Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Roberto Menescal Fala Sobre Os Novos Baianos

Os Novos Baianos passaram pela gravadora Philips/PolyGram, cujo diretor artístico era Roberto Menescal. No livro Essa Tal de Bossa Nova, Menescal conta vários casos envolvendo artistas com os quais ele manteve relações pessoais e profissionais. Sobre os Novos Baianos ele deu o seguinte depoimento:
"Novos Baianos foi uma coisa muito nova no Brasil, tanto na música quanto no comportamento. Quando eles conheceram João Gilberto, tiveram uma grande influência dele e conseguiram misturar muito bem a proposta inicial com aquilo que eles  tiraram do encontro com o João. E a partir dessa mistura eles começaram a fazer uma coisa mais puxada pro samba, meio 'Preta Pretinha'.
Eu estava acompanhando a carreira deles de longe, até que eles assinaram com a PolyGram para fazer um trabalho e me pediram para bater um papo com eles, fui visitá-los no apartamento onde moravam.
Quando eu cheguei, eles me receberam em uma sala completamente vazia e com as luzes apagadas. Alguém já chegou dizendo pra mim: 'Menesca, Menesquinha! Festinha, festinha!'.
Passamos pelos quartos, e em cada um deles havia três barracas de camping, e cada família morava em uma. Unindo uma barraca à outra, havia bandeiras de São João. O prédio onde eles moravam era simples, mas estavam em uma cobertura com um terraço grande. Eles me levaram para o terraço e nos sentamos em uma mesa grande com bancos, e em volta da gente tinha um montão de crianças brincando, filhos deles e dos amigos.
Batemos um papo, e em algum momento me ofereceram um café. Daqui a pouco um deles veio com um recipiente grande com o café e servia as canequinhas de plástico usando uma concha de sopa.
Naquele dia tinha gravação marcada na PolyGram, então lá pelas cinco horas da tarde eu tive que voltar para a gravadora. Saí de lá meio tonto, me sentindo um pouco mal, e achei que deveria ser por conta de tudo aquilo que eles estavam fumando.
Quando entrei no carro eu já estava completamente loucão. A sensação que eu tinha é que todos os carros estavam vindo na minha direção, então fui dirigindo por cima do canteiro ali do Aterro do Flamengo. Perto do Museu de Arte Moderna, tinha sempre segurança do exército, da marinha e da aeronáutica, e eu quase passei por cima dos caras com o carro. Loucura total!
Cheguei na PolyGram me sentindo muito louco. A gravação já havia começado e eu cheguei dizendo que não haveria gravação nenhuma e mandei todos pra casa. A essa altura, todo mundo já estava me estranhando. Fui para casa e não conseguia dormir. Passei num dia e meio me sentindo assim.
Passado um tempo, estava conversando com o maestro Waltel Branco, que havia acabado de fazer um arranjo incrível para os Baianos.
- Todo mundo aqui achou que você arrasou nesse arranjo!
- É interessante que o arranjo não tinha ficado muito bom, os Baianos não tinham gostado. Mas aí eu estava ali no apartamento deles, tomei um suco de laranja que eles me deram e acabei escrevendo ali mesmo esse arranjo. Eu até fiquei tão empolgado com o arranjo que fui pra casa, não conseguia dormir e passei a madrugada inteira cortando grama!
Depois eu fiquei sabendo que alguém ali havia botado ácido no meu café pra eu ficar mais 'alegrinho' e também no suco do Waltel. Eu fiquei tão bravo quando descobri! Mas era o auge do movimento hippie, uma época de muitas loucuras no mundo inteiro. Mas, depois que essa época passou, cada um foi se encontrando e fazendo as suas carreiras de uma forma muito bacana."


sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Eduardo Araújo - Rock, a História e a Glória (1976)

