Palavras Domesticadas

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quarta-feira, 24 de abril de 2013

Henfil no "TV Mulher": Humor Inteligente na TV

Em 1980 a Globo lançava um programa matutino apresentado por Marília Gabriela, que era dividido em vários quadros com diferentes assuntos. O TV Mulher era uma atração das manhãs na Globo, e creio que foi o progrma responsável pelo lançamento do humorista Henfil na televisão, com um quadro fixo diante das cãmeras.
Em 1980 Henfil já era um cartunista consagrado no meio. Suas tiras já faziam sucesso há mais de dez anos na imprensa escrita. O Fradinho, a Graúna, os personagens inspirados em torcedores de futebol, eram bastante conhecidos, mas para o grande público, sua imagem era desconhecida (mesmo para muitos daqueles que conheciam seus personagens).
Apostando em sua capacidade de atuar na condição de comediante e redator, a Globo confiou a ele um pequeno quadro diário na nova atração das manhãs da Globo, e Henfil se saiu muito bem. No seu quadro, que se chamava TV Homem, Henfil falava das dificuldades que os homens enfrentavam num mundo dominado pelas mulheres, aproveitando o tema do programa. De uma forma satírica e divertida, Henfil se propunha, dentre outras coisas, a ensinar os homens a desempenhar várias tarefas cotidianas das mulhers, como ele declarou em entrevista na época, "sei fazer tudo que ensino no programa, como pregar botões, lavar roupa, varrer casa, cozinhar, etc. Meu feijão tropeiro é delicioso. Só não aprendi ainda a fazer casa de botão e arrumar a cama, mas um dia eu chego lá."
Como seu estilo de fazer humor sempre foi muito politizado, apesar das restrições na época da ditadura, em seu quadro diário, Henfil, aproveitando os novos tempos da abertura política, fazia muitos comentários políticos, nunca escondendo sua simpatia pelo recém-criado PT. O quadro TV Homem era anárquico, despojado, irreverente - coisas difíceis de se ver hoje no padrão global. Segue abaixo uma matéria sobre o TV Homem, que saiu no suplemento de TV do jornal O Globo, em 1980:
 "De repente o progrma 'TV Mulher' fica preto e branco. O cenário, normalmente sofisticado, fica vazio. Num canto, apenas uma cadeira. Um homem barbudo, bem à vontade, desarrumado até, entra e começa a falar. Nota-se logo que sua voz não tem a modulação característica dos locutores profissionais. Na primeira vez que tudo isso aconteceu no ar, muitos telespectadores devem ter pensado: 'O que é isso? Algum defeito no meu aparelho ou será que é lá da emissora?' Hoje, eles já estão acostumados com essa loucura diária do humorista Henrique Souza Filho, mais conhecido como Henfil. Seus cinco minutos dentro do programa são mais do que um simples quadro: 'estou aproveitando o aconchego maternal do 'TV Mulher' para lançar o movimento homista. O homem, enquanto polícia e carcereiro da mulher, é tão oprimido quanto ela. Só juntos os dois conseguirão se libertar'. Quanto à repercussão deste seu trabalho junto ao público, diz que o que mais o gratifica são os 'olhares cúmplices' das mulheres nas ruas: 'quero que elas percebam o quanto nós, homens, somos tolos, insensíveis, inseguros e dependentes. Chega de não poder chorar, sentir medo, brincar com bonecas, mexer com plantas. Nós temos que ser resgatados'.
Mineiro de Belo Horizonte, há 17 anos trabalhando em quase todos os jornais e revistas do Brasil, Henfil já esteve em conversações com a Rede Globo anteriormente: 'nós nos acoplamos várias vezes, mas nunca deu engate'. Quando, há quatro meses, foi entrevistado no quadro 'Ponto de encontro', sobre seu livro 'Henfil na China', a direção resolveu convidá-lo para para o programa: 'Uma semana antes da estreia, eu ainda não tinha ideia do que ia fazer., confessa. 'Aos poucos, as coisas foram ficando claras na minha cabeça'. A simplicidade parece ser o segredo de tudo: 'quis que a transmissão fosse em preto e branco, primeiro porque a maioria dos televisores do país é assim. Segundo, porque a conscientização do movimento homista ainda está por volta dos anos 50, quando ainda não existia TV a cores. As mulheres estão muito mais avançadas nas discussões de seus problemas. Além disso, nunca mexi com televisão. Vou experimentar, vou errar e, assim, sinto-me com mais liberdade para criar. Esse processo é também estimulado pela falta de cenários, pois sou obrigado a tirar coisas de dentro de mim.
Aprendi que no excesso, a gente se repete e se acomoda. Não quero me esconder atrás de mesas e outros objetos de decoração. Ou eu me abraço com o telespectador e rolo com ele pelo chão, ou a comunicação não vai existir'. 36 anos, dois desquites, um filho, Henfil diz que namora firme há um ano e meio; 'graças a Deus, pois conheço gente que já casou várias vezes e ainda não aprendeu a namorar'.
E mesmo afirmando que adora fazer 'TV Homem', confessa que se assusta com o sucesso: 'não sei porque fui me meter nisso. A sensação é de que entrei num corredor polonês e não sei onde vou acabar'."

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