Palavras Domesticadas

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terça-feira, 30 de junho de 2015

B.B. King no Brasil - Revista Mix (1986)

Nós, brasileiros, tivemos o privilégio de receber em nossa terra o grande nome do blues B.B. King em diversas ocasiões. Em 1986, por exemplo, ele deu por aqui uma série de shows. Na ocasião, o mestre da guitarra do blues concedeu uma entrevista ao jornalista Antonio Carlos Monteiro, publicada na revista Mix. Na chamada da entrevista, a revista diz: "Lenda viva da música dos nossos dias, e ainda um dos melhores bluesmen em atividade, B.B. King cumpriu uma excelente e gloriosa excursão brasileira, e é claro, a Mix não poderia deixar de encontrar este alquimista da guitarra. Com  a palavra, sua majestade".
Abaixo, a matéria:
"Impecável em seu terno cinza, único sinal de cansaço demonstrado através dos enormes óculos escuros que usava, B.B. começou definindo o blues; 'É a vida como eu vivo hoje e como eu acho que vamos viver amanhã. A maioria das pessoas pensa que o blues só tem a ver com casos de amor infelizes, mas também tem a ver com pessoas que querem ser amadas, tem a ver com as coisas boas da vida também. Com minha música, eu quero que as pessoas batam palmas, dancem, e que algumas vezes pensem. Mas, no fim, quero que todos se sintam felizes'.
Diplomata, King não deixa de lançar elogios aos seus concorrentes. Considera os Stones 'uma banda fantástica', apesar de não estar acompanhando seu trabalho ultimamente; faz elogios a Stanley Jordan - 'ele tem dez dedos que parecem trinta, vai ficar muito famoso porque é muito jovem e muito talentoso' - e se empolga todo ao falar de Muddy Waters; 'He's the boss!!', disse, para completar a seguir: 'quando ele já estava tocando, eu ainda arava a terra'. Sua única farpa saiu quando lembraram-lhe que Jimi Hendrix se dizia influenciado por ele. 'E no trabalho de B.B. King, há influência de Hendrix?', quiseram saber. 'I'm grandfather' (Eu sou o avô), respondeu ele.
Sobre sua amada Lucille, conta a história (ou estória?) que levou-o a batizá-la assim: 'Foi em 1949. Eu tocava em um clube, no Tenessee. Fazia muito frio, e eles colocavam latas com querosene no meio do salão e colocavam fogo para aquecer. Uma noite, enquanto eu estava tocando, dois caras começaram a brigar. Um deles caiu, derrubou uma das latas, e o lugar começou a pegar fogo. Todos correram para fora, inclusive B.B. King (risos). Quando cheguei lá fora, lembrei que havia esquecido minha guitarra. Então, voltei para dentro do clube para pegá-la. O prédio queimava depressa, porque era de madeira, e o fogo caía por cima de mim. Quase perdi a vida para salvar minha guitarra. No dia seguinte descobri que os dois homens haviam brigado por causa de uma garota. Eu nunca a conheci, mas fiquei sabendo que ela se chamava Lucille. E eu dei o nome de Lucille à minha guitarra para me lembrar de nunca fazer isso novamente...'
Na Lucille atual (a décima quinta, que está com ele há oito anos), King não introduziu nenhuma modificação, como pedais ou efeitos: 'O que você está vendo, é o que é', disse, orgulhoso, ao lado de seu instrumento. E, perguntado sobre a comentada relação homem x mulher que trava com seu instrumento, foi incisivo: 'Ela faz mais por mim do que muitas garotas...'
 Apesar de ser músico de um estilo tradicional, B.B. King não vê nada demais na introdução de elementos eletrônicos na música atual; 'Não fiquem surpresos se, daqui a vinte anos, eu estiver tocando com a ajuda da eletrônica moderna. Um dia, talvez, eu até queira um sintetizador para colocar na Lucille'. E, acusado de fazer um estilo considerado simples, arremata; 'Eu sou um homem simples. E criar em cima de um estilo simples é a parte artística da música. Eu gosto de pensar que toco o que eu chamo de 'Estilo B.B. King'. Eu toco um pouco de jazz, um pouco de soul, e um pouco de rock no meu blues. Isso se chama 'B.B. King Blues'. Os críticos puristas de blues dizem que eu não permaneço puro o suficiente. Já os críticos de jazz dizem que eu coloco blues demais no meu jazz; os críticos de soul dizem que eu não ponho soul suficiente no meu soul; os críticos de country dizem que eu não sou country o suficiente; e os críticos de rock dizem que eu não uso muito rock. Então, eu tento ser apenas B.B. King, e todo mundo diz: 'OK!'
