Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

terça-feira, 31 de maio de 2016

Blues In The Mississippi Night - Um Disco Histórico de Blues

Existem discos que se tornam históricos com o tempo, embora às vezes, na ocasião em que são lançados, sua importância não seja ainda dimensionada. Poderia citar vários álbuns de diferentes estilos que serviriam de exemplo para essa afirmativa. O blues, em particular, por ser um estilo que atingia em seus primórdios um público restrito, porém fiel, e que com o tempo acabou se expandindo, principalmente quando algumas bandas de rock que começaram a surgir e fazer sucesso a partir dos anos 60, citavam vários bluesmen desconhecidos para o seu público, como importantes influências. Muitas gravações antológicas de importantes nomes do blues foram realizadas graças a fãs e pesquisadores, que possibilitavam essas gravações, e às vezes promoviam encontros entre importantes nomes de blues em torno de um álbum. Assim aconteceu em 1946, quando um encontro no estúdio de três lendas do blues: Memphis Slim, Sonny Boy Willliamson e Big Bill Broonzy gerou o disco Blues In The Mississippi Night. Quando o disco foi reeditado em 1991, a revista Bizz nº 68 trouxe uma matéria sobre ele e sua importância, em matéria assinada por José Emílio Rondeau e intitulada "Os Patriarcas do Blues":
"Tudo começou com uma proposta do folclorista Alan Lomax a três bluesmen que estavam de passagem por Nova York numa noite de 1946: Memphis Slim, Big Bill Broonzy e Sonny Boy Williamson. 'Olha, vocês viveram o blues a vida toda', disse Lomax, 'mas ninguém entende o que é isso ainda. Me digam: qual é a do blues?'
Sonny Boy Williamson
A resposta foi dada num domingo, dentro de um estúdio vazio da Decca. Lomax acionou seu gravador Presto - que não usava fitas, registrando os sons direto no acetato  - e os três músicos passaram a conversar e tocar, relatando a jornada do blues com casos, anedotas e canções. O resultado dessa sessão talvez seja o documento mais completo e fascinante que os interessados em conhecer as origens e o desenvolvimento do blues podem esperar encontrar.
Batizado Blues In The Mississippi Night, o álbum era de conteúdo tão potente que seus realizadores preferiram não revelar suas identidades quando o disco foi lançado nos anos 50. Conforme explica Lomax no volumoso libreto que acompanha a atual reedição do LP (via Ryko disc), ali estavam, 'pela primeira vez, operários negros falando com franqueza, sagacidade e profunda mágoa a respeito da desigualdade do sistema sulista americano de segregação e exploração (dos negros)'. Slim, Broonzy e Williamson se apavoraram com  a possibilidade de verem seus nomes associados ao projeto, porque 'as pessoas iriam se vingar da nossa gente; iriam incendiar todo mundo!' A opção foi inventar nomes fictícios pra os três.
Memphis Slim
A história que eles contaram aqui é o dos caminhos que  o blues tomou através dos anos, em suas inúmeras encarnações: canções de dor-de-cotovelo, de sofrimento nas plantações de algodão do Delta do Mississippi e para aliviar a dor na prisão. Cada um dos músicos deu sua definição pessoal do estilo: 'Algumas pessoas dizem que o blues é uma vaca com saudade do bezerro', conta Bill Broonzy. 'Acho que não', remenda, 'creio que é um homem que foi recusado pela companheira.' 'Quando estou com problemas', contra-argumenta Memphis Slim, 'é a única coisa que me consola.' E depois recorda: 'Tinha um amigo meu que trabalhava construindo linhas férreas. Ele era proibido de falar com os capatazes e o trabalho fazia com que ficasse triste. Como não podia dizer o que estava sentindo, fazia uma canção a respeito daquilo e então cantava'.
Aos poucos, casos como esses vão delineando a herança do blues e a história do desenvolvimento da tradição negra numa região radicalmente hostil. Uma história de resistência e teimosia, com contornos trágicos e brutais. Memphis Slim conta, por exemplo, que era preciso ler escondido os jornais feitos por negros - sempre nos fundos de um botequim, com um vigia atento à chegada de um branco. Era uma época em que até os camponeses negros tinham liberdade para portar armas, desde que os alvos de seus disparos fossem outros negros. "

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Diana Pequeno e Dércio Marques - Jornal do Disco (1980)

Em sua edição nº 16 (abril de 1980) a revista SomTrês trazia no Jornal do Disco, que vinha encartado na publicação, uma matéria sobre casais formados por cantores e músicos. Foram destacados os casais Elis Regina e César Camargo Mariano, Rita Lee e Roberto de Carvalho, Ivan Lins e Lucinha Lins, Cascatinha e Inhana, Fafá de Belém e Raul Mascarenhas, Baby Consuelo e Pepeu Gomes, Jane e Herondi e Diana Pequeno e Dércio Marques. Como se vê, foram destacados representantes de diferentes áreas - MPB, rock, sertanejo de raiz, instrumental, brega, etc. No caso de Diana e Dércio, que eu escolhi para destacar nessa postagem, eles representavam uma MPB de raízes rurais, seguindo uma linha que ficou rotulada na época como 'new caatinga", que envolvia outros artistas como Carlos Pitta, Dorothy Marques, Irene Portela, além, é claro, de Elomar Figueira de Mello, uma espécie de porta-voz do movimento. Diana continua na ativa, após um período de afastamento. Dércio, infelizmente, faleceu em 2012, deixando um trabalho consistente, que merece ser melhor divulgado e avaliado. A matéria, que não é assinada, trazia em seu título "Diana e Dércio: importante é não esquecer a estrada":
"A baiana Diana Pequeno - uma morena de cabelos longos e crespos, olhos escuros e sobrancelhas grossas - estudava engenharia e sociologia na Universidade Federal da Bahia, em Salvador. Curtia muito o grupo de músicos com quem apresentava um repertório de Violeta Parra, Fagner e Ednardo, na escola e no interior da Bahia, sempre como amadores.
O mineiro e filho de uruguaios, Dércio Marques, 32 anos, um estradeiro inquieto por formação, músico voltado para os sons da terra e do interior latino-americano, desembarcou em Salvador para fazer um show junto com sua irmã Dorothy Marques.
'Ele foi me caçar lá', conta Diana, 22 anos, lembrando o show, que assistiu em 1977, quando descobriu mais a música latino-americana e se apaixonou pelo som da caatinga que o compositor Elomar, amigo de Dércio, mostrou para os dois em Vitória da Conquista. Depois de uma viagem pelo sertão, a carreira e a vida de Diana e Dércio se interligaram. 'Uma ligação espiritual', define o compositor, cantor, arranjador e produtor, que acredita existir 'o mesmo diapasão-terra de Atahualpa Yupanqui e Violeta Parra na música de Diana Pequeno'.
Em novembro de 1978, depois de seis meses de negociação, Diana assinou contrato com a RCA, que andava em busca de novos valores. Garantiu para si uma cláusula que lhe reservava independência artística na gravação dos discos. Isso, além de lhe permitir que 'minha imagem fosse eu mesma', propiciou a continuidade do relacionamento com Dércio.
O inquietante viajante, sempre à procura da música da terra, acabou permanecendo dois anos em São Paulo, seis meses dos quais produzindo o LP de Diana Pequeno, Eterno Como Areia, o segundo da cantora. 'Não havia ninguém que pudesse produzir a minha música, uma espécie de neofolclore, a não ser  o Dércio', diz Diana. Ela tem certeza que se dependesse da gravadora, não seria  Dércio o produtor e o disco seria bastante diferente.
A cláusula contratual faz Dércio comentar; 'Um gesto, muita vezes, é maior que uma revolução. Meu sentimento de liberdade é maior que qualquer coisa. Não sei se conseguiria trabalhar se não fosse assim.'
Atualmente, eles moram num sobradinho de uma vila no Paraíso, em São Paulo. Repleta de adornos indígenas e de países latino-americanos, a casa é simples e vive desorganizada, como eles próprios comentam: 'Não paramos muito aqui, comemos na rua, quase sempre em restaurantes vegetarianos', afirma Dércio.
As maiores preocupações do casal - que estranha muito ser chamado de casal - estão ligadas às carreiras. Diana procura músicos para seus próximos shows e não pretende mais ser acompanhada por Dércio que, depois de dois LPs, já tem seu trabalho individual definido. Aguarda o festival da Globo, onde vai defender uma música de Chico Maranhão, 'De Verdade" (*), o meso compositor do frevo 'Gabriela', sucesso dos festivais da década de 60. Além disso, cuida da divulgação do novo LP, apresentando-se no Fantástico e levando seus discos para tocar na rádios, num trabalho já menos árduo que o anterior, quando comprava suas próprias gravações para distribuição.
Dércio, por sua vez, vai defender 'Canto de Amarração' no festival da Globo e produzir um LP em homenagem a seu irmão, Darlan, falecido recentemente. Vai gravar, também, uma montagem de disco e teatro independente, chamada 'Alto da Caatingueira', trabalhando com Elomar. Depois disso, quer voltar a viajar. 'Se a minha carreira estiver bem, eu não vou junto. Não dá para estruturar minhas coisas em função da vida dele', garante Diana, que faz questão de mostrar a concepção independente que tem na vida a dois. "

(*) o nome correto da música é "Diverdade"

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Milton Nascimento - Jornal Canja (1980) - 3ª Parte