Em 1976 Eduardo Araújo vivia a sua fase mais roqueira. Após lançar o emblemático disco Pelos Caminhos do Rock, Eduardo lançava o disco seguinte, Sou Filho Deste Chão. Na época, a revista Rock, a História e a Glória tinha uma seção fixa intitulada Rock e Eu, onde era entrevistada uma figura ligada ao rock, seja artistas, jornalistas, radialistas, etc. Em sua edição nº 20 a revista entrevistou Eduardo Araújo, em matéria assinada pelo jornalista Caíto Gomide.
Na introdução da matéria foi destacado o seguinte texto:
"Do Rei do Rock de Minas ao Filho Deste Chão, passando por cachaça com farinha, lambretas, giradoras. Os Bons, Elvis e as raízes: os caminhos do ex-Garoto do Rock. 'Toda essa vivência culmina neste último trabalho, brasileiro num contexto universal, como Airto.' "
Segue abaixo a transcrição da matéria:
"Na adaptação do rock no Brasil, em termos de música, sempre foi conciliar as influências estrangeiras; no caso, o rock com ritmos originais, com as raízes.
Eduardo Araújo sempre buscou esse caminho, que por vezes é árido demais, mas num momento onde a criação musical do mundo inteiro se volta para o Brasil, é importante que se tenha um trabalho em resposta a essa exportação de influências.
Isso é uma preocupação capilar no novo disco de Eduardo Araújo, que soa nas caixas de som de seu estúdio, comprado após uma ligeira decepção com a música depois de seu disco Pelos Caminhos do Rock.
Eduardo fala com entusiasmo deste novo trabalho: funky, jazz, rock mas, principalmente, com uma pulsação brasileira inconfundível de capoeira, baião etc.
Seus músicos: Pestana (sax), Valdeci (baixo), Luciano (guitarra), Peninha (bateria), mais Eduardo & Silvinha concordam tacitamente que este novo disco, Sou Filho Deste Chão - nome de uma das faixas - traduz literalmente o ambiente como ele foi criado.
Importante investigar as origens desse trabalho, as quais se tornam claras, quando olhamos para trás na história de Dudu: quem não se lembra de Maringá, De Papo pro Ar, talvez as primeiras tentativas de conciliação do rock com a música brasileira?
Dudu estudava num internato em Belo Horizonte numa época sintomática: o filme Juventude Transviada impulsionava a juventude para um novo ritmo de vida; sua turma, a primeira a usar os ostensivos blusões de couro à James Dean, foi a primeira a tocar e dançar rock naquela época em parques públicos enquanto a polícia não chegava, escoltada por uma legião de lambretas.
'Neste momento, Mônica, filha de Eduardo: - 'Era parecida com a pestana sobre as 'giradoras': garupas das lambretas'.
Eduardo: ´Era parecida com a moto que meu pai tinha..., a resposta acompanhada da decepção de Silvinha de nunca ter andado na garupa de uma lambreta e da recordação de Pestana sobre as 'giradoras': gatas malucas que andavam nas garupas das lambretas.'
Nessa época, Dudu já tinha composto alguns de seus rocks, instintivamente com andamento de baião, por exemplo: - 'Cachaça com Farinha', que em um dos versos dizia: '... e o padre caiu no rock e todo mundo só pedia cachaça com farinha...'
E a carreira começa com 'Rock Around the Clock', cantado e dançado no programa 'Volta ao Mundo' de Rosana Tapajós, que focalizava a música dos Estados Unidos, com Dudu tendo um acesso de tosse em plena transmissão, devido ao primeiro cigarro fumado em sua vida. O passo seguinte foi a eleição de Rei do Rock de Minas Gerais e a formação de um grupo com Silvinha & Nivaldo Ornelas no sax.
Vindo para o Rio após uma fuga de casa cantou no programa Hoje É Dia de Rock, de Taumaturgo, que ficou impressionado com o swing diferente na música Be Bop a Lula, de Gene Vincent, produzido por uns gritos criados pelo 'Rei do Rock de Minas Gerais'.
Com o sucesso da primeira apresentação, veio a gravação do primeiro compacto: 'O Garoto do Rock', datado de 1958, com Baden Powell, Os Cariocas, onde a faixa 'Deixa o Rock' tinha inconfundível sotaque mineiro entre as inflexões vocais 'elvisianas'. Na mesma época, participava dos programas de Carlos Imperial: 'Os Brotos Comandam', 'Festival da Juventude', junto com Roberto Carlos, Renato e Seus Blue Caps...
Em 65 com o sucesso da Jovem Guarda, Eduardo volta de seu retiro, como administrador de fazendas, a conselho de Imperial para encontrar seus velhos amigos como 'reis do yê yê yê'.
Grava O Bom, indiscutivelmente seu maior sucesso, e ganha um programa de televisão no extinto Canal 9 de São Paulo, dividindo a apresentação com uma velha amiga sua: Silvinha, depois namorada e esposa.
Nessa época, o sucesso de Eduardo era o inverso de Roberto Carlos com seu disco tocado na Boite Cave de São Paulo, e sua música curtida por uma certa elite que apreciava sua performance mais violenta que as peripécias juvenis de Roberto Carlos e do elenco da Jovem Guarda. Dessa época também consta a formação da primeira banda de rock, com 12 membros e logo depois o conjunto 'Os Bons', por onde passaram os guitarristas Lanny e Cacho Valdez e o baixista Villy Verdaguer.
Eduardo e Silvinha
Com a vazante da onda da Jovem Guarda, tenta um outro disco, A Onda É Bugaloo, com backgrounds de Tim Maia, e a faixa Você, que depois se tornaria hit de Tim Maia. Este disco era uma tentativa de introduzir o funky no Brasil e ainda numa apresentação no 'Programa RC7', com sua banda formada no Hotel Danúbio, causando o maior alvoroço nos bastidores do programa.
Eduardo atravessou a época das vacas magras da música brasileira de 69 a 71 vindo a gravar um LP em 71 com músicas tradicionais como 'No Rancho Fundo' e 'Ave Maria do Morro', arranjadas em ritmo de rock, esse primeiro passo concreto no rumo do som de hoje.
Desse disco até hoje, Eduardo gravou mais três lps, entre eles: Pelos Caminhos do Rock tendo problemas de divulgação e aceitação num sistema musical que não permite a evolução musical de seus astros. Seu novo lp, Sou Filho Desse Chão, será lançado em julho pela Copacabana, desta vez contando com sua banda bem coesa, apesar dos handcaps diversificados de seus músicos como o flautista Pestana e o baixista Valdeci, emersos da cultura urbana e da influência jazzística e de Luciano, guitarrista, companheiro de Pepeu, com estilo característico dos melhores choristas brasileiros, e por fim Peninha, baterista acompanhante de Peri Ribeiro e Leni Andrade, aluno de Walter Smetak.
'A realização de toda essa vivência musical, culmina neste último trabalho, diz Eduardo, onde eu procuro catalisar todo o conhecimento musical com o qual eu e meus músicos tivemos contato, colocando este disco essencialmente brasileiro, dentro de um contexto musical universal, característico das obras vanguardistas de músicos como Airto Moreira, Milton Nascimento e outros.' "


