Palavras Domesticadas

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sábado, 6 de junho de 2015

Caetano Veloso Fala do Disco "Muito" (1978) - 2ª Parte

"- Mas muitas vezes me parece que houve um projeto anterior, pensado. A Tropicália, por exemplo.
- A Tropicália, o movimento em geral, era um projeto muito forte.
- O 'Araçá Azul' também, me parece.
- O 'Araçá Azul' foi um disco muito marcado para um lado, mas foi um disco sem planejamento. Eu fui pra São Paulo, fiquei uma semana e fiz tudo no estúdio, as músicas, tudo. Não fiz nada antes, nada. E ficou parecendo uma coisa tão... elaborada. Eu me lembro da crítica do Tárik de Souza na 'Veja': 'É o disco mais elaborado de Caetano'. Eu ri à pampa, puxa, eu fiz tudo em uma semana, não tive nem o menor senso crítico, não tive o menor trabalho... E saiu mal feito, a produção, o som chapado, mil problemas. Mas é bacana, porque é um negócio assim louco. E bonito, mas não foi elaborado. O 'Jóia' foi um pouco mais, mais do que o 'Araçá Azul', porque levou muito mais tempo para ser gravado, mais para ficar fazendo devagar, até aparecer a hora boa de sair a coisa bonita. Mais do que ficar burilando, endireitando. Eu não tenho muita paciência para ficar fazendo, refazendo, endireitando...
- E você acabou gostando mais do resultado final de 'Muito' do que desses discos anteriores?
- Nesse disco há algumas coisas que são as que mais me satisfizeram até hoje em termos de gravação. Desde 'Transa' e uma coisinha ali, outra aqui. O 'Coração Vagabundo' no disco 'Domingo', muitas coisas em 'Transa', a maioria, alguma coisa de 'Araçá Azul', alguns momentos de 'Jóia', sendo que aí eu gosto do modo todo de ser do disco... mas tem coisas nesse disco, conquistadas nessa gravação, que são as que mais me fazem a cabeça. 'Terra', por exemplo. Talvez seja uma das  minhas melhores gravações, e, num determinado sentido, é a minha melhor gravação, porque aconteceu no estúdio com uma coisa de sentir junto... Bom, foi tudo gravado direto, tocado e cantado direto e saiu daquela maneira. A gente sentiu a emoção e, quando a gente foi ouvir, viu que havia passado para a gravação. Não teve playback, não teve que botar voz depois, não teve emenda, todo mundo tocando junto e saiu daquela maneira. Tem silêncios, uma hora todo mundo para, fica só o violão, depois todo mundo entra... e a gente sem se ver porque fica cada um num quadradinho isolado dentro do estúdio.
- Eu gostaria que você falasse um pouco mais de 'Terra', da concepção da música. Porque é uma faixa forte, ela dá bem o tom do disco, assim numa espécie de declaração de amor planetária, a primeira canção de amor ao planeta Terra.
- Sabe aquele filme 'Guerra nas Estrelas'? Quando eu vejo filmes que tem espaço... '2001', por exemplo, que eu nunca mais revi e acho lindo... mas quando eu vejo aquele espaço enorme nos filmes me dá vertigem. Se eu deitar assim e olhar o céu estrelado num lugar que eu não vejo mais nada, eu sinto que eu posso desprender da Terra e voltar. Já conversei com outras pessoas e elas também sentem isso. Eu sinto  muito forte essa vertigem, e me dá uma angústia terrível. E no 'Guerra nas Estrelas' me deu, um pouco, mas o filme é mais leve. E esse filme tem uma coisa: o planeta Terra não é nem citado, nem aparece, parece que não existe, é uma coisa bem longe da Terra. Então eu senti essa impressão de saudade. Eu me lembro logo da primeira ou segunda semana que eu estava na cadeia e o pessoal me levou revistas que tinham as primeiras fotografias da Terra, tiradas de fora. E uma era uma coisa maravilhosa, tinha a Terra inteira. Eu esperava ver os continentes, mas era tudo coberto de nuvens. Tudo isso, depois que eu vi o filme, me deu uma impressão muito grande de que havia uma tensão poética... e na época eu também achei. Eu pensava: 'Como é que eu estou aqui, num espaço tão limitado que mal dá pra eu me mexer e ao mesmo tempo eu estou vendo uma foto da Terra toda, tirada