Palavras Domesticadas

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terça-feira, 17 de setembro de 2013

Resenha do Rock In Rio 85 - Revista Roll

Em tempo de Rock In Rio, um festival que se consolidou e até tem sua versão internacional (Espanha e Portugal), muito se tem falado sobre os critérios de escolha das bandas, e com toda razão. Outros festivais que se realizam por aqui se focam mais no rock, como o SWU e Loolapalooza. Na verdade, o Rock In Rio em nenhuma de suas edições se constituiu num festival autenticamente de rock. Nas últimas edições o pop e até o axé da onipresente e chata Ivete Sangalo faz o RIR se parecer com o Festival de Verão de Salvador. Mas se formos comparar com a primeira edição (1985) veremos que muitos artistas que não eram de rock também estavam escalados, porém o nível não chegou a cair. Ivan Lins, Elba Ramalho, Alceu Valença, Moraes Moreira, Al Jarreau e George Benson, por exemplo, fizeram ótimos shows. Ironicamente, nossa rainha do rock, Rita Lee, uma autêntica representante de nosso rock, fez um dos piores shows de sua carreira. Estava irreconhecível no palco.
Para relembrar aquela primeira edição, que durou dez dias seguidos: de 09 a 18 de janeiro, vou transcrever alguns trechos de uma edição da revista Roll, comentando sobre o evento.
A revista começa com um texto de apresentação, escrito pelo editor de texto, Aldo Meolla:
"Noventa horasde muito som rolando, o Brasil descobriu o óbvio. De Monterey ao Rio, passaram-se dezoito anos. Custou, mas finalmente uma metrópole latina passou a figurar no mapa dos festivais. Durante dez dias brilharam no Rio as luzes de uma outra cidade - a cidade do rock. Nenhum país fica impune depois de viver um festival como este.
'Por que você não olha pra mim?' Pronto, Herbert Viana. Tanto que você pediu que todo mundo acabou olhando. E descobrindo - repito, o óbvio - que o rock é por demais importante para que a gente continuasse em contato com ele apenas à distância.
Ainda que muita gente teime em chamar o evento, não sem razão, de uma grande odisseia pop, o certo é que dez dias de rock no Rio valeram por vários anos. Simplesmente porque a despeito da qualidade das atrações, se A ou B deveria ou não ter participado, o festival balançou as estruturas da produção caseira. E, não resta dúvida, daqui pra frente, tudo vai ser diferente.
James Taylor
O pessoal das gravadoras arregalou os olhos, os produtores reavaliaram todos os seus conceitos, uma injeção de profissionalismo e competência mexeu com  acabeça dos músicos. É um processo irreversível.
A partir de agora, as coisas mudaram. Os roqueiros ganharam o aval e já podem entrar pela porta da frente. É importante frisar que, sem a batalha travada pelos novos grupos nacionais e pela mídia - com o pioneirismo de Roll e da Rádio Fluminense FM - que abriu espaço para estas manifestações, jamais teria havido um festival como este. De repente, pessoas atavicamente realistas passaram a falar de sonho, surgiram roqueiros de última hora nos quatro cantos do país. Não custa nada lembrar, há até pouco tempo, as coisas eram bem diferentes.
Mas é aí, e agora que deu certo? E daí que possibilitou essa abertura foi a existência de uma cultura urbana própria, organicamente construída. É ela a força motriz de uma arte que se pretende amadurecida, e que encontrou no Rock In Rio um horizonte para sua expansão. Foi um primeiro e importante passo no sentido de deixarmos de sermos meros consumidores de história, para começarmos, nós mesmos, a fazê-la. Daí, a importância de bancar a coisa, com dignidade, a nível de super-indústria cultural. Como no primeiro festival - e é fundamental que haja um segundo - o desenrolar das coisas daqui pra frente dependerá da força e do talento dos artistas nacionais e de todos aqueles que estão nesta batalha - onde, humildemente, Roll se inclui. Só isso poderá guinar o leme na direção de manifestações mais autênticas. Com o Rock In Rio foi iniciada a contagem regressiva para o aqui e o agora. Os dados estão lançados e agora deve-se cuidar para que a soma dos números não seja um mero produto do acaso. Por favor, não subestimem a consciência da juventude. Ela saberá julgar o seu tempo."
Angus Young: AC/DC
 Segue-se uma resenha dos dez dias de shows, quando algumas bandas e artistas chegaram a se apresentar duas vezes, para dar mais opções para que os fãs pudessem assistir os shows mais aguardados por eles. Também foram colhidas algumas impressões de personalidades da música, do jornalismo e das gravadoras, como o inglês Jim Capaldi, ex-baterista do Traffic, que morou um bom tempo por aqui:
"O que me impressionou no Rock In Rio foi a energia dos shows. O equipamento era fantástico e deve ter custado uma fábula, mas o que mais me deixou surpreso foi a energia das bandas. Nos grupos ditos 'metaleiros' o que mais me chamou a atenção foram os bateristas, o peso que eles davam às músicas. Os grupos estrangeiros podiam ter vindo a apresentado qualquer show, mas não, eles se preocuparam com o que fizeram ao vivo. Não foi uma apresentação qualquer, foi algo muito ensaiado. O público brasileiro é muito passivo, os shows se atrasam e ninguém reclama. Com a pontualidade vista no Rock In Rio, o público certamente vai começar a ficar mais exigente. Na Inglaterra se um show se atrasa o público imediatamente começa 'Oh, Capaldi! Como é que é?' Além disso, os grupos brasileiros vão ter agora que se preocupar mais com  a parte de produção dos espetáculos."
Só pra lembrar, naquele festival tocaram os seguintes artistas e bandas; Ney Matogrosso, Erasmo Carlos, Baby Consuelo/Pepeu Gomes, Whitesnake, Iron Maiden, Queen, Ivan Lins, Elba Ramalho, Gilberto Gil, Al Jarreau, George Benson, James Taylor, Paralamas, Lulu Santos, Blitz, Nina Hagen, Go Go's, Rod Stewart, Moraes Moreira, Alceu Valença, Kid Abelha, Eduardo Dusek, Barão Vermelho, Scorpions, AC/DC, Rita Lee, Ozzy Osbourne, Yes e B52's,

4 comentários:

  1. Oi, Marcio, tudo bem? Estou garimpando revistas ROLL e BIZZ. Parece que vc tem algumas, pode me dizer se no miolo delas há aquelas seções de fã clubes e troca de correspondência entre fãs de música? Obrigado.

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  2. Sim, Eduardo. Na Bizz se encontra essas seções. Um abraço

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  3. Eu, Luis Dal Corso e minha namorada Suzete Kummer fomos no primeiro Rock in Rio de 1985. Ganhamos passagens de onibus e ingressos numa promoção da Radio Cidade de Porto Alegre. Temos algumas fotos do festival. Alguem que tenha ganho esta promoção da Radio Cidade tem fotos para trocar?

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  4. Que legal, Luis! Suas fotos estão visíveis em algum site? Abraços, Eduardo.

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