Palavras Domesticadas

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sábado, 6 de abril de 2013

Jards Macalé Gravando "O Q Faço É Música" (1998)

O Caderno B do Jornal do Brasil trazia em 26/04/98 uma matéria sobre os preparativos para o lançamento de um novo disco de Jards Macalé, que ainda estava em processo de gravação. O músico carioca lançaria, após 11 anos sem gravar, o cd O Q Faço É Música. Abaixo a matéria intitulada "A Volta de Jards Macalé", assinada por Silvio Essinger:
"Ele participou dos primeiros dias do Tropicalismo, provocou escândalo no Festival da Canção de 1969 e gravou alguns dos discos mais elogiados da MPB dos anos 70. Mas, como poucos de sua geração, preferiu seguir o caminho contrário da indústria e do showbiz.  Há 11 anos que Jards Anet da Silva, 55 anos, mais conhecido como Macalé (apelido tirado de um dos piores jogadores da história do Botafogo) não gravava um disco. O jejum acaba de ser quebrado com O q faço é música, a ser lançado em setembro, pelo selo Atração Fonográfica. O último disco de Macalé até então tinha sido Quatro Bambas e Um Coringa, editado pela Continental. 'Mas não era um disco de autor', ressalva, lembrando que continha apenas canções de Paulinho da Viola, Geraldo Pereira, Lupiscínio Rodrigues e Nalson Cavaquinho.
'Este agora é meu primeiro disco de autor desde Contrastes (1977)', contabiliza o bissexto artista fonográfico, cuja discografia se completa com Jards Macalé (73), Aprendendo a Nadar (75). Com faixas inéditas, regravações (inclusive a de Vapor Barato) e versões, todas embaladas para o novo CD, ele se explica; 'Não tenho essa fobia de gravação. Gravo quando tenho condições e quero.'
O trabalho está quase completo. Semana passada Macalé gravou em São Paulo as cordas, os sopros e a lendária guitarra de Lanny Gordin (em Vapor). Essa semana, é a vez de pôr a voz. Tudo sem pressa. 'Se 11 anos depois apareceu uma oportunidade, eu não vou sair correndo pra gravar', justifica. O compositor chegou à Atração pelo seu diretor artístico, Wilson Souto, que ocupava o mesmo cargo na Continental na época dos Quatro Batutas. 'Nós nos encontramos em São Paulo e ele perguntou se eu não gostaria de gravar. Ele disse que eu tinha carta branca e eu disse 'Muito obrigado' ', conta. A primeira providência de Macalé foi: chamou o pianista Cristóvão Bastos para fazer os arranjos e com ele se mandou para Penedo, a fim de definir o roteiro do disco. 'Foi uma orquestração ao som das borboletas', diz.
O título do disco vem de uma camisa presenteada por Hélio Oiticica. Em letras garrafais, a incrição Seja marginal, seja herói. Em letras minúsculas, a frase crucial. Assim, começam as ligações entre O q faço é Música e Aprender a nadar, que era dedicado a Hélio Oiticica e à artista plástica Lygia Clark. 'Aprender a Nadar abria as portas para uma forma mais livre e relaxada de fazer música. É o que eu estou fazendo agora. Está sendo completamente fantástico trabalhar com o Cristóvão, que é um professor gentil e dedicado - o relaxado é ele', conta. Segundo Macalé, também como em Aprender, o novo disco tem de tudo - de samba e seresta a rock'n roll. 'Cada faixa é uma faixa em si', diz. E pra fechar, é dedicado novamente a Lygia Clark - 'Ela gostava do meu violão e da minha voz meio rouca' - e a todas as Lígias - a mãe, Lígia Anet, e 'até à Lígia do Tom'.
São várias as inéditas de Macalé em O q faço é Música: Coração do Brasil (esta, com participação da Velha Guarda da Portela e Cristina Buarque). Mais uma vez (parceria com Xico Chaves), Terceira vez (com Abel Silva). Comparecem também poemas inéditos musicados: Dente no Dente e Destino (de Torquato Neto, que considera 'atemporais') e Rei de Janeiro, de Glauber Rocha. Quanto à sua menor participação como letrista, ele comenta: 'sou mais editor'. No disco, Macalé inclui também duas composições instrumentais. Uma é Mais um abraço pro nosso amigo Radamés, dedicada ao ilustre arranjador, que é tocada solo por Cristóvão Bastos. 'Aprendi mais música com Radamés Gnatalli em Penedo, bebendo num bar, do que estudando', diz o ex-aluno do maestro Guerra Peixe e ex-copista do maestro Severino Araújo. Já em Um abraço no Oliveira ele faz seu solo de violão. Quem é  o tal do Oliveira, por enquanto, o compositor prefere não dizer quem é.
Versões e re-versões também não faltam em O q faço é Música. Uma delas é Cidade Lagoa, atualíssima canção do repertório de Moreira da Silva, sobre as enchentes no Rio.  Esta teve direito até a trovões e trovoadas, gravados pelo sonoplasta Chicão. Moreira, por sinal, é figura constante na biografia do compositor. A temporada que fizeram juntos nos idos dos 70, na estreia do Projeto Pinxinguinha, rendeu a parceria Tira os óculos e recolhe o homem, sobre a hilariante história da prisão de Macalé pela repressão. Já nos 90, Moreira passou o chapéu de malandro para o pupilo. 'De vez em quando ele esquece e me passa de novo', brinca. O disco também conta com Unicórnio, do cubano Silvio Rodrigues e Favela, de Padeirinho e Sebastião Fonseca. Esta foi passada pelos autores, mangueirenses, no começo dos anos 80. 'Estávamos conversando num bar, então pedi que Padeirinho me ensinasse. Tivemos que ir lá em casa gravar. Só agora ela sai em disco', diz.

Macalé revisto por Macalé? O disco trará Movimento dos Barcos (com Capinam). Poema da Rosa (sobre poema de Bertold Bretcht) e Vapor Barato (com Wali Salomão), badaladíssimo e regravado por Gal Costa e O Rappa desde que apareceu no filme Terra Estrangeira, de Walter Sales. O compositor comemora o revival, mas fica meio blasé: 'Não ouvi praticamente nada, estou com outro ouvido. Mas é interessante. A música vai, viajante, é um vapor barato.' Ao saber que O Rappa recriou a canção em forma de reggae, acresecenta; 'Eu gravei o primeiro reggae no Brasil, Negra melodia. Foi em Contrastes'. Como espécie de faixa-bonus de O q faço é Música, Macalé inclui um rock - sua versão de Blue suede shoes, sucesso de Elvis Presley, gravada 11 anos atrás. 'Mantive a mesma interpretação porque não sei se iria conseguir fazer igual. É o meu olho no rock. Ela ficou praticamente escondida num disco promocional (era o lado B do mini LP Rio fora do tom)', diz.
Aos que reclamam as décadas que passa sem gravar um disco, Macalé lembra que sempre esteve ativo. Foi ator de Amuleto de Ogum e Tenda dos Milagres, de Nelson Pereira dos Santos, escreveu música para vários filmes e cantou nos songbooks de Noel Rosa, Vinícius de Moraes, Ary Barroso, Dorival Caymmi. Aliás, ele avisa que vai estar também no de Chico Buarque, com uma interpretação da paranoica Acorda Amor (que, no auge da repressão, Chico assinou como Julinho da Adelaide). 'Espero que entendam que o que faço é música', finaliza."

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