Palavras Domesticadas

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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Caetano Veloso - Entrevista Rara - 1983 (1ª Parte)

Não é muito comum artistas como Caetano Veloso concederem entrevistas a pequenos órgãos de imprensa. Normalmente os artistas consagrados, muitas vezes através de seus assessores, selecionam com muito critério para quais jornais ou revistas eles devam falar. No caso de Caetano, que já tem um histórico pessoal de problemas com a imprensa brasileira, acredito que esse critério deva ser bem rigoroso. Por isso considero como rara essa entrevista concedida por ele em 1983 para um pequeno jornal musical de Belo Horizonte, com uma distribuição restrita, chamado Jornal Nossa Música. Acredito que o acesso ao compositor deve ter sido facilitado com a interferência de seu irmão, Rodrigo Veloso, já que ele é citado nos agradecimentos ao final da entrevista, que foi feita na casa de Caetano por Sara Amorim. Segue abaixo a primeira parte da entrevista:
"Uns acham que ele tem muito a dizer. Outros, nem tanto.
Da Bossa nova a atual onda irrelevante do rock, muita vivência se adquiriu. E nesse ínterim, o tropicalismo foi consequência, sendo o último movimento musical digno de menção.
O tempo passou e começa a se descobrir o parentesco da música que se faz hoje com a que se ouviu ontem. E chancelas começam a surgir, como 'filhos de Rita Lee' ou afilhados do Tropicalismo'. A essência certamente ficou e pode ser vista na continuidade e na irreverência dos vanguardistas - Caetano certamente mencionaria Arrigo Barnabé.
Mas na época nem tudo foi entendido, e nem tantas glórias foram distribuídas. A MPB se dividia entre conservadores - 'a ditadura da MPB', diria Rita Lee - a Jovem Guarda e os tropicalistas, num misto de reminiscência da Bossa Nova e a descoberta brasileira pelo rock.
Caetano teve que sentir o amargo gosto do exílio político, quando a política não estava presente em sua música de uma maneira 'ameaçadora', um tanto pelo contrário. E na volta quase vira bandeira de movimentos universitários. Em defesa de sua neutralidade se debateu.
Não era nem uma coisa nem outra.
Era revolucionar a música e não o país.
Era o que interessava: novos comportamentos, novas vestes e pensamentos, através do movimento tropicalista foram traduzidos.
E hoje se sentindo, particularmente, responsável pelo saldo que a atual MPB apresenta, Caetano se coloca a observar, da cadeira de seus 40 anos, todos os movimentos, pelo menos os seguramente interessantes, que os novos nomes da música brasileira podem trazer. E de observador passa a introduzi-los nas suas composições e no seu comportamento de palco, como se estivesse rejuvelhecendo e assinando em baixo dos trabalhos que admira, na certeza de que será seguido. Um genuíno olheiro da música popular brasileira.
JNN - Na entrevista que você fez ao Mick Jagger você perguntou como ele se definiu pelo rock. Então, eu pergunto a você: se naquela época já existia o rock no Brasil, porque você foi pelo caminho da Bossa Nova?
Caetano - Todo o pessoal da minha geração, quer dizer, gente que estudou e entrou na Universidade, uma gente mais politizada e que se interessou por música., não enveredou pelo rock. O pessoal que se interessou pelo rock era uma gente mais ignorante. Por isso eu fiz essa pergunta ao Mick Jagger, porque eu suponho que aquilo ali é uma questão de viver num mundo como o dele. Na resposta dele ele disse que não só o Brasil, mas na Europa Continental, na França, na Itália... aconteceu a mesma coisa, as pessoas se interessaram mais por jazz do que por rock'n roll. Mas que na Inglaterra, ninguém sabe porque, as pessoas se interessaram por rock. Eu, na verdade, era esse tipo de garoto do Brasil, universitário. Ao mesmo tempo em que eu gostava de cinema, jazz, eu não ligava pra rock'n roll, porque achava muito vulgar. Depois é que eu saquei, após conhecer o rock'n rol, mas pra isso foi preciso os Beatles e os Rolling Stones.
JNN - Na época tinha o Raul Seixas, que era rock numa posição meio marginal...