"Considerando-se um 'eterno observador', Milton puxou pelo seu encontro com os índios, no interior de Goiás, onde esteve recentemente a convite de Dom Pedro Casaldáliga. 'De lá eu trouxe a vibração de um acontecimento muito emocionante, do meu contato mais próximo com uma gente que fala coisas sérias brincando. Não era necessariamente a música indígena que me poderia influenciar, mas a sua forma de vida, a sua riqueza, como seres humanos.'
E a influência negra?
Milton não sabia exatamente de onde vinha essa influência, embora tivesse consciência de que existia. E contou:
- 'Veja você. Quando eu acabei de gravar esse meu último disco, o Sentinela, que vai ser lançado agora, trouxe aqui  em casa o Wayne  Shorter, com seu conjunto, para ouvir a gravação. Logo que começou a tocar Peixinhos do Mar, sua mulher, a portuguesa Ana Maria, passou a acompanhar a música direitinho, cantando junto. Eu parei o gravador para saber como é que ela conhecia essa composição, inédita ainda. Ela me disse que essa música ela cantava em Angola, quando era criança. E o mais impressionante é que a segunda parte ela não soube acompanhar, exatamente a parte que fala de nós que viemos de outras terras, de outros mares... a parte mais mineira da música!'
Minas estava para a África assim como os peixinhos estavam para o mar. Vamos lá! E a influência oriental? Com a bala entre os dedos, sem desembrulhá-la, Milton foi pesquisando, eu também:
- 'Talvez por causa do ambiente fechado de Minas que é muito espanhol...'
- '... sim, as mulheres de véu, carpideiras em volta do túmulo...
- '... com todas aquelas cidades coloniais...'
-... e as ladainhas escalando as ladeiras...
- ... tudo isso vai entrando pela pele da gente!'
E completava: 'em Minas, a maioria dos compositores faz música na base do três por quatro. Por isso, a valsa representa para nós o que o samba representa para o carioca.' A nossa pacata, curiosa e indecifrável vidinha mineira, revelava-se, portanto o compasso de um baile antigo, exatamente como eu sempre delirei, ao ritmo do realejo, sob a folia dos reis.
- Pois é...
- 'Pois é...'
Permita-me supor que nossas reticências significavam o recíproco entendimento. E me calava, cada vez mais à vontade. Depois recomeçávamos, tateando-nos, descobrindo-nos:
- Houve algum momento que decidiu a sua carreira?
- 'Olha, houve muitos momentos decisivos. Eu transei música a vida inteira, desde que me dei por gente. Aos cinco anos, ganhei uma gaita de boca na qual aprendi a procurar as notas. Aos sete meu pai me deu uma sanfona, aos catorze anos tomei o violão que minha mãe recebera de presente. Achei que ele era mais meu do que dela.'
Aos dezoito, Milton ganhou o que ele considera um presente do céu: depois de criar três filhos adotivos, dona Lília ficou grávida e nasceu Jaceline. Nessa idade, o rapaz não tinha dúvidas:
- Bastou-me dedilhar as cordas do violão para sacar a minha vocação definitiva. Eu era músico.'
A vocação definitiva de Milton, entretanto, já se revelara em outras cordas, as vocais. O menininho de calças curtas aprendeu muito cedo a explorar sozinho esse dom inigualável. A versatilidade de seu timbre de voz, aliada à criatividade exuberante, permitiu-lhe fazer mil arranjos em cima das músicas de outros compositores, que acabavam tão enriquecidas que tornavam quase irreconhecíveis. 'Inventando e musicando histórias desde criança, adquiri também uma certa facilidade para repentista.' Um lento e e permanente trabalho que o transformaria, sem dúvida, no melhor intérprete brasileiro.
- 'Comecei a compor quando me mudei para Belo Horizonte. Formado em contabilidade, deixei Três Pontas para trabalhar num escritório da capital. À noite me encontrava com o pessoal da música, inclusive o Márcio Borges, meu primeiro parceiro.'
Parceria, companheirismo, camaradagem, amizade: a constante presença de pessoas eleitas para a sua corte representou uma característica essencial na personalidade do artista e do homem. A começar da molecada de infância, já atraída pelo seu talento. Milton nunca mais dispensou a companhia de uma roda numerosa, amigos escolhidos sobre suas raízes profundas, como Wagner Tiso, vizinho de rua, conterrâneo, contemporâneo, cúmplice e comparsa na vida, na música, desde a adolescência, sempre juntos:
- 'Nós somos a cruz um do outro'.
Agregando gente boa de comprovada fidelidade, surgiu o primeiro conjunto vocal: Wagner, Marilton Borges, Marcelo, Turinha e Milton. O grupo foi descoberto pelo produtor de um programa de jazz da TV Itacolomi, em Belo Horizonte, quando tocava numa boate japonesa, Fujiama, uma zona brava, perto dos espigões do IAPI. Nos estúdios da emissora - último andar do edifício Acaiaca, no centro da cidade - foi dada a partida para o sucesso, já suficientemente conhecido.
- 'Quer mais um café?'
- Não, obrigado.
Anoitecia sob o suave declínio da luz e do papo. Milton ainda se reanimava:
- 'Sabe de uma coisa? O filme Jules e Jim influiu decisivamente para que eu começasse a compor. Eu assisti em Belo Horizonte. Fiquei abaladíssimo. Saí do cinema decidido a ser alguma coisa na vida. Não sei nem te explicar. Fiquei comovidíssimo. Fui direto para a casa do Márcio e danei a compor.'
Que coincidência, cara! Também a mim, o filme provocara uma sísmica impressão. Quem sabe que não teria cruzado com o Milton no mesmo cinema, ambos segredando semelhante espanto, ele transbordando música que nem o latão de leite, eu armazenando dúvidas do mais puro mineirismo. Revi Jules e Jim meia dúzia de vezes, rasgando-me o coração para a fascinante insensatez humana. E nem o mais profundo sortilégio me faria supor que a história daquele trio amoroso, que tanto me tocara, haveria de provocar igual deslumbramento naquela figura genial, agora do meu lado. Mesmo nas vidas mais paralelas seria sempre possível descobrir surpreendentes pontos de encontro.
E por falar, ou pensar, em semelhanças, qual seria o seu posicionamento político?
- 'Esse posicionamento é muito natural na minha música, a partir do momento em que a gente canta coisas nas quais acredita. A gente canta uma esperança, uma crença no homem. E quando se canta a verdade da gente, está se tomando uma posição política'.
Pausa, silêncio.
- 'A maneira mais forte de vencer essa poluição que está a fim de acabar com a vida da gente, com esses milênios que pesam sobre os nossos ombros, é a união. Entendo a união pela amizade...'
- '... a amizade teria então para você a conotação política da unidade?
- 'Isso, me ajuda aí. Isso mesmo. Por causa disso é que eu não gosto de cantar sozinho, de gravar meus discos sozinho. Quero sempre muitas vozes ao meu lado, comigo, somando, um monte de vozes.'
No disco Sentinela, Milton usa um coro de 78 vozes, formado por todos os seus amigos, mesmo aqueles que não cantam nem são músicos, como o Hildebrando, nosso cúmplice em comum, patrocinador do encontro.
- 'Sentinela é um grito de vigia, do vigia de um amigo morto. Apesar de falar em morte, é um grande canto de vida. Essa música foi composta em 78, quando eu queria cantá-la com os dominicanos. Mas eles estavam desaparecidos, torturados e presos. Agora, o disco faz parte do meu canto de vida, do meu canto de amizade.'
Estamos os dois cansados. Rascunho as minhas anotações finais: 'este é o primeiro disco gravado pelo Milton com a Ariola. A onda de que ele voltaria para a Odeon não tem razão de ser. Intriga? Interesses do jogo de mercado? Sei lá'.
- 'Espero que eu tenha me saído bem'.
Milton despedia-se com o mesmo sorriso frouxo da entrada. Será que eu consegui conquistar-lhe uma pontinha de intimidade? Será que eu poderia chamá-lo de Bituca, como seus amigos de sólidas raízes mineiras?
- Agora, Milton, eu é que espero me sair bem.
Aleluia. "

