Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

sábado, 29 de abril de 2017

Roberto Carlos e Eliana Pitman - Revista Intervalo (1966)

Em sua edição nº 250, de outubro de 1966, a revista semanal Intervalo trazia uma matéria com um bate-papo entre Roberto Carlos e a cantora Eliana Pitman. A matéria começa com uma introdução que diz:
"Eles falam de beijo, de amor, das fãs e de um quilo de coisas mais. Eliana pergunta e Roberto Carlos responde. Mas como pergunta essa menina! Vocês precisam ler para acreditar, porque ninguém - ninguém mesmo - arrancou tantas confissões do Brasa. O que ela perguntou, o que ele respondeu, vai tudo nas páginas seguintes. Um bate-papo que é uma brasa, mora!"
Abaixo, a reprodução da matéria:
"EP - Você se lembra quando ia lá em casa? Você era um menino...
RC - Você também era garotinha.
EP - Você se lembra de quando trabalhava no Plaza, com papai Booker? Ele dizia que você tinha muito talento.
RC - Muito obrigado. De vez em quando ele me dava uma colher de chá e eu cantava um rock. Mas comecei mesmo foi cantando bossa-nova.
EP - Papai contava que as meninas davam em cima de você. Você ficava apavorado. 
RC - Bidu... Mas eu não ficava apavorado, não. Às vezes eu estava cantando e, de repente, aparecia um bilhetinho na minha mão.
EP - Papai disse que você era muito tímido naquele tempo, seu cara de anjo...
RC - Eu era tímido aparentemente. Negócio de cara de anjo é outro problema.
EP - Acho que você não é anjo nada. Você tem cara de santinho disfarçado...
RC - Mas isto não é muito bom, não: eu não vivo a fim de enganar ninguém. Você não quer dizer que eu sou enganador, né?
EP - Não, você sabe que não é, mas tua cara assim, vou te contar, Roberto... Escute: outro dia, no programa da Maysa, ela lhe perguntou qual foi sua primeira namorada. Você não se lembrava, parece...
RC - Tive duas primeiras namoradas: uma da infância, outra da juventude. A primeira, aos 11 anos, mora! A segunda, aos 14.
EP - Você só teve duas namoradas durante esse tempo?
RC - Eu disse as duas primeiras.
EP - A maioria dos homens não se lembra das primeiras namoradas.
RC - Eu sou muito correto, eu me lembro...
EP - E as garotas sabem que você é romântico?
RC - Bom, não sei se elas sabem. Eu sei que sou... Olha, não conta isso, não.
EP - O que? Que você é romântico?
RC - É. Não é um negócio que eu mesmo possa julgar.
EP - Deixa pra lá. Que é que você sente quando beija uma garota que você gosta?
RC - Que é que sinto? Acho que é o que todo mundo sente. Dependo do beijo...
EP - E essas garotas que pegam você e agarram?
RC - Bom, eu fico tão surpreso, entende? Depois, eu eu vejo que é uma demonstração de carinho, um impulso muito bonito também, muito... Ah, não sei, não! Dizer o que a gente sente com um beijo é difícil às pampas. Quando a gente dá o beijo, aí já é mais fácil.: você dá um beijo com amor, dá um beijo com carinho, dá um beijo com calor. Já o beijo que a gente recebe é difícil dizer o que ele traz. Agora, quando a gente tem vontade e, de repente, se vê beijado por aquele alguém, aí fica de boca aberta, sem saber o que pensar, porque talvez esperava, naquele exato momento, não é?
EP - Pois é, eu vi, outro dia... você ficou feliz? Que sorte bárbara, rapaz!...
RC - Fiquei. Você não tem sido beijada por quem você quer que a beije?...
EP - Teeenho! Pelo amor de Deus, olhe esse negócio...
RC - Como é o nome dele mesmo?
EP - Ah, não vou dizer. Todo mundo sabe.
RC - Eu não vou apanhar por estar batendo papo com você? Ele é ciumento, não?
EP - Humm! Ele acha você formidável, ele gosta de você.
RC - Bom, também não seria fácil apanhar...
EP - Por que? Você é forte?
RC - Não, forte é ele... Eu corro bem (gargalhada). Olhe, esse negócio que eu corro bem é papo, entende? Para fazer piada. Eu corro bem mas é de carro...
EP - Como é que você se sentiu na festa da Glamour, no Copacabana Palace?
RC - O caso de eu ter sido convidado para participar do júri é um negócio inédito na minha vida. Fiquei contentíssimo, de certo modo, até emocionado. Eu me senti homenageado. O convite me fez sentir assim importante, entende?
EP - Você é importante, Roberto. Há muitos e muitos anos não tínhamos um cara assim como você no Brasil. Sabe que eu fico boba, vejo até senhoras casadas usando o anel calhambeque! Meus primos me enchem, eles querem que eu compre o anel calhambeque de Roberto Carlos. Outro dia gastei quatro mil cruzeiros comprando anéis para a meninada da vizinhança. Esses, você está me devendo.
RC - Depois te pago, tá? Não tem problema, sou bom pagador.
EP - Agora, eu acho que de todo esse pessoal, quem vai ficar pra sempre, pra sempre mesmo, é você.
RC - Obrigado, querida. Por esta você merece um beijo...
EP - Não, não! Não me beija não senão as meninas vão me agarrar na rua. Nossa, pelo amor de Deus!
RC - (Beijando mesmo Eliana e sorrindo) Pois eu é que vou te agarrar, mora!
EP - Imagine! Agora não vou poder mais sair à rua!...
RC - Bobagem, todo mundo sabe que entre nós há uma amizade de irmãos, Eliana. Inclusive seu pai foi um grande incentivador meu e eu tenho obrigação de sentir você como uma irmã.
EP - Ele gosta muito de você e do que você faz, Roberto. Mas me diga, é verdade que você vai viajar?
 RC - Vou. Aos Estados Unidos, eu vou. Mas creio que vou primeiro à Europa, participar do Festival de San Remo. Agora em dezembro, vou, gravo a música e volto.
EP - Você vai gravar em português?
RC - Não. É uma imposição, entende?
EP - Mas é bom. Assim você tem mais penetração. Ainda mais que a língua é tão linda! E você tem um som bárbaro na sua guitarra. Em Nova York...
RC - Escute, como é que é lá? Como é que um artista faz para agradar?
EP - Bom, a concorrência é tremenda, mas ninguém se preocupa, se você está por cima. É diferente daqui: há lugar para todos e, para fazer um subir não se pensa em derrubar ninguém. Se você tem talento, sabe o que está fazendo, você chega a qualquer lugar. Papai acha O Calhambeque, um pouco mais trabalhado ao gosto americano, é sucesso na certa.
RC - E você acha que lá a gente tem que cantar em inglês, português...
EP - O americano não aplaude o que não entende. Você pode intercalar, digamos, três músicas em português, no seu repertório. Mas tem de cantar muita coisa em inglês. Eu fazia assim. Sabe de um grande programa que você poderia fazer lá? O Hullabaloo, que é fabuloso: tem um balé que é uma coisa e cada semana apresenta um artista famoso, com Dean Martin, Sammy Davis Jr...
RC - O que é Hullaballo?
EP - É... uma bagunça simpática, entende? É o iê-iê-iê.
RC - É coast to coast?
EP - É. E você, com essa cara, tenho certeza de que vai fazer sucesso.
RC - (Tira o cachimbo do bolso)
EP - Desde quando vc pegou cachimbo?
RC - Eu fumava cachimbo há muito tempo, mas não era fiel a ele.
EP - Os médicos aconselham o cachimbo a quem quer deixar de fumar. Mas sabe que engorda?
RC - Ah, é? Então preciso parar de fumar cachimbo. Mas vá ver o que o cara engorda justamente porque deixa de fumar o cigarro. É o cigarro que emagrece.
EP - É chato conversar com você, Roberto. Você sempre ganha. Ah, quem acendeu meu cigarro na América? Eu não fumo, mas peguei cigarro só pra esnobar. Estava numa boate e veio de lá - imagine quem? - Harry Belafonte e - troc! acendeu o isqueiro para mim.
RC - Nooossa! Aí, você - pimba! - desmaiou...
EP - Eu estava com um vestido bárbaro, assim como estava no Copacabana Palace.
RC - Muito chique, eu vi. Bárbara, sinceramente. Não é badalada. EP - (Esnobando) Aliás, eu estava com medo deles me darem um título de glamour hors concours.
RC - O que é hors concours?
EP - É... um negócio que não faz parte do concurso, mas merece ganhar. Oh, Roberto, você não pode casar, não.
RC - Por que não posso casar?
EP - Ora, porque as garotas são gamadas. Sabe, na América casam escondidos: se as garotas sabem, dá o maior bolo. Eles casam, têm 10 mil filhos e ninguém sabe. Aqui, as garotas estão sempre sonhando em casar com Roberto Carlos. Se você casa, as garotas não vão poder mais sonhar, né?
RC - Eu ainda nem penso em casar.
EP - Oh, que bom para as garotas. Elas ainda podem ter esperanças, hein?
Escute, você não se sente sozinho em seu apartamento?
RC - Não, minha casa me abraça muito, entende?
EP - Estou com fome. Vamos comer um sanduíche? Outro dia comi três dúzias de ostras, menino!
RC - Boa ideia. Vamos lá. Que tal um sanduíche de ostras para você..."


