Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

terça-feira, 28 de março de 2017

Diana Pequeno - Revista Música (1981)

 Diana Pequeno foi uma das muitas cantoras surgidas  no Brasil no fim dos anos 70. Com um trabalho regionalista, baseado principalmente numa vertente que foi batizada de "new caatinga", por falar de coisas do agreste e do sertão, Diana foi conquistando seu público. A partir de seu terceiro disco, seu trabalho foi se urbanizando, e abandonando aos poucos a temática agreste. E é justamente essa mudança que significou para muitos  uma indefinição do trabalho da cantora.
Nessa matéria publicada em 1981 na revista Música, a diversificação que o trabalho de Diana vinha experimentando é analisada por Angelo Iacocca:
"A tendência de Diana estar sempre procurando um novo caminho, vem gerando algumas dúvidas quanto à consolidação de sua carreira. As mudanças, com muita frequência, nem sempre são sinônimo de criatividade. Evidentemente seu sucesso comercial não está sendo abalado - pelo menos por enquanto - devido ao bom momento que ela atravessa:  das cantoras que surgiram nos últimos cinco anos, Diana é uma das poucas a manter boa posição no mercado, tanto em vendas quanto em afluência de público aos seus shows.
Seu último disco, Sinal de Amor, representou o grande impulso em direção a uma nova fase, desta vez desgarrada de todas as influências anteriores, principalmente da corrente musical que vinha da caatinga, e que marcou profundamente o início de sua carreira. Mas devemos levar em conta sua vivência inteiramente urbana, é que o contato com a música de Elomar ocorreu em Salvador e não na caatinga.
Mas, se esta nova opção de Diana foi benéfica como libertação, inclusive de compromissos ideológicos, musicalmente decepcionou aqueles seu seguidores que queriam ver conservada a simplicidade que marcou os dois discos anteriores, não muito pela temática, agora um tanto urbanizada, mas principalmente pela instrumentação, eletrificada em excesso.
E ao transpor este trabalho para o palco em seu show, também chamado 'Sinal de Amor', Diana escolheu uma autêntica banda de rock 'Cheiro de Vida', mais preocupada em mostrar seus malabarismos eletrônicos, do que tentar acompanhar a voz forte, sufocada pelo som estridente das guitarras, porém muito valorizada quando o acompanhamento fica a cargo do rabequeiro e violonista Zé Gomes, ou quando ela se acompanha ao violão. É verdade que o público aderiu ao som da banda, pois qualquer som 'pauleira' é um convite à dança... Mas qual o papel de Diana  Pequeno nisso tudo? Não acredito que ela pretenda ser uma nova revelação do gênero, principalmente se a intenção for a de adaptar músicas folclóricas, como 'Regina', para o rock. A não ser que mude radicalmente.
Para seu próximo disco, Diana Pequeno pretende realizar um seu grande projeto: gravar textos de poemas brasileiros musicados por ela. Depois da tentativa mal sucedida com poemas de Cecília Meireles (os poemas já estavam gravados, mas os herdeiros exigiram uma quantia exorbitante, que a gravadora não quis pagar), agora parece que tudo vai dar certo, já que com o poeta escolhido, Mário Quintana, não existirão tais problemas. Eles tornaram-se amigos em Canela, no Rio Grande do Sul, onde a ideia da gravação nasceu.
Portanto, para o próximo disco de Diana, o poeta Mário Quintana terá presença garantida (o desejo da cantora era fazer um LP inteiro com seus poemas, mas ela mesma reconhece que é difícil). Alguns poemas já estão musicados, entre eles 'De Repente' e 'Noturno'. Com esse disco Diana acredita poder divulgar a obra do poeta que já está com 76 anos.
Quintana passou a ser valorizado somente a partir de 1970; mesmo assim ainda não é conhecido em todo o Brasil.
Quanto ao seu próximo disco, Diana diz que pretende ser mais individual, desenvolvendo um trabalho com pessoas que sintam a música como ela, e desenvolver novas ideias, inclusive gravar composições suas, o que não tem feito até agora justamente por não ter explorado sua individualidade. "

segunda-feira, 27 de março de 2017

Jards Macalé Lança Seu Primeiro Disco (1972)

