Palavras Domesticadas

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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Poeta Augusto de Campos fala sobre a Tropicália



Nem todos compreenderam ainda, no Brasil, a atuação do grupo da Tropicália. Caetano, Gil e seus companheiros se utilizam de uma metalinguagem musical, vale dizer, de uma linguagem crítica, através da qual passam em revista tudo o que se produziu musicalmente no Brasil e no mundo, para criarem conscientemente o novo, em primeira mão. Por isso seus discos são uma imprevista colagem musical/literária, onde tudo pode acontecer e o ouvinte vai, de choque em choque, redescobrindo tudo e reaprendendo a “ouvir com ouvidos livres”, tal como Oswald de Andrade proclamava em seus manifestos: “ver com olhos livres”.
Os compositores e intérpretes do Grupo Baiano nem ignoram a contribuição de João Gilberto, nem pretendem continuar, linearmente, diluindo as suas criações. Eles deglutem, antropofagicamente, a informação do mais radical inovador da Bossa Nova. E voltam a pôr em xeque e em choque toda a tradição brasileira, bossa-nova inclusive, em confronto com os novos dados do contexto universal. Superbongosto e supermaugosto, o fino e o grosso, a vanguarda e a jovem guarda, berimbau e Beatles, bossa e bolero, são inventariados e reinventados, na compreensão violenta de seus discos – happenings, onde até o melodramático e redundante Coração Materno, do velho cantor Vicente Celestino volta a pulsar com os tiros de canhão da informação nova.

Augusto de Campos, 1969

Um comentário:

  1. Poderia colocar links de algum desses materiais pra download ou ouvir na net sem baixar...

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