domingo, 23 de abril de 2017

César Costa Filho - Um Compositor em Busca da Coerência que o Público Exige (1977)

César Costa Filho foi um dos muitos compositores revelados nos antigos festivais universitários da TV Tupi. Participante desde o primeiro festival universitário, em 1968, quando ficou em terceiro lugar com "Meu Tamborim", Cezinha, como era chamado, logo seria um dos componentes do MAU (Movimento Artístico Universitário), do qual faziam parte também Gonzaguinha, Aldir Blanc e Ivan Lins. César foi um dos primeiros parceiros de Aldir Blanc, com o qual formou uma dupla que deixou grandes composições, até os dois romperem no início dos anos 70.
Em sua edição de 19/05/77 o jornal O Globo trazia uma matéria com César Costa Filho, assinada por Antonio Lima:
"Durante três anos o compositor César Costa Filho percorreu o itinerário dos festivais universitários, a porta de entrada aberta pela música brasileira a inúmeros artistas jovens. Ao lançar 'Bazar', seu terceiro LP, Cesinha fala sobre seu trabalho, que pretende manter dentro de uma linha de coerência exigida pelo público mais fiel que a MPB conquistou: os universitários.
Para esse público ele prepara uma série de shows que começam dia 26 em Curitiba e que farão o artista e seu violão percorrerem o circuito universitário de São Paulo e depois o Rio. Carioca de Vila Isabel, formado em Direito, Cesinha confessa-se influenciado pelos sambistas da Velha Guarda, mas sem compromissos com modismos ou estilos, uma atitude que já motivou polêmicas com estudantes.
Numa das últimas vezes em que se apresentou em Curitiba, Cesinha deveria fazer quatro shows, seguindo um roteiro musical previamente elaborado, em função de suas músicas. Logo no primeiro dia, um grupo de estudantes, sentado na primeira fila do teatro, permanecia impassível. Não aplaudia, nem se manifestava. Diante disso, Cesinha disse que ia tocar uma composição sua que não queria dizer absolutamente nada: 'Comigo Ninguém Pode', que considera um swing no estilo Gilberto Gil. Terminada a música, os rapazes da primeira fila levantaram-se e o compositor perguntou o que estavam achando do show.
- Lamentável - disseram.. Logo você que tem tanta influência da Velha Guarda, tocando essa música que não diz nada.
- Então - diz Cesinha - toquei o 'Samba do Estácio', meu e do Jair Amorim e desfilei todas as minhas composições influenciadas pela Velha Guarda. O público vibrou e fui obrigado a fazer o show em função dele e não do que eu pretendia apresentar.
Carioca, de Vila Isabel, 33 anos, Cesinha conta essa história para ilustrar uma teoria sobre seu trabalho, que é baseado, segundo diz, 'no que vejo por aí, mas sem compromissos com modismos ou estilos'.
Dono de uma voz parecida coma do violonista Toquinho, Cesinha não nega influências de Vinícius, Chico, Caetano e Gil, exatamente porque surgiu numa fase importante da MPB, em 1968, na época dos festivais universitários, quando apareceram também Gonzaguinha, Ivan Lins e Aldir Blanc, com quem já fez algumas músicas. No primeiro desses festivais, Cesinha teve a música 'Meu Tamborim' classificada em terceiro lugar. Era um trabalho dele e do Ronaldo Monteiro de Souza, defendido por Beth Carvalho. 
Musicalmente eu me considerava um amador, mas vi nos festivais uma porta de entrada em termos do que queria, isto é, atingir um público interessado no trabalho do artista. Fiquei um ano tentando colocar músicas no mercado, mas tive de esperar pelo segundo festival, quando fiquei novamente em terceiro lugar, com 'Mirante', minha e do Aldir, defendida por Maria Creuza. Aliás, nesse mesmo festival, eu e o Aldir também ficamos com o quinto lugar: 'De Esquina em Esquina', defendida por Clara Nunes.
Na época, Cesinha continuava inédito em disco, mas considerava importante a fase dos festivais, tanto assim que concorreu no FIC de 1969 e no seguinte. Em 69, 'Visão Geral', dele, Rui Maurity e Ronaldo, ficou em terceiro lugar. Em 70, entretanto, algo mudou: 'Diva' e 'Medo', ambas em parceria com Aldir ficaram entre as finalistas.
- Já tinha entrado no meio musical e perdi o acanhamento: mostrava músicas para Elis, Claudete Soares, Dóris Monteiro e a coisa começou a mudar.
Cesinha tem umas 70 músicas gravadas, algumas delas por cantores  como Elis Regina ('Ela'), Eliana Pittman ('A Ilha'), Claudete Soares ('Fraqueza'), Maria Creuza ('Um de Nós'), Dóris ('Um Chorinho'), Elizete ('Velho Amor'), em parceiras com Aldir, Paulo César Pinheiro e Ronaldo.
- Ao mesmo tempo eu desenvolvia um trabalho paralelo, fazendo trilhas sonoras para novelas como 'Minha Doce Namorada', 'O Homem que Deve Morrer' e 'O Preço de Um Homem'. Fiz também a trilha sonora sonora do documentário 'Eila', do Rui Santos, sobre uma tapeceira finlandesa que mora no Rio.
Como currículo, só falta citar os cinco ou seis compactos que gravou na RCA, além de outro, pela Som Livre, com as músicas de 'Minha Doce Namorada'. 'Bazar' é o terceiro LP que ele faz, desta vez com um só parceiro, o catarinense Heitor Valente, trabalho que motiva uma explicação:
- Eu pretendia incluir músicas de outros parceiros, como o Ronaldo, o Jesus Rocha ou o Walter Queirós, mas infelizmente não deu certo. O Heitor é um amigo meu. Mora no Rio e acho que por estar na mesma rua, nosso trabalho engrenou. A gente se encontra todo o dia, troca ideias e isso ajuda muito em termos de criação.
Apesar da falta de preocupação, demonstrada logo a seguir, Cesinha age como todo artista interessado na repercussão do seu trabalho. Informa que 'Consumatum Est' está sendo bastante tocada pelos disque jóqueis e fala sobre 'Amor Antigo', outro samba do seu LP. 'Amor Antigo' é a segunda música que faço para o Salgueiro, minha escola de coração. A primeira foi 'Vermelho e Branco'.
Capa de Bazar
Em 'Amor Antigo" está presente a duplicidade samba-mulher, bastante assídua na MPB, e que a letra de Heitor Valente apenas confirma: 'Parceiro, vamos ver o que acontece/ desse mal só não padece/ quem se isolou/ mas diga pra ela depois/ Salgueiro/ que esse nosso amor é antigo/ e não tem nenhum perigo,/ dividir por dois'.
Considero 'Bazar' meu LP mais agressivo, mesmo sendo ele a continuação de um trabalho que iniciei na época dos festivais. Isso porque me dá a oportunidade de me mostrar como um compositor descompromissado com modismo e estilos.
- Mas essa falta de compromisso não prejudica comercialmente ou, para usar um eufemismo, em termos de comunicação com o público?
- Contei a história acontecida em Curitiba, não? Pois é isso aí. 'Dose pra Leão' era um samba sofisticado, que foi sucesso nacional, mas sua estrutura melódica era tradicional. Tenho a impressão de que o grande público esperou que, a seguir, eu fizesse algo semelhante, mas no meu caso não é possível. Cresci ouvindo músicas da Velha Guarda, mas as coisas hoje são diferentes, pois para se ser reconhecido, a gente deve percorrer um caminho muito mais longo. E o importante é a gente estar alicerçado para o dia em que esse reconhecimento chegar. Por isso, acha merecido o sucesso do Chico, Caetano, João Bosco e Gonzaguinha. Hoje eles vendem discos e isso é importante, porque demonstra uma modificação na mentalidade do público.
Como exemplo dessa modificação, Cesinha cita o exemplo do público universitário que, segundo ele, questiona o artista, acompanha seu trabalho e exige dele.
- Isso é importante, pois é muito fácil fazer música para entrar nas paradas de sucesso. O sucesso fácil é passageiro e essa comunicação instantânea não me interessa. Sei que estou percorrendo um caminho muito mais longo, mas não tem problema. O importante é fazer um trabalho coerente, falando de coisas que sinto e sobre as quais o artista tem a obrigação de informar o público. "


