Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

sábado, 31 de março de 2012

Cinema Olímpia - O Filme Não Realizado de Galvão, dos Novos Baianos


No início dos anos 80, Luiz Galvão, letrista dos Novos Baianos, tinha o projeto de fazer cinema. Seria uma nova empreitada de uma das mentes mais criativas da música e das letras brasileiras dos anos 70. Cinema Olímpia, título de uma música da fase tropicalista de Caetano Veloso seria também o nome de seu filme. Porém, o projeto não foi a frente, pois como se sabe, fazer cinema exige uma série de apoios e verbas, o que acaba inviabilizando muitos bons projetos. Na ocasião o jornalista Joel Macedo fez uma matéria/entrevista com Galvão, sobre seu projeto cinematográfico:
"Poeta, iogue, letrista dos Novos Baianos desde o nascimento do grupo, do qual é um dos fundadores, parceiro de Caetano Veloso, Gilbero Gil e Moraes Moreira - Luiz Antônio Galvão, baiano de Juazeiro ('como João Gilberto, ele enfatiza), tem se dedicado ao cinema nos últimos dois anos, e , depois de realizar uma série de curtas-metragens em 16 milímetros que têm sido exibidos nos shows dos Novos Baianos, parte agora para seu projeto mais ousado: o longametragem 'Cinema Olímpia, em fase de levantamento de recursos, com Caetano, Gil, Macalé e Baby Consuelo, confirmados no elenco.
Galvão, o que é 'Cinema Olímpia'?
- 'Cinema Olímpia' é onde deságua toda minha vivência anterior com um cinema artesanal, tipicamente brasileiro, calcado em uma linguagem nossa, dos trópicos, e por isso mesmo o único cinema brasileiro que considero exportável. Trata-se de um musical, como não podia deixar de ser, com alguns de nossos melhores músicos interpretando personagens e cantando num clima de muito sol, bom humor e alta filosofia.
Sem revelar sua idade - 'Um alquimista tem a idade do mundo' - Galvão é, entretanto, o mais velho dos Novos Baianos, e tem demonstrado também ser o mais inquieto, sempre a procura de novas linguagens e vias de expressão poética. Em 1971, com o fotógrafo baiano Ronaldo Duarte, iniciou as filmagens do média-metragem 'Os Novos Baianos do Final do Juízo', dando a partida para sua busca de um cinema artesanal brasileiro:
- Esse filme foi feito numa época em que a juventude assumiu literalmente o poder no Brasil. Naquela época, por volta de 1970, 71, os hippies eram muito populares. As famílias em Salvador saíam de casa para ir ao Porto da Barra ver os hippies. Foi um período de poder da juventude, muito som, muitos livros, jornaizinhos da rapaziada, e o nosso filme procurou mostrar toda essa força da juventude vista de dentro, porque os Novos Baianos sempre foram uma espécie de vanguarda daquele movimento. Nosso único erro - meu, de Ronaldo - foi não termos concordado em realizar o filme em 35 milímetros, como desejava o produtor Braga Neto. Se tivéssemos cedido à visão do produtor não tenho dúvidas de que 'O Final do Juízo' teria sido um estouro comercial. Mas esse vacilo fica por conta do espírito romântico da época, pois queríamos inovar, filmar mesmo em 16 milímetros, pensávamos mais na linguagem do que na parte comercial do empreendimento.

- E este filme, onde anda?
- A última notícia que tive é de que a única cópia existente foi queimada pela polícia em um entrevero entre esta e o fotógrafo Duarte, lá em Salvador.
- E sobre 'Cinema Olímpia', o filme em si, você pode revelar alguma coisa?
- O cinema Olímpia na história é um ponto de encontro, onde entra gente, sai gente, as pessoas se abraçam, trocam ideias, discutem tudo, entre pulgas mil na geral. Na porta do cinema fazem ponto quatro filósofos: o Alienado, que vai ser feito pelo Caetano, o Sem Lógica, que o Gil vai fazer, e mais o Esquerdinha e o Direitinho, ainda sem atores definidos. Esses filósofos discutem seus pontos de vista sobre vários temas atuais, como a energia nuclear, a energia solar, a questão do índio, o desmatamento. Cada um vendo a seu modo, dando seus toques, seus retoques. Às vezes todos concordam, às vezes divergem. Nisso aparecem os frequentadores do cinema, como Baby Consuelo, Moraes Moreira, Macalé, que chegam, levam um papo, levam um som. Uma coisa bem alegre, cheia de beleza e virtude, pois como diz o Direitinho, em determinado trecho do roteiro, 'o belo é virtude, saúde, o gosto é importante'.
- E, independentemente deste filme, você acha viável esta sua proposta de cinema artesanal dentro do atual contexto?
- Minha proposta não tem nada de excepcional. Ele parte da realidade subdesenvolvida em que vivemos. O artista brasileiro tem ideias mas lhe são bloqueados os recursos. Então, ele tem que se juntar com os amigos, se organizar em cooperativas, se quiser materializar a sua arte. Glauber, com sua câmera na mão e uma ideia na cabeça tornou-se o maior cineasta do Brasil, talvez o único, e eu não estou inventando nada, porque se você for ver os filmes de Glauber, examinar as coisas que Glauber diz, você vai ver que o que ele propõe é exatamente isso, um cinema artesanal, um cinema de artesão, no sentido que a palavra tinha na Idade Média. Afinal, tudo que eu quero, como diz a música ('Cinema Olímpia', de Caetano Veloso), é 'um lugar para mim, pra você...'."

sexta-feira, 30 de março de 2012

Os 67 Anos de Eric Clapton


Hoje uma lenda viva do rock e do blues completa 67 anos: Eric Clapton. A guitarra de Clapton fez parte da trilha sonora de minha adolescência. Não me lembro exatamente do primeiro contato que tive com a música de Clapton, mas sei que por volta de meus quinze anos eu descobri que havia algo de diferente naquele toque. A primeira gravação de Clapton que eu me recordo de ouvir no rádio foi a sua versão para I Shot The Sheriff, de Bob Marley, que fez um grande sucesso e tocava direto nas rádios. Essa gravação fazia parte de seu álbum 461 Ocean Boulevard, um disco que representou um retorno de Clapton às gravações, após um longo período em que se envolveu fundo com a heroína. As drogas, por sinal, representaram um obstáculo que Eric teve que enfrentar em vários momentos de sua vida. Essa luta que Eric teve que travar estão muito bem relatados em sua autobiografia.
Sua primeira guitarra, ele ganhou aos 14 anos, de seus avós que o criaram, já que sua mãe era quase uma criança quando lhe deu a luz. Sua principal inspiração eram os velhos blues que não cansava de ouvir e tocar em seus primeiros acordes. Músico autodidata, Clapton chegou a frequentar uma escola de música, mas logo a abandonou para tocar em sua primeira banda, The Roosters. Na época Eric tinha apenas dezoito anos, mas já era um músico respeitado no meio musical londrino. Após deixar a banda e integrar outra formação no grupo Casey Jones & The Enginers, onde também teve uma curta passagem, Clapton viria a integrar os lendários Yardbyrds. Logo ele se tornaria a principal figura da banda, por sua técnica admirável. Na época ganhou o apelido de Slowhand (mão lenta), devido à sua maneira de solar. Nos Yardbyrds gravou clássicos como I Wish You Would e Good Morning Little School Girl, além de um antológico álbum ao vivo ao lado do gaitista Sonny Boy Williamson. Um ano e meio após tocando com o grupo que havia lhe dado projeção, Clapton resolve deixar a banda, por discordar do rumo, segundo ele, comercial que os Yardbyrds estavam tomando, preferindo se dedicar ao blues mais de raiz. Logo é recrutado pelo grande mestre do blues inglês, John Mayall, e passa a integrar os Bluebreackers, sua banda de apoio.

Foi durante sua participação no John Mayall's Blubreackers que aconteceu o famoso episódio em que uma pichação no metrô de Londres dizia "Eric is God".
Sobre sua devoção ao blues, Eric um dia falou: "Eu me sinto um protetor do blues. É uma arte menosprezada e eu me indigno quando as pessoas não a levam a sério. Voltei às raízes do blues porque liberam mais energia e vitalidade do que qualquer outra coisa que se possa imaginar."
Mesmo tendo representado uma grande escola para Clapton, a dura disciplina exigida por Mayall fez com que ele resolvesse seguir outro rumo, e assim, se juntou ao baixista Jack Bruce e o baterista Ginger Baker para formar o lendário power trio Cream, que entre 66 e 68 fez história, e até hoje é considerado um dos grandes grupos da história do rock. Com o fim do Cream, Eric formou o Blind Faith, outra banda de vida curta, porém marcante, como todos seus projetos musicais. Era formado por, além dele, seu companheiro de Cream, Ginger Baker, Stevie Winwood e Rick Grech. O Blind Faith, também considerado um supergrupo (como eram chamadas as bandas formadas por músicos de renome) só chegou a gravar um disco, pra variar, outro clássico do rock. Em seguida, participaria de mais uma banda de vida efêmera, Delaney & Bonnie & Friends.
Em 70, lançaria enfim seu primeiro álbum solo. Segundo li, esse álbum, apesar de ter a participação de grandes músicos, como Stephen Stills e Leon Russel, não foi muito bem recebido por seu público. Clapton então parte para outro trabalho em grupo, dessa vez com a banda Derek and The Dominoes, com quem Clapton gravou o álbum duplo Layla And Other Assorted Love Songs, que incluía uma de suas músicas mais marcantes: Layla.