 Até B.B. King, o blues era localizado, conhecido por poucos, mas, graças e ele, ganhou projeção internacional. A que ele deve isso?, perguntaram. E ele, mordaz: 'Bem, eu tenho um bom empresário, uma boa agência, uma boa gravadora, uma boa equipe e o meu talento...' Com o passar dos anos, King aprendeu a 'ampliar minhas raízes', permanecendo fiel a elas. 'Eu ainda estudo, mesmo aos 60 anos, mas não tanto quanto deveria. Sou muito preguiçoso, quase não estudo fisicamente. Mas, mentalmente, eu pratico todos os dias. Eu até já pratiquei um pouco desde que começamos a conversar aqui...'
Mas tudo começou mesmo quando B.B., que ainda se chamava Riley King, foi trabalhar como disc-jockey em uma emissora de rádio, o que o influenciou tremendamente: 'Eu ouvi diversos tipos de música nessa época, e aprendi a gostar de todos eles. Todos os músicos tocam algo que eu gostaria de poder tocar. Ninguém toca tudo, e eu gosto disso. Mas eu apenas tento tocar, ser eu mesmo, sem imitar ninguém. Eu quero mesmo entreter as pessoas'.
Ele não tem certeza se foi através dele que o blues começou a atingir o público branco, mas 'acho que ajudei'. E não vê nenhuma diferença entre o blues branco e o blues negro. Ou melhor, vê uma: 'O músico'.
Hoje em dia, para espanto geral King trabalha 300 dias por ano, fazendo uma média de 500 apresentações anuais (nesse momento, um maldoso anônimo comentou; 'E o RPM está reclamando do quê?'). Mas o roteiro da cada show é decidido no palco: 'Cada noite eu faço o show como acho que deve ser feito naquela noite. Meus músicos estão comigo há muitos anos, então não há problema. Quando percebo que um tipo de música não agradou àquele público, não toco mais esse estilo naquela noite. Mesmo assim, eu já tive muitas noites ruins, daquelas em que nada dá certo, mas eu tento não deixar o público saber disso...' (risos). Esse conflito entre agradar o público, deixando de lado, às vezes, suas preferências pessoais dentro de seu repertório, não o abala: 'Eu não estou tocando para mim, e sim para satisfazer o público que foi me ver. Eu toco o que eu quero no meu quarto'.
E, dentre tudo isso, se sente muito bem como 'Rei': 'Sempre que falam 'Ele é Rei, ele é Rei', eu digo 'Sim, esse é o meu sobrenome'. Musicalmente, eu não sei, mas isso me faz feliz'.
O Rei se diz religioso, já que descende de uma família de bastante fé. Anuncia que está divorciado, que procura uma nova esposa - 'quem sabe não a encontro no Brasil?', brinca - e que tem, nada mais, nada menos, do que oito filhos, nenhum deles músico.
E, depois do inevitável sinal de 'só mais cinco minutos' dado por sua claque paulista, King aproveita para agradecer a presença e a gentileza da imprensa brasileira. E arremata, com um sorriso maroto de quem repete uma frase ensinada por seu empresário: 'Eu já estive em muitos países, e esta foi a imprensa mais gentil que já encontrei em todo o mundo'.
Os jornalista brasileiros riram, cúmplices daquele exagero. Afinal, Sua Majestade reinava, soberano."
Abaixo, uma resenha do show de B.B. King, realizado no Rio:
"Foi arrasadora a apresentação de B.B. King no teatro do Hotel Nacional no sábado dia 12 de julho. Com apenas 15 minutos de atraso (coisa rara nesses eventos), o hepteto de King abriu o espetáculo com dois temas para 'esquentar' a plateia, que por sinal já vinha quente de casa, a verdade é que logo quando o rei do blues pisou no palco, foi ovacionado de pé por uma plateia que parecia adivinhar o que a esperava. Um dos melhores shows já vistos por aqui. O set não tinha nada de especial, além de 8 minutos sensacionais. Apesar de, muito merecidamente, concentrar as atenções, B.B. King trabalha com muita honestidade e humildade, próprias de um gênio e todos em sua banda tem espaço para solo, com destaque para os metais.
No repertório, além de belos blues, muito jazz e funk, diluídos numa linguagem muito pessoal e contagiante, B.B. não tem a pirotecnia de um Stanley Jordan ou a variedade de texturas de um Adrian Bellew. Seus solos são simples e seus tons quase sempre os mesmos, mas é aí que está sua genialidade. Seu ataque nos solos é de deixar de cabelos em pé qualquer um que já tenha tocado uma guitarra. Tecnicamente, B.B. King dispensa a moderna parafernália eletrônica, optando mais pelo lado emocional, além de um único DX-7, não há mais nenhum sinth na banda. King, como sempre, usou sua Lucille, uma Gibson AE-3, e na ampliação um Lab-5 System, e um pouco de Eco ligado direto ao amp. Mas isso é o de menos, já que ao contrário de muitos dos grandes guitarristas da atualidade, a história de B.B. King não será nunca contada pelos efeitos ou pelos Marshalls com que ele toca, sua história será a do próprio blues. Um show pra não esquecer nunca mais."

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