Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

sábado, 30 de abril de 2011

Sid Vicious - O Espetáculo Punk


Nos anos 80 a Editora Brasiliense publicava uma coleção de livros de bolso que traziam biografias de diferentes personalidades de vários segmentos. Não se tratava de biografias altamente pesquisadas, de grossos volumes, até porque o formato era de livros de bolso. Mas na verdade eram obras que traziam um ótimo resumo da vida e obra das personalidades resenhadas. Essa coleção se chamava Encanto Radical, e tinha a vantagem de ter um custo bem barato, e os textos normalmente eram feitos por um autor que conhecesse bem a vida do biografado, que fizesse um bom trabalho de pesquisa, e um texto resumido, porém destacando os principais aspectos pessoais de quem fosse por ele biografado.
Em 1985, por exemplo, foi lançada uma biografia de Sid Vicious, baixista da banda punk Sex Pistols. Para falar a verdade nunca fui muito chegado a punk rock. Até reconhecia a importância da atitude transgressora que as bandas do movimento impunham, e toda a reviravolta que provocaram no panorama do rock em meados da década de 70, mas musicalmente o punk nunca me seduziu. Lembro do grande alvoroço que o principal represente do movimento, os Sex Pistols - do qual Sid fazia parte, provocou, e todas as mudanças comportamentais e estéticas que vieram na onda punk, mas aquilo tudo passou meio batido por meus ouvidos.
Às vezes, naquelas famosas listas dos melhores discos de todos os tempos, o grande clássico dos Pistols, "Never Mind The Bolocks, Here's The Sex Pistols" é colocado entre vários daqueles discos que são verdadeiras obras-primas, e sempre que me deparo com isso, discordo. Mas se a lista for de "mais importantes" em vez de "melhores", eu até posso concordar, pois é um disco que redefiniu um panorama, eu reconheço.

Por tudo isso, eu na época adquiri a biografia de Sid Vicious, até porque sua vida desregrada e seu final trágico por si só já garantem uma boa leitura. O texto é ágil, simples, e conta bem a história de Sid e dos Sex Pistols, seu problema com as drogas e com a justiça, sendo o mais grave seu envolvimento num processo de assassinato de sua namorada Nancy Spugen, até sua morte em fevereiro de 79, no mesmo dia em que foi libertado após dois meses de prisão. Foi encontrado morto em seu apartamento, aos 21 anos. Causa mortis: overdose de heroína administradapor ele próprio. O filme Sid and Nancy conta muito bem toda a história.
No livro, o autor o define como "o arquétipo do punk, um dos principais articuladores da linguagem de sua geração. Uma combinação de filmes de terror classe B com um apocalipse dadaísta feito por adolescentes."

terça-feira, 26 de abril de 2011

Cabaret Voltaire - Dadaísmo Eletrônico


A banda Cabaret Voltaire trazia um tipo de som diferente do que se fazia nos anos 80, uma música com elementos eletrônicos, mas que fugia daquele bate-estaca característico desse gênero musical. Em 1º de maio de 1988, a coluna dominical Rio Fanzine, do jornal O Globo, trazia uma matéria sobre a banda, com o título Dadaísmo Eletrônico, assinado pelo editor da coluna Tom Leão. A foto que ilustra essa postagem, extraída da matéria, trazia a leganda: "O som do Cabaret Voltaire cria indecifráveis momentos de transe". Abaixo a transcrição da matéria:
"A luz estreboscópica pisca intermitentemente. A cabeça gira. A marcação eletrônica pesada ecoa dentro do estômago e bate forte como um soco. O som mântrico repete-se e repete-se... A cabeça gira. Esses são alguns dos efeitos provocados pela música do grupo inglês Cabaret Voltaire. São os sintomas dos blipverts musicais que jogam uma mensagem subliminar dentro dos cérebros, seja via fones de ouvido ou através das caixas de som.
Esse é o código "Sensoria" que dá acesso mas não decifra totalmente o Cabaret Voltaire. Formado em 1974, o grupo até hoje continua lançando trabalhos interessantes, resultados de uma pesquisa incessante de som e tecnologia. Sua música é extremamente difícil de se descrever, embora a dupla que o compõe, Stephen Mallinder e Richard H. Kirk, aprecie a denominação 'rumba eletrônica'. Who cares? São anos de experimentos e transgressões na escala musical. Nada faz sentido dentro de um trabalho muito disciplinado.
O nome reflete bem a proposta. Cabaret Voltaire. Quando Hugo Ball e seus amigos correram da opressão nazista, foi nessa casa instalada em Zurique, na Suíça - que existiu por um curto período - que loucuras foram cometidas para criticar as loucuras da guerra. E o que diziam ou faziam não precisava ter senso. Dadá. Nulo como o discurso de um bebê. Década e meia depois, o Cabaret Voltaire tem seu primeiro elepê editado no Brasil. 'Code', por estes dias nas lojas, via EMI-Odeon.
As faixas correm ininterruptas a partir de 'Don't argue', vozes e ruídos armazenados em samplers criando uma chuva contínua de frases vocais e musicais. Os samplers do Cab não são roubados de alheios, e sim criados por eles mesmos. O som contínuo vai emendando 'Sex money freaks' (sobre os falsos pastores eletrônicos, incluída na trilha do filme 'Salvation', inédito no Brasil), com 'Thank you America', até chegar em 'Here to go', único exemplar mais visivelmente orientado para para rádios. Mas o outro lado, que finda em 'Code', mantém a integridade musical do grupo.
Para primeira incursão no mercado fonográfico a nível mundial (o CV sempre gravou por selos independentes), a dupla Kirk-Mallinder até que está bem contida e não desapontará seus antigos admiradores."