E a partir daí Eric Clapton voltaria definitivamente para sua vitoriosa carreira solo, lançando álbuns brilhantes, enquanto empreendia uma difícil luta contra o álcool e as drogas, que por pouco não arruinaram sua carreira e sua vida. Segundo declarou uma vez "Journeyman (de 1989) foi o primeiro disco que eu fiz completamente sóbrio." No final de 1991 acontece uma tragédia em sua vida pessoal: a morte por acidente de seu filho Connor, que o leva a compor outro de seus grandes sucessos: Tears In Heaven. E assim, superando dramas pessoais, lutando contra a dependência do álcool e das drogas, através de sua música, Eric Clapton pode ser chamado de um sobrevivente, que fez da música sua salvação, e ainda continua, aos 67 anos, hoje comemorados, brindando seus fãs com sua música e sua arte.

quinta-feira, 29 de março de 2012

O Country-Blues Rock n' Roll do Canned Heat


Uma banda de blues-rock, com raízes no country, que me impressionou de cara é a Canned Heat. Seu som era vigoroso, um instrumental que contagiava qualquer amante do blues eletrificado, e um vocal poderoso. Havia algo de psicodélico naquele som, e suas apresentações ao vivo eram experiências inesquecíveis, como nos festivais de Monterey em 67 e Woodstock, dois anos depois.
A banda era formada por Bob "The Beat" Hite (voz), Alan Wilson (voz, gaita e guitarra), Henry Vestine (guitarra), Larry Taylor (baixo) e Adolfo Fito de la Parra (bateria). A banda foi formada em 1965, por Alan Wilson e Bob Hite, que eram apaixonados por blues, e tinham o desejo de fazer um som com influência dos grandes bluesmen dos quais eram fãs. Segundo li, o nome da banda foi extraído do título de um antigo disco de blues. O amor e interesse pelo blues, segundo dizem, levaram Alan Wilson a ter uma invejável coleção de discos do gênero mesmo antes de completar vinte anos. Daí dá pra sentir de onde vem aquele blues eletrificado que o Canned Heat fazia, e que já dava mostras em seu primeiro disco, que na época não vendeu muito, mas que já chamava a atenção pelo vigor e criatividade. Após se apresentarem no lendário festival de Monterey, o Canned Heat ganharia uma maior projeção.

O álbum "Boogie With Canned Heat", de 68, definiria o estilo característico da banda, um country-blues trazendo influências do som psicodélico que se fazia na ocasião. É um álbum clássico, que mostrava que o Canned havia chegado para ficar no rico cenário do rock nos anos 60. Nesse disco pode-se destacar, por exemplo, "On The Road Again", com a introdução que imitava o som de uma cítara (um instrumento que algumas bandas haviam descoberto, como os Stones, tocada por Brian Jones, em "Paint In Black", ou os Beatles, através de George Harrison), "Pony Blues", os 19 minutos de "Parthenogenesis", "Bulldoze Blues" e "Goin' Up The Country".
Sua apresentação em Woodstock foi de arrepiar, e confirmou toda a energia que a banda trazia em seu som. O timbre de voz peculiar de Bob Hite, e o som vigoroso que a banda fazia em seus discos e apresentações ao vivo, levaram o Canned Heat a ser cultuado pelos amantes do blues e rock'n roll. Sempre fiéis ao estilo que os consagrou, a banda gravou vários discos de qualidade indiscutível, muitos deles que só vim conhecer recentemente através de gravações que baixei em mp3. O som é realmente contagiante, e dá pra imaginar como eles deviam ser tocando ao vivo.

Infelizmente o suicídio de Alan Wilson, um dos mentores da banda, provocado por uma overdose por barbitúricos em virtude de uma depressão, representou um violento baque para a banda, que mesmo assim continuou a tocar, após uma reestruturação, com constantes mudanças em sua formação. Isso representou uma quebra na unidade da banda, e uma queda na qualidade das gravações posteriores, embora procurassem sempre preservar a sonoridade típica da banda. A morte de Bob Hite, em 1981, após um ataque cardíaco, marcou o fim do que a banda um dia foi e representou. A banda continuou a tocar, mas sem seus dois principais elementos, que foram os fundadores, o Canned Heat perdeu sua unidade.
Mas o que importa de verdade é lembrar da fase áurea dessa banda fantástica, uma das melhores da história quando se fala em blues-rock. Seus antigos discos estão aí para perpetuar o que o Canned Heat ainda representa para o rock e blues.

quarta-feira, 28 de março de 2012

A Morte de Millôr Fernandes


Dias depois de perdermos Chico Anysio, chega a notícia da morte de outro gênio brasileiro: Millôr Fernandes. Assim como Chico, Millor se notabilizou por fazer humor sem necessariamente fazer rir. Na verdade, qualificar Millôr somente como humorista, do mesmo modo Chico Anysio, seria reduzi-lo a apenas uma faceta de seu múltiplo talento. Millôr era jornalista, cartunista, escritor, cronista, teatrólogo e tradutor, dentre outras coisas. Meus primeiros contatos com Millôr foram mesmo antes de eu aprender a ler. Lembro que em minha casa comprava a revista semanal O Cruzeiro, onde ele tinha uma coluna chamada Pif-Paf, em que escrevia com o pseudônimo de Vão Gogo. Eu gostava de ficar olhando seus desenhos, embora não entendesse nada do que queriam dizer. Mais tarde passei a acompanhar seu trabalho de cronista e cartunista em órgãos de imprensa, como O Pasquim (do qual foi um dos fundadores), revista Veja, Jornal do Brasil, O Dia, etc.
Millôr foi sem dúvida, um grande frasista, podendo ser comparado sem exagero aos melhores do mundo. Há anos atrás comprei o livro Millôr Definitivo, com mais de 500 páginas, que traz centenas dessas frases geniais. Foi uma delícia e um prazer enorme devorar aquelas páginas repletas de inteligência, sabedoria, ironia, indignação, mas sempre com uma dose de humor, que sempre nos leva a pensar e refletir.
A melhor forma de homenageá-lo é selecionar algumas dessas frases. Valeu, Millôr!

"A vantagem de dever muito sobre dever pouco é que, quando devemos pouco, temos que ir ao banco. Quando devemos muito, o banco vem a nós."
"Em qualquer roda é fácil reconhecer um jornalista: é o que está falando mal do jornalismo."
"Tenho realmente a mais sincera admiração pelas pessoas que sabem perder. Sobretudo quando estou do outro lado."
"Dois trapezistas, em dois circos diferentes, caíram do trapézio e foram parar no hospital. A verdade é que ninguém mais se aguenta."
"Só há uma maneira de evitar a ingratidão: jamais praticar nenhum bem ou fazer qualquer favor."
"Advogado tão canalha, que todos os seus clientes eram absolvidos. Os juízes partiam do princípio de que, para contratá-lo, só uma pessoa extremamente inocente."
"Ninguém é profeta em sua terra. Ninguém é turista em seu país. Ninguém é culpado em sua corrupção."
"Quando dois homens de negócio concordam, uma coisa é certa: cada um acha que passou o outro pra trás."

"Tem poucas ideias, mas em compensação ruins, e aliás nem são dele. E quando discursa de improviso me dá a impressão de que procura essas ideias desesperadamente, como um cachorro que escondeu o osso e esqueceu onde."
"Que pena! Quando eu nasci já não havia mais nenhum pecado original."
"Em boca fechada não entra mosca nem parfait de foie gras en creole."
"Por mais hábil que seja, o político acaba sempre cometendo alguma sinceridade."
"Sou popular por natureza, por mais que me esforce por ser hermético e profundo. Se chego e digo que achei um ninho de mafagafos com sete mafagafinhos todos percebem logo que quem melhor os desmafagafizar melhor desmafagafizador será."
"Pornografia é tudo aquilo que excita os moralistas."
"A coisa que mais separa um homem de uma mulher é viverem juntos."
"Deus protege os fracos e desamparados. Mas um bom sindicato ajuda."

terça-feira, 27 de março de 2012

Peter Frampton - Um Sucesso Arrasador e Passageiro


Alguns astros da música conseguem alcançar um sucesso absoluto, e logo depois vão saindo aos poucos da mídia e não conseguem perpetuar a fama e o sucesso. Um exemplo típico é Peter Frampton, que dominou todas as paradas entre 1975 e 1976 com seu álbum duplo ao vivo, Frampton Comes Alive. Fenômeno de vendas, principalmente por se tratar de um álbum duplo, o disco elevou Frampton à categoria de nome mais famoso do show-bizz, capa de todas as grandes revistas do gênero e concertos sempre lotados por onde se apresentasse. Porém, parece que ele havia gasto toda sua munição naquele álbum, e seus discos seguintes não tiveram nem de longe o destaque que Frampton Comes Alive alcançou.
Para se ter uma noção do enorme sucesso que Peter Frampton fazia em 1976, transcrevo uma matéria escrita pela jornalista Sonia Nolasco, correspondente do jornal O Globo em Nova York:
"Se um grupo de especialistas tivesse tido a ideia de 'criar' um novo ídolo de rock, uma estrela perfeita de cinco pontas, eles teriam inventado alguma coisa parecida com Peter Frampton. Talvez eles tivessem duplicado esta beleza ao mesmo tempo máscula e infantil, um jeito de menino tímido, e até o talento musical do moço, mas é muito pouco provável que alguém pudesse recriar esta mágica que fez Frampton emergir como o intéprete (e autor) mais bem sucedido da história do rock. A foto colorida, casual, sem sofisticações, sem fantasias e reproduções de ondas magnéticas, sua foto pura e simples, um Peter Framptom sentado, camisa aberta, punhos rendados, está na capa de seu último LP 'I'm You' (Estou em Você), best-seller em todo o país, reproduzida em centenas de revistas, posters e fotos para fans. Com 26 anos apenas, Frampton é considerado um veterano, soberano absoluto, é o que prova a falta de ingressos para seus concertos nos dias 22 e 23 de agosto, no Madison Square Garden, de Nova York, uma espécie de Maracanãzinho, que vai estar lotado.