sábado, 24 de novembro de 2018

Jorge Mautner Fala de Luiz Melodia - Jornal Rolling Stone (1972)

Em 1972 Luiz Melodia ainda era um jovem compositor ainda pouco conhecido e inédito em disco. Seu primeiro álbum, Pérola Negra, seria lançado no ano seguinte, e revelaria um cantor e compositor dos mais talentosos de sua geração. Melodia, até então, já chamava atenção por ser o desconhecido compositor descoberto por  Waly Salomão, e autor de Pérola Negra, uma das músicas que mais se destacaram no aclamado show Fa-Tal - Gal A Todo Vapor, de Gal Costa em 1971.
O jornal Rolling Stone em sua edição nº 32, de dezembro de 1972, trazia uma das primeiras matérias com Luiz Melodia, assinada pelo sempre antenado Jorge Mautner, que tinha como título "Luiz Melodia, o gato eletrônico". Segue abaixo a transcrição:
"Luiz Melodia é um genial compositor, cantor e emissário da negritude na música popular brasileira. Autor de Pérola Negra, cantado por Gal Costa, Luiz Melodia é do Estácio de Sá, isto é: as raízes mais básicas da negritude brasileira.
Mas Luiz Melodia é ao mesmo tempo um salto de qualidade, ele é um sofisticado do morro, ou um intelectual de pensamento vertiginoso e que inclui em suas letras toda uma informação, absorção, um assumir de toda sua cultura negra de morro carioca. Orgulhoso de sua cultura, Melodia a meu ver reúne quatro grandes influências motoras:
1ª) A que emana naturalmente de seu meio-ambiente de formação, o morro carioca e a Escola de Samba de Estácio de Sá.
2ª) Blues de Jimi Hendrix e Janis Joplin.
3ª) Dramaticidade e informação pop, certas atmosferas melódico-poéticas que vêm de Roberto Carlos.
4ª) A de Gilberto Gil, o experimentalista, o alquimista da cultura negra brasileira, de sofisticação máxima, a quintessência.
Como se vê, as combinatórias produzem um produto complexo. Luiz Melodia tem em suas composições a consciência e ironia de quem enfoca as coisas com radicalismo, um radicalismo de consciência, consciência de sua negritude, de morro, de compositor de morro intelectual, e que vai fundo no amargor da existência, da amargura de sua luta, seus conflitos, e extrai daí não mais um lamento lindo mas complacente, extrai, isso sim, uma afirmação de uma alegria ativa, um ironizar criticando, mas sem perder a graça dançarina que é o conteúdo dionisíaco e vital da cultura afro-americana.
Um compositor em conflito, letras em conflito. Mas passando por cima e por dentro delas um bálsamo confortador. Um bálsamo de alegria positiva aqui agora, a sabedoria de sua cultura negra de ex-escravos, a afirmação da alegria do momento, em suma, o prazer. Uma música muito contraditória que faz sua ordem e união através da cadência do ritmo, da herança que vem dos velhos sambas, dos uivos do blues (samba dos irmãos lá do norte), daquela cadência que faz explodir em nós paisagens de maravilhas.
As músicas de Melodia são músicas de um homem ágil, um gato, um dançarino, um malandro. Melodia retransmite (agora em linguagem que adquiriu novos níveis de consciência) a mensagem de habilidade e sobrevivência que o samba sempre conteve. A música da sobrevivência, agilidade, pretos de morro sobrevivendo no difícil mundo (e eis o motivo deles retratarem também a nossa dor, pois especialmente no Brasil os brancos absorveram a cultura negra num nível maior e com muito menos resistências e conflitos do que, por exemplo nos USA. A dor de Melodia é nossa dor também, assim como a alegria, quase toda gente em nossa terra sabe batucar, o futebol anda de braço dado como  samba, heróis olímpicos pretos confundem-se com estandartes de escolas de samba.
Mas Melodia é um salto nessa consciência, ele já tem atrás de si a televisão, a influência do vídeo, as informações vertiginosas de nossa época, o próprio morro, o próprio Estácio de Sá possui antenas de televisão.
