Palavras Domesticadas

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sexta-feira, 20 de maio de 2011

London London - O Exílio de Caetano


O Tropicalismo é reconhecido internacionalmente como um movimento contracultural, e sua influência não se resumiu à música produzida pelo grupo baiano, mas também abrangeu cinema, teatro e artes plásticas. Apesar de todo o alvoroço que causou em nossa vida cultural, o movimento foi bem curto, deixando de existir a partir do exílio em Londres de seus dois maiores porta-vozes: Caetano e Gil.
Em Londres os dois baianos tiveram que se adaptar não só aos hábitos e características de um outro país, mas também ao meio musical, já que para sobreviver, teriam que dar continuidade às suas carreiras naquele país. A foto acima, que ilustra essa postagem, por exemplo, traz um cartaz anunciando um show de Caetano por lá, quando ele é apresentado como um cantor brasileiro de folk-rock. Cada qual, à sua maneira acabou desenvolvendo suas carreiras. Pelo que li a respeito, Gil se adaptou melhor à vida Londrina, inclusive tendo uma elogiada participação alternativa no lendário festival da Ilha de Wight, em 1970. Já Caetano demonstrava um desgaste emocional mais acentuado. A foto da capa de seu disco londrino, onde ele aparece com uma expressão envelhecida e tristonha, deixa claro o que o exílio representava para ele. Nesse disco, na música If A Hold Stone, uma versão para a língua inglesa de seu sucesso Marinheiro Só, ele cita , em português, um verso da música Quero Voltar Pra Bahia, feita em sua homenagem pelo compositor Paulo Diniz: "Eu não vim aqui para ser feliz/ Cadê o meu sol dourado?/ Cadê as coisas do meu país?"

Porém a experiência em Londres abriu novos horizontes, e acrescentou muito ao desenvolvimento de sua carreira. Lembro de em 1977 ter lido uma entrevista de Caetano onde ele afirma que morar em Londres diminuiu sua timidez musical.
Em uma edição especial da revista Contigo, de 2004, dedicada a ele, um texto sobre seu exílio diz:
"Por mais paradoxal que possa parecer, Caetano Veloso deve à ditadura militar o fato de ter continuado a cantar. Preso pelos militares em dezembro de 1968, o músico e seu inseparável parceiro Gilberto Gil foram obrigados a partir para Londres, onde permanceram por dois anos e meio. 'Não sei o que seria a minha vida na música popular se eu não tivesse sido preso e exilado', revelou o cantor à revista Veja em 1991. Antes de ser detido, Caetano planejava uma pausa estratégica para pensar na vida tão logo se desvencilhasse do movimento tropicalista."
A letra de London London, reflete todo o seu estado de espírito naquele período de exílio. Eis a tradução:

Eu vagueio pela cidade/Sem destino/Estou só em Londres,Londres é tão simpática/Atravesso as ruas sem receio/Todos conservam o caminho desimpedido/Sei que não conheço ninguém para dizer-lhe alô/Sei que eles conservam o caminho desimpedido/Estou sozinho em Londres sem receio/Estou vagando por aqui/Sem destino/Enquanto meus olhos procuram por discos voadores no céu/Oh, passam os dias e também o outono/E as pessoas se apressam ordenadamente/Um grupo se dirige a um policial/Este parece muito satisfeito em poder servi-los/É bom estar pelo menos vivo e eu concordo/Ao menos ele parece muito satisfeito/É bom poder viver em paz todos os dias, todos os anos/E eu concordo/Enquanto meus olhos procuram por discos voadores no céu/Eu não escolho rosto para olhar/Não escolho caminho/Apenas estou aqui e está tudo bem/Grama verde, olhos azuis, céu carregado/Deus abençoe o sofrimento oculto e a felicidade/Vim para dizer sim e digo/Mas meus olhos continuam procurando por discos voadores no céu

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Bossa Jazz e Tavo Duque - Teatro de Bolso


