Palavras Domesticadas

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domingo, 1 de setembro de 2013

Júlio Barroso - A Vida Sexual do Selvagem

Júlio Barroso (1953-1984) foi uma das figuras mais representativas de uma cena que se formava no início dos anos 80 - o surgimento de uma geração que impulsionaria o rock brasileiro naquela década. Criador e membro da Gang 90 & Absurdetes, um dos grupos de rock mais criativos surgidos então, Júlio também era compositor, jornalista, DJ e agitador cultural, sendo uma das grandes cabeças pensantes daquela cena. Sua morte em 1984 é envolta em mistério. Caiu da janela de seu prédio, mas quem o conhecia não acredita em suicídio e sim num lamentável acidente. A verdade é que foi uma grande perda. Deixou apenas um LP gravado com seu grupo, o excelente "Essa Tal de Gang 90" (existe um segundo, "Rosas e Tigres", já sem sua presença).
Um dos marcos do nascente rock brasileiro dos anos 80 foi "Perdidos na Selva", que participou do festival MPB-Shell, da Globo, em 1981. Essa música veio antes do estouro de todas aquelas bandas que surgiriam ao longo da década. Na verdade, "Perdidos na Selva" é uma parceria não creditada de Júlio com Guilherme Arantes, como esclarece Guilherme em entrevista à revista Billboard em maio:
"Por que o seu nome não consta nos créditos de 'Perdidos na Selva'?
- Porque o Júlio morreu sem assinar o contrato de edição. Eu tinha também o 'Planeta Água' no Festival MPB-Shell, promovido pela Globo, em 1981. O Guto Graça Mello me ligou pedindo para eu abrir mão de uma das duas, pois eu não poderia concorrer com ambas. De 'Planeta Água' eu não abriria mão de jeito nenhum, pois a música era maravilhosa, eu sabia que seria algo especial. Falei com o Júlio para seguir com o 'Perdidos', que depois viraria um megahit, e eu passei a querer que o pessoal soubesse que aquilo era meu. O refrão é puro Guilherme Arantes."
Em 1991, a irmã de Júlio, Denise Barroso (também falecida precocemente), juntou um bom material do irmão - textos, manuscritos, desenhos, fotos, poemas, letras de músicas, material jornalístico - além de depoimentos de amigos, e organizou um belo livro, chamado "A Vida Sexual do Selvagem" (Edições Siciliano), um grande e grosso volume de30x30cm. O título é uma alusão a um verso de "Louco Amor", sucesso e tema de novela da Globo, da Gang 90: "Já foi assim, mares do sul/Entre jatos e luz, belezas sem dor/A vida sexual dos selvagens".
Júlio com Mae East e Denise, sua irmã - Gang 90
Dentre os depoimentos presentes no livro, há esse, escrito por sua amiga Rita Lee:
"Me encontrei perdida na selva com Julinho pelo menos um milhão de vezes, isso sem contar as 1.001 noites em Bagdá!
Ninguém mandou ele ter chamado de 'cupido rocker' via Globo e eu ter acreditado! Só sei que quando a gente se encontrava com cara de 'você também por aqui?', era uma cena do filme O Abraço dos Esqueletos - os atores eram tão magrelas!
Aliás, sempre o abraço finalizava com gargalhadas tipo 'gente magra voa mais alto, né comadre?'
Só depois de quinze dias soube que Julinho tinha se mandado do Planeta. Claro! tomei uma overdose dupla de veneno pra ir tirar satisfações por tamanho abandono...
Conversamos muito pouco (ele pra variar estava com um projeto em andamento então...), mas Julinho foi logo daquele jeito de sujeito cheio de sol (meio tirando sarro, of course):
- Ô cupido rocker, parece que bebe! Num lembra que a gente magra voa mais alto, não?
E tem outra, comadre: as selvas por aqui são são de um nível incrível, então volta, vá nessa Vanessa, esqueça só do que você quiser, de mim não vai ter nem jeito! Dia desses te mostro uma demo da minha coleção de discos voadores que eu tô bolando só pra barbarizar o velho planetete onde tu é absurdette...
Qualquer coisa tô aqui, tá? Fala pro Rá que eu também...'
E COMO VOOU ALTO O CARA - ZUUUMMM..."
Os ótimos textos de Júlio compõem a maior parte do livro, com  sua metalinguagem, prosa/poesia, verbo encantado:
"A música é o elo com a linguagem perdida. Ancestralidades elétricas, negro e branco, vermelho e amarelo. Tribos em chamas. Toda a dialética universal é palpável; música é feita livre de peias e amarras, quando ela é gozo, jorro de prazer, criação, Transcendência. A união dos extremos em constante renovação. O brotar do todo através das notas: O elétrico é um raio. O raio cai sobre a lama, cria a vida. O negro é a alma viva, alimento ancestral, o branco o portador do elétrico, do raio tecnológico, o solo é do ancestral vermelho, o mágico, o livre, o ar é como o oriental, etéreo e espiritual. Luzes totalmente diferentes.
A fusão é o amálgama previsto pelos alquimistas, nômades e freaks do planeta. Música como uma postura de puro amor criativo, puro prazer, livre de diferenciações alienantes, pretensos engajamentos, revisionismos nacionalistas, falsas concepções de 'raízes'. Apenas assumir a ancestralidade da magia sexual."
A Vida Sexual do Selvagem é antes de tudo, uma bela homenagem, mais do que merecida, para uma das mentes mais brilhantes e inquietas que por aqui passaram, deixando sua marca.

7 comentários:

  1. Do que morreu a Denise Barroso? Não tem nada sobre ela na rede..

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    1. Não me lembro da causa da morte de Denise Barroso. Creio que foi por doença, mas não me recordo de detalhes. Um abraço

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    2. Segue a notícia:
      Denise Maria Barroso, relações-públicas e cantora. Participou do grupo Gang 90 & Absurdettes, que lançou o rock brasileiro versão anos 80 nos festivais de música e novelas da Rede Globo.
      Denise Maria Barroso morreu no dia 20 de junho de 1993, aos 37 anos, de insuficiência renal, no Rio de Janeiro.

      (Fonte: Veja, 30 de junho de 1993 – Edição 1294 – Datas – Pág: 92)

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    3. Obrigado pela resposta, Antonio.Abraço

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  2. me entereço muito porque foi o inicio do rock nacional da decada de 80

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  3. me entereço muito porque foi o inicio do rock nacional da decada de 80

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  4. Obrigado pelo comentário e pela visita. Abraço

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