Suas músicas vão de uma ironia sobre o pitoresco, até variações sobre provérbios com emoção patética, até o sarcasmo e a tragédia. Sua música sofre dissonâncias e preciosismos difíceis mesmo de acompanhar, outras vão para o básico, retornam às raízes em plenitude. É neste ziguezague radical, neste dançar por entre agudos opostos que reside sua força e característica.
É 8 ou 80 a unidade deste ziguezague (digo-o novamente) é fabricada pelo ritmo afro-brasileiro do samba já banhado em blues, blues eletrônico, os dois interligados, como consciência panamericana, ritmo das Américas negras que se reconheceu e identificou, embora mantivesse em ambas manifestações características locais profundas.
Luiz Melodia, Estácio blues, seguindo o próprio autor, música do malandro eletrônico, no fundo um sábio, na verdade um mestre.
Luiz Melodia compõe muito, seu universo é tão rico, tão variado, tão forte, sua potência criadora, sua fome, sua sede, sua força vital tão elétrica, que músicas sucedem-se a músicas, como mensagens contínuas de uma passagem borbulhante, cheia de requebros e gingas, malandragens, a vida ali no conflito. Já na base e com toda aquela visão panorâmica de paisagem colorida que só tem quem mora no alto do morro, ou que partilha de alguma maneira de sua esfera mágica, de perspectiva de subida e descida, barracos coloridos, tradição cultural com estandartes, honras, prêmios, uma História e uma História mitológica, mitos, cortejos, desfiles.
E ao mesmo tempo o desafio da cidade, o monstro de concreto que pode se transformar a qualquer minuto se se fizer o gesto correto ou se disser a palavra certa e sempre mágica (pois o marginal sabe que o mágico é realidade e a fantasia algo concreto) num maná de possibilidades. O morador do morro faz parte da cidade, não é um homem do campo, jamais tem a sua ingenuidade, ele compartilha de maneira marginal (e por isso mais profunda pois vê as coisas de um ângulo absolutamente original) da vida da cidade.
O morro, a escola de samba em contradição com a cidade e fazendo parte de sua vida, eis o complicado temário de Luiz Melodia. Que paisagem rica! Tropical, carioca urbana, onde numa riqueza de aparições existe de tudo: histórias de sabedoria de preto velho, ironia sobre a vida urbana, diálogos de empregadas 'sacando' a vida das patroas, visão cósmica de quem vê o mundo lá de cima, às vezes cores puras, simplesmente beleza, xuxu beleza, vento, sol, passarinhos, outras é só a raiva, que brota muitas vezes, tantas vezes quanto a alegria e a informação de viver com o entusiasmo de gato selvagem urbano.
Eu poderia me estender infinitamente sobre Melodia, mas prefiro passar como um relâmpago, pois é assim que vejo Melodia, como um relâmpago poético, em pessoa se apresentando: um gato elétrico e nervoso com seus grandes olhos sempre sacando coisas, seu som eletrônico, seu sorriso incrível, um dos maiores artistas dessa terra, aprendo com Melodia mil segredos que a profundíssima cultura negra tem a transmitir, e agradeço a ele, e através dele toda a sua cultura que é tão nossa, volto novamente ao batuque e carnaval de nossa infância, e sempre volto aos mil trejeitos e gingas aprendidos com todos nós com a cultura africana, e às mil visões e pensamentos incríveis, fantasias que a cultura negra criou e que hoje estão absorvidas e fazem parte viva da cultura brasileira.
Melodia é o poeta do conflito, da paixão em tom eletrônico e afastado, incursões do novo sistema nervoso do homem urbano, voltar à velha saudade, um molho único peculiar, onde a efervescência da liberdade é tão forte quanto as vibrações de sua música."