terça-feira, 24 de maio de 2016

Milton Nascimento - Jornal Canja (1980) - 2ª Parte

"Milton me parecia esconder o quanto de fato a cidade o maltratava, porque eu conhecia a intolerância mineira, o antigo moralismo de nossa gente, sabia como o tradicionalismo sobrevivera varrendo seu lixo para debaixo do tapete. Ouvindo Milton falar, puxando a memória do vago, eu o entendia ofendido e humilhado indo refugiar-se no interminável quintal de sua casa, ao pé das jaboticabeiras, das goiabeiras, encarapitado nos últimos galhos da confidente mangueira. Se não estava no lambuzar-se de frutas e terra molhada, devia estar viajando entre as estrelas.
- 'No rastro do velho Zino, astrônomo por vocação, conheci o céu como a palma de minha mão.'
Além do professor de matemática nos colégios de Três Pontas, o pai de Milton formara-se em eletrônica, homem de muita lógica, paciente, generoso. Seu maior interesse, no entanto, não se limitava aos estreitos limites da propriedade, mesmo incluindo o quintal, nem se confinava às fronteiras da província, e muito menos se contentava com o alcance de uma raiz quadrada. Zino era um navegante do universo! De olho no telescópio, lá ia o audacioso desbravador aventurando-se pela noite imensa, perseguindo a Ursa Maior, os satélites de Júpiter ou o Cruzeiro do Sul. E Milton embarcava no fascínio do pai, sabendo de cor a posição dos planetas.
- 'Bete! Bete! Me traz umas balas aí... estão dentro da minha bolsa, no quarto.'
O grito do viajante estelar acordou-me do torpor imaginário. Fica fácil, fácil, eu já ia de carona para muito longe dali. Voltei rapidinho à realidade, descobrindo que Milton não fumava nem bebia. Isto é, não bebia como antigamente. Em compensação chupava intermináveis sacos de balas. 'Um dia eu fui à praia e encontrei a moçada morena, legal, bonita. Eu me sentia um caco, de ressaca, podre. Bebia muitas vezes para espantar a timidez, de bobeira. Aí resolvi parar com isso. Tudo ficou muito melhor. Agora eu faço o que quero, numa boa, sem grilo.' Eu é que estava seco por um gole, mas com vergonha de pedir.
- 'Quer  uma bala?'
- Não, obrigado.
Bete me ofereceu um café, eu aceitei. Estávamos os três no apartamento, mas a irmã de Milton se mantinha afastada, discreta. Criatura doce, prestativa. Enquanto eu me servia ninguém falava. Aproveitei a pausa para esticar um vago olhar pela janela. Final de tarde, clima indeciso. O dia poderia ter sido radioso não fosse o nevoeiro seco. Milton, ao meu lado, aguardava.
- 'Devia ser um barato a sua casa...'
- Era mesmo...
Retomadas as lembranças, regressamos a Três Pontas. Milton contaminara-se pela liberdade familiar, esforçando-se desde criança por compartilhá-la com os outros. E assim trouxe para o quintal um bando cada vez maior de moleques das redondezas. Não lhes oferecia apenas uma divertida ciranda no fundo do pomar. Na verdade, a principal atração para seus numerosos amigos era o seu talento, inevitavelmente precoce. Reunia a meninada e contava histórias criadas pela sua inesgotável imaginação. Bruxos, fadas, anões, bichos movimentavam-se num mundo encantado onde cada personagem tinha o seu timbre de voz característico, inconfundível. Autor, ator e cantor, o menino hipnotizava outros meninos, até bem maiores que ele. Um teatro musicado, um musical dramatizado, uma peça, um ensaio, uma criação, enfim, deslumbrante: engrossava a voz ao imitar o caçador - 'não tenha medo, Zezinho.'
Ou recorria ao falsete no caso da fada: 'Eu venho de uma estrela bem distante...'
Devia ser uma curtição inesquecível aquela roda embalada pela fantasia do Milton garoto. À minha frente, eu continuava-lhe dando corda à memória. E ele se lembrou de Porcolitro!
- 'A história do Porcolitro durou oito anos. Daí você você pode ter uma ideia do que eu inventei para sustentar tanto tempo de aventuras. Cheguei até a casá-lo com a rainha do mar, Iara, que destronou Netuno...'
Era um litro de leite muito levado, que não tomava nenhum cuidado, um desastrado. Derramou-se todo pelo chão. Os outros litros pedindo que ele andasse direito para não se derramar de novo. Que nada. O litro de leite era mesmo sem jeito, e derramou-se repetidas vezes. Aí apareceu uma fada que o transformou, por castigo, num porquinho, batizando-o de Porcolitro.
- 'Esse foi meu primeiro sucesso!'
Tanto sucesso que a carreira do desajeitado litro de leite durou quase uma década, simplesmente porque a plateia não o esquecia, exigindo que ele reaparecesse pela magia daquele garoto pretinho, afinadíssimo, cheio de truques, um prestigitador da palavra, do som, ele próprio um bruxo, mas um bruxo do bem. Milton recorria aos elementos da sua intimidade, como o leite, transbordando dos garrafões à porta da cozinha, para transformá-los em algo animado, encantado. Era um mágico a tocar as pedras, os caroços de fruta, as folhas e os galhos com sua varinha de condão para lhes dar vida, posta em som, em ritmo, em harmonia.
- Milton, tudo isso que você conta parece alegre, tem sabor de menta e liberdade. No entanto, sua música reflete o cerco de minas, que eu conheço bem, as nuvens de chumbo pesando sobre amaldiçodos herdeiros. Como é que conviveu em você a natureza solta no quintal e o sufoco da densidade mineira?
- 'Eta pergunta boa, sô!'
Senti-me recompensado.
- 'Vou tentar responder'.
Pausa.
- 'A minha alegria, a minha liberdade dentro de casa, junto à família, aos amigos, sofriam violento contraste com a discriminação que eu sentia dentro da sociedade daquela época. Então eu era ao mesmo tempo feliz e atormentado'.
A beleza das plantas ou das estrelas, o carinho da amizade tocavam-no tão intensamente quanto a vigilância mesquinha, a fofoca, a intriga dos medíocres.
- Até que achei que aquilo não era para mim. Eu precisava deixar Três Pontas'.
Enquanto eu anotava, Milton preocupava-se em ressaltar que se referia ao passado, porque a cidade hoje é diferente, melhor, bem melhor. Foi naqueles tempos sombrios que o menino descobriu outro refúgio, outra fonte de inspiração, o cinema. Essa paixão também se tornaria inabalável, cultivada desde os tempos do pulgueiro da província até hoje. Holywood, os astros e os ídolos de adolescência o acompanhariam para sempre, reservando aos musicais americanos um lugar destacado no seu baú de ossos. Ali deviam repousar, por exemplo, os discos de Bing Crosby, em 78 rotações. Divertia-se ainda em imitar a peruana Yma Sumac, cuja voz embriagou nossa geração. Ao contrário do que eu suponha, a música clássica não lhe provocou maior entusiasmo quando adolescente. Cresceu atento às cantigas de roda, à cadência cabocla do congado, às canções populares anônimas, aos lamentos religiosos. Sensível e criativa, a criança armazenava todo som que seu privilegiado radar captava.
- 'Impressionava-me a musicalidade do povo, presente na cantoria das lavadeiras à beira dos córregos, entre os pescadores dos rios, junto aos boiadeiros. Essa musicalidade eu pude observar no país inteiro, não só em Minas. A gente atravessa a fronteira de qualquer estado e a encontra sempre variada, diferente. Mesmo em Minas, dá pra sentir a diferença de região para região. O que se ouve às margens do Jequitinhonha é uma coisa, o que se ouve no sul de Minas é outra'. "

(continua)

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Milton Nascimento - Jornal Canja (1980) - 1ª Parte

Em 1980, o jornal musical Canja trazia uma boa matéria com Milton Nascimento. Assinada por Ricardo Gontijo, a matéria trazia um bate-papo informal com esse grande músico brasileiro. Falou de sua vida, de sua condição de filho adotado e do forte preconceito que sofreu por ser negro, numa cidade carregada de um racismo explícito, que o fazia sofrer e se sentir rejeitado pela sociedade, apesar do carinho com que foi criado por seus pais adotivos, uma família branca de classe média. Também fala de música, sua carreira, etc. Abaixo, a transcrição da matéria:
"Conversa de mineiro tem mais silêncio do que palavra. Ela se arrasta, entre reticências, por túneis e labirintos, cheios de surpresas. Mineiro fala olhando o vago que é de onde busca a memória, suas histórias, seu jeito especial de puxar palha, puxar prosa, ir contando as coisas, devagar, como se o tempo se desfiasse muito lentamente, de maneira quase imperceptível. É sempre uma conversa gostosa, rica, carinhosa, que se desvenda como flor, abrindo-se por inteiro quando menos se espera. Mas para deixar-se desabrochar, entregando-se, o mineiro precisa antes ter certeza de que o interlocutor merece sua intimidade. Por isso ele ouve mais do que fala, até assegurar-se de que o outro já padece de sua confiança. Esse paciente arranca-papo torna-se ainda mais comovente quando se trata de uma entrevista com a própria esfinge mineira, Milton Nascimento. E feita por outro mineiro, também avesso a muita falação, eu.
- Oi... E mais não dissemos. Apenas a perspectiva de estar diante do Milton para entrevistá-lo já me dera uma vontade apertada de fazer xixi. Coisa de mineiro. Quando cheguei ao seu apartamento, na Barra, a porta demorou-se duas chamadas na campainha para se abrir. Torci pra que ele não estivesse, para que algum imprevisto impedisse o nosso encontro. Coisa de mineiro, que ele entendeu quando lhe contei. Mas, a danada da Bete, sua irmã de criação, abriu a porta e me mandou que eu entrasse. Não tive saída. Logo apareceu o moço, também armado de um mesmo sorriso frouxo, meio sem graça. Depois do oi de entrada, arrisquei-me:
- Preciso ir ao banheiro...
Mais aliviado, fui conduzido para um cantinho a casa, dois degraus abaixo da sala, onde nos acomodamos os dois num sofá-cama, sozinhos, desconfiados, cara a cara, timidez contra timidez, ambos recorrendo com os olhos ao mar que se via dali, pela janela, a quinhentos metros de distância. O mar com que ambos sonhamos do alto de nossas gordas montanhas de ferro. Ele precisa começar. Então lhe perguntei se já conhecia o Canja. Sim, já conhecia. Silêncio. Era preciso continuar. Então desabafei o peito e mandei ver. Um momento para esse parênteses fundamental: eu sabia das queixas do Milton em relação aos repórteres brasileiros que costumavam brindá-lo com perguntas tolas e respostas distorcidas. Na Argentina, ao contrário, ele encontrara jornalistas que o pouparam das impropriedades habituais da nossa imprensa. Isso afligia-me. E eu, como me sairia?
- Milton, eu ouvi a gravação do seu último disco e, mais do que nunca, fiquei impressionado. Tocou-me especialmente o canto gregoriano, talvez porque ele me tenha marcado desde a infância, na voz das irmãs beneditinas, em Belo horizonte. De onde vem o seu canto gregoriano?
- 'De uma origem muito semelhante, como tudo em Minas, aliás. Ele vem também de vozes beneditinas, ou das missas cantadas em Três Pontas, da Semana  Santa extremamente solene, das festas religiosas que eu assistia emocionado, ainda de calças curtas.' 
Em algumas igrejas de Minas existia a tribuna, reservada às classes sociais mais privilegiadas. Essa tribuna ficava entre os lugares destinados ao povo e ao coro. Era dali, sob a carinhosa proteção do avô, figura respeitada na sociedade local, que Milton assistia à missa, olhos e ouvidos pregados na música, nas vozes, no som intemporal do órgão.
- 'Tudo aquilo me fascinava demais. Desde cedo eu percebia a intensa reverberação enchendo o espaço com uma sonoridade incrível, ecoando entre os vitrais, fundindo-se no tempo, na minha alma, no meu espanto de criança especialmente sensível para a música'.
O menino assim extraordinariamente dotado faria outra descoberta maravilhosa: na cozinha de sua casa ele podia reproduzir uma reverberação igual à da igreja, desde que estivesse sozinho porque a presença de outras pessoas prejudicava, aos seus afinados ouvidos, a irradiação do som. E assim ele começou a cantar sob o delírio da própria voz enchendo o espaço usualmente ocupado pela fumaça do fogão de lenha. Foi entre sombras e brasas que o timbre humano mais versátil da música popular brasileira subiu aos céus, pela chaminé.
- 'Acima de tudo, a liberdade que eu pude desfrutar na minha casa permitiu-me desenvolver o meu lado criativo, artístico.'
Milton era o mais velho dos três filhos adotivos do casal Zino e Lilia. E o único negro da família, o que despertava maliciosos comentários na sociedade da época, aquela sociedade bichada do interior de Minas que debulhava o terço com as mãos sem tirar os olhos do buraco da fechadura vizinha. Em contraste com a mesquinhez da cidade, os pais de Milton souberam acolhê-lo, e aos outros dois irmãos, Fernando e Bete, com muito amor, muito calor:
- 'Eu nunca me senti filho adotivo. Nem sei o que é isso. Fomos criados como filhos de sangue, igualzinho aos outros meninos da nossa idade. Não havia diferença. Eu gostei tanto de ter sido adotado dessa maneira que eu quero adotar umas duas ou três crianças na minha vida...'
Se em casa havia liberdade e afeição, na rua a situação se invertia. 'Muita gente se espantava porque todo mundo lá em casa era branco e só eu negro. Fuxicavam muito. Na verdade, fuxicavam demais'. Milton sofreu na carne a discriminação odiosa, o preconceito feroz, a mediocridade implacável de uma gente hipócrita, cujo amor ao próximo não incluía negros e pobres, que pregava a humildade sem despojar-se de uma única joia. Milton tentava compensar os desaforos alheios no cafuné familiar.
- 'Eu gostava muita da minha casa, eu me sentia bem ali. Mas não gostava da cidade, que me asfixiava.'

