Palavras Domesticadas

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domingo, 14 de abril de 2013

Entrevista João Bosco e Aldir Blanc - 2003 (1ª Parte)

João Bosco e Aldir Blanc formaram uma das mais criativas e marcantes duplas de parceiros da MPB. Durante muitos anos os dois compuseram algumas pérolas de nossa música, até se separarem em meados dos anos 80, quando cada um foi pro seu lado, buscaram novos parceiros e deram continuidade a suas carreiras. Muito se falou sobre brigas, desgaste e incompatibilidade entre os dois. Em sua edição de 07/09/03 o jornal O Globo reuniu os dois velhos parceiros para uma ótima entrevista, feita por Hugo Sukman, a primeira desde a separação. Intitulada "Galos de briga 20 anos depois" (uma alusão ao título de um disco de João Bosco e os 20 anos do início da parceria), segue abaixo a primeira parte da entrevista:
"Que Lennon e McCartney que nada. Dupla mesmo é João Bosco e Aldir Blanc. Pelo menos para quem nasceu para a música no berço de ouro da MPB dos anos 70. Para estes, os autores de marcos como 'Bala com Bala', 'Dois pra lá, dois pra cá', 'O bêbado e a equlibrista', 'Nação', oito discos antológicos entre 1973 ('João Bosco') e 1982 ('Comissão de Frente'), os mais gravados por Elis Regina (só perdem por uma canção para Tom Jobim e mesmo assim porque a cantora dedicou um disco inteiro ao maestro) são os maiorais. E não se falavam há 20 anos, na mais comentada das brigas entre parceiros da MPB.
- Nunca houve briga nenhuma - garante Blanc abraçado a Bosco, no primeiro encontro público da dupla desde a separação.  - Mas todos os 36 motivos alegados para a briga são verdadeiros. A tirada de humor tipicamente blanquiano marcou o clima ameno do reencontro. Que se deu num fim de tarde, numa mesa de bar à beira da mesma Baía de Guanabara onde, cem anos antes, o 'almirante negro' João Cândido desafiava o poder da Marinha brasileira como os autores da mais singela homenagem a ele, 'O mestre-sala dos mares', fariam com a ditadura militar.
Juntos, Bosco e Blanc parecem mesmo nunca ter brigado. Brincam como amigos de infância, concordam sobre quase tudo - menos em futebol, o primeiro flamenguista e o segundo vascaíno; e em viagens, Bosco frequentando a ponte Tóquio-Nova York, enquanto Blanc só saindo da Muda, a contragosto, para Saquarema.
Eles só voltaram a se falar depois de anos de tentativas de amigos comuns, em dezembro de 2001, quando os dois gravaram juntos 'O bêbado e a equilibrista' para o songbook de João Bosco, última produção de Almir Chediak, que será lançado terça-feira em festa no Teatro Rival. De lá pra cá, a relação esquenta aos poucos. 
- Nós nos separamos para poder sentir a falta um do outro - diz Bosco.
O encontro histórico, promovido pelo Globo, foi marcado por recordações do início da parceria, do incentivo de Tom e Vinícius, do encontro com Elis, do processo de criação e do acenso aos admiradores, a dupla pode voltat a compor.
- Demoramos dois anos de amizade para começar a compor e estamos vivendo momento semelhante agora - diz Blanc.
O Globo -  Desde que vocês chegaram, um não para de brincar com o outro. sempre foi assim?
Aldir Blanc - Sempre, sempre, sempre. Às vezes a gente parava pra brigar (risos). Mas brincamos o tempo todo.
- Como foi o primeiro encontro de vocês?
João Bosco -  Através de um amigo do Aldir, Pedro Lourenço, que tinha um amigo na minha cidade, Ponte Nova.
Blanc - O Pedro era uma das mais autênticas figuras da contracultura. Pesquisava antipsiquiatria. Eu fazia psiquiatria e ele me deu uma formação filosófica incrível. Foi lá que soubemos da morte do Jimi Hendrix. Minha praia era mais jazz, mas tinha um, dois discos dele, curtia toda aquela criatividade e senti na dor do cara que era como se tivesse perdido um parente. Em Ouro Preto, em 69, através do Pedro conheci João e foi um entendimento muito rápido.
Bosco - Não foi em Ouro Preto, não. Nessa épóca uns amigos estavam sendo procurados pelo Dops e alguém chegou pra mim e disse: 'É melhor você se arrancar, os caras estão vindo aí'. Eu estudava em Ouro Preto e fugi para a casa da mamãe em Ponte Nova. Mas deixei indicações em Ouro Preto para eles me acharem.
- Vocês começaram a compor logo?
Blanc - Não. Conversamos, escutei literalmente dezenas de músicas sem letra, o chamado caviar do letrista.
- Qual a que primeiro chamou a a atenção?
Blanc -  Eram dezenas. E me fixei especialmente numa, que ficou inédita, 'Condenado', sobre uma execução política.
Bosco - E tinha ali 'Agnus Sei', 'Angra' e 'Bala com bala'.
- A primeira gravada, 'Agnus Sei', no célebre disco do 'Pasquim', cujo outro lado era 'Águas de março', já estava nessa leva?
Blanc - Estava. Teve uma touca tremenda em relação a 'Agnus sei', que serve como lição para a crítica, para tudo. Ela foi ignorada. Por estar no outro lado do 'Águas de março', foi tratada como se não tivesse importância. Respondi na época em artigos, procurei as pessoas para conversar...
(continua)

3 comentários:

  1. Sempre fazendo a sua parte para que o "fino" não se perca totalmente por aí, salve o professor Marcio!!!!!!!!!!!
    Victor (Hps)

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  2. Essa dupla precisa urgentemente ser relembrada. Afinal, dois camaradas que compõem coisas como "Linha de Passe", "Comissão de Frente", "Kid Cavaquinho", "Falso Brilhante", "O Bêbado e A Equilibrista" (que virou o hino de uma época), "Tiro de Misericórdia" e tantas outras lindas canções que marcaram época, não podem passar batido pela memória musical brasileira.
    Sou fã desses caras, pra mim eles são a melhor dupla musical da MPB de todos os tempos! Pra escapar um pouco da audição das péssimas músicas que existem atualmente, pra ter em mente que no Brasil já houve música de verdade, e não só isso de Anitta, Luan Santana, João Lucas & Marcelo, pra lembrar que o Brasil não é só Rebolation, Eguinha Pocotó e Eu Quero Tchu Eu Quero Tchá, por que então não dar uma revisitada em João Bosco e Aldir Blanc? Olha, esses dois têm muito o que contar, muito o que mostrar de Samba, MPB, Bolero e todo tipo de ritmo, sempre com muita musicalidade e com letras pra lá de intelectuais, que contam sempre uma história brasileiríssima!
    O pessoal deveria pensar que não se deve abrir mão disso. Fazer isso gera lacunas irreparáveis na MPB e na história brasileira desses últimos 40, 45 anos. E o João e o Aldir sempre estiveram no cerne de toda essa coisa!

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