de um espaço tão ilimitado'... achei que tinha uma tensão poética nesse lance e me lembrei disso, tanto que comecei a música já citando essa coisa. É uma música confessional, de explicação. Eu comecei a escrever essa música fazendo a letra, primeiro, o que é uma coisa muito rara, ultimamente, porque muito raramente eu faço letra antes da música: sai junto ou eu faço a música antes, quase todas. Essa letra eu fiz antes, e era diferente da que veio a ser a letra da música, mas a ideia básica era a mesma. Ela era mais nordestina, mais bem 'escrita', entre aspas, mais João Cabral de Mello Neto. Depois que eu botei música ficou mais desarrumada, e eu achei mais bonito, mais a ideia mesmo do que eu queria dizer. Agora, 'Sampa' eu também acho uma transa de amor muito forte. Você vê que não existem muitas expressões de amor à cidade de São Paulo como  a que há nessa música. E foi tudo casual, também você sabe, eu estava fazendo um programa de televisão e me pediram um depoimento sobre São Paulo e eu fiz, pensando em tudo o que era São Paulo pra mim, e saiu uma canção joia, mesmo. Então eu adoro o disco, ele é cheio dessas coisas. Acho que amor, mesmo, é o tema dele. Mas é um disco inteiramente sem uma ideia anterior, porque na verdade ele nasceu daquele show do teatro Clara Nunes, no início do ano, e aquele show não tinha nenhuma ideia preestabelecida. Foi uma coisa muito solta. Nesse sentido ele é muito qualquer coisa. Mas é lindo.
- Na entrevista que acompanha, para divulgação, o disco, você fala bastante da transição entre o 'Bicho Baile Show' e o espetáculo do Clara Nunes, que resultou no 'Muito'. E de como uma coisa não representava a negação da outra, ou seja, de como 'Muito' não renegava o 'Bicho' nem o trabalho com a Banda Black Rio.
- A passagem de uma coisa a outra foi inteiramente casual. Eu tinha um plano, já de muito tempo, de ter um som assim mais transado, tanto para mim quanto para os músicos, e isso foi tomando corpo com isso da gente tocar em casa, com amigos, surgindo daí essa banda, a Outra Banda da Terra. E a gente acabou subindo num palco porque o lance com a banda Black Rio na Concha Verde não deu certo, porque eles estavam com problemas internos na banda, e não queriam fazer o show naquela época. Só se fossem shows vendidos, porque aí eles tinham um dinheiro certo, e eles tinham medo de não lotar a Concha Verde, mas eu sabia que ia superlotar. Era o momento certo, a coisa tinha sido muito discutida, tinha sido sucesso em São Paulo, era uma volta... mas o pessoal da Black Rio não tinha nenhuma maturidade com relação a esse tipo de diálogo com as plateias. Porque o modo como o 'Bicho Baile Show' transcorreu no Rio de Janeiro deu uma impressão muito negativa pra eles e eles demonstraram uma certa fragilidade, mas para mim esse tipo de reação era uma coisa conhecida. Quer dizer, eles esperavam, porque eu tinha falado e tudo, sabiam que ia dar discussão, como eu achava que podia dar, mas mesmo assim havia mais otimismo do que reconhecimento verdadeiro de que poderia ser não uma mina de ouro mas um problema que a gente estava criando pra gente mesmo. E foi um problema, mesmo. E nem todos os participantes da banda estavam tão entusiasmados com o próprio tipo de música em que eles estavam oficialmente interessados. Havia uma discussão interna, uma discussão riquíssima, pra mim importante e boa. O tipo de música que a maioria deles podia curtir era uma coisa mais ligada ao Bossa Rio, samba-jazz, mas o Oberdan e o Luís Cláudio tinham a cabeça feita para soul music e queriam fazer uma coisa nesse sentido, achando que era joia, mas nem todos pensavam assim, achavam que talvez fosse um lance comercial da gravadora. Então a Banda Black Rio era, de certa forma, fragilizada profissionalmente por esses problemas estéticos que são fertilíssimos. E era uma banda de um nível musical muito elevado."
(continua)

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