sábado, 15 de abril de 2017

João Gilberto Faz Guerra à Pirataria (1998)

João Gilberto sempre teve muito cuidado em relação às novas edições de seus discos. Se não houver uma autorização dele para que os produtos cheguem ao mercado, normalmente coisas ligadas à um apuro técnico das edições, o artista logo entra na Justiça, buscando recolher do mercado o material lançado sem o seu aval. Recentemente ele entrou na Justiça para recolher um disco seu, que segundo ele, teria visto por acaso em uma visita a uma livraria no Rio, embora muita gente não consiga imaginar João, como um cidadão qualquer, frequentando uma livraria na cidade. 
A matéria que segue abaixo, publicada Jornal do Brasil em sua edição de 12/07/98, assinada por Cláudio Cordovil, fala de um processo que João estaria movendo contra uma gravadora mexicana por lançar álbuns seus sem o seu consentimento. Nesse caso, trata-se do uso indevido de seu nome, sem que recebesse pelos direitos autorais. Segue a matéria:
"Muito se tem falado da pirataria praticada por delinquentes, mas pouco se menciona a pirataria institucional, cometida pelas próprias gravadoras, ao melhor estilo casa com telhado de vidro. O cantor João Gilberto, o papa da bossa nova está tendo dores de cabeça com a gravadora mexicana Orfeon Videovox que, sem autorização expressa dele, tem lançado CDs com faixas de João Gilberto, indiscriminadamente distribuídos nos Estados Unidos e Japão, pelo que se sabe no momento.
Tudo começou quando João Gilberto, então residente no México, assinou contrato com a gravadora mexicana, em abril de 1970, para a realização de um LP com 12 faixas, intitulado Ela é carioca. Sem consentimento do artista, a gravadora lançou posteriormente dois CDs, cada um com uma faixa do artista, aproveitada do material gravado para Ela é carioca, em uma espécie de coletânea da bossa nova e da MPB. Na capa, o nome de João Gilberto aparece em destaque, juntamente com a expressão 'Brazil Samba Jazz', como possível chamariz pra as vendas. O disco continua em catálogo e, até hoje, João Gilberto não viu a cor do dinheiro.
Os discos citados na matéria
Solicitado pela advogada Gisele de Carvalho a apresentar o relatório de prestação de contas, a gravadora forneceu dados imprecisos, que dariam ao artista o direito de receber apenas US$ 1.632. Além disso, não foram apresentados dados de prestação de contas referentes a outros países para os quais o México exporta, como Estados Unidos, Japão e países da Europa e América do Sul. No Brasil, por exemplo, a gravadora PolyGram havia sido licenciada pela Orfeon Videovox para distribuição de Ela é carioca. As prestações de contas apresentadas, referentes a vários anos, também não foram corrigidas monetariamente. No Japão, Ela é carioca foi licenciada para a gravadora Bomba Records, um nome sugestivo, pela Orfeon Videovox.
Gisele Carvalho contratou, no México, os serviços do advogado Gabriel Larrea. Os advogados de João Gilberto querem que a Orfeon Vedeovox pare de licenciar e autorizar a reprodução de Ela é carioca e de Brazil Samba Jazz por outras gravadoras e que sejam pagos os direitos autorais devidos.
João Donato, Jorge Benjor, Ivan Lins, Chico Buarque, Roberto e Erasmo e Zé Kéti são alguns dos compositores que têm suas músicas gravadas em Brazil Samba Jazz. Resta saber se recebem direitos autorais.
Recentemente, João Gilberto moveu uma ação ordinária contra a EMI Music que culminou em um mandado de busca e apreensão de todos os CDs do artista fabricados pela gravadora desde 1988. Na ação, João Gilberto e seus advogados reivindicaram a suspensão da fabricação e distribuição de todos os CDs lançados pela EMI, no país e no exterior, sob a pena de multa diária. Além disso, a título de indenização por perdas e danos, a gravadora seria condenada, pela ação proposta, a reverter, em favor do artista, com juros e correção monetária, toda a receita gerada ilegalmente com a comercialização em CD de sua obra e lucros cessantes.
No final do ano passado, houve uma audiência de conciliação entre as partes e a gravadora EMI-Odeon ficou de apresentar uma proposta, fato que, até o momento, não ocorreu. Os advogados de João Gilberto entraram, então, com uma petição ao juiz. 'Pelo rito processual, ele deve determinar o saneamento do processo, convocar uma perícia e definir a sentença', explicou Gisele de Carvalho. Com a gravadora EMI Music proibida de usar as matrizes das gravações do artista, João Gilberto vai regravar até o fim do ano pela PolyGram sua trilogia inicial lançada originalmente entre 1959 e 1961. Ele receberá em torno de US$ 200 mil por disco, o mesmo valor do cachê de seus shows. João pretende gravar também um disco de duetos com convidados especiais. "

