Palavras Domesticadas

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sábado, 17 de agosto de 2013

Caetano Veloso - Entrevista Rara - 1983 (2ª Parte)

" JNM - No seu caso, você teve uma fase de imitar alguma coisa ou alguém?
Caetano - Ah, tive. Tenho. Pelo menos num determinado momento, eu tive a coragem de dizer que eu não temia imitar, que macaquiar alguma coisa não era perigoso pra mim. Às vezes eu imito o Mick Jagger no palco, por momentos, tem momentos que eu faço de propósito. Mas não é isso que eu tô dizendo. É imitar no sentido de você estar fascinado por uma cultura americana, e fingir que não. Fingir que não é, que é muito ruim.
JNM - Não ter medo de se sentir influenciado?
Caetano - É! E saber que aquilo ali é forte mesmo, se apropriar daquilo. Não é questão de imitar. Você está vivendo num tempo que se expressa daquela maneira, se apropriar do modo de expressão do tempo pra você se expressar também. É isso. É uma potência. Você se sentir ali, não se sentir à margem de alguma coisa que está passando, e que é grandiosa. 
JNM - Você esteve  com Mick Jagger e com Peter Gabriel (ex-Genesis). Como começou isso de querer fazer esses contatos? Foi mais como fã, admirador, como foi?
Caetano - Não começou nada. Apenas me convidaram pra fazer essa entrevista pra TV Manchete, eles iam entrevistar o Mick Jagger e me pediram pra ajudar a entrevistar. E eu fiz isso de fato. De volta da Inglaterra eu estava mixando meu disco no estúdio da Polygram, quando chegou um rapaz da parte internacional dizendo que Peter Gabriel estava lá em cima, e que fazia questão de me conhecer, se eu permitia que ele entrasse na minha sala de mixagem. E eu disse:  Tá legal! Aí ele veio, ficou conversando comigo, ouviu umas faixas... Mas eu não sou fã do Genesis, como sou fã do Mick. Foi ele quem quis falar comigo, quis me conhecer.
JNM -  Dessa conversa com o Mick Jagger o que você tirou de importante pra você?
Caetano - Ele tem uma visão para além do rock'n roll, uma visão sofisticada. Você viu ele falando na televisão, ele fala do rock'n roll como se o rock'n roll fosse uma coisa de gente ingênua, mas como se ele não fosse ingênuo. Fiquei curioso, porque ele é aquilo. Uma outra coisa muito importante pra mim foi ver o modo de se realizar esse 'star sistem', esse sistema de estrelato no alto nível do show business internacional, com essa gente moderna da minha geração. Então eu vi o jeito como o Mick transa isso, o jeito dele atuar, como é com a assessora dele. Senti essa coisa, e também o modo dele se comportar, porque ele fala com aquele inglês de classe baixa da Inglaterra, ao mesmo tempo ele usa as roupas mais sofisticadas e de uma maneira mais livre, e tem o comportamento mais aristocrático do final do século XX. E toda aquela coisa ambígua do masculino-feminino que ele tem, também, na proximidade, o modo dele falar varia de garoto pra mulher, ele dá umas pinceladas femininas no meio de uma coisa que não é. Isso é bonito também de ver. Gostei do modo dele ficar com as pessoas, ele tem um sorriso lindo, um olhar... é uma pessoa generosa, boa, uma coisa linda, faz muito charme, quer dizer, ele gosta muito de encantar as outras pessoas. Eu vi isso de perto, gostei muito dele. Achei ele um anjo.
JNM - Você acha que se faz no Brasil rock brasileiro? Na década de 70 o rock esteve um pouco mais calmo, agora parece que está voltando...