Em 1972 Jards Macalé lançava seu primeiro disco, que levava seu nome. Apesar de já atuar na música há um bom tempo, participado de festivais, como o FIC de 69, apresentando Gothan City, ter composições suas gravadas por outros intérpretes e lançado compactos, Macalé só lançaria seu primeiro LP naquele ano. O disco, que virou um clássico, foi muito bem recebido pela crítica menos tradicionalista e careta, como mostra essa resenha escrita por Maurício Kubrusly, no jornal O Estado de São Paulo:
"Este é o primeiro LP de Macalé, um músico excelente que precisou esperar mais de dez anos por esta oportunidade. Para os poucos que acompanharam sua atividade por todo esse tempo, o nível deste disco não representa uma surpresa, ao contrário, só confirma a seriedade do trabalho desenvolvido desde o início até a maturidade de agora.
Já se disse, em relação ao século XIX, que a música de câmara representa o ponto máximo da criação - uma peça para um quarteto de cordas, por exemplo, exigiria do compositor domínio técnico, inventividade e equilíbrio em grau muito superior ao necessário para a elaboração de uma partitura para orquestra, onde os recursos são muito maiores. O disco de Macalé sugere um paralelo com esta observação, pois representa o que poderia ser classificado como 'música popular de câmara'. (para que fique claro o sentido desta comparação é preciso abandonar preconceitos que geram separações como 'erudito-popular'). 
Esta 'música popular de câmara', que nada tem de hermética ou inacessível, surge a partir do momento em que Macalé deixa de lado toda a magia dos recursos eletrônicos, tão ao gosto da música pop de hoje. O LP foi realizado apenas por três músicos: o próprio Macalé (violão e vocal), Lanny Gordin (violão e guitarra) e Tuti Moreno (bateria). Esse limitação, a priori funciona como um desafio para cada um dos três músicos. E eles respondem com atuações de uma riqueza pouco comum, em todos os momentos do disco. O desempenho desse trio, também responsável pelos arranjos, resulta num LP com tratamento adequado a cada faixa e unidade no conjunto, contenção rigorosa no uso de cada recurso e equilíbrio absoluto até em cada emprego - surpreendente - das pausas.
O trabalho de Macalé como compositor já tinha sido divulgado no trabalho de outros intérpretes, mais recentemente por Gal Costa e Maria Bethania. Aqui estão músicas mais novas, como Revendo Amigos, ao lado de outras já gravadas, como Movimento dos  Barcos - todas com a força e originalidade que caracterizam as composições de Macalé e seus parceiros. E estes, apesar da exploração nos efeitos conseguidos com o jogo de palavras com sons semelhantes, também são excelentes. As letras quase todas marcadas por verbos no presente, contém versos muito bonitos, rompendo completamente com as limitações da métrica e da rima.
Como todo intérprete, Macalé nada fica devendo ao compositor. (Todo o disco é marcado pela 'postura' de Jards Macalé, seca e agressiva, identificada já na foto da capa, a mesma pose das apresentações em público). Explora sua voz rouca de maneira minuciosa, adaptando-a ao clima criado para cada interpretação, explorando cada verso, o som de cada sílaba.
É um disco que impõe uma audição atenta, cuidadosa, para a apreensão por toda a beleza que existe atrás da real secura e da aparente simplicidade deste trabalho. Por tudo isto, Jards Macalé é um LP magnífico, para ser colocado no mesmo nível dos melhores já lançados em 1972, um ano fértil para a música popular no Brasil - também porque, de Nelson Cavaquinho a Macalé, muitos estão conseguindo agora 'uma primeira oportunidade'. "

domingo, 26 de março de 2017

Raul Seixas - Navegante dos Infernos e das Luzes (1975)

