Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

João Bosco e Aldir Blanc - Jornal de Música (1975) - 1ª Parte

João Bosco e Aldir Blanc formaram uma das mais perfeitas parcerias da  música brasileira. Um músico intuitivo, excelente melodista, músico excepcional, além de ótimo intérprete, e um letrista dos mais inspirados, capaz de escrever letras de grande simplicidade mas ao mesmo tempos outras de grande erudição, Bosco e Blanc compuseram diversos clássicos. Em 1975 a dupla vivia o seu auge criativo, com várias de suas músicas tocando nas rádios e tornando suas composições bastante populares. Na ocasião, o Jornal de Música nº 9, que vinha encartado na revista Rock, a História e a Glória, trazia uma matéria com a dupla, assinada por Roberto Moura, intitulada "Aldir Blanc e João Bosco -  a parceria que começou com um pra lá e um pra cá":
"O encontro e a parceria entre Ouro Preto e o Estácio se deu por televisão, prosseguiu por correspondência e se realizou através das fitas magnéticas enviadas pelo Correio. João Bosco, ainda estudante em Ouro Preto, vê Aldir Blanc no palco do [festival] Universitário, no momento da premiação de uma de suas músicas. Vê Aldir meio desligado, meio alheio às comemorações e às demonstrações de deslumbramento. E resolve: 'É com esse cara que eu quero trabalhar'.
- Gostei do Aldir ali no vídeo, da fisionomia dele. Nas férias seguintes, no Rio, um amigo me levou até ele. Isto em 1970.
(Aldir interrompe o lance e desce aos detalhes).
- Quando começou foi aquele negócio de namoro na roça. Eu aqui e ele em Ouro Preto. Todas as músicas do primeiro elepê dele foram feitas por correspondência. Cartas e fitas a toda hora trocadas.
- Nós sabíamos também - João pega a bola de novo - que não podia ser um trabalho muito sujeito à ação do tempo, porque teria que esperar até que eu viesse pro Rio. Realmente, teve que esperar: o primeiro elepê saiu exatamente no dia 13 de agosto de 1973, há dois anos, portanto. Se estivéssemos em 1970 fazendo um trabalho sem esta preocupação, ele teria perecido antes de se gravar o disco.
- Depois - bola com Aldir Blanc - era um disco meio experimental, eu me amineirando e ele se acariocando, um chegando pra lá, outro pra cá. Isto só se soluciona neste segundo disco: ele cede e se acarioca pra valer, ainda que conservando os mineirismos indispensáveis...
- Acredito - João interrompe - na música como alguma coisa vinculada a um instante determinado, que se relaciona tanto com o heterogêneo do passado como com o imprevisível do futuro. Comecei a fazer música como se estivesse medindo o tempo com mais preocupação. Minhas músicas não têm que, necessariamente, se relacionar entre si: esta é a única abertura que tenho na vida. Aprendi que meu trabalho se defende sozinho, sem que eu precise ficar definindo-o a todo instante.
(Aqui entro eu: Apenas para documentar que estas preocupações de João e Aldir não começaram ontem e nem são produtos das comparações estabelecidas entre seu primeiro e segundo elepê, que eles não estão e nem precisam se defender do hermetismo de um ou da abertura do outro. No dia 4 de agosto de 1973,  publiquei uma entrevista com João Bosco no extinto O Jornal. Nela, dizia ele: 'As pessoas não vão achar no meu trabalho a unidade que, daqui a algum tempo, vai ser procurada. Esta unidade não existe. Meu primeiro elepê é uma coisa de Ouro Preto. O segundo conterá naturalmente os conflitos da minha integração na vida carioca. Terá que ser diferente').
Um dia, descobriu que calcularia melhor a harmonia de uma música do que a estrutura de um espigão e, universitário, amigo de Vinícius e Scliar, começou a trocar o diploma e o anel de engenheiro pelos riscos da carreira de compositor. A 'planta' do que seria a sua nova verdade começou a se materializar num disco de bolso, 'puxado' por Tom Jobim, que apresentava a então inédita 'Águas de Março'. No lado B, João Bosco fazia a sua estreia: Agnus Sei (estreia também da parceria com Aldir, que nada tinha mais de estreante).
Mineiro de Ponte Nova, 28 anos, João Bosco de Freitas Mucci passou dez anos em Ouro Preto, vivendo em comunidades universitárias, enquanto estudava. Quando a bossa-nova surgiu encontrou-o assim: um estudante morando longe de casa. E um estudante que gostava de rock. O curso científico, 2º grau, passou e levou com ele as dúvidas do mineiro que se ensaiava na música, no violão, na informação, E, no primeiro ano da Faculdade de Engenharia, João Bosco começou a compor, conheceu Vinícius, fez música com ele... e repetiu o ano: 'Foi o único ano que repeti na Faculdade e foi o ano em que mais aprendi', me disse, uma vez. Com Vinícius foram feitos Samba do Pouso, Rosa dos Ventos, O Mergulhador e outras. Todas inéditas.
As parcerias com uma das eminências pardas de MPB da época não foram para a cera, mas tiveram o poder de bulir com o jovem mineiro: 'Senti ali a possibilidade de um dia ser profissional em música: passei a encarar as coisas da música com a mesma seriedade com que encarava a engenharia e ficava catando informações, querendo estudar música, com a mesma preocupação que teria se estivesse numa escola'. Nesta altura, João já tinha se decidido pela música. Mas continuou na engenharia, até se formar: 'Estava nos meus planos colher a formação generalizada que o curso poderia me dar'. Havia também Ouro Preto, a cidade em si, que criou toda uma atmosfera misteriosa 'de música, de boemia, de noites em bares, com o meu trabalho sendo permanentemente influenciado por esta atmosfera'.
Da faculdade e do convívio nas repúblicas estudantis, João Bosco trouxe para a música 'a influência de metrificar as coisas, organizar, usar os métodos: por isso não me apressei em vir para o Rio. Sabia que tinha que vir, mas sabia que tinha que vir, mas sabia que precisava do curso, que precisava aprender muito antes de tentar o salto para o profissionalismo'. Esta mineirice valeu até quando ele se formou, casou e veio para o Rio, contratado seis meses antes pela RCA, para começar o primeiro elepê.
- Me apoiei no curso de engenharia para sair dele sem que fosse necessário vestir aquela carapuça de que artista é um marginal. "

(continua)

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Paulinho da Viola - Jornal O Pasquim (1973)