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Bezerra da Silva: "Eu Vou Onde a Coruja Dorme" (1994) - Parte 2

"C&P - Você vai votar em quem?
Bezerra - Eu não voto. Não me leve a mal, mas não assino atestado de burro. Só tenho bronca desses caras. Vocês vão dizer: 'ah, o Bezerra tá revoltado'... não é. Passei fome, fui discriminado, o favelado não é considerado gente, é um elemento nocivo. Favela não é considerada residência, sabia? A polícia chega, dá tiro, faz o que bem entende, e fica por isso mesmo. Ali não tem mandado de juiz pra te prender na tua casa. Eles botam os homi na rua, fodem a mulher da gente, roubam as coisas do barraco e vão embora. E não tem um repórter com disposição pra dizer isso. Vem me perguntar sobre  tóxico na favela. Por que não perguntam se tem maconha em Brasília, se alguém estupra, se tem boca de fumo?
C&P - Pô, no Congresso tem uma tremenda boca de fumo. O sobrinho do Presidente morreu em cima do pó!
Bezerra -  - E por que ninguém mete esses putos na cadeia? 'Bezerra, você tá revoltado.' Nada disso: eu sou favelado. Falar de pobre é mole, mas como é o que o tóxico chega no Brasil? Quem traz? Todo mundo tem avião particular? Favelado vai lá na Bolívia buscar cocaína pra vender no morro? Não tem condição nem de usar tóxico! Favelado cheira é caco de vidro!
C&P - Não pode ser viciado nem em comida, quanto mais em cocaína.
Bezerra - Vamos falar na língua de Congo: o tóxico é negócio de bacana. Falar a verdade dói? Então Deus dói, porque Deus é verdade.
C&P  - Mas o exército diz que vem aí pra subir  o morro.
Bezerra - É ruim. Se quer acabar mesmo com o malandro, prende os otários. Malandro é malandro, mané é mané.
C&P - E esses Mauricinhos do Samba que tão aparecendo agora, só matando?
Bezerra - Olha, é que não vou botar vocês de castigo, mas o que aparece aqui de bagulho... Ali tem uma pilha de fita que eu chamo de 'vala'. Esses meninos são até meus colegas, mas são uns garotos sem experiência e são dirigidos pelo produtor artístico. Ficam tocando marcha e botando nome de samba. (Batuca na mesa uma marcha e depois samba, muito mais rico e rítmico) É aquele negócio, Deus fez o mundo muito bem feito, chegou o malandro e armou pra cima, aí veio o padre e mandou aquele agá, veio o Bispo Macedo 171, maluco pra caramba e cheio de grana... Deus ficou só olhando... (risos) Quer mais 171 do que esses caras do Evangelho? Eles vêm aqui contar história, Jesus morreu, e eu: (balançando a cabeça) 'Legal... só que aqui vocês vão se fuder, não vai dar pra vocês'. 'Mas Jesus mandou...' 'Mandou mas não mandou muito. Quer dizer que Jesus mandou tu me dar uma volta?' (mais risos)
C&P - 'Ide pelo mundo e dê uma volta nos otários'.
Bezerra - Aí disseram: 'Você não é filho de Deus. Você não aceitou o batismo'. 'Então o que sou?' 'Você por enquanto é criatura de Deus.'
Tudo bem. A única coisa que posso te arrumar aqui é um baseado e mandar tu passar ali para dar dois pra ver se tu entra em cana e leva umas sacudidas pra deixar de ser FDP.' (Gargalhadas)
C&P - Teve um grupo de rap - O Rappa - que gravou um samba teu. Como foi isso, O Rappa chegou e você saiu correndo?
Bezerra - Tem vários roqueiros que são meus fãs, saio até na revista Bizz, me dou bem com a rapaziada. Primeiro gravei com Paulo Ricardo, e agora regravei com O Rappa aquela música de 82, 'Candidato Caô Caô': 'Ele subiu o morro sem gravata/ dizendo que gostava da raça/ foi lá na tendinha, bebeu cachaça/ e até bagulho fumou/ jantou no meu barracão'.
C&P - É a Melô do FHC!
Bezerra - 'Fez questão de beber água da chuva/ foi lá no terreiro pedir ajuda/ e bateu cabeça no congá/ Mas ele não se deu bem/ porque o guia estava incorporado/ e se esse político é safado/ vai ver na hora de votar/ ê ê irmão/ Se liga no que eu vou lhe dizer/ depois que ele for eleito/ dá aquela banana pra você.' Isso é de Walter e Pedro Butina.
C&P  - 'Bicho Feroz' foi seu maior sucesso?
Bezerra - O que vendeu mais, disco de platina duplo, foi 'Vou apertar mas não vou acender agora'.
C&P  - Só pelos direitos dessa música era pra você tá rico pacas, né?
Bezerra - O ECAD chama-se O Castelo dos Homens Sem Alma. É uma quadrilha de ladrões impune que não há lei que meta eles na cadeia! É aquele negócio do tempo da escravidão: crioulo não pode ter muito dinheiro que foge da casa. Eles têm medo do crioulo ganhar dinheiro e comprar um helicóptero e cair na casa deles.
C&P - O Brasil é um país racista mesmo? Crioulo aqui vê a coisa preta?
Bezerra - O crioulo no Brasil é tolerado. Onde ele chegar tá ruim. Ninguém gosta do crioulo, nem outro crioulo, é foda. Crioulo correndo é ladrão, se andar devagar é preguiçoso, se falar alto é mal educado, se falar baixo é viado, se vestir um terno tá metido, se andar sujo é relaxado... (risos) O crioulo inteligente vai logo pro terreiro, que padre não gosta de crioulo rezando, vai atrapalhar a porra da missa dele. Mas se andar todo de branco logo dizem: 'Vai fazer macumba?' Se desaparecer: 'Tava em cana, cumpadre?' Aonde for tá roubado.
C&P - Você teve agora em Berkelee, fez 12 shows nos EUA, o caralho. O que você achou dos crioulos lá?
Bezerra - Sofrem menos. Lá o crioulo manda.
C&P  - Manda bala.
Bezerra - O crioulo lá tomou a dianteira, foi pra escola, estudou pra caralho. O brasileiro não sabe o dia que Jesus Cristo morreu porque não saiu no jornal. O americano sabe. Negócio mudou. Você vê artista preto fazendo papel principal no cinema.
C&P  - Michael Jackson É preto?
Bezerra - Não conheço, mas dizem que tomou um banho de ácido muriático. (risos)
C&P  - Por falar em idade, quantas você ainda tá dando por semana?
Bezerra - Você tá falando em meter? Isso é a coisa mais mole.
C&P - Mole??! Tem que ficar duro (risos) Qual o segredo da potência eterna?
Bezerra - Não tem segredo. Você fode quando quiser.
C&P - Tô falando de meter, não de empurrar pra dentro.
Bezerra - É você se preparar fisicamente. Não usar tóxico, principalmente a cocaína. Não sei se vocês sabem, mas meu filho do meio, mataram ele. Se meteu em drogas: 19 anos e não fudia mais ninguém. O cara que cheira pó é um infeliz, um cara doente, bicho. Porra, você tá ali com uma mulher e a pica não levantar...
C&P  - Você nunca passou  por isso?
Bezerra - Fora de sacanagem: até hoje nenhuma mulher reclamou de mim. Tive uma porrada de mulher. Bicho, se eu quiser eu meto agora, fico com a pica dura na hora! 'Sobe aí, cara!'
UOOOON! (risos) A potência é uma questão de espírito, de mente, de domínio, então a minha pica levanta na hora que eu quiser.
C&P  - É ensinada! A minha também: eu falo 'Deita! Deita!', e ela fica ali deitada...
Bezerra - A cocaína atinge justamente nas duas bases que você precisa pra poder fuder: tira sua fome e tira seu sono. No início é estimulante, mas vai enfraquecendo seu organismo, seu cérebro, e você vai pro caralho.
C&P - Tim Maia falou que na cocaína o tesão migra: sai do pau e vai pro cu. O cara que cheira pó fica doido pra dar o rabo.
Bezerra - Olha, eu acredito que o camarada que dá a bunda é porque ele gosta, não tem nada de botar a culpa em cima do pó. É como falar 'eu fumo maconha porque tomava cachaça'. (risos) Tudo bem, quem tem sua bunda faz lá o que quiser. Na TV Globo...
C&P  - Alguém já te deu uma patolada?
Bezerra - Vindo me cantar? Nunca aconteceu, não sei se tiveram vontade ou se minha cara assustou. Eu vinha no ônibus de Sepetiba e teve um assalto: eles tavam de cabeça baixa, quando levantaram o olho e me viram, o assalto acabou. Pensaram que eu fosse de outra quadrilha. Realmente, minha cara não é agradável, e eu vinha com mais dois crioulos enormes. Um deles, Geraldo do Bongô, perdeu um concurso de beleza pra King Kong. (risos)
C&P - Tem muito neguinho que vai pra roda de samba e a mulher aproveita pra sambar na roda.
Bezerra - Também tem. Até gravei uma música de Ricardão. Eu tô vacinado contra esse negócio de chifre: quando eu tinha uns 20 anos, morava com uma mulher, eu saía pra trabalhar na obra e ela botava um malandro pra dentro de casa. Fui, fui, um dia fiz que ia trabalher e voltei: dei num flagrante nela, e o cara deitado lá vestido com meu pijama...
C&P - O problema era usar o pijama. Já  a mulher...
Bezerra - Trabalhei seguramente uns dopis meses pra comprar esse pijama! Toda semana guardava um dinheiro! E o pijama era pra vestir num dia de domingo e aparecer na porta da birosca, ninguém tinha um pijama daqueles. E agora vê que merda: eu deixava cem merréis pra mulher comprar comida, o vagabundo já levava um galo(*) pra dar uma volta no morro. Bati na porta e entrei: 'Que porra é essa?' O malandro tava lá no colo da mulher, ela espremendo cravo nele. Minha primeira vontade foi de rir, morô, mas aí bagunçava. Meti a mão na gaveta mas a mulher falou: 'Não precisa ficar com medo que na gaveta não tem nada.' Ele veio com aquela: 'Eu entrei aqui porque ela mandou...' 'Malandro, faz o seguinte: tira o pijama e leva a porra da mulher contigo. Mas leva agora!' O morro todo ficou... (aquele zum-zum). Isso foi na quinta. No domingo, na maior cara de pau, vesti o pijama e cheguei na porta (pose toda metida). Bicho, vou matar uma mulher porque comeram a buceta  dela? Juiz vai me dar 30 anos de cadeia.
C&P - Quer dizer então que você é corno? (Opa! Bezerra fica invocado e vem pintando uma saia justa. Mas ele segura a onda e sai pela tangente)
Bezerra - Corno eu nunca fui porque nunca fui casado. Agora mesmo eu moro com minha mulher mas não sou casado. Ela pega no meu pé mas não é pela minha beleza, é por medo de eu levar um bote. Também não tô aí pra dar mole pras mulheres, tenho meus filhos pra criar.
C&P - Tem um samba que você canta que diz: 'quem usa antena é televisão'. E na sua casa, a imagem tá pegando bem?
Bezerra - (distraído) Pega, pega bem. (se dá conta) Lá não tem antena naquela porra!
C&P - Ah, então lá é a cabo! (risos) E tem que enfiar na tomada! (mais risos)
Bezerra - Casseta & Planeta! Esse pessoal é foda."