domingo, 24 de abril de 2011

Contra


Contra:
Burocratas travestidos de poetas
Sem-graças travestidos de sérios
Anões travestidos de crianças
Complacentes travestidos de justos
Jingles travestidos de rock
Estórias travestidas de cinema
Chatos travestidos de coitados
Passivos travestidos de pacatos
Medo travestido de senso
Censores travestidos de sensores
Palavras travestidas de sentido
Obscuros travestidos de complexos
Bois travestidos de touros
Fraquezas travestidas de virtudes
Bagsaços travestidos de polpa
Bagos travestidos de cérebros
Celas travestidas de lares
Paisanas travestidos de drogados
Lobos travestidos de cordeiros
Pedantes travestidos de cultos
Egos travestidos de eros
Lerdos travestidos de zen
Burrice travestida de citações
Água travestida de chuva
Áquário travestido de tevê
Água travestida de vinho
Água solta apagando o afago do fogo
Água mole sem pedra dura
Água parada onde estagnam os impulsos
Água que turva as lentes e enferruja as lâminas
Água morna do bom gosto, do bom senso e das boas intenções
Insípida, amorfa, inodora, incolor
Água que o comrciante esperto coloca na garrafa para diluir o whisky
Água onde não há seca
Água em abundância
Água em excesso
Água em palavras

Eu apresento a página branca
A árvore sem sementes
O vidro sem nada na frente
Contra a água

Arnaldo Antunes

sábado, 23 de abril de 2011

Festivais Universitários - TV Tupi


A partir do final dos anos 60, a Tv Tupi do Rio promovia o Festival Universitário de Música Brasileira. Como o nome indica, os participantes teriam que ser universitários. Na época, uma boa parte de nossos compositores que iriam se revelar nos anos 70 ainda se dividia entre a indecisão de uma carreira artística e uma profissão mais sólida. Assim uma boa parte deles fazia faculdade e compunha suas músicas, pensando na possibilidade de seguir na música. Dessa forma o sucesso do evento foi um fato inquestionável, bastando dizer que os festivais universitários revelaram nomes como Gonzaguinha, Ivan Lins, Aldir Blanc, Belchior, Ruy Maurity e outros.
Num livro que conta a história da Tv Tupi, o Festival Universitário da Música Brasileira é lembrado no seguinte trecho:
"Foi uma grande sacada levar o som universitário para o efervescente universo dos festivais. O poder jovem estava na ordem do dia em contestação e participação social no mundo inteiro. Havia um nó na garganta, que através da música se fez presente quando os universitários soltaram seu canto. A censura rebolou com esses caras.
Na Tv Tupi dessa época, ventos progressistas ventilavam pela Urca, sob o comando do Grupo de Criação, encabeçado por Vianinha e Paulo Pontes, dois brilhantes representantes da geração de 1968. Na direção estava José Arrabal, que pilotava a casa com pulso forte,em tempos de prestígio e audiência. Quando Arrabal foi procurado pelas meninas do Grupo Interuniversitário Musical, o Grim, encaminhou-as ao Adonis Karan, que tinha acabado de realizar com sucesso o Concurso de Carnaval.
- Elas faziam parte do Movimento Artístico Universitário (MAU), uma rapaziada da Tijuca formada por Gonzaguinha, Ivan Lins, Aldir Blanc, César Costa Filho e Paulinho Tapajós, todos ilustres desconhecidos até então. Fechamos com a ideia de realizar o Festival Universitário da Canção Popular. O Grim fazia a ponte com os universitários e a Tupi entrava com a realização geral. Eu, Vianinha, Paulo Pontes e Lúcio Alves montamos a estrutura geral e fomos à luta. Enquanto a Record e a Globo investiam nos compositores da moda, a gente vinha com uma rapaziada completamente desconhecida. E aconteceu que nosso festival fez muito sucesso, e acabou revelando uma geração de compositores que está aí até hoje.

Foram momentos inesquecíveis para quem viveu essa época. O primeiro Festival Universitário foi realizado no Teatro República, apresentado por Blota Júnior e Maria da Glória. A música vencedora foi Helena, Helena, Helena, de Alberto Land, interpretada com brilho por Taiguara. O segundo lugar ficou com Irinéia Ribeiro e Neville Jordan Larica, autores de Vida Breve, interpretada por uma Claudete Soares possessa. Ivan Lins ficou com o quarto lugar: Até o Amanhecer, parceria com Valdemar Correia, defendida por Ciro Monteiro.
No segundo ano, Gonzaguinha venceu com O Trem, canção emblemática para tempos de repressão. No terceiro foi a vez de Ruy Maurity em parceria com Jorge Miquiioty, arrebatar com Dia Cinco. E na quarta edição do festival, Belchior levou a melhor, junto com Jorginho Telles e Jorge Néri, com Na Hora do Almoço."
Dentre as músicas que concorreram a esses festivais, uma que se tornou um clássico, mesno não tendo sído vencedora foi Amigo É Pra Essa Coisas, de Silvio Silva Jr. e Aldir Blanc. Sobre essa música, o livro fala:
"O Amigo é Pra Essas Coisas eu tinha convidado o Ciro Monteiro e o Paulinho da Viola, mas por uma questão de agenda não pudemos juntar os dois. O Lúcio escalou então o MPB4, que arrebatou."
Apesar de ser criança na época, eu acompanhava com atenção aqueles festivais, e já torcia por minhas preferidas. Era uma época, em que apesar da situação política do país, da censura e a outras coisas negativas, havia uma inegável qualidade, que raramente se vê hoje. Basta vermos que o termo "universitário" que hoje é usado para qualificar um tipo de música de péssima qualidade, naqueles anos definia um público exigente e engajado, e músicos que traziam algo de novo, e que valia a pena ouvir atentamente.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Airto Moreira - 1973


