Palavras Domesticadas

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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Walt Whitman: Modernidade Sem Métrica ou Rima

Walt Whitman é considerado um dos melhores poetas da língua inglesa. Sua forma moderna e revolucionária de escrever seus versos levou-o, inclusive, a ser considerado como um dos precursores e influenciadores da Beat Generation, que surgiria nos anos 50. Em março de 1992, por ocasião do centenário de sua morte, o professor e tradutor Paulo Henrique Britto escreveu um texto sobre Whitman em O Globo:
"Se quiséssemos escolher um ano para assinalar o nascimento da poesia moderna, 1855 seria uma boa escolha. Em junho deste ano, em Paris, Charles Baudelaire publicou 18 poemas na prestigiosa 'Revue des Deux Mondes'. No mês seguinte, em Nova York, foi colocado à venda um livro de cerca de cem páginas intitulado 'Leaves of Grass' (Folhas de Relva). A capa não trazia o nome do autor nem do editor, e sim  a foto de um homem na faixa dos 30, vestido como um operário, com ar displicente. O homem do retrato, que era o autor do livro, chamava-se Walt Whitman, cujo centenário de morte está sendo comemorado este mês.
As diferenças entre os poemas de Whitman e os de Baudelaire provavelmente seriam, para um leitor médio da época, mais evidentes que as semelhanças: Baudelaire trabalhava com  as formas tradicionais da poesia francesa, enquanto Whitman escrevia versos longos, caudalosos, sem métrica e sem rima. Tal leitor talvez atribuísse aos dois, o gosto pelo escândalo: Baudalaire escrevia sobre prostitutas e sarjetas imundas, e oferecia preces ao demônio; Whitman dizia que o cheiro de suas axilas era melhor que o das preces, e numa passagem dava a entender que havia passado uma noite inesquecível com Deus. Porém, um leitor menos ingênuo e mais perceptivo assinalaria uma afinidade bem mais importante: em Baudalaire e Whitman, surgia pela primeira vez na poesia ocidental a grande cidade moderna.
Mas é justamente neste traço comum que vamos encontrar a diferença fundamental entre os dois poetas. Enquanto a Paris de Baudalaire é essencialmente uma paisagem noturna, pela qual o poeta vaga, solitário e passivo, a Nova York de Whitman é, acima de tudo, um lugar de trabalho, cheio de operários, máquinas, barulhos de toda espécie, onde o poeta não se limita a observar e registrar o que vê, porém participa de tudo. Mais ainda, o poeta é tudo e todos:
'Não sou só o poeta do bem... não me recuso também a ser o poeta da maldade.' E, ao identificar-se com a experiência humana em toda sua diversidade, ele confere a tudo a divindade que seu magnífico narcisismo se auto-atribui: 'Divino sou por dentro e fora e santifico a tudo que toco ou que me toca.'
No plano formal, a grande contribuição de Whitman foi o verso livre, que veio a se afirmar como a forma mais característica da poesia moderna. A liberdade de forma que Whitman se permite não se apresenta como uma escolha arbitrária. Para uma poesia que ambiciona a totalidade, que sonha conter num verso a pluralidade da condição humana, com todas as suas contradições, a única forma adequada é aquela que contém todos os sons e ritmos, sem privilegiar nenhum.
Se como introdutor do verso livre e do tema da moderna metrópole capitalista a influência de Whitman foi imensa, sua obra destoa da maior parte da poesia moderna,  pelo que tem de afirmativa e otimista. Whitman aceita tudo, regozija-se com tudo; nada nele é alienação ou estranhamento. Sob esse aspecto, só Joyce pode ser posto a seu lado: o 'Ulisses' é talvez a única grande obra moderna em que encontramos o mesmo sentimento orgiástico de imersão da vida., com total aceitação de tudo que há nela, que vemos em Whitman. A visão da civilização moderna que encontramos na melhor literatura de nosso século deve mais ao spleen noturno de Baudelaire que à embriaguez solar de Whitman. Quando Whitman morreu, há cem anos, Mallarmé refugiava-se do mundo em meio a seus livros e destilava a essência do nada em seus versos perfeitos; e 25 anos depois, o cristão Eliot condenava em seus 'Preludes', o mundo urbano que o pagão Whitman santificava. Modernos (ou pós-modernos) desiludidos, somos filhos de Baudelaire e suas sombras; Whitman é o bardo das promessas que a modernidade jamais cumpriu."

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