Palavras Domesticadas

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domingo, 7 de junho de 2015

Caetano Veloso Fala do Disco "Muito" (1978) - 3ª Parte

"- E essa discussão interna da banda, embora fosse uma experiência rica para você, como observador - assim uma espécie de resumo da história dos músicos do Rio de Janeiro - não prejudicava também a força de seu próprio trabalho?
- Prejudicar, propriamente, não. Era uma fragilização profissional que havia na minha própria coisa. Se eu tivesse pegado uma banda completamente ligada naquilo que ela realmente quer fazer.
- E esses  temas nos quais você estaria interessado seriam corpo, dança?
- É, corpo, dança... uma coisa  que não foi pensada na época, porque eu não sabia o nome da banda, mas quando o Oberdan me falou que era Black Rio, eu pensei, vai ter tanta, mas tanta confusão com isso, vão dizer que eu estou querendo me meter em movimento de Black Rio... e eu, nunca... eu li as reportagens que saíram, achei interessante, mas não queria me manifestar necessariamente sobre isso. Mas no fim das contas eu achei maravilhoso. Achei que tinha o assunto do negro naquela coisa toda, que tem a ver com  a dança e tudo. Mas esse aspecto não foi pensado, embora, quando resultou, achei muito justo.  Eu tinha ido à África, no disco 'Bicho' eu falava de Pelé, da África, imitando música africana, falava na Nigéria, enfim eu estava naquela, realmente. E quanto ao Black Rio eu vi várias pessoas de nome, inteligentes, falarem, mas acho que eles estão por fora. Eu vi o Aldir Blanc falar, e o Ferreira Gullar, e o Sérgio Cabral... todos estão por fora, na minha opinião. Totalmente.
- E como você vê o Black Rio?
- Eu nem vejo, propriamente. Eu não gostaria nem muito de me exprimir assim tão peremptoriamente sobre o assunto. Mas eu acho que é o seguinte: o preto é preto, é uma coisa que é verdade, que é internacional em qualquer lugar do mundo. Essa coisa de que o preto brasileiro tem de ser assim ou assado é uma coisa totalmente injusta, porque, quando o samba é produto industrial de São Paulo e nas áreas de escola de samba as pessoas se interessam por soul, e os pretos de Itapoã na Bahia soul music, não teria sido uma coisa muito real. Quando eu combinei o trabalho com o Oberdã, eu nem sabia o nome da banda, combinei porque ele falou o nome dos músicos, a gente ia fazer uns arranjos, uma coisa assim de banda pesada. Mas eu tinha consciência naquela altura, como tenho hoje, que eu não posso fazer o show do Tim Maia. Ele faz uma coisa maravilhosa nessa linha, mas eu só queria estar perto disso. Então o que aconteceu era o mais real possível, passou a informação mais limpa. Tinha que ser uma coisa entre uma coisa e  outra, com os conflitos internos. Para o meu trabalho, foi certo.
 - E a reação negativa, aqui no Rio? Seria a decepção das pessoas por encontrar você quase como crooner da banda, dividindo o espetáculo com eles em vez de fazer um show só seu?
- Bom, isso, sem dúvida, era muito forte. Mas em São Paulo não houve problema nenhum, de espécie alguma. Foi uma coisa inteira, as pessoas dançavam muito, aplaudiam muito, gritavam, quiseram fazer uma passeata no primeiro dia, porque acabou e não queriam ir embora do teatro, ficavam gritando, pulando e cantando. Em Belo Horizonte foi mais discussão ainda do que no Rio, foi uma loucura. Era estranho demais, assobiavam, gritavam coisas, me pegavam pelo braço quando eu descia na plateia. Foi uma coisa muito cheia de conflito. Eu não queria fazer assim. Não gostei. Assim não dá, não estou aqui pra criar polêmica. Estou a fim que se veja e se transe e se tente perceber que eu estou interessado em determinadas coisas, em determinados temas. Pode não encher a casa nem me dar dinheiro, mas tem que saber disso. Mas não quero também criar uma polêmica, ficar um ano discutindo se as pessoas devem ou não dançar, não dá.