Que ele nasceu em Bromley, Inglaterra e começou a cantar e gravar aos 14 anos, os fanáticos de rock já sabem. Com 21 era guitarrista disputado com pedidos de George Harrison, Harry Nilson e John Entwistle. Com eles se desenvolveu mais, se preparando para a carreira de solista, que iria começar dentro de um ano, com o LP 'Wind of Change'. Embora já tivesse gravado 4 LPs com outros conjuntos, este representou os bons ventos que mudaram sua vida. No início do ano passado, saiu com um LP duplo, "Frampton Comes Alive', que vendeu 13 milhões de exemplars até agora. Isto representa um grande recorde nos EUA, é como se tivesse vendido 20 mil por dia. Foi nomeado 'A Estrela do Rock do Ano de 76' por gente que decide as coisas o mundo do rock: os jornais Rolling Stone e Creem and Circus. Também venceu o prêmio máximo dos Músicos de Rock. Só em 1976, Frampton garantiu 67 milhões em vendagens de discos, ingressos para concertos, posters, etc. E se não fica com todo o lucro sozinho, informa seu agente, tem uma larga percentagem. Seu último disco 'I'm You', lançado há menos de um mês, já vendeu um milhão de exemplares, enquanto os outros ('Show Me The Way, 'Baby I Love Your Way, 'Do You Feel Like We Do', todas 45 rpm) continuam a fazer o mesmo sucesso desde que foram lançados, e seu LP 'Comes Alive' está ultrapassando as vendagens do clássico 'White Christmas'.
Frampton diz que gosta desse estágio de carreira mas está ciente de que existe um desafio no ar, devido ao sucesso desse seu novo LP: 'Não tentei competir com isto quando nós fomos gravar no estúdio. Esta é uma meta arriscada, coisa que só acontece uma vez na vida. Sempre fui ambicioso, desde os 8 anos de idade, mas não vou ficar decepcionado se não vendermos mais de 6 milhões'. É divertido vê-lo falar assim, como quem não quer nada: para quem andou sob as luzes da ribalta mais da metade da vida, ficar célebre não é um acontecimento tão inesperado. Frampton conserva essa mesma cara de adolescente apaixonado, nunca se dá ares de estrela, embora se considere uma, e tenha consciência do impacto que está causando. Seu agente Dee Anthony, é a pessoa que o conhece melhor e jura que 'este menino nunca mudou', diz ele. 'É uma criatura normal de 26 anos que gosta de viver e tem os pés firmes na terra'. Mas não diz que um bom empurrão neste pulo que Frampton deu no ano passado para cá é devido à estratégia de Anthony, 51 anos, e um bocado de experiência no mundo do rock. 'Minha técnica é baseada em grandes intérpretes, ou animadores, que vieram para ficar, como Frank Sinatra e Bob Hope. A chave do sucesso é não se expor demais, sair de cena antes que o públco se canse.'
Ninguém vai cansar de Frampton, que já tem uma tournée mundial programada para o próximo ano. Os ingressos para os concertos do Madison Square Garden estão sendo vendidos na base da loteria, porque, diz Anthony, 'são os grandes planos que constroem as grandes lendas.'"

segunda-feira, 26 de março de 2012

Zé Ramalho em Atafona


O verão já foi embora, mas ontem ainda aconteceu um show da programação de verão da prefeitura de São João da Barra, no balneário da praia de Atafona. O show adiado de Zé Ramalho, que era para ter acontecido no mês passado, mas que em virtude da greve da PM não aconteceu na data marcada, levou um grande público à praia de Atafona numa tarde/noite cinzenta e nublada. Felizmente a chuva não caiu, mas se caísse não estragaria o grande show que Zé Ramalho proporcionou a seus fãs.
O adiamente acabou gerando um desencontro com relação ao horário do show. Como os shows da programação de verão, inclusive o show adiado, aconteciam às cinco da tarde, o público se dirigiu ao Balneário no horário habitual. Porém o horário estabelecido para ontem foi seis e meia. Felizmente eu me informei a tempo sobre essa mudança, e cheguei pouco mais de meia hora antes do show começar, por volta das sete da noite. Esse suposto atraso, causado por uma falta de divulgação com relação ao novo horário do show, irritava o público, que já vaiava, pedindo o início da apresentação.
Porém, ao dar entrada no palco, logo a irritação da plateia deu lugar ao delírio. O show começou com uma bela interpretação de Zé Ramalho para Lamento Sertanejo, de Gilberto Gil e Dominguinhos, do disco de Gil Refazenda, de 75. Em seguida Ramalho cantou sua versão para The Times They Are A- Changin', de Bob Dylan, e O Amanhã é Distante, também do mesmo disco em homenagem a Dylan. Em seguida o seu público foi brindado com uma série de sucessos marcantes de sua carreira, como Avohai, Beira Mar, Banquete dos Signos, Entre a Serpente e a Estrela, Admirável Gado Novo, Eternas Ondas, Garoto de Aluguel, Terceira Lâmina, Chão de Giz, Frevo Mulher, que encerrou a apresentação, todas com grande participação do público, que cantava junto e vibrava a cada introdução de seus sucessos. Raul Seixas também foi lembrado, e igualmente arrancou muitos aplausos, já que há uma certa afinidade entre seu trabalho e o de Raul. O Trem das Sete e Medo da Chuva foram cantadas por todos.

A Banda Z, que o acompanha, dava conta do recado, e Zé Ramalho pôde exercer todo seu carisma no palco. Para quem é fã de longa data como eu, e aprecia sua obra desde seus primeiros discos, sempre fica aquela sensação de ter faltava algumas músicas marcantes. Gostaria de ter ouvido, por exemplo, Jardim das Acácias, Orquídea Negra, composição de Jorge Mautner, que de tão adequada a seu estilo, muitos acham que é composição sua, ou ainda sua versão para outra música de Dylan, Knockin' On Heavens Door, e Pelo Vinho e Pelo Pão, também gravada por Fagner.
Mas o que importa é que Zé Ramalho nos brindou com um grande show, provando que sua obra já atravessa décadas, e seu público se renova. É bom ver um artista que produz um trabalho de qualidade, que já chegou a viver um período de ostracismo nos anos 80, se reerguer e voltar a lotar todos os shows que apresenta. Posso dizer que saí novamente feliz de mais um show desse grande artista que é Zé Ramalho.

domingo, 25 de março de 2012

A Curta Trajetória de Ian Curtis e do Joy Division


O Joy Division se tornou com o tempo uma banda cult, apesar de vida efêmera: só lançou um EP e dois LPs. As letras de Ian Curtis, que era o vocalista da banda, logo chamaram a atenção após o lançamento de seu primeiro álbum, Unknown Pleasures, de 79. A crítica recebeu muito bem esse disco, assim como Closer, de 80, seu trabalho posterior. Ian uma vez declarou: "Nós fazemos música para nós mesmos, mas esperamos que, ainda assim, outras pessoas gostem dela". Porém antes de iniciarem uma turnê de lançamento de Closer, Ian se suicidou em sua casa. Após o choque, a banda resolve continuar, mas com outro nome: New Order, tendo uma trajetória de sucesso.
Em 17/05/87, o jornalista Tom Leão, editor do Rio Fanzine, do jornal O Globo, relembrava a trajetória de Ian Curtis, numa matéria intitulada "Num lugar solitário":
"Era um domingo. Tranquilo como são os domingos. Principalmente em Macclesfield, na fria e cinzenta Manchester, norte da Inglaterra. Um enigmático jovem havia se isolado dos amigos no sábado à noite. Ficou em casa e assitiu na TV ao filme 'Stroszek', do cineasta alemão Werner Herzog, seu diretor preferido. Não chegou a contemplar as luzes naquele domingo que se anunciava. Em suas primeiras horas deixou seu corpo pender na ponta de uma corda, indo embora dessa vida por vontade própria.

Foi assim, sete anos atrás, que Ian Curtis, o vocalista e letrista do grupo inglês Joy Division, suicidou-se. Foi embora, em silêncio. Quais os motivos? Amor demais? Depressão? Quem sabe? As pistas estão em suas letras. Desde as primeiras, ele já esboçava uma história que caminhava para um final triste. Sua derradeira, 'In a Lonely Place', é um verdadeiro bilhete de despedida. Sugere a morte de alguém querido e promete em breve o encontro entre aquele que foi e o que aqui ficou. A corda, veículo usado por Curtis para empreender sua viagem, estava lá, citada na frase 'cord stretches tigh then it breacks/ a corda parte de tanto apertar'.
A trajetória de Curtis e do Joy Division (nome dado ao local onde, nos campos de concentração os nazistas abusavam das prostitutas) começou também em maio, dez anos atrás, com o primeiro show no Eletric Circus, em Manchester, abrindo para os grupos Buzzcocks e Penetration. Até o momento da morte de Curtis, o grupo era cultuado por uma minoria, e seu disco de estreia, 'Unknown Pleasures', um diamante bruto maravilhosamente lapidado pelo produtor Martin Hannet - conhecido por poucos.
Hoje, após uma avaliação completa do trabalho, alguns críticos comparam a importância do Joy Division para os grupos dos anos oitenta ao que representou o Led Zeppelin para o hard rock e o heavy metal. De fato, tudo o que se fez depois, e que passou a ser conhecido aqui como dark e suas variantes, nasceu com o Joy. De acordes diferentes de baixo e guitarra à bateria seca e à colocação de voz - no caso do grupo, totalmente natural - está tudo lá.
A última aparição de Curtis foi no dia 2 de maio, em show na Universidade de Bimingham, registrado e lançado no álbum duplo 'Still' (81). Poucos dias antes do epílogo de sua vida, Curtis foi filmado no pardieiro em que o grupo ensaiava, o clip (que não era bem um clip), de 'Love Will Tear Us Apart'. O single, lançado após sua morte, transformou-se ironicamente num campeão de vendagens, alcançou o primeiro posto na parada, e hoje é a música que marca aquele momento. Ele tinha apenas 23 anos. E a morte, mais uma vez, transformou-se num show.
A sequência natural do Joy Division, o New Order (nome também inspirado nos nazis e que ao mesmo tempo indica um novo caminho), demorou a se livrar da carga que pesou sobre a banda. Gravaram todas as letras deixadas por Curtis em elepês, compactos e mixes, fizeram um disco de estreia ainda dentro do clima, e agora vivem um período de sucesso pop internacional, onde as melodias são bastante dançantes, mas as letras ainda são densas: o colorido substuiu o cinzento. Contudo, o peso de Ian Curtis e Joy Division jamais será esquecido."

sábado, 24 de março de 2012

Fagner Lança Novo Disco em 76



Em 1976 Fagner lançava seu terceiro disco, que levava seu nome, Raimundo Fagner. Considero esse um dos melhores discos de sua careira. Fagner ainda vinha se afirmando no cenário da música, e ainda não havia alcançado um grande sucesso, mas já era um cantor e compositor de prestígio, capaz de lotar teatros por onde se apresentava. Na ocasião, dois de seus conterrâneos cearenses, Belchior e Ednardo, estavam fazendo grande sucesso, e serviam de referência quando se falava de artistas nordestinos bem sucedidos. Numa matéria da jornalista Ana Maria Bahiana publicada no jornal O Globo, em 08/11/76, Fagner fala sobre o novo lançamento, sua carreira, e a busca pelo sucesso:
"Eu diria que este disco fecha um triângulo. Ele tem coisas do primeiro e do segundo, mais do primeiro que do segundo. Ele é bem pé-na-terra, daí a ligação com aquele primeiro Lp, o da Philips. Era um disco de quem estava chegando aqui, cheio de coisas pra contar, cheio de coisas do Ceará, onde tudo é muito chão, não tem besteira não, é tudo muito real. O segundo disco tinha um pique que essse também tem, mas era um disco muito assim... voando, não sabe. Foi uma zorra danada. Foi uma época muito zorrada da minha vida, onde tudo estava voando, fora do chão, e o disco refletiu isso naturalmente, essa confusão. Daí esse disco... é como um marco. É como se eu visse tudo o que eu fiz até aqui, erros e acertos, e dissesse, tá bom, teve tudo isso mas agora não tem mais, agora é tudo de novo. Ele ensina muito, esse disco. Quem estava me secando, querendo saber alguma coisa nos outros discos, vai ver isso claramente agora. É um disco muito claro e muito simples".