(*) Galo - Nota de 50,00



terça-feira, 11 de abril de 2017

Bezerra da Silva: "Eu Vou Onde a Coruja Dorme" (1994) - Parte 1

Bezerra da Silva é um nome diferenciado no mundo do samba. Incorporou a figura do malandro e cantou o cotidiano da vida no morro, criando personagens, contando histórias e mostrando o dia a dia de uma parte da população que normalmente é discriminada e olhada com desconfiança. As músicas que interpretava eram fornecidas em sua grande maioria por um grupo de compositores anônimos, e que contavam em suas letras um cotidiano que bem conheciam, por conviverem em morros e favelas. A imagem do malandro, incorporada por Bezerra não era uma jogada de marketing, e sim, algo bem autêntico e verdadeiro, por isso a grande força de suas interpretações.
Em 1994 a revista Casseta & Planeta fez uma bem-humorada entrevista com Bezerra:
"(Quando a equipe do Casseta & Planeta vai entrando, ele está sentado atrás de uma mesa coberta de pautas, tocando um trompete.)
C&P - Ué, Bezerra, você toca trompete também? Na capa dos discos você tá sempre com um pandeiro.
Bezerra - Eu apareci mais com a percussão, trabalhei na Orquestra da Globo como percussionista - de tambor de macumba e berimbau, mas toco bateria, violão, cavaco, piano, estudei harmonia oito anos com Joaquim Neves, Aí agora tive um problema respiratório - bronquite, asma - e o médico sugeriu que eu tocasse um instrumento de sopro. PROONNN! (manda ver no trompete). Aí me lembrei que aos sete anos foi esse o primeiro instrumento que botei na mão. PRONFOOON!
C&P - Já tocou piano em delegacia?
 Bezerra -  21 vezes! A última foi em 1969. Aí é que tá o negócio: PROOON! Entrei em cana porque não fiz nada. Só se prende pobre e quem não fez nada. Minha ficha penal é nada consta e nunca respondi a um processo. É que existia na época o 'ser detido para averiguação'. Sacumequié, o subdesenvolvimento de um país...
C&P - O cara olhava pra você, te achava com cara de bandido?
Bezerra - 'Seus documentos!' Mas os documentos que eles pediam era a carteira profissional assinada. Se você não tivesse te levavam pra delegacia. Averiguação. Se vissem lá o nada consta te mandavam embora, mas você ficava 24 horas no xadrez esperando o boletim.
C&P - Como é que era a polícia naquela época?
Bezerra - Vamos dizer... não eram bem uns animais... mas quase umas antas, uma coisa por aí. (risos) Talvez o King Kong tivesse mais sentimentos... O camarada entrava na polícia pela janela, era cabo eleitoral, ganhava um revólver e virava policial. A mim nunca bateram. Eu entrei em cana como homem. Fui detido 21 vezes mas não dei a bunda na cadeia. E posso provar isso!
C&P- Não precisa! Não precisa!
Bezerra - Tem uma porrada de vagabundo que tomou no cu lá dentro e agora fica de valentia. Quando dei uns tiros num cara lá do morro foi por causa dessas sacanagens. De vez em quando tem essas coisas. Por isso gravei quela música, 'Bicho Feroz'.
C&P - Você com o revólver na mão é um bicho feroz/ Sem ele anda rebolando e até muda de voz.'
Bezerra - Mas a polícia só prendia pobre, cara, é como até hoje, você não vê um bacana na cadeia. Quem é mais honesto: o Pessoal em Bangu Um ou o pessoal de Brasília? 
C&P - Você tem medo mais da bandidagem ou da polícia?
Bezerra - Nunca tive medo de nenhum dos dois. Primeiro porque não conheço bandido. Isso não existe. Não sei se uma pessoa que nasce mamando no peito da mãe dele é bandido. Se você me perguntar se tem marginalizado, vou responder. Agora, bandido é em cinema.
C&P - Você acha que...
Bezerra - Não acho nada, vocês vão me desculpar, tenho até uma tese que a pessoa que usa a frase 'eu acho' é o cara da dúvida, que não quer se responsabilizar com nada, que não sabe o que tá dizendo, o caô caô, que não quer segurar. Eu não acho. Eu provo.
C&P- Noel Rosa já dizia que quem acha vive se perdendo.
Bezerra - Tudo bem, a realidade é que não mudou nada, principalmente num país desse, que foi descoberto por ladrão. Fui pra escola e me enganaram: Cabral o caralho! Ele era  ladrão, foi expulso de Portugal e chegou aqui nessa porra onde já tinha índio. O Brasil teve ladrão desde o início! Agora tão aí com mais Plano Caralho dizendo que vai ser diferente... Isso vem da época de Jesus Cristo: Pôncio Pilatos, Maria Madalena, é a mesma coisa, cara! Maconha? A mesma coisa. O pessoal assumiu, o consumo aumentou porque a população cresceu, mas tudo isso já existia, não tem novidade. Mudou só a escola.
C&P- Essas notícias todas sobre a violência são uma campanha contra o Rio de Janeiro?
Bezerra - O problema, entendeu, é a política. Quem é que manda mais no Rio de Janeiro? Quem manda no Brasil? TV Globo. Pronto. O homem da Globo não se dá com o Brizola. Quando Brizola sair as notícias mudam. É assim. Eu conheço o Brasil do Acre a Porto Alegre, fazendo shows. É tudo a mesma coisa, tá todo mundo na bronca, assalto em todo lugar. Agora, pegaram o Rio de Janeiro pra bola da vez. Vocês são pessoas esclarecidas, não são ignorantes, e vão cair nesse caô caô, assinando atestado de burro? Isso se chama Grupolina de Almeida Xavier. Só sendo muito otário pra acreditar no agá desses caras.
C&P- Você falou em maconha, mas o que faz mais a cabeça do ser humano:  a umbanda, a maconha ou o cabeleireiro?
Bezerra - O que faz mais a cabeça do camarada  é ele mesmo. É a universidade do mundo. Eu aos 15 anos fui expulso de Recife a bem da disciplina, minha mãe me mandou embora, cheguei no Rio descalço, com a roupa do corpo. O Nordeste é ponto final da miséria. Lá não tem o que comer não, cara. Fome no duro, não tinha trabalho, não ia roubar ninguém, peguei um navio e vim embora. Fui trabalhar numa construção civil, comia e dormia na obra. Cheguei em 46 e em 49 fui pro Morro do Cantagalo. Aí começou outra etapa do meu sofrer.