Ouvem soul e dançam soul no carnaval, dançam música de Bob Marley, tocam Bob Marley em Itapuã, é impressionante... então é uma coisa que está na cara., não é? Eu vi na televisão um sujeito dizer: 'Samba tá por fora, quadra de escola de samba é lugar de quem espicha o cabelo'.  Eu não sei no que vai dar, não sei o que é, nem sou preto, já disse, sou mulato, meu filho se chama Moreno, acho ótimo essa coisa de morenidade e tudo isso, mas não acho que a gente tenha uma questão racial mal resolvida, aqui, e que todas as expressões culturais que saíram disso já bastam e que isto não vai se movimentar. Eu acho que você não admitir que isso se movimente é você ter muito medo da realidade e querer tapar o sol com a peneira. As pessoas pretas são pessoas, estão aí, não sei o que elas querem, não posso falar por elas mas também não posso impedi-las de falar, de se manifestar. E  se alguém impede acho que está errado. Eu achei repressivo dizer que não pode, que está errado, que tem que dançar samba. Eu acho que isso não pode ser decidido assim, que história é essa? Em bom português: agradecemos muito aos senhores negros que já deram um pouco de colorido, sal e pimenta à nossa cultura, e agora podem morrer. Não, tá errado.
- A maior parte das críticas ao seu trabalho no 'Bicho Baile Show' e no disco 'Bicho' eram justamente com relação a esses temas que você escolheu. Dança, corpo, isso visto como uma coisa alienante.
- Isso foi uma coisa mais pessoal com relação ao que eu estava fazendo. O que eles estavam querendo de mim era que eu quisesse entrar nessa trip politizante de abertura, não sei o quê. E eu não me sinto na obrigação de entrar. Eu não acho que seja necessariamente a coisa menos alienante o que um artista possa fazer, agora. Eu não me sinto nem um pouco inclinado a fazer coisas assim como o show da Elis, ou como o disco 'Meus Caros Amigos', do Chico, enfim coisas assim que eu acho maravilhosas, mas que eu não me acho na obrigação de fazer também. Eu não curto. Entendo tudo isso, essa necessidade de se falar em redemocratização, em liberdades, justiça social, distribuição da renda, eu acho certo, mas não é só isso. Isso é muito complicado, politicamente, de repente uma coisa nem está desempenhando o papel que deverias estar... mas mesmo assim eu não estou interessado nisso. O Glauber, por exemplo. Ele fala muito, diz um monte de coisas, e eu acho que ele é um artista e tem uma necessidade enorme de dar opiniões políticas originais, tem uma coisa pra dizer, está discutindo, aí. Ele tem interesse nessa área bem superior ao meu, e mesmo assim tem um tipo de opinião diferente da que os outros artistas em geral têm quando se trata de política. Quanto mais eu, que não estudo essas coisas, não fico ligado. E todo esse pedido que vinha pra mim para que eu fizesse uma coisa que eu nunca fiz! Nunca fiz! Sempre fiz o que eu faço: uma coisa que é o que vem de mim, que é o que eu sinto das coisas, nunca foi nada disso, nunca fiz onda de política. Essas pessoas que estão assim na minha classe, classe média, que compram disco, que vão à universidade, que vêm filme, que falam de coisas, essa gente, nós, dessa nossa área, estão sempre reclamando. Tanto que eu nem liguei muito, nem quis discutir. Não deu pra ficar falando muito, já falei isso antes.
 - E os temas do 'Bicho' - dança, corpo - foram adiados, cancelados, ou correm paralelos dentro desse trabalho, agora?
- Correm paralelos. É a mesma coisa. Com o grupo com que eu estou, agora, dá  pra ter isso incorporado. Você vê que o Arnaldo é um bom baixista, muito funky, a gravação de 'Odara' era dele. O disco 'Bicho' foi feito antes de eu encontrar a Banda Black Rio, não dependeu da Banda Black Rio para eu ter esse interesse.
 - Mas, como um todo, os trabalhos de 'Bicho' e de 'Muito' resultaram inteiramente diferentes.