"Hoje estou fora e dentro ao mesmo tempo. Hoje eu sei como é, como se faz. Antes eu fazia discos pra não vender. Eu tenho toda a consciência disso, embora na época não soubesse disso. Eu tinha oportunidades incríveis de fazer sucesso, de acontecer coisas, e estragava tudo, jogava tudo pro alto. Agora eu fiz um disco para vender. Não foi feito propositalmente pensando nisso, com esse objetivo, não tem um fim puramente de jogada, de grana. Não: é um disco com todas as coisas exatamente como eu queria dizer. Mas é um disco que me possibilita uma escolha: ele pode vender ou não. Depende de mim e do que eu quiser fazer. Olha, vou dizer como é que é: estou em cima de um muro. É isso, eu me sinto exatamente assim. Em cima de um muro."
"Agora, eu também desconfio muito do sucesso que vem de repente, de uma hora pra outra. Esse eu não quero. O sucesso tem que vir como uma coisa natural, gradativa, tem que vir como decorrência do teu trabalho, da tua atuação constante, e não por causa de lances, jogadas, acidentes... O sucesso só é legal quando chega na hora certa, quando você está pronto. Senão você se dá muito mal. Como eu acho que o Belchior e o Ednardo vão se dar, se eles não abriram o olho e tomarem cuidado."
"Eu comparo minha carreira com a do Milton Nascimento. Sempre ali, sempre firme, mas sempre pelos lados, assim paralelo ao sucesso, mas sempre crescendo. Eu também estou indo paralelo às coisas, sem ir com muita sede, com sofreguidão. Na hora certa as coisas pintam."

sexta-feira, 23 de março de 2012

James Brown - O Rei do Soul




Quando adolescente, comecei a moldar meu gosto músical, através principalmente do rádio e da tevê. Naquela fase eu começava a descobrir novos sons, bandas e artistas que me faziam observar atentamente o que tinham a mostar, e aquilo tudo me fazia adentrar em um mundo novo, em que a música ia me conduzindo. Gostava de música brsileira, mas me encantei também pelo rock. Mas antes do rock entrar em minha vida como uma avalanche, um artista negro me cativou, e foi meu primeiro ídolo na música internacional: James Brown.
Eu via muitos clipes de James Brown em um programa apresentado por um DJ e dono de equipe de som, que promovia bailes pelos subúrbios do Rio de Janeiro, chamado Monsieur Limá. Eu via aqueles clipes e ficava extasiado com o vigor, o ritmo, a voz e o balanço daquele negão. Lembro também de ter assistido a uma apresentação pela tevê de um show que ele deu no Brasil na época, início dos anos 70, e enlouqueci com o que ele fazia no palco. Sua música trazia um balanço irresistível, sua dança era hipnótica, sua presença no palco era algo de arrepiar. De vez em quando ele jogava o pedestal do microfone em direção ao chão, e ele voltava a posição normal imediatamente, sempre aparecia um assistente de palco que enxugava seu rosto em uma toalha, e depois colocava um manto sobre ele, enquanto a banda, impecável, conduzia o ritmo sem parar. Sex Machine era minha música preferida naqueles tempos. Assim foi James Brown, o sacerdote do soul, até sua morte, no Natal de 2006. Sempre irei me lembrar daquelas imagens que me fizeram admirar a soul music antes mesmo do rock.
Em 1986, em plena forma, Brown lançava mais um disco, Gravity, e na ocasião o crítico Tárik de Souza fez uma resenha no Jornal do Brasil:

"Como toda majestade ele desfila repleto de títulos: 'O chefão do funk','Mr. Dinamite', 'Soul Brother nº 1', 'O homem que mais trabalha no show business', 'A máquina do sexo' e o autoproclamado 'Ministro do novo super heavy funk'. Imortal com fardas e manto sem dispensar a cerimônia da coroação durante os shows, o peso-pesado James Brown volta literalmente ao centro do ringue. Físico do boxeur que foi na juventude, Brown reaparece nas paradas após dez anos de ostracismo catapultado pelo filme Rocky IV do esmurrador Silvester Stallone. Foi do ator a exigência da cena com JB cantando enquanto o personagem Apollo Creed prepara-se para enfrentar o gigante soviético Drago. A canção Living In America, uma das poucas coisas que se salvam na pífia trilha sonora do filme, impulsiona o novo elepê de Brown, Grafity, selo Scott Bros., distribuído pela Epic/CBS. Mas não é a melhor faixa do Lp que tem pedradas do tipo Turn Me Loose, I'm Dr. Feelgod, de ritmo afiadíssimo. Ou Let's Get Personal onde funciona a mil uma usina de gritos e sopros que influenciou meio mundo da música, de Prince e Miles Davis a Tim Maia e Mick Jagger.
Americano da Georgia, nascido na parte miserável da sulista Augusta num ano impreciso do início da década de 30 (uns biógrafos dizem que está com 56 anos, outros com 53) James Brown levou ao paroxismo a ligação do canto da igreja com a eletrificação do rhythm & blues. Nascia o funk de frases curtas, metais fumegantes e uma ambiguidade safada entre os místicos apelos religiosos do gospel e os uivos da Sex Machine, de It's a Man Man's World, I'll Go Crazy You've Got To The Power, Please, Please, Please e outros meteoros. A marca Soul Brown fez a cabeça de várias gerações de ídolos negros, a começar pelo mítico Ottis Redding, do cortante Wilson Picket e do iluminista Sly Stone. Não é pouco. Além das canções que escrevia, onde as poucas palavras martelavam com insistência a consciência negra emergente, Brown era um militante independente mas fervoroso da causa de Martin Luther King. Saiu de sua garganta o grito da raça, Say It Loud - I'm black and I'm proud (Diga em voz alta - Sou negro e me orgulho disso).

Para os adeptos dessas facetas do megastar (o movimento Black Rio o entronizava), o Lp Gravity desembarca com algumas decepções. O aprumado astro de rosto roliço e escandalosa peruca mais os inseparáveis lenços no pescoço, se não mudou de lado, ao menos aposentou a borduna. Fez a campanha de Ronald Reagan a quem considera 'um bom homem' e não emite qualquer proclamação rebelde em Gravity. Ao contrário, abdicou da função de compositor: as oito canções do disco levam a assinatura da dupla Dan Hartman (também o produtor, guitarrista e backing vocal) e Charlie Midnight. Cercado de convivas ilustres como o tecladista Stevie Winwood e o guitarrista Stevie Ray Vaughan, e os metais Uptown Horns, unica evocação dos Famous Flames que o consagraram, Brown limita-se a cantar. Mas isso é suficiente para recomentdar o disco. Ele fica na fronteira entre a acidez de uma arte sem concessões, a do Soul Brown do final dos 50 e início dos 60 e a 'tecnopoperacia' atual. Do funk marcial (Goliath) ao didático (Repeat The Beat); do bolero moderno (How Do You Stop) ao velho rhythm & blues com direito a evoluções de órgão Hammond (Return To Me), a diferença entre o aroma e a essência soa paupável. É o que separa o original da diluição. Nascida do super-heroi único do funk a arte musculosa de James Brown (ainda) tem a força."

quinta-feira, 22 de março de 2012

Os 70 Anos de Jorge Ben


Hoje o mundo da música está em festa. Os 70 anos de Jorge Ben estão sendo comemorados. Jorge Ben é sem dúvida um de nossos músicos mais criativos, dono de um estilo sem igual, e uma das personalidades mais marcantes de nossa música. Desde que gravou, em 1963, seu primeiro compacto - Mas, Que Nada - até hoje um de seus maiores sucessos, e logo depois, seu primeiro disco, Samba Esquema Novo, a música brasileira nuna mais foi a mesma, pois surgia ali uma batida de violão diferente de tudo que se ouviu até então, e também um compositor inspirado, com letras criativas e harmonias bem próprias, com uma marca pessoal. Seu samba eletrificado, com influências da batida do rock, algo até então nunca ousado por qualquer músico, fez com que Jorge Ben fosse ganhando prestígio, além de conquistar seu público.

"Minha preocupação é fazer uma música global, que seja entendida no Brasil e na Suécia, sem perder a identidade", assim uma vez Ben definiu seu trabalho e a linguagem universal de sua música, que nunca se prendeu a barreiras de estilo ou segmentos. Tanto é que trafegava livremente entre setores até então incompatíveis, como a ala mais radical da MPB, formada pelo pessoal ligado ao programa de TV O Fino da Bossa, e também do pessoal da Jovem Guarda, do qual era amigo pessoal de Roberto e Erasmo. Mais tarde também foi adotado como uma espécie de guru pelos tropicalistas.
Sua ousadia musical o levou a fazer trabalhos experimentais, desafiando os executivos de sua gravadora, que temiam ver suas vendagens de discos despencarem. É o caso de um de seus álbuns mais aclamados, A Tábua de Esmeraldas, de 1974. Ao apresentar sua proposta para um novo álbum, como um disco temático, falando de um assunto estranho para seu público, a alquimia, com músicas aparentemente com pouco teor comercial, o disco foi de início vetado. Jorge teve que bater pé, e ter o apoio do diretor da Philips, André Midani, para que sua obra-prima fosse finalmente lançada, e alcançado o sucesso merecido. Na ocasião a prática da alquimia, a vida de seus praticantes e sua filosofia eram suas leituras mais constantes e isso se refletiu em sua música. Seu álbum seguinte, Solta o Pavão, de 1975, também trazia músicas inpiradas nos alquimistas, e é um excelente álbum. Nesse mesmo ano lançaria um álbum duplo em parceria com Gilberto Gil, com muita improvisação acontecida no estúdio. Embora criticado por alguns, o disco com Gil é uma verdadeiro clássico, mostrando a criatividade e o poder de improvisação de dois músicos excepicionais. Na sequência, em 1976, ele lançaria outro disco explêndido, África-Brasil. Essa foi uma de suas fases mais criativas.