Em 1975 Raul Seixas estava na melhor fase de sua careira, já tinha lançado dois discos de grande repercussão e sucesso - Krig Ha, Bandolo (1973) e Gita (1974), e se preparava para lançar Novo Aeon, outro grande disco de sua carreira. Sua parceria com Paulo Coelho seguia firme, com ótimas composições, que além de trazer um teor filosófico, e às vezes social e anarquista, continha uma veia popular, que atingia as massas, e fazia seus discos alcançarem altas vendagens.
Na época, o crítico e jornalista Nelson Motta, em sua coluna diária no jornal O Globo falava de Raul e sua trajetória, em uma matéria intitulada "O Navegador dos Infernos e das Luzes":
"Nunca duvidei do talento desse astonishing Raul Seixas, embora algumas vezes não tenha entendido o que ele queria dizer; talvez porque ele não tenha sabido explicar ou eu não tenha sabido entender.  Mas nos píncaros dos delírios da Sociedade Alternativa foram poucos os que sacaram exatamente o que Raul pretendia mostrar e demonstrar. Mas sempre foram muitos, milhares, os que se encantaram com suas músicas. Nos subúrbios, nos programas de auditório, nos pedidos dos ouvintes, nas vitrolas 'inteligentes', nas cabeças doidas, nos selos da cocotagem-rock e nos pilares da MPB.
Crítico feroz, artista popular, anárquico, polêmico, dividido e dividindo, Raul Seixas emergiu de Raulzito, que no entanto são a mesma pessoa, 'que para aprender o jogo dos ratos/ transou com Deus e com o Lobisomem'.
Uma explosão com 'Let Me Sing'. Uma maneira diferente de dizer as coisas. Um humor crítico, uma interpretação teatral. Raul Seixas: 'eu sou eu/ Nicuri é o diabo'.
Mas logo muitos se preocuparam: 'Raul Seixas é indiscutivelmente um sucesso. Mas será Raul Seixas importante na música brasileira?'
Só Raul Seixas não deve ter pensado se era ou não importante na música brasileira, senão não teria tido tempo para fazer o festival demolidor que foi o seu primeiro LP. Literalmente uma pedrada em milhares de frágeis vidraças. 'Al Capone', 'Ouro de Tolo' (obra-prima popular), 'Dentadura Postiça'; uma torrente-quente-irreverente, um grito de guerra na linguagem do homem marcado - Krig Ha Bandolo!
Seu primeiro álbum era demolidor, pulverizava sonhos, desnudava.; com humor, ritmo, leveza e irreverência.
Já com o segundo - 'Gita' - surgido em plena efervescência alternativa, as músicas se colocavam de forma diversa diante dos escombros provocados pelas bombas incendiárias do primeiro trabalho - muito mais num sentido de indicar caminhos e opções de vida através de uma visão do homem feita quase em forma de pregação.
A diferença entre o primeiro disco e o segundo é a que existe entre um panfleto forte e incendiário e uma pregação cheia de promessas de grandeza. Um palavrão rabiscado na porta de um banheiro/ o homem rei do universo.
Talvez ainda existam mais coisas a serem destruídas que caminhos a construir, sobretudo em áreas definitivamente bloqueadas da sensibilidade popular, dos sonhos e mitos que castigam e enlouquecem.
É ótimo ouvir alguém dizer que 'eu que não vou me sentar no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar...' É ótimo ouvir alguém denunciar que um certo tipo de sonho só leva à frustração e amesquinhamento das aventuras do viver. É ótimo saber que houve muita gente que entendeu o que ele quis dizer e seguiu os conselhos dados a Al Capone: 'vê se te orienta!'
É encantador testemunhar um artista que conviveu e convive com o sucesso, ter total desprezo pelo êxito e encarar uma longa e certamente dolorida viagem aos infernos por sua livre vontade de conhecer seus lados escuros e viver de perto os mesmos sonhos de Raul Seixas - um moleque cósmico.
 Seu terceiro Lp está para sair. Ouvi alguma coisa dele ao violão e alguma coisa da fita não definitiva. A impressão mais forte é estar diante de um trabalho extraordinário, destinado a provocar fartas (e certamente equivocadas) polêmicas; um trabalho vivo e intenso. Literalmente vivido.
Raul enfrentou por sua conta e risco e por sua coragem ou loucura o mergulhar nos seus próprios abismos, vivendo o seu real e a sua fantasia com fidelidade e energia total, navegando certamente em mundos estranhos, provando o vinho e o vinagre da vida, conhecendo as sombras e as luzes que imaginava ou duvidava.
Seu novo disco parece ser isto: o diário de bordo de uma viagem longa e dolorosa com o próprio corpo, com a cabeça fazendo a navegação sem radar, em pleno nevoeiro, nos mares de fogo, nas chuvas de prata.
Agora Raul Seixas não apedreja, não doutrina. Ele agora conta, depõe na primeira pessoa, revela e revela-se, vai contar ao pé das lareiras eletrônicas as suas saisons en enter e suas ressurreições. Para ouvintes atônitos com a visão que ele tem de um dos auto-martírios prediletos da humanidade: o egoísmo.
O disco de Raul Seixas pode colaborar decisivamente para ajudar muita gente e desamarrar bodes turrões que teimam em atrapalhar a vida e a alegria das pessoas. Como as supra-citadas (e cheias de culpa) nações de 'egoísmo' que a civilização judaico-cristã legou. O disco talvez pudesse se chamar 'Teoremas - demonstrados e vividos pelo autor'.
Raul discute o tormento do ciúme de forma totalmente diversa da que os séculos ensinam, para espanto dos que buscam o sofrimento nas alegrias do amor. Para estupor dos que temem, para desespero dos que têm medo, para inveja dos que fazem o medo de perder maior que a alegria de amar. Otelos do Brasil, uni-vos, porque Raul Seixas vem aí com 'A Maçã', onde talvez pela primeira vez em sua geração, um compositor discute e depõe de forma tão aberta em relação ao ciúme, um dos pulmões das sensibilidades e dos valores nativos.
'Quando Freud explica, o Diabo dá o toque', adverte Raul no 'Rock do Diabo' e talvez aí esteja um dos seus momentos mais claros: em vez de colocar a psicanálise como panaceia universal ele prefere achar que Dr Freud tem sua grande importância mas as grandes soluções surgem quando os demônios são conhecidos, enfrentados ou adotados. Entre a explicação da angústia e suas fontes existem os abismos do medo de enfrentar a cachoeira que leva aos lados escuros - pela simples certeza que é de lá que pode surgir a luz, uma verdadeira e clara luz, uma verdadeira e clara luz do auto-conhecimento através da vivência real dos seus fantasmas. Isto foi o que Raul Seixas fez.
Dezenas de vezes ouvi dizer: 'Raul Seixas está louquíssimo. Intransável.' Muitos me disseram - 'Raul Seixas pirou de vez.' 'Raul Seixas acabou'.
But he is well, alive e leavinh the Hell, como um Rimbaud baiano iê iê balada romântica roquenrrow. Como um dos mais instigantes e inquietos criadores de sua geração. Zelosos guardiães da cultura brasileira, corcoveai; Raulzito vem aí, mais vivo do que nunca, pronto para - mais uma vez - fazer delirar a patuleia e as inteligentzias patrícias.
Que - ao som de Raul Seixas - vão se desfazer de seus líquidos venenosos num mesmo e comum turbilhão de espuma, tal como no poema de Vinícius..."


