Palavras Domesticadas

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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Caetano X Imprensa: Uma Briga Antiga

A briga de Caetano Veloso com a imprensa vem de muito tempo. A cada comentárioque julga injusto ou tendencioso, Caetano rebate publicamente, e assim, com alguns períodos de tréguas, essa briga vai se arrastando. Em 1978, quando lançou se álbum Muito, Caetano reacendeu essa briga, fazendo inflamados discursos contra determinados órgãos de imprensa durante os shows da turnê do disco. Em umas das raras entrevistas que concedeu na época, para a revista POP (janeiro/79), Caetano soltou o verbo. Abaixo, trechos de sua fala:
"Engraçado, depois que meu LP Muito foi lançado, a crítica levou dois meses para se manifestar. Aí, quando os caras escreveram, falaram muito mal, foi horrível. Então achei que houve alguma dificuldade deles em digerir a coisa... Deve ter sido meio difícil para eles chegarem a uma conclusão e escrever. Então se confundiram e acabaram escrevendo uma coisa confusa..."
"O disco é muito pessoal e, até um certo ponto, é bem confessional. Ele é resultado direto de um show que eu fiz no Rio, com os músicos que costumam me acompanhar em casa. Como a Banda Black Rio, que vinha tocando comigo, não quis encarar a barra de um show inteiro em teatro no Rio, a gente se juntou e fez uma coisa meio improvisada, com muita intimidade. Uma coisa muito direta, muito minha. Daí nasceu o disco: me senti à vontade para fazer uma coisa mais geral, abordando vários tipos de coisas, que é o que eu gosto mesmo de fazer. Meu trabalho anterior, Bicho Baile Show, era o bloco uniforme de uma coisa determinada, particularizada, que eu estava fazendo..."
"Gosto muito do disco. Ele é uma presença bem linda. Várias coisas contribuem para esse desentendimento geral, entre mim e a maioria das pessoas que escrevem sobre música popular na imprensa. Eles pensam diferente. Outro dia falei para um repórter que as pessoas escrevem e vivem pensando que a bossa-nova foi inventada nos apartamentos do Rio de Janeiro. Mas a bossa nova foi inventada na beira do rio São Francisco! Então, como eu sei disso, minha visão é outra. E a visão deles é totalmente diferente.... Outra coisa é que eles se esforçam por parecer cool, né? Essa é uma doença que deu no Brasil. As pessoas, coitadas, são meio assustadas com umas coisas, deslumbradas com outras, ignoram uma série de coisas importantes, temem outras, estão fascinadas por outras, e fingem que são blasé, fingem que estão distantes, superiores, céticas, entendidas de tudo isso. Então esse tom, mostrado por pessoas que, coitadas, mal ouviram falar das coisas, é um absurdo..."
"Falam que o disco é amadorístico, mal feito, mas não é. Acontece que embarcaram numa onda de padrão de qualidade que está muito em moda no Brasil. Não perceberam que eu posso fazer um negócio com muita qualidade sonora sem ter nada a ver com esse padrão... Isso desnorteia os caras. Muito é um disco que me satisfaz imensamente, que eu acho maravilhoso, por isso. Ele é um disco que tem essa sonoridade amadurecida, rica, mas não faz parte do rebanho do padrão de qualidade que está na moda, entendeu?"
"Você diz que algumas pessoas me cobram coisas inovadoras, como fiz em 1968. É verdade. E isso é uma coisa meio boba. O pique revolucionário de 68 não era meu: era de 68. Era uma coisa que tinha em todo o mundo, em todas as pessoas, em toda a parte do mundo ocidental. Não pode ficar querendo: 'Vamos contaminar tudo de novo'. Ninguém combinou. Aquilo tudo tava acontecendo. Não podem querer tudo aquilo de novo. Têm que topar a ideia de que não está acontecendo aquilo. E esperar o que der e vier, porque pode, de repente, acontecer algo até maior do que aquilo. Na verdade, o medo que as pessoas têm é de que aconteça qualquer coisa. Eles querem manter o que eles já assistiram, o mesmo filme, mas não dá. Não adianta. O que pode acontecer é uma coisa totalmente diferente... Mas você procurar unir os pontos dessa cobrança cofusa que se faz por aí, você vai encontrar exatamente um pedido desesperado de mater o filme já visto."
"Ninguém entendeu direito o recado de meu disco anterior, o Bicho. Eu gosto de Bob Marley, de Jorge Ben, e era isso que eu queria dizer no Bicho. Eu estive  na África, eu vi aquilo, fiz uma música imitando as músicas nigerianas. O assunto do disco era esse. E eu gostava do Frenetic Dancin' Days porque na minha área mais de classe média brasileira, de burguesia brasileira morena, branca, com poucos negros, tem as discothèques - e a gente vai ou não vai às discotèques. Eu não gosto de nenhuma, mas o Dancin' Days eu adorava, era uma curtição legal: os caras ficavam nus da cintura pra cima, todo mundo se pegava, brincava, tinha uma coisa assim que eu gosto, que precisa e que faz falta. E o meu Bicho era tudo isso. Era essa a ideia que eu queria passar naquele disco. Está claro?"

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