Palavras Domesticadas

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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Infidels (1983) - Dylan Volta a Ser Dylan


No fim dos anos 70 e até início dos 80 Bob Dylan se converteu ao Cristianismo, e isso se refletiu em sua música. Os discos que lançou nesse período representaram uma fase muito fraca em sua carreira. Aquele Dylan contestador, de letras inspiradas e aquela postura que marcou sua personalidade pessoal e musical desaparecia, para tristeza de seus velhos fãs. Porém, em 1983, aquele velho Bob Dylan voltava à cena, ao romper com sua conversão religiosa, e Dylan voltava a ser Dylan, com o ótimo Infidels, que representou um renascimento em sua carreira. A revista Roll nº 3 fazia uma resenha, assinada por Alexandre M.C. Aguiar:
"Bob Dylan, o maior intérprete da geração beatnik, está de volta. Infidels, seu último elepê, que tem a participação de Mark Knopfler do Dire Straits, apresenta um Dylan em total sintonia com seu tempo, livre dos lamentos cristãos que marcaram Saved e Shot of Love, seus últimos trabalhos. Dylan retorna revigorado à cena do rock, com seu mais brilhante disco desde o antológico Blood on the Tracks. Nos loucos tempos que correm, nada melhor do que a voz do poeta Dylan falando daquilo que sentimos, mas  nem sempre somos capazes de dizer.
Desde Blood on the Tracks (1975), Dylan não fazia um disco tão empolgante. Infidels, seu 25º disco LP oficial, mostra um Dylan reencontrado consigo mesmo e, portanto, capaz de aliar letra e música como só os poetas sabem. Com a colaboração de Mark Knopfler, guitarrista do Dire Straits, Dylan produziu oito canções poderosas, introspectivas e perspicazes, livre dos jargões que pesavam sobre seus últimos trabalhos. As canções de Infidels falam de religião e política e têm raízes numa profunda tristeza:  a tristeza dos corações partidos e dos sonhos desfeitos, a tristeza da meia-idade, a tristeza que tem sido a fonte do rock'nroll, de Chuck Berry e Every Breath You Take.
Quem poderia esperar essa reviravolta, principalmente depois dos mórbidos Lps Saved e Shot of Love, onde o misticista Dylan tecia suas apologias à má consciência cristã? Esses álbuns eram clímax de um processo iniciado com Desire (75), quando ele resolveu se auto-expurgar das metáforas e personas que haviam lhe transformado no profeta dos anos 60. À sua fama Dylan retribuía com simples narrativas sobre sua vida pessoal. Ouvir o artista de mil posturas lastimando 'Sara, oh Sara/ Don't ever go' (Sara, oh Sara/ Nuna me abandone/Nunca se vá) - dava pra se imaginar quanta dor Dylan sentia para estar se despindo dessa maneira.
Além de pessoal, íntima, aquilo também representava uma morte artística. Sob esse ângulo, a conversão de Dylan ao Cristianismo - e os discos que disso resultaram - não era surpreendente. Era como se ele tivesse que adotar uma outra visão de mundo, para poder recuperar a torrencial linguagem figurativa que um dia lhe habitara. Mas o público não viu com bons olhos o seu herói entoando crenças que ele (público) já rejeitara há muito tempo.
Infidels é o fim de todos esses problemas. No lugar deles, um homem de 42 anos, de olhar aguçado, que relata o seu mundo enfadonho e sua frustração, como seu homônimo - o poeta Dylan Thomas - está cantando suave como o mar. Isso teria sido impossível sem a banda arregimentada por Mark Knopfler: Sly Dunbar na bateria, Robbie Shakespeare no baixo, Alan Clark, do Dire Straits no órgão e o ex-Stone Mick Taylor e o próprio Knopfler nas guitarras. Knopfler e seus colegas conseguiram trabalhar com o notório tímido que é Dylan num estúdio, sem sacrificarem a espontaneidade que sempre marcou seus discos.
Dylan, o poeta que ergueu as pontes culturais por onde muitos passaram, sabe que já não é mais a voz de uma geração, e, sabe também que nunca mais escreverá uma canção como Like a Rolling Stone. Tudo que ele parece querer saber, é se o público também entende isso. Depois de anos e anos de discos indiferentes, Dylan está de volta às portas da percepção artística - poeta, antena da raça. Infidels é também um alerta para os homens que selaram com o terror o destino do Homem. Não se trata de humanismo, é a visão crítica de quem disse uma vez, 'the times they're changin', porque mudava com o momento. É ótimo ter Dylan novamente em sintonia com seu tempo. A poesia é irmã da vida, desde que seja viva."

2 comentários:

  1. Se ele tivesse incluido "Foot of Pride" e "Blind Willie Mctell" no LP teria sido o maior disco de todos os tempos de Bob Dylan, mas inexplicavelmente ele resolveu a contra gosto de knopfler deixar essas duas preciosidades de fora e o album ficou apenas mediano...

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