A partir de 1994, já adotando o Benjor em seu nome, ele experimentou um período de enorme sucesso, quando as novas gerações descobriram sua música, seu balanço e seu suíngue, fazendo-o voltar a lotar seus shows. Na verdade a música de Jorge Ben nunca perdeu a atualidade, a força e o poder de comunicação, apenas o mercado o havia deixado de lado, e assim que foi redescoberto reencontrou o sucesso.

Hoje, aos 70 anos (embora nem de longe pareça), Jorge Ben ou Benjor, continua a ser o grande propagador da alegria, da poesia simples e direta, do balanço, da raça e do suíngue e da simpatia, tão propagado em suas composições. Um alquimista do som, que faz da música uma festa. Salve Jorge!

quarta-feira, 21 de março de 2012

Geraldo Azevedo Lança Inclinações Musicais - 1981


Em 1981 Geraldo Azevedo lançava Inclinações Musicais, seu quarto álbum, sendo que o primeiro foi gravado em dupla com Alceu Valença. Dono de um jeito bem pessoal de compor e interpretar, além de ser um exímio violonista, Geraldo Azevedo já era um artista estabelecdo no cenário da MPB quando lançou esse disco.
Sua música traz toda uma influência da cultura regional nordestina e de sua terra Petrolina/PE, mais especificamente. Hoje, com 40 anos de carreira (seu primeiro trabalho gravado, com Alceu Valença é de 1972), Geraldo Azevedo é um músico reconhecido por seu talento e musicalidade, sendo considerado um músico do primeiro time da MPB.
Na ocasião do lançamento de Inclnações Musicais, o crítico Luiz Fridman escreveu em sua coluna "Discos Pop":
"Geraldo Azevedo é um músico que traz a rica bagagem cultural do Nordeste brasileiro. E, poderia satisfazer-se com isso, pos os elepês já gravados e os batismos de mercado foram obstáculos ultrapassados. A temática das populações ribeirinhas do São Francisco, o contraste entre um Brasil 'pujante' e um Brasil 'faminto', a resignação, a melancolia ou a revolta dos despossuídos encontram frequentemente nos músicos populares renovadas e enérgicas formas de expressão. Geraldo Azevedo tem parcela de responsabilidade na difusão dessas formas de sentir, junto com Alceu Valença e outros tantos.
Ao mesmo tempo sua música alcançou os temas urbanos, perseguindo a inquietação das cidades, os novos jogod mentais e culturais e, enfim, outras inclinações musicais. Ou, como diz a letra de Renato Rocha para a canção que dá título ao seu novo disco: 'Quantas canções parecidas/E tão desiguais/Como as coisas da vida/Coisas que são parecidas/Feito impressões digitais'. As impressões de Geraldo Azevedo não se resumem a opor o passado ao presente, o urbano ao rural, o íntimo ao social. Inclinações Musicais reúne uma turma curiosa para um passeio que pela emoções que vai desde Garcia Lorca (com música de Renato rocha) até os Beatles, passando por Ray Charles, Billie Holiday, o beijo de John Lennon e Yoko Ono, Jackson do Pandeiro, Lupiscínio Rodrigues, Noel Rosa, Mercede Sosa, Milton Nascimento, Rita Lee e todos aqueles registrados na vitrina de uma loja de discos, que compõem a contracapa do elepê.

'Quem inventou o amor/Teve certamente inclinações musicais', sugere a letra de Renato Rocha. E Geraldo Azevedo, animado pela vitrina diversa de uma esquina da cidade roteiro procurando talvez, a simpressões heterogêneas de uma mesma dor e dos mesmos sentimentos alimentados à beira de um grande rio. Ele canta 'Um Dia', de Caetano Veloso, em que o cenário do amor é verde, a planta e o mar, e 'Canta Coração', em parceria com Carlos Fernando, em que um passarinho anuncia a cantiga dos sentimentos populares do Nordeste: 'Meu alegre coração/É triste como um camelo/É frágil que nem brinquedo/É fote como um leão/é todo zelo, é todo amo/ É desmantelo/É querubim é cão de fogo/É Jesus Cristo, é Lampião/Passarinho, eu vou voar'. Duas violas e o baixo elétrico bastam para Geraldo Azevedo desenhar a bela canção, na qual ele tocou todos os instrumentos.
Em parceria com Pippo Spera e Eduardo Marques segue pelos caminhos da música latino-americana

terça-feira, 20 de março de 2012

Peter Gabriel - 1986


Peter Gabriel é um caso interessante no mundo artístico. Fez parte de uma banda de grande sucesso, o Genesis, do qual era vocalista, partindo para uma careira-solo, como tantos outros. Porém, como artista-solo, Gabriel passou a fazer um tipo de música totalmente diferente do que interpretava em sua antiga banda. O seu som traz elementos de música étnica, rotulada como world music, com influência de ritmos africanos e também brasileiros. Aliás, sobre sua saída do Genesis, ele declarou: "Quando saí do Genesis (em 1975), jurei a mim mesmo deixar para trás todas as coisas associadas com meu trabalho no grupo, o violão de 12 cordas, por exemplo. O lado teatral também. Mas acho que as pessoas exageraram muito minha participação na banda. Ali havia, realmente, um trabalho de grupo."
Em 1986 lançou o seu disco de maior sucesso, "So", que chegou a ficar em primeiro lugar na parada inglesa, além de alcançar bons índices também nos EUA. Na edição de O Globo de 29/06/86 o fotógrafo e jornalista Maurício Valadares escreveu sobre o disco, que acabava de ser lançado no Brasil:
"Peter Gabriel, um belo nome. Desde o lançamento, em 82, de seu quaro elepê solo, todos nós começamos a imaginar o que estaria por vir. O tempo passou, e nada. Ele chegou a nos visitar por duas vezes. Na última, há exatamente dois anos, veio gravar com Djalma Correa algumas tomadas de percussão. O Brasil fazia parte de um roteiro intercontinental visando 'o próximo disco'. Por aqui, Gabriel demonstrou seu fascínio cada vez maior pela música africana. A preocupação de jamais chegar perto de algo descartável era constante.

O elepê ao vivo de 83 e a trilha de 'Byrdy' não chegaram a fazer cócegas na saudade. Não era possível um artista como ele produzir um silêncio tão grande. Até que mês passado a barreira foi rompida. De primeira, Gabriel entrou na parada inglesa com a música 'Sledgehammer'. Finalmente pudemos sentir o cheiro do que ele estava aprontando. Para quem esperava alguma coisa densa, o compacto foi uma surpresa. Um funk, um bate-bola entre James Brown e Marvin Gaye com tudo a que tem direito - metais, vocais de apoio, baixo e bateria mais na cara do que quem perde penalti, etc. Além de ter rendido um vídeo inacreditável. O mix de 'Sledgehammer' já foi lançado aqui e vale, também, por suas duas faixas no lado B.
Custou mas apareceu. Com um retrato em preto e branco na capa e intitulado de 'So', Gabriel está de volta. Como sempre, ele se faz acompanhar por Tony Levin, Jerry Marotta e David Rhodes. Para reforçar o time chegaram Stewart Coppeland, L. Shankar e Richard Tee. Para ajudar nos vocais vieram Kate Bush, Jim Kerr (Simple Minds) e Youssou N'Dour (a mais nova sensação da música africana).
Neste disco Gabriel não se afasta dos temas de tabalhos anteriores, nem se aventura por direções pouco conhecidas. O branco de quatro anos não o levou a 'inventar' nada. Ele continua quase o mesmo. Mais balançado como em 'Sledgehammer' e 'Big Time'. Faixas como 'Mercy Street', 'In Your Eyes' e 'Don't Give Up' são marcas registradas. 'Excelent Byrds', que primeiro foi lançada por Laurie Anderson em seu elepê 'Mr. Heartbreak', recebeu uma nova mixagem. A produção foi dividida com Daniel Lanois (Brian Eno, U2).
É difícil apontar qual o melhor disco de Gabriel. Todos sempre foram o melhor em suas datas de lançamento. Com o tempo eles se confundem e passam a ter a expressão de seu criador. Pedro Gabriel, lindo nome."

segunda-feira, 19 de março de 2012

Um Show Memorável: Edu Lobo, Nana Caymmi e Boca Livre (1979)


Em novembro de 1979 eu assisti a um grande show, daqueles que não saem da memória, mesmo passados tantos anos. Edu Lobo, Nana Caymmi e um novo grupo vocal, ainda desconhecido e com um disco independente recém-lançado, Boca Livre, estavam fazendo um show pelo Brasil, e vieram a Campos, em uma noite memorável de boa música.
Quem os trouxe a Campos foi uma nova produtora, chamada Abertura, cuja primeira realização foi justamente esse show. Para minha sorte, um amigo meu trabalhava nessa produtora, e com ele consegui um ingresso de cortesia.
Lembro que naquela noite de sexta-feira, o ginásio do Automóvel Clube estava lotado, e havia grande expectativa para o show reunindo um dos maiores compositores desse país, uma cantora refinada e um novo grupo vocal que prometia. Lembro também que antes do show iniciar o som ambiente, dentre outras músicas, tocava Força Estranha, na gravação ao vivo de Gal Costa. Houve uma promoção da produtora, que sorteou um aparelho de tv portátil para o público, e quem ganhou foi um velhinho.
O show foi perfeito, embora eu tenha achado que Edu Lobo tenha deixado de cantar suas músicas mais lentas e introspectivas, preferindo as mais animadas e de maior sucesso. Dois dias depois, o jornal Folha da Manhã trazia uma resenha do show, assinada pelo jornalista Péris Ribeiro:
"Edu Lobo, Nana Caymmi (e o conjunto Boca Livre) fazem, sem dúvida, um show que pode ser apontado como de alta qualidade. Em termos de Campos - não há como negar - o que de melhor existiu no ano de 79.
O entrosamento dos dois no palco chega a surpreender, inclusive. E é uma pena que a personalidade de Nana e o jeito rebentador de Edu se juntem em apenas três músicas: Pra Dizer Adeus, Marta Saré e Suíte dos Pescadores.