Os percussionistas brasileiros sempre fizeram sucesso no exterior. O jeito brasileiro de tirar som de instrumentos de percussão, aquele toque bem pessoal, sempre encantou os gringos, principalmente no jazz. Vários nomes se destacaram lá fora, como Paulinho da Costa, Naná Vasconcelos, Laudir de Oliveira, que nos anos 70 tocou com a banda Chicago, entre outros. Dentre esses nomes da percussão brasileira, um dos mais bem sucedidos é sem dúvida Airto Moreira, que já tocou com nomes como Miles Davis, Chick Corea, o guitarrista Carlos Santana, e muita gente mais.
A revista Pop, de fevereiro de 1973 trazia uma matéria com Airto, que já começava a se destacar nos EUA. Com o título de "Nos EUA, Airto Virou Star", a matéria dizia:

"Airto Moreira está em Nova York desde 1968, quando vendeu todos seus instrumentos para comprar a passagem e acompanhar sua mulher, a cantora Flora Purim, que ia trabalhar com Stan Getz.
- Eu já tinha feito de tudo que era possível no Brasil. Tinha o melhor conjunto, com os melhores músicos, tocava nos melhores programas, e era só. Eu queria ir para os EUA para encontrar grandes músicos, como Miles Davis, Herbie Hancock e Ron Carter. No Brasil, isso é um sonho para os músicos; você imagina que Miles é alguma coisa de diferente, que ele não é humano. Eu sempre pensei que, se eu o encontrasse, poderia voltar para casa e viver feliz para o resto da vida, pensando nesse encontro. Bem, a primeira vez que eu encontrei Miles tinha acabado de chegar aos EUA, em Los Angeles, e tinha ido vê-lo tocar no Manne Hole. Quando acabou o show fui até os bastidores e, como não sabia ainda falar inglês disse: 'Miles, me brazilian, me musician... I love you', E ele respondeu: 'O quê? Fora daqui!' Dois anos depois, quando eu já tinha me mudado para Nova York, Miles estava precisando de um percussionista para uma gravação, quando alguém falou sobre um brasileiro 'genial' chamado Airto Moreira. O empresário de Miles me chamou, e nós tocamos um fim de semana no Village Gate. E esse foi nosso segundo encontro.

Daí em diante Airto não parou mais. Tocou com Miles no festival da Ilha de Wight, em 1970, tocou com Cannombal Adderley e outros menos conhecidos. Gravou seu primeiro LP na CTI Records, e acaba de gravar o segundo pela Buddah Records, esse último com Flora, sua mulher, e Hermeto, seu grande amigo multi-instrumentista. Mereceu página inteira no jornal inglês Melody Maker , onde foi considerado the percussionist, o melhor atualmente, em Nova York.
- Miles me ajudou demais, me dando confiança e me dizendo sempre para tocar o que eu sentia com mais convicção. Eu era muito inseguro.
Aurto atribui o sucesso ao seu jeito instintivo de tocar.
- Eles descobriram comigo que percussão não é uma coisa rígida. Em jazz, por exemplo, você tem que tocar de uma certa maneira, dizer coisas engraçadas e tomar drogas. Nós não fazemos isso. Quando tocamos, só queremos comunicar alegria a paz."

domingo, 17 de abril de 2011

Billie Holiday - Lady Sings The Blues


Nos anos 80 havia um tabloide informativo publicado pela editora Brasiliense intitulado Primeiro Toque, que a editora enviava gratuitamente a quem solicitasse. O informativo trazia anúncios dos lançamentos da editora e trazia um cupom para vendas pelo correio. Naqueles tempos pré-internet, o Primeito Toque funcionava como um site, onde os livros da editora eram resenhados, e o leitor poderia fazer contato para opinar e dar sugestões através de cartas. Fiz muitos pedidos de livros por esse canal.
Em sua edição nº 14 o Primeiro Toque trazia em destaque um ótimo lançamento da editora, a biografia da cantora de jazz Billie Holiday, intitulada Lady Sings The Blues. O interessante é que na tradução para o português se optou em preservar o título original em inglês. Quem fez a resenha do livro foi o jornalista Antonio Bivar:
"Bilie Holiday era da pá virada. Quando ela nasceu, o pai tinha 15 anos e a mão 13. O pai ainda usava calça curta! O velho teve que esperar três anos para juntar dinheiro para comprar a calça comprida necessária à cerimônia de casamento.
Um livro que começa contando isso promete emoções de conto de fada. Lady Sings The Blues é um conto de fada às avessas. Tem muito mais vida que as obras completas dos Irmãos Grimm. Na tradição dos melhores textos sobre o jeito de viver americano desde Mark Twain e a Cabana do Pai Tomás. A autobiografia da maior cantora de jazz de todos os tempos é um barato, saborosíssima. Finalmente traduzida para os leitores brasileiros, sem dúvida vai ser um dos livros mais lidos do ano.
Billie arrebata o leitor, nessa viagem pelos 41 anos dos 44 que viveu. O livro é também fudamental para se entender o jazz como arte original norte-americana. Além do humor e da revolta com que narra uma vivência trágica. Billie, desde menina, não gostava do nome com que fora batizada: Eleonora. Moleca de rua, circulava com os meninos, daí o Billie. Bill, diminutivo de William, Guilherme, Bill, Billie.