Um excelente programa para quem gosta de música instrumental de qualidade é o projeto "Clube do Jazz e Bossa", que tem apoio da Prefeitura de Campos, através da Fundação Teatro Trianon. O projeto, que já apresentou várias edições, sempre às terças-feiras, traz o excelente quinteto Bossa Jazz, sempre apresentando um convidado especial, que pode ser um nome de projeção nacional, como já aconteceu, por exemplo, com o saxofonista Mauro Senise, ou músicos locais.
O Bossa Jazz é formado por Dalton Freire (sax e flauta), Magno Oliveira (trompete e flugelhorn), Márcio Leal (teclados), André Rangel (contrabaixo) e Vitor Vieira (bateria). O quinteto, liderado por Dalton Freire, traz músicos de primeira linha, que desenvolvem um trabalho, como o próprio nome já revela, calcado em standards do jazz e clássicos da Bossa Nova.
Na noite de ontem, o convidado da vez foi um músico da cidade, que já acompanho há algum tempo: o guitarrista Tavo Duque. O primeiro contato que tive com com a guitarra de Tavo, foi através da banda de rock Big Head, em que ele, ainda bem jovem já mostrava uma boa pegada. Algum tempo depois, Tavo assumiu a guitarra da lendária banda Blues Band Vidro, substituindo outro grande músico da cidade, Betinho Assad. Na Blues Band, Tavo tocou durante anos, aprimorando sua levada de blues. Um excelente momento de Tavo na banda está registrado no segundo cd da Blues Band. Nesse disco, que tem uma parte registrada ao vivo, no 3º Campos Blues Festival, posso destacar uma versão para uma música de Stevie Wonder, que se imortalizou em uma gravação de Jeff Beck no disco Blow By Blow, de 1976: Cause We've Ended as Lovers. Naquela noite de julho de 2003 fiquei bastante impressionado com sua interpretação para essa música. Jeff Beck, por sinal, é uma de suas maiores influências na guitarra.
Paralelamente ao trabalho com a Blues Band Vidro, Tavo também realizou trabalhos instrumentais autorais, voltados ao estilo fusion, como é o caso do trio Superjam. Após alguns anos frente a Blues Band Vidro, Tavo Duque se mudou para São Paulo para se aprimorar no estudo de seu instrumento, o que lhe deu mais cancha no palco, e lhe abriu um maior horizonte musical.
Prestes a lançar seu primeiro cd solo, Vagabundo, onde toca todos os intrumentos, e é autor das músicas, Tavo em boa hora foi convidado para participar do projeto instrumental Jazz e Bossa.
O show de ontem, teve a participação de Tavo em três músicas, onde a improvisação foi a tônica, como não poderia deixar de ser em um show predominantemente de jazz. Trazendo alguns clássicos do estilo, em composições de autores como Chick Corea, Gerry Mulligan, Dave Brubeck (uma ótima versão para o clássico Take Five), entre outras, e algumas pérolas da Bossa Nova (Influência do Jazz, Meditação, Rio), a apresentação foi marcada pelo virtuose dos excelentes músicos, sendo que o convidado da noite, pelo tipo de repertório, não trouxe ao palco sua influência de Jeff Beck, mas apresentou seu lado Pat Metheny, que se entrosou muito bem com o quinteto. Foi mais um grande show.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O Que Passou, Passou?


Antigamente, se morria. 1907, digamos, aquilo sim é que era morrer. Morria gente todo dia, e morria com muito prazer, já que todo mundo sabia que o Juízo, afinal, viria, e todo mundo ia renascer. Morria-se praticamente de tudo. De doença, de parto, de tosse. E ainda se morria de amor, como se amar morte fosse. Pra morrer, bastava um susto, um lenço no vento, um suspiro e pronto, lá se ia nosso defunto para a terra dos pés juntos. Dia de anos, casamento, batizado, morrer era um tipo de festa, uma das coisas da vida, como ser ou não ser convidado. O escândalo era de praxe. Mas os danos eram pequenos. Descansou.Partiu. Deus o tenha. Sempre alguém tinha uma frase que deixava aquilo mais ou menos. Tinha coisas que matavam na certa. Pepino com leite, vento encanado, praga de velha e amor mal curado. Tinha coisas que tem que morrer, tinha coisas que tem que matar. Que mais podia um velho fazer, nos idos de 1916, a não ser pegar pneumonia, deixar tudo para os filhos e virar fotografia? Ninguém vivia pra sempre. Afinal, a vida é um upa. Não deu pra ir mais além. Mas ninguém tem culpa. Quem mandou não ser devoto de Santo Inácio de Acapulco, Menino Jesus de Praga? O diabo anda solto. Aqui se faz, aqui se paga. Almoçou e fez a barba, tomou banho e foi no vento. Não tem o que reclamar. Agora, vamos ao testamento. Hoje a morte está difícil. Tem recursos,tem asilos, tem remédios. Agora a morte tem limites. E, em caso de necessidade, a ciência da eternidade inventou a criônica. Hoje sim, pessoal, a vida é crônica.

