Palavras Domesticadas

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domingo, 21 de fevereiro de 2010

Memórias Televisivas



O primeiro aparelho de tv que minha família teve foi comprado por meu pai quando eu tinha cinco anos. Até então eu assistia tv na casa de um tio. Naquele tempo não era qualquer família que tinha o privilégio de ter um aparelho de tv em casa.
Em Campos só entrava o sinal da Tv Tupi, canal 6. Lembro que gostava de ver a linha de shows, que vinha depois do noticiário, o Repórter Esso, que era apresentado pelo locutor Gontijo Teodoro. Antes do terlejornal passava um programa curto, de uns 10 ou 15 minutos, chamado Diário de Um Repórter, apresentado por Alberto Cúri, irmão do locutor esportivo Jorge Cúri e do cantor e showman Ivon Cúri. Esse programa trazia uma crônica diária escrita por Davi Nasser, um simpatizante do governo militar e da ditadura. Eu detestava esse programa, não pelo caráter político, já que eu não entendia nada do assunto, mas porque eu achava muito chato ver aquele cara falando aquelas coisas que eu não entendia nada. Antes do locutor ler o texto do dia, ele citava todas as emissoras afiliadas da Tv Tupi que retransmitiam o programa. A Tupi foi o primeiro canal a atuar em rede. Eu achava que aquelas emissoras que eram citadas fossem modelos de aparelhos de tv, então pensava comigo: “Tomara que a televisão que papai vai comprar não seja dessas que passam esse programa”. Depois do Diário de Um Repórter entrava o Repórter Esso.
O telejornal da Tupi era o mais assistido da época. A televisão ainda tinha muitas limitações. Por exemplo, não havia transmissões por satélite. Isso significava que não se podia ter imagens das matérias internacionais. Essas imagens só chegavam dias depois. O que havia eram fotos, que chegavam não sei através de que meio, mas eram chamadas de “Radiofoto UPI”, e eram as mesmas fotos que saiam nos jornais no dia seguinte. Lembro que às vezes passavam imagens de gols de campeonatos internacionais, principalmente o inglês. Eu achava o futebol deles bem mais corrido que o nosso. Via uma correria desenfreada. Antes de encerrar o jornal, e dar a última notícia, o locutor anunciava: “E eis a notícia final!”. Eu aguardava ansioso essa hora, pois o telejornal, que eu achava chato, iria enfim terminar. Depois de ler a última notícia, o locutor se despedia com a frase: “Muito obrigado, boa noite e até lá!”. Aí então começava a festa pra mim. Começavam os programas da linha de shows, que eram geralmente humorísticos. Quase todo dia tinha programa de humor, que eu adorava.
Quando meu pai comprou nosso primeiro aparelho de tv foi uma festa em casa. Era uma tv da marca Hotpoint, que com o tempo começou a apresentar constantes defeitos. Só vivia na oficina. Logicamente eu e meus irmãos adorávamos ver os desenhos animados. Os desenhos na época, não sei porque, não eram dublados, eram em inglês mesmo. A gente não entendia o que se falava, mas não se importava. Desenhos do Popeye, Pica-Pau, Faísca e Fumaça e tantos outros a gente assistia com o som original mesmo. Só os Flintistones, por algum motivo, eram dublados. Alguns outros desenhos que vieram depois, como os Jetsons e Manda-Chuva já passaram a ser dublados, mas isso foi um pouco mais tarde. E assim foram meus primeiros contatos com a babá eletrônica.

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