Em sua edição nº 192, de março de 1973, o jornal O Pasquim trazia uma matéria com Paulinho da Viola, assinada pelo crítico e jornalista Sérgio Cabral, intitulada "Ela é da família Viola". A matéria fala do início da carreira de Paulinho e a origem do seu nome artístico, escolhido por Cabral e Zé Kéti, entre outras coisas:
"1968, Paulinho da Viola já era um cara famoso, com uma certa experiência (já havia, até, morado no Solar da Fossa), todo o mundo gostando dele (talento, bom caráter e simpatia, ninguém podia odiá-lo) e começaram a atribuir-lhe uma posição que, absolutamente, não pretendia e nem fazia por onde conquistar: o de revolucionário do samba, o de autor de um samba novo, desligado de tudo que havia sido feito até agora. Isso aconteceu num momento em que se verificou uma rachadura na chamada MPB, quando uma turma equivocada na época colocou o samba na prateleira das coisas que precisavam acabar neste país. O samba. Paulinho da Viola, não, porque, afinal, ele estava noutra. Mentira, ele estava curtindo cada vez mais a velha guarda da Portela, tocando e compondo seus chorinhos, gravando sambas de Wilson Batista, Valzinho, Casquinha e Nelson Cavaquinho e fazendo não só a Portela, mas o Brasil inteiro cantar Foi um Rio que Passou em Minha Vida. E Paulinho pisava num chão tão firme que, depois, a turma entrou na dele e hoje está todo mundo maravilhosamente disputando o Carnaval.
Vascaíno, meia-esquerda do time da Portela, marceneiro amador, amigo de Canhoto da Paraíba, compositor preferido de Noel Nutels, jogador (razoável) de sinuca e tocador de cavaquinho e violão. Tenho-o na conta de um grande brasileiro.
Trabalhava na sucursal carioca da Folha de São Paulo e Zé Kéti quase todos os dias baixava por lá, sempre com sambas escritos a mão num pedaço de papel qualquer à espera que eu copiasse na máquina. (Por isso, servi de testemunha quando ele foi acusado injustamente de ter-se apropriado da marcha rancho Máscara Negra. Zé Kéti chegou na redação da Folha com alguns versos e completou ali mesmo, perto de mim. Fui eu quem datilografou pela primeira vez a letra de Máscara Negra). (Outro parêntese: um dia, a redação paulista da Folha fez um pedido pelo telex: 'localize o compositor Zé Kéti. Saiu no Le Monde uma nota sobre ele. Entreviste-o'. Respondi: 'Está legal. Percorrerei as favelas e os subúrbios à cata de Zé Kéti. Farei todo o possível para localizá-lo'. Zé Kéti estava ali ao meu lado às gargalhadas. Uma hora depois, a entrevista seguia pra São Paulo.)
Naquele dia, Zé estava achando que a gente deveria encontrar um 'nome artístico para o Paulo César, o rapaz que acompanhava todo mundo no Zicartola e começava a cantar alguns sambas de sua autoria.. Concordei com Zé Kéti.
Ilustração de Vilmar
- Um que tenha 'não sei o quê da Viola', - sugeri, me lembrando do Mano Décio da Viola, que é um nome muito bacana.
- Paulo da Viola - respondeu Zé Kéti.
- Então, Paulinho da Viola - completei, entrando nós dois num acordo e estabelecendo um nome definitivo para o Jacaré.
Já contei essa história uma vez numa revista, mas saiu tudo truncado, de maneira que estou repetindo e revelando pela primeira vez ao público como surgiu o nome do Paulinho da Viola, um dos vencedores do Carnaval de 1973 com um samba que leva o seu sobrenome: Guardei Minha Viola.
Conheci Paulinho numa reunião musical na casa de um amigo (ele não me era muito estranho. Acho que o já tinha visto na casa do Jacob do Bandolim). Havia algumas pessoas tocando um violão prafrentex e alguém lhe pediu que tocasse também.
- Deixa pra lá, eu sou quadrado -  e Paulinho não tocou.
Depois, ele foi aparecendo nuns  shows que a gente promovia em faculdades e foi numa dessas vezes que o vi pela primeira vez cantando: se não me engano, na Escola Nacional de Química da antiga Universidade do Brasil, na Praia  Vermelha. Em seguida, veio do Zicartola e Paulinho já era um cara indispensável como acompanhador do pessoal que cantava (Zé Kéti, Cartola, Ismael Silva etc. O Nelson Cavaquinho sempre se acompanhava). Saía da Folha com Zé Kéti e ia apanhar o Paulinho no Banco Nacional de Minas Gerais, agência Presidente Vargas, onde trabalhava. Às vezes, havia uns serões e ele só saía de lá dez horas da noite. Isso tudo foi no ano de 1964 e um pouco de 1965. Paulinho já cantava e fazia sucesso junto a um público ainda não muito numeroso.
Em 1966, ele já era razoavelmente conhecido e o contratei para a Casa Grande, no seu primeiro elenco permanente. Paulinho e Elto Medeiros (o pessoal escreve sempre Elton ou Eltom, mas o certo é Elto) cantavam seus sambas em meio a um show que, modéstia à parte, reunia os melhores sambistas brasileiros. Por essa época, gravava o primeiro LP (ele e Elto) na AGE, começava a estudar música com mais seriedade, teve um samba classificado no primeiro festival da TV Record, participou do espetáculo Rosa de Ouro e começava a profissionalizar-se.
Já ia longe o dia em que Paulinho conheceu Hermínio Belo de Carvalho (cito muito o Hermínio porque é um cara muito ligado) na agência do banco em que trabalhava, e começava praticamente aí sua carreira, quando foi inscrito na I Bienal do Samba, na TV Record, e aconteceu um troço do qual não sei se devo me envergonhar de ou não. Foi o seguinte: a sua música era a que talvez seja sua obra-prima, Coisas do Mundo, Minha Nega. Cantada por Jair Rodrigues, que mal conhecia a letra e a melodia, o samba não ficou para a final. Um ou dois dias antes de finalíssima, uma emissora de televisão de São Paulo, de pura safanagem (*) e de dedurismo, exibiu o filme Rio Zona Norte, no qual era cantado o samba que Zé Kéti inscreveu na Bienal e que ficava, portanto, impedido de participar, pois o regulamento só permitia músicas inéditas. Toda a comissão julgadora foi convocada às pressas e tivemos que escolher entre os desclassificados um samba para substituir o de Zé Kéti. Quando o gravador transmitiu o Coisas do Mundo, Minha Nega, cantado pelo próprio Paulinho, todo mundo ficou com cara de bobo, até que alguém perguntou: 'Como é que desclassificamos uma música destas?' E o samba entrou e acabou entre os primeiros lugares, só não me lembro exatamente qual. "

(*) Na época a palavra "sacanagem" era considerada um palavrão. Então se usava "safanagem", de proximidade fonética, e que tinha o mesmo sentido.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Matéria Antológica - Revista Veja (1975) - 5ª Parte

A matéria trazia ainda dois boxes destacando novos nomes que estavam surgindo, e que poderiam ser considerados boas promessas para enriquecer o cenário de nossa música. Um box destacava artistas ligados à MPB, e outro a grupos ligados ao rock e à MPB regional:
"Os, apesar de tudo, estreantes:
Apesar dos árduos obstáculos comuns, nem sempre compreendidos por suas plateias, este bloco de revelados tem, entre si, uma variada faixa de estilos e influências, que os destaca de outros estreantes menos estabelecidos. Seus caminhos:

Sueli Costa - A mãe, no subúrbio de Benfica, em Juiz de Fora, era 'Dona Maria Pianista'. Nascida no Rio, 'por problemas de parto', Sueli Costa estudou piano desde os 4 anos, mas aprendeu violão instantaneamente, 'para não ter que explicar a um amigo que não sabia tocar'. Compositora, gravada desde de 1967, por Nara Leão ('Por Exemplo, Você'), manteve-se como professora, enquanto suas músicas fortaleciam discos de Elis Regina ('Vinte Anos Blues'), Fábio ('Encouraçado'), Maria Bethânia ('Aldebarã', 'Assombrações', 'Demoníaca') e Ney Matogrosso ('Açúcar Candy'). Lançada num LP próprio este ano, com seu fio de voz, ela mostra um magnífico repertório de cores próprias, descendente tanto do blues quanto do samba-canção.
Lô Borges
Lô Borges - Aos 13 anos, já era amigo de Milton Nascimento, em Belo Horizonte, onde nasceu, e tocava todo o repertório dos Beatles, em festinhas. Em 1968, aos 18 anos, Salomão Borges Filho já tinha três músicas gravadas por Milton. Participou também, do álbum duplo 'Clube da Esquina', com oito outras. E ganhou um LP individual, em 1972, numa época 'em que eu nem sacava qual era a minha'. Três anos depois, sustentado por direitos autorais (1.000 cruzeiros por mês), acha-se apto à estreia definitiva, com um grupo próprio e um LP planejado.
Walker - Filho de um poeta e uma professora de piano, Carlos Walker Luna, 22 anos, carioca criado em São Paulo, pertence à geração do 'gênio televisor'. Preferia 'O Fino' ao 'Jovem Guarda', o violão e os livros ('Cecília Meireles e Cassiano Ricardo são meus namorados') a tudo o mais. Em 1969, venceu um festival em Santos. Mas só a maciça difusão de 'Alfazema', na trilha sonora da novela 'O Espigão', tornou-o conhecido. Colocou, a seguir 'Beatrice', em Escalada. Cantou 'Adeus', de Dorival Caymmi em 'Gabriela', além de lançar um LP, 'A Frauta de Pã', perfumado de suas etéreas preferências poéticas, assentadas sobre músicas de inspiração barroca.
Carlinhos Vergueiro -  Lançado com 'Só o Tempo Dirá', no Festival Universitário de 1971, o neto de um professor de piano e filho de um crítico musical, Carlos de Campos Vergueiro gravou um LP ('Brecha'), antes mesmo de vencer o Festival Abertura, com sua 'Como um Ladrão'. Paulista, ex-funcionário da Bolsa de Valores, compositor desde os 16 anos, Carlinhos, aos 23 anos, está num segundo LP ('Só o Tempo Dirá'), de letras menos ingênuas, e é autor da frase, que se tornou uma espécie de lema de sua geração: 'Só peço que não nos deixam mudos, pelo amor de Deus'.
Leci Brandão -  Ex-operária, ex-telefonista, Leci Brandão, 26 anos, carioca, começou com uma dolorida composição estilo bossa-nova após uma briga com o namorado. Sua irremomível inclinação para o samba, no entanto, levou-a até a ala dos compositores dos Beijoqueiros de Realengo. Venceu três concursos de samba-enredo, o II Encontro Nacional do Compositor de Samba ('Quero Sim') e logrou um honorável terceiro lugar ('Pela primeira vez uma mulher') entre os sambas da Mangueira para o carnaval passado. 'Antes que Eu Volte a Ser Nada' é seu primeiro LP, recém-lançado, sob influências de Paulinho da Viola e Martinho da Vila.
Ednardo - Em 1962, todos se reuniram no bar Anísio, de Fortaleza: Belchior, Fagner, Rodger, Tetti e José Ednardo Soares Costa Sousa. 'Havia muita coisa a mostrar que a província não comportava' - e todos emigraram. Agrupados em São Paulo no Pessoal do Ceará, fizeram um LP, 'embora a única faixa em conjunto tenha sido 'Cavalo Ferro'. O esperado cisma ocorreu. Ednardo participou sozinho do Abertura ('Vaila') e lançou um LP individual, numa hábil fronteira entre o cordel e o rock, Pavão Misterioso': 'Não temas minha donzela/ nossa sorte nessa guerra/ eles são muitos mas não podem voar'.
Dussek e Gil
Duardo Dusek(*) - Cita Stravinsky, Eric Satie, Noel Rosa, Egberto Gismonti, Carlos Lyra e nenhum compositor de rock: 'Sou contra modismos, uma valsa pode ter a mesma agressividade de um rock'. No entanto, Duardo Dusek, filho de checos e húngaros, 21 anos, carioca, 64 quilos para quase 2 metros de altura, lembra um esguio David Bowie caboclo, com suas louras sobrancelhas raspadas. Formado em arquitetura, aluno do conservatório desde os 6 anos, ator ('As Desgraças de uma Criança', 'A Dama das Camélias') e pianista, Dusek foi descoberto na série 'Mostragem', apadrinhado por Gil. Compõe em todos os gêneros, 'retirando a música do próprio poema' (em geral, textos de Cássio Ferrer).
Marcus Vinícius - Com base nas emboladas, o baião, frevo e maracatu, o pernambucano Marcus Vinícius, 26 anos, fez um LP na fronteira da vanguarda ('Dedalus'), no ano passado - discreto, mas aplaudido pela crítica. Dezoito anos de nordeste (iniciou sua carreira na mesma época que os pernambucanos Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Naná), disputou e venceu vários festivais regionais. Estudou e a seguir ensinou música contemporânea no Instituto Villa-Lobos, em 1968, depois dirigiu a programação do Museu de Arte Moderna, do Rio. Vinícius - apesar de suas raras aparições públicas - é uma das mais vigorosas revelações da geração pós-Tropicalismo.

Os grupos, do rock ao folclore:
Embora sem rigorosas identidades coletivas, a nova geração com frequência associou-se em grupos de tendências variáveis e nem sempre compatíveis. As influências vão do mais casto folclore brasileiro ao obsessivo rock internacional. Alguns exemplos mais contundentes:

Quinteto Violado -  Exceto Sandro (Alexandre Johnson), primeiro flautista da Orquestra Armorial do Recife desde os 14 anos, todos os outros sobreviviam fora da música. Fernando Filizola (viola) é administrador de empresas. Luciano Pimentel (percussão) é economista. Marcelo Melo (violão) é agrônomo. Toinho Alves (baixo) é químico industrial. Quatro LPs e inúmeras excursões, depois de descobertos por Gilberto Gil, em 1971, os Violado vivem de sua atividade de recolher, arranjar e adaptar temas do folclore nordestino. Preferem os instrumentos acústicos e, nos últimos tempos, seus espetáculos são uma espécie de didáticos audiovisuais sobre o nordeste.
O Terço - Lançado em 1969, um ano após os Mutantes, o Terço, em seu início (Jorge Amidem, Vinícius Cantuária, César das Mercês e Sérgio Hinds), foi considerado uma espécie de versão carioca do grupo paulista. De 'Tributo ao Sorriso', no FIC, aos festivais de Juiz de Fora, o grupo se destacava por usar a triviola (uma guitarra de três braços, fabricada por Amidem) e seus vocais harmoniosos, próximos ao folk. Hoje, com plateias cheias, na altura do terceiro LP ('Criaturas da Noite'), Sérgio Hinds (guitarra), Sérgio Magrão (baixo), Flávio Alterosas (teclados) e Luís Moreno (bateria) tocam um rock calculado, de influência inglesa, enquanto seus espetáculos são os que apresentam o mais obstinado cuidado cênico no rock brasileiro.
Banda de Pau e Corda - De início, numa boate própria, Olho Nu, do Recife, em 1972, os instrumentos, 'muito rústicos', justificavam o nome do grupo, equipado agora também com  bateria, flauta metálica e baixo moderno. Dois LPs gravados e apenas um de seus seis jovens integrantes (idades entre 16 e 26 anos) ainda estudando, eles exibem com êxito, no Rio, o show 'Alegoria'. Seguem uma linha parafolclórica (cirandas, maracatus, frevos, candomblé), que lembra o Quinteto Violado, mas recusam comparações: Pegamos temas presentes na cultura nordestina e procuramos criar em cima. É um grupo de vivências'.
Vímana - 'Aquela carruagem que os deuses usavam para vir à Terra. O rock para nós é isso: possibilidade de salvação deste mundo poluído, cheio de guerra', diz Lulu, guitarrista e líder do conjunto, formado ainda por Fernando (baixo), Luís Paulo (teclado) e João Luís (bateria). O grande parâmetro do Vímana é o inglês Yes, o que fez o baterista anterior, Candinho, seguidor do guru Maharish Manhesh, abandonar o conjunto, 'porque queria improvisações e não harmonias programadas'. Hoje, tentando o balançado gênero funk, o grupo reclama da impossibilidade de exibir a potência de seu equipamento de 190.000 cruzeiros, 'pela má organização do rock brasileiro'.
Raízes -  Charlie, Ângela, Tino. Ângelo, Joba e Rui uniram-se no início de 1973, dispostos a partir das fontes 'do grande e desconhecido folclore da região centro-oeste brasileira'. Gravaram um LP, no ano passado, na Continental, baseado em instrumentos acústicos e uma pretensão um tanto impostada: 'O amor pela terra e a consciência de fazermos parte de um povo que precisa trazer de volta sua memória histórica e emotiva'.
Grupo Capote - Nascido em 1971, quando fez uma série de espetáculos com o ex-tropicalista Tom Zé o Ca (de canto) Po (poesia) Te (teatro) move-se 'numa estrutura musical entre o forró e o rock mágico, acrescido de um swing quebrado na letra e na poesia'. Sempre na fronteira entre a sátira e o mero trocadilho, o Capote, com cinco integrantes, liderado  por Odair Cabeça de Poeta, obteve repercussão com 'Tá Cumeno Vrido' e 'Feira da Fruta', depois retirada de circulação, no seu primeiro LP, em 1973. Com o êxito de seu último show, 'Um Diploma de Prata para o Dr. Forró', o grupo decidiu-se pela influência nordestina. Ou: 'Nem a aranha arranha a rã/ nem a rã arranha a aranha'.
Almôndegas - Ensaiando numa sala de porão, cedida pela Sociedade Germânia de Porto Alegre, em troca de shows gratuitos, os Almôndegas estão entre os raros casos de sucesso fora do eixo Rio-São Paulo. Estreantes da Primeira Mostra de Música da cidade, em 1972, ainda como um bando desordenado, Kledir e Kleiton Ramil, Eurico Guimarães, João Batista e Gilnei Silveira firmaram-se com seu 'anti-nome' na TV local, a partir de 1973. Seu LP único, deste ano, com 'um som acústico, mais natureza', vendeu 15.000 cópias, apenas em sua região, e o segundo, já encomendado, incluirá 'folclore gaúcho, com arranjo especial'. Na trilha do grupo, há cerca de um ano, 'formaram-se vários conjuntos musicais em Porto Alegre, de diversas tendências'.
A Barca do Sol - Construído sob a divisa 'o clássico e o pop reunidos', o sexteto carioca A Barca do Sol começou num trio, em 1971: Nando Carneiro (violão), Muri (violão e viola) e Marcelo Costa (percussão). Com eles, agora, tocam Jaquinho Morelembaum (violoncelo, violino), Alan Magalhães (baixo), e Richie Court (flauta). E o grupo - atualmente em longa excursão pelo sul - prepara o segundo LP, quando o flautista Court (que vai para o Vímana) será substituído. A atual formação se definiu há dois anos, no Concurso de Música de Férias de Curitiba, apadrinhados por seu mais forte influenciador, Egberto Gismonti. 'Não adianta imitar o som americano ou o rock inglês porque a gente tem outras raízes.' "

(*) Na época Eduardo Dussek adotava o nome artístico Duardo ao invés de Eduardo. Anos depois, ele diria que o Duardo era 'frescura de início de carreira'

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Matéria Antológica - Revista Veja (1975) - 4ª Parte

"Com uma dezena de músicas gravadas por cantores famosos, Fagner em muito pouco se assemelha ao mineiro Sirlan Antônio de Jesus, de 24 anos. Autor de quase uma centena de composições, só conseguiu gravar um compacto simples. De um lado, 'Viva Zapátria', classificada no Festival Internacional da Canção de 1972. De outro, 'Super-Herois', laureada no Festival de Cataguases, Minas Gerais. Não se trata de um caso de pouca inspiração. Nem de mais um compositor que brilha e desaparece pra sempre. Os privilegiados que conhecem a imensa produção de Sirlan atestam a lucidez e o alto nível de seu trabalho. E, pelo menos nesse caso, o tão comum pouco interesse das gravadoras também também não é responsável pela reduzida discografia do jovem mineiro. 'Parei de tentar divulgar meu trabalho porque descobri que era o mesmo que levar gato pra nadar - não ia adiantar.' Até nova tentativa, portanto, Sirlan continuará inédito. apenas vislumbrando em suas palavras: 'Eu acho que canto Minas, aquela opressão, o clima fechado, o fato de você ter que sair de lá para fazer as coisas. Uma música parada, marcada pelos órgãos das igrejas mineiras'.
Um clima em tudo diferente do criado pelo pernambucano Alceu Valença, de 29 anos. Embora não tenha passado pelas mesmas vicissitudes de Sirlan, desesperou-se um dia com a rala plateia (cinco pessoas) de seu show 'Vou Danado pra Catende', no Teatro Thereza Raquel do Rio. Armou-se de um megafone e saiu pelas ruas conclamando o povo a ver seu espetáculo. Com uma figura, ao mesmo tempo, de rockeiro e de cantador nordestino, viu sua tenacidade recompensada. As poltronas foram ocupadas por um público delirante, fascinado com a força do som e da presença cênica do artista, amadurecido num trabalho conjunto, inicialmente com Geraldo Azevedo, e hoje com Zé Ramalho da Paraíba. De casas lotadas, terminou a temporada. E outra, imediatamente - fato raríssimo na vida musical carioca -, foi inaugurada, desta vez no Teatro Casa Grande, onde o show fica em cartaz até o dia 28.
Mais conhecidos, os Novos Baianos não precisam se valer de métodos tão desesperados para conseguir audiência. Agora, por exemplo, excursionaram pelo Brasil, numa prolongada turnê que vai de Porto Alegre ao Nordeste. Reunidos numa alegre, e, graças à cantora Baby Consuelo, sempre grávida comunidade, o sítio Cantinho do Vovô, em Jacarepaguá, viviam fazendo música e jogando futebol. 'O que sustentava a gente eram os direitos autorais', lembra o meramente Galvão, líder do grupo. 'Mas um dia a situação ficou difícil e a gente que trabalhar muito, de novo.'  Afinal, são quinze pessoas, com as crianças, ainda vivendo comunitariamente, agora numa casa do bairro Brooklin, em São Paulo. 'Nós não somos a favor nem do rock nem do samba. Somos tudo, um som que passa pela nossa cabeça.'
Surgidos em 1969, com cinco LPs gravados, estrearam num festival inimigo, por força de estatutos, da guitarra. 'Queremos ver os Beatles pelas costas', era o lema do certame.
Aquela época, aliás, marcou também o surgimento de dois autores que pacientemente batalhavam nas ante-salas das gravadoras e nas coxias dos teatros. A rigor, os cariocas Jards Macalé e Jorge Mautner, ambos com mais de 30 anos e esporádicas aparições ainda nos anos 60, não poderiam se incluir entre os novíssimos  da música brasileira. Macalé todavia, gravou seu primeiro disco só em 1971. Mautner, embora escritor conhecido e atuante em São Paulo, surgiu em LP no ano seguinte. E foi um desastre. Pois a gravadora o colocou numa série mais barata ('Discos Pirata') e saiu impresso na capa o preço do disco. Para surpresa apenas dos que desconhecem a estrutura viciosa do mercado musical brasileiro, as lojas boicotaram seu trabalho.
Assim, enfrentando o que o zagueiro Fagner chamaria de marcação cerrada, os, perdão, novos compositores vão tentando forçar seu caminho, fitando oponentes e estoicamente tocando a bola pra frente. Um teatro lotado hoje, um disco estourado amanhã, quem sabe um dia eles ganhem o mando de  campo? 'Eu não me sinto por baixo', Fagner explica. 'Nem por cima por cima. De ninguém. Não estou fazendo nada contra ou a favor de ninguém. Estou no meu lugar.' Raul Seixas transforma sua esperança em versos: 'Na curva do futuro/ Muito carro capotou./ Talvez por causa disso/ E estrada ali parou/ Porém, atrás da curva perigosa/ Eu sei que existe alguma coisa nova/ Mais brilhante/ Menos triste'. Não depende quase nada dos artistas, insiste Raul. 'Você só pode ver o novo se tiver olho novo.' "

