Palavras Domesticadas

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sexta-feira, 23 de março de 2012

James Brown - O Rei do Soul




Quando adolescente, comecei a moldar meu gosto músical, através principalmente do rádio e da tevê. Naquela fase eu começava a descobrir novos sons, bandas e artistas que me faziam observar atentamente o que tinham a mostar, e aquilo tudo me fazia adentrar em um mundo novo, em que a música ia me conduzindo. Gostava de música brsileira, mas me encantei também pelo rock. Mas antes do rock entrar em minha vida como uma avalanche, um artista negro me cativou, e foi meu primeiro ídolo na música internacional: James Brown.
Eu via muitos clipes de James Brown em um programa apresentado por um DJ e dono de equipe de som, que promovia bailes pelos subúrbios do Rio de Janeiro, chamado Monsieur Limá. Eu via aqueles clipes e ficava extasiado com o vigor, o ritmo, a voz e o balanço daquele negão. Lembro também de ter assistido a uma apresentação pela tevê de um show que ele deu no Brasil na época, início dos anos 70, e enlouqueci com o que ele fazia no palco. Sua música trazia um balanço irresistível, sua dança era hipnótica, sua presença no palco era algo de arrepiar. De vez em quando ele jogava o pedestal do microfone em direção ao chão, e ele voltava a posição normal imediatamente, sempre aparecia um assistente de palco que enxugava seu rosto em uma toalha, e depois colocava um manto sobre ele, enquanto a banda, impecável, conduzia o ritmo sem parar. Sex Machine era minha música preferida naqueles tempos. Assim foi James Brown, o sacerdote do soul, até sua morte, no Natal de 2006. Sempre irei me lembrar daquelas imagens que me fizeram admirar a soul music antes mesmo do rock.
Em 1986, em plena forma, Brown lançava mais um disco, Gravity, e na ocasião o crítico Tárik de Souza fez uma resenha no Jornal do Brasil:

"Como toda majestade ele desfila repleto de títulos: 'O chefão do funk','Mr. Dinamite', 'Soul Brother nº 1', 'O homem que mais trabalha no show business', 'A máquina do sexo' e o autoproclamado 'Ministro do novo super heavy funk'. Imortal com fardas e manto sem dispensar a cerimônia da coroação durante os shows, o peso-pesado James Brown volta literalmente ao centro do ringue. Físico do boxeur que foi na juventude, Brown reaparece nas paradas após dez anos de ostracismo catapultado pelo filme Rocky IV do esmurrador Silvester Stallone. Foi do ator a exigência da cena com JB cantando enquanto o personagem Apollo Creed prepara-se para enfrentar o gigante soviético Drago. A canção Living In America, uma das poucas coisas que se salvam na pífia trilha sonora do filme, impulsiona o novo elepê de Brown, Grafity, selo Scott Bros., distribuído pela Epic/CBS. Mas não é a melhor faixa do Lp que tem pedradas do tipo Turn Me Loose, I'm Dr. Feelgod, de ritmo afiadíssimo. Ou Let's Get Personal onde funciona a mil uma usina de gritos e sopros que influenciou meio mundo da música, de Prince e Miles Davis a Tim Maia e Mick Jagger.
Americano da Georgia, nascido na parte miserável da sulista Augusta num ano impreciso do início da década de 30 (uns biógrafos dizem que está com 56 anos, outros com 53) James Brown levou ao paroxismo a ligação do canto da igreja com a eletrificação do rhythm & blues. Nascia o funk de frases curtas, metais fumegantes e uma ambiguidade safada entre os místicos apelos religiosos do gospel e os uivos da Sex Machine, de It's a Man Man's World, I'll Go Crazy You've Got To The Power, Please, Please, Please e outros meteoros. A marca Soul Brown fez a cabeça de várias gerações de ídolos negros, a começar pelo mítico Ottis Redding, do cortante Wilson Picket e do iluminista Sly Stone. Não é pouco. Além das canções que escrevia, onde as poucas palavras martelavam com insistência a consciência negra emergente, Brown era um militante independente mas fervoroso da causa de Martin Luther King. Saiu de sua garganta o grito da raça, Say It Loud - I'm black and I'm proud (Diga em voz alta - Sou negro e me orgulho disso).

Para os adeptos dessas facetas do megastar (o movimento Black Rio o entronizava), o Lp Gravity desembarca com algumas decepções. O aprumado astro de rosto roliço e escandalosa peruca mais os inseparáveis lenços no pescoço, se não mudou de lado, ao menos aposentou a borduna. Fez a campanha de Ronald Reagan a quem considera 'um bom homem' e não emite qualquer proclamação rebelde em Gravity. Ao contrário, abdicou da função de compositor: as oito canções do disco levam a assinatura da dupla Dan Hartman (também o produtor, guitarrista e backing vocal) e Charlie Midnight. Cercado de convivas ilustres como o tecladista Stevie Winwood e o guitarrista Stevie Ray Vaughan, e os metais Uptown Horns, unica evocação dos Famous Flames que o consagraram, Brown limita-se a cantar. Mas isso é suficiente para recomentdar o disco. Ele fica na fronteira entre a acidez de uma arte sem concessões, a do Soul Brown do final dos 50 e início dos 60 e a 'tecnopoperacia' atual. Do funk marcial (Goliath) ao didático (Repeat The Beat); do bolero moderno (How Do You Stop) ao velho rhythm & blues com direito a evoluções de órgão Hammond (Return To Me), a diferença entre o aroma e a essência soa paupável. É o que separa o original da diluição. Nascida do super-heroi único do funk a arte musculosa de James Brown (ainda) tem a força."

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