Caetano - O que está acontecendo foi que o rock nos anos 70 ficou meio repetitivo, meio sem graça. Mas não foi só o rock, tudo nos anos 70 ficou meio morno. E agora voltou. Tudo isso aconteceu, posso dizer, são ramos do 'rhytm'blues'. E durante os anos 70 o que dominou mais foi a disco music. E um grande ramo do rock'n roll genial, o mais criativo de todos foi o reggae. E no Brasil só teve um esboço genial disso, que foi feito pelo Jorge Ben, antes, muitos anos antes. Quando pintou a coisa do reggae jamaicano, tanto eu quanto Gil percebemos, todo mundo sabe, que aquilo  era o que a gente sonhava. Tanto que Péricles Cavalcanti e eu quando estávamos em Londres sacamos logo. Em Londres eu já fiz uma homenagem ao reggae em 70.
JNM -  Você dise que parece que está voltando...
Caetano - Agora tá na moda rock'n roll de novo. No Brasil tá pintando muitos conjuntos, mais do que jamais houve, nunca houve tantos grupos. É gozado, com um atraso de 10 anos tão fazendo grupos no Brasil.
JNM - Você acha que ainda está se tentando imitar?
Caetano - Ah, sem dúvida! As pessoas andam vestidas como se estivessem em Nova York. Mas eu gosto Você vê que eu dou a maior força.
JNM - O movimento punk, por exemplo?
Caetano - Tudo. O movimento punk, essas coisas new wave daqui do Rio...
JNM - Por que o Brasil estaria aberto para esse tipo de coisa?
Caetano - O que eu gosto no Brasil, é que o Brasil consegue se abrir de uma maneira descarada e potente para essas coisas. Isso é que me interessa, porque aberto pra isso o mundo inteiro está, só que os lugares ficam tristes, e o Brasil não fica tão triste.
JNM - As pessoas estão sempre perguntando porque você está sempre junto das coisas que ainda vão acontecer, ou seja, quando as coisas acontecem você já está bem antes delas... como no caso do Djavan, por exemplo.
Caetano - É. O Djavan foi! Foi mesmo, no primeiro dia que ele foi cantar naquele festival que se chamava Abertura, em 76, 75, terá sido?(*) Quando muito.  Aí eu vi o ensaio, subi no palco e falei pra ele: -Olha aqui, você é meu namorado, adorei sua música, adorei você. Fiquei sacaneando. Aí chamei ele pra ir no apartamento do meu quarto no hotel, e ele ficou cantando uma porção de músicas. Logo no primeiro dia que o vi... É verdade esse caso. A coisa melhor que tinha naquele festival era o Melodia, mas o Melodia eu já conhecia, o Djavan foi uma descoberta. Mas às vezes não, eu perco o bonde. Às vezes passa uma coisa superimportante que não sou eu quem nota.
JNM - Em 'Uns' você menciona Djavan outra vez, passa um pouco pela Blitz ('Eu não soube te amar'), ainda faz questão de falar no Tim Maia. Porque faz tantas referências assim?
Caetano - Eu sempre falo muita coisa, né? Nome de gente... No outro disco botei o nome de 'Cores, Nomes' por causa disso. É um modo de me referir ao meu trabalho, porque eu sempre fiz uma coisa colorida e uso muitos nomes. O Arrigo Barnabé é contra isso, ele já me disse mil vezes: 'Eu não gosto desse negócio de dizer o nome das pessoas nas letras das músicas'. Mas eu gosto, eu gosto de dizer o nome das pessoas. Sempre eu estou fazendo uma música que é um pouco A Festa de Arromba, entendeu? Eu adoro aquela música 'Festa de Arromba', que diz assim: 'Vejam quem chegou de repente, Roberto Carlos com seu novo carrão...' Ia dizendo, aí chegou o Simonal, chegou a Wanderléa... É porque eu tenho muito essa sensação de tá numa festa de arromba, que é a música popular no Brasil. Eu dou a maior força a quem reclama, a quem exige, a quem chia. Mas o meu sentimento é e sempre foi de festa por participar dessa coisa que é a música no Brasil. Verdadeiramente é por isso que eu falo muitos nomes.
JNM - Com isso você demonstra um gosto seu...
Caetano -  Claro que todo mundo vê que eu dou importância à Blitz... Tim Maia eu homenageio.

(*) O Festival Abertura aconteceu em janeiro de 75
(continua)

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