- É, completamente diferentes. Mas você entende bem que de uma certa forma tanto o 'Bicho' como o 'Bicho Baile Show' eram mais uma referência ao assunto dançar do que a produção da melhor música para dançar. Eu acho que a maioria das pessoas que fazem coisas dançantes no Brasil fazem melhor do que eu. E eu não pensava dar o melhor produto no gênero dançante: eu pensava em me referir à coisa, fazer coisas vinculadas a isso. Eu não vou fazer músicas de discotheque, não vou me treinar para isso, nem pretendo. Eu nem gosto muito de discotheque. Só gostava do 'Dancing Days' da Gávea, porque era um lugar onde eu me sentia à vontade, me sentia entre as pessoas que eram iguais a mim. O novo eu nem vi direito, não sei. Mas as outras, eu não gosto de nenhuma.
- E da música de discotheque?
- Eu gosto muito da música, muitas coisas. Eu não gosto muito de Donna Summer, essa coisa alemã, com uma mulher de voz fraquinha, eu não gosto. Mas essa coisa tribal, de ritmo batido, tudo o que é soul... Barry White, por exemplo, eu acho maravilhoso.
- Música de discotheque não lhe parece uma coisa exclusivamente industrializada?
- É uma coisa industrializada, mas é também uma coisa tribalizada. Tem um lado que já fica baixo astral, o de ser uma coisa feita só pra dar grana, mas o acontecimento em si... que não é novo, discotheque já era muito sucesso em 68, com ritmos parecidos. Soul music e tudo, no final dos Beatles a discotheque já era uma coisa da moda, no Brasil. Só que agora ficou de massa, discotheques maiores, mas baratas, proliferou. E eu acho que é uma coisa boa, um modo mais tribal de ser, uma vontade expressa pelos produtos humanos das sociedades industriais em geral de retribalizar-se. Isso já apareceu no rock, não é por acaso de Mick Jagger adora e imita música de discotheque. Aliás, os Rolling Stones tembém não fazem uma boa música de discotheque, mas não se incomodam de imitar. Numa certa medida o que eu faço é isso também, num outro nível inteiramente diferente, porque é Brasil, porque sinto que a gente é outro lance, de moda, uma produção em série.
E é industrializada, mas acontece que desde a década de 60 a gente já desbaratinou esse problema do produto industrial. Hoje em dia ou você supera a situação industrial ou você já topa. Não se fica mais pensando em arte nobre e arte industrial, tudo isso dançou nos anos 60. E, pra mim, dançou mesmo, eu sou assim superrefinado, quero a coisa superrefinada, mas num lance de quem já topou a arte industrial, já passou por esse lance todo. Às vezes é um conjunto de fatores dessa coisa industrial que vai resultar em algo joia, que não foi ninguém que criou. Como foi em alguns momentos o cinema de Hollywood, como hoje é, em alguns momentos, a televisão. Eu sou contra o baixo astral das relações econômicas, esse baixo astral de dominação, exploração, engano, mentira, isso que as relações econômicas produzem e significam, no estágio em que estão. Mas eu acho que o que interessa pode vir de qualquer lugar. Mesmo porque o comércio e a moda se movimentam de acordo com  as necessidades das pessoas, no caso, dançar, ter uma coisa espontânea, menos pensada... eu acho uma coisa boa. O que não sei resolver é o baixo astral de dominação humana, do poder do homem, como isso pode se exercer de uma forma luminosa, bela, e não de um modo injusto... isso eu não sei como é. Mas eu procuro e acho que todo mundo deve procurar. Eu penso essas coisas, mas na verdade, na verdade mesmo, eu faço música e vivo disso. Isso é uma coisa de que eu me lembro sempre, e é uma coisa muito forte em si, que define muito o que sou. Por mais que eu pense sobre o mundo, não posso realmente decidir os destinos do mundo. Posso falar um monte de coisas, como falei agora, quer a gente deve se libertar para uma coisa maior. Mas, principalmente, eu faço música e vivo disso."

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