Palavras Domesticadas

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terça-feira, 20 de agosto de 2013

Caetano Veloso - Entrevista Rara - 1983 (5ª Parte)

"JNM - O que seria a abertura então?
Caetano - A abertura é uma coisa muito nítida, muito fácil de detectar. A abertura é o seguinte: no governo Médici, quando eu voltei de Londres, havia áreas oficiais, que por exemplo, podiam chamar um artista e exigir: 'Você tem que fazer uma música sobre a Transamazônica, senão...' Ameaçavam, entendeu? Tava mal mesmo. E também a censura podia fazer tudo que quisesse. Você se defender legalmente era impossível. Todos aqueles que tivessem uma posição política diferente daquela que tinha tomado o poder no golpe de 64, e reiterado o poder no segundo golpe de 68 não podiam entrar no país, hoje são governadores de estado. Eu acho tão nítido, eu não entendo porque você faz essa pergunta. É nítido, é límpido. Semana passada o Brizola almoçou com Figueiredo, ou tô louco?
JNM - Em 19 anos o Brasil continua cada vez pior...
Caetano - Isso é outra coisa. O Brasil não era bom antes de 64. O mais importante de tudo é isso.  O Brasil nunca prestou. 64 não foi umm cataclisma, 64 foi um modo do Brasil se expressar.
JNM - Eu não vivi 64.
Caetano - Eu me lembro, porque eu sou muito mais velho do que você. Mas não é porque eu me lembro, eu me lembro de antes de 64, sobretudo porque eu sei, eu vejo e leio, e sei o que é o Brasil antes. Houve momentos melhores talvez em alguns períodos, talvez uma maior harmonia, enfim, talvez com D. Pedro II. Eu não sei História direito pra lhe dizer de que foi melhor em algum período. Mas de qualquer forma nunca foi realmente bom. Nunca foi um país democrático, sempre foi exageradamente burocrático, sempre se mexe com papel demais, e tempo demais, nunca houve uma potência construtiva como houve nos Estados Unidos por exemplo. Não houve.  Não é agora querer dizer: ' Nós éramos uma beleza, em 64 vieram esses merdas não se sabe de onde...' Mentira (os militares são brasileiros, expressam a nacionalidade), aliás, do exército saíram coisas das mais importantes, inclusive o partido comunista, uma coisa que nasceu no exército brasileiro. Sabe o que é? Tinham uns quatro gatos pingados que faziam universidade, e faziam um pouco de sociologia e teatro em 63, e que apoiavam vagamente os projetos de reforma de João Goulart... Houve uma bossa sofisticada de uma pequena minoria, universitoide de 63, de dizer que a gente ia fazer um país de esquerda. Isso foi uma coisa que cresceu, que tentou se expressar no Brasil. Os militares da direita tomaram o poder e expressaram o que o Brasil realmente desejava como um todo, e mais do que isso, o que o Brasil realmente podia fazer. É isso. Agora querer enganar a juventude, dizer assim: ' não, nós éramos uma maravilha, aí vieram esses militares não se sabe de onde'. Não se sabe de onde não, eles são daqui, eles representam a gente, eles estão lá em nosso nome.
Caetano e Gal, nos anos 70
JNM - Eles estão em nosso nome?
Caetano - Sem dúvida!
JNM - Como?
Caetano - Eles estão representando o que nós somos como etnia, como sociedade e como civilização
JNM - Em nosso nome? Eles estão lá porque eles se mantém lá. Não é porque nós queremos que eles estejam lá.
Caetano - Não estou dizendo você e eu. Eu estou dizendo em nome da história do Brasil. Em nome de tudo aquilo que faz que o Brasil seja Brasil, e portanto, faz com que você seja você, e eu seja eu. É isso. Não estou dizendo que é fatal que devesse ser necessariamente assim, poderia ser diferente.
JNM - Você falou que as pessoas gostam de ouvir a sua opinião. No show você fala constantemente que se acha bom. Você gosta muito de você? Se acha o máximo?
Caetano - Eu gosto. Eu falei bem de mim ontem porque eu estava sacaneando o pessoal do jornal que falou mal. Mas às vezes eu falo mal de mim. Às vezes eu me sinto muito... não gosto do jeito que eu sou Eu me acho inferior ao Jorge Ben, Tim Maia... Eu não me acho o máximo. Eu falei que eu sou do caralho, que eu sou foda. Eu não falei que eu sou o máximo não.
JNM - Você sempre está falando: 'eu sei que eu sou bom, tá bonito mesmo...'
Caetano - Mas é preciso tomar as palavras pelo que elas são realmente. Se eu dissesse que eu sou o máximo eu ia ter que responder por elas.
JNM - Eu perguntei se você se acha o máximo.
Caetano - É preciso que tenha gente que seja pretenciosa, e eu sou pretencioso.
JNM - Eu havia lhe perguntado se você se sente um olheiro da música...
Caetano - Um pouco assim, um pouco professor, um pouco explicador, e um pouco também eu faço a coisa. No 'press release' do meu disco está escrito assim: ' Eu sei que não sei fazer nada realmente bonito como Tom ou Tim', mas sei que sei dar como falar. É isso. Essa é a minha opinião sobre mim.
JNM - Teve uma época que você disse que não admitia ser caixa de sabão em pó. E nesse disco você disse admtir ser...
Caetano - Sabonete sim, sabão em pó não, jamé.
JNM - Depois dessa conversa toda eu fiquei sabendo que você vai fazer uma música pra Simone, é verdade?
Caetano - Ela sempre me pede, se eu tiver tempo eu faço. Eu já fiz uma vez e ela não gravou.
JNM - Quer dizer que dessa falação toda não ficou...
Caetano - Não, não tenho inimizade nenhuma com a Simone, eu me dou muito bem com ela, nos beijamos muito. Eu falei no assunto, perguntei a ela se ela tinha ficado zangada, e se eu podia continuar sendo amigo dela, ela aí me deu um abraço e um beijo....
JNM - E a música vai sair pra ela?
Caetano -  Se eu tiver tempo eu faço. Quem sabe eu faço uma música chamada 'Sabão em Pó'? "

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