(continua)

sábado, 21 de maio de 2016

Antonio Adolfo, um dos Precursores do Disco Independente no Brasil

Muita gente considera o disco Feito em Casa (1977), de Antonio Adolfo, o primeiro disco independente produzido no Brasil. Porém, já li outros comentários que apontam outros discos lançados de forma independente, sem a interferência de gravadoras, lançados no Brasil antes do Feito em Casa. Embora haja controvérsias em relação ao pioneirismo de Antonio Adolfo, a verdade é que após o lançamento do Feito em Casa, a expressão 'disco independente' ganhou força no meio musical, e estimulou muito outros músicos que encontravam dificuldades em lançar seus discos pelos meios convencionais. Daí vem a importância da iniciativa de Antonio Adolfo ao resolver seguir na contramão do mercado fonográfico. Numa matéria publicada em um órgão de divulgação de um projeto chamado Trindade, que trabalhava com música instrumental, que produziu um documentário, um disco e vários shows, e que veio encartado na edição de dezembro de 1977 no Jornal de Música/Rock, a História e a Glória, o músico fala sobre a criação de seu primeiro álbum independente.
" Sá Marina, Teletema, Juliana, BR 3. Todo mundo ainda hoje se lembra desses sucessos de 68-71, o pique final da era dos festivais da canção. Por isso mesmo todo mundo também se espantou muito quando Antonio Adolfo - autor dessas canções, em parceria com Tibério Gaspar - reapareceu no início deste ano, muito mais magro e tranquilo. E falando e pondo em prática um projeto que não tinha nada a ver com o sucesso, as paradas ou coisa parecida: um disco de música instrumental produzido, gravado e distribuído independentemente, por seu próprio selo, o Artesanal. O disco tomou forma, foi lançado e se chamou Feito em Casa. Com a ajuda de alguns amigos, Antonio Adolfo confeccionou a capa, distribuiu releases à imprensa e colocou o produto nas lojas. 'Era sempre mais fácil nas lojas pequenas, onde você conversa com o dono, explica a transação. É a diferença mesma que tem entre uma quitanda e um supermercado. A quitanda é mais humana, mais real, não impõe nada, não massifica...
E, complementando o trabalho, Antonio armou um grupo e saiu tocando pelo Brasil todo, onde fosse possível: teatros, praças, escolas. Principalmente no interior. 'Eu, às vezes, recorria ao antigo expediente de passar o chapéu para recolher o cachê - o que nem sempre era bem compreendido pela plateia sempre surpresa. Esse trabalho ao vivo foi ótimo. Não só como trabalho, mesmo, mas como exercício quase espiritual, de retomar contato com as pessoas de uma forma mais simples, mais direta, mais relaxada, também sem imposições. Acho que contribuiu muito para a minha própria evolução como músico, como compositor, refletiu-se nesse trabalho. E também ajudou bastante na venda do disco: quando dava, depois de cada show, a gente vendia o disco, e a receptividade em geral era ótima'.
Esse processo que Antonio chama  de 'purificação, despojamento interior', foi deflagrado pelo próprio sucesso avassalante que conheceu no final dos anos 60. Vindo de uma carreira estável e mais ou menos obscura, como músico, nascida no Beco das Garrafas do Rio com o grupo 3D, Antonio Adolfo passou bruscamente à condição de quase ídolo, com o sucesso de Sá Marina e, depois, de várias outras músicas - tudo culminando no apoplético FIC da BR3. Sempre em parceria com Tibério Gaspar e apoiado por seu grupo, A Brazuca - onde Luís Keller, de Trindade, era vocalista - Antonio Adolfo podia ter estabilizado de vez sua carreira como fabricante de sucessos, ou submergido no esquecimento que costuma afligir tais estrelas (vide Wilson Simonal, seu contemporâneo). Mas preferiu dar uma parada por conta própria, em 71, e ir para os Estados Unidos estudar música, ver concertos. 'Eu simplesmente senti que tinha que parar. A cabeça não estava aguentando tanta pressão. E aí, pouco a pouco, eu fui redescobrindo como era bom fazer, pelo prazer da música, sem ser para isso ou para aquilo - para a novela, para a parada, só por fazer'.
Oito meses depois voltou ao Brasil e chegou a gravar um disco para a Phonogram que não o satisfez totalmente. Ainda estava inquieto, dividido. Voltou a viajar, em 73, dessa vez para Paris, para estudar música com Nadia Boulanger. De volta, já sabia o que queria: 'Eu sabia que era um bom músico, um bom arranjador, tinha meu valor. Também tinha muita coisa minha feita, coisas que eu achava boas, que não adiantava guardar, tinha que passar adiante, mostrar. Pensei que só isso fosse suficiente para fazer um disco, mas não era. As gravadoras queriam a Brazuca, de novo, e isso realmente eu não estava mais a fim de fazer. Fiquei assim trabalhando como músico, como arranjador, dava umas aulas de música, também... Até que chegou num ponto em que eu tinha que mostrar meu trabalho. Foi aí que que eu parti para o disco produzido por mim mesmo. Contava vender a fita, depois, para alguma gravadora. Mas começou aquele papo que não era comercial e tal... aí eu vi que tinha que ir até o fim, sozinho'.
Hoje, quase um ano depois, Antonio Adolfo se diz contente com os resultados dessa nova fase de sua carreira. É um homem sereno, seguro, satisfeito com sua música, com seu trabalho. Participa de Trindade -  um projeto afinal semelhante ao seu - em show (o terceiro da série, no último dia 12 de novembro) e em disco (já gravou diversos temas seus, inéditos, em junho do ano passado, especialmente para o projeto)."

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Egberto Gismonti Lança Disco Em Família (1981)

Egberto Gismonti é um dos mais respeitados e produtivos músicos brasileiros. Dono de uma discografia das mais celebradas, valorizadas e reconhecidas até internacionalmente, Egberto entre os anos 70 e 80 especialmente, lançou várias pérolas musicais que tornam seu trabalho um dos mais ricos em qualidade e experimentações. Em 1981, celebrando o nascimento de Alexandre, seu primeiro filho, Egberto lançou o disco Em Família, que trazia a particularidade do vinil ser branco. Em sua edição de 09/08/81, o jornal O Globo trazia uma matéria sobre o disco, assinada por Léa Penteado:
"Egberto Gismonti - 34 anos de idade, 14 de vida profissional - já gravou mais de 30 discos, em quatro países, mas diz encarar de modo especial o elepê que está lançando, 'Em Família'. É que depois de conquistar os mais cobiçados prêmios, como o Grammy e a Coruja de Ouro, ele explica que o novo disco reflete a melhor experiência de sua vida: a de ser pai. Daí a escolha do título e da capa do álbum, em que Egberto aparece ao lado do filho, Alexandre, e da mulher, a atriz Rejane Medeiros. Esta semana, de sexta a domingo, ele apresenta um espetáculo na Sala Cecília Meireles. O título do show: 'Em Família', naturalmente.
O apartamento de solteiro que até há poucos meses Egberto Gismonti ocupava na Gávea ganhou vida nova  com a presença de Rejane Medeiros e a chegada de Branquinho - é assim que ele chama o filho Alexandre. Nada foi programado, tudo aconteceu de repente.
-Não pensei que fosse acontecer uma mudança tão grande em minha vida. Sempre tive uma vida muito louca, de viagens, gravando em diversos países e, desde que aconteceu a gravidez de Rejane, tudo foi mudando. Não foi nada programado, nós não pensávamos em ficar juntos, ou em ter filho; quando vimos, as coisas estavam acontecendo e, a partir de novembro do ano passado, comecei a desmarcar todos os compromissos, até os meses de junho e julho deste ano, para poder acompanhar o nascimento do meu filho.
Egberto conta que o relacionamento com Rejane, baseado em muita tranquilidade, surgiu sem que nenhum dos dois esperasse. Depois de um mês, ele teve de viajar para a Alemanha e foi em Hamburgo que recebeu um telefonema dela, comunicando a gravidez. À princípio, diz que não sabia o que fazer e, quando voltou, resolveu dividir seus espaços com ela e com o filho que chegaria.
- Desmarquei compromissos, para não perder essa relação que estou tendo com Rejane e Alexandre, querendo ficar esse tempo de papai e babá. Gostaria de ficar com ele um tempo até muito maior, mas sinto que não tenho preparo físico. Esse negócio de natureza é meio louco - o fato de uma mulher gerar uma criança faz com que ela desenvolva uma força muito maior do que a do homem, aguentando as barras, sabendo até fazer parar o choro...
Em termos musicais, Egberto Gismonti ainda não sabe até que ponto sua obra vai mudar, com a presença de Alexandre. Apesar de o filho participar de uma das faixas do novo disco, chorando, o trabalho de composição já estava concluído antes do nascimento.
- Não fiz ainda nenhum disco depois que ele nasceu, mas acredito que o fato de ter parado de viajar, estar vivendo dentro de casa com ele e com a Rejane, tendo um tipo de vida que antes não tinha, possivelmente vai me estimular a fazer outra coisa. Eu tenho certeza de que, antes, meus filhos e filhas eram os discos e shows, mas quando pintou o meu filho de verdade, fiz uma troca com a maior facilidade e não sei o que será dos outros. Mas também não estou nada preocupado, me dei o direito de não pensar. Sei que mudou a emoção e a vida, mas a música é difícil. Alguns amigos, que já ouviram esse novo disco, fizeram comentários, não a respeito da  música propriamente dita, mas sobre a maneira de transar o disco.
Esse 'transar o disco' começa com a própria capa. Poucas vezes Egberto Gismonti se expôs em capas e nesse fez questão não só de aparecer como também de mostrar a mulher e o filho. Os detalhes ainda vão mais longe. A letra A da palavra família é representada por alfinetes de fralda e o encarte da capa do disco o 'Jornal Caipira', é dedicado às crianças, com desenhos variados e uma enorme fotografia do filho.
Egberto também fez questão de que todo o disco fosse em branco, até mesmo o acetato, que é branco translúcido. No selo, em lugar da marca da gravadora, há o sorriso de Alexandre impresso em preto e branco.
- Nunca pensei fazer um disco com uma capa mostrando a família, mas está me dando imenso prazer mostrar este meu outro lado.
O não pensar, não programar, sempre foi uma constante na vida de Egberto. Ele lembra que há 13 anos, quando começou a trabalhar com música, profissionalmente, tinha a família que o apoiava. Depois de dois ou três anos, mais pessoas já se interessavam por seu trabalho. Tudo foi indo nessa proporção, até chegar a um ponto que ele acha contraditório.
- Ao mesmo tempo que tenho consciência de não fazer uma música para a grande massa, me pergunto como em 13 anos, essa música foi gravada em mais de 30 discos. Às vezes até estranho porque, se não é comercial não deveria ter tantos discos gravados. É, se existe uma crise na indústria fonográfica, no  mundo todo, por que os brasileiros, americanos, alemães e japoneses estão investindo tanto em mim?
Egberto Gismonti é contratado de quatro gravadoras: no Brasil, na Alemanha, no Japão e ainda nos Estados Unidos. Seus discos, somente no Brasil, vendem em média 30 mil cópias, um número considerável, já que seu trabalho não é considerado popular.
- Eu tenho consciência de ter um público pequeno em cada país e, por essa razão, saí do Brasil há alguns anos e comecei a buscar esse meu público. Isso me diferencia um pouco da maioria dos músicos instrumentais. Se eu ficasse no Brasil meus discos continuariam na faixa de vendas em que estão - o que para a companhia parece ser muito bom e pra mim é fantástico, permanecer em catálogo dez anos. Também tenho consciência de que minha música não chegaria num tempo curto a um número grande de discos, mas o que consigo já me permite viajar pelo Brasil fazendo shows, como se fosse um cantor popular.
- Tenho como função também juntar  um pouco de música erudita com a popular. Não é nem para instruir. Na realidade, não estou querendo brigar com ninguém, nem sou contra música nenhuma, só quero deixar claro que existem outras músicas.
Segundo Egberto, a sua música permite imaginar o que se quiser, não direciona o pensamento de acordo com a letra, abre a possibilidade de sonhar. E é assim que ele vive, também.
- Vivo sonhando, sem nenhuma alienação, apenas com a possibilidade de liberdade, que acho ser muito mais importante do que a minha música. Não acho que tenha atingido algum ponto com a música; não fico chorando quando não dá certo, nem fico soltando foguetes quando tudo vai bem. Tive um disco muito premiado em 1978, 'Dança das Cabeças', festejado em diversos países, e não fui a nenhuma entrega de prêmios no exterior, como também não fui receber o troféu Villa-Lobos, nem a Coruja de Ouro, nem o prêmio de Gramado. Não é o fato de não curtir prêmio, mas prefiro não ficar envolvido com festejos, acho que tenho mais é que ficar fazendo música.
A música e os prêmios ganhos por Egberto Gismonti ficam em segundo plano, com a entrada de Alexandre na sala. Branquinho, como o apelido dado pelos pais, ele tem fisionomia tranquila, no colo da mãe, e sorri quando vê o pai. Tanto Egberto quanto Rejane acreditam que o ar de tranquilidade que o filho irradia  é o reflexo da vida que eles têm.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Chico Buarque Grava Especial para a TV (1976) - 2ª Parte