C&P - Por que você foi morar no morro? Queria subir na vida?
Bezerra - Por causa duma mulher, ela disse que conhecia todo mundo lá no morro, papapá, aí chegou lá, já viu, todo mundo era valente no morro, tive que dar um tapa nuns pra sobreviver... Cheguei do Norte, com fome, apavorado, perdi o medo. Circunstâncias da vida: em 1954 fui pra sarjeta. Sete anos na rua morando igual a um mendigo. Sem nada, só a roupa do corpo, dormia no Arpoador, entrava em cana, o caralho. Fora do ar... Só um amigo do Cantagalo ficou comigo, o resto tudo me abandonou. Mulher então nem olhava pra minha cara! A sarjeta é uma universidade onde não tem aproximação na prova. Se você tem que tirar 5, tirou 4,9, já era. Esse é meu diploma. Consegui me levantar.
C&P - Mas quem te botou no samba?
Bezerra - Em 1964 um cidadão chamado Alcides Fernandes, vulgo Dodoca, me viu tocando tamborim e me levou pro rádio. Eu trabalhava como pintor de obra de janeiro a outubro e no resto do ano gravava carnaval. Gravei muito entendeu, 80% das músicas de carnaval  dessa época eu participei. Fiz uma gravação tocando três surdos ao mesmo tempo. Aí aquilo foi me dando emprego, orquestra do Moacir, do Raul de Barros, fui classificado como o Melhor Ritimista do Brasil, aquele caô caô, e em 77 fiz um disco de samba com Genaro: 'Partido Alto Nota Dez'. (Mostra as capas emolduradas na parede) Essa aqui é a Primeira-Dama do Samba! (Apresenta Regina, sua esposa, que acabou de entrar).
Regina - Vocês querem cerveja, refrigerante? Vou mandar subir. (Sai pra providenciar)
Bezerra - Regina do Bezerra! Malandro botou o nome dela nos discos pra me caguetar: aí quando as mulatas boas ligam eu malandramente tenho que dizer: ela é minha prima. (risos)
Quando é aquelas coisas ruins eu apresento a minha mulher: sai fora, coroa, tu é pior do que eu! É por aí, né meu cumprade, malandro é malandro, mané é mané! (Regina volta com um talão de cartão de crédito para ele assinar) E eu sou malandro e vou assinar aqui, sacô bicho? (risos) Já viu, né, couro vai comer, hein. (Cara de resignado) Diz que não tem, malandro pra mulher...
Regina (explicando pra rapaziada) - Sexta-feira, começo do mês, eu tenho que comprar umas coisas pro nosso salão de beleza, só com cartão de crédito mesmo...
Bezerra - Não precisa explicar não, todo mundo aí tem mulher, eles sabem como é que é. Tudo otário igual a mim! É sempre assim: 'Pra mim você é lindo, tem uma beleza interior...' A beleza é o interior do meu bolso! (risos) Uma mulher pra dizer que sou lindo tem que tá com três problemas sérios: deficiência visual, desgostosa da vida ou dura - acerto sempre nesse terceiro item! (mais risos) É foda.
C&P - Quem batizou tua música de sambandido?
Bezerra - Começou daí: (Mostra uma página da Veja, emoldurada na parede, com o título 'Bezerra da Silva, cantor dos bandidos'). Se tavam pensando em me prejudicar, porque tem preconceito contra sambista, até me ajudou porque bandido passou a gostar de mim, ninguém faz nada comigo, e quem manda nessa porra sou eu, tá entendendo? Fiz shows em todos os presídios, da Ilha Grande ao Talavera Bruce. Eu vou onde a coruja dorme. (risos)
C&P - Como é a vida na favela hoje? É tiroteio o tempo todo, como a gente vê na TV? Toque de recolher, bala perdida, matança de inocentes, que nem em Vigário Geral...?
Bezerra - Mas o que mais morre é inocente! Não sei se é novidade pra vocês, mas o prejudicado é sempre o inocente. Lembra quando Herodes mandou matar todas as crianças de Nazaré?
C&P - Não, a gente não era nascido ainda.
Bezerra - Isso se chama 'frutos do regime'. Tem uma classe dominante que é responsável por isso: eles é que exploram a marginalidade. Tenho uma música que diz: 'Bandido é cabide de emprego'. Essas crianças que tão aí são vítimas de uma sociedade famigerada: amanhã vão ser bandidos pra sustentar eles. Por que os jornalistas não dizem isso? Tão com medo de quê?
C&P - Vem cá, não tem como mandar os meninos de rua pra calçada, onde pelo menos não passa carro?
Bezerra - Isso é conversa fiada, isso tem cura, é como se você tivesse com uma dor de dente, num estado profundo de cárie que não tem mais como restaurar: se o dentista não quer lhe roubar, extrai logo. Mas se quiser se dar bem vai alimentando aquilo, bota um negócio aqui e ali, aquela porra tá sempre doendo e ninguém cura. Agora, tudo bem. Algum de vocês conhece favela?
C&P - Eu conheço
Bezerra - Já morou lá? Então não conhece. Graças a Deus. Você tá falando com favela, bicho, morei 20 anos no Cantagalo, então não vem com essas conversas de caô caô, não acredita que uma criança com seis meses seja bandido. Procriação é a lei da natureza. Você é um operário, tá bom, morando no morro. Trabalhador. Vai acreditar que todos os habitantes do lugar onde você mora sejam bandidos, que ali só tem marginal? Mas é o que a sociedade diz. Jornal só chega depois, não vê porra nenhuma, e escreve que viu tudo.
C&P - Mas você não conheceu nenhum bandido mesmo, um cara assim mau pra caralho?
Bezerra - Mau? (ri) Brasileiro não é mau, cara. Não tem índole pra isso. Olha, desculpa, se brasileiro tivesse raça mesmo, não ia ter porra nenhuma disso! Brasileiro é de grupo! Não é de porra nenhuma! Fala muito alto enquanto o Flamengo não faz um gol. O outro vem, toma o dinheiro de todo mundo, e fica todo mundo rindo... Isso é casa de mãe Joana, porra! Lá no Cairo, na casa do caralho, numa parada de 7 de setembro, um cara saltou do carro e fuzilou todo mundo no palanque. O tigre é um animal de porte violento mas se tiver de  barriga cheia não ataca ninguém. Agora, brasileiro tá fudido, tá com fome, mas tá tapando o sol com a peneira. Cadê a Queda da Bastilha pra libertar essa porra?"