sábado, 25 de março de 2017

Files of Killimanjaro, de Miles Davis É Lançado no Brasil (1972)

Files of Killimanjaro é uma das muitas obras-primas criadas por Miles Davis. Lançado em 1968, o disco só sairia no Brasil em 1972. Antes tarde do que nunca, para quem apreciava a obra do grande trompetista americano que revolucionou o jazz, e não tinha acesso à discografia de Miles. Na ocasião o jornal Rolling Stone nº 8 (maio de 1972) trazia uma matéria sobre o disco, em artigo assinado por Luiz Fernando, e numa frase em destaque dizia: "Files of Killimanjaro, LP de transição de Miles Davis, foi agora lançado entre nós. Quando virão In A Silent Way, Bitches Brew ou Live/Evil?". Segue abaixo a matéria:
"A viagem que Miles Davis vem fazendo é uma das mais fascinantes de ser acompanhada. Sua criatividade abre as portas da percepção para uma nova visão da  música.  Miles já curtiu quase todas: considera o rock uma merda, mas afirma que seria capaz de reunir o melhor grupo e sair tocando por aí. 'Jazz também é uma merda; uma típica expressão de brancos; eu sempre estive metido na coisa e nunca tive ouvido essa palavra... até que li numa revista'.
A transa da sua nova música começa em 70 com Bitches Brew que foi entendida pelo jovem curtidor de rock e olhada com desconfiança pelo seu antigo público. É grande a disparidade entre Porgy e Bess (grande sucesso que exemplifica outro polo de sua carreira) e Bitches Brew, e não é apenas o som que mudou. A complexa parafernália eletrônica oferece a mesma visualização de um moderno conjunto de rock. Seus antigos admiradores costumam lhe perguntar porque ele não toca da mesma maneira que antes, ao que Miles revida - quem pode me dizer como eu costumava tocar?
Davis não faz parte do estereótipo do típico músico negro de jazz: não nasceu pobre, nem foi criado em gueto. Cresceu em East St. Louis (Illinois), onde sua família era bem estabelecida entre a classe média local. Apesar de sua condição econômica passou por todas as  humilhações que sofrem os negros americanos. Sua franqueza quando fala sobre o assunto já lhe causou o piche de racista. 'Pra que um grupo tenha swing você tem que colocar um negro tocando. Buddy Rich é uma exceção, mas quantos existem iguais a ele?'
Aos 18 anos convenceu o pai a mandá-lo para Nova York (Julliard School) ao invés da escolha de sua mãe, que queria vê-lo estudando na Fisk University.
Passou a primeira semana na cidade caçando 'Byrd' (Charlie Parker). 'Durante mais de um ano eu o seguia por todos os cantos. Ia com ele toda noite para a Rua 52, onde se apresentava'. Charlie costumava lhe dizer 'não tenha medo, vá em frente e toque'. Passava noites escrevendo os acordes em caixas de fósforos e tocava o dia inteiro ao invés de ir pra escola. Um ano depois largou a Julliard School. 'Toda aquela porcaria que estavam me ensinando não servia para nada'. Entrou para o grupo de Charlie Byrd.
Em 49 Miles foi um pioneiro em tonalidades e harmonias do chamado cool jazz. A série de 78 reunida pela Capitol, Birth of Cool é um exemplo disto.  Nenhum de seus discos - quase trinta - pode ser considerado fora de moda.
Depois o jazz se perdeu no marasmo do clássico, moderno etc. Miles pinta no Festival de Newport tocando Walkin, um blues que iria influenciar em pouco tempo toda uma geração de músicos em todas as  partes do mundo. Era o fim da escola cool.
Durante quatro anos Miles esteve engajado na heroína. 'Estava cansado e doente.A gente pode ficar cansado de qualquer coisa, inclusive de ter medo. Fiquei olhando o teto por doze dias, delirando. Depois resolvi cair fora'. Tocou numa série de pequenos grupos, quintetos, sextetos, apresentando-se em pequenos clubes sem direito de escolher seus acompanhantes.
Depois desse período Miles começa a ensaiar com um grupo de jovens músicos (Gerry Mulligan) no porão da casa de Gil Evans em Nova York. 'Gil gostava da maneira como eu tocava, e eu de como ele escrevia'. Fizeram alguns álbuns para a Columbia.
Musicalmente Miles tinha voltado em parte ao pop de Parker, mas com grande flexibilidade, sofisticação e lirismo. Um disco fim-de-papo é Kind of Blue (com Coltrane) principalmente no desbunde dos Flamenco Sketches. Em Files of Killimanjaro e em In a Silent Way, Miles começa a indicar as novas direções da música. O boxe lhe devolveu a força, tornou-o ágil e bonito. - 'Para tocar bem, um músico tem que estar em boa forma física. Vocês nunca notaram que minha maneira de tocar vem das pernas?'
Depois de Bitches Brew Miles gravou um disco ao vivo no Filmore, a trilha do filme Jack Jackson e Live/Evil (as palavras se completam se você escrever qualquer uma de trás pra frente) que saiu no fim do ano passado. Este último, que tem uma parte ao vivo, pode repetir o sucesso de Bitches Brew.
Embora o rótulo de acomodado não possa ser aplicado a Miles Davis,  a verdade é que ele está mais seguro no caminho que escolheu.  As roupas - já foi eleito um dos mais bem vestidos do ano - os carros, e a vida louca que levava, segundo ele, faziam parte de uma necessidade de satisfazer seu ego. Hoje já não está mais preocupado com isto. Na sua apresentação depois de sua excursão pela Europa comprou metade da lotação para distribuir entre jovens negros. 'Não sou uma pantera, mas entendo a lógica do pensamento deles' - disse ele. "