"Em São Paulo, a Bandeirantes, por exemplo, é um canal que não atinge grandes piques de audiência, lá também impera a Globo. E o que eu tenho sentido é o seguinte: como o músico passou a ter menos importância para a televisão, este veículo também teve sua importância diminuída para o músico. O resto é ninharia - se colocam uma música que fiz em novela, representa pouco em termos de afirmação musical como artista. O meu disco que mais vendeu - Meus Caros Amigos - não deveu nada à TV. Mesmo quando saiu o programa, em março em São Paulo, o alto da curva nas vendas já tinha sido atingido.
Pessoas de certo nome, privilegiadas no meio - e me considero uma delas - podem passar sem a televisão. O problema é a dificuldade de gente nova aparecer, diferente do padrão de qualidade, que mostra cantor como se fosse anúncio de cigarro. Mas quem está surgindo não tem possibilidade de impor nada, tem que se satisfazer com o quadrado que lhe permitem, pelo menos está lá mostrando que lhe permitem, pelo menos está lá mostrando a sua música. Não sou artista de palco - nunca fui - queria mostrar o meu trabalho, que começou a aparecer vestido de smoking, mas se mandasse me vestir um pijama, vestiria.
Tem muita gente que recusa o esquema atual, ou que só se apresenta muito raramente. Há artistas que ficam  chocados, como aconteceu com o Gilberto Gil, diante da maneira como queriam colocá-lo, da forma que o diretor tratava o subalterno, que cria um clima de trabalho irrespirável. A TV é um veículo importante, quase imprescindível do ponto de vista de contato com o público. Por mais que alguém faça um show por dia, seria impossível manter a audiência que teria num dia de televisão. E o grave problema é que o artista aparece sempre no tempo da televisão e não no tempo que é dele, pessoal.  E como opção, entra ou não entra nos buracos deixados para ele.
Recentemente foi para a Globo um diretor que considero fantástico - fantástico não, pelo amor de Deus tira essa palavra. Bem, em todo caso, esse diretor, Fernando Faro, fez um programa de música que achei bom, com o Wilson Batista, que teve o seu tempo - quero ver se isso se repete. O artista não pode forçar uma mudança, porque é facilmente substituível e não há mercado de trabalho - a Tupi é considerada castigo. Quando voltei da Itália, fiz programa de graça para a Continental e para a Rio - só podia  ser de graça, o cachê era  uísque nacional durante o programa.
Mas do ponto de vista de música, já que a TV não a  valoriza,  os artistas tiveram que achar um substituto, e a saída foi a apresentação em teatros, coisa que quase não existia quando comecei por exemplo. A Maria Bethânia lota o teatro que quiser durante o tempo que quiser, os espetáculos das Seis e Meia da Concha Verde vivem cheios. E aí vem uma queixa dos atores de teatro, porque de repente a música tomou conta das salas de espetáculos, e os donos preferem alugá-las para músicos porque a possibilidade de lucro é maior. Sem falar na dificuldade de montar uma peça porque os artistas são da Globo, não têm tempo para ensaiar, por isso o diretor não quer ator de novela e o produtor quer porque chama bilheteria.
Ilustração de Gean Carlo Mecarelli
 Quando voltei da Itália fiz vários shows, circuito universitário. Mas odeio show, prefiro o trabalho de criação, o teatro, procuro outras saídas. Sou muito mais autor do que artista e meu ideal é viver de direito autoral - é assim que me sinto mais à vontade e mais útil, e para isso tenho que trabalhar muito. Outros artistas partem para fazer shows sem parar, e as apresentações muito esporádicas de muitos deles em TV não chega a contribuir muito, porque vários têm casa lotada justamente porque não são vistos na TV. Mas isso acontece com o sujeito que já tem um certo nome, feito através do disco ou da própria TV. O desconhecido nunca vai lotar teatro.
Essas apresentações ao vivo foram uma espécie de resposta - no tempo da Record quase ninguém fazia show fixo, a TV supria essa necessidade de contato. Mas é uma resposta parcial. O ideal seria que o Brasil inteiro visse Maria Bethânia, e por mais que ela viaje, nunca vai atingir o que um canal atingiria. Pode-se dizer que a Bethânia é de palco e não de vídeo. A verdade é que não se descobriu ainda uma fórmula de apresentar músicos na televisão.
O Especial da Record é um programa despojado, à vontade, mas que não pode servir de fórmula - parece que custou uma fortuna, só sei que me pagaram CR$ 100 mil. Embora ache que a Globo pagaria mais, acho que mesmo esses CR$ 100 mil só são para uma dúzia. O meu problema pessoal pôde ser atendido - estava em Petrópolis, deslocaram uma câmera externa para lá, foi tudo muito tranquilo. Mas impera a acomodação às fórmulas velhas, sem necessidade de mudar. Devo ressaltar que só vi um programa de Fernando Faro, e isso não quer dizer que aceitaria fazer um programa para a Globo. A incompatibilidade não é pessoal, é com o esquema que já existe. Já fui bastante sondado e posso dizer que nem me passa pela cabeça voltar atrás, falo agora como espectador. Aliás, quase não vejo TV, já tentei ver alguns programas de música, tristes. Um sobre o Ari Barroso era de chorar, conseguiram provar que ele era um péssimo compositor, quando na verdade não era.
E essa baixa qualidade custa caro, a Globo gasta muito dinheiro com a visão que tem para mostrar que está gastando. Nesses programas, o cantor fica apavorado. É um clima de que se errar sai errado, não há condições de corrigir, é tudo feito às pressas, sem respeito pelo tempo do artista - mas o cenário está sempre arrumado.
É o segundo programa que faço para a Bandeirantes - sempre sob a direção de Roberto de Oliveira. Conhecia-o, confiei, e nesse segundo, ouvi dizer que eram 16 horas  de gravação. Tinha muita besteira, que ele cortou, mas podia ter deixado. A repercussão em São Paulo foi muito boa, o que atribuo à boa vontade da imprensa que não é Roberto Marinho. Há toda uma simpatia em jogo, não pela Bandeirantes em si, mas por tudo que não é Globo.
Não quero ficar parecendo garoto-propaganda da Bandeirantes - acho que ela me trataria da mesma forma que a Globo se tivesse igual poder. Mas acho que a concorrência, um pluripartidarismo na televisão pode ser saudável, se não se encontrar alguma saída pelo menos vai se procurar."

