Palavras Domesticadas

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domingo, 25 de agosto de 2013

Ney Matogrosso - Início da Carreira-Solo (1975)

Em 1975 Ney Matogrosso estava iniciando sua carreira-solo, após a dissolução dos Secos & Molhados um ano antes. A revista Pop de abril daquele ano trazia um matéria com Ney, falando de seus planos, do repertório de seu primeiro disco, que ainda não havia sido lançado, e do show que estava montando. Escrita pelo  jornalista Carlos Eduardo Caramez, a matéria é reproduzida abaixo:
"No palco e fora dele, Ney Matogrosso parece um bicho. Um felino. Insinuante, perspicaz, perigoso. Por destino - ou magia - nasceu regido pelo signo de Leão, neto de índios paraguaios, no interior de Mato Grosso. E tudo isso ajuda a montar o perfil desse cantor que, como todos os felinos, não desiste antes de conquistar o que quer. E também sabe ficar durante muito tempo à espreita - para dar o salto no momento exato, sem qualquer possibilidade de erro.
Assim, vestindo uma pele de onça, dançando com elegância e sensualidade, Ney voltou à arena do show-bizz, depois de cinco meses de espera.
Para esta volta truiufal, que só estará completa no mês que vem, com o lançamento de seu primeiro LP sem os Secos & Molhados, Ney aceitou a tutela do empresário George Ellis, montou uma banda de oito músicos extremamente profissionais e tomou muito cuidado com  a parte visual de tudo, o que fortalece a imagem do Ney felino, imponente e vigoroso como o verdadeiro Leão.
O primeiro passo desse trabalho individual foi mudar de São Paulo ('uma cidade muito pesada') para o Rio de Janeiro, logo após a dissolução dos Secos & Molhados. Aí, depois de alguns meses, assinou contrato com o novo empresário e passou a cuidar só da parte musical do trabalho. 'O empresário cuida de tudo, não preciso me preocupar com casa, comida - enfim, com tudo o que um músico necessita para sobreviver. A única coisa que faço é cuidar de minha música e de tudo o que esteja relacionado com o fato de eu cantar.'
Foi por isso que Ney experimentou vários músicos, antes de chegar, em meados de janeiro passado, à formação ideal e definitiva de sua banda: Márcio Montarroyos, pistão; Sérgio Rosadas, flauta; Cláudio Gabis, guitarra; Jorge, violão e viola; Bruce Henry, baixo; Guilherme Vaz, piano; Helbert, bateria; e Erasto, percussão. Definido o grupo, passou a intercalar aulas de dança e expressão corporal com exaustivos ensaios. 'Nos primeiros vinte dias, tocávamos sete horas a fio, das cinco da tarde até a meia-noite. Agora, ensaiamos numa base de cinco horas por dia.
Ao mesmo tempo, havia a preocupação com o repertório. As músicas tinham que ser fortes, cheias de garra e adaptáveis aos falsetes de sua voz. E não poderiam ser uma simples continuação do processo iniciado com os Secos & Molhados; mas uma queda brusca desse processo poderia prejudicar. Em cima de todas essas preocupações Ney colocou a firme disposição de assumir suas raízes sul-americanas, seu sangue de índio e latino.
A quantidade de músicas novas e inéditas que recebeu dos melhores compositores brasileiros foi estimulante. E acabou não sendo muito difícil selecionar as catorze que compõem o material básico para o show e o LP. Há de tudo: as duas músicas do argentino Astor Piazzolla, já gravadas em compacto na Itália, 1964 (com letra do escritor Jorge Luís Borges), e As Ilhas (com letra de Geraldo Carneiro); Bodas, de Milton Nascimento; Açúcar Candy, de Sueli Costa; Colo da Tarde, de Paulinho Mendonça; Pop Star, de Gérson Conrad; e um verdadeiro hino sul-americano, Essa América do Sul, de Paulinho Machado.
Para esse repertório, Ney preparou uma interpretação mais áspera e visceral, que pode até afastar alguns de seus fãs de antes. Este risco ele corre com serenidade - afinal, outro público pode ser conquistado. E além do mais, 'tudo muda, e isso é o grande barato da vida'.
E é assim, amparado por uma eficiente estrutura profissional, que o felino  Ney começa a sua lenta caminhada pela América do Sul, rumo aos grandes centros da música pop do mundo. Já tem alguns shows marcados, para o segundo semestre deste ano, em vários países da América do Sul e também em Portugal. Mas rejeitou um um convite do empresário de Piazzolla para uma temporada na Itália, no começo do ano. Porque, antes de entrar como um leão nas arenas mais perigosas, é necessário reunir forças para o salto: 'Quero ir devagar e com bastante confiança. Antes vou transar meu lugar, meu país, mostrar aqui o que realmente sou - uma coisa verdadeira que as pessoas gostem. Dessa troca de energias sairá a força para crescer e cantar mais. Muito mais'."

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