quinta-feira, 23 de março de 2017

Rita Lee Fala de Sua Paixão Pelos Beatles (2001))

Rita Lee nunca escondeu sua grande admiração pelos Beatles, admiração essa que se iniciou em sua adolescência. Em 2001, inclusive, ela lançou um CD chamado "Aqui, Ali, Em Qualquer Lugar", com versões em português e em inglês de músicas dos Beatles. A revista da MTV nº 5, de novembro daquele ano trazia um testo de Rita sobre sua paixão musical pelo quarteto de Liverpool, num texto intitulado "Meu nome é Rita Lee e eu sou beatleólatra":
"Em 1962 minha irmã mais velha se casou com um inglês e foi passar a lua-de-mel em Londres. Na volta ganhei de presente o primeiro single dos 4 Fabs com Love Me Do e PS I Love You. Foi assim que comecei no vício.
De 1963 a 1970 eu bebi, comi, fumei e respirei Beatles. Vivia desenhando a silhueta dos 4 por todos os cantos, mas caprichei legal nos retratos de cada um deles a lápis sobre os papéis de melhor qualidade que consegui descolar: os que embrulhavam o pão que meu pai comprava toas as manhãs. Minha família tinha esperanças de que um dia aquele vício seria substituído por alguma faculdade, um marido ou até mesmo por outros heróis, como já havia acontecido antes com James Dean e Elvis. Quando os Beatles lançavam um disco eu economizava todos os meus tostões para poder comprar três: o primeiro para guardar, o segundo para guardar e o terceiro para deliciar meus ouvidos e minha alma.
Resumindo o meu coté de fã xiita, apenas fui uma daquelas trocentas meninas do planeta que deram plantão na frente da Apple debaixo de sol, chuva e neve. Um belo dia tive a sorte de testemunhar os 4 saindo de lá e, enquanto a polícia pastoreava a multidão gritalhona, eu voei pra lamber a maçaneta da porta. Aconteceu que nesse desvio de percurso fui parar bem na frente da garagem dos fundos da Apple, no sentido contrário de onde estava a multidão, e dessa maneira fui privilegiada com um close único do Rolls-Royce branco saindo. E o melhor de tudo: ganhei um aceno e um sorriso exclusivo de Lennon! Para quem nunca conseguiu assistir a um show ao vivo dos Beatles guardo essa cena absolutamente intacta no resto de memória que ainda me resta. Na escola, eu fazia parte de um quarteto de meninas chamado Teenage Singers - eu tocava bateria e cantava. Por volta de 1965/1966 entrei numas de aprender baixo para um dia eventualmente impressionar Paul. E foi assim que num festival de colégios convenci um rapaz dentuço meio parecido com Sal Mineo a me ensinar o ofício. Se chamava Arnaldo e era o baixista do Wooden Faces, uns garotos que só tocavam músicas instrumentais e não conheciam nada de Beatles. Desse encontro resultou uma fusão Teenage Singers/Wooden Faces, que depois de algumas formações acabou virando um trio absolutamente beatlemaníaco: Os Mutantes.
Quando os Beatles se separaram, comecei a sentir os efeitos da abstinência do vício, e para curar o cold turkey me mudei para a casa do inimigo, dizendo a mim mesma: 'Welcome the Rolling Stones!' De vingança pela traição dos 4 terem se casado com outras que não eu, recolhi toda a minha beatlerabília num baú e estoquei na garagem de casa. Devo ter ficado uns dez anos de mal dos Beatles, entre a época das Cilibrinas do Eden e Tutti Frutti. Confesso que fiz esculhambações públicas dizendo que preferia o lado bad boys dos Stones, a teatralidade de Bowie e a porra-loucura do Iggy Pop. Eu me recusei a botar Beatles na vitrola (vitrola!) até para meus dois filhos mais velhos. Em agosto de 1980 faleceu minha irmã Mary Lee, a mesma que havia me apresentado aos caras. Em dezembro do mesmo ano, lá se foi Lennon. Naquela noite tive uma overdose braba de Beatles, desenterrei o baú da garagem e chorei tudo o que tinha direito. Aos poucos comecei a incluir algumas músicas deles nos meus shows, o vício estava sob controle, 'um tapinha não dói', já dizia eu. Eu me lembro que, nos áureos tempos beatleolíticos quando ouvia alguma versão em português do repertório deles, sentia calafrios de pavor. E ai de quem fizesse um cover que não fosse absolutamente igual. Por outro lado rolavam versões pornô-light de algumas letras deles e cada 'conja' (gíria da época que significava grupo, banda) tinha a sua... 'Feche os olhos e sinta 2 metros e 30' era a mais conhecida, mas haviam outras mais apimentadinhas como a de Yesterday: 'Ontem dei minha bunda pra você comer, mas você não quis comer meu cu, oh! Ontem dei prum jaburu!' E os filmes dos 4 Fabs? Minha  outra irmã Virginia Lee  e eu chegávamos da escola e mãos à obra preparar marmitas para varar as sessões. Éramos  sempre as primeiras da fila de entrada e as últimas da fila de saída. O lance era decorar as falas dos personagens, detalhes dos cenários e figurinos, tintin por tintin, para depois sabatinar qualquer fã que encontrássemos pela frente. As perguntas eram mais ou menos assim: 'Qual é o diálogo entre Ringo e George na cena do vagão do trem? Que objeto está no chão do lado esquerdo e  o que está escrito na etiqueta da mala em que John está sentado?' Quando estreou Yellow Submarine tomei um ácido durante o Canal 100. A lisergia bateu na hora em que a tripulação partia para a viagem, daí que eu entrei na tela e embarquei junto. No meu tempo a pedrinha de um puríssimo Sunshine durava 12 horas, portanto naquele dia dormi literalmente no cinema, mas acordei a tempo de pegar a primeira sessão do dia seguinte para repetir o mesmo visual. Bem, já que não posso dizer que os Beatles foram, meus primeiros namorados, digo que sem dúvida são a grande paixão musical da minha vida, dessas que a gente ama, briga, faz as pazes e vive feliz para sempre. Um vício bom demais paras vez ou outra dar uma recaída bonita!"

