Palavras Domesticadas

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sábado, 5 de novembro de 2011

Rumble Fish/ O Selvagem da Motocicleta


Em minha recente postagem sobre o poeta Chacal, eu falei sobre uma coleção chamada Cantadas Literárias, que a Editora Brasiliense mantinha nos idos dos anos 80. Várias obras de peso, nacionais e internacionais foram lançadas nessa coleção. Dentre elas um livro marcante, e que gerou uma excelente adaptação para o cinema. Trata-se de Rumble Fish, de Susan E. Hinton, que foi adaptado para o cinema em 1983. No Brasil, o filme ganhou o título de O Selvagem da Motocicleta. Esse título, por sinal, de vez em quando confunde algumas pessoas, que ao citarem o clássico O Selvagem, com Marlon Brando, erroneamente lhe dão o título de O Selvagem da Motocicleta, até porque Brando nesse filme, faz parte de uma gang de motociclistas.
O livro de Susan E. Hinton foi lançado em 1969, quando a autora tinha 19 anos. A adaptação para o cinema, com direção de Francis Ford Copolla aconteceu bem depois, já nos anos 80, e ajudou a impulsionar e trazer o livro de volta às livrarias.
No Brasil, na esteira do filme, Rumble Fish foi lançado em 1988, e na época saiu uma resenha num informativo da Editora Brasiliense chamado Primeiro Toque, que era um catálogo dos lançamentos de editora. Abaixo, alguns trechos dessa resenha, escrita por Pedro de Luna:
“Ainda me lembro muito bem do dia em que assisti a Rumble Fish pela primeira vez. Como sou um autêntico ‘cinemaníaco’, sempre procuro assistir aos novos filmes logo que eles estreiam. No caso de Rumble Fish isso não foi diferente. Era uma quinta-feira superquente, março de 87. Eu tinha passado o dia todo trabalhando aqui na editora e quando bateu as 5:30 eu queria, tinha, precisava mesmo dar uma saída. Eu já sabia que o filme estreava naquele dia e sabia que era do Copolla, um diretor que para mim, desde que assisti a Apocalypse Now é simplesmente demais!
Saí daqui com uma amiga que trabalhava na Arte, a Ângela, pegamos um ônibus na Paulista e fomos pro cinema, o Paulistano, ali na Brigadeiro Luis Antônio.
A gente tinha marcado de se encontrar com Celso, um cara muito legal que já editou o Primeiro Toque e que hoje está em Londres, mas ele deu o cano. Compramos os ingressos, entramos na sala e fomos sentar lá na frente. Estava passando o jornal do Primo Carbonari e a gente se divertiu contando quantas vezes o próprio Primo Carbonari (um velho imensamente gordo e careca que parece sempre usar o mesmo terno) aparecia nas reportagens daquele lixo que ele chama de cinejornal. E aí, de repente, Rumble Fish – proibido para menores de 16 anos, porque, segundo a censura, abordava ‘temáticas complexas’...(???)
Imagens em preto e branco, cenas de uma pequena cidade do meio-oeste americano, anos 60, o Bar do Benny (um cara de óculos que eu logo reconheci como sendo o músico Tom Waits), e Matt Dylon, ou melhor, Rusty James, um garoto de 16 anos, metido a valentão, e que sonha em ser como o irmão mais velho (explicação: o irmão mais velho é nada mais, nada menos do que Mickey Rourke, o motorcycle Boy)
Foram duas horas de paralisia. Eu estava grudado na poltrona e não conseguia me mexer. Através da simples história de uma guerra entre gangs juvenis e das perspectivas de um adolescente diante do seu futuro, Rumble Fish foi para mim uma das mais contundentes e ferinas críticas ao american way of life, um sistema que, como todo o sistema, só serve para quem nele se insere, ou se submete.”

Apesar da publicação ter como objetivo promover e divulgar o livro, o texto fala do filme e não da obra literária, embora, logicamente por se tratar de uma adaptação, o livro indiretamente é lembrado e também divulgado. O livro é mesmo ótimo, e mereceu a excelente adaptação cinematográfica, algo que nem sempre ocorre.
Uma citação de uma resenha publicada no jornal americano Newsweek descreve Rumble Fish como “um livro que fala de juventude, de liberdade e de espaços abertos. Mais do que isso, revela uma outra visão do american way of life: a dos inconformados, dos ‘selvagens’ que tentam a todo custo levar suas vidas fora dos padrões pré-estabelecidos, mesmo que – para isso – corram o risco de perdê-las. Rumble Fish é um brilhante poema sobre o exílio interior.”

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