(continua)

domingo, 7 de agosto de 2016

Matéria Antológica - Revista Veja (1975) - 3ª Parte

"Seria ótimo se elogios bastassem. Se o reconhecimento de celebridades derretesse a gélida mentalidade comercial das gravadoras, cuja atuação é 'de uma incompetência cósmica', no dizer de Walter Franco. 'Não estou interessado em nenhuma teoria/nenhuma fantasia e no algo mais/ nem tinta no meu rosto/ oba-oba ou agonia/ para acalentar bocejos'(*), como escreveu Belchior. Que, em outra música, distribui uma carapuça geral: 'Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém/ Mas é você que ama o passado e não vê que o novo sempre vem'. Para, com sinceridade pungente, enterrá-la na própria cabeça em outra composição: 'Minha dor é perceber que apesar de tudo que fizemos/ Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais'(**).
Sinceridade, honestidade, objetividade - três das palavras mais usadas pelos críticos ao comentar versos da 'turma dispersa'. Explica-se. A maioria dos novos compositores possui formação universitária. Walter Franco é filho do falecido deputado socialista Cid Franco, 'um político-poeta ou um poeta-político', como amorosamente define o filho, acostumado desde menino a ver em sua casa os escritores Mário e Oswald de Andrade e o poeta Manuel Bandeira. Os ídolos de Franco, quem são? 'John Lennon, o vanguardita-erudito, o americano John Cage e João Gilberto - a santíssima trindade dos Joões.'
Fagner, por sua vez, incorpora orgulhosamente a seu currículo estudos em Paris com o guitarrista flamenco Pedro Soler e com o cantor espanhol Pepe de la Matrona. Já musicou versos de Garcia Lorca. Já escreveu poemas para músicas de Villa-Lobos. Largou o curso de arquitetura no primeiro ano, como também ocorreu com o surpreendente Raul Seixas, que fez vestibular para filosofia, psicologia e direito, sendo  aprovado em primeiro e segundo lugar, 'só para mostrar aos meus pais como era fácil ser medíocre'.
João Bosco, ao contrário, terminou o curso de engenharia, e Gonzaga Jr, formou-se pela Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas da Universidade Cândido Mendes. E Belchior, com um diploma de filosofia da Universidade do Ceará, abandonou a medicina no quarto ano.
São títulos que Oswaldo Melodia, pai do compositor Luiz Melodia, sempre desejou para o filho. Se não isso, pelo menos um emprego estável, 'talvez funcionário público da Petrobras ou qualquer outro órgão assim'. Na verdade, o menino nunca gostou de estudar. Passava a maior parte do dia no morro de São Carlos jogando futebol com amigos ou na praia do Calabouço. Faltava sistematicamente às aulas e apanhava da mãe costureira, porque chegava tarde em casa, embevecido com a natureza e a calma de seu pedaço de mar. O pai, aposentado, era um grande tocador de viola e acompanhava Nelson Cavaquinho e outros compositores da velha guarda.
Até hoje Luiz visita a casa de reboco e sem pintura onde moram os pais e três irmãs. Quando nada, para a mãe trançar todo seu cabelo, uma coisa de que ele gosta muito. Como também de cinema, filmes policiais e desenho animado na televisão. Lê pouquíssimo. Mas sente demais as coisas, como demonstrou a Lúcia Rito, de Veja: 'Com os amigos aqui do morro não existe a mesma aproximação de antes. Às vezes falo do que aprendi fora e as pessoas não compreendem. E também há a violência que machuca. É só ver a barra pesada das pessoas, lutando com quatro, cinco, sete filhos pra criar.
Ultimamente, Melodia tem tocado e composto muito pouco. Seu estado é de 'observação das coisas e das pessoas'. Para ele, a calma é essencial. Detesta pessoas autoritárias. Excessivamente tímido, ao contrário do alucinado cantor de 'Ébano' que a TV Globo mostrou no Festival Abertura, ele se julga também ingênuo. 'A ingenuidade dos meus tempos de moleque continua presente em mim, apesar das pauladas.' Exemplo oposto, da excessiva divulgação, foi o de Ivan Lins, que com Gonzaga Jr., César Costa Filho, Aldir Blanc, Silvio Silva e Emilio Costa formava o grupo MAU (Movimento Artístico Universitário). Exposto no programa Som Livre Exportação, de 1971, 'foi estraçalhado', segundo Gonzaga Jr. 'A televisão comeu o grupo.'
Apesar de recentemente sumido do público, embora por outros motivos, Raul Seixas também está em plena atividade - matrimonial, inclusive, pois acaba de se casar, pela terceira vez. Eternamente agitado, parece adorar não apenas seu trabalho como também falar dele. 'Dentro da música  brasileira eu não me coloco em lugar nenhum. Eu sou Raul Seixas. Minha linha musical é carnaval, é rock, cha-cha-cha, não importa. Meu ritmo é o do planeta Terra. É o ritmo da raça humana. O único em que eu poderia viver. O ritmo em que meu coração bate, o ritmo de levantar a cabeça.' Entre outras coisas, está escrevendo um livro para crianças, 'muito elucidativo, onde conto, por exemplo, como inventaram a gravata. E também a história do rei que calçava sapatos 39 e ordenou que todo mundo usasse o mesmo número, sem levar em conta que, na natureza, tudo é diferente. Até as folhas de uma árvore são diferentes'. Cabelos curtos, barba arruivada. Raul veste uma calça Lee, um quimono aberto ao peito e um crachá, com fita e tudo, pendurado no pescoço. Na porta de seu apartamento no Leblon, um aviso: 'Vá embora'. Dentro, graças à ioga e ao karatê, ele se adestra diariamente, mantendo inalteráveis os 57 quilos que pesa há dez anos. 'Sou um ator da vida, pode crer.'
Fagner, por sua vez, prefere exrcitar-se no futebol - nas laterais e como quarto zagueiro. 'Meu pai é um sírio que chegou aqui com 27 anos. Ele fazia parto em vaca. Minha mãe é do interior de Orós', contou a José Márcio Penido, de Veja. Sorriso largo, mãos grandes e inquietas, Fagner descreve apaixonadamente o seu trabalho. E se incendeia de santo furor ao falar de todos que criam obstáculos à criação - sua e dos companheiros. 'Gosto de de cantar as coisas mais escondidas', ele confessa. 'Sou o poeta do sufoco, do gemido, do pânico. Eu canto de todo jeito. A minha razão sempre se emociona quando o momento brilha. Meu disco 'Ave Noturna', por exemplo, é choro da primeira à última faixa. Aliás, está todo mundo chorando. Essa é a grande verdade. Todos têm o que dizer - e tudo quer acontece é contra. Tudo que você escuta tem o lamento do sufoco.'
Fagnerjá conheceu dias mais alegres. Há três anos, lançado por um ruidoso e poderoso grupo de intelectuais do Rio de Janeiro, cantou 'Mucuripe' no Disco de Bolso que trazia, no outro lado, Caetano Veloso interpretando 'Asa Branca'. Em 1973 lançou o LP 'Manera Fru-Fru' e, com Chico Buarque, compôs a trilha sonora do filme 'Joanna Francesa', de Cacá Diegues, com Jeanne Moreau. Mas não se recorda com saudade desse período. 'Algumas pessoas me idolatravam. Eu era uma revelação. Teve aquele negócio de boates, vida noturna, colunas sociais, badalação. Fiz temporadas com Nara Leão pelo Brasil. Produzi o disco do percussionista Naná. Joguei no Maracanã. Aí minha cuca fundiu. Eu não estava acreditando mais em mim. Fui para a Europa, fiquei três meses. Mas nada me atisfazia. Eu andava de roupa preta. Só faltava botar luto no meu violão. Cantei no Olympia  e achei uma tristeza. Afinal, concluí: por andar com a elite, elitizaram minha música. E não é nada disso. Hoje, passado algum tempo, reencontrei meu equilíbrio e minha harmonia. Aceito agora a badalação nos seguintes termos: quando eu trabalhar, quero que badalem meu trabalho. Pois ele é uma grande verdade.' "