Sapeca, negra, pobre - antes da puberdade já trabalhava como faxineira num bordel ( o único lugar nas redondezas onde havia uma vitrola - ela trabalhava para poder ali mesmo ouvir os discos de seus ídolos, Bessie Smith e Louis Armstrong - , prostituta, encarou uma barra nada leve até iniciar a carreira de cantora. Prisões, hospitais, reformatórios, álcool, sexo, música, drogas pesadas (heroína, morfina). A barra pesada foi o seu caminho, sempre. Um dia lá em cima, ganhando milhares de dólares, outro dia lá em baixo, voltando para a casa da mãe de mãos vazias e arrasada.
Ela morreu doente, sofrendo do coração e do fígado, dependente de drogas, em 1959. Na maior solidão. Deixou cerca de 300 músicas gravadas. De sucessos de Cole Porter até composições dela mesma, como as maravilhosas Strange Fruit, Good Bless the Child e Don't Explain, jamais superadas."

sábado, 16 de abril de 2011

Encontro com a Arte e o Pensamento de Jorge Mautner


Na noite de ontem o projeto Consciência Ampla Cultural, do qual já falei na postagem anterior, nos brindou com uma palestra brilhante com uma das cabeças mais antenadas e conscientes da cultura, do pensamento, da filosofia e da arte brasileira - Jorge Mautner. À princípio pensava se tratar, a exemplo de Moraes Moreira, de um show musical seguido de debate, mas se tratava somente de uma palestra. Normalmente quando saímos de casa preparados para uma coisa e acontece outra, nos decepcionamos, pois carregamos uma expectativa que não se concretiza. Mas no caso de ontem, essa regra foi quebrada. É claro que um show seguido de debate seria fantástico. Sua música instiga, traz reflexões, é criativa e traz uma marca pessoal por suas letras inspiradas e as melodias de seu eterno parceiro Nelson Jacobina, que é também um violonista de mão cheia. Isso sem falar no violino de Mautner, umas de suas marcas pessoais.
Porém, o que se viu ontem em sua palestra intitulada Encontro com a Arte e o Pensamento de Jorge Mautner foi um banho de cultura, de alguém que conhece profundamente a alma, a gênese e a grandeza de nosso país. Era impossível não se encantar com a profunda cultura e o dom da palavra do grande pensador que é Mautner, e seu amplo conhecimento nas áreas do pensamento e da filosofia para explicar com palavras simples e exatas, e sem o menor sinal de estrelismo ou vaidade, o que representa o Brasil para o mundo. É esse Brasil mostrado por Mautner que nos faz refletir sobre o que realmente representamos para o mundo, através de nossa criatividade, nossa alegria e espontaneidade e cultura, que são tão invejados por outros países.

A palestra de Mautner e sua simplicidade e simpatia em atender a todos que o procuraram após o evento, constatam que Jorge Mautner é uma das grandes e mais expressivas figuras de nossa cultura. Salve Jorge!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Moraes Moreira em Campos


De 13 a 17 desse mês, a Ampla, que é a empresa concessionária do serviço de energia elétrica de região de Campos, realiza um evento voltado à cultura e às artes. Trata-se de uma excelente iniciativa, e é a segunda vez que esse tipo de evento acontece na cidade. Denominado Consciência Ampla Cultural, o projeto engloba debates, shows de música, espetáculos de circo, teatro e dança, e trouxe em sua abertura um show e uma palestra com Moraes Moreira.
Acompanhado somente de seu violão elétrico, Moraes, que traz uma bagagem musical de mais de 40 anos de carreira, desde os tempos da formação dos Novos Baianos, até uma carreira solo bem sucedida, iniciada em 1975, Moraes fez um ótimo show, onde cantou vários de seus grandes sucessos. Não faltaram interpretações de velhos sambas de Ari Barroso, como Canta Brasil e Isto, Aqui o Que É?, para em seguida, num clima bem intimista de voz e violão, com um coral puxado pelo público, aprsentar composições próprias como Meninas do Brasil, Lá Vem O Brasil Descendo a Ladeira, Sintonia, entre outras. O repertório dos Novos Baianos não poderia faltar, e assim A Menina Dança, Mistério do Planeta, Preta Pretinha e Brasil Pandeiro (de Assis Valente) completaram uma sequência dedicada à sua antiga banda, que fez história dentro da MPB. O lado carnavalesco, trazendo músicas que marcaram os carnavais dos anos 80, e que até hoje ainda contagiam qualquer folia veio ao final da apresentação com Pombo Correio, Festa do Interior e Bloco do Prazer.

Após o show, Moraes participou de um debate mediado pelo poeta Victor Loureiro, onde ele falou de sua recente carreira de escritor - já lançou dois livros: A História dos Novos Baianos e Outros Versos e o recente Sonhos Elétricos, sobre a história do Trio Elétrico de Dodô e Osmar. Também falou sobre sua careira de músico e interagiu com a plateia. Dentre tantas coisas falou sobre sua infância no interior da Bahia, em Ituaçu, sua terra natal, e o descontentamento com a atual fase do carnavsal baiano, onde o axé tomou conta das ruas, de uma forma um tanto imposta por uma mídia feroz e um poder financeiro, que acabou afastando os verdadeiros criadores de uma cultura carnavalesca, inclusive introduziram os trios elétricos nas ruas de Salvador, como ele, que hoje anima os carnavais de Recife, que é bem mais espontâneo e verdadeiro que o carnaval baiano.
O evento cultural promovido pela Ampla e com apoio da prefeitura da cidade começou bem, com uma aula de brasilidade.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Baden Powell e os Afro-Sambas


Baden Powell é um dos músicos mais completos, e mais internacionalmente conhecidos que o Brasil já teve. Dono de uma técnica fantástica ao violão, Baden não tardaria a conquistar o mundo, pricipalmente a Europa, onde fez uma brilhante carreira.
Costuma-se dizer quando um músico cria um novo estilo de tocar, que ele "fez escola", ao influenciar outros músicos, que seguem seus ensinamentos. Embora seja referência para vários violonistas, pode-se dizer que não existe propriamente uma "escola Baden Powell", já que nenhum músico ousou seguir sua linha de tocar. Por isso Baden Powell é único.
Além de músico Baden se destacou também como compositor, de harmonias e melodias refinadas. Um dos pontos altos de sua carreira como compositor é o histórico disco que compôs em parceria com Vinícius de Moraes, chamado Os Afo-Sambas. Gravado no verão de 65 para 66, de um jeito informal, como se a dupla não tivesse conhecimento da dimensão que a obra alcançaria através dos anos (e acho que não sabiam mesmo), o disco era considerado por Vinícius como não-comercial e semi-amador. O próprio Vinícius, um não-cantor assumido, fez os vocais masculinos (Baden, com seu fiapo de voz não ousaria cantar nesse disco). Dulce Nunes, uma boa cantora da época, e o Quarteto em Cy fizeram as vozes femininas. Um coro meio improvisado foi formado entre amigos para fazer o apoio vocal. As orquestrações ficaram a cargo do Maestro Guerra-Peixe, que soube dar ênfase ao violão de Baden e a percussão de candomblé em meios às orquestrações.