terça-feira, 17 de maio de 2016

Chico Buarque Grava Especial para a TV (1976) - 1ª Parte

Em 1976 Chico Buarque foi convidado para inaugurar um novo canal de TV no Rio de Janeiro, a TV Guanabara, afiliada da TV Bandeirantes, de São Paulo. Na ocasião, o Jornal do Brasil fez uma matéria sobre o programa, trazendo um longo depoimento do compositor sobre a presença e a importância da televisão em sua carreira. A matéria, que é assinada por Susana Shild, traz um texto de chamada, que diz:
"Depois de seis anos de ausência da televisão carioca, Chico Buarque volta amanhã para inaugurar com um programa especial a TV Guanabara, associada à Bandeirantes de São Paulo. Foi na televisão, a Record de São Paulo, que Chico iniciou sua carreira, cantando Pedro Pedreiro, de smoking, em 1965. De lá pra cá, a roda viva: o começo um pouco na base de objeto do empresário - 'Se me pedissem para cantar de pijama, eu cantava' - o período na Itália e a volta, quando fez programas onde o cachê era uma dose de uísque nacional.
Ao fazer um balanço em tudo o que aconteceu até agora, Chico comenta: 'O músico perdeu a importância para a televisão, mas a televisão também perdeu o valor para o artista, que se refugia nos teatros.' Confessa que odeia shows, gostaria de viver do direito de autor, e reafirma que não pretende trabalhar para a Globo, embora considere a Bandeirantes muito diferente. 'Mas o bom, o saudável é que existem opções, uma tevê pluripartidária, o que possivelmente dará mais chances aos artistas.
Este é o seu depoimento."
Abaixo, o depoimento de Chico:
"Por mais irônico que possa parecer, devo meu primeiro disco à televisão. Comecei a aparecer em 1965 e não tinha preocupações com o veículo - olhando para trás vejo que havia concorrência entre os canais e o que a televisão fez na época foi apresentar o movimento musical que existia no festivais, nas faculdades. Já naquele tempo, aparecer em público não era o meu forte, mas a televisão era o primeiro degrau para um artista. Tinha que aparecer de smoking em alguns programas, OK, eu concordava, nunca tentei quebrar as regras do jogo. Eu me dedicava à minha carreira, fazendo programas na televisão, shows, cantando em clubes, não tinha preocupação nem tempo para especular sobre a significação da televisão, e seguia a carreira que os empresários me apontavam.
Só gravei o primeiro disco - um compacto com Pedro Pedreiro e Sonho de Carnaval - porque um produtor me viu na televisão, o disco, portanto, foi resultado desse trabalho. O primeiro LP - A Banda - só foi gravado porque venceu um festival e porque eu cantei -  se não tivesse cantado dificilmente teria gravado. E as coisas foram se desenvolvendo assim durante dois ou três anos.
Nos programas musicais da época os cantores equivaliam aos atuais galãs de novela, eram eles que atraíam audiência. Todos os dias 7 a TV Record tinha um programa de música, uma grande bagunça, com dezenas de pessoas nos bastidores, anuncia-se alguém que não estava, hoje em dia um programa desse tipo é impensável. O interesse do bom gosto padronizado, aliado ao interesse da censura não admite mais programas ao vivo, evitando-se assim, qualquer incidente ou improviso.
 De 1965 a 1968 a TV tinha necessidade de renovar as atrações, e assim os novos valores encontraram oportunidade de aparecer. Agora se comenta que não há gente nova de valor, mas não é verdade. Acontece que eles não têm como se projetar. Tentam um ano, dois, três, não acontece nada, e desistem. Naquele tempo havia uma possibilidade de se chegar ao público, e em regra quase geral, o disco seguia-se à televisão, enquanto hoje o caminho é exatamente inverso: alguém que tem a sorte de gravar um disco, pode, através de um arranjo do produtor do disco com a televisão, conseguir apresentar uma música. Não há a menor possibilidade de surpresa dentro da televisão, de encontrar um valor novo, desconhecido.
A TV, na minha carreira, me popularizou. Em termos de dinheiro, não era quase importante, mas uma ponte para outras coisas. Foi por causa dela que fui a Salvador pela primeira vez - um produtor, o Roni, me viu na TV cantando Pedro Pedreiro, gostou e me chamou pra fazer um show. Mas só ele tinha assistido ao programa e o resultado do show foi um fracasso total - não foi ninguém, e só não foi pior porque a Silvinha Telles me deu uma mãozinha.
Nesses anos de roda viva, não parei para pensar no meu relacionamento com a TV. Os baianos fizeram isso, tinham uma percepção do veículo e fizeram por onde modificar a relação com ele, coisa também que hoje não é mais possível. Continuo sem entender nada de TV, sou incapaz de dar um palpite, mas os baianos quiseram e souberam modificar alguma coisa, e eu não saberia.
Depois de 68, passei dois anos na Itália, e embora não tivesse muito preocupado com a televisão de lá na época, sei agora que houve uma mudança, quase uma inversão. Hoje em dia há programas malucos,  improvisados, quase não há mais aquela coisa certinha. Diga-se de passagem que a Globo não inventou nada -  ela copia tudo, assim como a TV italiana copiava do modelo americano. Na Itália, a TV é estatal, e de seus dois canais, um é oficial e o outro, quase marginal, no sentido de dar oportunidades a novos nomes, não só da música, mas de tudo, e inovando também no aspecto jornalístico.
Quando voltei, encontrei tudo mudado. Tinha uma experiência de televisão, basicamente a paulista, e no começo me apresentei pouquíssimo em canais cariocas. Estava tudo mudado e para pior. Devo dizer que voltei através de um Especial da TV Globo - tenho que agradecer a ela por isso. Nem pensei se era bom ou se era ruim, eu tinha que voltar. E esse contato foi cheio de conflitos. Quando voltei só existia a Globo, nesse meio tempo a Record mudou, alguns artistas viajaram, e talvez o seu esquema profissional e empresarial não resistisse à concorrência da Globo.
Nessa ocasião senti lá dentro, na TV, e na pele, a desimportância absurda que o artista tem no esquema Globo, o desrespeito, a censura interna. Quero deixar claro que não á Globo que é ruim e a Bandeirantes que é boa, mas o que é ruim, nocivo, brutal é o monopólio que permite a uma estação de TV tratar de forma ditatorial os técnicos, artistas e funcionários e, em consequência, o público telespectador."

(continua)

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Beto Guedes Lança A Página do Relâmpago Elétrico (1977)

Em 1977, ao lançar seu primeiro disco, "A Página do Relâmpago Elétrico", Beto Guedes ainda era um nome pouco conhecido do grande público. Sua participação em dueto com Milton Nascimento na gravação de "Fé Cega, Faca Amolada", do álbum Minas, chamou a atenção para sua voz fora dos padrões, mas Beto ainda era uma surpresa e uma promessa, quando seu excelente álbum de estreia estava sendo lançado. E foi assim, que o Jornal de Música noticiou o lançamento desse disco que se tornaria um clássico, em texto assinado por Antonio Carlos Miguel:
"Com 'A Página do Relâmpago Elétrico' vem à tona um trabalho que ainda não tinha tido condições de aparecer plenamente. O que se conhece de Beto Guedes é como um 'iceberg', seus trabalhos com Milton Nascimento (no disco 'Clube da Esquina' ele toca em quase todas as faixas e em 'Minas' principalmente por seu vocal em 'Fé Cega, Faca Amolada') e algumas gravações, raríssimas hoje em dia, apesar de terem sido lançadas há relativo pouco tempo.
Em 1973 a Odeon editou a disco 'Beto Guedes, Danilo Caymmi, Novelli e Toninho Horta', onde cada compositor participava com seu (parte de) trabalho. A ideia inicial era um disco individual para cada, mas, por razões obscuras optou-se por essa solução mais econômica, como disse Ronaldo Bastos 'colocaram quatro gatos num saco'.
Outro trabalho importante em disco foi o compacto simples feito durante a gravação de 'Minas' (julho/agosto de 75). Este disco que praticamente não foi distribuído é outra raridade. Ave rara. Nele, Milton e Beto, acompanhados do Som Imaginário, continuam seus duos vocais iniciados em (com) 'Fé Cega...'. Há uma recriação antológica de 'Norwegian Wood' de (para) Lennon e McCartney e no outro lado regravam 'Caso Você Queira Saber' (Beto Guedes e Márcio Borges) que anteriormente tinha sido incluída no disco dos quatro no saco.
Segundo Ronaldo Bastos, ele foi um beatlemaníaco como qualquer cara de sua geração, um beatle do sertão. Se criou ouvindo seu pai, que toca clarineta, sax, e a música da região de Montes Claros (ao norte de Minas, perto da Bahia) Aos dez anos foi pra Belo Horizonte, lá ocorre o corte radical e passa a ouvir, ver, viver, tocar Beatles e companhias ilimitadas. Em 1970 com a música 'Feira Moderna' (Beto e Fernando Brant) classificada no Festival da Canção (interpretada pelo Som Imaginário) Beto vem para o Rio e intensifica seu trabalho na música popular. Popular, solta, sem raízes únicas e fixas, de uma época que os rótulos começam a perder o sentido, a desbotar.
'A Página do Relâmpago Elétrico' chega mostrando isso, todo processo vai desembocar no trabalho.
No disco Beto toca com muitos músicos que já há algum tempo vem trabalhando junto. Nos teclados Flávio Venturini do grupo 'O Terço' e Vermelho do 'Bendegó', eles dois tocaram no disco dos 'quatro' (só que na época os dois constam no crédito do disco como Flávio Hugo e José Geraldo), Robertinho (bateria) e Toninho Horta (guitarra e arranjos para orquestra) já estão ligados desde os tempos de Milton, Zé Eduardo (violão e guitarra) vem de Minas e toca com Beto desde o início, completam o disco Hely (também do Bendegó) na bateria e percussão; como convidados especiais o veterano Abel Ferreira (sax e clarinete) na faixa 'Belo Horizonte' (de Godofredo, pai de Beto) e Novelli e Nelson Angelo em 'Nascente' (Flávio Venturini e Murilo Antunes).
A página é eclética, elétrica-sertaneja, numa aproximação natural, sons eletrônicos e rústicos sem que seja possível desmembrá-los. Um detalhe é a voz, estranha e agreste, límpida e cortante como uma faca amolada com fé cega."