(continua)

(*) A letra de Alucinação, ainda inédita na época, aparece um pouco diferente de como foi gravada
(**) Há uma segunda citação da letra de Como Nossos Pais, mas a matéria diz tratar-se de outra composição. A música também ainda era inédita

sábado, 6 de agosto de 2016

Matéria Antológica - Revista Veja (1975) - 2ª Parte

'No entanto, eles teimam. Isolados, dispersos, eles resistem. A união faz a força, mas, já que ela é impossível, cada um faz e toca seu trabalho com a autonomia de um cavaleiro no comando de sua montaria.
Assim age, por exemplo, Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, ou só Belchior, cearense de Sobral, 29 anos e 23 irmãos. Nunca teve grupo ou empresário. Ele diz que resolveu o problema da comercialização de sua obra através de um trabalho composto de viagens e de um violão. 'Onde eu chego, transo o som, local, pessoas. E canto'. Raimundo Fagner Cândido Lopes, outro cearense, de Orós, 25 anos incompletos, também agencia, ele próprio, sua carreira. Afinal, sua paciência com os mercadores da música terminou há muito tempo. Diz Fagner: 'Eu sou um cara que consigo as coisas porque vou lá e brigo. Não quero saber se tem secretária mandando eu não entrar, eu abro a porta, vou lá e pergunto qual é. Porque, quando você conversa com esses caras de gravadoras, parece que você está falando de laranja e banana. Os caras que mais odeiam música são os que trabalham com ela. A música brasileira está numa véspera, num quase. O sistema é que atrasa a explosão. Se derem vez às pessoas certas, aí o negócio estoura. Mas, do jeito que está, a gente só pode mesmo chegar no dono da gravadora e esculhambar, dizer que eles não estão sabendo de nada, esculhambar eles tudinho mesmo'.
O plano do raivoso Fagner é 'ganhar muito dinheiro, comprar minha gravadora e gravar quem eu quiser'. Se conseguir, certamente privará seus contratados de aborrecimentos, pressões e incompreensões que ele e seus companheiros  de geração sistematicamente recebem, principalmente das companhias de discos. Assegura o capixaba Sérgio Sampaio, de 28 anos, autor de 'Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua', a explosão do Festival Internacional da Canção de 1972: 'Passaram a me exigir novos Blocos'. Antes disso, Sampaio fizera um inquietante LP com Raul Seixas, Edy Star, e Miriam Batucada, 'A Sociedade da Grã- Ordem Kavernista'. O disco se abria com uma banda de circo e se encerrava com uma sonora descarga de vaso sanitário. Não vendeu nem 500 cópias e mereceu, da CBS americana, uma carta dirigida à sua filial brasileira com uma única frase: 'O que está acontecendo?'
Mais que Sampaio, o paulistano Walter Franco, de 30 anos, autor de um único LP, 'recolhido antes de chegar às lojas', vem enfrentando implacável oposição. Com sua fala lenta, suave, quase tímida, ele não se mostra, porém, desesperado. Afirmou Franco a Antônio Chrysóstomo, de Veja: 'As coisas mais simples são as mais profundas - e vice-versa. Uma delas, uma das poucas certezas que tenho, é a de que os homens se dividem, desde os tempos não registrados pela História, em grupos e tribos. E existe uma, a tribo dos que caminham à frente da manada, dos que amam, dos que têm fé neles mesmos e em suas pequenas, infinitas descobertas. Essa tribo sempre foi necessária - e odiada. É a minha. Diminuta, composta de gente que pretende a harmonia, o belo, e que se nutre de amplos espaços, que os outros só ocuparão muito tempo depois'.
A monástica serenidade de Franco contrasta com o desabafo do palavroso baiano Raul Seixas, nascido, como gosta de lembrar, no mesmo dia e hora em que a bomba atômica caía sobre Hiroxima, em junho de 1945. Raulzito está gravando um novo LP, 'Caminhos' (*), de messiânicas intenções. 'Eu não me tranco em hermetismos para benefício do meu ego. Quero abrir. Falar claro, objetivo, como tenho feito, porque as pessoas hoje em dia andam de cabeça muito baixa, estão necessitando de caminhos novos. Existem várias, várias saídas. Porque se não existissem, eu daria um tiro na cabeça. Eu dou aberturas, alternativas, eu sou.'
O mais popular dos atuais autores brasileiros, com cerca de 300.000 discos vendidos em dois anos, Raul Seixas, fundador do primeiro grupo de rock da Bahia, Os Panteras, mantém-se ainda hoje fiel ao ao ritmo que o inflama desde a adolescência. 'Para mim, o rock sempre foi um comportamento, uma revolução social o espelho social de uma época. Ele era pra mim toda uma maneira de ser, de vestir, de falar. Na faculdade de filosofia, o pessoal me chamava de entreguista por eu gostar de rock. Pensavam que era só uma dança de americano. Na verdade, é algo revolucionário que originou os Beatles, os hippies, um insight cósmico inevitável'.