quarta-feira, 11 de abril de 2018

Raul Seixas: O Delirante e Atrevido Elogio da Mentira (1977)

Em 1977, o jornalista e crítico Nelson Motta fez uma análise da personalidade de Raul Seixas, um artista controverso e talentoso, em sua coluna em O Globo. O jornalista em seu texto fala no costume que Raul tinha de inventar histórias a seu respeito, de mentir constantemente. Era uma marca na personalidade de Raul, que Nelson Motta analisa no texto abaixo:
"O atual show de Raul Seixas é cabal demonstração prática do auto-conceito que já expressou muitas vezes - e que, como muito do que disse -, não foi devidamente levado em conta:
- Eu sou um ator que representa o papel de cantor e compositor.
Não posso deixar de associá-lo a outro ilustre baiano, Glauber Rocha, ao dizer-se na realidade um político que se vale do cinema como forma capaz de melhor expressar suas ideias.
Ao contrário do que se pensa, num mundo de crescente cinismo, desencanto e pé-atrás, Raul não quer enganar ninguém. Ou melhor, quer enganar tanto e tão ostensivamente - por determinação própria e consciente - que a sua presença artística, como um todo, se apresenta cristalina em sua verdadeira essência e na plenitude de seu potencial desmistificador.
Inquieto e atento navegante dos mares de lama e púrpura das civilizações industriais de nosso tempo, Raul não se furta a viver plenamente as torturantes contradições que são próprias dos seres artísticos em geral quando criativos, e conscientes em particular.
Um dia ele me disse que havia feito (ou iria fazer, não interessa) um filme em que estaria pelas ruas de Nova York vestido de palhaço, abrindo latas de lixo e devorando com prazer quase sexual os restos da opulência e da pobreza da nação mais poderosa de nosso tempo. Tá legal, uma boa cena de filme, se bem interpretada. Ao lembrar-me dela vejo Raul mostrando como iria representá-la, no jardim da minha casa... E mais, tenho quase certeza que ele me disse que tinha vivido, ao vivo mesmo, de corpo presente, a cena supracitada. Deve ser 'mentira' dentro dos padrões tão estupidamente repressivo-punitivos que habitam o rigor dos pouco criativos. Afinal, é tão difícil e complexo - quase inatingível mesmo - conseguir perceber com clareza o real, que o exercício da imaginação se torna uma das formas mais ricas e bonitas de tentar chegar ao Real e à tentativa de sua compreensão...
Raul mente até cair de costas. Sempre, cada vez mais, com tal coerência e constância que tudo acaba se tornando exemplarmente verdadeiro aos que o veem e ouvem suas palavras - que são as de um ator, um grande ator, que às vezes representa melhor e outras, pior o seu papel de cantor e compositor.
Você, que é mais arguto/a, já deve ter notado que uma visão um pouco mais profunda do que representam o trabalho-figura de Raul Seixas, no momento nos remete obrigatoriamente aos signipecados da instituição universal da 'mentira', quase todos de origem moral - disciplina na qual são raros e complexos os mestres e tantos e intolerantes os cobradores.
Sem adentrar os breves receituários da 'mentira caridosa', 'mentira desinteressada' e outros qualificativos, diga-se que a fantasia e a capacidade de recriar a realidade representam atributos próprios dos artistas e como tal são aceitos pela sociedade, não no nível condenatório de 'mentira', mas já no status de 'arte' - a mentira consentida, aprovada 'moralmente' como atividade humana necessária à comunidade. Seria talvez um... 'mentir com arte'? E quando a mentira é tão bem e convenientemente contada que você a vive como real e como tal a incorpora, a seus universos interiores de memória, informações e emoções?
Agora... se você conta uma maravilhosa história que você (não) viveu e ela a todos encanta, a ponto de despertar as invejas e as imediatas suspeitas de que você não pode ter tido o privilégio de vivê-la, você passa a ser investigado e fiscalizado como um mentiroso.
A menos que - estranha 'moral' - ganhe a vida com isso; que torne suas mentiras ostensivas ao reunir pessoas especificamente para ouvi-las e fazendo-as pagar por isso.
Tantas vezes alguém é levado a recriar a realidade que consegue perceber por lhe ser insuportável a sua aceitação...
Tantas vezes alguém revela as coisas e pessoas não da forma como são vistas e aceitas mas à imagem e semelhança de suas reais potencialidades não exercidas...
São algumas ideias importantes para uma devida valoração do trabalho de Raul Seixas, que talvez por não se ter agregado a qualquer corrente, movimento ou partido musical-promocional-criativo, ainda não só tenha desfrutado de atenções mais profundas dos que pretendem - como quem separa 'o joio do trigo' ou os santos dos pecadores - colocar de um lado os 'artistas' e do outro os 'mentirosos'...
Tipo solitário, introspectivo, tímido, Raul representa o exato oposto a isso como artista criador - e como tal assusta as pessoas, desperta-lhes o temor de atribuir-lhe alguma forma de 'seriedade' e depois perceber que tudo não passava de um grande deboche, desperta-lhes inveja pela capacidade de exercer de forma tão competente as suas fantasias; sejam elas Elvis Presley, Bob Dylan, John Lennon ou Raul Seixas mesmo, o seu próprio e mitológico personagem favorito.
No seu show ele aparece de roqueiro/70, alto rockand-roller/50 e como underground-maquis/60. Tudo uma supercascata, justamente porque ele recorre a esses símbolos tão fortes, que marcaram três gerações, para expressar a sua própria realidade e suas contradições; porque se sente exatamente como quem viveu e está vivendo realidades gêmeas das formidáveis 'mentiras' que seu talento e atrevimento transformam na realidade concreta de um dos mais interessantes, surpreendentes e ágeis artistas de sua geração: a que está na faixa dos 30. Ou dos 97? Ou dos 14 e meio? Ou dos 0,83? Ou..."

