Palavras Domesticadas

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domingo, 18 de agosto de 2013

Caetano Veloso - Entrevista Rara - 1983 (3ª Parte)

"JNM - Você tem uma preocupação de se mostrar atualizado?
Caetano - Vai ver que eu tenho. Mas eu não noto. Eu tenho é uma vontade de expor o meu gosto, né? Pra todo mundo saber do que é que eu gosto. Porque as pessoas aí pensam naquilo que eu falei. Na verdade as pessoas pensam muito naquilo que eu falo, eu tenho consciência disso, então, eu escolho o que falar.
JNM - Por que você acha que as pessoas pensam muito no que você fala?
Caetano - Porque eu vejo, eu noto. Me perguntam coisas, ficam curiosas sobre minha opinião, então eu vou logo dizendo.
JNM - Você se sente, assim como se fosse um olheiro de música brasileira?
Caetano - Me sinto um pouquinho. Olheiro? Me sinto um pouco responsável. Mas eu  acho que cada um de nós é de fato responsável. Cada um de nós que faz música é de fato responsável. E eu tomo o encargo de demonstrar que sei que nós somos responsáveis. Mas de uma maneira bastante irresponsável.
JNM - Você acha que a crença é necessária?
Caetano - Não. Eu perdi a religiosidade e fiquei ateu. Mas acontece que eu nunca deixei de ser superticioso, e isso é chato. Sinceramente eu não gosto muito do além, da ideia de outro mundo, não tenho simpatia por essa coisa de sobrenatural. Eu gosto da vida, esta aqui. Agora eu tenho uma coisa que é impossível eu deixar de ter, que é o respeito pelo mistério, porque só há mistério, a gente não sabe nada. Então eu tenho respeito pelo mistério, e tenho vícios mentais de supertição, dos quais não gosto. Então, eu tenho uma relação enviesada com religião. Eu voltei a ter uma relaçaõ propriamente religiosa depois de 68, junto ao Tropicalismo. Eu me lembro que no dia que eu cantei 'É Proibido Proibir', eu gritei uma frase linda, que eu acho linda até hoje, mas me assustou e me angustiou durante muito tempo, gritei no 'TUCA', o pessoal me vaiando e entre outras coisas eu gritei assim: 'Deus está solto!' Aí eu fiquei impressionado com aquilo, achei que era uma coisa estranha e bonita ao mesmo tempo. Mas também eu acho que como eu queria impressionar as pessoas, impor uma força, então eu reconheci o valor, pelo menos psicológico e social, da religião, quer dizer, de uma certa forma organizar ou inorganizar o mistério pra exercer poder sobre as outras pessoas. Isso é uma coisa, que sem dúvida nenhuma, a religião faz e eu vi isso. Mas por outro lado eu passei momentos angustiosos na minha vida por causa disso. Eu tomei uma droga chamada auasca e tive uma verdadeira viagem mística. E era ateu nesse período, então era muito difícil incorporar aquilo à minha mente, direito. Mas hoje, pouco a pouco, foi ficando possível. Mas no período foi horroroso, porque pensei quer estava louco. Aí conversdando com Rogério (Duarte, um amigo meu, artista gráfico, escritor e poeta) eu disse assim pra ele: Rogério, é uma coisa brutal porque eu não acredito em Deus... - E ele falou assim: - 'É, não acredita em Deus, mas eu vi'. Foi isso que aconteceu comigo. Aí eu fiquei com uma sensação da religiosidade complicada, e também fiquei com muita impaciência pra um tipo de materialismo grosseiro que o ambiente universitário de esquerda, no qual a gente vivia, alimentava. Eu acho aquilo primário.: 'Ah, a gente sabe tudo, tudo é isso mesmo, é assim, vamos fazer revolução...' Eu achava tudo isso uma bobagem, então a religiosidade também parecia voltar. E ela voltou também com a liberação sexual. Porque a sexualidade, de uma certa forma, é reprimida de uma maneira muito semelhante à maneira pela qual a religiosidade é reprimida.
JNM - Você acha que uma influencia a outra?
Caetano - Eu acho que as duas têm a ver uma com a outra, sem dúvida, mas a repressão que se exerce sobre uma e a repressão que se exerce sobre outra, são de natureza semelhante: reprime-se a sensualidade e a sexualidade assim como se reprime a religiosidade. Eu notei isso também na época do Tropicalismo, e também sobre isso eu quis me manifestar.
JNM - Quando você estava entrevistando o Mick Jagger você falou 'quando eu voltei', depois você corrigiu: 'quando me deixaram voltar'...
Caetano - Aquilo é porque eu estava fingindo que tava perguntando, porque eu já tinha perguntado em inglês. E quando eu perguntei em inglês eu disse isso a ele, porque antes da entrevista, nós ficamos conversando, batendo papo e ele me perguntou sobre o meu período em Londres, então eu contei a ele que eu tava exilado, que eu tinha sido preso e exilado, ele perguntou porque e eu contei rapidamente. Ele não entendeu direito, porque é preciso conhecer o Brasil pra saber porque eu fui preso e exilado. Ele já foi preso algumas vezes por causa de drogas, ele pode ter imaginado que podia ter sido por drogas... Na hora eu tava falando com ele, eu falei: quando me deixaram voltar ao Brasil.
JNM -  Você tem alguma amargura dessa época de sua vida?
Caetano - Eu tive muito mais amargura na época, né? Agora não. Agora sou mais feliz. Acho que aquilo não representa muito no Brasil, eu vejo muito daquilo agora. Agora sou mordido de cobra.
JNM - Você acha que aquilo foi necessário pro seu trabalho ser reconhecido? Porque antes ele era combatido...
Caetano - É. Eu já critiquei muito certa área da curtição brasileira que elegeu o meu trabalho depois que eu fui exilado, e somente por isso, quiseram me confundir com a esquerda. E como eu reagi contra isso, na volta ao Brasil, todos cairam de pau em cima de mim de novo. Mas hoje eu sou muito feliz, porque essa garotada que tem 16 anos agora, e que me adora direto, de uma maneira que a garotada que tinha 16 anos naquela época me adorava. Eles tinham o mesmo preconceito que eu teria tido contra o Raul Seixas. Como eu fui preso e exilado eles resolveram me anistiar, essa gente de esquerda. Mas aí quiseram me confundir com alguma coisa que eles já eram e que eles acharam que eu também era. E eu disse: Não! Não é nada disso. E eles ficaram putos, quiseram me esculhambar, e até hoje tem esse problema. Mas a garotada gosta de mim hoje, que não sabe de nada disso que estou lhe contando, gosta de mim porque gosta. Não tá perguntando se eu fui preso, nem sabe muito. Eu converso muito com 'tietes' meus, garotos e garotas maravilhosos do Brasil inteiro, que falam assim: 'Cara, li em algum lugar que você foi preso uma vez! É verdade?' - Aí eu conto. As pessoas gostam de mim, e não tão perguntando seu eu sou de direita, de esquerda... gosta, gosta de um jeito que naquela época as pessoas não podiam gostar: espontaneamente, diretamente. Agora é  que o que eu faço está chegando naturalmente no Brasil de uma maneira legal. É por isso que eu digo que sou mais feliz."
(continua)

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