e também fora do átomo, que também é cheio de átomos. Todos nós caminhamos num mesmo barco velejando em direção ao abismo que é feito de sol. Nós andamos em direção ao Sol. Depois da morte, nós nos transformamos em partículas de Sol e de outros sóis que há pelo universo.
A grande roda que é o fim do infinito está sempre cheia de acontecimentos e prenhe de novidades. Nós sentimos estas realidades como profundas batidas no coração, como suspiros alongados e visões de serenidade profunda.
A escuridão nunca existe. O universo e os ínfimos recantos do espaço são sempre iluminados por alguma luz branca, azul, amarela ou cores nunca vistas. Mas a escuridão não existe.
Nós contemos a luz que ilumina e em cuja velocidade a eternidade existe. Nós somos fruto desta luz e algumas vezes nós a irradiamos em plenitude nos raros momentos em que entramos em contato com a respiração cósmica, que é diferente em cada momento.
As pedras não pensam, mas eu acho que pensam. Elas têm em si o grande germe do pensamento, porque tudo é pensamento no universo conhecido e desconhecido. As pedras pensam, os átomos pensam, a água pensa, o fogo do cosmos pensa, e até o homem pensa.
As coisas rolam num movimento incessante e todas as coisas rolam numa direção e, às vezes, isto acontece ao mesmo tempo em que estão rodando numa direção. Há muitos ritmos no universo, as coisas rumam em várias direções ao mesmo tempo e não se rasgam. Depois há um ponto no universo em que tudo começa a voltar e onde o tempo gira sobre si mesmo. Mais veloz que o raio da luz corre aquela energia que nos deu a vida e o pensamento. E nesta velocidade maior o tempo volta para trás revendo todas as coisas que foram mas sempre com novidade. As grandes esferas se amam mutuamente com um amor de fogo e água.
Não há verdade alguma no cosmos, só um ritmo de paixão. Os deuses usam coroas de louros e são lindos e sussurram mistérios enquanto dançam requebrando ao som de tambores tocados por adolescentes nus.
Os mortos não estão mortos quando mergulham na velocidade que corre para trás e que é maior do que a luz. As sombras que são os mortos começam a adquirir cores não visíveis e viajam para trás. Algumas sombras escolhem voltar, ou para eras mais antigas ou mais novas, e elas se confundem porque não há delineação precisa de mais nada. Tudo é como se fosse uma enorme onda de oceano quente que se repete muitas vezes. Há os leões que rugem e estranhas arenas de luta e sacrifícios. Há sangue.
O sangue e a luz estão misturados. A carne é feita de luz e os ossos são luminosos, enquanto a alma é feita daquela energia que é maior do que a luz e que vai para trás.
Tudo é mantido por uma grande mão que é o tempo, ela segura os astros e as coisas e a carne e os fogos e as águas. Há muitos fogos assim como há muitas águas, mas há só uma energia que vai para trás. Todos nós somos filhos da mesma coisa e somos a mesma coisa.
Jorge Mautner