O rock também permanece nas origens de João Bosco de Freitas Mucci, mineiro de Ponte Nova, 29 anos. Em 1958, ao ouvir 'um cara muito louco chamado Little Richard', ficou 'inteiramente alucinado'. Já tocava violão e logo partiu para um conjunto, o Charme Boys. A paixão só arrefeceu quando se mudou para Ouro Preto e ouviu falar da Bossa Nova. Na velha cidade, 'um lugar lindo mas muito pesado', conheceu um dia Vinícius de Moraes. 'Era birita, violão e música noite adentro.' Com ele chegou mesmo a compor uma inédita canção. E graças ao poeta, aproximou-se de Tom Jobim, que além de escrever a contracapa de seu primeiro LP, lançou o novato nos extintos Discos de Bolso do jornal O Pasquim. Formando uma dupla invariavelmente feliz com o carioca Aldir Blanc, Bosco penetrou na boca do povo através da irretocável gravação, por Elis Regina, de 'Dois pra Lá, Dois pra Cá'. E não parou. Atualmente, composições como 'Kid Cavaquinho' e 'O Mestre-Sala dos Mares' chegam muitas vezes a sobrepujar, na programação das rádios, a enxurrada de fitas originais importadas. 'Eu e João estamos juntos no gole de cachaça, na arquibancada, no salão de sinuca', diz Aldir Blanc.' Admiro sua simplicidade, a busca de algo puro, não no sentido ingênuo, mas a busca do que a vida tem para mostrar e é preciso aprender.'
Com suas criações trabalhadas por diversos cantores, João Bosco pensava poder viver de seu trabalho musical. Curiosamente, porém, os direitos autorais arrecadados pela Sociedade Independente de Compositores e Autores Musicais - SICAM - sempre lhe pareceram minguados demais, desproporcionais ao sucesso que rádio e discos atestavam. Ele então exigiu que a SICAM lhe permitisse conferir pessoalmente as contas. 'Tinha alguma coisa errada. Ao pedir a revisão, porém, fui sumariamente expulso da Sociedade.'
Sérgio Sampaio ilustra o descalabro reinante na arrecadação de direitos autorais. 'Você sabe que, se eu romper com as SICAM, a minha arrecadadora, paro de receber os royalties da vendagem e da execução de 'Bloco na Rua'? Dizem que esse dinheiro vai para um certo bolo que é rateado entre os compositores que permanecem. Quer dizer: eu estou recebendo a grana de todos aqueles autores que saíram de lá. Se eu soubesse o que ganho deles, devolvia a quem de direito. Mas nem isso sei.'
De fato, 'é um mistério na mão de poucos', sentencia Luiz Gonzaga Nascimento Júnior, carioca, 29 anos, filho do Rei do Baião. Um dos diretores da Sombras, entidade recém-criada para lutar pelos interesses dos artistas ligados à música popular, Gonzaguinha exemplifica a escandalosa situação. 'A arrecadação de direitos autorais no Brasil inteiro é equivalente ao coletado só na cidade de Buenos Aires.' Outras garras afiadas, porém sempre perseguiram Gonzaguinha. O programador de uma rádio lhe explicou por que  seus discos não eram executados. 'Suas letras são longas, difíceis.' A imagem na televisão também não agradava aos produtores. 'Você é muito parado, usa roupas sérias. Não dá pra sorrir um pouco, mesmo no final da  música? Afinal, você é jovem.' Não bastasse tudo isso, contou ele a Joaquim Ferreira dos Santos, de Veja, ainda sofre outro tipo de solapamento. Bilhetinhos e telefonemas são recebidos nas salas dos programadores das rádios, aconselhando a não execução de suas obras.
Idênticas queixas manifesta Luiz Carlos dos Santos, o Luiz Melodia, carioca do Estácio, 24 anos. Fala mansa, mexendo de vez em quando no boné de feltro marrom que usa constantemente, Melodia viu seu disco 'Pérola Negra' desaparecer milagrosamente das lojas. Trocou a gravadora Phonogram pela Som Livre e prepara novo LP. 'Queria apenas poder gravar sempre e que todos entendessem a música. Mesmo se um dia eu perder a audiência, queria ter alguém pra me ouvir cantar. Sou um criador sério e por isso mereço respeito.'
Com tão precários e ineficientes métodos de divulgação, entretanto, Melodia, como os companheiros de geração, dificilmente conseguirá se fazer ouvir por grupos menos acanhados que os formados hoje por seus admiradores. No entanto, embora poucos, são entusiastas. Como o maestro e compositor Guto Graça Melo. 'As músicas de Melodia são muito fortes, pois extremamente pessoais. No panorama atual da música brasileira, ele não apresenta semelhança com ninguém.'
Elogios, aliás, não faltam a nenhum dos novos compositores. Elis Regina, deslumbrada com o talento de Belchior, declara: 'Belchior não faz nada por fazer, não vive de paetês e lantejoulas, e descreve muito bem a exploração do nosso subdesenvolvimento cultural. Estou impressionadíssima e apaixonada por sua música. Estou selecionando músicas de novos compositores para meu próximo LP e confesso: é a primeira vez, em três anos, que não enfrento o problema de falta de material'. Nara Leão, que já gravou composições de Fagner, explica porque. 'Gosto dele, pois, sem perder seu acento, sua nordestinidade, ele consegue ser moderno, entendido em qualquer lugar, por todos.' Gal Costa, intérprete de Walter Franco, reconhece: 'Ele tem um trabalho meio difícil para o grande público, mas as coisas começam a ficar mais claras agora. Começam a entender que Walter Franco é um barato'. O maestro Júlio Medaglia endossa: 'Num país carente de música instrumental, Franco é um quixote como o suíço-baiano Walter Smetack ou Hermeto Pascoal. É o não-músico mais musical do país. Numa terra de rouxinois como esta, estou mais interessado na música impopular brasileira, nos cantadores do interior da Bahia. E em Walter Franco. Um maldito que espalha sua filosofia através da música, mesmo que ninguém o siga'. Wanderléa completa: 'Apesar da impressão de difícil, o trabalho de Walter é direto e fácil. Por isso resolvi gravar 'Feito Gente', que ele me confiou e acabou virando nome de meu show, onde estou inteira'  "

(continua)

(*) O disco, depois teria seu título trocado para 'Novo Aeon'

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Matéria Antológica - Revista Veja (1975) - 1ª Parte

