Palavras Domesticadas

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domingo, 21 de abril de 2013

Roberto Carlos é o Rei do Iê-Iê-Iê (2ª parte)

"O início dessa insólita amálgama se daria por volta de 1958, quando Roberto Carlos toparia com a terrível 'turma da Rua do Matoso', capitaneada em seus desvarios juvenis por Erasmo Carlos. As rádios tocavam, sem muita insistência, Carlos Gonzaga, Tony e Cely Campelo em versões ingênuas de Fred Jorge falando em 'lacinhos cor de rosa' e 'banho de lua'. Tudo muito longe de refletir as curras, cubas-libres e roletas paulistas que simbolizavam a juventude transviada cabloca.. Roberto foi apresentado à turma por um de seus membros, Arlênio, colega de artigo 91, no curso Ultra, da Praça de Bandeira. A turma foi muito receptiva porque, afinal, se tratava de um cantor já intronizado nos mistérios da televisão por duas vezes. A estreia não importava muito, era até meio gaiata: uma apresentação no Clube do Guri. Mas a segunda, pelo final de 57, era repetida sempre: no programa 'Teletur' havia cantado nada menos que Tutti-Frutti. 'Eu não era propriamente um cantoe de rock', diz RC. 'Estava tocando Tutti-Frutti ao violão, numa sala do Ultra, quando Otávio Terceiro, estudante de datilografia e produtor do 'Teletur', ouviu e me levou ao programa para cantar a mesma música. Mas meu negócio ainda era muito Dolores, Tito Madi.'
Com a turma da Rua do Matoso, a transformação foi rápida. Ali, o negócio era Litlle Richard, Elvis, Chuck Berry e a presença constante do ídoloi máximo de Erasmo, o rebelde sem causa James Dean. Canivete, corrente em volta da mão, pequenos furtos, assistir aos programas de Jair de Taumaturgo, na Rádio Mayrink Veiga - uma rotina (sem a presença de Roberto) que acabou cansando. Dois violões, vocalizações imitativas dos discos de Elvis, solo de Roberto, e estava formado 'The Sputinicks', que tinha ainda Erasmo, Tim Maia, China, Arlenio e Trindade. O repertório incluía o indefectível Tutti-Frutti, Teddy Bear, Crazy e Bernardine. 'Eu sofria muito a influência dos trejeitos de Elvis quando cantava, aquele jogo de pernas.  No violão, o pessoal tinha decoberto uma batida que dava um certo efeito, um som bem metálico, de guitarra mesmo. Não havia ainda guitarras brasileiras como as que víamos nos filmes de rock'. O uniforme era 'uma camisa branca e uma calça preta, que todo mundo tinha' e o roteiro de apresentações não passava do clube do bairro, Tijuca, culminando esporadicamente com a glória do 'Clube do Rock', programa de televisão em que Carlos Imperial mandava tirar o tapete da sala e colocar os móveis no corredor - como todos devem estar bem lembrados. 'Este é o meu, o seu, o nosso programa, porque eu, você, nós gostamos de...' Podia ser Eduardo Araújo mostrando inicialmente de costas e que dava um pulo apavorante, caindo em close, aos gritos: 'Oh Maringá, Maringá'. Gerson e Angélica fingindo que cantavam ao som de Chubby Checker e Dee Dee Charp em Do You Love Me?. E até mesmo as pernas abertas, o violão cortando o peito, o topete do 'Elvis brasileiro', Ed Wilson.
O que acontecia pelas ruelas escuras, as garotas, as lambretas e toda a barra que envolvia a passagem daqueles rapazes de camisa vermelha e calças 'far-west' pelo final dos anos 50, Roberto não conta. Sabe-se que os Sputiniks, da Rua do Matoso, não viram motivos para achar as coisas tão azuis quanto Gagarim e logo se separaram. Antes se separaram. Antes se intitularam 'The Snakes', já sem o racional superior de Tim Maia. O grupo frequentava o bar Snack, em Copacabana. 'Snack', 'Snakes', tudo bem. Apesar de Aída Curi estar sendo jogada de algum edifício próximo, a revista Mundo Ilustrado mostrar um carnaval  cheio de bisnagas de lança-perfume em primeiro plano. Fatos sobre os quais, evidentemente, não há nenhuma referência de RC. E Deus? 'É um ser superior que eu não sei exatamente como é. Pra mim, tudo é Deus. A montanha, o mar, a natureza. Existe um ser maior nessas coisas que a gente sabe que foram criadas por alguém. Eu sempre sinto Deus perto de mim. É um estado de espírito, entende?'
Plateia do programa Jovem Guarda
Um primo que gerenciava a boate Plaza conseguiu um emprego de crooner para Roberto num conjunto que embalava notívagos ao som de sambas-canções e os sucessos da bossa-nova. 'Ali eu não podia cantar rock. Mas fiquei à vontade cantando da maneira que fazia em casa, muito parecido com o João Gilberto. O violão, o banquinho, a voz pausada, baixa'. As fábricas começavam a diluir o rock em apelos comerciais que se chamavam twist, ora hully-gully, let kiss e outras blasfêmias. Sérgio Murilo havia acabado de cantar a versão 'Brotinho do biquini de bolinha amarelinha tão pequinininho', exatamente a música nº 18, do 'Peça bis pelo telefone'. Às 18 horas, na mesma Mayrink Veiga, um ouvinte escrevia querendo ouvir Oh Carol, com Neil Sedaka, em 'Hoje é dia de rock'."
(continua)

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