terça-feira, 19 de março de 2013

Os Cafajestes - Clássico do Cinema Novo

Em 1962 o cinema brasileiro passava por uma revolução estética promovida por jovens cineastas - o Cinema Novo, e naquele ano foi lançado um dos mais controvertidos filmes nacionais do novo movimento: Os Cafajestes, filme de estreia de Ruy Guerra, um moçambicano envolvido com cinema, e que depois de deixar seu país, e ir para a Europa, passando por Portugal, e depois para Paris, onde estudou cinema, veio parar no Brasil.
O filme causou um grande impacto na época, pela audácia do tema - a devassidão e falta da caráter de dois malandros cariocas, daí o título do longa. Tendo como protagonistas Jece Valadão e Daniel Filho, Os Cafajestes ainda trazia no elenco Norma Bengell, Lucy Carvalho, Hugo Carvana e Glauce Rocha em participação especial, dentre outros.
Jece Valadão e Norma Bengell
O mundo dos vícios, da exploração sexual e da falta de caráter domina o filme. Dois cafajestes, um pobre (Jandir, vivido por Jece Valadão), e um rico (Vavá, interpretado por Daniel Filho), convencem duas mulheres, interpretadas por Norma Bengell e Lucy de Carvalho, a tirarem fotos em uma praia deserta com a intenção de chantageá-las mais tarde.
Vavá, o cafajeste rico e playboy de Copacabana é quem arquiteta o plano, pois vivia preocupado com a situação financeira de seu pai, um rico banqueiro que corria o risco de ir à falência. Com a possibilidade de perder a mesada para seus excessos, e um dia ter que trabalhar para se sustentar. Vavá recorre ao amigo Jandir para executar seu plano, e afirma que o objetivo da chantagem seria evitar a ruína do pai, mas na verdade, o que ele pensa é em sua própria sobrevivência. A vítima da chantagem seria o tio rico de Vavá, que é o maior depositante do banco de seu pai, e amante da personagem Leda, interpretada pela jovem e exuberante Norma Bengell. Os dois planejam forçar Leda a tirar fotos completamente nua na praia, para aplicar a chantagem em seu rico amante, porém a personagem frustra os dois ao não se importar em ser fotografada naquelas condições, demontrando não temer ser vítima da chantagem dos dois cafajestes, pois segundo ela seu velho amante não se importaria , pois não a queria mais. Porém, a jovem propõe que o plano dos playboys tenha prosseguimento, dessa vez tendo como vítima a filha do seu ex-amante, por ela ser responsável pelo afastamento dos dois. Essa é a trama do filme, que se notabilizou por mostrar o primeiro nu frontal do cinema nacional, protagonizado por Norma Bengell, numa cena de quatro minutos.
Jece Valadão e Glauce Rocha, em participação especial
As cenas ousadas, logicamente causaram escândalo. No meio da semana de estreia o filme passou a ser exibido com cortes, por ordem de seu produtor. O próprio Jece Valadão, que atuou na produção também como produtor executivo, cortou algumas cenas, sem autorização do diretor Ruy Guerra. O governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto proibiu a exibição do filme em todos os cinemas do estado. As autoridades alfandegárias dos Estados Unidos negaram o ingresso de Os Cafajestes em função da situação em que o filme se encontrava no Brasil: proibido em vários estados, tratado como mercadoria pornográfica pelas autoridades.
O filme, porém, era reconhecido como uma obra de valor artístico, e inovador. Glauber Rocha, por exemplo afirmou; "Os Cafajestes possuía certa transcendência: densidade existencial, clima de determinado universo fechado numa mise-en-scène agressivamente pessoal, apesar de todas as influências facilmente identificáveis, principalmente de Resnais e Antonioni... é histórico: a formalização... não resistindo à evolução do cineasta em busca da unificação cultural logicamente estilística. Insolente, corajoso, anárquico e talvez moralizante. Um cinema bossa nova."
Hoje, mais de 50 anos depois, Os Cafajestes é visto como uma obra clássica, contestadora, ousada e transgressora. Um dos grandes representantes do movimento do Cinema Novo.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Beat Generation - Revista Boom (1996)

