Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Falando de Rock, Jazz e Drogas - Revista Ele Ela (2ª Parte)

"Décadas antes de surgir a geração pop, os músicos de jazz também curtiram a sua experiências com álcool e drogas. Na década de 1940, quando os pioneiros do bebop revolucionavam a linguagem do jazz, e por isso sofriam hostilidade e  o boicote da velha guarda e do público conservador, muitos músicos foram procurar uma saída na droga. Um conselho de Mary Ann McCall, que caiu em pouco tempo de 'melhor cantora do ano' ao desemprego e à miséria: 'Se você está viciado em H (heroína), o melhor é comprar um 45 em vez da seringa. Estoure os miolos - é a melhor saída.' E Billie Holyday, a maior cantora de jazz de todos os tempos, presa pela primeira vez pelo uso de drogas em 1947: 'A droga nunca ajudou ninguém a cantar melhor. É Lady Day que garante isso a vocês. Ela tomou o suficiente para conhecer a fundo a questão'. O saxofonista Charlie Parker, um dos maiores gênios musicais deste século, descreveu a experiência: 'O músico que diz que toca melhor maconhado, sob efeito de injeções, ou de pileque, não passa de um mentiroso. Quando bebo demais não posso nem dedilhar corretamente o saxofone, que dirá tocar ideias decentes. E nos dias em que me drogava eu podia pensar que tocava melhor, mas ouvindo alguns discos daquela época cheguei à certeza de que isso não acontecia (...) Não sei como atravessei todos aqueles anos. Tornei-me amargo, frio. Estava sempre em pânico - era incapaz de comprar roupas ou uma boa casa para morar. Fui obrigado até a viver numa garagem. A tensão mental piorava cada vez mais.' O pianista Billy Taylor arrisca um prognóstico: 'Eles se viciam porque muitos músicos são imaturos em sua atitude com relação a tudo que não se refira à música. Para se tornar um bom músico é preciso passar muito tempo com o instrumento... por isso o músico geralmente não dedica tempo a outras coisas que possam ampliar sua visão do mundo.'
Billie Holyday
Visão distorcida da realidade, problemas profissionais, dramas pessoais, dores da criação artística - os motivos que levam o músico às drogas são muitos. Para Ray Charles, cantor que é uma ponte entre o jazz e o rock, eles seriam de ordem pessoal - Ray é cego desde os 7 anos de idade - mas também de natureza social: 'Sou do Sul, e o Sul, quase no mesmo ano em que me deixou ficar cego, deixou morrer de hemorragia Bessie Smith, a maior cantora de blues de todos os tempos. No hospital de cegos, onde os pacientes não distinguiam cor de espécie alguma, os times de futebol se dividiam em cegos brancos e cegos negros.' Esse problema social também viria repercutir, anos depois, em plena sociedade de consumo, entre os filhos das famílias brancas mais prósperas. Janis Joplin, cujo pai era dono de uma  refinaria de petróleo em Port Arthur, Texas, passou a adolescência trancada em seu quarto ouvindo 'discos negros' de Bessie Smith e Billie Holyday. Abandonou a família aos 17 anos e começou a cantar nos bares de beira de estrada a troco de cerveja. Viajando pelos Estados Unidos, repetia a vida errante dos velhos cantores negros de rhythm & blues. Famosa da noite para o dia a partir de sua apresentação no Festival de Monterey, em 1967, foi saudada pelo rei do r&b, B.B. King: 'Janis Joplin canta os blues com tanto sentimento como se fosse uma negra'. Janis respondeu: 'Canto música negra para tirar dinheiro dos brancos.' Complexo de culpa social, por ter nascido branca? Sua cantora preferida era Bassie Smith, que se alcoolizava porque não entendiam nem davam valor a sua música, e que morreu em 1937 em consequência de um acidente de automóvel porque o hospital sulista não quis receber uma paciente de cor. Uma das últimas ideias de Janis Joplin era erguer um monumento a Bessie Smith, 'algo que reparasse o mal feito pela gente branca'.
Janis Joplin
Para muitos, Janis Joplin morreu do câncer do estrelismo, o mesmo que vitimou Edith Piaf e Judy Garland. 'Quanto mais famoso o cantor, maiores as pressões, maior a solidão, maior o medo', diz Eric Clapton, considerado o guitarrista de rock nº 1, fundador dos conjuntos Cream e Blind Faith. 'Jovem ainda, a gente tem de repente à mão todos os carros, casas e garotas com que sonhava, mas não consegue assimilar tudo isso. Foi um dos motivos que me levaram às drogas. O comércio do rock me deixou paranoico, tenso, insone. Eu não podia ter uma relação estável, por mais que tentasse.' Janis Joplin queixava-se: 'Com a fama, perdemos os velhos amigos, as viagens nos distanciam e é difícil fazer novos amigos. Quando não estou em cena, estou ensaiando, vendo a TV, entrando e saindo de hotéis. Vivo para o momento das apresentações, cheia de emoção e excitação, como esperando por alguém a vida toda. Um dia vou escrever uma canção que descreva o que é fazer amor com 25 mil pessoas num concerto e depois voltar sozinha para casa.' "
(continua)

5 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  2. Adorei essa publicação. Ambas as partes. O trecho que conta a ideia por trás do disco Tommy do The Who é sensacional. Realmente esse blog é uma elevação de espírito. Como não poderia deixar de ser, pelo seu criador.

    ResponderExcluir
  3. Valeu, Dan. Essa é uma matéria bem antiga, e que traz muitas informações. Obrigado pelos elogios.
    Um abraço

    ResponderExcluir
  4. A propósito, o seu romance também é Sensacional, Chicletes & Prazer. Uma obra maior que a própria nostalgia, uma viagem reluzente pelos espelhos das memórias.

    ResponderExcluir
  5. "Uma viagem reluzente pelos espelhos das memórias" é uma das melhores definições sobre Chicletes & Prazer. Mais uma vez obrigado

    ResponderExcluir