Palavras Domesticadas

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sexta-feira, 9 de março de 2012

Carlos Santana - Magias De Uma Guitarra


Carlos Santana é um dos guitarristas mais criativos da história do rock. Surgido ainda nos anos 60, trouxe a linguagem da latinidade para o rock, caracterizando assim seu trabalho. Também flertou com outros ritmos, inclusive o jazz, tendo lançado alguns discos nessa linha fusion. Em 1987 lançava o disco Blues For Salvador, e na ocasião o fotógrafo e jornalista Carlos Albuquerque publicou a seguinte resenha em O Globo:
"O concerto de Woodstock, no final da década de 60 - ao contrário do que rezam algumas apressadas cartilhas - foi o poente de um movimento chamado contracultura. Tirando-se, entretanto, o miolo ideológico da coisa toda, restou o substrato principal do referido evento: a música. Quem viu o filme saiu com algumas cenas na cabeça. As principais, e mais citadas, eram as performances do Ten Years After, do The Who, de Jimi Hendrix, e de Santana.
Quase duas décadas depois, é um curioso exercício arqueológico localizar tais artistas. O TYA praticamente se tornaram uma banda de uma canção só, já que em todos seus shows pós-Woodstock, as plateias exigiam que Alvin Lee e sua banda repetissem a pirotecnia de 'I'm Going Home'. Já Hendrix deu seu último rasgo de genialidade no concerto. Pouco depois faleceu, sufocado pelo próprio vômito. O The Who manteve-se brilhantemente na ativa. Desbandou-se, há alguns (poucos) anos atrás, com maturidade e sem escândalos. Da turma toda, restou Carlos Santana. Duas décadas depois, ele ainda exercita constantemente no vinil, sendo 'Blues for Salvador' o mais recente exemplo disso.

Em vinte e um anos de carreira, incontáveis fãs e alguns detratores. Convenhamos, é muito tempo para alguém conseguir manter uma unanimidade de crítica e público. A seu favor, contam momentos mágicos, uma fonte de calor e balanço nos momentos em que o rock mais teve problemas de cintura dura. Santana foi o fisioterapeuta ideal. Elepês como 'Abraxas' e 'Santana 3' davam a receita: doses perfeitas de rock básico, aliados a uma singular selva percussiva, capaz de levantar zumbis da tumba. O componente principal era a guitarra de Carlos, capaz de alternar longos solos, sustentados quase infinitamente, com notas rápidas e faiscantes. Para tomar quantas vezes fosse necessário.
Depois flertou com religiões orientais e com sonoridades jazzísticas. Seu melhor trabalho é dessa fase - quando começou a chamar-se Devadip Carlos Santana - o emocionante 'Caravanserai'. Desse período, restaram elogios da crítica e queda nas vendagens. O sinal vermelho veio da gravadora. Foi dada a partida na fase mais comercial de sua carreira. Vieram os desiguais 'Amigos', 'Festival' e 'Inner Secrets'. Vieram os tais detratores.
Hoje, ele parece ter conseguido a equação ideal entre o seu som e o que é 'pedido' pelo mercadão. Mesmo assim, ainda alterna belos momentos como 'Havana Moon', com outros menos inspirados, como 'Marathon'.

'Blues for Salvador' fica assim, num meio termo entre esses dois opostos. Se não chega a ser um dos seus melhores trabalhos, também não fica engasgado na garganta. Desce suavemente, como um sorvete numa tarde calorenta. Isso permite que 'Deeper, Dig Deeper' e 'Hannibal', já lançadas posteriormente, tenham outras versões lançadas. A primeira ficou só com a base intrumental, deixando de fora a voz de Buddy Miles. Já 'Hannibal' tem sutis diferenças da original, o clima latino é mantido, com uma falsa coda jazzística no final.
O melhor talvez esteja em 'Now That You Know', um longo improviso instrumental, com destaque para as passagens de Alphonso Johnson no baixo e Carlos na guitarra. Nada mal para quem corre há anos o louco grande prêmio do rock an roll. 'Blues for Salvador' não chega a ser uma pole-position. Mas é uma ótima volta."

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