Em 1996 a revista alternativa Boom nº 8 trazia uma boa matéria sobre a Beat Generation. Esse é o único número que possuo dessa revista, e devo tê-la comprado no Rio, pois naquela época eu morava lá. A matéria é interessante, e traz vários textos, de diferentes autores, sobre o assunto. No índice da revista, um texto introdutório diz:
"Uma estrada, um Cadillac, pacotinhos de sopa de ervilha e café. Vinte dias, uma máquina de escrever e mais de cem mil palavras datilografadas. Esses são alguns ingredientes que geraram a bíblia da beat generation, o livro 'On the Road', escrito por Jack Kerouac em 51."
Na ocasião On the Road estava nos planos de ser adaptada para o cinema, tendo Francis Ford Copolla como o diretor. Porém, Copolla desistiu do projeto, e o filme só seria adaptado muitos anos depois, a convite, pelo brasileiro Walter Salles. Abaixo transcrevo alguns trechos da matéria:
"Era um fim de tarde outonal do ano de 1945. O céu violeta filtrava a luz de um sol minguante - raios púrpuros envolviam a Times Square, NY - deixando as fachadas dos edifícios imersas numa áurea de sonho. Próximos dali, dois jovens poetas fumavam um baseado enquanto trocavam impressões sobre a natureza do Universo.
Allen Ginsberg
'Tenho a nítida impressão de que a matéria do Universo é real e ao mesmo tempo irreal', refletia o jovem poeta Allen Ginsberg, 'mas a questão é sabermos qual a natureza da inteligência que construiu esta vastidão tão velha e infinita como o Primeiro Dia...'
A conversa matafísica prosseguia à medida em que o sol ia se pondo.
'O que me intriga, disse o outro, de nome Jack Kerouac - é a grandeza do Universo, a vastidão do espaço que nos envolve.'
E a conversa entre os dois poetas prosseguiu durante noites, dias, semanas, meses e décadas a fio, estendendo-se a outros poetas e escritores igualmente interessados na natureza da consciência humana. É deste concílio que se formou, nasceu o que os dois, naquele fim de tarde, denominaram 'Nova Consciência' ou 'Nova Visão'. E que a mídia, alguns anos depois, batizou de Beat Generation, movimento definido por Allen Ginsberg como 'um pequeno grupo de amigos vivendo excitadamente numa idade compativelmente tolerável, interessados na textura da consciência e em como tranportá-la para o papel'.
Jack Kerouac
O termo beat foi criado por Jack Kerouac em 48 e levado ao público quatro anos mais tarde pelo jornalista John C. Holmes do New York Times, no artigo 'This is the beat generation'. A palavra beat traduzida para o português quer dizer 'derrubado'. O nik foi emprestado do satélite Sputnik, que acabava de ser atirado no espaço pela extinta União Soviética, e anexado só em 58.
O termo beatnik 'cheio', nasceu a partir de uma reportagem de comportamento do jornal San Francisco Chronicle que apontava na direção da legião de jovens que migravam para as praias do norte da Califórnia.
Os caras mais expressivos dessa turma foram William Burroughs, Allen Ginsberg, Gregory Corso, Robert Frank, Lawrence Ferlighetti, Neal Cassady, Gary Snyder, Michael Mclure, além do pai de todos, Mr. Jack Kerouac.
Willian Burroughs
No Brasil quem incorporou a literatura beat de maneira mais direta foi o poeta Roberto Piva. Segundo Cláudio Wiler, o pioneiro tradutor - Uivo de Allen Ginsberg - o contato com Ginsberg e Kerouac, no início dos anos 60 provocou uma explosão na poesia de Piva, que escreveu na época um longo poema chamado Ode a Fernando Pessoa.
O clima com os simpatizantes brasileiros da Beat Generation não era dos mais amistosos. 'Viramos um assunto no qual literalmente não se falava, lembra Cláudio Willer, éramos marginalizados pela esquerda, pelos conservadores e pelos poetas formalistas. Piva e eu escrevemos vários manifestos de provocação dirigidos a estas correntes que nos marginalizavam. Era um assunto polêmico.'
O fato é que somente em 1983 chegaria ao público brasileiro a primeira tradução de uma obra beat, On the Road, de Jack Kerouac. Logo a seguir vieram Subterrâneos, de Kerouac, Parque de Diversões da Mente, de Ferlinghetti e Uivo de Allen Ginsberg. Questões de âmbito editorial explicam, em parte, a escassez de obras de escritores beats nas livrarias brasileiras. A dificuldade de traduzir os textos - também contribuiu para explicar essa escassez."

domingo, 17 de março de 2013

Entrevista de Chico Buarque ao Jornal HITPOP - 1976 (parte 3)