(continua)






quarta-feira, 29 de março de 2017

Sérgio Ricardo - Quem Quebrou Meu Violão (1991)

O compositor e cantor Sérgio Ricardo é autor de uma bela e rica obra musical, mas sempre é lembrado por ter quebrado seu violão e o atirado contra o público que o vaiava no Festival da Record em 1967. Esse episódio sempre ficará marcado na carreira desse grande compositor. Em 1991 Sérgio lançou um livro contando um pouco de sua vida e carreira, fazendo revelações e desabafos. O título é Quem Quebrou Meu Violão, logicamente uma referência ao episódio que infelizmente mais marcou sua carreira.
O jornal O Globo fez uma resenha do livro, assinada por Paulo César Coutinho, autor e diretor de teatro, e traz ainda uma pequena entrevista com Sérgio Ricardo, feita por Cláudio Henrique:
"Sérgio Ricardo foi uma figura pública marcante no cenário artístico do país. Exerceu múltiplas atividades: músico, cineasta, ator e militante político. Sua presença marcou a lembrança de toda uma geração. Esse autor e sua extensa obra foram porta-vozes dos ideais reformistas de um setor da classe média. E é assim que ele emerge nesse seu livro autobiográfico. Sérgio Ricardo logrou a questionável proeza de manter-se imutável. O autor conserva ainda o mesmo discurso que o tornou famoso. Seu relato ganha, assim, o interesse histórico de uma visita ao museu de ideias. Entra-se na máquina do tempo, com um guia vestido a caráter com a ideologia da época.
'Chega de Saudade', o recente best-seller memorialista de Ruy Castro, irritou Sérgio Ricardo. Ele chama seu antigo companheiro de 'um tal de Ruy Castro, vulgo cacique Boca de Hiena, cheio de saudade de uma farsa'. E dispara: 'Três décadas depois do surgimento da bossa nova vem um arqueólogo de araque remexer as cinzas de um vulcão extinto'. Mas, pelo fato de Sérgio Ricardo ter decidido fazer sua própria arqueologia, talvez o vulcão não esteja tão extinto assim. A sua visão de alguns temas pode causar perplexidade ao leitor contemporâneo. Ele estranha, por exemplo, a presença de Roberto Carlos no Festival Internacional da Canção: 'Eu não podia entender sua participação num festival que se propunha, a rigor, a revelar trabalhos de vanguarda. Não me constava que Roberto Carlos estivesse engajado nisso.' É curioso. Sérgio Ricardo julgava-se de vanguarda? O autor continua falando de Roberto Carlos e não resiste a uma patrulhada: 'Lançou seu iate na Guanabara, se intitulou majestade de um reino falso, num castelo de cartas marcadas'.
Os tropicalistas não merecem melhor juízo. Assim o autor se refere ao movimento; 'Meteram-se em indumentárias extravagantes, cultuaram os Stones, os Beatles, sua instrumentação, mensagens, jeito de cantar e de se expressar, importaram a contracultura, escancaravam as mãos para a entrada da cultura externa, que se instituía contra seu próprio povo'. Se isso era verdade, por que esse mesmo poder instituído perseguiu, prendeu e exilou os ídolos que lhe eram convenientes? É impressionante a injustiça que Sérgio Ricardo comete com Gil e Caetano e, depois de todos esses anos, a total ausência de perspectiva histórica da dimensão revolucionária do tropicalismo para a arte no Brasil.
Sérgio Ricardo viajou aos Estados Unidos, num momento de grande efervescência naquele país. É frustrante seu contato com a cultura americana: 'Sua filosofia semeava a futura aparição dos hippies e o surgimento dos Beatles. Era o inconformismo com os padrões estabelecidos da moral e dos costumes, revelando apenas sua rebeldia, sem qualquer proposta de transformação política'. Será que Woodstock, a liberação sexual e os protestos pacifistas que contribuíram para o fim da guerra do Vietnam não foram transformações políticas? O autor julgou ter captado a filosofia que germinava na América, em aspectos epidérmicos, na cópia superficial que tanto condenava: 'Resolvi deixar a barba crescer como aqueles beatniks, para sentir o barato deles. Andava com minha roupa mais surrada'. E o antiimperialismo de Sérgio Ricardo era tanto que ele recusou a aprender  inglês.
Em Nova York, Sérgio quis filmar as desgraças de um retirante. Seria a versão CPC de 'A rainha e o plebeu'? No Brasil, filmou 'O menino da calça branca'. Recebeu críticas do cineasta Ruy Guerra: 'Não havia cabimento, segundo ele, fazer-se um filme sobre a favela, usando um branco, teria sido mais próprio usar um menino preto para contrastar com a calça branca'. Mas Sérgio 'aproximou-se' dos favelados: 'Acabei comprando um barraco no morro do Vidigal... Alternava minhas idas e vindas a ele, procurando me enturmar... 'lá em cima, liderou a resistência dos favelados à remoção, virando nome de rua na favela - 'Tirei-os da apatia', orgulha-se.
Após o célebre episódio em que quebrou o violão no palco, comenta que saiu 'escoltado pela polícia para não ser linchado por um bando do CCC (Comando de Caça aos Comunistas), que vinha tomar as dores da plateia'. Que estranha situação! O CCC, que sempre espancou as plateias, resolveu defendê-las? A polícia, que sempre acobertou o CCC, resolveu enfrentá-lo? O idílio com João Gilberto incluía 'caminhadas pelo calçadão de Copacabana, até o raiar do dia e até o despertar da minha consciência'. O autor atribui a João Gilberto tê-lo convertido ao seu marxismo conservador. Conta que o lavava para casa. Após o café da manhã, iam dormir. Sérgio revela: 'Entre minha cama e a dele, ficavam o piano, o violão, as estantes e o violino'.
É importante constatar que a rigidez sectária de Sérgio Ricardo tem raízes no no primarismo político. Em 64, diz, 'finalmente estava em marcha o surgimento de um novo Brasil... Logo depois era dado o golpe militar'. É a ingenuidade conciliatória da visão nacional-popular que, historicamente, mostrou-se suicida. É o panfletarismo doutrinário do CPC da UNE. Culturalmente tão atrasado e autoritário como a direita. Em suma, o livro lembra a música do ídolo João Gilberto 'já temos um passado, um violão guardado'. Ou será um violão quebrado?

