Palavras Domesticadas

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domingo, 28 de abril de 2013

Gonzaguinha Lança "Plano de Vôo" - 1975 (1ª Parte)

Em 1975 Gonzaguinha ainda era um cantor e compositor com um trabalho restrito a um público mais elitizado. Ainda assinava como Luiz Gonzaga Jr, e seus discos eram mais experimentais e menos populares. Porém o prestígio e a qualidade do seu trabalho eram incontestáveis. Naquele ano Gonzaguinha lançou um de seus melhores discos: Plano de Vôo (respeitando a grafia da época). Na ocasião a jornalista Ana Maria Bahiana escreveu uma matéria sobre o lançamento para a revista Rock, a História e a Glória nº 14:
"Flashback: Já faz uns cinco anos, a gente era uma geração muito besta, mas enfim, era melhor do que nada. Tinha uma casa na Tijuca, era de um psiquiatra que hoje é sogro de Luiz Gonzaga Jr. Lá não tinha fim de semana e dia útil. Toda noite era aquilo: um monte de gente na sala, na cozinha, na garagem, na varanda, tocando, conversando, brigando e fazendo projetos mirabolantes a maior parte do tempo.
No fim do ano, tinha um festival interno, com renda para os presos pacientes do Dr. Portocarrero (o psiquiatra), e prêmios fictícios. Era uma mostra de som, bem boa aliás. Parte desses sons o distinto público conhece. De um lado tinha o Terço (Adormeceu estreou lá) e o pessoal da Luci (& Lucinha). De outro (mas não muito do outro, o clima era bem amigável na medida do possível) a turma que pintou no Som Livre Exportação e virou MAU, Movimento Artístico Universitário: Gonzaguinha, Ivan Lins, Cesar Costa Filho, esse pessoal.
A gente não queria nada. A gente só queria mudar o mundo e a música.
Agora, a noite quente e abafada de fim de outubro mal começou. A caminho de São Paulo, na Variant de Gonzaguinha, a gente ainda não saiu do Rio e fica falando com aqueles rodeios de amigos que não se veem há vários anos. Na Avenida Brasil, mais ou menos, a gente acha um ponto em comum. A censura. É com humor que ele narra seus contratempos, remandiolas, malandragens. O humor de Gonzaguinha está mais aberto e franco do que nos tempos da casa da Tijuca, temperamento áspero, apelido de Boca.
Oito da noite e parada para o primeiro café. 'Eu vivo essa vida na estrada, agora. Já perdi a conta de quantos quilômetros eu fiz. Não que eu tivesse grilos com empresário antes, não (era contratado do Benil Santos). Mas tinha uma coisa, uma coisa dentro de mim... não me deixava em paz. Meu pai nunca teve empresário fixo, e ele vende show para todo o Brasil. E ele tem amigos em todo o Brasil. É a coisa mais linda da vida do meu pai, a única diferença que eu tinha com meu pai. Eu cada vez menos acredito que arte e vida são coisas separadas. Para meu pai nunca foi assim. Então eu parti pra isso, pra fazer tudo, tentar colocar tudo no mesmo plano, fazer tão importante, pra mim, montar um show e tocar e compor.
E eu só tenho feito isso, nessa barra, eu tenho trabalhado mais que durante todos os outros anos. E já fiz montes de amigos neste país todo. Não tenho mais nenhuma diferença a tirar com meu pai. Por enquanto, ainda está difícil uma coisa, que é a vida da casa, mulher, filho, isso ainda fica prejudicado por essa loucura de estrada. A gente estrutura a vida toda da gente acreditando naquela cascata de artista, que a vida de artista é diferente, é outra coisa, depois descobre que não é nada disso, mas aí você desbunda. Eu sei que ainda vou achar um método, não uma coisa rigorosa, mas um meio de por tudo realmente no mesmo plano, sem conflitos'.
A estrada é preta e pegajosa, breu quente de começo de verão. Dá pra sentir uma coisa qualquer sentada entre Gonzaguinha e eu, cinco anos de diferença, talvez. Meio de brincadeira, a gente começa a fazer um inventário tipo 'verão de 44', onde-anda-aquele-pessoal-todo. Mas aí o silêncio pesa, o calor pesa. Fica estranho. 'Isso que a gente está descobrindo agora, eu saquei de repente no estúdio, no dia de gravação de Plano de Vôo.  Quantos de nós sobraram? Meu Deus, o que a gente fez daquelas ideias todas, o que a gente fez, aonde a gente foi se meter? E eu estava ali, no estúdio, começando a gravar meu terceiro disco. Eu era um privilegiado. Eu comecei a rir, menina, um riso horrível, um riso tão... e eu caí no chão de rir, sabe, da ironia da coisa toda. Mas de felicidade também. De verdade. Daquela coisa toda sobrou eu, sobrou Aldir. E sobrou você, que não transa mais com música. Plano de Vôo...é...é sobre isso sim. 'Quantos, quais escaparão?' É..."
(continua)

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