O disco produziu clássicos da MPB, como Canto de Ossanha, Berimbau e Consolação. Outras composições, mesmo não se tornando sucessos, e até pouco conhecidas hoje em dia, podem ser consideradas verdadeiras obras-primas, como Canto de Xangô, Bacoché, Canto de Iemanjá, Tempo de Amor e Labareda.
Tive a oportunidade de assitir a um show de Baden pouco antes de sua morte, com o músico já com a idade um tanto avançada, e já sem o mesmo vigor, mas era ele com sua batida de violão, sua técnica apurada e única. Era um pouco da história de nossa música a nos brindar com seus acordes.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Revista ShowBizz - Grandes Guitarristas


A revista ShowBizz (ou simplesmente Bizz, como era chamada no início) era uma publicação especializada em rock, que circulou entre 1985 e 2000. De vez em quando lançava edições especiais, como a que vou comentar agora: Grandes Guitarristas de Todos Os Tempos. A revista destaca vários guitarristas, de diferentes estilos e épocas, dando assim um caráter mais abrangente e democrático, já que ao longo de todas as fases do rock, vários guitarristas fizeram história. Alguns nomes óbvios não podiam faltar, como Jimi Hendrix, Eric Clapton, Pete Towshend, Jimi Page, Carlos Santana, Jeff Beck e outros. Alguns que não são tão lembrados nesse tipo de lista também são merecidamente destacados, como John Lee Hooker, Robert Fripp, Frank Zappa e Andy Summers.

Qualquer tipo de listagem sempre peca pelas ausências, mesmo quando se trata de uma obra volumosa, o que não é o caso da revista. Aliás, já até virou clichê ao se falar nesse tipo de matéria se destacar as ausências. Logicamente, eu senti falta de alguns nomes marcantes, que eu incluiria na minha lista dos melhores guitarristas de todos os tempos, mas ao final da revista, os editores citam outros vários guitarristas que não entraram em destaque, como uma forma de reconhecerem que a lista é quase interminável. Ao destacarem as principais ausências, eles dizem:
"Comecemos pelos blueseiros, Freddie King, Robert Johnson, Albert Collins e Muddy Waters ajudaram a abrir a trilha para que muito branquelo começasse a dar voz à dor por meio da guitarra. Entre esses discípulos, além dos citados entre os vinte maiores, há os britânicos Rory Gallagher, Peter Green e Gary Moore. Do outro lado do Atlântico, os blueseiros brancos mais aplicados atendem pelos nomes de Johnny Winter, Mike Bloomfield, Duane Allman e Ry Cooder."

Conforme citei acima, alguns nomes nem sempre lembrados nesse tipo de relação, mereceram dessa vez fazer parte da lista dos grandes guitarristas de todos os tempos. Um desses nomes, por exemplo é Frank Zappa. Sempre considerei Zappa um virtuose da guitarra, com um fraseado único, mas por ter ao longo de sua carreira ter feito um trabalho onde nem sempre se destacava como guitarrista, normalmente não era lembrado por ser um dos grandes representantes da guitarra no rock.
Acompanhava a revista um cd que trazia vários dos artistas citados ou não, como Yardbirds (destacando Eric Clapton, Jeff Beck e Jimi Page), Carlos Santana, Elmore James, Robert Cray, John Lee Hooker, Jimi Hendrix, John Mayall e Albert King.
Trata-se de uma boa revista, com bons textos e um bom trabalho gráfico. Hoje em dia pouca coisa do gênero tem sido publicada, por isso essa revista merece ser guardada por qualquer interessado pela história do rock.

domingo, 10 de abril de 2011

Langston Hughes


Nos anos 90, através de um jornal cultural chamado Nicolau, que era editado pela Secretaria Estadual de Cultura do Paraná, conheci alguns poemas de um poeta americano de quem nunca havia ouvido falar, chamado Langston Hughes. O poeta era inédito, e talvez ainda seja, no Brasil. Quem fez a apresentação e tradução de seus textos foi o cineasta Sylvio Back, que também é poeta e escritor. O texto sobre Hughes é o seguinte:
"Conhecido no Brasil (talvez) apenas pela emblemática primeira estrofe de seu poema 'Democracy', Langsston Hughes (1902 - 1967) é um dos maiores poetas norte-americanos do século, porém ainda inédito entre nós.
Publicou seis livros de poesia, além de contos, ensaios, peças e, inclusive, letras de canções populares, cujo lirismo tem origem nos blues e spirituls. Em 1944 teve editada no Brasil uma autobiografia com o título de 'O Imenso Mar'.
Cantor da negritude americana, do Harlem vem a inspiração mais densa, e na esteira dela, a miséria, a solidão e a morte. Na contramão, Hughes sublima as vicissitudes de sua raça com o orgulho, a fraternidade, a esperança e o humor. A dicção de Lanston Hughes, que não disfarça certo parentesco com a de Walt Whitman, sobrevive intacta pelo seu viço e alta invenção.
Esses poemas foram extraídos de uma seleção feita pelo autor pouco antes de sua morte."

