Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

sábado, 17 de março de 2012

20 Mil Pessoas em Show de Milton Nascimento no Maracanâzinho


Revendo um antigo recorte de uma matéria que saiu no Jornal do Brasil, falando sobre um show de Milton Nascimento em 1987, refleti sobre como as coisas mudaram no Brasil nesses últimos 20, 25 anos.
O que me chamou a atenção é o fato de na época um astro como Milton lotar um enorme ginásio, como o Maracanãzinho, atraindo vinte mil pessoas para assisti-lo. Hoje em dia não sei se um artista com um trabalho diferenciado e sem apelos populares de marketing e mídia conseguiria atrair tanta gente. Realmente os tempos eram outros. Hoje em dia o Maracanãzinho nem é mais usado para grandes shows.
Fico pensando também, em quanto era mais acessível ao público, assistir bons shows, de artistas de peso. Shows em grandes ginásios, com preços mais populares eram comuns naqueles tempos. Hoje, por exemplo, um show de um artista como Chico Buarque, que tem um grande e fiel público, não sai por menos de R$ 300, e o que é pior, nem sempre a visão do palco é a melhor, e que justifique o alto valor cobrado. Por mais que seja confortável assistir a um show sentado à uma mesa, aqueles shows em ginásios lotados eram bem melhores. Me sentia muito mais à vontade sentados nas arquibancadas, ou em pé mesmo, e pagando um preço justo pelo ingresso. A verdadeira arte se elitizou, e isso tem afastado o grande público dos bons shows, enquanto os pseudo-astros fabricados e manipulados pela mídia lotam os ginásios e casas de espetáculos com ingressos populares.
Voltando à matéria de Milton, assinada por Alfredo Ribeiro, ela traz em destaque: "Duas horas alucinantes no Maracanãzinho: o artista vai aonde o povo está". Abaixo transcrevo o texto:
"O povo só precisa de um bom motivo para ir ao encontro de onde o artista está. Mesmo que ele esteja no Maracanãzinho. E se é Milton Nascimento quem convida para a festa dos 20 anos de sua travessia profissional pelos bailes da vida, o estádio abre suas partes para uma plateia absolutamente hipnotizada, alheia a qualquer desconforto ou problema de acústica. Foi uma noite de arrepiar esta de sábado passado, quando a versão moderna do 'cantor das multidões' foi homenageado por 20 mil pessoas, que espremidas e encharcadas de suor, cantaram com Milton todos os seus grandes sucessos, consagraram repetidamente em coro o nome do artista e ainda interromperam o espetáculo para estremecer as arquibancadas em ritmo de 'parabéns pra você'. 'Assim cês matam nós', agradeceu o bom mineiro, retribuindo o carinho do público com um show memorável que abriu a turnê nacional do cantor e sua nova banda.
Às 20h, a festa já rolava nas arquibancadas praticamente tomadas do Maracanãzinho. Um clima bem parecido com o dos festivais daquele tempo em que Milton subiu pela primeira vez num palco para cantar Travessia. Preservativos infláveis sobrevoando a plateia, vaias, aplausos, bolinhas de papel. Uma hora e meia depois, Milton entrou em cena vestindo macacão branco e o inseparável boné de brim azul. Começou o show com 'Canção Amiga', dedicada ao 'nosso poeta maior, Carlos Drummond de Andrade'. Era a primeira de uma série de homenagens que prestaria naquela noite a velhos amigos de admiração e de parcerias. Lembrou-se de Fernando Brant, Márcio Borges e Lô Borges, deixando Wagner Tiso de fora da mamória e do palco.
Sai Wagner Tiso e entram os tecladistas Túlio Mourão e Rique Pantoja, uma dupla que não deixa saudades do antigo companheiro que esteve junto de Milton por quase toda uma carreira. Na guitarra revelou-se o jovem Heitor T.P., com Artur Maia no baixo e Robertinho Silva dividindo a bateria e percussão com os filhos Ronaldo e Wanderlei. Positivamente, a família Silva não é uma família qualquer. Tem a harmonia de um trio de ritmistas da pesada. Enfim, uma banda supertalentosa e competente, com versatilidade para executar arranjos jazzísticos como o que foi preparado para Saídas e Bandeiras, uma das 25 músicas do show.

Milton fez um apanhado de seus maiores sucessos nesses últimos 20 anos, sem nenhuma reverência maior a Travessia. A aniversariante da noite foi encaixada no meio do roteiro do show e não teve chance na hora do inevitável bis. Mas deu motivos para que fosse lembrado um outro marco de 20 anos, só que na carreira dos Beatles. 'Pois é, 20 anos de Sargent Peppers e nós aqui de Abbey Road', disse para anunciar You Never Give Me Your Maney. Cantou também 'outra musiquinha do festival', Morro Velho, e coisas que gravou depois, como Fé Cega,Faca Amolada, Paula e Bebeto, Maria, Maria, Nos Bailes da Vida, Circo Marimbondo, O Cio da Terra, Clube da Esquina 2, Idolatrada, Amor de Índio, Beatriz, Mariana, até Encontros e Despedidas e Lágrimas do Sul, de seu último disco. Deu de presente para o público 'uma música novinha', Amor e Paixão, e teve o bom senso de poupar a saturadíssima Coração de Estudante. O destino exilou esta música dos ambientes festivos.
Foi uma consagração em reconhecimento e à voz do artista, que teve que voltar ao palco para uma canja com Ponta de Areia e ainda bisar Maria, Maria. Duas horas alucinantes no palco, seguida de outras duas horas de cumprimentos e pedidos de autógrafos dos fãs, que formaram fila nos camarins até 1h30min da madrugada. A partir de agora, Milton solta a voz nas estradas comemorando sua travessia em 13 cidades, mas já estuda a possibilidade de voltar ao Rio com o mesmo show. Afinal, um artista vai onde o povo está."

2 comentários:

  1. Estava neste show. Emocionante quando vinte mil vozes cantaram parabéns pra você e Bituca simplesmente falou: "Assim ocês mata nós."

    ResponderExcluir