Caetano - O Raul Seixas e o pessoal do rock... era porque a gente era uma gente mais sofisticada intelectualmente. Eu não conhecia, mas ouvia falar 'Raulzito e Seus Panteras', que era um grupo de rock que tinha em Salvador, e nós éramos um grupo de Bossa Nova. Eu adoro o Raul, o primeiro disco dele eu acho absolutamente genial. Mas tem coisas que eu já não gosto mesmo, por exemplo, o folclore dos anos 50, o folclore estudantil-urbano e americano dos anos 50 em que as pessoas dizem que têm nostalgia e querem imitar e tal... eu tenho horror àquilo. Eu não gosto dos anos 50, não gosto daqueles americanos, daquela época, acho chato. Aqueles meninos machistas, com roupas de couro, moto, cabelos curtos com vaselina, eu não gosto de nada daquilo. E o  Raul gostava daquilo, e gosta, ele imitava aquilo. A gente achava aquilo, não o Raulzito, que eu não conhecia, mas ideia, eu achava horrorosa. Por exemplo, eu adoro James Dean, mas o James Dean parecia ser uma imitação grotesca da coisa americana, ele era o inadaptado daquele mundo. Aquele pessoal da Bahia, como aqui no Rio, São Paulo queria imitar a coisa direta, e fica meio grotesco porque os brasileiros são meio fraquinhos, subdesenvolvidos, mal alimentados, então, ficava aqueles... os americanos eram aqueles gatos, fortes com aquelas roupas... E os brasileiros ficavam meio ridículos. Mas não faz mal, porque no fundo eles contribuíram para uma coisa que eu acho muito bacana, que eu acho legal imitar os americanos em muitas coisas.
JNM - Como assim? Em música, comportamento?
Caetano - Em tudo, em comportamento, em música, em tudo, eu acho legal. Nessa época eu não tinha coragem, não tinha disponibilidade. E o Raulzito tinha, entendeu? Por isso ele tava na minha frente.
JNM - Por que seria legal imitar?
Caetano - Eu acho legal em primeiro lugar porque a gente tem vontade, se tem vontade é melhor imitar do que se reprimir. Em segundo lugar porque os Estados Unidos têm coisas que a gente devia aprender a ter. Então é por isso. Simples assim.
JNM - Por que você acha que o Brasil está mais aberto à invasão da música estrangeira?
Caetano - Você veja que os Beatles e os  Rolling Stones existiram e são a coisa mais importante, cultural, da última metade do século XX, exatamente por eles terem sido garotos ingleses que quiseram imitar os americanos e imitaram. O que o Raul Seixas queria fazer o Mick Jagger fez, foi tudo naquilo. Agora, ele tinha uma grande vantagem, porque ele é de  um país mãe dos Estados Unidos, e falam a mesma língua. Então ele, John Lennon, Paul McCartney... essa gente imitou os americanos tão ridiculamente quanto o Raul Seixas, ou seja, tão genialmente quanto o Raul. Só que lá, além da grana, eles têm a língua Mas eles abriram as pernas para a cultura de massa americana, por isso que eles criaram uma coisa genial, eles não reprimiram a vontade de imitar. Uma das coisas mais importantes que aconteceu nessa entrevista com o Mick Jagger, e que certamente não deu pra notar pelos espectadores brasileiros, mas que eu vi  depois aqui em casa, sem a tradução, a gente nota, que é uma coisa genial que ele fala assim: - apareceu na televisão, mas a gente falando português em cima esconde, - mas ele diz assim: que quando eles eram meninos, que eles queriam imitar a coisa americana, e que os próprios americanos, assim, do nível social deles, não tinham interesse pelo rock'n roll que eles na Inglaterra tinham. Ele quis dizer o seguinte: 'quando a gente veio pros Estados Unidos, os Beatles e nós, a gente é que despertou o interesse da maioria dos americanos para esse tipo de música, que era feita aqui, que era o rock'n roll, que tinha, que fazia sucesso mas que ninguém respeitava.' Mas na hora dele falar isso, ele não diz 'quando nós viemos para os Estados Unidos', ele diz 'quando nós voltamos para os Estados Unidos'. ele era tão alienado, como se diria aqui no Brasil, ele era tão deslumbrado por querer ser americano que ainda hoje, com 40 anos, ele cometeu esse ato falho. Ele errou, é lindo isso, né? De modo que é uma lição. Por isso que eu digo que eu acho mais bonito imitar quando se tem desejo. E os Beatles e os Rolling Stones foram a prova de que isso pode ter o melhor resultado artístico, cultural e humano, político e social possível. Enquanto que no Brasil, isso foi o que nós quisemos dizer durante o Tropicalismo, e ninguém entendeu, quer dizer, o medo de imitar, de soltar esses desejos tem levado a uma coisa preconceituosa, a atitudes imponentes, a uma coisa chata que atrasa tudo."
(continua)

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