Palavras Domesticadas

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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Torquato Neto - O Poeta Desfolha a Bandeira


Poeta, letrista e jornalista, entre outras atividades, Torquato Neto é por muitos considerado aquele que melhor encarnou a contracultura brasileira. Como ele mesmo diz em uma de suas letras, veio pra desafiar o coro dos contentes. Participante do grupo dos tropicalistas, o piauiense Torquato era comumente considerado como baiano. Deixou ao longo de sua obra musical 30 letras, e parceiros como Gilberto Gil, Edu Lobo, Jards Macalé, Caetano, e até postumamente, teve uma de suas letras que deixou inéditas, musicada por Sérgio Britto dos Titãs, Go Back, que virou um grande sucesso.
Na madrugada do dia 10 de novembro de 1972, após comemorar seu 28º aniversário com alguns amigos, Torquato trancou-se no banheiro, abriu o gás do aquecedor, e despediu-se do mundo, deixando apenas uma frase rabiscada num pedaço de papel: "Pra mim chega!"
A obra que deixou não se resume somente às letras que escreveu, como Louvação, Mamãe Coragem, Pra Dizer Adeus, Let's Play That, Geléia Geral, Soy Loco Por Ti América, dentre outras. Atuou no jornalismo, tendo publicado diariamente a coluna Geléia Geral, no jornal Última Hora, do Rio, tendo várias delas reunidas no livro "Os Últimos Dias de Paupéria". Também atuou no cinema, sendo diretor e ator no filme experimental "Nosferato no Brasil". A foto abaixo mostra uma cena do filme, onde ele aparece contracenando com a jornalista e atriz Scarlet Moon.

Torquato foi um visionário, e deixou sua marca na cultura desse país tão sem memória. Abaixo alguns depoimentos sobre o Anjo Torto da Tropicália.
Augusto de Campos: "Conheci o Torquato da fase heróica do Tropicalismo. Em 1968, no apartamento de Caetano - onde conheci também todo o grupo que estava iniciando aquele movimento aqui, em São Paulo. Ele tinha um interesse que saía um pouco fora do campo estrito da música popular. Tanto no plano literário, quanto em relação a outros aspectos das artes em geral."
Arnaldo Antunes: "Ainda adolescente eu comecei a adentrar na obra de Torquato, não só pelas canções mas também pelo livro 'Os Últimos Dias de Paupéria'. Aquilo me interessou por muitos motivos. O Torquato quase ficou sendo uma porta para mim, não só pela poesia e pela música, mas também em relação ao ambiente da contracultura, com o qual eu fui formando contato naqueles artigos que ela fazia para a imprensa. Depois os Titãs resgataram Go Back, que foi musicada pelo Sérgio Britto. A melodia parecia estar lá, esperando."
Caetano Veloso: "Eu às vezes penso muito em Torquato. No período mais próximo da morte dele, vi muito pouco Torquato. Que era uma pessoa que eu via muito. Então você sente uma angústia no sentido de parecer que poderia ou deveria ter feito alguma coisa, ter estado perto de algum modo."
Gilberto Gil: "Tenho uma foto dele e Caetano comigo, pendurada na parede. Sempre a vejo. Gosto daquele jeito. Ibérico. Meio português, meio campesino. Como aqueles meninos que você vê nos filmes de Buñuel. Parece um daqueles devotos de Lourdes ou de Fátima."

3 comentários:

  1. muito bom seu texto. estou lançando a terceira edição de torquato neto ou a carne seca é servida, com 704 páginas, preço 40 reais, já com postagem. quem estiver interessado:
    kenardkruel@yahoo.com.br

    obrigadão, por tudo.

    kenard kruel

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  2. A trajetória artística de Torquato Neto foi intensa apesar de ter sido em um período curto. A letra de "Pra dizer adeus" parece a confissão do suicídio dele anos antes. O talento dele faz muita falta.

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  3. Sim, Marcelo. Edu Lobo, seu parceiro em Pra Dizer Adeus, falou que a letra parecia uma despedido, mas que ele não havia percebido.

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