Palavras Domesticadas

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sábado, 31 de agosto de 2013

Os 50 Anos de Hyldon (2001)

Em 2001 um dos maiores representantes da soul music brasileira, o cantor e compositor Hyldon, completava 50 anos, e na edição de de 3 de junho daquele ano, o Jornal do Brasil trazia uma matéria sobre o cantor. Considerado ao lado de Tim Maia e Cassiano, os três maiores representantes da soul music com uma linguagem brasileira, Hyldon apareceu para a grande mídia em 74, quando seu compacto "Na Rua, na Chuva, na Fazenda" fez um estrondoso sucesso, impulsionando as vendas de seu primeiro LP.
Andando um pouco na contramão da indústria do disco, Hyldon, apesar de seu reconhecido talento, não repetiu em seus trabalhos posteriores o sucesso alcançado em seu disco de estreia, que além de "Na Rua, na Chuva..." trazia outros clássicos como "As Dores do Mundo", "Na Sombra de Uma Árvore" e "Acontecimento", mas produziu excelentes álbuns como"Deus, a Natureza e a Música".
Na citada da matéria do JB, há um texto assinado pelo jornalista Silvio Essinger, intitulado "Um modo adolescente de viver":
"Hyldon Souza é alguém que se pode dizer que tem uma trajetória invulgar. Nasceu no interior da Bahia e foi ainda menino para Niterói. Na adolescência, interessou-se pela guitarra elétrica e o iê-iê-iê (seu primo, Pedrinho, tocava nos Fevers) e logo entrou para a banda Os Abelhas. Quando a mãe resolveu voltar para a Bahia, ele ficou sob os cuidados do primo. E aos 14 anos, lá estava Hyldon substituindo um dos guitarristas dos Fevers numa gravação. 'Era tudo ao vivo, não podia errar', conta. Logo ele estava compondo também. Wanderley Cardoso gravou a sua Chove, a Natureza Chove e Roberto Livi (cantor que anos mais tarde se tornaria produtor de Sidney Magal),  Eu me Enganei, que deu um bom dinheiro para o compositor. 'Comprei um carro, porque achava que todo mês iria receber o mesmo de direitos autorais', conta Hyldon. Na dureza, ele acaba aceitando um convite para tocar nos Diagonais para 'ficar rico' excursionando pela Bahia.
Cassiano ajudou a abrir a sua cabeça jovemguardista para a soul music. Assim ele acabaria virando guitarrista de Tony Tornado e de Wilson Simonal. Nessa época, Hyldon começou a alimentar o desejo de gravar o seu primeiro LP. 'A ideia apareceu em 69, comecei a gravar em 73 e ele saiu em 75. Por isso ficou tão bom', ironiza. Mas até conseguir fazer Na Rua, na Chuva, na Fazenda, ele teve que cumprir algumas etapas. O produtor Mazola o estimulou a passar para trás da mesa de som. Mais tarde, Hyldon arrumou o emprego de produtor na Polydor, o selo dos artistas populares da PolyGram, onde gravou de Erasmo Carlos e Wanderléa a Odair José e Adilson Ramos. 'Comecei a levar o Azimuth para gravar com os artistas. São eles tocando em Pare de Tomar a Pílula, de Odair', relembra.
Um dia, o artista que ia gravar com Hyldon, o cantor Frank Landi, perdeu o trem em Juiz de Fora. Com o violão que vivia encostado no estúdio, o produtor voltou para o outro lado da mesa, aproveitou que o Azimuth estava de bobeira e gravou Na Rua, na Chuva, na Fazenda. A música, conta, agradou bastante à diretoria da gravadora, que queria que ele gravasse uma versão de Angie, dos Rolling Stones. Hyldon se recusou e, por causa disso, o lançamento do compacto teria sido adiado durante oito meses - até que não teve mais jeito. A música foi um estouro daqueles, com execuções em rádios populares e sofisticadas. 'Disseram que era sorte de principiante', lembra o cantor.
George Israel, do Kid Abelha, banda que anos mais tarde fez Na Rua voltar às paradas em uma versão reggae, ressalta o fascínio que a composição exerce sobre ele: 'A música do Hyldon é um dos pontos altos do nosso show, uma canção que a gente pescou no repertório de violão à beira da fogueira. Ela estava no inconsciente coletivo e, toda vez em que a gente a toca, faz questão de dizer que é dele.'
Em seu segundo compacto, Hyldon gravou As Dores do Mundo, que estourou também.  Rogério Flausino, vocalista do Jota Quest, conta que achou curioso quando o empresário do Skank, Fernando Furtado, sugeriu que a banda gravasse essa música. 'Fui ouvindo e, pouco antes do refrão, eu já estava cantando junto', conta. 'A gente busca muito isso, essa simplicidade que emociona.' Até hoje, As Dores do Mundo é a música que faz o show do Jota Quest esquentar.
Assim, com duas músicas estouradas, o tão sonhado LP de Hyldon decolou, chegando às lojas em 1975. Segundo o artista, como a gravadora não se empenhou em divulgar o disco e ele não gostava muito de fazer shows, as vendas não foram lá essas coisas. Começou então ' a fase de revolta', na qual ele foi morar em Nova Iorque. 'Cheguei lá, peguei um táxi e fui direto para o Harlem. Fui para o Apollo Theater, onde viu shows de Al Green, Temptations, todos os meus ídolos', conta. Na volta, gravou Deus, a Natureza e a Música, que também não aconteceu. 'Estava precisando era de um psiquiatra', brinca/confessa. 'Fiz sucesso muito jovem. Minha adolescência foi dos 25 aos 31 anos'. Em 1977, gravou mais um LP, Nossa História de Amor (relançado ano passado em CD, por iniciativa do Titã Charles Gavin), que tampouco fez sucesso.
A 'adolescência' de Hyldon acabou quando ele se casou com Zoé Ruth, com  quem tem as filhas Halina, de 16 anos, e Yasmin, de 10. 'Se voltei ao normal, devo à minha esposa e às minhas filhas.' Tranquilo em Teresópolis, ele aproveita para curtir o modelo R&B dos cantores Maxwell e R Kelly e do produtor Rodney Jerkins. E passa horas no seu home studio, compondo. 'Tenho novas músicas, mas estou sereno, tem que ter step by step', diz, tentando reencontrar os próprios passos."

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