"Identificado com as raízes genuinamente brasileiras da música popular, não é por isso que Chico deixa de se manifestar a respeito da chamada latinidad, tão em voga:
- Há um apelo dos músicos latino-americanos por uma união com os músicos brasileiros. Nossos problemas são comuns, mas o brasileiro alega o problema da língua, para se isolar dos movimentos culturais do continente. Acho que há necessidade de maior entrosamento, de uma aproximação maior. Cantar um bolero não representa nada. O problema da contribuição está na forma, e tenho certeza que eles tem muito a ensinar à gente. Isso não quer dizer que vamos sair por aí de mãos dadas. Vamos é fazer uma música mais ligada à terra e, aí, aproximar os problemas comuns. Seria um intercâmbio de ideias, pois, formalmente, nós temos mais coisas a dar que receber, e como conteúdo, eles têm muito mais a oferecer. De nada adianta importar um músico argentino ou exportar um ritmista brasileiro. O negócio deve ficar na troca de ideias. Isso o Milton Nascimento está fazendo, e muito bem. Agora, por exemplo, ele gravou com Mercedes Sosa e o grupo chileno Agua. E no seu  próprio disco. Esse é o caminho, a comunhão. Acho bonito, útil e muito necessário. Milton é um cara de sorte, pois quando está gravando, surgem Mercedes e o grupo chileno. A gravações do Milton são verdadeiras festas. Quando coloquei voz com ele na versão de 'Dona Flor...' havia mais de 30 pessoas dentro do estúdio, num clima marvilhoso. Eu nunca vi coisa igual. No meu caso, infelizmente, tenho mais recebido que dado. Há, por exemplo, o uruguaio Daniel Villete, um grande amigo, que gravou um LP com músicas minhas e do Edu Lobo. Eu gostaria de muito de fazer um trabalho com ele, mas soube que está morando em Paris. Daniel é um ótimo compositor, um homem sério. Essa comunhão é da maior importância.
Chico com Francis Hime e Milton Nascimento
E por falar em forma, Chico chega ao ponto crítico. Isto é, num dos poucos assuntos que gostaria de deixar em branco, talvez porque canalizem discussões intermináveis e até desimportantes. Ele diz:
- Essa música Corrente, de fato, é um trabalho muito elaborado, mas tenho um pouco de aversão a teorizar sobre isso. O trabalho é elaborado no sentido de buscar a simplicidade da forma. É como um serviço de culinária, para limpar tudo e não deixar transparecer a elaboração, entende?
E Chico não mais falou, a não ser para comentar sobre seu dia a dia - neste início de de ano, e sobre futebol. Sobre o dia a dia:
- Parei um pouco com aquele ritmo pesado pra poder continuar o que estou fazendo. Acabei de fazer as versões de Os Saltimbancos, dos irmãos Grimm. Gravamos um LP infantil: Miucha, minhas filhas, Bebel, Helena, Nara, MPB-4 e outras meninas no coro. Talvez, desse disco, saia uma peça infantil.. Acabei de escrever, com Paulo Pontes, uma comédia pesada: 'O Dia em que Frank Sinatra Veio ao Brasil'. Dessa maneira não tenho tempo para para shows. Mas não penso, nem de brincadeira, em parar com meu trabalho artístico não...
Sobre o futebol:
- Você me pergunta o que me atrai no futebol, se é o jogo em si ou a torcida. Eu diria que, no jogo, gosto de gol, do passe perfeito, da catimba. Na torcida, vejo a maior manifestação de liberdade coletiva que a gente tem."

sábado, 16 de março de 2013

Entrevista de Chico Buarque ao Jornal HITPOP - 1976 (parte 2)