segunda-feira, 20 de março de 2017

Se Eu Quiser Falar com Gil (2000)

Escolhido pelo jornal O Globo como a personalidade da cultura do ano 2000, Gilberto Gil foi entrevistado pelo jornal em matéria publicada em 24/12/00 e assinada por João Máximo. Na época Gil estava envolvido com a trilha do filme "Eu tu eles", uma espécie de resgate à influência de um de seus primeiros ídolos, Luiz Gonzaga. Na época dividiu o palco com Milton Nascimento, Maria Bethânia e Moraes Moreira. Também pensava em levar adiante um projeto antigo, que viria à luz anos depois, um CD em homenagem a Bob Marley, que ele exalta na entrevista. Gil vivia um momento de grandes e variados projetos, que ele cita, além de sua visão sobre a religiosidade:
"Gilberto Gil não esquece a  luz das estrelas e da lua varando o teto de telhas transparentes de seu quarto em Ituaçu, interior da Bahia, onde passou a infância. Ele considera aquela claridade - carregada de uma energia meio transcendental - um de seus primeiros alumbramentos. Ou seja, os primeiros sinais que o levaram a se transformar no homem introspectivo de hoje.
- Através daquelas telhas eu apreciava a noite, via o eclipse, esperava Papai Noel - lembra.
- Toda a ideia que passei a ter de luz, das candeias à lâmpada de Aladim, decorrem daqueles primeiros alumbramentos. A partir deles me relacionei com outras luzes, interiorizei-me, estabeleci uma ligação entre o homem e a transcendência. Tenho, por isso, um gosto pela religiosidade, pela necessidade do homem de se encontrar explicado no conjunto da natureza, no cosmos. E também para além dos sentidos.
Se é introspectivo o homem, são extrovertidos o compositor, o cantor, o poeta. Os mesmos que tiveram um ano também iluminado, senão repleto de alumbramentos. Vários foram os caminhos que levaram O Globo à escolha de Gilberto Gil como personalidade da cultura no ano 2000. Do disco que gravou para ser encartado no luxuoso livro que lhe dedicou o artista Bené Fonteles (Gil, voz, violão, em 15 canções) ao réveillon que ele e Maria  Bethânia vão animar no Farol da Barra, revivendo o show que os dois fizeram juntos em setembro. Entre um fato e outro, houve a comemoração (com Moraes Moreira) dos 50 anos do trio elétrico em Salvador, o reencontro com a sanfona e a música de mestre Luiz Gonzaga na trilha do filme 'Eu tu eles', o disco e o show com Milton Nascimento, a visão de sua obra pelos olhos de artistas plásticos e a certeza de que poderá retomar em breve o projeto de um CD dedicado a canções de Bob Marley.
Num momento de introspecção e reavaliação de sua carreira, o tributo a Bob Marley é um projeto fundamental para Gilberto Gil:
- São canções de um dos artistas que mais me marcaram como músico e como ser humano - ressalta Gil atendo-se mais ao futuro do que ao já feito. - Bob Marly deixou em mim um resíduo colorido e perfumado que quero preservar. Nos últimos dez anos, tenho pensado muito nele, dos últimos representantes da questão diáspora negra, do papel do negro no mundo. Tenho vontade de retribuir a Bob essa grandeza. Pra isso, já conversei com Rita Marley, sua viúva, sobre minha ida até a Jamaica. Para completar a ponte Rio-Salvador-Kingston.
O projeto, porém não deve ser para agora. Gil - que não tem férias formais há muito tempo - já está com a agenda cheia para 2001: excursão com Milton no primeiro semestre (Uruguai, Argentina, Nordeste, EUA e Europa) e nova edição do festival Percpan (em Salvador, São Paulo, Rio, Marselha e Nova York). Fora aqueles convites que nunca recusa, como se sentindo obrigado a ajudar a quem quer que se interesse por sua arte.