Democracia
Democracia não virá
hoje, este ano
jamais
pelo compromisso e o medo.
Tenho tanto direito
quanto qualquer sujeito
de ficar
sobre meus dois pés
e ser dono da terra
Estou cheio de ouvir, deixe assim,
Amanhã é outro dia.
Não preciso da minha liberdade, morto.
não consigo viver com o pão prometido.

Liberdade
Liberdade
É uma semente forte
plantada
na maior necessidade.
Vivo aqui, também
Quero liberdsde
como você

Esperança
Levantou-se do leito de morte e pediu peixe.
A mulher dele consultou o livro dos sonhos
e tranfigurou-se

Sonho
Ontem sonhei
o sonho mais louco
por tudo eu via
o que parecia inverossímil:
Você não estava ali comigo!
Acordado me virei
e toquei você
adormecida
o rosto virado
Aí pensei:
como os sonhos podem mentir
Mas você não estava mesmo ali

terça-feira, 5 de abril de 2011

Hemp Family Comix


A banda Planet Hemp, liderada por Marcelo D2, surgiu nos anos 90, fazendo um som que misturava rap com pitadas de rock e hip-hop, e além de revelar um artista que faria um trabalho respeitado por muita gente da MPB - Marcelo D2, levantava a polêmica de falar abertamente em maconha, um tema que sempre foi tratado com muita cautela seja em música ou outras manifestações de expressão artística, mesmo após o fim oficial da censura no país.
A banda chegou a ser detida uma vez após um show, quando as autoridades alegaram que a música que eles faziam representava uma apologia às drogas. A prisão dos integrantes da banda acabou ganhando uma enorme repercussão na imprensa, e causou grandes protestos por parte da classe artística e demais setores da sociedade, considerando arbitrária a ação policial. A verdade é que o pessoal do Planet Hemp chegou a passar uns dias encarcerados, até conseguir ganhar relaxamento da prisão através de seu advogado.
Lembro que no dia seguinte à sua soltura, eles compareceram ao Programa Livre, que era apresentado no SBT por Serginho Groisman, onde gravaram dois ótimos programas, que foram ao ar em dois dias seguidos, contando todo o episódio de sua prisão. Tenho gravado em vhs esses dois programas.
Esse episódio, como era de se esperar, colocou a banda na mídia de uma forma mais contundente, e de certa forma trouxe à tona a discussão sobre a discriminalização da maconha, liberdade de expressão, volta da censura, etc. Após alguns anos, a banda se dissolveria, e Marcelo D2 seguiria sua carreira solo. Cheguei a assistir a um show deles em outubro de 2000, pouco antes de sua dissolução.
A verdade é que independente de toda a polêmica que sempre cercou a banda, às vezes em detrimento da própria música que produzia, o Planet Hemp fez história e deixou saudade.

Em entrevista de Marcelo D2 à edição brasileira da revista Billboard, em agosto do ano passado, lhe foi perguntado sobre uma possível turnê de reunião do Planet Hemp. Marcelo respondeu:
"Acho difícil, quase impossível. O Planet é uma parada tão sagrada que fiz na minha carreira. Acho tão feio ver bandas velhas enganado os fãs. A imagem legal do Planet Hemp é dando mosh, brigando com a polícia. Se voltasse agora a gente não ia nem andar junto. Antes era só amizade. A gente morreria um pelo outro."
No auge do seu sucesso, por volta de 1997, foi lançada uma revista em quadrinhos chamada Hemp Family, onde os músicos da banda eram os personagens. O interessante é que o primeiro número traz a indicação de Número Único, dando a entender que não haveria um segundo, mas em sua última página anunciava o número seguinte, que realmente acabou saindo. O assunto das histórias como não poderia deixar de ser, envolvia sempre muitas aventuras de perseguições policiais e tudo mais ligado ao uso da maconha. Além dos memnbros da banda havia outros personagens, como o Garoto Maconha. Vários artistas de quadrinhos participavam da revista.

Junto à revista vinha encartado um fanzine (um meio de expressão muito utilizado na época) chamado Camarão Pholha Prensada, que trazia matérias, contos, entrevistas, etc. No primeiro número há uma entrevista com a banda Zumbi do Mato, e no segundo com o próprio Marcelo D2. Só saíram esses dois números.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Matéria com Hiyldon - 1976


Em 1974 uma música virou sucesso, e não saia das programações das rádios e dos ouvidos dos brasileiros. Um desconhecido compositor baiano chamado Hyldon de uma hora pra outra passaria a ser conhecido como o autor e intérprete de "Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda". Em seguida, viria outros sucessos, como "As Dores do Mundo" e "Na Sombra de Uma Árvore". Seu jeito de cantar, sua batida de violão, suas letras que falavam de amores, natureza e coisas simples, logo conquistaram o gosto popular. Passou a ser considerado um dos grandes nomes do soul brasileiro, numa linha desenvolvida por seu amigo e parceiro Tim Maia, com quem viveu muitas histórias.
Em janeiro de 1976, a revista Pop trazia uma matéria com o jovem compositor de 24 anos, que tinha planos ousados, como lançar uma ópera-rock, um estilo muito em voga na época, projeto esse que acabou nunca se realizando. Eis a matéria:
"O sucesso para este baiano demorou seis anos. Mas, quando pintou, foi de forma definitiva. Com as lembranças da infância passada em Bonfim - 'pra lá do fim do mundo' - Hyldon gravou um LP no qual não levava muita fé. Aos poucos porém, À Sombra de Uma Árvore e Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda foram subindo nas paradas de sucesso. Com melodias e recados simples, falando de verde, pássaros e campos. Hyldon passou de 'promessa' ao reconhecimento. Mas faz questão de advertir: 'Não gostaria de ser rotulado como compositor agrário-ecológico, porque também uso outros temas em minhas músicas. E se eu deixar, já viu, vão ficar me cobrando eternamente o canto dos passarinhos'.