Paulo Leminski

quarta-feira, 11 de maio de 2011

30 Anos Sem Bob Marley


Há exatos trinta anos morria um dos maiores ícones que a música produziu no séc. XX, Bob Marley. Após uma luta contra o câncer, Bob morreria em 11 de maio de 1981, e seu nome ficaria marcado como o maior representante do reggae.
Conheci a música de Bob Marley por volta de 1977, quando o reggae ainda era uma novidade, e aquele ritmo com uma batida diferente e envolvente logo me chamou a atenção. Na verdade, já conhecia a música de Marley através de uma regravação de Eric Clapton para I Shot The Sheriff, anos antes, mas não sabia quem era Bob Marley. Acho que a primeira matéria sobre Marley, o reggae e a filosofia rastafari eu li em 1977, no Jornal de Música, uma publicação da época, escrita pelo jornalista Júlio Barroso, futuro líder da banda dos anos 80, Gang 90 & Absurdetes.
Lembro das primeiras imagens que chegavam ao Brasil de apresentações de Bob Marley, e me impressionaram bastante. Na época, a música dominante, que tocava nas rádios e casas noturnas era a discotéque, um gênero que me desagradava bastante. Com o surgimento do reggae, e a ascenção de artistas como Bob Marley e Peter Tosh, a música vinda da Jamaica passou a representar para mim uma alternativa contra a música disco, que eu odiava.

Em 1982, foi lançada pela Editora Brasiliense a primeira biografia de Marley publicada no Brasil: Bob Marley Mestre Dinamitador. Já comentei aqui sobre a coleção Encanto Radical, que trazia livros de bolso, em edições de preço barato, trazendo biografias de personalidades. A de Bob Marley alcançou bons índices de venda, pois teve um segunda edição em 1983. O texto de contracapa dizia:
"Bob Marley e suas tranças, serpentes que saem da sua cabeça. Ganja e muita fruta, sua dieta básica. Aquariano, filho da zoeira babilônica, mas atento crítico do Babylon System. A verdade está fora da política, do mundo do Time Magazine e dos Rolling Stones... Sigo seu olhar pela janela. O sol batendo nos arranha-céus, um brilho de diamantes. Nova Yorque, um pote de ouro no fim do arco-iris. O que pensa Bob quando olha para uma cidade grande e moderna como N.Y.?
'Bem, quando eu estava no começo do Rastafari, talvez eu nunca chegasse a entrar num prédio como esse. Mas então, depois de um tempo, comecei a pensar; 'Bem tenho um trabalho a fazer, tenho que lidar com a música que Deus me deu. E essa música pode me levar adiante.'"
Hoje, trinta anos após sua morte, Marley ainda é reverenciado e amado mundo afora. O reggae invadiu o mundo, novos astros surgiram, inclusive alguns de seus filhos, sendo Ziggy Marley o melhor representante da Dinastia Marley. Mas a verdade é que passados esses anos todos, o reggae ainda tem o mesmo nome e sobrenome: Bob Marley.

