Palavras Domesticadas

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sábado, 20 de junho de 2015

Jorge Ben - Jornal de Música (1975) - 1ª Parte

Em 1975 o Jornal de Música, que na época vinha encartado na revista "Rock, a História e a Glória" trazia uma matéria com Jorge Ben, assinada por Tarik de Souza. A matéria, intitulada "Jorge solo e (bem) acompanhado" falava dos shows internacionais de Jorge Ben e também do disco que ela havia recentemente gravado em parceria com Gilberto Gil. Abaixo, a transcrição da matéria:
"O primeiro encontro foi por volta de 64, 65. Jorge Ben, artista famoso, encarou a Concha Acústica em Salvador, e recebeu a família Veloso - todos admiradores - no camarim. Com ela, um compositor de jingles, um certo Gilberto Gil, explicou que formavam um grupo e estavam se apresentando nos teatros locais: Gil, Caetano, Maria Bethania, Tom Zé, Gracinha, aliás Gal Costa, Tuzé de Abreu, Perinho...
Já em São Paulo, em 68, o grupo no auge do êxito, Jorge Ben e Gilberto Gil trabalhavam com o mesmo empresário, Guilherme Araujo, e frequentavam o mesmo programa, 'Divino Maravilhoso'. 'Era muito bom, porque não tinha patrocinador e eles deixavam a gente à vontade', conta Jorge. Fernando Faro, o produtor, um dia teve a ideia óbvia. Virou-se para a dupla, cada um empunhando um violão mais afiado: 'cês têm dez minutos de programa. Façam o que quiserem.' E assim foi feito, com a música 'Sai de Mim, Mulher', do Jorge. Dez minutos, enfim sós, afinados com uma linha musical mista de blues, samba, desafio nordestino, rock, baião, muito tudo.
No fim do ano passado, começaram os boatos. Agora firmes, consagradíssimos e incontestáveis, aceitos de A a Z, com toda a potência, os dois supercriadores iam se reunir de novo. Ao vivo, no Tuca, de São Paulo. Mas, uma laringite, conta Jorge, impediu a soma. Num jantar na casa do diretor da gravadora, André Midani, estavam Jim Capaldi e Cat Stevens de ídolos internacionais e Jorge Ben e Gil como anfitriões do som nativo. Deste reencontro surgiu o embalo para imediata gravação, enquanto os ingleses abriam suas bocas de espanto, e acompanhavam uma explosão sonora para eles incompreensível: - 'Puxa, se tivesse uma folguinha amanhã no estúdio, hein?'. Gil e Jorge em coro.
Gil e Jorge
Claro, apareceu o espaço na programação lotada da gravadora. Na primeira sessão, a dupla já mandou três faixas inteiras, prontinhas. Cat Stevens entrou de piano numa outra, mas dançou. Com o ritmo e o resultado: 'Tinha ficado boa, era um tema do próprio Cat, mas a gente tocava, tocava, três horas de estúdio e o homem achava que não era bem assim'. Problema dele. A fita está lá, pode sair algum dia, mas o álbum duplo 'Gil e Jorge' entra e sai da prateleira das lojas agora, com impressionante rapidez. 'Muita coisa ficou de fora', conta Jorge, enquanto ajeita-se sucessivamente na poltrona do apartamento de seus pais, em Copacabana. (É avesso, percebo, às racionalizações de pergunta-resposta das entrevistas. Fica incontrolavelmente agitado, quando é forçado a colocar os lances que acontecem e ele, numa linha lógica. Tem ritmo no corpo: gosta de pular, assunto em assunto, sempre por perto de futebol e música, suas paixões eternas).
'Aquela última faixa, 'Sarro', levava uns dez minutos. Sei lá, acho que não coube. A gente foi compondo na hora. Tinha também uma só de ritmo. Eu no atabaque, Wagner, o baixista, no ganzá, Gil tocando numas cuias, mas também não entrou'. A mais louca faixa do álbum duplo nasceu por acaso; 'Gil brincava com um teminha terminado em 'béba/bé-ba/béba' e eu fiquei fazendo contracanto no bordão, 'djuro/djuro/djuro'. O Caetano apareceu e achou legal. No dia seguinte, o Gil veio com a letra pronta de 'Jurubeba', uma beberagem lá do nordeste, um xarope'.
 Gil, boa parte do tempo, empunhou uma guitarra Gibson, acústica, Jorge preferiu seus dois violões, um Gianni e um Di Giorgio, à costumeira Ovation, uma guitarra-violão de fundo encurvado. Os cuidados eram para que o som não embolasse, muita eletrificação (ainda havia o canal do baixo elétrico) podia diminuir a força do ritmo, soberano absoluto do encontro: Djalma, percussionista baiano recém descoberto (e pronto para suntuoso lançamento em carreira individual), seguia tudo, com  a competência dos que conhecem os ritmos e respectivas fronteiras: 'Ele tem uma vassoura, que dá um som de explosão, nuns tambores. Toca em dois pinicos, pinico mesmo, toca num instrumento africano chamado kalimba, que tem que enfiar o polegar pra sair som. E ainda nos crótalos, nos ganzás, atabaques, bongôs, ô caramba...'
(O som dificilmente pode ser verbalizado, para Jorge Ben. Nem ele tem essa teoria. Mas, conversando, usa o máximo de ruídos. Se estivesse perto de qualquer instrumento, prefere imediatamente demonstrar o que ia dizer. Num toque desses, pode terminar uma entrevista: quem teria coragem de interromper a escola de samba, o conjunto de rock, o bloco de frevo, que saem de suas mãos?"
(continua)

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