Esse blog, como quem acompanha ou eventualmente o lê sabe, tem como objetivo transcrever matérias publicadas sobre música em épocas passadas. Como há mais de 40 anos criei o hábito de ler, guardar e colecionar tudo que achava interessante sobre música, eu acabei criando um enorme acervo de matérias (e também fotos) que eu fui colecionando ao longo desses anos, e um dia tive a ideia de compartilhar esse material através desse blog. Em 2009, numa de minhas primeiras postagens, resolvi  destacar uma edição bastante interessante da Veja, publicada em setembro de 1975, e que hoje pode ser considerada histórica, com uma capa antológica reunindo compositores de uma nova geração que surgia na nossa música: Fagner, Luiz Melodia, João Bosco e Walter Franco. A matéria traz muitas fotos, algumas das quais ilustrarão as postagens. Na época eu não costumava transcrever matérias muito extensas, preferindo extrair apenas os trechos que achava mais importantes. E assim fiz com a matéria sobre essa revista. Hoje, eu só transcrevo as matérias na íntegra, e se for o caso, divido em tantas partes quanto forem necessárias. Anos depois, essa capa chegou a circular em algumas páginas do Facebook e criou muito interesse e curiosidade entre as pessoas interessadas por essa fase tão rica de nossa música. Assim, atendendo ao pedido de um dos mais fieis leitores desse blog, o Getúlio Filho, eu irei transcrever a matéria na íntegra, dividida em algumas partes. Primeiramente irei transcrever o editorial da revista, assinada por alguém das  iniciais M.C., em forma de "Carta ao Leitor":
"Registrava-se alguma euforia, na sexta-feira passada, na área da redação ocupada pelo pessoal de 'Artes e Espetáculos'. 'Enfim, uma reportagem de capa sobre a música popular brasileira', proclamava o editor Silvio Lancelotti. De fato, quase seis anos passaram desde a última, publicada no início de 1970. É verdade que, depois disso, alguns compositores mais significativos mereceram transformar-se em assunto principal de uma semana de Veja. Assim, Jorge Ben, Caetano Veloso, Chico Buarque de Hollanda, Maria Bethânia (que Silvio teima em chamar Iansã) e até veneráveis mestres-sambistas: Ismael Silva, Cartola e Mano Décio da Viola. Invariavelmente, porém, esses dignos representantes da MPB - mais uma sigla, neste momento fascinado por siglas - foram tratados de forma isolada e quase estanque, sem que se pretendesse um balanço, um panorama, um golpe de vista abrangente.
Por que isso aconteceu? 'Na verdade, em termos globais, não havia mesmo muito que falar', diz Silvio. E explica: 'Depois da explosão festivalesca que se seguiu à Bossa Nova, depois do Tropicalismo, a música popular brasileira se viu pesarosamente estagnada. Seus antigos astros, embora ainda jovens, silenciosamente tiveram de se afastar das plateias maiores. Alguns chegaram a se calar'. Contudo... Contudo, seguindo caminhos atormentados, eis que quase sete anos depois da Tropicália, alguns nomes novos mostram serviço. Agem, talvez, de maneira desajeitada e esparsa, de tal sorte que é difícil qualificá-los com precisão.
Nesta edição, Veja permite-se, a despeito dessa dificuldade em confeccionar rótulos e definir tendências, uma espécie de balanço, como há tão longo tempo não fazia. Consta que a última geração de autores (perdão, eles não gostam que se fale em geração) não exibe a quantidade estética de Nelson Cavaquinho ou a arte de Noel Rosa. É possível. No entanto, a música popular brasileira começa novamente a fazer sucesso. E sobrevive.
Em busca de provas de uma vitalidade reencontrada, o editor-assistente José Márcio Penido e o crítico Tárik de Souza há meses vinham analisando um vastíssimo material recolhido em todo o país, valendo-se do trabalho dos repórteres cariocas Lúcia Rito, Margarida Autran, Antônio Chrysóstomo e Joaquim Ferreira dos Santos, de Maria Helena Passos em São Paulo, Rejane Breta no Rio Grande do Sul e Gleizer Neves em Minas. E  ao cabo de seu périplo por entrevistas, depoimentos e pesquisas, ainda que não pudessem anunciar a presença de um movimento fulgurante, pelo menos afirmavam ter detectado alguns talentos unidos por razoáveis propósitos renovadores e adequados ao severo e confuso dia de hoje - e pela fé na música popular. De João Bosco, mestre-sala dos mares, ao agreste e viril Belchior. Do agitado Fagner a Raul Seixas, viajante numa selva de palavras. E outros mais. Quatro deles, representando todos, aparecem na capa. Parecem-me agressivos e mansos ao mesmo tempo, um tanto surpreendentes nos seus papéis. E, eu juraria, surpresos de estarem onde estão.
É provável que haja discordâncias quanto à escolha. De minha parte, gostaria de ver na capa também Aldir Blanc, o impecável letrista das músicas de João Bosco, capaz de tornar épica a farofa e lírica a ponta de um torturante bandaid."
Abaixo, a primeira parte da matéria:
" Estava à toa na vida
O Meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
(Chico Buarque de Hollanda, 1966) 
A meninada toda se assanhou.  A moça triste, o homem sério, brasileiros do norte e do sul, de Brasília e de Salvador, aprenderam num instante a letra e a música. Unidos, formariam um fantástico coral de incalculável número de vozes, desencontradas e desafinadas, mas indubitavelmente capazes de atestar um raríssimo fato: a unanimidade nacional acolhia um novo tipo de música popular. E o povo passou a amar o garoto de olhos verdes, muito sem jeito no palco, aquele irmão, aquele filho, aquele genro, aquele amigo que qualquer um gostaria de ter.
O rádio tocava 'A Banda'. As revistas ilustravam e discutiam. Enquanto a televisão espalhava, mais e mais. As câmeras, porém, não mostravam apenas Chico Buarque de Hollanda. Os grandes musicais produzidos pela TV Record de São Paulo, para seu horário nobre, ofereciam variadíssimas atrações. Por exemplo, uma série de festivais anuais, como num comício. Torciam, como no futebol. E não estavam sós. Em casa, milhares de telespectadores com eles se identificavam. e as imitavam.
Muitos eram os chamados -  e muitos os eleitos. Alguns preferiam a voz pequena e os decantados joelhos de Nara Leão. Outros se deixavam prender pelos braços de Elis Regina, cantora que parecia um helicóptero, tanto se mexia. Amava-se o canto sereno e seguro de Edu lobo, a força e o furor de Geraldo Vandré, o sorrisão de Jair Rodrigues. E também se odiava. Com gritos e vaias, a massa expressava sua antipatia. Que Sérgio Ricardo certo dia retribuiu, quebrando e jogando seu violão sobre as cabeças da horda implacável.
Reinava mais paz no colorido e eletrificado mundo da 'Jovem Guarda', outro programa da emissora, de público igualmente fiel e numeroso. Neste, mais um reino encantado que uma nação, imperava, sem concorrência significativa, a família real do rock brasileiro. No trono, glorioso, meigo, atrevido, Roberto Carlos, secundado pela princesinha Wanderléa e o valete Erasmo Carlos.
Seus súditos mandavam tudo para o inferno e os adoravam. Sem perceber que nos corredores e nos bastidores da Record, um baiano magro e cabeludo se mostrava disposto a provar que música também podia ser outra coisa.
Caetano Veloso chegou  - e, ao contrário de Chico e Roberto, chocou. Suas roupas eram extravagantes. podiam ser cintilantes como as do Rei, mas revelavam a mesma liberdade e o idêntico à-vontade que recheavam suas letras e suas músicas. Cidadão de um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, ele, mais Gilberto Gil, inauguraram, no longínquo ano de 1967, o último movimento importante da música popular brasileira.
E do Tropicalismo para cá, o que aconteceu? Não brotaram mais grupos? Ninguém mais induziu a massa a cantar? Não existirão inovadores? Onde estão os novos?
Eles estão chegando. Do Ceará, de Minas Gerais, do Rio de Janeiro, de São Paulo, da Bahia, do Espírito Santo. São os João Bosco, os Aldir Blanc, Luiz Melodia, Fagner, Belchior, Walter Franco, os Alceu Valença e os Raul Seixas, que não marcham mais em bandos, como antes. Estão na estrada, mas seu caminhar já não é documentado por câmeras de televisão - o horário nobre das TVs pertence irremediavelmente às telenovelas. Perambulam sós, sem qualquer apoio radiofônico. Os programas de rádio preferem o que vem de fora. Os críticos e  o público exigem deles uma perfeição impossível para as condições em que vivem. E os novos acham um absurdo serem assim chamados, andarilhos de longa data. Como se a poeira comida na trajetória os envelhecesse. Como se as emboscadas para eles preparadas nas curvas do caminho os tivessem derrubado. Como se fosse possível apagar a música que criam. "

(continua)