sábado, 31 de março de 2018

The Beatles (Álbum Branco) - Um Disco Controvertido

O disco que ficou conhecido como Álbum Branco, de 1968, é um álbum que apesar do bom resultado final, foi gravado num  clima de grande discórdia pelos Beatles. Apesar de ser um álbum duplo, o que leva a entender que havia uma grande produção musical, e portanto, que os quatro integrantes estivessem numa fase de grande criação coletiva, a verdade é que a banda estava bastante dividida, e o clima de união não existiu no estúdio. O núcleo mais criativo do quarteto, a dupla Lennon/McCartney praticamente não trabalhava mais em dupla. Lennon estava cada vez mais envolvido com a heroína, e seu envolvimento cada vez mais próximo com Yoko, o levou a praticamente não se envolver com a gravação do álbum. A ausência do empresário Brian Epstein, morto no ano anterior, também ajudou a causar uma ruptura entre John e Paul, já que os dois não entraram em acordo com relação à gestão dos negócios da banda. Enfim, o clima estava péssimo.
Nos anos 80, a revista SomTrês lançou uma série de revistas-poster dos Beatles, cada uma contando a história de um álbum da banda. No edição sobre o Álbum Branco, esse foi o texto que acompanha o poster, que media 1,10 x 0,90:
"- Ali não há nada de música dos Beatles (...) É sempre John e a Banda, Paul e a Banda, George e a Banda... E eu gostei muito de trabalhar assim.
A declaração, referente ao chamado Álbum Branco, é de John Lennon. Foi durante uma entrevista, anos depois do lançamento do LP, primeiro álbum duplo dos Beatles. Era também o LP de estreia do selo Apple que, até então, só havia editado o compacto 'Hey Jude'/Revolution', cerca de três meses antes.
Tão controvertido quanto os trabalhos anteriores (Sargent Peppers, Magical Mistery Tour), o Álbum Branco, como ficou conhecido) foi gravado de maio a outubro de 1968. As gravações não foram muito tranquilas e já prenunciavam o fim: começavam as crises que levariam à ruptura de um dos maiores fenômenos da música contemporânea.
Poster que acompanha o disco
Chegou a acontecer mesmo uma separação dos Beatles, pois Ringo deixou o grupo, aborrecido com as críticas de Paul a seu estilo de tocar. Alguns dias depois, porém, ele voltou, pois os três pediram, repetindo incessantemente que ele era o melhor baterista do mundo. Mas os problemas não acabavam aí. Desde a morte do empresário Brian Epstein, ocorrida no ano anterior, que o grupo estava meio órfão. Paul estava atuando como líder, mas isso não era suficiente e estavam todos baratinados. Sem Brian, também a parte financeira da Apple estava mal administrada. E o pior é que quatro parceiros musicais se viram na obrigação de atuarem também como sócios de uma empresa. E nisso, eles não eram bons. Mas mesmo sobre a contratação de um novo empresário para a firma houve divergências: Paul queria seu futuro sogro, Lee Eastman, e John, Allen Klein.
O fato é que na hora de gravar e editar o LP ninguém estava muito entusiasmado, mas havia um contrato a cumprir com a EMI. O resultado é bem diversificado, mas em termos de qualidade, é homogêneo. E apenas reforça o que já sabemos: só gênios podem conseguir que um trabalho desleixado resulte num produto do nível do Álbum Branco.
A diversidade das faixas também atesta a genialidade dos Beatles: conseguem passar do rock pesado ('Helter Skelter') às baladas ('Blackbird' e 'Mother Nature's Son'), via Hollywood ('Good Night') em contraste com a loucura de 'Revolution 9'.
John e Yoko
Foram gravadas cerca de 40 faixas, a maioria das quais, composta durante a viagem à Índia, quando estiveram com Maharishi Mahesh Yogi ('homenageado' por Joh Lennon em 'Sex Sadie'). Algumas foram, então, eliminadas, entre as quais, 'What's the New Mary Jane', que seria lançada em compacto, mas continua inédita até hoje. Restaram 31: 4 de George, 1 de Ringo e 26 assinadas por John e Paul. Apenas assinadas, pois não compuseram juntos (com excessão de 'Birthday'). Em geral, o autor é aquele que faz os vocais principais. Na verdade, cada um fez o que quis nesse disco. E, como sempre, acertou.
A capa branca é uma compensação à parafernália dos últimos trabalhos e traz apenas o título do LP em relevo. Dentro, os títulos das faixas e uma foto preto e branco de cada um. Como encartes, as mesmas fotos em cores e um poster com uma colagem que já foi chamada de 'versão visual de Revolution 9'. Do outro lado do poster, as letras. É ver, ouvir e conferir mais uma vez. Beatles 4 ever. "

quarta-feira, 28 de março de 2018

Djavan: "Minha Música É Minha Cabeça" - Revista Pop (1979)