domingo, 8 de maio de 2011

Gilberto Gil - Refazenda


Em 1975 Gilberto Gil lançava um de seus mais inspirados trabalhos, o disco Refazenda. Tive o privilégio de assistir a um show de Gil quando o disco ainda estava saindo do forno, e assim, pude ouvir pela primeira vez músicas como Refazenda, Tenho Sede, Lamento Sertanejo, Pai e Mãe, e outras antes mesmo delas começarem a tocar no rádio.
Em outubro daquele ano, a revista Pop trazia um matéria com Gil falando do lançamento, e o texto de apresentação dizia:
"Ele pesquisa o universo misterioso das religiões orientais, mergulha nos túneis escuros da mente, mexe na terra, conversa com o público das cidades do interior. Mas nunca se afasta do caminho: em todo o trabalho de Gilberto Gil há uma profunda preocupação com a cultura popular. Dentro dessa coerência, Gil agora vem de Refazenda."
Abaixo a transcrição da matéria:
"Gilberto Gil estava na Bahia, depois de uma excursão por várias capitais e cidades do interior. Uma noite, pintou num sonho a palavra Refazenda e a imagem um pouco confusa de uma fazenda encravada num vale, com vacas, galinhas, árvores e, ao mesmo tempo, cercada de um aparato tecnológico próprio das grandes cidades. 'Era um lugar de todos os homens, e ao mesmo tempo, de solidão total. Analisando depois, entendi tudo aquilo como a síntese da simplicidade e também como uma grande necessidade existencial dominando minha cabeça. Resolvi explorar a palavra Refazenda ao máximo, pois a acho muito bonita.'
Da dissecação da palavra, como forma, e do conceito Refazenda, resulta o novo LP (recém-lançado) e toda a direção do trabalho atual de Gil: 'É um LP muito simples, quieto, tranquilo. As canções são todas apresentadas com muita cautela, sem improvisações e sem as explorações vocais até certo ponto absurdas que já me permito fazer. Nunca explorei um filão. Sou discípulo direto de Luiz Gonzaga e Dorival Caimmy. Mas, por outro lado, já incursionei pelos experimentalismos, dodecafonismos, já usei os osciladores todos, já fui violeiro e também Jimi Hendrix.'
Mas, como ideia, o que significa o novo trabalho de Gil? O que é a Refazenda? 'Refazenda é, para mim, como um prêmio conceitual a tudo o que já fiz, fui e serei. Minha intenção é acentuar esta abertura total, buscar dar mais cor ao verde das matas, fazer tudo renascer: que as flores voltem aos campos e, se for na cidade, que seja Refazenda. Em suma, Refazenda é tudo o que eu quiser viver, fazendar, andar de ré.'

Por outro lado, Refazenda é também um oportuno toque sugerindo a volta à simplicidade, à natureza, uma nova proposta de equilíbrio ecológico. Na explicação do conceito, por escrito, Gil diz: 'Renda tecida com fios do milho, milho ouro, milho sol, (...) Esperança transmutada em verde de verdade, verdes notas mágicas, o encanto da fazenda nova. Reencantação. A árvore da trindade: abacate, tomate, mamão. Árvore milagrosa: um fruto diferente a cada estação. (...) Refazenda segue sendo a vontade de Deus para cada estação'.
Muito dessa ideia nasceu do próprio trabalho de Gil, um trabalho incansável de troca de informações que ele pretende continuar:'Quero sair por aí conhecendo cidadezinhas do interior, levando espetáculos para pessoas que têm muito mais carência de um mundo de sonhos e fantasias como um show de Gilberto Gil ou outro artista qualquer. Uma apresentação dessas é muito mais densa que o circuito Rio-São Paulo. Alguém tem que fazer este trabalho de interiorizar a arte. Aliás, desde que voltei da Inglaterra tenho me dedicado a isso'.
E Refazenda 'também deve ser na cidade'. Ou na cabeça de cada um, mesmo que isso leve ao misticismo. 'Eu me considero um místico por excelência. Já abordei todas as seitas em busca do conhecimento, melhor entendimento entre matéria e espírito, céu e terra: candomblé, zen-budismo, ioga, etc. Cada nova fase é uma prisão voluntária à qual me submeti em busca da liberdade, sacou? Refazenda começa num vale e termina nos limites da mente...' "