Embora em entrevista recente tenha se definido como um ser errático, com 'gosto pela discussão política e social da arte', Gil não é de se envolver em polêmicas, muito menos em criá-las. E nas raras vezes em que se envolve, o faz com a serenidade, quase doçura de um sábio.
- Sim, acho que fui me tornando mais doce com o passar dos anos, mais tolerante sobre a existência daquilo que nega seus olhares, minhas afirmações - observa. - Já nasci avesso às brigas. A espada não é meu instrumento. Não acho que seja essencial meu ponto de vista prevalecer. Não tenho necessidade de ganhar as guerras, nunca fui um guerreiro. E cada vez mais aceito os diferentes modos de pensar a realidade.
Gil acredita que suas canções, em grande parte, destinam-se a pensar nisso, 'no fio tênue que separa o homem com o pé no chão e o homem com os olhos no céu'. Nisso, o poeta e o músico são uma entidade só. Há no autor das canções - o compositor e  o letrista - um ímpeto pra que os dois se integrem:
- Às vezes, é a música que toma a frente e soluciona melhor esse diálogo . Outras vezes são palavras que fazem a aproximação. Mas o sentimento vem sempre antes de tudo. Aquilo que a gente pensa é invariavelmente antecedido do que a gente sente.
Ainda as diferenças entre letra e música;
- A palavra é fragmentada, a música não. A palavra segue por vários caminhos, ao passo que a música é pitagórica, um conjunto de sons organizados. Mas tanto uma como outra desembocam no caos sonoro, no mantra. A vida toda minha música tem tributado esse lado caótico, o som da natureza, a queda das águas, a reverberação do trovão, o canto dos pássaros, o soprar do vento. É a música natural, matemática. A palavra entra no meio. De repente, você emite um uivo e aquilo significa algo, cai num lugarzinho qualquer onde a palavra mora. Tudo acaba caindo no verbo.
A religiosidade em Gil é exercida de um modo próprio, o menino de formação católica se convertendo no homem que descobriu o candomblé - mais precisamente, o terreiro de Egun - pelas mãos de Mestre Didi e Juanita. Os búzios disseram que ele é Xangô. E no entanto os espíritos são difíceis de serem compreendidos por seu pensamento lógico.
- A reencarnação? De fato, um pensamento lógico como o meu não atende bem esse fenômeno da migração das almas para os corpos. Os que escolhem esse caminho devem ter vivências a respeito. Eu não tive. Respeito essas visões, embora minha mente cartesiana as rejeite. Como diz Patrick Drouot (físico francês, estudioso de vidas passadas), é preciso estar livre da mente racional, deixar que o sentimento oceânico o invada, para poder aceitar. Houve tempo em que simplesmente rejeitava a ideia de reencarnação. Hoje, não. Mas não é um acreditar, é um concordar.
Novamente Gil se concentra no verbo, chamando a atenção para o cuidado que as filosofias religiosas têm com  a palavra. Concorda com Fernando Pessoa - 'tudo vale a pena se alma não é pequena' - e acredita que o fato de ter vivido tudo o que já viveu, inclusive os êxitos deste ano, seja obra do destino.
- As coisas só acontecem porque você se impulsiona. Seus sonhos, seus mitos, em tudo há conformidade. Ou seja, 'conforme a idade', tudo o que o tempo e o espaço impulsionam. Em resumo, os espelhamentos: o mundo em mim, eu no mundo.
Voltando às suas luzes, Gil crê que o mundo seja uma permanente continuação do embate entre as trevas e a luz, a intuição e a razão.
- Do embate contra o sentimento gravitacional que nos prende ao chão e nos escraviza a impulsos rastejantes como a inveja, o ódio, a ira, o tributo ao pequeno ego. Alguns homens especiais que venceram esse embate? Einstein, Gandhi, Mandella, Martin Luther King... E, naturalmente, Dorival Caymmi."


domingo, 19 de março de 2017

João Donato Lança Songbook - Jornal do Brasil (1997)