terça-feira, 10 de maio de 2016

Gilberto Gil Grava nos Estados Unidos (1978) - 2ª Parte

" - Antes de viajar para os Estados Unidos, você andou compondo bastante. Fez 'Entre a Sola e o Salto', para Alcione, 'Fé, Menino', para Gal Costa, 'Todo Dia de Manhã', para o Gerson Combo, e exclusivas para as Frenéticas, Marcelo, Leci Brandão e outros. Esse processo de trabalho contou com a participação de algum parceiro?
- Não. Parceria não tenho feito. Tenho feito música para esse pessoal todo, mas tudo sozinho. Fiz até uma pra mim, chamada 'Unidet States of My Life', que é uma brincadeira com os Estados Unidos. É uma música sobre a união de todos os estados de espírito.
- Voltando a seu trabalho americano, ele tem o mesmo acompanhamento do 'Refavela'?
- Ele é a partir daquilo, porque é o aspecto que o Sérgio Mendes mais curte no meu trabalho, sem levar em consideração que ele pode curtir muitos outros aspectos. Esse lado funky é o que caracterizaria, uma coisa no mesmo grau de especialidade, de impressionabilidade que o trabalho de Jorge Ben tem sobre as plateias europeias e americanas. O Sérgio acha, e não é só ele, é a maioria das pessoas ligadas à música do lado de dentro. Pessoas que acham que eu e Jorge Ben temos alguma coisa que caracterizaria essa emergência black internacional. Seria um ecumenismo do samba com o soul e com o reggae. Nessa medida, a tentativa, o alvo, alcançável ou não, seria todas as Áfricas reunidas e contidas na minha música. Então por aí, 'Refavela' é um ponto de partida, uma referência. Música na verdade pode se desmembrar, aliás, como é uma palavra muito usada no Brasil atualmente, pode ser desdobramento em várias direções. Posso de repente fazer coisas no gênero manso, na área do blues, samba-canção, folclóricos ligeiros, baiões leves. Depende muito. Nesses meus dez discos tem muita abertura pro regional nordestino, regional baiano, regional urbano carioca, pro internacional rock, pro internacional black. O meu trabalho americano vai ter um pouco de tudo isso, explorando o lado afro, no sentido de todas as  Áfricas.
- Nos discos brasileiros você tinha que atender a algum tipo de exigência?
- Não, assim de um modo geral. Mesmo nesse caso do disco americano, como já andei explicando,  a partir da postura do Sérgio, é uma coisa muito procurada por mim. Não é uma concessão no sentindo que estão me exigindo fazer isso, me ater a uma postura que eu não gostaria. Não é, de uma certa forma é uma consideração que estou dando a um entendimento geral que as pessoas têm sobre mim.  É uma adequação minha a uma visão que se tem já, e que vem se generalizando cada vez mais sobre o meu trabalho. Não é uma concessão. É uma parada para um aprofundamento no aspecto das coisas que tem aí. Até o dia em que eu puder, na medida em que os discos que eu venha a fazer sejam bem sucedidos - ter total liberdade de ir para um estúdio na América e fazer o que me der na cabeça na hora, que pode ser que venha a acontecer e pode ser que eu nem tenha vontade de chegar a tanto caos.
- Saindo um pouco do lado musical, o Waly Saillormoon andou dizendo que você estaria traduzindo um livro sobre filosofia oriental. Quando ele vai ser editado?
- É um livro de um mestre hindu de Bombaim, um livro sobre auto-realização, sobre o homem, a vida e a morte. É um livro muito importante pra mim, e acho que poderia ser muito importante pra muita gente. Foi a primeira vez que tive vontade de traduzir alguma coisa, e a ideia de traduzir nascia da intenção de fazer com que outras pessoas tivessem acesso a uma coisa interessante. Traduzir tinha apenas esse valor, não tinha nada com meus anseios particulares de fazer incursões na área literária ou mesmo na área da importância intelectual. Minha intenção era evitar que um pedaço de bolo gostoso fosse partido.
-Era? Não é mais?
-Não, ele basicamente ainda nem começou. O livro está agora nas mãos do Sérgio Mendes, que me pediu. Quem escreveu o livro foi um mestre que tem um nome muito complicado. Nem me lembro. Tenho lido em inglês, mas ele foi escrito numa daquelas línguas do sul da India. Ele é um iogue afastado dos afazeres do mundo, dedicado à auto-realização, a Deus, ao ser. É um livro sobre ser ou não ser. Acho que não tem a ver com o ser ocidental, quer dizer, no fundo tem, mas a formulação é diferente; enquanto o 'ser e não ser' nosso, ocidental, se atém a uma busca de esclarecimento entre o homem, digamos, no mundo, entre as pressões e as tensões criadas por essa relação, a visão oriental coloca o homem e o eterno, uma visão para além do mundo, uma tentativa de inserir o homem neste contexto da totalidade universal, uma coisa mais ampla.  Não conheço muito a relação do ser e do não ser ocidentais. Li muito pouco os filósofos. Sei muito pouco sobre Comte, Kant, Heidegger, Spinoza e todos eles. E também sei pouco sobre os hindus. Só que eles têm essa amplitude, essa abordagem ampla, essa abordagem múltipla dos ocidentais, quer dizer, eles são todos um só. Eles têm praticamente o quê? Eles têm o Vedanta, Advaita, a algumas sendas básicas. Todos os grandes mestres, grandes santos, grandes iogues, grandes filósofos, estão reduzidos de uma forma ou de outra, àquelas duas ou três concorrentes. Então, estão falando quase sempre a mesma coisa, ou pelo menos falando da mesma forma sobre todas as coisas. Aqui todos falam da mesma coisa através de códigos diferentes.
- E a forma do candomblé, seria uma terceira?
- É, o problema do candomblé é que se conhece muito pouco da verdade sobre a mitologia e as relações da mitologia com a religião e a sociedade na África. A gente sabe muito pouco, mas mesmo assim, cultua. Tem um livro interessante sobre o assunto, escrito por Juanita dos Santos, chamado 'O nagô e a morte', que tenta ser uma visão mais escolarizada, mais nos moldes do estudo rigoroso, etnológico e antropológico. Mas a gente sabe muito pouco, por exemplo, das identificações entre as religiões africanas e as religiões primitivas da Europa ou do Oriente; das relações entre a visão olímpica africana e a visão olímpica dos gregos; quer dizer, todas essas coisas só agora começam a ter uma visão mais rigorosa.
- Qual é a importância dessa sua preocupação?
- Acho que é na medida natural do conhecimento mesmo, na medida em que restam certos focos interiores de ansiedade com relação ao saber, ao saber-se.
- Você está ficando uma pessoa cada vez mais tranquila; não vai acabar virando um iogue?
- É isso que eu quero. É a minha grande busca na vida, acho que toda minha ambição seria exatamente um encontro com esta plenitude de ordem maior, a minha busca é Deus no sentido mais profundo da palavra. "

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Gilberto Gil Grava nos Estados Unidos (1978) - 1ª Parte

"Em 1978 Gilberto Gil assinaria um contrato com a Sérgio Mendes Produções Artísticas, de propriedade do músico brasileiro, radicado nos Estados Unidos. Esse contrato incluía a gravação do disco "Nathingale" e a realização de shows no território americano. Em sua edição de 21/10/78, o jornal O Globo fez uma matéria sobre esse projeto internacional de Gil, assinada por Paulo Macedo:
"Tudo começou quando a WEA (Warner, Elektra, Atlantic) contratou dois grandes trunfos da Phonogram, Gilberto Gil e o escalafobético Raul Seixas, e se preparava para lançar a Banda Black Rio. Uma recepção foi preparada para os três no Hotel Nacional, coincidindo com o primeiro aniversário de instalação da Warner no Brasil. As propostas dessa festa não foram bem definidas para os convidados, mas há quem garanta que ali estavam duas opções de internacionalização de artistas. A mais viável era a Banda Black Rio, por ser instrumental e ter o pique de fundir ritmos brasileiros ao funk & soul americano, principais responsáveis pela aglutinação de centenas de milhares de jovens blacks em clubes do subúrbio carioca.
No entanto, em pouco tempo a WEA mudava de opinião: 'Tinha que ser Gilberto Gil!'. E o Festival de Jazz de Montreux, em julho, parece ter confirmado os prognósticos - Gil se mostrou para uma plateia internacional, um artista capaz de se expressar em várias linguagens - todas brasileiras - sem precisar diluí-las; uma personalidade forte, carismática e de orientação popular.
Gil tem consciência de suas possibilidades. Simples, não sonha com o estrelato maior, apenas segue o seu caminho. Uma viagem não o atrapalharia:
- Se ficasse no Brasil iria dar um tempo em minhas atividades, porque houve um desgaste muito grande de imagem num tempo mínimo, três anos aproximadamente: 'Refazenda' (disco e show em todo o Brasil), 'Doces Bárbaros' (show, disco e filme), 'Refestança' (show e disco com Rita Lee) e 'Refavela" (show e disco), além de ter participado do Festival de Arte Negra da Nigéria em 76.
Nesse festival, Gil conheceu Stevie Wonder, que se entusiasmou com seu trabalho e mostrou interesse em fazer versões para o inglês de suas músicas. Isso hoje é um fato, pois Stevie está preparando alguns arranjos para o primeiro disco americano de Gil e uma versão de 'O Rouxinol'. O LP está sendo gravado num moderno estúdio particular em San Fernando, Los Angeles, sob a produção de Sérgio Mendes, e com a colaboração do letrista Jim Lee. As bases estão prontas e contaram com apenas um músico brasileiro, o baixista Rubão Sabino. Além dele, participaram das gravações um baterista peruano e alguns músicos americanos de estúdio. Para esse LP, Gil compôs especialmente o 'Samba de Los Angeles', que atende aos interesses do mercado.
- Cantar em inglês, usar músicos americanos, a atmosfera da gravação, são fatores de atenção ao mercado. Além disso, existe de minha parte uma postura de busca, encontro, equilíbrio, de aproximação de distâncias que há entre o que se faz no Brasil e na música americana. Não sei bem. É muito difícil falar sobre isso, porque de repente alguém diz: 'então você vai fazer o que, em vez de cantar samba vai cantar blues em vez de baião, rock?' E não é isso A intenção é uma fusão em caráter muito genérico, em que você não pode determinar que elementos serão transpostos, o que é americano na linguagem brasileira, o que é nosso na língua americana.
-Em alguma ocasião em sua carreira você demonstrou interesse de 'internacionalizar' o seu som?
- Antes de tudo, do Tropicalismo, na fase de aquisição de sonhos, quando tive contato com os Beatles, Jimi Hendrix, pensei na possibilidade de um dia poder fazer alguma coisa fora do Brasil. O fato de ter saído do Brasil a contragosto, de ter que ir pra Londres praticamente obrigado, fez desaparecer a vontade anterior de fazer alguma coisa no exterior. De forma que este estado de espírito permaneceu quase o tempo todo quando estive fora, e eu não quis construir uma carreira fora do Brasil, naquela época. Hoje já não tenho o desencanto de estar fora, mas ao mesmo tempo não tenho o encanto daquela fase de sonhos. Estou partindo para isso na base do impulso natural, uma consequência. E acredito que serei aceito pelo menos por uma determinada faixa do mercado americano.
- O primeiro passo para essa carreira internacional foi o Festival Internacional de Montreux?
- Sim e não ao mesmo tempo. Foi um convite feito pelo organizador do festival, Claude Nobbs, à minha gravadora. Aceitei porque não tinha motivos pra rejeitar, e era uma hora excelente de testar o mercado europeu, e um público específico estaria no festival.
- Sua apresentação em Montreux foi gravada, e o resultado está num álbum duplo que a WEA acaba de colocar à venda no mercado brasileiro. Esse disco americano, já que você vai regravar muita coisa, poderá sair no Brasil normalmente?
- Eu gostaria muito que ele saísse aqui, mas existem dúvidas a respeito, problemas de repertório pendentes na gravadora. Isso porque o material gravado na Phonogram não foi comprado pela Warner, e há um prazo para essas músicas serem relançadas no Brasil. Vou batalhar, mas já estou prevenido para a possibilidade de não sair.
- Logo após o lançamento de 'Refavela' você disse que seu próximo disco se chamaria 'Rejúbilo'. Esse LP dos Estados Unidos seria a conclusão da série 'Re'?
- Não, acho que não. Aliás, não tenho nem condições de tentar e não seria permitida a irresponsabilidade de tentar mais um 'Re'. O 'Re' iria agora retardar demais o processo, em outras palavras, seria luxo demais uma nova tentativa por causa do universo nomenclatural que seria atravancado, e a reciclagem exige que o 'Re' desapareça de uma certa forma. Ou, sei lá, talvez dê ainda, mais tarde, pra fazer novas tentativas, quando eu tiver de novo tempo ao meu dispor, tempo artístico. Desprezando qualquer injunção de qualquer ordem, talvez eu possa fazer  um 'Rejúbilo', ou 'Realce', ou qualquer coisa, ou 'Reu' "

