Palavras Domesticadas

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quinta-feira, 18 de abril de 2013

Viva Vaia - Augusto de Campos

Lembro que meu primeiro contato com a escrita de Augusto de Campos foi aos 14 anos, através de um texto seu que li na capa interna do disco Acabou Chorare, dos Novos Baianos. Na época eu não conhecia nada a seu respeito, nem da poesia concreta. O nome Augusto de Campos por muito tempo era por mim associado apenas com o cara que escreveu umas coisas legais naquele disco dos Novos Baianos. A poesia concreta eu vim conhecer um pouco mais tarde, em doses homeopáticas, primeiramente através de livros didáticos, e aos poucos fui descobrindo e me encantando com aqueles textos altamente visuais, e para mim fascinantes, e assim eu fui descobrindo o concretismo dos irmãos Campos, Décio Pignatari, e demais expoentes do movimento.
Não tenho certeza, mas creio que o primeiro livro de Augusto que comprei foi Viva Vaia, que reúne grande parte de sua obra, publicada entre 1949 e 1979. É um ótimo livro para se conhecer o melhor da poesia de Augusto, mesmo antes da criação do concretismo.
Na ocasião de seu relançamento nos anos 80, pela Editora Brasiliense, foi publicado num periódico trimestral distribuído pela editora, chamado Primeiro Toque (nº 20 - dezembro 86/Fevereiro 87), um texto sobre a obra, escrito por Nelson Ascher, que na publicação assim é descrito: "Como diria a Folha de São Paulo, Nelson Ascher, 28, é poeta, autor de Ponta da Língua, tradutor (alguns dos poemas de Lawrence Ferlinghetti em Vida Fim) e crítico da Folha."
Abaixo, o texto de Nelson:
"Quando em 1974 (ou 75), conheci pessoalmente Augusto de Campos, eu sabia pouquíssimo dele ou de sua obra. Havia lido algumas de suas traduções, que me impressionaram, sobretudo a 'Balada dos Enforcados' de Villon, alguns de seus artigos e um ou outro de seus poemas. Sua poesia, aliás, era a parte de sua obra da qual eu menos sabia. Nem era para menos, pois, esparsamente publicada, em edições de pequena tiragem, ela era a um tempo difícil e fácil de se achar. Naquela época, por exemplo, havia uma livraria que ainda possuía um bom estoque da primeira edição de seu livro de estreia, O Rei Menos o Reino, publicado 25 anos antes. Já seus outros livros, que não tinham sido republicados, eram raridades bibliográficas.
Caetano e o poema Viva Vaia
Foi só com a publicação de Viva Vaia, em fins dos anos 70, que a lira augustiana pôde começar a ser apreciada, no seu conjunto, por um número maior de leitores. Nem por isso faltava, já então, um público seleto e fiel para suas obras. Augusto havia sido uma personalidade pública na segunda metade dos anos 50 em virtude de toda a agitação que cercou os tempos heróicos da poesia concreta. Uma crítica incapaz de compreender seu refinamento e complexidade e uma época de pouco interesse pela poesia fizeram o poeta sair da cena pública até bem recentemente. No meio tempo, Augusto se tornou uma espécie de autor cult, com um público de poetas (Paulo Leminski, Waly Salomão, Torquato Neto), compositores (Caetano e Gil) e intelectuais que, aliás, foram fortemente influenciados por sua teoria e prática.
Os tempos são outros e os novos leitores de Viva Vaia vão se confrontar com a obra de um poeta famoso e cada vez mais consagrado. O interesse por sua poesia já existe, numa escala impensável dez anos atrás. Seu novo público não terá um trabalho fácil, pois sua obra é difícil, complexa e nem sempre  acessível ao leitor desprevinido. Só falta, portanto, a crítica se aperceber disso e começar, em prol do próprio público, a discutir e comentar seriamente uma das mais importantes obras criativas de nossa época."

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