Palavras Domesticadas

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terça-feira, 16 de abril de 2013

João Bosco e Aldir Blanc - Entrevista - 2003 (3ª Parte)

" - Como, a despeito da qualidade artística, explica-se o sucesso popular da música de vocês naquela época?
Blanc - É você dizer aquilo que as pessoas precisam escutar. Porque 'Carandiru' é um sucesso, 'Cidade de Deus'. Fazíamos 'Carandiru' em 1971 e, se não me engano, nunca li uma linha sobre isso. A gente escreveu isso 30 anos atrás.
- As parcerias parecem ter um ciclo. Tom e Vinícius fizeram toda a sua obra entre 1956 e 63, depois não fizeram mais nada juntos. A de vocês durou dez anos. Por quê?
Blanc - Tenho uma resposta elegante para isso. Vou parafrasear Marques Rabelo, que dizia ter saído da Zona Norte para sentir saudades de lá. Eu e João nos afastamos para ter o prazer do reencontro depois de todos esses anos. (Palmas dos presentes) Obrigado.
Bosco - A gente merecia a experiência de se afastar e ir por outros caminhos.
Blanc - E a gente merecia também, pra tantos pequenos detratores que já desapareceram, provar que João durou todo esse tempo sem mim, que eu durei todo esse tempo sem ele e que a gente tinha garrafa pra vender. Para profundo desespero de alguns, talvez a gente junte esforços de novo para irritar. Fundamentalmente o nosso objetivo é encher o saco.
- Do que sentiram falta nesses 20 anos de separação?
Blanc - De dizer 'estou com um verso aqui, vou arredondá-lo' e mexer na melodia, de ficar naquela combinação. Uma vez, fui na casa do João para fazer uma música para novela que acabou nem entrando. O negócio era o seguinte: o tema é esse, tem que ter o 'ogum-beira-mar' do Jorge Amado, coisa e tal. João botou a bunda na pontinha da cadeira e ficou fazendo a música. Doze horas depois, o dia raiando, e a gente estava fazendo a música. Quando isso for plenamente aprendido, a música popular da gente vai ter crescido de uma forma que ninguém mais vai segurar. Não tem gênero, só tem a pontinha da cadeira. Felicidade é concentração. Sem parecer literário, nesse tempo todo, compondo com outros parceiros, nós estávamos compondo juntos.
- O que caracteriza a dupla?
Blanc -  Nós fomos acertadamente chamados de caldeirão, pela ideia de misturar ingredientes e sempre remexer naquilo. Ao contrário de algumas acusações de ficarmos presos a um gênero, nunca houve isso. Fomos chamados de políticos, até de panfletários. É preciso desconhecer completamente a obra romântica e bem-humorada da gente para achar que a gente fez panfleto. E quem chamar 'O bêbado e a equilibrista' de panfleto, dou pessoalmente porrada.
- Qual o momento mais feliz?
Blanc -  Daqueles de voltar no táxi com a cabeça a mil letrando desesperadamente sem conseguir esperar para chegar em casa, foram 'Caça à raposa' e 'O bêbado e a equilibrista'. 'Caça...', por achar que não ia dar tempo, que era um monstro, e chegar no estúdio com tudo certinho. e 'Bêbado' por Chaplin, Betinho, o quebra-cabeça que vai sendo montado.
Bosco - Vários. 'Nação' é um que gosto, aquela cortina que se abre com Silas de Oliveira e Caymmi, aquele rio caudaloso que deságua na Bahia.
- Houve algum esgotamento da veia criativa de vocês?
Blanc - Não. O que houve foi a vontade de ambos de trilharem caminhos diferentes. Aí teve a famosa briga que não houve. Nunca houve briga. Você telefona para o cara uma vez por semana, depois de 15 em 15 dias, depois uma vez por mês, depois não liga mais. Foi isso. O cara tem que trilhar o próprio caminho, ter força para não recorrer ao outro. É como eu digo sempre, as outras 36 versões sobre a briga são todas verdadeiras (risos).
- Como foram os momentos seguintes ao fim da parceria?
Blanc - Fazer música com Sueli Costa foi fundamental. E também com Maurício Tapajós. E aí teve aquela coincidência absurda, que já está no folclore. Conheço um parceiro que mora no prédio há anos e que eu não sabia, e começo a compor com ele, Moacyr (Luz). E vem Guinga, através de Raphael Rabello e de Paulo César Pinheiro. E aí veio o mundo, até o mais novo deles, Jayminho (Vignolli). Aí está mais bonito, chego no songbook com o Jayminho para fazer o arranjo de 'O bêbado e a equilibrista' e João acredita na hora. É essa confiança, um negócio diferente, superbacana em música. Você não tem rabo preso, está aberto às pessoas que chegam. O que é o grande encontro dessa noite? É ver que ninguém deve nada a ninguém. Tem coisa mais bonita para se dizer aqui? Todo mundo deve tudo a todo mundo. Eu devo tudo a João, João deve tudo a mim e, no entanto, nossas carreiras prosseguiram e ninguém deve nada a ninguém. Nós podemos nos dar ao luxo de voltar sem dívidas. Quem pode dizer isso?
Bosco - O sogbook traz uma série de situações que vivemos e não lembrávamos. Estar aqui conversando faz parte desse processo. Tanto Aldir quanto eu sempre soubemos que num certo momento teríamos que tomar uma cerveja.
- E o que falta para retomar a parceria?
Bosco - É o trânsito (risos). Hoje, para se deslocar de um lado para o outro é um problema. A gente ia de avião para Manaus. Parávamos na Bahia, em Pernambuco, até Manaus, compondo. A gente tinha tempo pra isso.
Blanc - Nós temos grande respeito pelo tempo. Mas temos a pretensão de surfar nele. De repente a gente pega uma prancha e dá uma volta de novo aí na garotada."

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