"Pelo que fala e pelo que briga, Chico pode até dar a impressão de ser um artista amargo, pessimista. Trata-se, porém, do contrário. Fiel às exigências de seu tempo, Chico considera que lutar pela sua arte é o mínimo que pode fazer, para poder sobreviver como homem. Em outras palavras, suas canções não teriam o menor sentido se ele não brigasse pelo direito de cantá-las.. Essa atitude implica tomadas de posição que não se esgotam apenas no terreno musical. É por isso que, coerente e otimista (que o pessimista não sai de sua passividade), Chico se recusa ao acomodamento. Nesta altura, ele resolve fazer um retrospecto de sua participação na nossa vida artística:
- Eu me orgulho, e muito, de fazer parte de um processo cultural, não só dentro da música, como também dentro do teatro e do cinema.  Acho que tenho muito o que dizer, e disso não abro mão. No entanto, toda a liderança e individualidade são muito nocivas ao bom resultado desse trabalho. E sempre recusei qualquer liderança, ou possibilidade de liderança. O trabalho do artista brasileiro, a cada dia que passa, está sendo levado mais a sério, com o amadurecimento, inclusive, de união de classe. Sinto isso, principalmente, agora que estou ligado a vários setores da arte popular brasileira. Por isso acho que não tem nada a ver, alguém se arvorar em líder de movimento ou de grupo. Portanto, o que há anos atrás podia ser considerado como Chico Buarque, garoto bonito de olhos verdes, ou porta-bandeira disso e daquilo, tudo isso foram imagens impostas. E, o simples fato de terem o caráter de imposição, me forçou a rejeitá-las.
A rejeição de que fala Chico aconteceu com a célebre peça 'Roda Viva', de 1968, encenada pelo também célebre grupo teatral Oficina. Chico retoma seuas lembranças:
- Quando escrevi 'Roda Viva', porém, não tive a intenção de pôr um ponto final em nada. Simplesmente, a colocação em termos de imagem estava errada, desde o princípio. O bom menino não existia, não era verdade. Era falsa a rotulação de tímido que me atribuíam, isso só interessava à televisão, na época. Nunca contribuí para manter essa imagem e, tão naturalmente, quanto permiti que ela fosse além do desejável, escrevi a peça. Não foi uma atitude do 'vou escrever Roda Viva para acabar com esse negócio'. Na verdade, desde o início, eu estava preocupado com problemas sociais, o que não significa que não tenha meu lado lírico. De qualquer maneira, sempre tomei posições espontaneamente, sem precisar que ninguém me cobrasse - como ocorria nos circuitos universitários, dos quais resolvi me afastar. É que, nesses circuitos sempre havia debates após o espetáculo, e isso começou a ser desgastante, pois as pessoas vinham me cobrar posições. Eu tenho certeza de que, caso tenha alguma contribuição a dar, ela será mais forte e presente com meu trabalho, que com exibições ou eventuais pronunciamentos. Acho que tenho muito mais o que fazer ao lado do teatro e do cinema, dois campos de trabalho sensacionais, do que ficar aceitando rótulos ou bandeiras.
À excessão de Olhos nos Olhos, as faixas do LP de Chico são trilhas de peças ou filmes. Ele comenta o fato: 'Isso não altera grande coisa, é sempre um trabalho meu. Não seria música de encomenda, e sim de sugestão. Me pedem música sobre passarinhos, e lá vou eu pôr letra em Passaredo, do Hime. No caso de Que Será, Que Será, tema do filme 'Dona Flor...' tem gravação minha, e do Milton, ficou uma gravação sensual, muito bonita. Por falar nisso, o Milton se encontrou comigo no estúdio da Phonogram. Ele se ligou na música e, nesse entusiasmo, resolvemos gravar juntos.'
Outro tema polêmico: televisão. Chico é a favor ou contra?
- Nada tenho contra a tevê em si. Seria tolice negar sua força de penetração, mas a televisão que se está fazendo no Brasil hoje se restringe praticamente à Globo. E, ao contário do que ocorria há alguns anos atrás, não há interesse nenhum da tevê pela música. Ou você faz música para novela, ou não faz mais nada. Olhe, isso não é uma queixa pessoal minha. Há uma novela aí que tem Carolina como um dos temas, mas isso é problema das editoras, não meu. É algo que não posso impedir, pois não tenho escritório nem editora. O que posso dizer é que a tevê está prestando um grande desserviço à MPB. Há um quadro musical no 'Fantástico', e não gosto da maneira como é apresentado. Assim, com todo o seu poderio, a tevê nada faz pela música. Antes era bem rentável pegar um cara, naquela efervescência dos festivais - e, diga-se de passagem, não foram os festivais que inventaram a música - e explorar ao máximo o seu talento. Vem daí a tal imagem do lírico, do tímido garoto de olhos verdes. Com tudo isso contra, como é que eu posso me interessar pela tevê? Fazer uma coisa bem cuidada, talvez só seja possível na TV Bandeirantes (SP) e isso eu toparia de cara." (Continua)