Irretocável em todas as músicas, Nana consegue ser realmente uma sensação à parte. Quando canta Cais, Beijo Partido, Medo de Amar, Contrato de Separação, Saveiros e Pra Dizer Adeus só se sente uma coisa em volta: o seu magnetismo agindo sobre a plateia, fascinada por sua voz grave, mas incrivelmente melodiosa e que faz, ainda, um gênero diferente de pé-de-ouvido.
Já Edu inicia de maneira um tanto insegura a sua participação. Talvez por dividir com uma Nana já aquecida de palco e público Pra Dizer Adeus. Quando de Cordão da Saideira e Ponteio, dois dos mais marcantes sucessos da fase primeira de sua carreira (a fase de campeoníssimo de festivais), chega a ser pouco capaz de segurar a marcação e guiar a vocalização, quase se perdendo de vez em alguns momentos. No entanto, quando parte para outras velhas conhecidas do público como Decididamente (música sua e de Vinícius de Moraes), Upa Neguinho, Viola Fora de Moda e Marta Saré (um assombro de interpretação sua, de Nana e do Boca Livre) começa a se dizer presente de maneira definitiva. E chega ao ponto máximo em Lero-Lero e o Trenzinho Caipira - onde procura homenagear com intensa sinceridade a obra de Villa-Lobos e Ferreira Gullar, da qual, fez questão de nos dizer, não passa de um mero 'coordenador de arranjos'.

Sobre o Boca Livre, cremos que basta dizer que a plateia parou por inteiro para ouvi-lo. E quando rompeu em rasgados aplausos após Toada, Ponta de Areia e a maravilhosa Desenredo, de Dori Caymmi e Paulo César Pìnheiro, foi para reconhecer realmente o aparecimento do mais promissor conjunto vocal (e também instrumental) de nossa música de uns tempos pra cá.
Aliás, em determinados momentos parecia que o Boca Livre estava ali para roubar o que seria de dirreito um show de consagração de Nana e Edu. E daqui a algum tempo já será chegada a hora e a vez de saírem Maurício Maestro, Cláudio Nucci, José Renato e Davi Tygel por aí a terem um show muito próprio e um público muito deles também, pois a rota já está traçada nesse sentido. De maneira irreversível.
O grande senão - já explicado com argumentos sólidos e merecedores de crédito - ficou por conta da grande demora quanto ao início do espetáculo. Mas não seria uma falta de luz no Ginásio Olavo Cardoso, uma porta emperrada na entrada, um errar de caminho de Edu, Nana e da turma do Boca Livre no retorno do almoço no sítio de Fernando Lima (o que motivou o atraso da repassada das 24 músicas) que empenaria a promoção da 'Abertura Promoções e Produções Ltda'.
Afinal, ela marcou da maneira mais positiva possível a sua entrada no campo difícil e cheio de meandros do 'show-business'. Com uma organização e qualidade até então não vistas por aqui. E pode perfeitamente dar seguimento e uma liderança praticamente já assumida no ramo com promoções do mesmo quilate - e por que não dizer, mais ambiciosas, pois Douglas Bianncho e Cléa Malaquias, como os que querem chegar para ficar, têm simplesmente esse tipo de pensamento em suas cabeças."
Obs: Esse foi o único evento da produtora 'Abertura'. No verão seguinte, a produtora contratou a cantora Beth Carvalho para um show na praia de Grussaí. A cantora não cumpriu o contrato e não realizou o show, dando um enorme prejuízo aos promotores. Uma briga judicial, se arrastou por anos, e só recentemente os promotores ganharam a causa.

domingo, 18 de março de 2012

Governo da Ditadura Proíbe Joan Baez de Cantar no Brasil



A ditadura militar do Brasil, já no início dos anos 80, quando estava mais branda, e em plena era de uma abertura política gradual, ainda demonstrava seu caráter totalitário. A cantora americana Joan Baez, famosa não só por sua bela voz, mas também por sua posição política, sempre em defesa dos direitos civis, foi proibida de cantar no Brasil. Não me lembro exatamente do ano em que esse fato ocorreu, já que o recorte de jornal que guardo está sem data, mas sei que foi no início dos anos 80.
Na época, a redemocratização do país acontecia de forma tímida, mas já era um avanço, após tantos anos de ditadura. Alguns setores de esquerda, ligados principalmente ao recém-criado PT enxergavam na vinda Joan Baez uma possibilidade de discutir sobre os desmandos da ditadura e questões ligadas aos direitos humanos e outros fatores que incomodavam os militares, e a proibição dos shows da cantora, conhecida por seu posicionamento político de esquerda desde seu início de carreira como cantora folk, ainda nos anos 60. Ao lado de Bob Dylan era o principal nome de um estilo de músicas engajadas e politizadas, conhecidas como protest songs. Segue abaixo a matéria, do jornal O Globo:
"Bonita, elegante, bem humorada e, principalmente, muito simpática, Joan Baez conversou durante pouco mais de uma hora com os repórteres na sala de recepção do Hotel Excelsior, na Avenida Atlântica. Apesar de se dizer feliz por estar no Rio, lamentou que sua apresentação esteja cercada de proibições:
- A polícia ainda não falou comigo, mas com os organizadores do show. É estranho reparar que os únicos três países que me impediram de cantar foram a União Soviética, a Argentina e o Brasil. No Chile não houve qualquer proibição oficial, não tive problemas com a polícia e cantei para sete mil pessoas. Assim, não sei como vai ficar. Vamos aguardar.
A pergunta de como ela via um símbolo da paz proibido de cantar, respondeu:
- Um símbolo da paz fala de repressão, opressão, direitos humanos.

A proibição de cantar surgiu depois que você fez declarações políticas em São Paulo, falando de Lula e Miterrand? - perguntou um jornalista.
- Não, acho que os problemas começaram antes disso. Só agora entendo porque houve tantos problemas antes. É, mas esse é só um pequeno problema. Talvez seja bom para o Brasil. Talvez isso consiga mostrar que o Brasil não é só lugar de sol e praias bonitas. O importante não sou eu aqui. Importante são as pessoas que ficam aqui depois de eu viajar.
Joan Baez, que afirmou ser impossível não misturar arte à política, disse que o que tem feito nesses últimos 25 anos é 'tentar introduzir qualquer alternativa para a violência, em qualquer que seja a situação, porque já se vive num mundo enormemente violento'.
Citando Indira Ghandi e Martin Luther King, a cantora pacifista que costuma atrair multidões a seus shows, disse que gostaria de ver o fim dos militares e de todas as pessoas que acham bom matar outra pessoa, 'em qualquer que seja o país'.
Sempre muito simpática, Joan Baez disse que não se sentiu em perigo na América Latina, onde está há 20 dias, e que tudo que aconteceu serviu para lhe dar uma ideia dos problemas enfrentados pelos que aqui querem 'fazer um trabalho sério'."

sábado, 17 de março de 2012

20 Mil Pessoas em Show de Milton Nascimento no Maracanâzinho


Revendo um antigo recorte de uma matéria que saiu no Jornal do Brasil, falando sobre um show de Milton Nascimento em 1987, refleti sobre como as coisas mudaram no Brasil nesses últimos 20, 25 anos.
O que me chamou a atenção é o fato de na época um astro como Milton lotar um enorme ginásio, como o Maracanãzinho, atraindo vinte mil pessoas para assisti-lo. Hoje em dia não sei se um artista com um trabalho diferenciado e sem apelos populares de marketing e mídia conseguiria atrair tanta gente. Realmente os tempos eram outros. Hoje em dia o Maracanãzinho nem é mais usado para grandes shows.
Fico pensando também, em quanto era mais acessível ao público, assistir bons shows, de artistas de peso. Shows em grandes ginásios, com preços mais populares eram comuns naqueles tempos. Hoje, por exemplo, um show de um artista como Chico Buarque, que tem um grande e fiel público, não sai por menos de R$ 300, e o que é pior, nem sempre a visão do palco é a melhor, e que justifique o alto valor cobrado. Por mais que seja confortável assistir a um show sentado à uma mesa, aqueles shows em ginásios lotados eram bem melhores. Me sentia muito mais à vontade sentados nas arquibancadas, ou em pé mesmo, e pagando um preço justo pelo ingresso. A verdadeira arte se elitizou, e isso tem afastado o grande público dos bons shows, enquanto os pseudo-astros fabricados e manipulados pela mídia lotam os ginásios e casas de espetáculos com ingressos populares.
Voltando à matéria de Milton, assinada por Alfredo Ribeiro, ela traz em destaque: "Duas horas alucinantes no Maracanãzinho: o artista vai aonde o povo está". Abaixo transcrevo o texto:
"O povo só precisa de um bom motivo para ir ao encontro de onde o artista está. Mesmo que ele esteja no Maracanãzinho. E se é Milton Nascimento quem convida para a festa dos 20 anos de sua travessia profissional pelos bailes da vida, o estádio abre suas partes para uma plateia absolutamente hipnotizada, alheia a qualquer desconforto ou problema de acústica. Foi uma noite de arrepiar esta de sábado passado, quando a versão moderna do 'cantor das multidões' foi homenageado por 20 mil pessoas, que espremidas e encharcadas de suor, cantaram com Milton todos os seus grandes sucessos, consagraram repetidamente em coro o nome do artista e ainda interromperam o espetáculo para estremecer as arquibancadas em ritmo de 'parabéns pra você'. 'Assim cês matam nós', agradeceu o bom mineiro, retribuindo o carinho do público com um show memorável que abriu a turnê nacional do cantor e sua nova banda.
Às 20h, a festa já rolava nas arquibancadas praticamente tomadas do Maracanãzinho. Um clima bem parecido com o dos festivais daquele tempo em que Milton subiu pela primeira vez num palco para cantar Travessia. Preservativos infláveis sobrevoando a plateia, vaias, aplausos, bolinhas de papel. Uma hora e meia depois, Milton entrou em cena vestindo macacão branco e o inseparável boné de brim azul. Começou o show com 'Canção Amiga', dedicada ao 'nosso poeta maior, Carlos Drummond de Andrade'. Era a primeira de uma série de homenagens que prestaria naquela noite a velhos amigos de admiração e de parcerias. Lembrou-se de Fernando Brant, Márcio Borges e Lô Borges, deixando Wagner Tiso de fora da mamória e do palco.
Sai Wagner Tiso e entram os tecladistas Túlio Mourão e Rique Pantoja, uma dupla que não deixa saudades do antigo companheiro que esteve junto de Milton por quase toda uma carreira. Na guitarra revelou-se o jovem Heitor T.P., com Artur Maia no baixo e Robertinho Silva dividindo a bateria e percussão com os filhos Ronaldo e Wanderlei. Positivamente, a família Silva não é uma família qualquer. Tem a harmonia de um trio de ritmistas da pesada. Enfim, uma banda supertalentosa e competente, com versatilidade para executar arranjos jazzísticos como o que foi preparado para Saídas e Bandeiras, uma das 25 músicas do show.

