Palavras Domesticadas

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quarta-feira, 17 de junho de 2015

Um Guia para o Clube da Esquina - Jonal do Disco (1980) - 3ª Parte

"Tavinho Moura/Como Vai Minha Aldeia (RCA, 1978) - A voz menor e mais retardatária do Clube é este vencedor de festivais locais, que apareceu de forma controvertida, assinando o 'Calix Bento', que Milton gravou no LP Geraes (e que se baseia largamente num tema de Folia de Reis, como aliás indica, com clareza e honestidade, o encarte deste LP). Sua estreia individual é a mais marcadamente mineira de todo o Clube - o mundo entra por essa janela fechada com dificuldade, em raros raios. Tudo aqui fala de Alterosas, cidades-castelo, infância perdida, inocência ultrajada. É um álbum saudoso, às vezes de uma beleza estranha, peculiar, difícil de ser de ser curtida por gente apressada ou beira-mar. Produção pouco inspirada e voz sensaborona ocultam algumas gemas - como 'Cruzada', que Beto Guedes fez explodir adiante, em seu último álbum ('você parece comigo/nenhum senhor te acompamha/você também se dá um beijo/dá abrigo' - letra de Márcio Borges).
Nivaldo Ornelas/Nivaldo Ornelas/MPBC Philips/Polygram, 1978) - Quando Milton chegou a Belzonte, já encontrou Nivaldo trabalhando na noite e agitando nos clubes de jazz & bossa nova da cidade com seu sax (e, eventualmente, flauta e clarineta). Mas foi só a partir do Milagre dos Peixes (em 73) que esse sopro-assinatura pôde ser ouvido no Rio e em São Paulo, onde Nivaldo trabalhou com muita gente, além de Bituca, Hermeto e Egberto, por exemplo. Sempre compôs. Mas tímido, esperou o Projeto Trindade, em 76, para revelar publicamente essa faceta, assinando um dos melhores temas do filme/disco, 'Memórias de Minas' (LP Tapecar, Trindade/Curto Caminho Longo, 1978). A estreia solo, na série Música Popular Brasileira Contemporânea, não mantém todo o fôlego do tema, e dá saudades do Nivaldo músico, sem dúvida acima do compositor. Contudo, é dos melhores exemplares do primeiro pacote MPBC, e tem pelo menos um tema de real interesse - 'As Minas de Morro Velho'. O Clube está em peso: Wagner, Toninho, o velha-guarda Helvius Vilela, Paulinho Braga, Jamil Joanes.
Wagner Tiso/Wagner Tiso (EMI-Odeon, 1978) - Outro disco-surpresa, mas nem tanto, para quem já vinha acompanhando as evoluções wagnerianas dentro e fora do Som Imaginário. Projeto acalentado e burilado durante anos, o álbum se assenta sobre sequências cinematográficas de som, em torno da suíte 'A Igreja Majestosa/Os Cafezais Sem Fim', no lado 1, e a sucessão de temas 'Rapsódia Trespontana/Monasterak/Zagreb', no lado 2. Massas orquestrais, coro, pianos exatos e uma guitarra apuradíssima de Otávio Burnier eclodem e desaparecem por mágica, deixando o ouvinte sem fôlego, maravilhado. E ainda há o refresco mineiro, anedótico, de 'Seis Horas da Tarde/Mineiro Pau', duelo de sanfonas com Milton em memória dos tempos dos W's Boys, o grupo de baile de Três Pontas e Alfenas, onde a história do Clube começa a ser contada.
Beto Guedes/Sol de Primavera (EMI/Odeon, 1979) - A capa é o mesmo selinho que aparecia num encarte do primeiro disco. O rótulo do disco é sol, infantil e esborrachado, num canto da capa. Augúrios, sinais. Beto eleva e potencializa o que esboçou na Página, incorpora a voz sem perder seu veludo próprio e faz um disco onde o habitual perfeccionismo chega ao auge, e tudo está onde deveria estar. O que mais dizer? É seu melhor LP, e um dos mais belos de todo o Clube. Um disco repleto de luz e de esperança, bom sinal para um início de década. Viagem à parte: a retomada da longuíssima versão de 'Norwegian Wood', de Lennon/McCartney, com Bituca e Beto nos papeis principais.

Lô Borges/A Via Láctea (EMI/Odeon, 1979)  - Uma capa estranha e bela dá o tom exato - nosso diabo em férias desceu das Gerais e está aprontando de novo. Sete anos depois, este é um disco que lhe faz justiça, e onde o jovem estreante (já que o primeiro não valeu) pode dar-se ao luxo de olhar pra trás e reler coisas como 'Tudo o que Você Podia Ser' e 'Clube da Esquina nº 2'. O clube comparece - Wagner, Toninho, as letras de Márcio Borges - e Lô despenteia suas visões raivosas ('onde foi parar a cuca dos caras/que aguentaram a barra/de lutar por nossas ruas' - 'Nau Sem Rumo') ou ternas ('nisso eu escuto no rádio do carro a nossa canção/sol girassol e meus olhos abertos pra outra emoção' - Vento de Maio). No meio do garimpo, uma pedra nova - Fernando Oly, que assina um mini hit de férias, na linhagem de 'Lumiar' - 'Chuva na Montanha'.

 Wagner Tiso/Assim Seja (EMI/Odeon, 1980) - A pressa sempre foi inimiga dos mineiros, e, aqui, quase derrubou Wagner. Oito temas, mas apenas três trabalhados exclusivamente para o projeto: 'Sete Tempos', 'Joga na Bandeira' (a vertente chão de Wagner) e 'Chorava', instigante evolução sobre motivos de choro. Os outros cinco são material antigo retrabalhado ('Alegro/Tragicômico, sua participação no Trindade, 'Assim Seja' do repertório dos W's Boys com letra nova de Fernando Brant) ou aproveitamento de seu trabalho como arranjador ('Bela Bela', de Milton sobre poema de Ferreira Gullar; 'Vinheta do Medo', extraída do 'Medo de Amar é o Medo de Ser Livre', de Beto Guedes). Os resultados são previsíveis - já não há mais surpresas para o ouvinte, em que pese o gabarito de Wagner como criador e arranjador.

Toninho Horta/Terra dos Pásaros (EMI/Odeon, 1980) - O malsinado álbum solo de Toninho, três anos para ser feito, milhões investidos na produção. O LP se ressente dessa bagunça, e Toninho não é nenhum cantor. Mas, como base de um futuro projeto de carreira individual, é muito bom. Principalmente depois da palidíssima estreia no pau-de-sebo, em 73. E tem canções memoráveis: 'Pedra da Lua' (com Cacaso), 'Viver de Amor' (aqui, instrumental) e a melhor faixa do disco, cheia de surpresas - 'Diana' - letra de Fernando Brant."
Ao final da resenha dos discos, há uma nota da jornalista que informa:
"Todos os discos mencionados estão em catálogo - portanto, disponíveis nas lojas. Quanto a Naná, tem um disco individual pela Philips, Amazonas, de 73 - mas está fora de catálogo. Como também o álbum Posições, que apresenta o grupo A Tribo (Joyce/Toninho Horta/Nelson Ângelo/Novelli) ao lado de três outros grupos (Odeon, 1971)"

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