Palavras Domesticadas

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sábado, 12 de fevereiro de 2011

Arrigo Barnabé - 1981


Por volta de 1980 fiquei conhecendo o trabalho de Arrigo Barnabé, e o que eu ouvi deu um nó em minha cabeça. Era diferente de tudo o que eu já havia escutado até então. Lembro de algumas aparições dele na tv, e o lançamento de Clara Crocodilo, seu primeiro disco. Por ser uma produção independente, não era fácil de se encontrar fora dos grandes centros, mas descobri que um amigo que morava no Rio tinha ou conhecia alguém que possuia esse disco, e então pedi para ele gravar em fita k-7, e assim fiquei conhecendo mais profundamente aquele disco antológico. Hoje já tenho o lp, inclusive autografado pelo próprio, quando da primeira vez que se apresentou por essas plagas (esteve duas vezes). Arrigo continua na ativa, compondo e fazendo shows. Uma amiga de Porto Alegre falou de um show dele que ela assistiu recentemente, onde Arrigo só cantou, a sua maneira, músicas de Lupiscínio Rodrigues. Abaixo, transcrevo uma matéria sobre Arrigo publicada na edição de 4 de agosto de 1981 da revista Careta:
"Quem conheceu Arrigo Barnabé em sua fase de estreia na parafernália do swow-business, lembra bem do garotão speed, elétrico até, comandando com caretas e estranhíssimos timbres de voz as desbundantes apresentações de "Clara Crocodilo". Em dias de maior inspiração, até uma maquilagem de presidiário completava o quadro esfuziante do herói à frente da banda Sabor de Veneno.
Uma fase, sem dúvida. Principalmente se levarmos em consideração o background dessa figura, nascida em Londrina, a 14 de setembro de 1951, sob a auspiciosa constelação de Virgo. Pois é. Arrigo era menino, tímido e, na Escola dos Irmãos Maristas, dava-se melhor com os pretos e japoneses, que tinham um nome estranho como o dele:
- Nunca achei que ia ser músico: eu era péssimo instrumentista e queria ser químico ou inventor.

E foi só após inúmeras idas e vindas, desejos e frustrações, que Arrigo Barnabé começou a pensar em decisões definitivas: leu o "Lobo da Estepe", de Herman Hesse, e largou o catolicismo; leu o Pasquim e entrou numas de produzir um movimento musical paranaense; inebriou-se com o Tropicalismo e chegou a uma conclusão: era necessário haver uma ruptura na linguagem da música popular brasileira.
- O tonalismo estava esgotado, recorda ele, e eu achava que a MPB deveria fugir da consonância, brincar mais com os sons, assim:...
Mas Arrigo, que se educou à base de Béla Bartock, Igor Stravinski, Bach, Beethoven, Shuman, Vivaldi, Chopin e etc, não brincava em serviço e, entre 71 e 72, compôs a primeira loucura, Clara Crocodilo, em parceria com Mário Lúcio. Tempos depois, após uma rápida passagem pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP - mais uma carreira abandonada - Arrigo invadiu a salinha da ECA em que Nélson Ayres tocava piano:
- Boa noite, seu Nélson, eu fiz umas músicas e preciso muito que alguém as grave, quer ouvir?
Não deu outra: Nélson ouviu, gostou e até levou um k-7 para a deusa Elis Regina e César Camargo Mariano escutarem.
A curiosa personagem - "que pode estar roubando algum supermercado, assaltando algum banco ou pode mesmo estar atrás da porta de seu quarto, aguardando o momento oportuno para assassiná-lo com seus entes queridos" - virou até coreografia de dança, uma montagem jovem e louca como ela e como Arrigo.
E para mergulhar no desconhecido e fazer uma música além do trivial variado, Arrigo Barnabé só necessita de uma coisa: rotina, daquelas bem tradicionais, com livro de cabeceira -"sem ler me sinto burro" - e hora para praticar esportes, natação por exemplo. Em suma Arrigo resolveu parar e resume isso numa simples frase:
- Não quero ser estrela, quero saber!

Um comentário:

  1. Arrigo empregou técnicas da música dodecafônica brincando com a série de 12 sons criada por Arnold Schoenberg, fundiu com história em quadrinhos,aplicou arranjos elaborados de metais, e criou uma nova linguagem na Mpb moderna.

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