No ano passado, ele foi aos Estados Unidos para sacar de perto a música negra, na qual é amarrado, e voltou com planos para um novo LP e um trabalho bem mais ousado: 'Minha ideia é fazer uma ópera-rock. É a viagem de um cara eternamente insatisfeito, e vai se chamar Viagem ao Vale Encantado. O cara chega do trabalho e vai dormir, sonha que começa a percorrer uma estrada longa e muito bonita. Encontra uma fada que se prontifica a atender seus desejos materiais. Ele pede tudo, mas não se satisfaz. A fada fica triste, diz que que deu tudo que era possível, 'mas o que você busca não será encontrado aqui, siga por aquela estrada onde se lê 'Insatisfeitos'. Aí ele encontra um beija-flor e começa o segundo movimento: Confusões com as Abelhas por Causa de um Beija-flor Boa Praça. Ávido, o cara busca o poder e toma de assalto a colmeia. Mas logo se manda e chega num lugar onde todos os animais vivem numa paz total, sem brigas ou disputas. Tanta paz torna a vida monótona, e ele se aborrece. Então questiona o leão. O leão aponta uma estrela do céu e diz que o homem lá encontrará a satisfação total. 'Mas como chegar às estrelas?', o cara pergunta. ´É fácil' diz o leão. e dá uma paulada na cabeça do cara, que fica vendo estrelas de todas as cores e tamanhos. No momento em que ele começa a querer pegá-las, o despertador toca e aí então o sonho acaba. De volta à realidade, só resta a tristeza'.
Tudo isso será montado num esquema de ópera, as transações contidas em música e talvez até com locução. Mas por enquanto, é apenas uma ideia. Pois agora Hyldon, de 24 anos, está conhecendo o sucesso e a consequente 'segurança financeira': 'Na verdade, cara, ainda não dá nem pra pra formar minha própria banda. A grana é pouca, só agora que começou a pintar'. Mas, se sua próxima música - o samba Três Éguas, Um Jumento e Uma Vaca - emplacar, 'aí sim, tudo vai ficar mais fácil, não é?' "

domingo, 3 de abril de 2011

Celso Blues Boy Ao Vivo - 1985


Em março de 1985, Celso Blues Boy deu um show no Parque Lage, no Rio de Janeiro, levando um grande público. Era o auge do período marcado pelo renascimento do rock brasileiro nos anos 80, e Celso Blues Boy era um legítimo representante daquela geração. O espaço para shows do Parque Lage não existe mais, está desativado. A revista Roll, uma publicação especializada em rock da época, fez uma matéria sobre esse show, intitulada Guitarras À Solta no Parque.
“No mês passado, Celso Blues Boy levou a rapaziada do Parque Lage à loucura. Não se via espaço dentro da casa, tamanha era a lotação do lugar. Com um cenário natural propiciando o clima da noite ele conseguiu o que era esperado: movimentar a galera o tempo todo. Seus solos foram acompanhados com entusiasmo pela tradicional fila do gargarejo. Até quem estava em cima do terraço não se conteve, dançando como podia. O auge da festa se deu com o já consagrado 'Aumenta que isso aí é Rock' n Roll'
Era como um trem sacudindo a cabeça /parado é que não dava pra ficar... Foi exatamente assim. Esse era o clina reinante no penúltimo fim de semana de março. Celso Blues Boy e sua inseparável Fender Stratocaster fizeram a festa no Parque Lage.
Desde as dez horas a rapaziada já esperava para o início do show, que estava marcado só para uma da manhã. Liberada a entrada da casa, o pessoal pôde alojar-se nas lages ou onde achasse melhor (e como estava cheio). Por volta de uma da madrugada, Mimi e a Orquestra de Guitarras abriram a noite de rock e blues. As cinco guitarras deram um show preparando o espírito da moçada. E, às vinte para as duas da manhã, Celso Blues Boy e sua banda entravam em ação. O local estava completamente lotado. As pessoas se empoleiravam no terraço e espremiam-se em frente ao palco. O público aplaudia com entusiasmo a performance de Celso e sua guitarra um tanto chorosa, um tanto agressiva.

Celso, sempre que podia, repartia o palco com os amigos, democratizando o ambiente. Seu amigo Carlitos deu um toque especial com sua gaita em 'Fumando na Escuridão'. Participaram da partilha também dois outros guitarristas; um deles foi tirado de dentro da plateia por Blues Boy que foi logo entregando sua Fender para o colega continuar levando 'Aumenta que isso aí é Rock'n Roll'.
Um dos momentos mais interessantes foi quando o guitarrista Pedrinho (ex-Bolha) juntou-se ao grupo. As três guitarras deram um show à parte, numa tirada 'à la Scorpions' (em termos visuais, é claro).
É isso aí. E para quem não sabe, ainda, lá vai um recado: a partir de abril Pedrinho vai integrar-se à banda de Celso. Marcelo, o atual guitarrista base, vai trilhar outro caminho.
Agora é esperar e conferir.”

