Palavras Domesticadas

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sábado, 6 de fevereiro de 2016

Yoko Ono Lança It's Alright (1983)

Yoko Ono sempre foi vista como uma espécie de vilã. Alguns fãs dos Beatles não a perdoam até hoje, por considerá-la a principal responsável pela separação dos Beatles. Na verdade poucos a levam a sério como cantora, função, aliás, que com certeza ela nunca teria exercido, não fosse seu envolvimento com John Lennon. Era até de se esperar que após a morte de Lennon, sua carreira musical fosse sepultada junto com ele, mas a verdade é que Yoko não desistiu de continuar gravando e lançando discos. E assim foi com It's Alright, álbum que ela lançou em 1983, que recebeu uma resenha do jornalista José Emílio Rondeau, publicada na revista Pipoca Moderna nº 4 (março de 1983). O texto tem por título "Yoko desperta de seu pesadelo", e é reproduzido abaixo:
"Yoko sempre foi muitas coisas para muitas pessoas - uma bruxa insidiosa que dinamitou os Beatles e tirou John Lennon do mundo; uma pretensiosa de língua solta, espaçosa o suficiente para capitalizar a fama do marido; uma herege que se atreveu a enfeitar a capa de um de seus discos com os óculos ensanguentados de John. Mas só agora, 15 anos depois de de ter-se unido a Lennon, Yoko consegue começar a ser vista como sempre quis, ou como sempre deveria: mulher e artista.
Não que tivesse sido fácil digerir sua discografia anterior a 1980, quando Double Fantasy catapultou-a ao segmento mais popular do mercado fonográfico e à adoração dos críticos. Sua obra musical jamais fora chamada de música; popular, menos ainda. Invariavelmente seus discos eram reduzidos, nas críticas e na boca do povo, a 'guinchos insuportáveis', 'devaneios auto-indulgentes' ou coisa pior. E o único a se importar com essa saraivada de xingamentos sempre foi John. Yoko nunca pretendera o apelo popular, queria fazer Arte.
Mas se Double Fantasy representou uma guinada radical na carreira fonográfica de Yoko - nele surgiriam canções acabadas, pop, facilmente reconhecíveis, bem trabalhadas - Season of Glass, o álbum seguinte, confirmou a capacidade de Yoko ser uma artista popular bastante bem dotada. De bruxa malvada, Yoko passou a inovadora do rock'n roll. Ela mostrava-se, enfim, uma visionária utópica, mas talentosíssima compositora.
A capa de It's Alright
It's Alright não chega a ser uma  obra-prima pop. Mas está bem perto disso. Em todo os aspectos - seja pela instrumentação bem dosada e soberbamente contemporânea, seja pela simplicidade honesta e contundente das letras, seja por seu irresistível ritmo - esse é seu melhor disco. E nele Yoko acopla o pique de 'Walking On Thin Ice' e transforma a raiva, a ira cega desta faixa numa reflexão mais serena sobre o estado de solidão. It's Alright é de um otimismo a toda prova, uma talvez não tão inesperada profissão-de-fé na humanidade e nos ideais em que Yoko e John sempre acreditaram: paz, compreensão, ajuda mútua.
O otimismo está em toda a parte, no álbum, a partir dos títulos - 'Está Tudo Bem', 'Deixe as Lágrimas Secar', 'Sonhe o Amor' - até a faixa final, 'I See Rainbows' ('não quero ser terrorista/ não quero saber dessa história de holocausto limitado/ esse é o nosso mundo e ele é lindo/ eu quero sobreviver junto'). Yoko dá a impressão de que, aos poucos, mas resoluta, ela se afasta do fantasma da dor primeira da perda de John e da resignação e da vingança com que se atirava à viuvez. Ela aceita, agora, a ausência de John e quer, mais do que nunca, sobreviver inteira a seu holocausto particular. Talvez John não quisesse que fosse diferente.
Curiosa, porém, é a maneira como ela se refere a John, ou a 'meu homem, o melhor do mundo'. Por vezes, ela fala como se ele estivesse ali, presente não só em espírito, mas também em corpo ('My Man' é o exemplo típico). Outras vezes, Yoko despede-se de John, aceitando sua transformação num 'grão de poeira que flutua sem parar entre um trilhão de estrelas' ('Spec Dust'). As feridas são profundas, ainda: 'existem muitas coisas na vida que eu posso suportar/ pobreza... praticamente tudo/ mas solidão é algo que eu não posso suportar', diz ela em 'Loneliness'.
Yoko, Lennon e Julian, em 1969
Mas a intenção básica de It's Alright é a volta por cima, o renascimento, a recuperação dos sentidos. Por isso, o disco abole a melancolia dos álbuns anteriores e mergulha num prenúncio de paz interior sem precedentes. Assim, Yoko se dá a invenções prazerosas. Dessa maneira, 'Wake Up' é a coisa mais próxima de um reggae japonês que se possa esperar e 'Tomorrow May Never Come', embora fatalista ('o ontem nos assombrar para sempre/ o hoje pode decorrer no medo/ o amanhã pode nunca vir'), é quase uma homenagem aos grupos vocais femininos dos anos 50, tipo Ronettes.
Ver uma mulher como Yoko Ono, que passou o que ela passou, levantar-se com tanta disposição, acreditando, mais do que nunca, 'no poder de sonharmos juntos', já bastante estimulante. E as músicas de It's Alright dão a pista para um dos talentos a serem observados nesses anos por vir. Afinal, em seus bem vividos 50 anos, Yoko é uma artista jovem e seu casamento com o rock'n roll para as massas acabou de começar. Ela não é mais - se algum dia foi - a 'viúva alegre' de John Lennon. Como ele, ela é agora uma mulher do mundo. Benvinda."

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