Palavras Domesticadas

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domingo, 29 de setembro de 2013

Jorge Mautner Fala de Orquídea Negra e Zé Ramalho

A música "Orquídea Negra" é uma composição de Jorge Mautner, que fez sucesso na voz de Zé Ramalho, e inclusive deu título ao disco onde ela está incluída. A música é tão identificada com a linguagem e o perfil artístico de Zé Ramalho, que muitos acham que a composição é do músico paraibano. Essa confusão chegou a ocorrer até em uma coletânea de Zé Ramalho, onde Orquídea Negra está incluída, e a autoria da música é erradamente atribuída a Zé Ramalho. Lembro que um dia estava na casa de um amigo ouvindo essa coletânea, e quando tocou Orquídea Negra alguém destacou os versos como uma grande letra de Zé Ramalho. Então eu corrigi que a música não era de sua autoria, e sim de Mautner. Mas ao pegar o CD para comprovar a real autoria, pra minha surpresa, vi que naquela coletânea ela era atribuída a Zé Ramalho. Anos depois, ao conhecer Jorge Mautner lembrei desse fato, e o próprio Mautner ficou de corrigir esse engano, até por questão de direitos autorais.
No livro "Zé Ramalho - Um Visionário no Século XX", de Luciane Alves (editora Nova Era - 1997) há um depoimento de Mautner falando de Orquídea Negra e Zé Ramalho:
"Compus Orquídea Negra pensando em Zé Ramalho. Essa música é uma saudação à bandeira negra da loucura e da pirataria. Loucura que a razão oficial negava. É a rebeldia, a imaginação da quarta dimensão, sempre presente nos trabalhos de Zé Ramalho. Ele é o anjo do impossível. Sua obra tem um surrealismo onde o absurdo e a realidade se entrecruzam muito fortemente. Onde a própria experiência pessoal nunca está separada da peça de arte que produziu. Zé Ramalho é muito profundo, um poeta que desvela as profundezas do ser humano.  É como um médium que recebe mensagens. Ele fala muito dos mistérios de Atlântida, pois esse é um assunto com o qual está muito envolvido. Ele mesmo vibra muito com as sete pedras, com  as inscrições antiquíssimas, e fica muito revoltado com a descrença das pessoas. Sobre esse assunto tudo é muito obscuro, mas, a exemplo de outros acadêmicos, Lévi-Straus, em seu último livro, fala do Amazonas e cita um explorador chamado Cabeza de Vaca, que teria explorado o sul da América e encontrado no Amazonas uma civilização com seis milhões de almas que não eram índios e tinham casas com tetos de ouro. Isso foi motivo de muita gozação na época. Daí nasceu a lenda do 'Eldorado'.
Mas tudo isso foi provado graças ao teste radioativo do carbono-14 e de algumas explorações arqueológicas. Ficou provado ter existido ali uma civilização diferente de nossos índios. Suas vestimentas eram diferentes, muito parecidas com as dos astecas. Chegou-se então à conclusão de que a civilização inca começara no Amazonas e dali fora para a Cordilheira dos Andes.
Ideias como esta, Zé Ramalho captou do inconsciente coletivo de poeta. ele tem um farto material sobre as sete pedras e sobre lugares misteriosos. É um profundo desvelador desses mistérios. Sua cultura é muito embasada no Avôhai. Ele tem todo o inconsciente altamente literário da Paraíba. Nesta região existem pessoas que, embora analfabetas, são capazes de produzir poesia de alta qualidade literária. Exemplo disso é Zé Limeira. Zé Ramalho comunga este inconsciente coletivo, e essas coisas, nem a lógica nem a psicologia nem a filosofia alcançam. Esse mistério é Zé Ramalho."

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