Milton fez um apanhado de seus maiores sucessos nesses últimos 20 anos, sem nenhuma reverência maior a Travessia. A aniversariante da noite foi encaixada no meio do roteiro do show e não teve chance na hora do inevitável bis. Mas deu motivos para que fosse lembrado um outro marco de 20 anos, só que na carreira dos Beatles. 'Pois é, 20 anos de Sargent Peppers e nós aqui de Abbey Road', disse para anunciar You Never Give Me Your Maney. Cantou também 'outra musiquinha do festival', Morro Velho, e coisas que gravou depois, como Fé Cega,Faca Amolada, Paula e Bebeto, Maria, Maria, Nos Bailes da Vida, Circo Marimbondo, O Cio da Terra, Clube da Esquina 2, Idolatrada, Amor de Índio, Beatriz, Mariana, até Encontros e Despedidas e Lágrimas do Sul, de seu último disco. Deu de presente para o público 'uma música novinha', Amor e Paixão, e teve o bom senso de poupar a saturadíssima Coração de Estudante. O destino exilou esta música dos ambientes festivos.
Foi uma consagração em reconhecimento e à voz do artista, que teve que voltar ao palco para uma canja com Ponta de Areia e ainda bisar Maria, Maria. Duas horas alucinantes no palco, seguida de outras duas horas de cumprimentos e pedidos de autógrafos dos fãs, que formaram fila nos camarins até 1h30min da madrugada. A partir de agora, Milton solta a voz nas estradas comemorando sua travessia em 13 cidades, mas já estuda a possibilidade de voltar ao Rio com o mesmo show. Afinal, um artista vai onde o povo está."

sexta-feira, 16 de março de 2012

Preciosidades em Vinil: Sol do Meio Dia - Egberto Gismonti


Egberto Gismonti é um músico que sempre me chamou a atenção. Seu trabalho é riquíssimo, e transita por várias vertentes musicais com grande desenvoltura. Multiinstrumentista, compositor e arranjador dos mais respeitados aqui e no exterior, Egberto tem uma discografia em que podemos encontrar diversas obras-primas. Possuo uma boa parte dessa discografia em vinil, e poderia enumerar vários de seus discos, mas vou destacar Sol do Meio Dia, de 1978. Na ocasião de seu lançamento, o crítico Roberto Muggiati escreveu a seguinte resenha, para a revista Manchete, intitulada O Xingu em Oslo:

"Não se pode falar no novo Lp de Egberto Gismonti, Sol do Meio Dia (EMI-ODEON), sem mencionar Manfred Eicher, dono das Edições de Música Contemporânea (ECM) e produtor deste álbum, gravado em Oslo. Esse jovem alemão, que já foi contrabaixista da Filarmônica de Berlim, lançou uma nova filosofia no mercado fonográfico: produzir 'música através de composições improvisadas espontâneas, em vez de colocar tudo no papel para ser executado por um intérprete clássico acadêmico'. Não só seu lema deu certo, como a ECM criou até um som próprio, embora dê aos músicos a maior liberdade, a ponto de permitir as edição de coisas como um álbum de dez LPs de Keith Jarrett, feitos exclusivamente de solos de piano. Chick Corea, Gary Burton, Pat Metheny e Jack Dejonette são outros jazzmen que separam o seu trabalho mais comercial, feito nos EUA, da parte pura que fazem, geralmente na Europa, com a ajuda de Eicher - e ajudando-o, também, pois a ECM se tornou um sucesso.
Depois de Dança das Cabeças, Eicher volta a Gismonti. E outros ecemistas acompanham o brasileiro neste Sol: Jan Garbarek (sax), Ralph Towner (violão), Collin Walcott (tabla) e Naná Vasconcelos (percussão). Gismonti toca violão, piano, flauta de madeira e canta. Esse LP coloca a questão típica nos casos dos álbuns da ECM: seria jazz? Parece ser música de vanguarda, sem a camisa-de-força de rótulos mais específicos.

Assim como Jarrett na ECM se afasta das raízes do jazz e pende mais para o erudito, Gismonti parece se distanciar do que seriam as raízes desse LP - 'dedicado a Sapaim e os índios do Xingu' - para operar num nível musical mais elaborado. Como ele mesmo escreve no Jornal Caipira que acompanha o disco, 'tem uma brecha entre a razão e a loucura/o acabado e o provisório/a natureza e a cultura/a vida e a arte. Vamos procurar'."

quinta-feira, 15 de março de 2012

Hot Rats, de Frank Zappa - Um Disco Clássico


Hot Rats, de Frank Zappa, é um dos discos mais representativos de sua obra genial. Lançado em 1969, Hot Rats é considerado por muitos críticos, um dos precursores do jazz-rock, já que foi lançado no mesmo do ano do revolucionário Bitches Brew, de Miles Davis, considerado como a pedra fundamental do nascedouro estilo fusion. Como o disco de Zappa trazia elementos jazzísticos, unidos ao rock, o álbum também carrega esse caráter inovador.
Em 1979, dez anos depois de seu lançamento, Hot Rats foi relançado no Brasil, pela gravadora Warner, em uma série denominada Momentos Históricos, que também trazia outras obras de peso. Na ocasião, o crítico Luís Fridman, comenta o álbum:
"Hot Rats tem dez anos. Desde a sua edição, Frank Zappa mudou muito, mas o que mudou mesmo foi o panorama do rock. Zappa é um desses artistas que qualquer mentalidade mais conservadora considera logo como uma ameaça às instituições, o que certamente funciona como forte atrativo a qualquer mentalidade mais transformadora. Ele conseguiu o que poucos artistas dentro do mundo do rock puderam realizar com suficiente coerência: ser musical e político, e igualmente talentoso nos dois campos. Desde o início, Frank Zappa incomodou os produtores das gravadoras com seus esquemas caríssimos de produção de discos e suas declarações audaciosas acerca dos mecanismos não muito honestos do mundo do rock, que naquela época ficavam mais obscurecidos pela fantástica significação que as modernas experiências tinham para parcelas muito ampliadas da juventude.
Ele não fazia uma música fácil e suas declarações não se pautavam, também, por certezas fáceis. Esses aspectos poderiam contar desfavoravelmente para a sua carreira musical mas, ao contrário, serviram para uma definição de gostos e posições que o distinguiram no mercado, não sei se para sua satisfação ou desespero. Zappa, apesar de roqueiro inato, nunca se entusiasmou pela cultura do rock que acreditava ser dominado por certos valores retrógrados e alienantes, e não chegou a surpreender algumas suposições que ele lançou, durante um certo tempo, de que a cultura das drogas tinha forte influência dos planos da Cia para alienar a juventude americana de propósitos culturais e políticos de maior consequência. Essas afirmações não podem ser provadas com exatidão, mas, sem dúvida, Frank Zappa fez muita gente coçar a cabeça numa época em que 'paz e amor' significavam palavras de ordem de grande repercussão.

Musicalmente Zappa sempre teve uma forte influência do jazz, porém a sua maneira de fazer música tinha os componentes básicos de interpretação próprios do rock desenvolvido durante a década de 60, além de um inesgotável talento no manejo da guitarra que o fez um dos maiores do instrumento. Ainda assim, amargo quanto a seu futuro, enquanto estrela, Zappa não deixou de declarar, algum tempo depois, que não adiantava mais desenvolver as suas escalas e solos porque as fileiras dos músicos modernos estavam cheias de garotos que conheciam tudo da guitarra e que eram, sempre, candidatos ao estrelato do instrumento. Ironizava, com isso, o esquema de competição próprio do rock já em decadência onde antes da música vinha o interesse imediato de participar dos pools de instrumentistas das revistas especializadas. Ainda assim, diga-se que Frank Zappa foi um feroz crítico do rock a partir de dentro. Suas decepções, e mesmo esperanças, não se alimentavam de uma atitude racionalista e distanciada dessa maneira de fazer música e de atuar na cultura.
'Hot Rats' é um dos melhores momentos musicais de Zappa que, com o correr dos anos, perdeu a sua influência ideológica, mas permaneceu um inveterado experimentador. Esse disco, se levarmos em consideração os dez anos que nos separam de sua edição, traz experiências muito significativas de associação do rock com o jazz e inovações rítmicas e de integração de instrumentos bastante originais. A faixa 'Beaches en Regalia' é uma passagem clássica das novidades que Zappa trouxe para a música norte-americana. Fica ainda a lembrança que outros desses magníficos momentos de sua música, o LP 'Chunga's Revenge', ainda não foi editado no Brasil."

quarta-feira, 14 de março de 2012

Walter Franco Lança Respire Fundo - 1978


Walter Franco é um dos compositores brasileiros que fazem parte da tribo dos "malditos", como ficaram conhecidos aqueles músicos que faziam um trabalho sofisticado e de difícil assimilação para o grande público. Seu trabalho anticomercial e polêmico chamava a atenção pela qualidade, ousadia e refinamento. Walter ficou conhecido nacionalmente a partir de sua participação no VII Fic, em 72, o festival que a Globo promovia em rede nacional, com a música Cabeça, que era na verdade uma experimentação sonora levada às últimas consequências, com as vozes intercaladas fazendo a vez de instrumentos.
Seu primeiro álbum, lançado no mesmo ano de 72, se intitulava "Ou Não", e trazia uma capa toda branca, com uma mosca ao centro. A frase "ou não", que muitas vezes é associada a Caetano Veloso, sendo muito usada em imitações do compositor baiano na tevê, na verdade vem da letra de Cabeça, que faz parte do disco: "Irmão, o que é que tem nessa cabeça?/Ou não/O que é que tem nessa cabeça?/Saiba, irmão/O que é que tem nessa cabeça?/Saiba ou não/O que é que tem nessa cabeça?/Saiba que ela pode/Irmão/O que é que tem nessa cabeça?/Saiba que ela pode/Ou não/O que é que tem nessa cabeça?/Saiba que ela pode explodir...". O crítico Tárik de Souza escreveu sobre a obra: "um disco em que se revolucionam os conceitos de melodia, silêncio, ruído; onde a própria respiração do intérprete é usada ideologicamente como acessoria intrumental. Foi o mais ousado projeto autoral de nossa música popular, inclusive em nível de vanguarda internacional."
Seu segundo disco, o seu melhor trabalho em minha opinião, saiu em 75, e se chamou Revolver. É um disco com experimentações eletrônicas, com acentuados flertes com o rock. Nesse disco disco Walter apresenta ótimas composições, como Feito Gente, Nothing, Toque Frágil, Cachorro Babucho, Partir do Alto, dentre outras.