João Donato é um dos músicos mais importantes e respeitados do país. Compositor e arranjador dos mais versáteis, sua obra é bastante extensa e rica. Por isso não poderia ficar de fora do projeto dos songbooks criado pelo produtor Almir Chediak na década de 90. Por ter iniciado sua carreira ainda na época da Bossa Nova, e depois ter feito carreira nos Estados Unidos, onde tocou com diversos músicos de peso, sua obra autoral é bastante extensa. Ao retornar ao Brasil, no início dos anos 70, Donato passou a compor com Gil, Caetano, PauloCésar Pinheiro, Marcos Valle e outros nomes importantes da música brasileira. A extensão de sua obra exigiu a gravação de 3 cds, reunindo nomes como Ivan Lins, Chico Buarque, Caetano Veloso, João Nogueira, Gilberto Gil, Marcos Valle, Rita Lee, e muitos outros.
O Jornal do Brasil de 06/07/97 trazia uma matéria sobre o lançamento, assinada por Tárik de Souza, e intitulada "João Donato, operação resgate":
"...e a fossa quase casou com a bossa. Poderia ter sido o casamento de transição do samba canção de fossa com a bossa nova modernista, crivada de suingue. 'Namorei Dolores Duran mas na hora de casar minha família não deixou porque ela era quatro anos mais velha e cantora de boate', rebobina o pianista e compositor João Donato. Na época, esse precursor da bossa que frequentou ao mesmo tempo os fã-clubes de Dick Farney (com Frank Sinatra) e Lúcio Alves (com Dick Haymes) desdenhava das canções, só pensava em assinar temas instrumentais, como os jazzistas . 'Acho que foi isso que atrasou minha careira, me deixou no limbo', lamenta o pianista que começou no acordeon, mas também teve uma passagem cintilante pelo trombone.
Demitido em março da gravadora EMI, onde lançou o último disco, ele atravessa uma fase financeira dura e joga toda a sua fé na série onde três songbooks (e mais um livro reunindo 60 músicas) que a Lumiar, de Almir Chediak, está produzindo com sua obra para lançar em outubro. 'É minha oportunidade de voltar a subir no ranking', brinca, lembrando o salto fulminante do tenista Gustavo Kuerten. Das gravações, iniciadas há dois anos e agora transformadas em operação resgate, participam os maiores ases da MPB.
O adjetivo gênio há muito tempo aureola João Donato acompanhado de outra qualificação, a de maldito. 'A nossa turma, o Johnny Alf, o João Gilberto, o Tom Jobim, achavam muito chato aquela música brasileira anterior, aquele negócio de tornei-me um ébrio, virei um molambo, nós queríamos mudar', lembra ele. Os primeiros tempos foram muito mais duros que agora, quando suas músicas estão espalhadas por discos de astros como Gal Costa, Gilberto Gil, Nana Caymmi, Caetano Veloso e Adriana Calcanhoto.
Ainda na década de 50, o duo formado por ele (piano) e João Gilberto (violão e vocal) foi contratado por um hotel de São Lourenço para uma temporada de uma semana. 'Depois do primeiro show, o dono nos chamou e disse que a gente não precisava se preocupar. Pagava todo o combinado desde que o show fosse suspenso. E aí ficamos lá uma semana, por conta do hotel, tomando água mineral e tendo piriri por causa daquela mistura de fontes sulfurosa, alcalina, etc', diverte-se.
Mesmo na diversidade de ofertas das mais de 30 boates (na época apelidadas inferninhos) da Copacabana pré-bossa, o pianista Donato não conseguia dar canja. 'Achavam meu estilo muito complicado, diferente de tudo, ninguém entendia', reclama. Um convite do violonista Nanai para passar quatro semanas se apresentando num cassino em Lake Tahoe, em 1959, foram emendados depois com 12 anos nos Estados Unidos, onde seu talento finalmente foi reconhecido. 'Escreveram na contracapa de meu disco com  o saxofonista Bud Shank (Bud Shank and his brazilian friends) que eu era o Cole Porter brasileiro. Tomei um susto', ri.
De volta ao Brasil, o cantor Agostinho dos Santos cobrou-lhe músicas com letras para que pudesse gravar alguma coisa sua. 'E eu namorei a Dolores Duran e nunca pensei em pedir a ela que letrasse algumas das minhas composições', lamenta. Compara-se a Johnny Mandel, famoso depois que acertou algumas baladas e diz que fazia pouco da canção. 'Meu negócio era o piano trio', prega este discípulo do erudito Debussy e do jazzista Stan Kenton que gravou clássicos do ramo instrumental como o disco Muito à Vontade.
'O Tom Jobim ficou famoso como compositor, o João Gilberto como cantor e eu como pianista', discrimina ele, que começou a mudar essa imagem no disco Quem É Quem, em 1973, onde contou com parcerias de Paulo César Pinheiro, João Carlos Pádua, Geraldo Carneiro, Lisias Enio e Marcos Valle. No songbook, eles se juntam à pioneira Minha Saudade (na voz de Gilberto Gil), letrada por ninguém menos que João Gilberto (escalado para cantar A Paz).
E há mais: Chico Buarque em Brisa do Mar, Luiz Melodia em Coisas Distantes, Gal Costa em Simples Carinho, Daniela Mercury e Guinga em A Rã, Caetano Veloso em O Fundo e Emilinha Borba na inédita Os Caminhos (com Abel Silva). 'João ficou muito emocionado com esta participação. Ele é fã da Emilinha', entrega o produtor Almir Chediak. Mais uma prova de que os biscoitos finos podem conviver com cantores de massa."