Palavras Domesticadas

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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A Passagem de Brigitte Bardot por Búzios em 1964




Muito se comentou, e ainda se comenta sobre uma viagem que a atriz francesa Brigitte Bardot fez ao Brasil, em 1964, no auge de sua fama e beleza. Brigitte era na época um dos nomes mais badalados de jet set internacional, e logicamente, por onde andasse, era notícia. No final do ano de 64, ela e seu namorado vieram passar o Natal no Brasil, e na época visitaram Búzios, até então uma simples aldeia de pescadores, mas com um visual deslumbrante. Essa passagem por Búzios foi muito comentada, e anos mais tarde até foi erguida uma estátua da atriz na famosa praia.
Em 2004, quando se completaram 40 anos dessa sua passagem por Búzios, a prefeitura local resolveu homenageá-la, convidando-a para retornar ao balneário e receber as devidas homenagens, até pelo fato de Brigitte ter com sua presença promovido o crescimento e o turismo da região. Ao receber o convite, Brigitte respondeu agradecendo, mas dizendo que não se lembrava daquela passagem por Búzios, para desapontamento de muitos. De fato, para alguém que tinha uma vida tão corrida, e fez inúmeras viagens não só a turismo como também profissionais, é até aceitável que não se lembrasse de um passeio realizado há 40 anos em uma pequena aldeia de pescadores em um país distante da América do Sul.
Porém, lendo seu livro de memórias, um grosso volume de mais de 600 páginas, “Iniciais BB - Memórias” (Scipione Cultural), vê-se que ela se lembra muito bem daqueles dias em Búzios. Eis alguns trechos de seu relato:
“Aquele pequeno desvio pelo Brasil me fez muito bem.
Tornei a ver os alegres amigos de Bob (seu namorado), o apartamento ainda sujo, mas agora familiar, Penha, a empregada, uma negra gordona, adorável, a mãe de toda aquela turma de avoados, Jorge Ben, o rei incontestável da bossa nova veio tocar violão para me alegrar. Bebia-se cachaça.
No dia seguinte, nosso amigo Denis Albanese e sua mulher Dolores levaram-nos em seu barco para visitar as ilhas perdidas, selvagens e intactas de Angra dos Reis.
O barco era pequeno, era um veleiro, éramos oito a dividir entre risos uma única cabine.
Depois de alguns dias inesquecíveis passados tal como Robinson Crusoé entre terras virgens, céu puro e mar morno, depois de ter ficado irreconhecível por causa do excesso de sol, das picadas dos insetos e do sal que queimara meus cabelos e minha pele, mais parecida com uma índia do que com uma estrela, Bob achou que hora de irmos a Búzios passar alguns dias indispensáveis para eu voltar ao meu aspecto inicial antes de enfrentar o duro trabalho que me esperava.
Passamos o Natal em Búzios, na casa de Ramon Avellaneda, cônsul da Argentina no Brasil, e de sua mulher, Marcela.
Na noite de Natal, depois de ter decorado e disfarçado uma palmeira de árvore de Natal cheia de bolas, de guirlandas e de papais noéis muito vestidos, que pendiam tristemente no lugar dos cocos, depois de de ter enchido de presentes de todos os tipos os nossos sapatos, ou melhor, chinelos e sandálias, à guisa de Missa do Galo, fomos todos tomar banho de mar.
Eu guardo uma estranha lembrança daquele único Natal “diferente dos outros”. Daquele Natal ao contrário, ao contrário das tradições, com aquele calor e aquele ambiente diametralmente oposto a tudo o que simboliza o Natal.”

Pois é, a descrição detalhada, nome de pessoas, e palavras e expressões como “dias inesquecíveis”e “eu guardo uma estranha lembrança” provam que Búzios não se apagou de sua lembrança.

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