Em 78 Walter Franco lançava Respire Fundo, seu terceiro disco. Nesse disco Walter traz um trabalho com menos experimentalismos sonoros, mas sem perder a qualidade. Na ocasião a revista Pop, de janeiro de 78, fez uma matéria sobre o lançamento:
"Para muita gente, ele é 'aquele cara chato da Cabeça' (a música com que apareceu num Festival Internacional da Canção). Mas Walter Franco é muito mais: é cabeça, corpo, magia, luz e sombra. Lançando seu novo disco, Respire Fundo, pela CBS, ele deu esse depoimento para Mônica Figueiredo, de POP:
'Esse meu disco é resultado da alegria. Pintou uma coisa mediúnica com uns poemas de meu pai, e mesmo com os outros músicos. E eu acho que essa ligação só acontece a partir do gostar. A gente tá aqui no planeta pra aprender a gostar, né? A gente tá sempre aprendendo, o tempo todo dando e recebendo. E tudo é mesmo só uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo. A alegria é a base de tudo isso. Uma coisa de mais luz, mais brilho, mais leveza - que só é possível se a gente não tiver medo. A timidez é a forma mais sutil do medo, né? E a única forma de acabar com o medo é a alegria. Perder o medo é perder a ilusão. De repente uma montanha passa a ser só uma montanha. E não assusta. Então a dor se transforma em pontos de luz... Meu disco é isso. Meu momento é esse. É um trabalho de geração: abrir caminho, conquistar espaço, desde Abbey Road, dos Beatles. Aí pinta um choque e dizem que a minha música não é popular, não é brasileira, não tem raiz. Eu acho que quem tem raízes é vegetal... O disco traz a síntese desses ciclos todos que fizeram a minha cabeça, mas não é uma coisa só minha: é tribal. Você acaba descobrindo que não tá sozinho. Mesmo trancado dentro do teu quarto, as pessoas te descobrem, se você estiver em sintonia com a sua essência. Eu voltei todo o meu trabalho pra isto: aplicar a técnica do pensamento nessa coisa da voz. Sem medo nenhum. A alegria é uma obrigação. E, se a gente quer viver, tem certas obrigações com a vida.'"

terça-feira, 13 de março de 2012

Luiz Carlos Maciel Explica a Contracultura


Luiz Carlos Maciel é considerado o grande arauto da contracultura no Brasil, por sempre ter difundido o assunto através principalmente da coluna "Underground", que mantinha no jornal O Pasquim, nos anos 60 e 70. Nasceu em 15 de março de 1938, em Porto Alegre. É escritor, jornalista, diretor de teatro, roteirista de cinema e televisão, professor e conferencista.
Em julho de 1981, Maciel escreveu para a revista Careta uma matéria intitulada O Que É a Contracultura, em que explica e define o que vem a ser essa palavra tão usada nos anos 60:
"O termo 'contracultura' foi inventado pela imprensa norte-americana, nos anos 60, para designar um conjunto de manifestações culturais novas que floresceram, não só nos Estados Unidos, como em vários países, especialmente na Europa e, embora com menos intensidade e repercussão, na América Latina. Na verdade, é um termo adequado porque uma das características básicas do fenômeno é o fato de se opor de diferentes maneiras à cultura vigente e oficializada pelas principais instituições da sociedade do Ocidente.
Contracultura é a cultura marginal, independente do reconhecimento oficial. No sentido universitário do termo, é uma anti-cultura. Obedece a instintos desclassificados nos quadros acadêmicos.
Pode-se entender contracultura, a palavra, de duas maneiras:
a) como um fenômeno histórico concreto e particular, cuja origem pode ser localizada nos anos 60
b)como uma postura, ou até uma posição, em face da cultura convencional, de crítica radical.
No primeiro sentido, a contracultura não é, só foi; no segundo, foi, é e certamente será.
Acostumamos, através da educação, a ver na cultura que herdamos de nossos pais e antepassados, uma entidade intocável, definitiva, que se apresenta diante de nós como parte da própria essência da realidade - algo 'natural' como o sol ou a lua, ou o resultado de uma evolução que se diria 'biológica' porque inevitável.
É evidente, porém, que não é assim. Cultura é um produto histórico, isto é, contingente, mais acidental do que necessário, uma criação arbitrária da liberdade - cujo modelo supremo é a Arte.
Não há cultura, a rigor - como manifestação de uma inexistente 'natureza' humana, por exemplo - mas culturas no plural, criadas por diferentes homens em diferentes épocas, lugares e condições, tanto objetivas quanto subjetivas. Elas expressam, não a realidade em si, mas diferentes maneiras de ver essa realidade e de interpretá-la. São diferentes leituras do mundo e por nenhum critério pretensamente objetivo podemos afirmar que uma seja mais válida - ou mais 'objetiva', 'verdadeira', 'científica', etc - do que outra.
Criamos, inventamos culturas - e a todo momento, praticamente sem cessar. Trata-se, apenas, no fundo, de um jogo cuja graça maior há de ser, sempre, sua carga poética. O valor mais alto de uma cultura é sua visão poética.
Cultura, pois, é essencialmente Arte - um dos piores prejuízos causados pela visão científica que domina a nossa cultura foi a de distorcer, obscurecer e finalmente ignorar esse fato.
A contracultura surgiu do confronto entre a cultura, reconhecida como doença, e a visão juvenil, cujo instinto natural é para a saúde. A audácia dessa visão não pode ser considerada mera precipitação ingênua pois funda-se, antes, num desencanto radical - atingido por saturação, maturidade - com o mundo tal como o conhecemos.
As vertentes que confluíram para a formação da contracultura são várias, de naturezas aparentemente diversas, mas sublinhadas pelo denominador comum da intenção libertária. E a fonte instintiva dessa intenção é, sem dúvida, a visão juvenil."

segunda-feira, 12 de março de 2012

Pepeu Gomes e Sérgio Dias Falam de Hendrix


Pepeu Gomes e Sérgio Dias são, sem dúvida, dois dos maiores guitarristas que já tocaram nesse país. Integrantes de duas bandas revolucionárias, Novos Baianos e Mutantes, Pepeu e Sérgio só por esse fato já merecem entrar para a história musical desse país. Ambos iniciaram na carreira ainda nos anos 60, quando os primeiros ecos da música de Jimi Hendrix chegavam por aqui, ainda timidamente, mas já mostrando que algo de novo estava acontecendo, e quem se aventurava a impunhar uma guitarra tinha que se ligar nos acordes inusitados de um negão americano que vinha incendiando o panorama do rock. E assim, Pepeu e Sérgio acabaram bebendo da fonte hendrixiana, e se tornaram os músicos que são.
Por ocasião do aniversário de trinta anos de morte de Hendrix, em 2000, Pepeu Gomes e Sérgio Dias deram seus depoimentos sobre a influência e a presença de Jimi Hendrix em sua música, para uma matéria do jornal O Globo, em 10/09/2000:

"Casado com o Instrumento
Pepeu Gomes
Se hoje toco guitarra é por causa dele. Aos 14 anos, já era baixista mas, no meu aniversário de 17 anos, ganhei um disco de Jimi Hendrix, chamado 'Smash Hits'. Naquela noite, fui dormir contrabaixista e acordei guitarrista. Isso aconteceu na época do disco 'Barra 69', quando eu tocava com os Leif's, grupo que acompanhou Caetano e Gil no show que fizeram em Salvador, antes do exílio em Londres.
Mas a influência não se restringiu à música, mudou a minha vida. Queria ser Hendrix, me vestir como ele, usando até uma peruca com cabelo de negão. Meus discos iniciais têm frases inspiradas nele. Então, a ascendência em meu trabalho não é parcial, e sim, total. Tive o presente divino de conhecer Hendrix aos 17 anos e, um ano depois, sua morte também mexeu comigo: eu me revoltei e fugi de casa.
Hendrix não sabia ler e escrever música, mas contribuiu decisivamente para a evolução do instrumento. Ele dizia: 'A minha namorada e a minha guitarra são a mesma coisa'. Hoje com as conquistas tecnológicas, poucos guitarristas mantêm essa troca. Acho que, como Hendrix, você tem que dormir com a guitarra.
Um dos elogios mais importantes na minha carreira foi em 1989, quando a revista 'Guitar World' me chamou de 'Jimi Hendrix brasileiro'. E, esta semana, recebi um convite maravilhoso da gravadora Trama: fazer um disco em homenagem a Hendrix. É um ciclo que se completa."
Obs: Que eu saiba, esse disco nunca foi lançado

"O Músico Que Botou Cor no Rock
Sérgio Dias
Lembro-me da primeira vez que ouvi Jimi Hendrix, na casa de um amigo: foi como se a cor tivesse sido ligada e o rock saído do branco e do preto. Pelo fato de eu ser guitarrista, aquilo mexeu demais comigo. Eu queria aprender o que aquele cara estava tocando. Tempos depois, assistindo ao filme de Woodstock, no momento daquele blues, vi Hendrix tão profundamente imerso na música, olhando para a câmera, e entendi tudo. Naquela hora, levantei, fui embora do cinema e fiquei andando na rua sem rumo, digerindo toda aquela informação. Pouca gente teve tanta influência sobre mim nesse nível.
No disco que estou terminando, 'Estação da Luz', tem uma música na qual cito 'Are You Experienced?'. E numa outra, 'Araras', faço longos solos hendrixianos. É uma pena que Hendrix tenha partido tão cedo, dá uma grande solidão."