sábado, 2 de abril de 2011

Poeira D'Água - Teatro do Sesi


Na noite de ontem, o SESI Campos apresentou um show de banda local Poeira D'Água. Foi uma ótima opção para aqueles que apreciam uma boa música, e que não se prendem a modismos, e o que se tornou padronizado. Digo isso porque o Poeira D'Água realiza um trabalho bem pessoal, e apresenta uma música diferenciada do que se costuma ouvir hoje em dia.
Formada por Faustho Terra Tupy (violão e voz), Lutte Oliveira (violão, viola, guitarra), Sérvulo Sotto (baixo) e João Felipe Velloso (bateria), o grupo mostrou um trabalho que abrange uma série de influências e ritmos, desde o folclore local, o rock, música mineira, soul music, etc. Com composições próprias, e ainda trazendo releituras (Jorge Ben - muito bem representado em "Ponta de Lança Aficano" , Tim Maia, Jair Rodrigues e Toni Tornado), a banda apresentou um show em que ficou clara a intenção de apresentar uma música multifacetária, uma fusão de ritmos que resulta em um trabalho bastante original.
Apesar de já ter assistido a banda em algumas oportunidades, foi a primeira vez que assisti a um show completo da banda, com seu repertório próprio. As apresentações anteriores que eu havia presenciado foram um show de releituras da Tropicália, em um projeto junto ao Sesc, uma apresentação em um festival de música e um show coletivo, portanto só ontem pude assistir a um show completo com o repertório da banda, e sua proposta musical.
Posso afirmar que o resultado do trabalho sério e profissional da banda liderada por Faustho Terra Tupy, um dos ouvidos musicais mais apurados que eu conheço, trouxe como resultado uma música rica em informações, de quem absorveu e assimilou o que de melhor suas vivências no universo da música puderam lhe oferecer. O resultado é uma música abrangente, moderna, mas sem se prender a modismos.

O show iniciou com Maquinista do Tempo, uma bela composição de Faustho, que lhe valeu o terceiro lugar em um festival de música promovido pela prefeitura de Campos, e se seguiram outras composições da banda, a maioria inéditas pra mim, e posso dizer que me soaram muito bem. Para quem tem experiência na audição de boa música sabe muito bem quando uma música cai bem a seus ouvidos, e fica aquela vontade de reouvir. Essa foi a sensação que senti ao conhecer muitas daquelas composições novas para mim. É lógico que o bom resultado da proposta da banda vem de uma soma de talentos. Além de Faustho, o Poeira D'água traz ótimos e experientes músicos, como Lutte Oliveira, que só vim conhecer recentemente, e que demonstra ser um ótimo instrumentista, e dá um toque todo especial às músicas do Poeira, no violão, viola, bandolim, guitarra e até berimbau. Sua guitarra, instrumento que predominou durante o show é precisa, exata, sem firulas e exageros. Sérvulo e João Felipe, que durante muito tempo formavam a "cozinha" da banda Avyadores do Brazyl, do grande e saudoso batalhador Luiz Ribeiro, trazem toda a experiência de anos de palco.
Na música "Os Meninos Dançam", que Caetano compôs em homenagem aos Novos Baianos, ele diz "A história do samba, a luta de classes, os melhores passes de Pelé, tudo é filtrado ali". Assim eu vejo o ato de compor, de trabalhar com música: absorver uma série de informações, e filtrar tudo em melodia, letra, harmonia e emoção. E assim eu senti a música do Poeira D'Água. Que venha o primeiro cd e outros shows, para eu poder reouvir aquelas músicas que me soaram tão bem.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Revistas Legais - Os Anos 60


Já comentei aqui nesse espaço sobre uma antiga revista, especializada em cifras para violão, chamada Violão & Guitarra, que também lançava edições especiais, abordando determinado tema, mas sempre trazendo ao final, cifras correspondentes a músicas sobre o assunto retratado. O número especial que destaco agora é sobre os anos 60 na MPB, publicado em 1981. O texto de apresentação diz:
"A década de 60 é um divisor de águas na música popular brasileira. Até ela, a música que se fazia no Brasil sofria, à exceção do samba, de estrangeirite aguda (para aqueles que advogam que a música brasileira sofreu um processo de colonização a partir do rock, é bom lembrar que as composições feitas no Brasil até o final dos anos 50 eram basicamente assentadas nos boleros, guarânias, fox-trotes e demais gêneros que empolgaram a geração Hollywood). E só sabia cantar quem, tinha potência de voz e de pulmão.

A Bossa Nova foi o primeiro movimento a entrar em cena no final da década de 50 para mostrar que cantar podia ser exatamente o contrário. Paralelamente a essa transformação proposta pela Bossa Nova, a música brasileira começou a receber os ventos das revoluções externas aos pais, quando um novo comportamento, ditado pela juventude, passou a imperar. A partir daí, sexo e política misturam-se na quebra de antigos valores, O mundo passa por velozes e radicais mudanças. O Brasil entra num processo particular, ditado pelas influências externas e pelas próprias mudanças políticas e econômicas. Nada disso escapa à arte. A música popular é a que mais diretamente capta essas mudanças. E as reflete. Como resultado, um vigoroso processo de renovação musical instala-se no país, numa sucessão de significantes movimentos.
Esse processo, tão importante para a música e para a cultura brasileira é cronologicamente analisado nesta edição."

Como o texto acima deixa claro, a revista faz um balanço dos principais acontecimentos e movimentos que a década de 60 abrangeu, como por exemplo, a afirmação da Bossa Nova, como um movimento que ganhava o mundo e passava a se internacionalizar, os primeiros festivais, e os novos cantores e compositores que surgiam, a influência da tv na divulgação de uma nova música, não só através dos festivais, como também por programas como O Fino da Bossa, Jovem Guarda, etc.
Como diz a apresentação, o texto é escrito de forma cronológica, ano a ano, e não fala somente em música, mas também da situação política que o país atravessava, e a influência direta que o momento do país exercia sobre a música que era feita, inclusive o problema da censura.

Apesar de retratar aquela década, a maioria das fotos mostram os artistas na década de 70. As fotos que ilustram a capa, por exemplo, são todas dos anos 70. As fotos que aparecem nessa postagem, todas tiradas da revista, também mostram os artistas, à excessão de Roberto Carlos, em fotos da década seguinte.
O texto é bem escrito, e dá uma visão geral do que foi a dácada de 60 não só na música como nas artes em geral, o que torna a revista uma boa fonte de pesquisa para quem quiser ter uma visão panorâmica de nossa cultura naquela década tão rica, apesar de conturbada pela ditadura.