Djavan se lançou na música nos anos 70, primeiramente participando de trilhas de novelas, e também se destacando no Festival Abertura, da Globo, em 1975, ao se classificar em segundo lugar com "Fato Consumado". Em 1976 lançou seu primeiro LP pela Som Livre, já mostrando uma musicalidade diferente, com muito balanço e suingue, além de escrever letras bem criativas. Mesmo assim, só viria a gravar seu segundo disco, "Cara de Índio", em 1978. Na edição de março do ano seguinte, a revista Pop trazia uma matéria com o músico, que começava a chamar a atenção e fazer sucesso. A matéria é assinada por Leo Correa, e traz o título "Djavan: 'Minha Música É Minha Cabeça' ":
Cara de Índio está fazendo sucesso. A música, tema da novela Aritana, da TV Tupi de São Paulo, é também o carro-chefe do disco que marca a estreia de Djavan Caetano Viana na gravadora EMI-Odeon.
Para Djavan, o sucesso de Cara de Índio é consequência de um pensamento que ele sempre defendeu: Não há distinção entre índios e nós, o povo em geral. 'Do meu ponto de vista', diz ele, 'estamos todos diante da mesma situação, isto é, cercados.' Na letra da música, ele procura deixar claro esta identidade comum: 'Nessa terra tudo dá, terra de índio/ Nessa terra tudo dá, não para o índio/ Apesar da minha roupa, também sou índio'. Mas, quando a gente pergunta se ele se inspirou nas discussões sobre a emancipação do índio, tão em moda ultimamente, Djavan nega: 'Fiz essa música há mais de dois anos, porque é um lance que sinto desde garoto. Para mim, isso que está acontecendo é apenas uma gota d'água diante do problema real, muito mais amplo'.
Alagoano de Maceió, Djavan foi considerado um sambista na época em que gravava na Som Livre. Este seu segundo trabalho revela o lado nordestino de sua música, em faixas como Alagoas e Estória de Cantador, esta última baseada na tradição e na linguagem do cordel. Ele demonstra ser também um bom cantor e compositor romântico da música na bela e sensual Álibi, que Maria Bethânia gravou com honras de faixa-título. Na área do samba, suas harmonias e divisões situam-no no samba numa linha progressiva, ao lado de Gilberto Gil, Jorge Ben, Paulinho da Viola e outros renovadores do gênero.
Participando do Festival Abertura, em 1975
Aos 29 anos de idade (e dez de batalha artística), Djavan acha que existem muitos outros caminhos a explorar. 'Tenho um som essencialmente nordestino, com todas as influências que recebi na região. Coisas que vão de Luiz Gonzaga a Lupiscínio Rodrigues, Angela Maria, e por aí afora. Mas também tive meu grupo de rock, lá pelos 18 anos. Chamava-se LSD (explica, rindo, que o nome se referia a luz, som e dimensão). Quem não cantava música dos Beatles naquela época? O jazz veio depois, junto com a Bossa Nova. E comecei a compor em cima de tudo isso, meio de brincadeira, até que resolvi ganhar o mundo.'
No tempo da Som Livre, Djavan gravou trilhas de novelas, sempre cantando músicas de outros compositores. Em seguida veio o festival Abertura, onde ele se classificou em segundo lugar, com Fato Consumado, e gravou um compacto duplo, bastante executado. Seu primeiro LP mostrava sua preocupação com o lado instrumental. 'Explorei muito o violão, e o pessoal achou interessante. Mas aí fiquei sentindo, sem querer admitir, que isso não era o que eu queria, não era só aquilo que eu tinha pra mostrar. Sou uma pessoa mais inconstante, mais circunstancial.'
Grandes mudanças de lá para cá, consequência de seu amadurecimento pessoal e artístico, mostram hoje um compositor preocupado com músicas que mostrem também o cantor, não apenas o instrumentista. Hoje, Djavan mora em Vila Isabel, tranquilo bairro carioca da Zona Norte. Lá ele encontra o clima das peladas de rua e das conversas de botequim às quais se habituou durante sua infância, em Maceió. 'Hoje em dia as pessoas conversam muito pouco.', ele se queixa. 'Acabou aquele negócio de chegar na esquina, trocar ideias, saber o que as pessoas estão pensando. E eu preciso saber disso, minha música é isso. As coisas estão aí, pelo ar. Quem chegar primeiro pega.'