(continua)

domingo, 8 de maio de 2016

Raul Seixas - Revista Amiga (1977)

Em 1977 Raul Seixas lançava o disco "O Dia em que a Terra Parou". Na ocasião ele deu uma mudança no visual, tirou o cavanhaque, que usava desde 1973, e partiu para divulgar seu novo disco. A revista Amiga, especializada em televisão, mas que também abria um espaço pra a música, fez uma matéria com Raul. A chamada da matéria, assinada por Pedro Simões, dizia: "De cara limpa e fazendo apologia do terno e gravata Raul Seixas proclama-se candidato a presidente". O Brasil, naquele período, final de 77/início de 78, já vivia um clima de sucessão presidencial, na verdade um jogo de cartas marcadas, já que não havia eleições livres e diretas. Mesmo assim, Raul, com sua irreverência, se proclamava candidato a presidente. Mas o fato é  que Raul estava naquele período envolvido com  a estreia do show que trazia o título de seus disco, no Teatro Tereza Raquel, no Rio, programado para o início de janeiro de 1978. Em São Paulo ele havia feito uma temporada de dez dias, sendo visto por 14 mil pessoas. Segue a matéria:
" 'Esse papo de que sou candidato é pra valer. No ano que vem, estou firme na candidatura a presidente. Minha mãe sempre quis que eu fosse presidente. Então, é um negócio antigo em minha vida. Aos 14 anos, já queria ser deputado federal. Acho que sou tão capacitado quanto qualquer outro. Sou formado em Filosofia, Psicologia e Direito. Conheço latim de cabo a rabo, leio Sheakespeare em inglês. Sou professor dessa língua, formado pela famosa  Saint-George School. Tenho cultura geral, conheço História Latina. E além do mais, a natureza não fez nada igual. Tudo que existe no universo é único, e como único que sou, tenho todo direito de dar um tiro em minha cabeça, comer um sapato ou me candidatar ao que quiser. Tem uma música que diz: 'faze o que tu queres, há de ser tudo da lei.'
Sua decisão é tão firme que nem os inconvenientes da vida pública parecem desencorajá-lo.
'Terno e gravata é uma mania que tenho desde criança. Acho bonito, é um valor que a gente tem. É como esse óculos que estou usando, eles eram feios e hoje são considerados bonitos. Minha preocupação agora é entrar na História. Quero deixar minha impressão digital nela.'
No apartamento do cantor na Lagoa Rodrigo de Freitas, apenas a mobília dá ao ambiente um ar de normalidade: ao não ser pelas guitarras e vilões, jogados pelos cantos ou a maria gorda (contrabaixo acústico) enfeitando a entrada, se poderia imaginar que o dono da casa é um pacato pai de família, típico jovemn da classe média carioca da Zona Sul.
Ao lado de sua mulher, a norte-americana Gloria Vaquer, Raul Santos Seixas, baiano de Salvador, 32 anos, fala de seu novo disco, de seus shows e de sua vida.
'É, esse último disco está mais calmo. Mas a vida é feita de momentos e essa é uma fase mais calma. Mais calma, não, mais sabida. Eu não sou um cantor, sou um comunicador. Sei que estou jogando um microxadrez diante de um macroxadrez. Então nós, comunicadores, achamos que no momento é pra ser assim .'
De repente, Raul desaparece. Quando volta, traz um álbum de recortes na mão e começa a ler: 'A coisa mais penosa do nosso tempo é que os tolos possuem convicção e os que possuem imaginação e raciocínio vivem cheios de dúvidas e indecisões.'
'Bicho, eu escrevi essa frase na parede do meu quarto quando tinha uns 14 anos de idade.'
Nova pausa para fotografias, com a família. 'Hoje estão acontecendo coisas estranhas aqui', confidencia baixinho para a mulher não ouvir. 'Gloria nunca gostou de aparecer em fotografias, muito menos em reportagens. Não sei o que deu nela'. Scarlet, a filha do casal, de ano e meio, fica ao lado da mãe.
A conversa volta ao show e Raul traz um programa em que mostra a participação especial do guitarrista Gay Vaquer, irmão de Gloria. Os outros músicos são Guilherme Lara (piano e arp), Carlos Nilton (guitarra), Adegilson Gonçalves (sax), Judiber Felipe (pistom) e Luís Bernardo (trompete). Uma coisa Raul faz questão que seja dita: sua condição de líder dentro da banda. Aqui está dito. "

sábado, 7 de maio de 2016

Jimi Hendrix - Revista Veja (1969)

No início de 1969 Jimi Hendrix ainda não era um nome muito conhecido no Brasil,

embora já se destacasse no meio do rock internacional, e já tivesse três discos gravados, com

sua banda Jimi Hendrix Experience. O pessoal mais antenado já o conhecia, ou pelo menos já

tinha ouvido falar, ou lido sobre ele, mas em termos de grande público, ainda era

relativamente desconhecido. Até mesmo nos Estados Unidos, seu nome só se tornara

conhecido cerca de um ano e meio antes, após sua chamativa participação no Monterey Pop

Festival, em junho de 1967. Hendrix, apesar de americano, havia iniciado sua carreira e feito

sucesso primeiramente na Inglaterra, para onde emigrou, por ser lá que as coisas aconteciam.

O Festival de Woodstock, que daria um maior impulso ao nome de Hendrix em termos

mundiais, só aconteceria sete meses depois. Por isso, ao publicar uma matéria sobre ele, em

janeiro de 1969, a revista Veja falava de uma grande novidade chamada Jimi Hendrix, o que

fica evidente no texto transcrito abaixo, que não veio assinado:

“O artista do ano, para a influente revista americana ‘Billboard’, é um negro de 23

anos, cabelos eriçados, capaz de tocar guitarra até com os dentes e que se apresenta com uma

roupa inflável - um rosto enorme com dois olhos desenhados e fixos, Jimi Hendrix, o líder do

conjunto Jimi Hendrix Experience, que ganhou dois Discos de Ouro pelos seus dois milhões de

discos vendidos, está sendo imitado em toda parte e acaba de ter uma seleção dos seus três

Lps lançada no Brasil pela Philips, com o título ‘Smash Hits’. A gravadora diz que o disco vai

estourar, e Antônio Carlos Duncam, chefe do seu Departamento Internacional, explica por que:

‘Qualquer guitarrista do mundo tem os discos de Jimi. Eles são uma grande fonte de pesquisa’.

Nos três Lps até agora gravados, o conjunto, apesar de sua variedade sonora, é só um trio –

Hendrix (guitarra), Noel Redding (contrabaixo) e Mitch Mitchell (bateria). O grupo foi formado

em setembro de 1966, na Inglaterra, e saiu em excursão pelo mundo após um concerto de

grande sucesso no Olympia de Paris.
Outros planetas – Jimi descobriu o seu estilo de apresentação em Nashville, nos

Estados Unidos, quando resolveu esquentar um baile tocando guitarra nas costas. Os outros

músicos logo seguiram, depois do festival de Monterey, no Canadá (*), foi ainda mais longe:

arrancou as cordas da guitarra com os dentes, despedaçou e incendiou o instrumento. ‘Mas

tudo isso é besteira’, diz ele, ‘o que interessa mesmo é a música, e não o exibicionismo’. Um

guitarrista brasileiro cita uma de suas letras como prova de que ele está querendo conversar

com povos de outros planetas: ‘Venham/Não fujam/Eu quero falar com vocês’. O New York

Times, maior jornal americano, diz - ‘Não se sabe, como elogio ou crítica – se ele é ‘o Elvis

Presley negro’. A revista Time noticia, num estilo que parece lembrar as músicas de Hendrix,

que ‘o seu som é um torvelinho onde chocam corrente dos blues negros e o iê-iê- iê

psicodélico, agitadas dentro de um poder dominador que emana de seus nove amplificadores

e dezoito microfones’. A opinião de Hendrix: ‘Eu sou preto e nasci na América. Tudo o que

penso e sonho está nas minhas músicas. Eu sonho com trovões e tempestades, pois amo

trovões e tempestades. Minhas canções são isso’.

Um sucesso - Jimi Hendrix á apenas o apelido famoso de Jimi James, que já foi um

modesto guitarrista do conjunto americano Blues Flames, antes de ser acompanhante de

astros como Aretha Franklin, Otis Redding e Clara Thomas. Ele resolveu sair da obscuridade

indo para a Inglaterra, e realmente saiu: em menos de um ano, começou a reunir muita gente

para ouvi-lo e, na volta a Nova York, 18 mil pessoas se espremeram para ver sua apresentação

no Singer Bown. O aristocrático Carneggie Hall recusou um espetáculo seu, com medo dos fãs

depredarem o auditório – mas sua apresentação no muito oficial Philarmonic Theater foi

calma, bem comportada e delirantemente aplaudida. Seus dois primeiros discos, ‘Are You

Experienced’ e ‘Axis: Bold as Love’ subiram muito depressa nas paradas, o mesmo

acontecendo com ‘Eletric Ladyland’, que em cinco semanas chegou ao primeiro lugar nas

paradas americanas. Das quarenta músicas desses três discos, 35 foram compostas por

Hendrix e começaram imediatamente a serem gravadas por outros conjuntos. Um discípulo

brasileiro de Hendrix, segundo os críticos, é Gilberto Gil, principalmente na sua atual fase de

‘Madalena’, ‘Batalha das Latas’ e ’Questão de Ordem’, com seus gritos agressivos, seu ritmo,

seu grito forte e seus intensos movimentos de corpo que faz enquanto canta.”

(*) A matéria traz esse erro de informação. O Festival de Monterey aconteceu nos

Estados Unidos.