Nesta entrevista , o cantor Sérgio Ricardo defende seu livro e critica a bossa nova.
O Globo - Quem quebrou o seu violão?
Sérgio - Quebrar o violão no festival da Record foi um ato histórico porque representou uma reação coletiva das pessoas. Naquele momento de nossa História, três anos após o golpe militar, o povo brasileiro estava mesmo querendo quebrar os seus violões. Quando vaiava a minha música, o público se manifestava, não contra os jurados mas contra a ditadura, representada na eleição de quem ganharia o festival. Os músicos eram apenas marionetes, um joguete dos meios de comunicação. E estamos cada vez mais no fundo do poço.
O Globo - Que caminhos a cultura brasileira deveria ter tomado?
Sérgio - Os caminhos normais, ou seja, a arte seria usada como instrumento de conscientização das pessoas. A música brasileira não só deixou de evoluir como involuiu. Tanto assim que os brasileiros hoje têm preconceitos com nossa música popular, como o maracatu, o baião. Só existem festivais de rock, quando nossa música é muito mais interessante. Não é à toa que os nossos melhores músicos fixaram residência fora do país e que os estrangeiros vêm aqui para beber nessa fonte. Somos 'chupados' na cultura da mesma forma como em nossas pedras preciosas.
O Globo - O livro 'Chega de Saudade', de Ruy Castro, é discriminatório quanto à MPB?
Sérgio - Este livro apenas ajuda na deterioração da nossa cultura. Ele informa errado e ignora artistas como Cartola e Nelson Cavaquinho ao informar que a bossa nova foi o  primeiro grande movimento da MPB. Ora, a bossa nova nem sequer existiu. Não foi um movimento, mas um fã-clube. Um grupo que se reunia num apartamento para imitar João Gilberto. Tom Jobim, Vinícius de Moraes e João Gilberto, por exemplo, têm um trabalho que vai muito além da bossa nova. Ruy Castro fez um livro romanceado a partir de fontes como Ronaldo Bôscoli, que é o galã da história.
O Globo - E qual seria a saída para a música brasileira agora? Novos festivais?
Sérgio - Os festivais de música revelam novos valores, mas interessam basicamente às televisões. Toda a música, aliás, está atrelada a interesses internacionais. Pelo menos 99% do que há de melhor em música brasileira está nas gavetas dos compositores. Quem já ouviu falar em Guinga, Filó? Sai até uma coisinha aqui, outra ali, mas eu quero vê-los aparecendo no 'Fantástico.'. "




terça-feira, 28 de março de 2017

Diana Pequeno - Revista Música (1981)

 Diana Pequeno foi uma das muitas cantoras surgidas  no Brasil no fim dos anos 70. Com um trabalho regionalista, baseado principalmente numa vertente que foi batizada de "new caatinga", por falar de coisas do agreste e do sertão, Diana foi conquistando seu público. A partir de seu terceiro disco, seu trabalho foi se urbanizando, e abandonando aos poucos a temática agreste. E é justamente essa mudança que significou para muitos  uma indefinição do trabalho da cantora.
Nessa matéria publicada em 1981 na revista Música, a diversificação que o trabalho de Diana vinha experimentando é analisada por Angelo Iacocca:
"A tendência de Diana estar sempre procurando um novo caminho, vem gerando algumas dúvidas quanto à consolidação de sua carreira. As mudanças, com muita frequência, nem sempre são sinônimo de criatividade. Evidentemente seu sucesso comercial não está sendo abalado - pelo menos por enquanto - devido ao bom momento que ela atravessa:  das cantoras que surgiram nos últimos cinco anos, Diana é uma das poucas a manter boa posição no mercado, tanto em vendas quanto em afluência de público aos seus shows.
Seu último disco, Sinal de Amor, representou o grande impulso em direção a uma nova fase, desta vez desgarrada de todas as influências anteriores, principalmente da corrente musical que vinha da caatinga, e que marcou profundamente o início de sua carreira. Mas devemos levar em conta sua vivência inteiramente urbana, é que o contato com a música de Elomar ocorreu em Salvador e não na caatinga.
Mas, se esta nova opção de Diana foi benéfica como libertação, inclusive de compromissos ideológicos, musicalmente decepcionou aqueles seu seguidores que queriam ver conservada a simplicidade que marcou os dois discos anteriores, não muito pela temática, agora um tanto urbanizada, mas principalmente pela instrumentação, eletrificada em excesso.
E ao transpor este trabalho para o palco em seu show, também chamado 'Sinal de Amor', Diana escolheu uma autêntica banda de rock 'Cheiro de Vida', mais preocupada em mostrar seus malabarismos eletrônicos, do que tentar acompanhar a voz forte, sufocada pelo som estridente das guitarras, porém muito valorizada quando o acompanhamento fica a cargo do rabequeiro e violonista Zé Gomes, ou quando ela se acompanha ao violão. É verdade que o público aderiu ao som da banda, pois qualquer som 'pauleira' é um convite à dança... Mas qual o papel de Diana  Pequeno nisso tudo? Não acredito que ela pretenda ser uma nova revelação do gênero, principalmente se a intenção for a de adaptar músicas folclóricas, como 'Regina', para o rock. A não ser que mude radicalmente.
Para seu próximo disco, Diana Pequeno pretende realizar um seu grande projeto: gravar textos de poemas brasileiros musicados por ela. Depois da tentativa mal sucedida com poemas de Cecília Meireles (os poemas já estavam gravados, mas os herdeiros exigiram uma quantia exorbitante, que a gravadora não quis pagar), agora parece que tudo vai dar certo, já que com o poeta escolhido, Mário Quintana, não existirão tais problemas. Eles tornaram-se amigos em Canela, no Rio Grande do Sul, onde a ideia da gravação nasceu.
Portanto, para o próximo disco de Diana, o poeta Mário Quintana terá presença garantida (o desejo da cantora era fazer um LP inteiro com seus poemas, mas ela mesma reconhece que é difícil). Alguns poemas já estão musicados, entre eles 'De Repente' e 'Noturno'. Com esse disco Diana acredita poder divulgar a obra do poeta que já está com 76 anos.
Quintana passou a ser valorizado somente a partir de 1970; mesmo assim ainda não é conhecido em todo o Brasil.
Quanto ao seu próximo disco, Diana diz que pretende ser mais individual, desenvolvendo um trabalho com pessoas que sintam a música como ela, e desenvolver novas ideias, inclusive gravar composições suas, o que não tem feito até agora justamente por não ter explorado sua individualidade. "