domingo, 25 de março de 2018

Gilberto Gil Fala de Refavela

Lançado em 1977, o disco Refavela, de Gilberto Gil, é um dos melhores trabalhos de sua carreira.  Trata-se de um álbum em que Gil revela toda uma influência não só da música africana, a raiz da música negra mundial, como também da black music e do movimento Black Rio, que vivia seu auge naquele período. Em 2012, ano em que completou 70 anos, Gil foi homenageado com uma série de fascículos, denominada Coleção Gilberto Gil 70 Anos. Sob pesquisa editorial e textos do pesquisador Marcelo Fróes, a série traz depoimentos do músico sobre seus principais álbuns, e o volume 8 da série destacava o disco Refavela. Abaixo segue o texto do citado fascículo:
" 'Quando eu fiz 'Refazenda' com essa densidade da revisita e da retomada, eu quis levar o 're' adiante e aí o segundo estágio foi o 'Refavela' - com a coisa da revisita ao mundo negro', lembra Gilberto Gil, 35 anos depois. 'Eu queria aprofundar a questão da revisita... e aí a oportunidade foi com a África e o festival na Nigéria, que foi uma coisa enorme! Na volta concluí que, depois da fazenda haveria a favela - ambos territórios importantes, periféricos ao centro da civilização brasileira. A fazenda era um canto, a favela era outro. O conceito já estava praticamente estabelecido, mas a coisa na África foi fundamental - porque a vila olímpica que se construiu para abrigar os 50 mil representantes que vieram do mundo todo era como os blocos do BNH aqui. Havia essa ligação direta. Havia em mim um gosto por esse trabalho conceitual, unindo elementos da sociologia, da política e da antropologia, tudo isso num nível popular... num nível pop', define.
Gil foi convidado a participar do 2º FESTAC - Festival Mundial de Arte e Cultura Negra - que aconteceria por cerca de um mês a partir do final de janeiro de 1977 em Lagos, na Nigéria.
Ainda no final de 1976, quando foi convidado, Gil não só aceitou como também montou uma banda especialmente para apresentar-se ao vivo no evento ´com Perinho Santana (guitarra), Cidinho (teclados), Rubão Sabino (baixo), Djalma Correa (percussão) e Robertinho Silva (bateria). 'Quando Robertinho Silva soube que eu ia pra África, ele bateu lá em casa: 'Quem vai sou eu! Não quero nem saber!' Aí eu respondi: 'Mas rapaz, você tem seu trabalho com Milton (Nascimento)...' Ele já havia falado e disse 'eu vou pra África com você!', lembra Gil. 'A ideia de fazer um novo disco surgiu na Nigéria', lembra Gil.
'Quando voltamos, Robertinho reintegrou-se à banda de Milton e chamamos Paulinho Braga para gravar conosco, mas mesmo assim Robertinho ainda voltou pra que gravássemos um compacto daquela banda que fora à Nigéria', historia o autor, que participou como co-autor e músico das duas faixas registradas pela Brazil Very Happy Band para a Polydor em maio de 1977. Antes, porém, Gil e sua banda - com Robertinho substituído por Paulinho na maioria das faixas - entraria no novo estúdio de 16 canais da Phonogram para registrar o álbum 'Refavela'.
Era época do movimento Black Rio, com o funk começando por aqui e Gil quis aproveitar a maré - começando por uma controvertida versão do Samba do Avião de Jobim. 'O disco era pra isso, para registrar os 'aforismos' que havia na época - como era juju music de 'Balafon' e os blocos afro-baianos de 'Ilê Ayê', lembra.
'Era Nova' já existia no repertório de Gil, quando fora feita para Roberto Carlos - que não a gravou -, enquanto que 'Sandra' tivera origem na prisão de Gil por porte de maconha durante a passagem dos Doces Bárbaros por Florianópolis em julho de 1976. Embora Sandra fosse o nome de sua mulher à época, e que a mesma tenha sido um discreto personagem na letra da música, como foram as enfermeiras do sanatório em que Gil foi internado por ordem da Justiça, Sandra e Andréa eram duas amigas tietes de Caetano e Gil. 'Refavela', 'Aqui e Agora' e várias outras foram compostas durante a viagem  à Nigéria. 'Eu trouxe um balafon típico da região do Golfo da Guiné e fiz 'Balafon' ', lembra-se Gil, que ficou feliz de ter o amigo Roberto Santana - dos velhos tempos de Salvador - na produção do novo álbum. 'Refavela' foi gravado entre o final de março e o final de abril de 1977, quando também foram registradas as novas músicas 'Sala do Som' e 'É', além de 'Músico Simples' (de 1974). Todas as três acabaram ficando de fora do LP, mas foram finalmente lançadas pela Universal Music no CD 'Satisfação' de 1999.
'Quando eu fiz 'Refavela', já sabia que era a segunda parte de uma trilogia que eu iniciara', comenta Gil. 'Mas eu tinha consciência de que a terceira parte não seria 'Refestança', complementa. Gil refere-se à turnê relâmpago que realizou com Rita Lee e seu grupo Tutti Frutti em outubro de 1977, e que rendeu o disco ao vivo 'Refestança' naquele Natal. É que a turnê 'Refavela', iniciada pouco após o lançamento do LP de Gil em maio de 1977, acabou sendo interrompida por falta de apoio logístico. Para alcançar o interior do país com um pouco menos de desconforto, Gil desejava adquirir um ônibus monobloco usado e solicitou que este custo fizesse parte do tour support pago pela gravadora, mas não foi atendido. Gil resolveu bancar o ônibus do próprio bolso e pediu rescisão contratual à Phonogram.
Gil não sabe se teria ido para a Warner caso a Phonogram lhe tivesse apoiado na aquisição do ônibus, então é óbvio que a saída do amigo André Midani da presidência da gravadora na mesma época acabou pesando. Midani deixara a Phonogram para ser o primeiro presidente da Warner no Brasil, quando a mesma aqui se instalou em 1977. O convite para integrar o cast da nova gravadora incluía nas luvas o reembolso do valor dispendido particularmente por Gil no ônibus da turnê de 'Refavela'. Lendas da MPB. "