sábado, 7 de maio de 2011

Woody Allen Se Encanta Com Machado de Assis


Em entrevista recente, para o jornal inglês The Guardian, foi pedido ao diretor de cinema Woody Allen que citasse os seus cinco livros favoritos, e que mais o influenciaram. Dentre os cinco citados estava Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis,.A escolha do livro de Machado causou surpresa para muitos, pois se trata de um livro escrito por um autor sem o merecido reconhecimento internacional, portanto um desconhecido para o grande público. Até para nós, brasileiros, que conhecemos e valorizamos a obra de Machado, não deixou de ser uma agradável surpresa, pois sabemos o quanto é raro uma obra escrita originariamente em português ser citada entre os livros preferidos de uma personalidade internacional. Os livros de Paulo Coelho não contam nesse caso, pois é uma outra vertente que nem valeria a pena ser analisada agora.
O livro de Machado de Assis, um autor de quem Woody Allen nunca tinha ouvido falar - e não vai aqui nenhuma insinuação de falta de cultura do cineasta - chegou a suas mãos enviado por um brasileiro: "Eu recebi o livro pelo correio um dia. Algum estranho do Brasil me mandou e escreveu: 'Você vai gostar disso'. Como é um livro fino, eu li. Se fosse um livro grosso, eu teria descartado na hora. Eu fiquei chocado com o quão charmoso e interessante o livro era. Eu não conseguia acreditar que ele, Machado de Assis, viveu a tanto tempo. Você pensaria que ele escreveu o livro ontem. É tão moderno e interessante. Me chamou a atenção da mesma forma que O Apanhador do Campo de Centeio, de J.D. Salinger."
O caráter atemporal da obra machadiana, e aqui não falo somente do livro citado, e que surpreendeu Allen, já que o livro foi escrito em 1881, deve ficar ainda mais acentuado em uma tradução para uma língua estrangeira. Isso porque, o texto original traz uma linguagem da época, dando a entender que foi escrito ainda no séc. XIX, apesar de estar à frente de seu tempo. Já uma tradução, creio eu, usa uma linguagem contemporânea, o que torna o texto ainda mais moderno e atual.
Resta saber quem foi esse brasiliro que com tanta perspicácia, concluiu que Memórias Póstumas de Brás Cubas tinta tanto a ver com Woody Allen, que ainda comentou: "Era um assunto que eu gostava, e era tratado de forma bem-humorada, cheio de originalidade e sem sentimentalismo."
Seria ótimo que esse encantamento sobre o livro de Machado, revelado por um formador de opinião como Woody Allen, desperte um interesse internacional para a obra de um dos maiores escritores de todos os tempos.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Confundindo os Arnaldos


A revista de domingo de O Globo trouxe uma boa matéria com o ex-Mutante Arnaldo Batista. Fala de sua carreira, de tudo porque passou quando sofreu um grave acidente ao cair do quarto andar do hospital onde estava internado em 1982, que quase o levou à morte, sua recuperação, projetos, etc. É sempre bom ver matérias como essa saindo em um jornal de grande circulação, trazendo um artista como Arnaldo, um sobrevivente, que continua criando, fazendo música, escrevendo livros, pintando, e sendo retratado em um belo documentário, como "Loki", de Paulo Henrique Fernandes, que chegou a receber alguns prêmios.
A matéria é bem escrita, traz boas fotos dele em seu atelier no sítio em que mora em Juiz de Fora com sua mulher, traz fotos de arquivos, depoimentos, etc. E foi justamente um depoimento que me chamou a atenção na matéria. Em dado momento, a cantora Zélia Duncan, que recentemente chegou a trabalhar diretamente com Arnaldo por um período na nova formação dos Mutantes (hoje os dois não tocam mais na banda), fala sobre ele, ou supostamente fala. Transcrevo abaixo o trecho em que Zélia é citada, para explicar porque digo que a matéria cometeu um grande engano:
"Quem também traz novidades do planeta Arnaldo é a cantora Zélia Duncan. Em seu próximo DVD, ela canta a música 'Borboleta', de Arnaldo, que gravou em parceria com Marcelo Jeneci e Alice Ruiz.
- Certa vez pedi a ele uma música para gravar, e quando ele tocou 'Alma', dele com Pepeu Gomes, senti um calafrio. Foi um dos meus maiores sucessos - lembra a cantora. - Ele faz parte da tríade que me inspira, com Renato Russo e Cazuza. Arnaldo decidiu viver, e isso é muito bonito de se ver. Fico feliz de fazer parte desse importante retorno."
Esse depoimento me deixou completamente confuso. A música Alma é de Arnaldo, porém outro Arnaldo, o Antunes, realmnte em parceria com Pepeu Gomes. Quando ela cita outra música, supostamente de Arnaldo Batista, tudo leva a crer que ela novamente estava se referindo a Arnaldo Antunes, pois Marcelo Jeneci e Alice Ruiz (viúva de Paulo Leminski) são parceiros de Arnaldo Antunes. Tudo estava me levando a crer que houve um erro de comunicação, ou Zélia confundiu um Arnaldo com outro, ou quem colheu seu depoimento fez a confusão. Porém no fim de seu depoimento, Zélia faz um comentário que só pode ser relativo a Arnaldo Batista, e não o Antunes : "Arnaldo decidiu viver, e isso é muito bonito". Ficou tudo muito confuso em minha cabeça. Só mesmo a Zélia para explicar.